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ISSN 1514-3465

 

Conhecimentos nutricionais e associação com 

características sociodemográficas em frequentadores de ginásios

Nutritional Knowledge and its Association with Sociodemographic Characteristics in Fitness Club Members

Conocimientos nutricionales y su relación con las características sociodemográficas en personas que van al gimnasio

 

Ângelo Xavier Ribeiro Fernandez Pinho*

xavierfernandez1096@gmail.com

Carlos Eduardo Gonçalves da Costa Vasconcelos**

cvasconcelos@esev.ipv.pt

 

*Licenciado em Desporto e Atividade Física

na Escola Superior de Educação de Viseu

Universidade Politécnica de Viseu (IPV)

Treinador de Natação (Grau I)

Técnico de Exercício Físico no Ginásio Forlife em Viseu

**Doutor em Ciências do Desporto

na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro

Mestre em Atividade Física e Saúde

na Faculdade de Desporto da Universidade do Porto

Licenciado em Desporto e Educação Física

na Faculdade de Desporto da Universidade do Porto

Professor no Departamento de Ciências do Desporto e Motricidade

da Escola Superior de Educação de Viseu

Instituto Politécnico de Viseu (IPV)

(Portugal)

 

Recepción: 11/08/2026 - Aceptación: 19/09/2026

1ª Revisión: 27/08/2026 - 2ª Revisión: 06/09/2026

 

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https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/deed.pt

Cita sugerida: Pinho, A.X.R.F., e Vasconcelos, C.E.G. da C. (2026). Conhecimentos nutricionais e associação com características sociodemográficas em frequentadores de ginásios. Lecturas: Educación Física y Deportes, 31(342), 132-148. https://doi.org/10.46642/efd.v31i342.9089

 

Resumo

    Os conhecimentos nutricionais são um fator primordial para a adoção de hábitos alimentares saudáveis. O objetivo do estudo foi avaliar os conhecimentos nutricionais e a sua associação com características sociodemográficas em frequentadores de um ginásio localizado em Viseu, Portugal. O estudo envolveu um total de 40 participantes (38,6 ± 14,4 anos), sendo 22 do sexo feminino e 18 do sexo masculino. Para avaliar os conhecimentos nutricionais, foi utilizada a versão portuguesa do questionário General Nutrition Knowledge Questionaire (GNKQ). Os dados sociodemográficos sexo, idade, nível de escolaridade e estado civil também foram recolhidos. O teste t de Student e a ANOVA foram utilizados para avaliar as diferenças nas pontuações dos conhecimentos nutricionais entre os diferentes níveis das características sociodemográficas. Na presente amostra, os participantes com idade superior a 38 anos e as mulheres apresentaram pontuações de conhecimentos nutricionais significativamente mais elevadas do que os participantes mais jovens e os homens, respetivamente (p = 0,047 e p = 0,013). Foram observadas associações entre os conhecimentos nutricionais e a idade e o sexo.

    Unitermos: Conhecimentos nutricionais. Características sociodemográficas. Exercício físico. Ginásio.

 

Abstract

    Nutritional knowledge is a key factor for adopting healthy eating habits, although evidence among fitness club members remains limited. This study aims to assess nutritional knowledge and its association with sociodemographic characteristics in practitioners of physical exercise in the context of a fitness club, in Portugal. This cross-sectional study was conducted at a fitness club at Portugal and included 40 participants (38.6 ± 14.4 years; 22 women and 18 men) recruited through convenience sampling. To assess nutritional knowledge, the instrument used was the validated Portuguese version of the General Nutrition Knowledge Questionnaire (GNKQ). Sociodemographic data on sex, age, education level and marital status were also collected. Independent t-test and one-way ANOVA were used to assess differences in nutritional knowledge scores across sociodemographic groups. In this sample, older participants (>38 years) and women demonstrated significantly higher nutrition-related knowledge scores than younger participants and men (p = 0.047 and p = 0.013, respectively). Nutrition-related knowledge was associated with age and sex.

    Keywords: Nutritional knowledge. Sociodemographic characteristics. Exercice. Fitness club.

 

Resumen

    El conocimiento nutricional es un factor clave para la adopción de hábitos alimentarios saludables. El objetivo de este estudio fue evaluar el conocimiento nutricional y su asociación con las características sociodemográficas en usuarios de gimnasios de Viseu, Portugal. El estudio incluyó a 40 participantes (38,6 ± 14,4 años), 22 mujeres y 18 hombres. Para evaluar el conocimiento nutricional, se utilizó la versión portuguesa del Cuestionario General de Conocimientos Nutricionales (General Nutrition Knowledge Questionnaire - GNKQ). También se recopilaron datos sociodemográficos como sexo, edad, nivel educativo y estado civil. Se utilizaron la prueba t de Student y el análisis de varianza (ANOVA) para evaluar las diferencias en las puntuaciones de conocimiento nutricional entre los distintos niveles de características sociodemográficas. En la muestra estudiada, los participantes mayores de 38 años y las mujeres obtuvieron puntuaciones de conocimiento nutricional significativamente más altas que los participantes más jóvenes y los hombres, respectivamente (p = 0,047 y p = 0,013). Se observaron asociaciones entre el conocimiento nutricional y la edad y el sexo.

    Palabras clave: Conocimiento nutricional. Características sociodemográficas. Ejercicio físico. Gimnasio.

 

Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 31, Núm. 342, Nov. (2026)


 

Introdução 

 

    A promoção da saúde e de estilos de vida saudáveis é cada vez mais valorizada na sociedade contemporânea. A Organização Mundial da Saúde define o termo "saúde" não apenas como ausência de doença, mas também como um estado completo de bem-estar físico, mental e social (Schramme, 2023). Um estilo de vida saudável pode ser compreendido como um conjunto de comportamentos adotados por um indivíduo com o objetivo de promover e manter a sua saúde, sendo a adoção de uma alimentação equilibrada um dos seus componentes fundamentais (GBD 2021 Risk Factors Collaborators, 2024). Por outro lado, uma alimentação inadequada e desequilibrada está associada ao desenvolvimento de vários problemas de saúde, incluindo diabetes, hipertensão, obesidade e doenças cardiovasculares (Chatzi et al., 2024). Estas condições de saúde podem comprometer significativamente a qualidade de vida dos indivíduos, aumentando também o risco de mortalidade prematura (Murray & GBD 2021 Collaborators, 2024). Uma das estratégias para mitigar os efeitos prejudiciais de uma alimentação inadequada e promover um estilo de vida mais saudável consiste em aumentar os conhecimentos sobre hábitos alimentares saudáveis (Food and Agriculture Organization et al., 2024). Neste contexto, o conhecimento nutricional assume particular relevância para a compreensão dos princípios relacionados com uma alimentação saudável (Flores-Vázquez et al., 2024; Food and Agriculture Organization et al., 2024).

 

    O conhecimento nutricional pode ser entendido como o conjunto de informações relacionadas com os alimentos e a nutrição, incluindo conhecimentos sobre nutrientes, fontes alimentares, recomendações para uma alimentação saudável e escolhas alimentares (Glick et al., 2025). Este conhecimento constitui um dos fatores que pode influenciar as escolhas e os comportamentos alimentares, embora estes sejam também condicionados por fatores individuais, sociais, económicos e ambientais (Fernqvist et al., 2024). Assim, a avaliação do conhecimento nutricional permite caracterizar a capacidade dos indivíduos para identificar e compreender princípios básicos relacionados com uma alimentação saudável e pode contribuir para a identificação de necessidades específicas de educação nutricional. (Sanlier et al., 2024)

 

    A avaliação do conhecimento nutricional assume particular interesse entre indivíduos que frequentam ginásios. Esta população pode apresentar características distintas da população adulta em geral, nomeadamente devido ao maior envolvimento com o exercício físico e à exposição a conteúdos relacionados com composição corporal, alimentação, suplementação e desempenho físico (López Fernández et al., 2021; Lopes et al., 2024). Além disso, os frequentadores de ginásios podem apresentar diferentes objetivos relacionados com a prática de exercício, como a melhoria da saúde, o aumento da massa muscular, a redução da massa corporal ou a melhoria da composição corporal, os quais podem estar associados a diferentes comportamentos relacionados com a alimentação. (Lopes et al., 2024)

 

    Os estudos realizados nesta população têm-se focado predominantemente na utilização de suplementos alimentares (Lopes et al., 2024; Ventura Hernandez et al., 2025), nas motivações para a sua utilização (Rojas Delgadillo et al., 2023; Lopes et al., 2024) e nas fontes de informação nutricional (Leal Lizcano et al., 2024; Ventura Hernandez et al., 2025). Embora estes estudos contribuam para compreender comportamentos e necessidades nutricionais nesta população, estudos internacionais mais recentes têm também avaliado o conhecimento nutricional de frequentadores de ginásios através de instrumentos estruturados, embora recorrendo a diferentes instrumentos e realizados em contextos geográficos e populacionais distintos. (Agrawat et al., 2025; Finamore et al., 2022; Roble et al., 2025; Hacıoğlu et al., 2026)

 

    Os resultados disponíveis sugerem ainda que o conhecimento nutricional pode variar de acordo com características dos participantes, embora a evidência não seja consistente entre estudos. Por exemplo, associações com o nível de escolaridade foram identificadas entre frequentadores de ginásios na Índia e em Itália (Agrawat et al., 2025; Finamore et al., 2022), enquanto Finamore et al. (2022) também observaram diferenças segundo o sexo. Em contraste, outros estudos não identificaram associações significativas entre o conhecimento nutricional e determinadas características sociodemográficas, como idade ou escolaridade (Calella et al., 2021; Hacıoğlu et al., 2026; Rasouli et al., 2025). Apesar deste crescente interesse, a evidência disponível permanece limitada quanto à caracterização do conhecimento nutricional de frequentadores de ginásios no contexto português. Adicionalmente, a heterogeneidade dos resultados internacionais relativamente à associação entre características sociodemográficas e conhecimento nutricional reforça a importância de investigar esta questão em diferentes contextos populacionais e culturais. A realização de estudos em contextos locais pode, assim, contribuir para caracterizar o perfil de conhecimento nutricional dos frequentadores de ginásios e para verificar se as associações anteriormente descritas são observadas também na população portuguesa.

 

    Neste contexto, permanece por esclarecer o nível de conhecimento nutricional de frequentadores de ginásios em Portugal e a sua possível associação com características sociodemográficas. Esta lacuna é particularmente relevante considerando que os frequentadores de ginásios constituem uma população potencialmente exposta a uma elevada quantidade de informação sobre alimentação, exercício físico e suplementação, cuja qualidade e adequação podem variar.

 

    Neste sentido, o presente estudo teve como objetivo avaliar os conhecimentos nutricionais e explorar a sua associação com características sociodemográficas em frequentadores de um ginásio localizado em Viseu, Portugal.

 

Metodologia 

 

Desenho do estudo 

 

    Trata-se de um estudo transversal analítico que foi conduzido na cidade de Viseu, Portugal.

 

Participantes 

 

    Participaram neste estudo 40 frequentadores de um ginásio da cidade de Viseu (Portugal), apresentando uma média de idades de 38,6 ± 14,4 anos. Os critérios de inclusão foram: estar inscrito no ginásio onde o estudo foi realizado; e aceitar participar voluntariamente no estudo. Foram excluídos os participantes que não completaram integralmente o questionário. Todos os participantes forneceram consentimento informado por escrito antes da participação no estudo. A participação foi voluntária e foram implementadas medidas para garantir a confidencialidade e o anonimato dos dados, em conformidade com os princípios da Declaração de Helsínquia.

 

Procedimentos 

 

    O Diretor Técnico do ginásio onde decorreu o estudo foi previamente contactado para apresentação dos objetivos da investigação e obtenção da respetiva autorização para a sua realização. Posteriormente, foram disponibilizados os endereços de correio eletrónico de 100 utentes inscritos no ginásio, aos quais foi enviado um convite para participar no estudo. O e-mail incluía uma breve descrição dos objetivos da investigação, um link de acesso ao questionário online, desenvolvido na plataforma Google Forms, informação sobre a natureza voluntária da participação e a garantia de anonimato e confidencialidade dos dados. No total, foram obtidas 40 respostas válidas, correspondendo a uma taxa de resposta de 40 %.

 

Avaliação dos conhecimentos nutricionais 

 

    A avaliação dos conhecimentos nutricionais foi efetuada através da versão portuguesa reduzida e validada (Almeida-de-Souza, 2009) do General Nutrition Knowledge Questionnaire (Parmenter, e Wardle, 1999). A versão portuguesa reduzida deste questionário é constituída por três diferentes secções, cada uma delas com foco em áreas distintas de conhecimento: 1) recomendações nutricionais (1 questão de escolha múltipla; 0-6 pontos); 2) fontes dos nutrientes (8 questões de escolha múltipla; 0-34 pontos); 3) relação dieta-doenças (5 perguntas de escolha múltipla e 4 questões de resposta aberta; 0-16 pontos). A organização das perguntas de escolha múltipla apresenta formas de resposta distintas, tais como: “mais, igual, menos, não sabe”; “sim, não, não sabe”; “rico, pobre, não sabe”; “concorda, discorda, não sabe”. Algumas questões relacionadas com as relações dieta-doença são abertas e exigem que os participantes listem doenças relacionadas a fatores de estilo de vida relacionados à dieta. As respostas corretas de cada seção foram adicionadas dando uma pontuação geral de 56 pontos. Uma pontuação mais alta reflete um maior nível de conhecimento.

 

Características sociodemográficas 

 

    As características sociodemográficas foram obtidas por meio de um conjunto das perguntas ao final do questionário: sexo (masculino; feminino), idade (baseados na média como valor de corte, de modo a distinguir-se “mais velhos” de mais novos”), estado civil (casado ou com parceiro; solteiro, divorciado ou viúvo), nível de escolaridade (secundário, licenciatura, mestrado/doutoramento).

 

Análise estatística 

 

    As variáveis categóricas são apresentadas como proporções (número e percentagem), enquanto as variáveis contínuas são apresentadas como médias e desvio padrão (DP). O teste t de student e a Análise de Variância (ANOVA) foram utilizados para avaliar as diferenças nas pontuações dos conhecimentos nutricionais entre as diferentes categorias de características sociodemográficas (2 ou mais categorias respetivamente). Todas as análises estatísticas foram realizadas usando Statistical Package for the Social Sciences (SPSS), versão 29. O nível de significância estatística foi estabelecido em p < 0,05.

 

Resultados 

 

Características dos participantes 

 

    Foram incluídos 40 participantes, dos quais 23 (57,5 %) eram do sexo feminino e 22 (55,0 %) tinham idade inferior a 39 anos. A maioria era solteira (60,0 %) e possuía licenciatura (60,0 %). A caracterização sociodemográfica da amostra é apresentada na Tabela 1.

 

Tabela 1. Características sociodemográficas da amostra

Características sociodemográficas

N (%)

Idade

Abaixo dos 39 anos

22 (55 %)

39 ou mais anos

18 (45 %)

Sexo

Masculino

17 (42,5 %)

Feminino

23 (57,5 %)

Estado civil

Solteiro

24 (60 %)

Casados/juntos

13 (32,5 %)

Divorciados ou viúvos

3 (7,5 %)

Nível de escolaridade

Secundário

7 (17,5 %)

Licenciatura

24 (60 %)

Mestrado ou Doutoramento

9 (22,5 %)

Fonte: Dados de pesquisa

 

Conhecimentos nutricionais 

 

    A pontuação média total no questionário foi de 38,1 ± 8,6 pontos, num máximo de 56, correspondendo a 68,0 % de respostas corretas. Entre as diferentes secções, a pontuação média foi mais elevada na secção das recomendações nutricionais (5,2 ± 0,5 pontos; 86,7 % de respostas corretas) e mais baixa na secção relativa à relação entre dieta e doenças (9,1 ± 3,0 pontos; 56,6 % de respostas corretas). Os resultados da pontuação total e das diferentes secções são apresentados na Tabela 2.

 

    A análise das respostas individuais revelou que as questões relativas às recomendações dietéticas e aos comportamentos alimentares associados à redução do risco de cancro e de doenças cardiovasculares apresentaram percentagens de respostas corretas superiores a 80 %. Por outro lado, as questões relacionadas com problemas de saúde associados à baixa ingestão de frutas e legumes, à baixa ingestão de fibras e à elevada ingestão de gordura apresentaram percentagens de respostas corretas inferiores a 40 % (Figura 1).

 

Tabela 2. Pontuação dos conhecimentos nutricionais: total e por secção

Secção do questionário

Média (desvio padrão)

Percentagem de respostas corretas

Pontuação total

(0-56 pontos)

38,1 (8,6)

68 %

Recomendações nutricionais (0-6 pontos)

5,2 (0,5)

86,7 %

Fontes dos nutrientes

(0-34 pontos)

23,8 (5,9)

70,0 %

Relação dieta-doenças

(0-16 pontos)

9,1 (3,0)

56,6 %

Fonte: Dados de pesquisa

 

Figura 1. Gráfico com percentagem de respostas corretas do questionário (GNKQ)

Figura 1. Gráfico com percentagem de respostas corretas do questionário (GNKQ)

Fonte: Dados de pesquisa

 

Associação dos conhecimentos nutricionais com características sociodemográficas 

 

    A associação entre os conhecimentos nutricionais e as características sociodemográficas dos participantes é apresentada na Tabela 3.

Relativamente à pontuação total do questionário, foram observadas diferenças estatisticamente significativas segundo a idade e o sexo. Os participantes com 39 ou mais anos apresentaram uma pontuação média superior à dos participantes com idade inferior a 39 anos (41,0 ± 9,4 vs. 35,6 ± 7,1; p = 0,047). Do mesmo modo, as participantes do sexo feminino apresentaram uma pontuação média superior à dos participantes do sexo masculino (40,9 ± 8,1 vs. 34,3 ± 7,8; p = 0,013).

 

    Nas diferentes secções do questionário, foram observadas diferenças estatisticamente significativas na secção “Fontes dos nutrientes” segundo o sexo, com pontuações médias superiores entre as participantes do sexo feminino (25,7 ± 5,9 vs. 21,3 ± 5,3; p = 0,021). Na secção “Relação dieta-doenças”, observaram-se diferenças segundo a idade, com pontuações médias superiores nos participantes com 39 ou mais anos (10,2 ± 3,2 vs. 8,1 ± 2,8; p = 0,037), e segundo o sexo, com pontuações médias superiores entre as participantes do sexo feminino (10,0 ± 2,9 vs. 7,8 ± 3,0; p = 0,023). Não foram observadas diferenças estatisticamente significativas nas restantes comparações.

 

Tabela 3. Associação dos conhecimentos nutricionais com as características sociodemográficas

 

Características sociodemográficas

Pontuação total do questionário (0-56 pontos)

Secção das recomendações nutricionais

(0-6 pontos)

Secção das fontes dos nutrientes

(0-34 pontos)

Secção da relação dieta-doenças

(0-16 pontos)

Idade

Até 38 anos

35,6±7,1a

5,3±0,6

22,2±4,6

8,1±2,8 b

39 ou mais

41,0±9,4 a

5,1±0,5

25,7±7,0

10,2±3,2 b

Sexo

Masculino

34,3±7,8 c

5,2± 0,6

21,3 ±5,3 d

7,8±3,0 e

Feminino

40,9±8,1 c

5,2 ± 0,4

25,7±5,9 d

10,0±2,9 e

Estado civil

Solteiro

36,2±9,2

5,3±0,6

22,4±6,4

8,5±3,2

Casado/junto

40,4±6,7

5,0±0,0

25,8±4,6

9,5±3,0

Divorciado/viúvo

42,7±9,6

5,3±0,6

26,3±6,8

11,0±2,6

Nível de escolaridade

Secundário

35,9±5,8

5,3±0,5

23,4±3,8

7,1±2,5

Licenciatura

38,1±8,3

5,2±0,5

23,7±6,2

9,2±2,8

Mestrado/doutoramento

39,7±11,2

5,1±0,6

24,4±7,3

10,1±3,8

Nota: ᵃp = 0,047; ᵇp = 0,037; ᶜp = 0,013; ᵈp = 0,021; ᵉ p = 0,023. Fonte: Dados de pesquisa

 

Discussão 

 

    Os frequentadores de ginásio que participaram deste estudo apresentaram uma pontuação média de conhecimentos nutricionais correspondente a 68 % de respostas corretas. As maiores lacunas de conhecimento verificaram-se em questões relacionadas com a associação da baixa ingestão de frutas e legumes, fibras e gorduras e risco de desenvolvimento de problemas de saúde. Observou-se ainda que a idade e o sexo estiveram significativamente associados aos conhecimentos nutricionais dos participantes.

 

    Apesar de o GNKQ não providenciar valores de cutoff para classificar os conhecimentos nutricionais, o resultado do presente estudo indica que os participantes responderam corretamente a aproximadamente dois terços do questionário. Este resultado é consistente com o observado em estudos prévios que envolveram frequentadores de ginásios (Anjos et al., 2021; Calella et al., 2021; Hacıoğlu et al., 2026), sugerindo que, apesar da crescente disponibilidade de informação nutricional (Denniss et al., 2023), persistem lacunas importantes ao nível dos conhecimentos nutricionais desta população. Esta aparente discrepância poderá estar relacionada, em parte, com a qualidade e a fiabilidade das fontes de informação utilizadas. Atualmente, uma proporção significativa da informação sobre nutrição é obtida através da Internet, particularmente das redes sociais, onde conteúdos baseados em evidência científica coexistem com informação incorreta, simplificada ou não fundamentada. (Denniss et al., 2023)

 

    A análise das diferentes secções do questionário revelou que os participantes obtiveram pontuações mais elevadas na secção “Recomendações Dietéticas” e mais baixas na secção “Relação Dieta–Doença”, um padrão consistente com os resultados descritos por Spendlove et al. (2012) e Hardy et al. (2017). O melhor desempenho na secção “Recomendações Dietéticas” poderá refletir o impacto das campanhas de promoção da alimentação saudável e das iniciativas de saúde pública desenvolvidas nas últimas décadas, que têm enfatizado recomendações como o aumento do consumo de frutas, hortícolas e cereais integrais e a redução da ingestão de sal (Direção-Geral da Saúde, 2024). Em contrapartida, a menor pontuação obtida na secção “Relação Dieta–Doença” poderá refletir a maior complexidade das questões, que exigem um conhecimento mais aprofundado sobre a associação entre grupos alimentares e o desenvolvimento de doenças crónicas (Hulland et al., 2024). Importa ainda referir que esta foi a única secção constituída por questões de resposta aberta, característica que poderá igualmente ter influenciado o desempenho observado. (Yan, e Williams, 2022)

 

    No que diz respeito à associação entre os conhecimentos nutricionais e as características sociodemográficas, observou-se que as mulheres apresentaram pontuações significativamente mais elevadas no conhecimento nutricional do que os homens. Uma investigação realizada com atletas de elite identificou pontuações de conhecimentos nutricionais significativamente mais elevadas entre participantes do sexo feminino, após o ajustamento para potenciais fatores de confusão (Edmonds et al., 2023). Contudo, outros estudos, incluindo investigações realizadas especificamente em frequentadores de ginásios, não identificaram diferenças significativas segundo o sexo (Finamore et al., 2022; Agrawat et al., 2025). Esta heterogeneidade poderá refletir diferenças nas características das populações estudadas, nos instrumentos utilizados e nos domínios específicos de conhecimento avaliados.

 

    Relativamente à idade, os participantes com mais de 38 anos apresentaram níveis globais de conhecimentos nutricionais significativamente superiores aos dos participantes mais jovens, assim como melhores resultados na secção relativa à relação entre alimentação e doença. Este resultado é parcialmente consistente com os dados reportados por Spendlove et al. (2012), que identificaram uma associação entre a idade e os conhecimentos nutricionais, tendo os participantes mais velhos apresentado pontuações mais elevadas. Contudo, Finamore et al. (2022), num estudo realizado especificamente com frequentadores de ginásios, não observaram diferenças significativas na pontuação média de conhecimentos nutricionais entre diferentes grupos etários. Estas diferenças entre estudos poderão estar relacionadas com as características das populações estudadas, a distribuição etária das amostras e os instrumentos ou métodos utilizados para avaliar os conhecimentos nutricionais. Uma possível explicação para a associação observada no presente estudo poderá estar relacionada com uma maior consciencialização dos participantes mais velhos relativamente ao papel da alimentação na manutenção da saúde e na prevenção de doenças, potencialmente favorecendo uma maior exposição ou procura de informação nutricional. (McClinchy et al., 2026)

 

    Contrariamente ao observado para a idade e o sexo, o nível de escolaridade e o estado civil não apresentaram associações significativas com os conhecimentos nutricionais na presente amostra. Relativamente à escolaridade, este resultado difere parcialmente de estudos anteriores. Finamore et al. (2022) observaram uma maior proporção de respostas corretas entre participantes com níveis de escolaridade mais elevados, embora a escolaridade não tenha apresentado uma associação significativa com a pontuação média global de conhecimentos nutricionais. Por sua vez, Agrawat et al. (2025) identificaram uma associação significativa entre o nível de escolaridade e os conhecimentos nutricionais, com participantes com maior escolaridade a apresentarem pontuações mais elevadas. A ausência de diferenças significativas no presente estudo poderá estar relacionada, em parte, com a distribuição desigual dos participantes entre os grupos de escolaridade, com uma maior concentração de participantes com licenciatura, o que poderá ter reduzido a capacidade de detetar diferenças entre os níveis de escolaridade.

 

    Relativamente ao estado civil, não foram observadas diferenças estatisticamente significativas nos conhecimentos nutricionais. Esta variável tem sido pouco explorada em estudos realizados especificamente com frequentadores de ginásios, não tendo sido analisada nos estudos de Finamore et al. (2022) e Agrawat et al. (2025). Um estudo recente realizado com 220 bodybuilders do sexo masculino não identificou diferenças significativas nos conhecimentos nutricionais segundo o estado civil (Rasouli et al., 2025). Estes resultados sugerem que o estado civil poderá não estar associado aos conhecimentos nutricionais, embora a evidência disponível permaneça limitada.

 

    De forma geral, os resultados relativos às características sociodemográficas devem ser analisados com prudência e entendidos como associações observadas na presente amostra, não permitindo estabelecer relações causais nem generalizar as diferenças observadas para a população em geral. Em particular, as diferenças segundo o sexo e a idade não devem ser interpretadas como características inerentes ou universais de homens, mulheres ou indivíduos de diferentes faixas etárias, mas como diferenças observadas no contexto específico da população estudada.

 

    Por fim cabe ressaltar limitações e potencialidades do presente estudo. Relativamente às limitações prendem-se com: 1) estudo transversal, que não permite determinar causa-efeito; 2) o uso de um questionário auto reportado; 3) amostra reduzida e pouco representativa da população de utentes de Ginásios de Portugal; 4) distribuição desigual de participantes entre algumas características sociodemográficas. Apesar destas limitações, este estudo apresenta as seguintes potencialidades: 1) utilização de um questionário validado para a população portuguesa; 2) dá resposta à escassez de estudos acerca da associação dos conhecimentos nutricionais características sociodemográficas em frequentadores de ginásio em Portugal.

 

    Os resultados reforçam a necessidade de promover estratégias de educação alimentar dirigidas a frequentadores de ginásios, contribuindo para decisões alimentares mais informadas e para a adoção de comportamentos nutricionais compatíveis com a promoção da saúde e da prática de exercício físico.

 

Conclusão 

 

    Os frequentadores de ginásio apresentaram uma pontuação média correspondente a 68 % de respostas corretas no questionário de conhecimentos nutricionais. As maiores lacunas de conhecimento foram observadas em questões relacionadas com a associação entre a baixa ingestão de frutas e legumes, fibras e gorduras e o risco de desenvolvimento de problemas de saúde. Na presente amostra, os conhecimentos nutricionais estiveram associados à idade e ao sexo, sendo mais elevados entre os participantes mais velhos e as mulheres. Estes resultados devem ser interpretados com cautela, não permitindo estabelecer relações causais nem generalizar as diferenças observadas para outras populações.

 

    Estudos futuros deverão incluir amostras maiores e provenientes de diferentes regiões de Portugal, de modo a aumentar a representatividade e a generalização dos resultados. Além disso, estudos longitudinais poderão contribuir para compreender a relação temporal entre os conhecimentos nutricionais e os hábitos alimentares, enquanto estudos de intervenção randomizados poderão avaliar se estratégias destinadas a melhorar os conhecimentos nutricionais conduzem a mudanças nos comportamentos alimentares.

 

Referências 

 

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Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 31, Núm. 342, Nov. (2026)