Volver a los detalles del artículo El ciclismo bajo la perspectiva de la Motricidad Humana


O ciclismo sob a perspectiva da Motricidade Humana

Bicycling from the perspective of Motricity Human

El ciclismo bajo la perspectiva de la Motricidad Humana

 

Leandro Dri Manfiolete Troncoso*

leandro_dri@hotmail.com

Rodolfo Franco Puttini**

rfputini@gmail.com

Sandra Soledad Troncoso Robles Dri Manfiolete***

sandratroncoso@gmail.com

 

*Mestre Ciências da Motricidade

Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP)

**Doutor em Saúde Coletiva. Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP)

Prof. Adjunto Departamento de Saúde Pública. Faculdade de Medicina de Botucatu (FMB)

Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP) (Brasil)

***Pedagogía en Educación Física, Recreación y Deporte

Universidad Austral de Chile (UACh)

 

Recepção: 08/03/2018 - Aceitação: 22/07/2018

1ª Revisão: 11/07/2018 - 2ª Revisão: 18/07/2018

 

Resumo

    Inspirados na relação entre educação física, universidade e sociedade, o objetivo deste ensaio é refletir sobre as condições epistemológicas do ciclismo no âmbito da Educação Física. Utilizamos o modelo filosófico M-CV (interação ciência e valores) para evidenciar dois sentidos do ciclismo no contexto da motricidade humana. Verificamos que não necessariamente ocorre um dilema entre o ciclismo de performance e o ciclismo urbano e sugerimos que ambos participem potencial e legitimamente do campo científico da Educação Física.

    Unitermos: Ciclismo. Valores sociais. Motricidade Humana. Educação Física.

 

Abstract

    Inspired by the relationship between physical education, university and society, the objective of this essay is to reflect on the epistemological conditions of cycling in the field of Physical Education. We used the M-CV philosophical model (interaction science and values) to evidence two meanings of cycling in the context of human motricity. We verified that there is not necessarily a dilemma between performance cycling and urban cycling and we suggest that both participate potentially and legitimately in the scientific field of Physical Education.

    Keywords: Bicycling. Social values. Human Motricity. Physical Education.

 

Resumen

    Inspirados en la relación entre educación física, universidad y sociedad, el objetivo de este ensayo es reflexionar sobre las condiciones epistemológicas del ciclismo en el ámbito de la Educación Física. Utilizamos el modelo filosófico M-CV (interacción ciencia y valores) para evidenciar dos sentidos del ciclismo en el contexto de la motricidad humana. Verificamos que no necesariamente ocurre un dilema entre el ciclismo de rendimiento y el ciclismo urbano y sugerimos que ambos participen potencial y legítimamente del campo científico de la Educación Física.

    Palabras clave: Ciclismo. Valores sociales. Motricidad. Educación Física.

 

Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 23, Núm. 242, Jul. (2018)


 

Introdução

 

    A formulação deste ensaio foi inspirada nas discussões sobre o ciclismo em relação à educação física, universidade e sociedade. Realizamos leituras e constatamos que, na área de conhecimento da Educação Física, os artigos sobre o tema geralmente vêm subsumidos à perspectiva biomédica, com pouca valorização dos aspectos socioculturais do ciclista. A partir de conteúdos das Humanidades apresentamos o seguinte questionamento: o ciclismo é uma temática que poderia oferecer formação profissional ao educador físico?

 

    O objetivo deste ensaio é refletir sob as condições epistemológicas do ciclismo no âmbito da Educação Física. Partiremos de uma breve exposição da formação do educador físico na universidade brasileira e posteriormente, adotaremos o modelo M-CV (Interação Ciência e Valores) como um recurso epistemológico para pensar estrategicamente o ciclismo no contexto da Motricidade Humana.

 

O educador físico e o conflito profissional

 

    Segundo Souza Neto (1999), o profissional de educação física no Brasil auferiu legitimidade em três momentos históricos: 1) quando do estabelecimento do currículo mínimo, profissão antes considerada formação técnica de nível médio; 2) as discussões epistemológicas da área geraram um campo de conhecimento científico e 3) a divisão oficial entre bacharelado (profissional) e licenciatura (professor) a partir das Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos de graduação.

 

    A origem do conflito do profissional de educação física surge com o Parecer nº 894 do Conselho Federal de Educação (Brasil, 1969), que estabeleceu um currículo mínimo em um conjunto de disciplinas das três áreas de conhecimento: biológico, didático e gímnico-desportivo. O primeiro momento privilegiaram-se apenas os aspectos técnicos e didático-pedagógicos, deixando de incluir aportes epistemológicos na formação curricular, restringindo assim a atuação dos licenciados às escolas de ensino básico. O contato com a literatura estrangeira serviu como estímulo para repensar a Educação Física que redundou em discussões epistemológicas fomentando o Parecer 215/87 (Brasil, 1987) que estabeleceu o currículo de 2880 horas realizado em curso de graduação conferindo o titulo de Bacharel e/ou Licenciado possibilitando ao acadêmico atuar tanto no campo da Educação Física escolar como a não-escolar. O currículo foi estruturado em quatro eixos epistemológicos de conhecimento: perspectiva esportiva, disciplina acadêmica, motricidade humana e pedagógica (Souza Neto, 1999, p. 69-84). Uma cisão nos cursos de graduação (Bacharelado e/ou Licenciatura Plena) instituiu as Diretrizes Curriculares Nacionais, atualmente vigente pela Resolução CNE/CES 07/2004 (Brasil, 2004).

 

    Como ressalta Verenguer (2004) o tópico profissionalização adquire relevância na área quando o conflito do mercado de trabalho entra em antagonismo relativo à atuação entre licenciados e leigos. Para entender este contexto, a autora mediante a teoria de Freidson (1998) os termos comuns a qualquer profissão: a expertise (realização de tarefas a partir dos conhecimentos e habilidades de pessoas especialistas), o credencialismo (traduz a exclusividade através da titulação com a proteção da reserva de mercado) e autonomia (construída na realização diária das atividades), distinguindo o profissional do leigo em Educação Física.

 

    Em referência de Pierre Bourdieu, Sautchuk (2002) revê essa discussão sobre a profissionalização em virtude do reconhecimento deste profissional em um jogo político entre agentes situados em um campo de lutas simbólicas, onde o discurso pró-regulamentação profissional está dado na figura do próprio “leigo” (técnico de futebol, professores de lutas marciais, mestre de capoeira, entre outros). Essa discussão sobre a profissionalização levou a identificar na criação do Conselho Federal de Educação Física (CONFEF) e dos Conselhos Regionais de Educação Física (CREFs) (Brasil, 1998), juntamente com os respectivos estatutos e o Código de Ética do Profissional de Educação Física, o ponto inicial de uma tensão acadêmica.

 

    Steinhilber (1996) mostra essa tensão sobre a questão da legitimidade do profissional de educação física por outra via, a da significação entre os que possuem e os que não possuem o diploma certificado, sugerindo a substituição do termo “professor de educação física” por “profissional de educação física” com a seguinte justificativa: a criação destes conselhos é uma forma de “defesa para a sociedade”, pois assegura ao praticante de atividade física o cuidado vinculado a um profissional especializado.

 

    O argumento de defesa para a sociedade legitima a criação de instrumentos jurídicos de proteção a uma categoria profissional atrelada ao discurso sobre o “risco à população”. Bagrichevsky (2007) nos pergunta mais atualmente: a formação profissional em educação física enseja perspectivas (críticas) para atuação na saúde coletiva? No contexto da saúde coletiva a questão do risco é central para o educador físico (ou qualquer outro profissional da saúde) atuante em segmentos populacionais para a promoção da atividade física. Castiel et al. (2010) ao indagarem acerca do risco inserem esta discussão no campo simbólico (científico) fundamentados no discurso da prevenção das doenças e promoção da saúde desde as cartas internacionais de compromissos governamentais (Brasil, 2001).

 

    Nesse contexto do profissionalismo, perguntamos novamente: o ciclismo é uma temática que poderia oferecer formação profissional ao educador físico? Vemos limitações do tema profissionalização em situar o ciclismo no campo científico da educação física, dado que situações em que o uso da bicicleta na sociedade não implica em profissionalismos: a bicicleta é usada como objeto de trabalho para uso cotidiano de deslocamento, como instrumento de experimentação científica, como instrumento de lazer (cicloturismo), para usos performáticos (treinamento desportivo) e para o mercado de saúde (academias de ginástica).

 

    Portanto, ao confinar os conflitos epistemológicos do campo somente no contexto de aplicação dos conhecimentos da atuação profissional, deixa-se para segundo plano a examinação sobre a questão do controle como “valor maximizado pelas práticas tecnocientíficas em torno do qual se organiza a hierarquia dos valores envolvidos na atividade científica” (Mariconda, 2006, p. 468). Propomos direcionar a discussão para o embate da interação dos valores no campo científico da educação física.

 

O modelo M-CV de Hugh Lacey e Pablo Rubén Mariconda

 

    O modelo (M-CV) das interações entre atividades científicas e valores proposto por Lacey e Mariconda (2014), tem inspirado e orientado nossos questionamentos sobre a prática científica em geral estruturada no ideal moderno de ciência. Em nosso caso, após breve exposição do modelo epistemológico, examinaremos as condições em que o ciclismo enquanto fenômeno social participa do contexto científico da educação física.

 

    Primeiramente, coloca-se o exame no campo científico o significado histórico da dicotomia entre fato e valor. Mariconda (2006) identifica a ideia de controle da natureza em quatro tópicos: a) a autonomia da esfera dos fatos (que se refere ao domínio dos valores pelo método autônomo suficiente); b) as disciplinas naturais que se separam das disciplinas morais (enquanto as primeiras são voltadas para o estabelecimento dos fatos, às segundas se debruçam na interpretação e estabelecimento de valores humanos); c) o método da ciência vinculado ao paradigma naturalista (fenômenos naturais), dirigido para o controle das condições naturais (o conhecimento sobre a natureza é estabelecido por leis e normas científicas, isento de valores morais e pessoais passíveis ao controle humano); d) e o entendimento científico, que o autor acentua:

    Nunca é demais assinalar que esse tipo de estratégia reducionista trata de forma descontextualizada os fenômenos naturais, mostra-se especialmente adequada para as aplicações científicas, quando, no século XIX, o controle da natureza deixa de ser um desiderato para ocupar o lugar de valor central na atividade científica hierarquizando os valores (fins e objetivos) internos à ciência e determina a direção da ciência natural (Mariconda, 2006, p. 466).

    A premissa fundamental do modelo M-CV afirma que as várias funções desempenhadas pelos valores (pessoais, éticos, sociais, políticos, cognitivos, epistêmicos e religiosos) nas atividades científicas, são apoiadas na ideia central de controle da natureza em articulação com a dicotomia entre fato e valor, que se destaca o ideal da imparcialidade (método objetivo), de autonomia (separação das disciplinas naturais e morais) e de neutralidade (cognitiva e aplicada). Lacey (1998) propõe uma denominação equitativa e inclusiva diante da definição restrita de ‘investigação científica’ da ciência moderna: as “estratégias descontextualizadoras” em contraposição às “estratégias sensíveis a contexto” servem de parâmetro tanto para a discussão da neutralidade - que isentam das pesquisas as intervenções de quaisquer outros valores - como para a discussão sobre o pluralismo metodológico (ou pluralismo estratégico):

    Consequentemente, a pesquisa científica moderna adota, quase exclusivamente, as leis (tipicamente de forma matemática) que os governam, em dissociação de qualquer lugar que elas tenham no mundo da vida em relação à organização social, vidas e experiências humanas, de qualquer vínculo à agência humana, qualidades sensoriais, valores e de quaisquer possibilidades que eles possam ganhar por causa dos seus lugares em contextos sociais, humanos e ecológicos particulares (Lacey, 2014, p.7-9).

    A investigação científica definida pelos filósofos da ciência é orientada pela possibilidade do pluralismo metodológico, quando diferentes tipos de estratégias podem ser requisitadas para investigar diferentes tipos de fenômenos:

    A investigação científica é investigação empírica sistemática, responsiva ao ideal de imparcialidade e empreendida mediante o uso de quaisquer estratégias de pesquisa que sejam adequadas à obtenção de conhecimento e entendimento dos objetos/fenômenos investigados (Lacey, 2014, p. 6).

    De acordo com o M-CV, Lacey e Mariconda (2014, p. 645) entendem que variados tipos de valores que desempenham funções diferentes nas cinco etapas da atividade científica: 1) na escolha de determinado fenômeno (implicam-se juízos de valor éticos e sociais para adequar estratégias de pesquisa às investigações); 2) no desenvolvimento da pesquisa (a estratégia proposta deve necessariamente pertencer ao domínio da teoria em acordo com o princípio da imparcialidade); 3) os valores cognitivos são unicamente utilizados para a avaliação cognitiva de teorias e hipóteses; 4) na disseminação dos resultados (questões implicadas em valores éticos e sociais envolvem a publicação em revistas especializadas que constitui o sistema interno de comunicação da ciência, na formação de pesquisadores e divulgação do conhecimento para o público leigo); 5) na aplicação do conhecimento tecnológico. Em todas as etapas da atividade científica, estão envolvidos valores éticos, sociais e/ou religiosos, mas não no momento da avaliação cognitiva, pois uma aplicação sempre convém a interesses específicos.

 

    Em suma, na proposta do modelo M-CV, são recorrentes em todas as etapas da prática científica as inadequações ou distinções entre fato e valor, mas somente no momento da avaliação das teorias e hipóteses, se legitima a neutralidade dos valores cognitivos. De outro modo, valores éticos, pessoais, sociais, políticos, estéticos e religiosos interagem em todas as etapas da investigação científica, exceto no momento restritivo, em que o controle da natureza se transforma no principal valor social para a troca em todas as etapas da investigação e que denota a função das “estratégias sensíveis ao contexto” em vista de esclarecimentos dos objetivos distintos e subjacentes à prática científica.

 

O ciclismo no contexto científico da Educação Física

 

    Propomos aqui examinar em quais condições o ciclismo participa do contexto epistemológico da Educação Física utilizando o modelo M-CV. Entendemos que o conhecimento geral sobre o ciclismo também carrega a ideologia de controle da natureza biológica do corpo humano como principal valor (cognitivo) para obtenção de conhecimento da Educação Física/Motricidade Humana. Partindo do uso que fazemos dos conceitos “atividade física” e “prática corporal”, sugerimos em seguida, com o ciclismo, uma verificação da hegemonia biomédica no campo simbólico da Educação Física.

 

    Guedes e Guedes (1995) definem “atividade física” como qualquer movimento corporal produzido pelos músculos esqueléticos que resulta em gasto energético maior do que os níveis de repouso e que a quantidade de energia necessária (quilocalorias - kcal) para a realização de determinado movimento corporal, pode ser variável de acordo com a aptidão física. Também para Weineck (1999) há justificativas da atividade física pelas atividades aeróbias, que podem melhorar a condição física geral do indivíduo contribuindo para o sistema imunológico, diminuição do sobrepeso e manutenção do volume sanguíneo. Melgar (1986) relatou em seu estudo que a frequência cardíaca de repouso é, em média, de 72 pulsações/minuto para a população normal, enquanto que para quem anda de bicicleta (ou pedala), está em torno de 50 e 60 pulsações/minuto, o que mostra a maior aptidão do músculo cardíaco dessas pessoas ciclistas. Para Nahas (2006) o termo “aptidão física” se traduz na capacidade que o indivíduo possui para realizar atividade física e que é derivada da hereditariedade, estado de saúde, alimentação e prática regular de exercícios físicos.

 

    Por outro lado, Kunz & Trebels (2006) afirma outra direção para o conceito de atividade física. Para eles, as pesquisas na área da Educação Física, geralmente baseadas em um paradigma reducionista, limitam-se a verificar e analisar os mecanismos fisiológicos. Também Alves & Carvalho (2010) afirmam que o termo “atividade física” está atrelado à dimensão ideológica em vista dos seus propósitos no âmbito da saúde, baseado numa compreensão restrita dos mecanismos biológicos. Para Bracht (2007, p.47-68) entende que essas questões são epistemológicas, ligadas ao campo científico, afirma que a Educação Física, enquanto área de conhecimento, sempre promulgou o controle do corpo pelas nas ciências naturais, para idealização de um corpo saudável e produtivo, treinável, capaz de grande desempenho motor. Nas abordagens de Educação Física baseadas no conceito biológico de “atividade física” e no conceito psicológico da “abordagem desenvolvimentista”, o corpo e o movimentar-se humano apresentam-se desculturalizados. Pensando em uma estratégia de investigação científica alternativa, Manuel Sérgio (2000) identificou as possibilidades de atuação da Motricidade Humana enquanto área de conhecimento autônoma e propôs em sua teoria da ciência da motricidade, o conceito de “conduta motora” que, valoriza os aspectos afetivos, sociais e filosóficos juntamente aos anatomo-funcionais, destacou como esta se transforma em uma metodologia voltada a valores:

    Traduz o comportamento do movimento do homem no espaço e no tempo, intencional e portador de significados, e expressa vivência e convivência, que é realizando por meio de uma concreta dialética interpessoal, um dinamismo integrador. Ainda mais, a “educação motora” tende a educar para a liberdade e para a cidadania. (Sergio, 2000, p. 154)

    Nesse contexto, os valores que envolvem afeto e gestos corporais são fundamentais para a definição de “prática corporal”. Gallo-Cadavid (2010) coopera com a definição de “prática corporal” na alternativa teórica da Motricidade Humana:

    Mediante una práctica corporal se expresan modos de ser de la persona, y adquiere sentido según el contexto social y cultural en que se halle inmerso. De manera que una práctica corporal o una expresión del cuerpo se puede interpretar de manera múltiple, un gesto nos puede mostrar que se ejecuta no sólo como consecuencia de un movimiento muscular que tiene una intención direccional, la expresión de un gesto es algo mucho más sutil y heterogéneo, y puede acaecer en direcciones no previstas (Gallo Cadavid, 2010, p. 2-3).

    A luz do modelo M-CV, primeiramente destacamos que a teoria da Motricidade Humana de Manuel Sergio pode ser operada como “estratégia sensível ao contexto” ao procurar inserir o corpo humano no contexto da sociedade - “a motricidade humana diz que o mundo está dentro de nós antes de qualquer tematização porque o homem é portador de sentido, daí sua “Intencionalidade operante” (Sergio, 2000, p.92), diferentemente da estratégia descontextualizadora biológica que considera o âmbito laboratorial para análise biomédica do organismo humano. Esse argumento se aplica ao ciclismo e ao ciclista na medida em que propomos pensar o uso da bicicleta na cidade e, com isso, acrescentamos uma saída para o conflito profissional do educador físico, desnecessário o diploma para ser ciclista.

 

    Enfim, estamos sugerindo que a tensão epistemológica na área da Educação Física, que estamos analisando entre os conceitos “atividade física” ou “aptidão física” - decorrentes da estratégia descontextualizadora - em oposição aos conceitos “prática corporal” e “conduta motora”, estão compostos na estratégia sensível do corpo humano em movimento imersos ao jogo de forças do campo, no qual remetemos o significado de poder simbólico:

    É um poder de construção da realidade que tende a estabelecer uma ordem gnoseológica: o sentido imediato do mundo (em particular, do mundo social) (...) os símbolos são instrumentos por excelência da integração social enquanto instrumentos de conhecimento e de comunicação, eles tornam possível o consensus acerca do sentido do mundo social que contribui fundamentalmente para a reprodução da ordem social: a integração 'lógica' é a condição da integração moral (Bourdieu, 2000, p.10).

O ciclismo de performance e o ciclismo urbano

 

    Nessa referência dos sentidos do mundo social de Pierre Bourdieu, propomos duas interpretações do ciclismo no contexto dos sistemas simbólicos, inclusos no campo científico-acadêmico. Um levantamento em revistas científicas brasileiras indexadas da área da Educação Física mostra a prevalência de artigos que aqui propomos denominar ciclismo de performance. Levando em conta a totalidade do organismo humano em movimento atuante em bicicletas estacionárias, esses estudos se fundamentam na abordagem biomédica com linguagem específica ao uso de termos dedicados ao entendimento da biomecânica e fisiologia do exercício. Esses estudos precisam, com exatidão, valores no estado de performance do corpo, cujo modelo estatístico orienta modalidades esportivas tradicionais, acrobáticas, atividades de aventura e atividade física em academias.

 

    Selecionamos três estudos para análise. Lucas et al. (2000) compararam a intensidade de exercício no lactato mínimo com a intensidade correspondente ao limiar de lactato e limiar anaeróbio em bicicleta eletromagnética com testes de exercício contínuo de cargas crescentes com o objetivo de induzir o acúmulo de lactato. Denadai et al. (2005) analisaram o efeito da cadência de pedalada sobre a frequência cardíaca e a resposta de lactato sanguíneo durante o exercício incremental para determinação da intensidade correspondente à máxima fase estável de lactato sanguíneo. Caritá et al. (2015) analisaram o efeito do exercício prévio sobre a potência crítica e limiar anaeróbio determinados durante o exercício de ciclismo realizado em cicloergômetro.

 

    Entendemos que os dados subjetivos obtido dos praticantes ciclistas nas cidades, não equivalendo necessariamente aos dados obtidos da estratégia de pesquisa do “ciclismo de performance” elaborada para investigação em laboratórios (nos quais os sujeitos da pesquisa encontram-se corporalmente descontextualizados do espaço urbano), poderiam caracterizar mais fielmente o fato biológico em detrimento do sentidos sociais do ciclismo. Porém, qual o sentido do ciclismo praticado nas vias públicas das cidades? As pessoas que usam bicicletas fora dos espaços fechados e institucionalizados estariam, para a Educação Física, fora de seu lugar? Ou então, podemos interpretar como estratégia descontextualizada (do ambiente social) a atividade física com ciclismo realizada em academias de ginástica, que se aproxima das atividades de pesquisa dos ambientes neutros dos laboratórios e que se voltam para o controle de variáveis fisiológicas e biomecânicas do corpo?

 

    A interpretação de Velozo (2010) sobre o ciclismo, partindo da definição de “técnica corporal” de Marcel Mauss (2003), auxilia nesse debate. É insuficiente analisar uma disposição corporal de forma meramente funcional, pois não coloca à vista a relação simbólica do sujeito com o seu aparelho. No nosso caso, o artefato bicicleta, como uma extensão corporal do ciclista, provoca uma relação singular entre o agente e o ambiente, um sentido diverso da definição de “atividade física”. Assim, concordamos com Velozo (2010) quando afirma:

    A maioria das pesquisas sobre o ciclismo na literatura da Educação Física brasileira estão relacionadas à racionalização do corpo e do movimento do praticante, possuindo como interesse principal a otimização do desempenho dos ciclistas. São estudos fundamentados, sobretudo, nos princípios fisiológicos e biomecânicos que regem o corpo humano. Outras investigações procuram ver o ciclismo como forma de “atividade física” que podem produzir benefícios à saúde humana pelos níveis de esforço físico atingidos durante a prática, superando aqueles conseguidos em estado de repouso. Entretanto, estudos voltados para a compreensão dos sentidos e dos significados que os diversos tipos de ciclismo possuem na sociedade contemporânea ainda são muito incipientes no Brasil, do mesmo modo como são raros os estudos históricos sobre esta atividade (Velozo, 2010, p.2).

    Perguntamos: será que somente o conhecimento biológico do ciclismo, enquanto decorrente de um fato biológico no enfoque do controle de variáveis do corpo humano, é significante para a definição de vida? Entendemos de forma parcial essa estratégia de pesquisa, dado que cabem outras possibilidades de pesquisa sobre o uso da força motriz humana com bicicletas em contexto fora dos laboratórios (por exemplo, para a mobilidade urbana, para o lazer, entre tantas outras situações). Em outras ocasiões, já delineamos os objetos de estudos do ciclismo fora do ambiente da performance (Manfiolete & Aguiar, 2012). Afirmamos que, uma entre as estratégias de pesquisa, o ciclismo praticado nas cidades permite verificar, analisar e refletir sobre experiências positivas ou não do uso de bicicleta no cotidiano das pessoas.

 

    Entendemos que os dados subjetivos obtido dos praticantes ciclistas nas cidades, não equivalendo necessariamente às estratégias de pesquisa do “ciclismo de performance” elaboradas para a investigação em laboratórios nos quais os sujeitos da pesquisa encontram-se corporalmente descontextualizados do espaço urbano e que poderia descaracterizar o fato biológico em detrimento do sentidos sociais do ciclismo.

 

    A teoria da Energia e Equidade de Ivan Illich (2005) parece-nos incisiva em relação à abordagem social do ciclismo referente à mobilidade. Ela orienta para a construção de uma proposição que privilegia a energia metabólica humana no trânsito de pessoas em contraposição a condição de usuário de transporte:

    O uso da bicicleta tornou possível que o movimento do corpo humano ultrapassasse uma última barreira permitindo aprovei­tar a energia metabólica disponível e acelerar a locomoção até seu limite teórico. Em terreno plano, o ciclista é três ou quatro vezes mais veloz que o pedestre, gastando ao todo cinco vezes menos calorias por quilômetro que este. O deslocamento de um grama de seu corpo sobre essa distância não lhe consome mais do que 0,15 caloria. Com a bicicleta, o ser humano ultrapassa o rendimento possível de qualquer máquina e de qualquer animal evoluído (Illich, 2005, p. 63).

Conclusões

 

    O ciclismo é uma temática que poderia oferecer formação profissional ao educador físico condicionalmente ao esclarecimento dos conflitos epistemológicos do campo, que vão além da discussão sobre a atuação profissional do educador físico. O embate sobre a interação dos valores no campo científico da área mostrou-se profícuo para abranger o fenômeno do ciclismo, em vista da estratégia sensível ao contexto do ciclista, ou seja, o ciclismo urbano é uma sugestão válida que pressupõe a abrangência desse fenômeno na prática científica da Educação Física.

 

    Verificamos que não necessariamente ocorre um dilema entre o ciclismo de performance e o ciclismo urbano, pois ambos participam potencial e legitimamente do campo científico. Pedalar em bicicletas estacionárias para a obtenção de dados biológicos do corpo em movimento, embora carregue uma ideologia da neutralidade científica, aprimora o conhecimento sobre a vida biológica. Por outro ângulo, o deslocamento por bicicletas nas cidades, que envolve valores éticos incorporados no processo da mobilidade das pessoas, serve de estratégia contextualizadora e precisa do ato de pedalar livremente nas ruas, transforma-se em um ato de cidadania e de direito humano para a emancipação dos sujeitos.

 

    Enfim, sugerimos que se desfaça o monopólio das avaliações cognitivas biomédicas do ciclismo de performance, incluindo no campo da prática científica da Educação Física o ciclismo urbano como estratégia sensível ao contexto, própria do espaço público e social de circulação das pessoas.

 

Referências

 

    Alves, F.S., Carvalho, Y.M. (2010). Práticas corporais e grande saúde: um encontro possível. Movimento, Porto Alegre, v. 16, n. 04, p. 229-244.

 

    Bagrichevsky, M. (2007). A formação profissional em educação física enseja perspectivas (críticas) para atuação na saúde coletiva? In: A.B. Fraga e F. Wachs (Orgs.), Educação física e saúde coletiva: políticas de formação e perspectivas de intervenção. Porto Alegre: UFRGS.

 

    Bourdieu, P. (2000). O Poder Simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil,

 

    Bracht, V. (2007). Educação Física & Ciência: cenas de um casamento (in)feliz. Ijuí: Unijuí.

 

    Brasil. Ministério de Educação e Cultura (1969). Resolução nº 69, de 6 de novembro de 1969. Brasília: Conselho Federal de Educação, Acesso em: 27/08/2015. Disponível em: http://cev.org.br/biblioteca/parecer-69-69/

 

    Brasil. Conselho Federal de Educação (1987). Resolução nº 03, de 16 de Junho de 1987. Brasília: Diário Oficial da União. Acesso em: 18/9/2015. Disponível em: https://cref1.org.br/media/uploads/2017/05/resolucao-cfe-no-03.pdf

 

    Brasil. Lei nº 9.696, de 1º de setembro de 1998 (1998). Brasília: Diário Oficial da União. Acesso em: 15/08/2015. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9696.htm

 

    Brasil. Ministério da Saúde (2001). Brasília: Secretaria de Políticas de Saúde. Projeto Promoção da Saúde. Declaração de Alma-Ata; Carta de Ottawa; Declaração de Adelaide; Declaração de Sundsvall; Declaração de Santafé de Bogotá; Declaração de Jacarta; Rede de Megapaíses; Declaração do México. Acesso em: 20/08/2014. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/cartas_promocao.pdf

 

    Brasil. Resolução n° 7, de 31 de Março de 2004 (2004). Brasília: Ministério da Educação. Acesso em: 06/04/2015. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/cne/arquivos/pdf/ces0704edfisica.pdf

 

    Caritá, R.A.C., Greco, C.C., Denadai, B.S. (2015). Efeito do exercício prévio na resposta fisiológica e na performance aeróbia de curta duração. Revista Brasileira de Cineantropometria e Desempenho Humano, 17(1): 112-123.

 

    Castiel, L.D., Guilam, M.C.R., Ferreira, M.S. (2010). Correndo o risco: uma introdução aos riscos em saúde. Rio de Janeiro: Fiocruz.

 

    Denadai, B.S., Ruas, V.D.A., Figueira T.R. (2005). Efeito da cadência de pedalada sobre as respostas metabólica e cardiovascular durante o exercício incremental e de carga constante em indivíduos ativos. Revista Brasileira de Medicina do Esporte, 11(5).

 

    Freidson, E. (1998). Renascimento do profissionalismo: teoria, profecia e política. São Paulo: Edusp.

 

    Gallo Cadavid, L.E. (2010). Los discursos de la Educación Física contemporánea. Bogotá: Kinesis.

 

    Guedes, D.P., Guedes, J.E.R.P. (1995). Atividade Física, aptidão física e saúde. Revista Brasileira de Atividade Física e Saúde, Pelotas 1(1): 18-35.

 

    Illich, I. (2005). Energia e Equidade. In: Apocalipse motorizado: a tirania do automóvel em um planeta poluído. São Paulo: Conrad do Brasil.

 

    Kunz, E., Trebels, A. (2006). Educação física crítico-­emancipatória. Ijuí, Unijuí.

 

    Lacey, H. (1998). Valores e atividade cientifica. São Paulo: Discurso.

 

    Lacey, H. (2014). Neutralidade como uma aspiração para a ciência contemporânea. In: L.M.B. Albuquerque e R.F. Puttini, Questão sobre a ética e a inocência do método. São Paulo: Annablume/Fapesp.

 

    Lacey, H., Mariconda, P.R. (2014). O modelo das interações entre as atividades científicas e os valores. Scientiae Studia, 12(4): 643-68.

 

    Lucas, R.D., Rocha, R., Burini, R.C., Denadai, B.S. (2000). Comparação das intensidades correspondentes ao lactato mínimo, limiar de lactato e limiar anaeróbio durante o ciclismo em atletas de endurance. Revista Brasileira de Medicina do Esporte, 6 (5): 172-179.

 

    Manfiolete, L.D., Aguiar, C.M. (2012). Sentidos da aderência ao mountain bike na relação ser humano-natureza. Revista ALESDE 2(1): 85-95.

 

    Mariconda, P.R. (2006). O controle da natureza e as origens da dicotomia entre fato e valor. Scientiae Studia, 4(3): 453-72.

 

    Mauss, M. (2003). Sociologia e Antropologia. São Paulo: Cosac Naify.

 

    Melgar, J.M.O. (1986). El Cicloturismo: Deporte y cultura sobre la bicicleta. Apunts: Educación Física i Esports. Área Técnico Profissional, Nº 4, 2º semestre, p. 46-51.

 

    Nahas, M.V. (2006). Atividade Física, Saúde e Qualidade de Vida: conceitos e sugestões para um estilo de vida ativo. Londrina: Midiograf.

 

    Sautchuk, C.E. (2002). Jogando com símbolos: notas para uma antropologia da regulamentação da profissão de educação física. Revista Brasileira Ciência do Esporte, 23(2): 179-193.

 

    Sérgio, M. (2000). Para uma epistemologia da motricidade humana: prolegómenos a uma nova ciência do homem. Lisboa: Compendium.

 

    Souza Neto, S. (1999). A Educação Física na Universidade: Licenciatura-Bacharelado – as Propostas de Formação e suas Implicações Teórico-Práticas. Tese (Doutorado). São Paulo: Universidade de São Paulo.

 

    Steinhilber, J. (1996). Profissional de educação física existe? Rio de Janeiro: Sprint.

 

    Velozo, E.L. (2010). Ciclismo e cultura: anotações sobre o uso da bicicleta. In: anais do V Congresso Sulbrasileiro de Ciências do Esporte. Itajaí.

 

    Verenguer, R.C.G. (2004). Intervenção profissional em Educação Física: expertise, credencialismo e autonomia. Motriz, 10(2): 123-134.

 

    Weineck, J. (1999). Treinamento ideal. São Paulo: Manole.


Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 23, Núm. 242, Jul. (2018)

Utilizamos cookies para ofrecer la mejor experiencia, navegando en esta web aceptas su uso. OK