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Análise do consumo de produtos esportivos pelos 

torcedores dos Quatro Grandes times cariocas

Analysis of Purchases of Sports Merchandise by Fans 

of the Top Four Cariocas Soccer Teams 

Análisis del consumo de productos deportivos por 

los hinchas de los cuatro principales equipos cariocas

 

Daniel Kamlot*

danielkamlot@yahoo.com.br

Marcela Cohen Martelotte**

marcela.cohen@gmail.com

Luana Boechat Martins***

luanaboechat@gmail.com

 

*Doutor em Administração de Empresas pela FGV/EBAPE

Mestre em Administração de Empresas pela PUC-Rio

Professor titular da Escola Superior de Propaganda e Marketing

do Rio de Janeiro (ESPM/RJ). Professor da FGV/EBAPE

e da PUC-Rio, no departamento de Administração

**Doutora em engenharia elétrica pela PUC-Rio

Mestre em Administração de Empresas pela FGV/EBAPE

Professora adjunta do Departamento de Engenharia de Produção

da Universidade Federal Fluminense (UFF)

***Administradora de Empresas pela PUC-Rio

Atua como analista de programação na Rede Globo

(Brasil)

 

Recepção: 11/10/2019 - Aceitação: 15/12/2019

1ª Revisão: 03/12/2019 - 2ª Revisão: 14/12/2019

 

Este trabalho está sob uma licença Creative Commons

Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional (CC BY-NC-ND 4.0)

https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/deed.pt

Resumo

    Este trabalho tem como objetivo identificar os produtos mais consumidos por torcedores dos “quatro grandes times” do Rio de Janeiro para, usando procedimentos estatísticos como ANOVA, Kruskal-Wallis e Teste-t de comparação de médias, avaliar se tais torcedores associam preços maiores a produtos que expõem os símbolos dos clubes para os quais torcem. A amostra utilizada continha 183 torcedores, e a percepção de valor foi similar para praticamente todos os produtos, independente dos times de preferência. A exceção são casacos dos times, para os quais torcedores de Fluminense e Flamengo se mostraram dispostos a gastar mais do que os demais. Não se pode afirmar que o torcedor de algum grande time carioca costume comprar mais produtos de seu time do que algum rival. Identificou-se que os produtos mais consumidos pelos torcedores são a camisa retrô (antiga), a faixa de campeão e a camisa oficial, suscitando implicações gerenciais para as empresas atuantes no mercado estudado.

    Unitermos: Futebol. Torcedores. Consumo. Produtos esportivos.

 

Abstract

    The objective of this research is to identify the most consumed products by fans of the top four soccer teams in Rio de Janeiro and, using statistical methods such as ANOVA, Kruskal-Wallis and t-Test for a difference in mean, evaluate whether such fans associate higher prices with products that expose the symbols of the clubs they cheer for. With a sample of 183 soccer fans, it was noticed that the perception of value is similar for almost all products, regardless of the preferred teams. The exception are coats, for which the fans of Fluminense and Flamengo were willing to spend more than the others. It is not possible to assert that any fan of some carioca team usually buys products from his/her team in greater proportion than the rivals. The most purchased products are the antique shirt, the champion ribbon and the official shirt, raising managerial implications for companies in the analyzed market.

    Keywords: Soccer. Fans. Purchase. Sporting goods.

 

Resumen

    El objetivo de este artículo es identificar los productos más consumidos por los hinchas de los "cuatro grandes equipos" de Río de Janeiro para, utilizando procedimientos estadísticos como ANOVA, Kruskal-Wallis y la prueba t, analizar si los hinchas asocian precios más altos con productos que muestran los símbolos de los clubes que apoyan. La muestra consistió en 183 personas, y la percepción de valor fue similar para prácticamente todos los productos, independientemente de los equipos preferidos. La excepción son las camisetas del equipo, por las cuales los hinchas de Fluminense y Flamengo estaban dispuestos a gastar más que los demás. No se puede decir que los hinchas de algún gran equipo de Río generalmente compran más productos de su equipo que cualquier otro rival. Se descubrió que los productos más consumidos por ellos son la camiseta “retro” (antigua), la banda de campeones y la camiseta oficial, lo que causa implicaciones gerenciales para las empresas que operan en el mercado estudiado.

    Palabras clave: Fútbol. Hinchas. Consumo. Productos deportivos.

 

Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 24, Núm. 259, Dic. (2019)


Introdução

 

    Ao analisar as preferências por esportes no Brasil, não é difícil identificar a afeição ao futebol, ainda que o esporte em geral seja uma “condição de direito social” para a Constituição Federal. Segundo o Ibope (2009), o futebol se destaca em popularidade, tanto entre os praticantes quanto entre os que assistem ou acompanham alguma modalidade esportiva. No Brasil, 45% da população assistem a eventos relacionados ao futebol. Além disso, 69% dos brasileiros que assistem a algum esporte na televisão indicam que focam em automobilismo ou futebol.

 

    Madrigal (2000) expõe que os fãs mais envolvidos com algum clube têm maior intenção de compra de produtos dos patrocinadores e que, havendo identificação com a equipe, surge um elemento que favorece a intenção de compra. Os fãs constituem elementos cruciais para assegurar receita aos clubes – quanto mais leais eles forem, mais se envolverão no consumo de algo relacionado à equipe em questão. (Silva & Las Casas, 2017)

 

    Uma fonte de renda interessante derivada do futebol seria a comercialização de produtos com o escudo ou as cores do clube, o que já é feito, porém de forma ainda pouco planejada. A principal fonte de receita dos clubes é composta pelas cotas de transmissão televisiva (Barbosa, 2019), muito superiores aos licenciamentos e outros itens.

 

    No estado do Rio de Janeiro, a maioria dos torcedores se divide em quatro clubes de preferência, os chamados “Quatro Grandes” – Flamengo, Vasco da Gama, Fluminense e Botafogo, como exposto no Gráfico 1.

 

Gráfico 1. As maiores torcidas do Estado do Rio de Janeiro

Fonte: Lance!/Ibope apud RSSSF (2018)

 

    O fato de esses clubes serem os mais conhecidos valoriza suas respectivas marcas e atrai mais torcedores aos jogos em que eles se apresentam. Assim, é viável supor que produtos dos clubes que mais conquistaram títulos e que contam com as maiores torcidas tenham mais demanda do que aqueles relacionados aos clubes menos populares. Ainda assim, os clubes frequentemente se vêem às voltas com problemas de ordem financeira, e talvez conhecendo os produtos mais desejados pelos consumidores, relacionados aos times de futebol, seja possível alcançar um acréscimo na renda obtida pelos clubes.

 

    A contribuição teórica deste trabalho se dá pelo fato de haver diversos trabalhos sobre torcedores de futebol, referentes principalmente à presença destes em estádios, à paixão pelos clubes (Paixão & Kowalski, 2011) e a ações empresariais no ambiente do futebol (Rodrigues & Silva, 2006). Entretanto, não se encontram pesquisas focadas em investigar produtos adquiridos a partir da eventual paixão de torcedores pelas equipes, em particular as que são foco da pesquisa realizada.

 

    O presente artigo tem como objetivo identificar se os torcedores cariocas associam preços mais elevados a produtos que expõem os escudos, ou símbolos, dos clubes para os quais torcem quando comparados aos produtos que expõem símbolos de outras equipes. Em outras palavras, seria o caso de identificar se a percepção recai sobre a funcionalidade do produto – uma decisão racional – ou sobre os aspectos passionais a ele relacionados – uma decisão emocional. Além disso, também se apresenta o objetivo de analisar se os produtos associados a times de futebol (cariocas, no caso) são adquiridos na mesma proporção pelos torcedores de cada time.

 

Identidade social e a influência da paixão pelo clube

 

    Torcedores são muitas vezes motivados a consumir um determinado produto ou serviço justamente pelo fato deste estar relacionado, direta ou indiretamente, ao clube preferido daquele consumidor. Considerando que uma motivação é um estímulo que conduz o consumidor a um “estado alterado” (Mowen & Minor, 2003) e que este acarretará um comportamento focado em um objetivo, tal conceito pode ser aplicado ao mercado de produtos relacionados ao esporte.

 

    Pimentel e Reynolds (2004) propõem o conceito de devoção dos consumidores, o qual supõe um fervor religioso em relação à marca, explicando também, por isso, o consumo de produtos relacionados com o clube. É um conceito relevante quando se considera que o símbolo do time colocado em um produto agrega àquele produto uma identidade relacionada ao clube em si, e isto tende a ser percebido e valorizado pelos torcedores, visto que torcedores engajados despendem recursos financeiros e energia emocional na interação com seu clube de coração, tendendo a obter produtos relacionados com o clube frequentemente. (Silva & Las Casas, 2017)

 

    Assim, surge a primeira hipótese a ser avaliada:

 

    H1: Torcedores associam preços diferenciados a produtos com o escudo do time para o qual torcem quando comparados com os mesmos produtos com o escudo de outros times.

 

    Uma vez que a hipótese H1 se refere a cada um dos grandes times cariocas em particular, ela será desmembrada, a fim de facilitar o teste da hipótese e sua análise:

 

    H1a: Torcedores vascaínos associam preços diferenciados a produtos com o escudo do Vasco quando comparados com os mesmos produtos com o escudo de outros times.

 

    H1b: Torcedores flamenguistas associam preços diferenciados a produtos com o escudo do Flamengo quando comparados com os mesmos produtos com o escudo de outros times.

 

    H1c: Torcedores tricolores associam preços diferenciados a produtos com o escudo do Fluminense quando comparados com os mesmos produtos com o escudo de outros times.

 

    H1d: Torcedores botafoguenses associam preços diferenciados a produtos com o escudo do Botafogo quando comparados com os mesmos produtos com o escudo de outros times.

 

    Além desta primeira hipótese a testar, outras duas hipóteses, relacionadas entre si e à percepção de preços dos torcedores para com os produtos esportivos de seus times e dos adversários, serão também testadas. No caso, são as seguintes:

 

    H2: O torcedor de cada um dos grandes times cariocas precifica o produto com escudo de seu time com valor diferenciado daquele dado ao mesmo produto por torcedores dos outros times.

 

    H3: O torcedor de cada um dos grandes times cariocas precifica o produto com escudo do time adversário com valor diferenciado do valor dado ao mesmo produto por outros torcedores adversários.

 

    Hogg et al. (2004), ao analisarem os grupos sociais e seus membros, citam a perspectiva da identidade social. Esta, na psicologia social, é comumente entendida como uma análise das relações intergrupais entre categorias sociais, apoiadas na definição – cognitiva e autoconceitual - do grupo social e membros do grupo. Uma torcida de futebol, composta por pessoas que compartilham a paixão por certa agremiação, poderia ser considerada um grupo social, enquanto os membros deste grupo seriam os torcedores. Os intensos sentimentos e o envolvimento apresentado pelos torcedores passam por um processo de construção da identidade social. (Oliven & Damo, 2004)

 

    Assim, a identidade social decorre do fato de um indivíduo pertencer a um determinado grupo, que terá influência na conduta desse indivíduo em uma magnitude tanto maior quanto maior for a intensidade com que a pessoa atue como componente do grupo. No caso dos esportes, em particular do futebol, o time traduz uma identidade compartilhada pelos torcedores, da qual consequências derivam.

 

    Os torcedores se portam muitas vezes como fãs ardorosos de seus clubes, corroborando Oliven e Damo (2004:90), que citam que “a paixão ‘clubística’ transcende o próprio futebol”, mencionando ainda que muitos torcedores dão maior importância ao desempenho de seus clubes do que ao da seleção nacional. Em consequência dessa paixão, moldam sua identidade baseando-se no clube ou mesmo nos ídolos que escolheram como influência para suas vidas.O consumo de produtos relacionados aos clubes de futebol é bastante comum entre torcedores, fanáticos ou não, e demonstra uma expressão da identidade social do torcedor.

 

    O consumo coopera na criação da identidade do indivíduo (Mittal, 2006). Para o autor, isso se dá devido ao fato de consumir estar relacionado aos componentes do “eu” (self) dos indivíduos, que são: os corpos, os valores e o caráter da pessoa, o sucesso e a destreza, os papéis sociais, os predicados pessoais e as posses. Damo (1998) vai além e indica que, dados o comprometimento e a lealdade dos torcedores de um mesmo time de futebol, estes podem ser vistos como uma “comunidade de sentimento”.

 

    Daí deriva a última hipótese a ser analisada:

 

    H4: Os produtos associados a algum time específico são comprados em proporções diferenciadas pelos torcedores de cada time.

 

Metodologia

 

    A presente pesquisa é exploratória e descritiva, por analisar e relacionar fatos (Cervo & Bervian, 2002), descrevendo a reação de um público pesquisado. A fim de testar as hipóteses apresentadas, foram coletados dados em campo, sendo a coleta dividida em duas etapas. Na primeira, a intenção era identificar os produtos esportivos mais consumidos pelos torcedores cariocas. Por “produtos esportivos” devem ser entendidos todos aqueles produtos que expõem o símbolo ou escudo de um clube de futebol em alguma parte de sua estrutura. Para esta etapa, um questionário contendo 30 opções de diferentes produtos esportivos foi apresentado a 100 torcedores, escolhidos aleatoriamente nas ruas da cidade do Rio de Janeiro durante o primeiro semestre de 2018, sendo 50% homens e 50% mulheres, com idade média da amostra de 27,4 anos (29,2 de idade média masculina e 25,6 anos de idade média feminina), a quem foi solicitado que indicassem os produtos esportivos que costumavam consumir. Nesta etapa os produtos eram identificados apenas por uma palavra ou expressão, sem figuras.

 

    Assim, de acordo com os resultados obtidos nesta etapa, os produtos esportivos que os consumidores mais costumam adquirir são os exibidos no Quadro 1.

 

Quadro 1. Produtos esportivos mais consumidos (percentual de consumidores de cada produto)

Fonte: Pesquisa de campo

 

    É possível perceber que os produtos mais consumidos pelos torcedores são aqueles que têm alguma relação direta com o clube em si, como os casacos, as camisas oficiais usadas em jogos e a bandeira do clube, além das camisas retrô, que representam itens relacionados a conquistas do passado. As faixas de campeão figuram entre os produtos mais comprados por estar diretamente relacionadas ao fato de se vencer um campeonato, que é o objetivo de qualquer time e motivo de felicidade dos torcedores – é comum tais faixas serem vendidas nas portas de estádios onde os campeonatos são decididos, o que também atrai a atenção dos torcedores. Alguns bens de conveniência são, também, muito consumidos, como chaveiros, canecas e cervejas com o símbolo dos clubes, ou seja, aqueles produtos de preço reduzido que mostram alguma relação com o time, o que pode atrair o consumidor até mesmo pelo baixo custo de aquisição.

 

    Para a segunda etapa da pesquisa, foram selecionados os produtos mais consumidos, conforme as respostas obtidas na primeira etapa, a saber: camisa retrô, faixa de campeão, camisa oficial, casaco, chaveiro, caneca, bandeira e cerveja.Tais produtos foram escolhidos por haver uma diferença mais considerável de preferência entre os produtos classificados entre a primeira e a oitava posição (este, com 46% de consumidores) e a partir da nona posição (com 28%, indicando bastante menos consumo que o produto ocupando a posição anterior), como percebido no Quadro 1. Em seguida, foram estruturados quatro questionários de igual conteúdo, porém cada um relativo a um dos “Quatro Grandes” clubes de futebol do Rio de Janeiro. Nesse questionário eram mostrados os produtos e solicitado que o respondente indicasse o preço que achava que o produto custava no mercado, como mostrado no exemplo da Figura 2, em que se observa parte do questionário usado em campo com produtos relacionados ao clube Botafogo.

 

Figura 2. Exemplo de questões sobre preços de produtos (Parte do questionário com produtos do Botafogo)

Fonte: Elaborado pelos autores

 

    Apesar de cada questionário se referir a um time específico, não necessariamente torcedores receberam questionários referentes ao time de sua preferência – os questionários foram distribuídos em quatro diferentes universidades privadas cariocas, representando assim uma amostra por conveniência.

 

    Foram investigados 200 indivíduos na pesquisa de campo. Destes, 17 indicaram não torcer por nenhum time de futebol ou torcer por algum time diferente dos “Quatro Grandes” do Rio de Janeiro. Assim sendo, foram desconsiderados da análise, uma vez que para investigar as hipóteses deste estudo seria necessário que o respondente fosse torcedor de um dos quatro grandes times do Rio de Janeiro, o que ocasionou o total de 183 questionários válidos. O perfil da amostra está resumido no Quadro 2.

 

Quadro 2. Perfil dos respondentes da segunda etapa da pesquisa

Fonte: Pesquisa de campo

 

    Havia 44,4% dos respondentes do sexo feminino e 55,6% do masculino. A maioria da amostra era de solteiros (72,7%) e estudantes, sendo estes 36,6% do total. Do total da amostra, 17% torciam pelo Botafogo, 35% pelo Flamengo, 23% pelo Fluminense e 16% pelo Vasco (Gráfico 2). Esses números são curiosos, uma vez que as maiores torcidas do futebol carioca são as do Flamengo e do Vasco (Lance!/Ibope apud RSSSF, 2018), mas nesta coleta de dados a quantidade de torcedores que se intitulavam “tricolores” (isto é, torciam pelo Fluminense) se mostrou bem maior que o esperado, assim como ocorreu com a quantidade de botafoguenses, com menos flamenguistas do que os resultados da pesquisa Lance!/Ibope (apud RSSSF, 2018), conforme observado no Gráfico 2.

 

    Uma possível explicação desse fato pode se dar pelas classes econômicas pesquisadas, mais elevadas, em que predominam torcedores do Fluminense. Conforme a pesquisa Binder/Ibope (2009), 46% dos torcedores do Fluminense e 32% dos botafoguenses “pertencem às classes A e B”, o que pode ter impactado nos resultados obtidos com a amostra utilizada, não-probabilística por conveniência, composta em grande parte por torcedores de poder aquisitivo mais elevado.

 

Gráfico 2. Maiores torcidas do Rio de Janeiro, pela amostra (colunas cinza) e pela última pesquisa divulgada no Estado (colunas pretas).

Fonte: Lance!/Ibope apud RSSSF (2018); pesquisa de campo

 

    Além de perguntas referentes ao perfil do respondente, diversas questões sobre o apreço dele aos times de futebol do Rio de Janeiro eram feitas, assim como afirmações a respeito da conduta do torcedor e do relacionamento dele com seu time. Tais perguntas foram respondidas em uma escala Likert. Os resultados estão expostos no Quadro 3.

 

Quadro 3. Comportamentos e atitudes dos torcedores cariocas

Fonte: Pesquisa de campo

 

    De posse dos resultados da segunda etapa da pesquisa, foi feito um tratamento quantitativo. Para testar as hipóteses presentes neste estudo, usou-se a técnica estatística de Análise da Variância (ANOVA de 1 fator) e teste de Kruskal-Wallis, além do Teste-t, para comparação de médias. Vale ressaltar que como a amostra da segunda etapa da pesquisa, constituída por 183 respondentes, foi escolhida por conveniência, pode não retratar fielmente a realidade dos torcedores cariocas de futebol nem deve ser entendida como definitiva. Os resultados obtidos estão apresentados a seguir.

 

Resultados

 

    Iniciamos a análise com foco na hipótese H1 (“Torcedores associam preços diferenciados a produtos com o escudo do time para o qual torcem quando comparados com os mesmos produtos com o escudo de outros times”) e suas subdivisões. A fim de analisar se há diferença nos preços atribuídos para cada produto do time pelo qual o respondente torce em relação aos produtos de demais times, foi utilizado o teste t de comparação de médias para cada produto de cada time analisado, sendo apenas considerados os torcedores de um determinado time precificando o produto de seu time e o produto de outros times.

 

    A análise em foco foi dividida por cada time, para facilitar a compreensão, como pode ser visto a seguir.

 

Torcedores do Vasco

 

    Para estes torcedores, apenas a camisa retrô (valor-p = 0,029) e a bandeira (valor-p = 0,056) apresentaram diferença significativa para a média dos preços, ao nível de significância de 5% e 10%, respectivamente. Em ambos os casos, os torcedores vascaínos atribuíram preço mais alto para os produtos com o escudo do Vasco do que para os produtos dos demais times.  

 

Torcedores do Flamengo

 

    Apenas a camisa retrô (valor-p = 0,022), o casaco (valor-p = 0,008) e a bandeira (valor-p = 0,002) apresentaram diferença significativa para a média dos preços, a um nível de significância abaixo de 5%. Nesses casos, os flamenguistas atribuíram preço mais alto para os produtos com o escudo do Flamengo do que para os produtos dos demais times.

 

Torcedores do Fluminense

 

    Apenas a faixa de campeão (valor-p = 0,035) e a cerveja (valor-p = 0,072) apresentaram diferença significativa para a média dos preços, ao nível de significância de 5% e 10%, respectivamente. Em ambos os casos, os torcedores tricolores atribuíram preço mais alto para os produtos com o escudo do Fluminense do que para os produtos dos demais times.

 

Torcedores do Botafogo

 

    Não houve diferença na média de preço para nenhum dos produtos analisados. Ou seja, os botafoguenses não atribuíram preços diferentes para os produtos contendo o escudo do Botafogo em comparação com os mesmos produtos contendo o escudo dos demais times.

 

    Para testar a Hipótese H2 (“O torcedor de cada um dos grandes times cariocas precifica o produto com escudo de seu time com valor diferenciado do valor dado ao mesmo produto por torcedores dos outros times”), foi realizada uma ANOVA de um fator para cada produto precificado, na qual a variável dependente era o preço atribuído ao produto e o fator era o time do entrevistado. Nessa análise, apenas os respondentes que avaliaram os produtos do seu próprio time foram considerados. Ou seja, se o respondente porventura recebeu o questionário que pedisse para precificar produtos de algum time do qual não era torcedor, tal questionário não foi considerado. Assim, dos 183 respondentes, 74 (40,4% do total) foram considerados para análise.

 

    Os resultados da ANOVA indicaram que, de todos os produtos avaliados, apenas o casaco (valor-p = 0,000) apresentou diferença significativa de média de preço atribuído, ao nível de significância de 1%, entre os torcedores dos clubes. Em outras palavras, só há diferença entre os preços que os torcedores consideram adequados a cada produto esportivo no caso do casaco. Nenhum dos demais produtos apresentou diferenças na média dos preços que os torcedores pesquisados pagariam, indicando assim que, para os produtos analisados (camisa retrô, faixa de campeão, camisa oficial, chaveiro, caneca, bandeira e cerveja), todos os preços considerados apropriados pelos torcedores se assemelham entre si, à exceção do casaco. Por meio do teste de Duncan, observa-se que os torcedores de Botafogo e Vasco precificaram o casaco de seus respectivos clubes significativamente abaixo dos preços atribuídos pelos torcedores do Fluminense e Flamengo (Tabela 1).

 

Tabela 1. Times e Preços Atribuídos ao Produto “Casaco” por Torcedores de Cada Time

Time

Preço atribuído ao produto “casaco”

Botafogo

R$ 167,00

Vasco

R$ 185,00

Fluminense

R$ 210,00

Flamengo

R$ 229,00

Fonte: Pesquisa de campo

 

    Ao realizar a mesma análise, porém com cada torcedor avaliando os preços dos produtos que não continham o escudo do time para o qual eles torcem, foram no caso considerados os questionários respondidos por 69 indivíduos da amostra, ou 37,7% do total, e assim testada a Hipótese H3 (“O torcedor de cada um dos grandes times cariocas precifica o produto com escudo do time adversário com valor diferenciado do valor dado ao mesmo produto por outros torcedores adversários”). Observa-se que apenas a faixa de campeão (valor-p = 0,000) apresenta diferença significativa no que se refere ao preço médio de cada time. No caso, segundo o teste de Duncan, a faixa do Fluminense (R$31,00) apresentou preço médio significativamente maior do que o preço das faixas dos demais times (Vasco = R$14,00; Flamengo = R$18,00; Botafogo = R$18,50), como exposto na Tabela 2. Ou seja, os torcedores cariocas, ao avaliarem produtos de times adversários, mostram diferença no valor atribuído à faixa de campeão, em particular referente ao Fluminense. A faixa de campeão, por se referir a um clube em um contexto específico, que é justamente a conquista de um título, agrega valor ao time e acarreta um ágio naquele produto. Isto sem contar o fato de que, como muitas das faixas de campeão são vendidas nos estádios, ou seja, nos locais da conquista do título, os torcedores podem se sentir mais motivados a pagar um preço mais elevado devido ao calor da conquista sentido logo após o jogo final, impulsionados pela paixão que possuem por seus times de coração. No caso específico citado, o maior preço atribuído pode ser consequência de a torcida do Fluminense ser mais abastada que as demais (Binder/Ibope, 2009), o que não era intenção desta pesquisa testar, mas segue como uma hipótese a ser investigada em pesquisas futuras.

 

Tabela 2. Times e Preços Atribuídos ao Produto “Faixa de campeão”

Time

Preço atribuído ao produto “faixa de campeão”

Botafogo

R$ 18,50

Vasco

R$ 14,00

Fluminense

R$ 31,00

Flamengo

R$ 18,00

Fonte: Pesquisa de campo

 

    Para avaliar a Hipótese H4 (“Os produtos associados a algum time específico são comprados em proporções diferenciadas pelos torcedores de cada time”), em que o fator analisado é o time do respondente e a variável dependente é o grau de concordância do respondente em relação à afirmação “Costumo comprar produtos relacionados ao meu time”, foi realizado o teste não paramétrico de Kruskal-Wallis, uma vez que a variável dependente, por se tratar de escala Likert, é qualitativa ordinal. O resultado do teste (valor-p = 0,334) mostrou que a hipótese nula da mediana do grau de concordância dos torcedores dos quatro times, em relação à intenção de compra de produtos do time, ser igual para os quatro times, não é rejeitada. Dessa forma, para essa amostra, não podemos considerar que o torcedor de um time específico tem o hábito de comprar mais do que o torcedor de outro time. No caso, percebe-se que botafoguenses, flamenguistas, tricolores e vascaínos não demonstram adquirir mais produtos de seus times em proporção superior aos torcedores adversários. Isso deve ser considerado pelos produtores e varejistas no momento de ofertar ao mercado os produtos esportivos analisados.

 

Conclusões

 

    Analisando os resultados obtidos na pesquisa realizada, é possível observar certos pontos que traduzem características do mercado em questão, envolvendo os produtos esportivos.

 

    Apenas os torcedores do Botafogo acham que os produtos com o escudo de seu time têm o mesmo valor que os mesmos produtos com o escudo dos outros três grandes clubes do Rio de Janeiro. Isso pode indicar uma preocupação maior dos botafoguenses com a funcionalidade do produto, e não tanto com a emoção ocasionada pela exibição do símbolo do clube.

 

    Dentre os produtos esportivos mais comprados pelos torcedores, apenas o casaco dos times mostra diferença de percepção quanto ao seu valor. Em relação aos demais produtos esportivos, se todos os torcedores os avaliam com aproximadamente o mesmo preço, os varejistas e lojistas não precisam se preocupar tanto em precificar de forma diferenciada o produto de acordo com o time em questão – o importante é que, no mercado carioca, oferecendo produtos relativos aos “Quatro Grandes”, o preço praticado seja adequado e similar, uma vez que cada torcedor, ao comprar os produtos mais vendidos relativos a seus clubes, terão a intenção de pagar um preço análogo, e não uma diferença apreciável pelo simples fato de o produto expor um escudo ou outro. Cada torcedor, seja ele do Botafogo, Flamengo, Fluminense ou Vasco, terá em mente uma noção semelhante do valor do produto oferecido – à exceção dos casacos, em que os torcedores de Fluminense e Flamengo se mostram dispostos a gastar mais do que os de Botafogo e Vasco. Isso aparenta corroborar o que foi obtido por Pimentel e Reynolds (2004) ao mencionar a devoção dos consumidores, citando que o consumo de produtos relacionados com algum clube pode se dar devido ao zelo demonstrado em relação ao clube em si.

 

    Nota-se que os torcedores cariocas, ao avaliarem produtos de times adversários, apresentam grande diferença no valor atribuído a um produto específico, a faixa de campeão, em particular no caso referente ao Fluminense, possivelmente por contar com uma torcida mais abastada. Contudo, para que tal resultado seja utilizado no mercado, favorecendo a elevação de preço de tal produto, seria necessário realizar uma avaliação das razões da compra desse produto, o que não era o objetivo deste trabalho.

 

    Os resultados da pesquisa ainda mostraram que não se pode afirmar que o torcedor de um determinado time, dentre os “Quatro Grandes” do Rio de Janeiro, tenha o hábito de comprar mais que o torcedor de outro time. No caso, percebe-se que botafoguenses, flamenguistas, tricolores ou vascaínos não demonstram adquirir produtos de seus times em proporção superior aos torcedores adversários. Como abordado por Damo (1998), dados o comprometimento e a lealdade dos torcedores dos times analisados, é possível que esses componham a chamada “comunidade de sentimento”, e isto deve ser considerado no momento de ofertar ao mercado os produtos esportivos analisados. Se nenhum torcedor compra mais que os outros, não há por que oferecer produtos com maior enfoque para alguma torcida, mas sim manter a oferta com base na proporção de torcedores existente no Rio de Janeiro (pois há mais torcedores flamenguistas que os demais, em números absolutos). Entretanto não se percebe, nessa amostra, um grupo de torcedores mais disposto a comprar que outro, e os vendedores e varejistas devem estar a par dessa informação ao ofertar ao mercado seus produtos, em particular os analisados neste estudo.

 

Referências

 

Barbosa, V. (2019). Os times de futebol que mais faturaram em 2018; Palmeiras lidera. https://exame.abril.com.br/marketing/os-times-de-futebol-que-mais-faturaram-em-2018-palmeiras-lidera/

 

Binder/Ibope (2009). A Pátria das Chuteiras: um Estudo Sobre os Times Cariocas. http://arquivosclipping.espm.br/clipping/20090619/o_amor_incondicional_sob_frieza_dos-13.pdf

 

Cervo, A. L., & Bervian, P. A. (2002). Metodologia Científica (5ª ed.) São Paulo: Pearson.

 

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