Lecturas: Educación Física y Deportes | http://www.efdeportes.com

ISSN 1514-3465

 

Musculação universitária e promoção da saúde:

perfil, prontidão e adesão dos participantes

University Weight Training and Health Promotion: 

Participants’ Profile, Readiness, and Adherence

Entrenamiento con pesas y promoción de la salud en el ámbito

universitario: perfil de los participantes, preparación y adherencia

 

Ana Julia Lopes de Araújo*

ana.j.lopes@ufms.br

Natalia da Cruz Silva*

acad.natisilva@gmail.com

Raissa de Oliveira Rodrigues**

raissa.oliveira@ufms.br

Hevini Quidá Sório*

hevini.sorio@ufms.br

Mary Grazielly Ferreira Cardoso*

mary.cardoso@ufms.br

Marcelo Gonçalves Duarte***

duarte.marcelo@ufms.br

 

*Acadêmica do curso de Educação Física

na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS)

**Bacharel em Educação Física pela UFMS

***Doutor em Ciências do Movimento Humano

Professor no curso de Educação Física na UFMS

Campo Grande - Mato Grosso do Sul

(Brasil)

 

Recepción: 13/07/2026 - Aceptación: 23/09/2026

1ª Revisión: 15/09/2026 - 2ª Revisión: 20/09/2026

 

Level A conformance,
            W3C WAI Web Content Accessibility Guidelines 2.0
Documento acessível. Lei N° 26.653. WCAG 2.0

 

Creative Commons

Este trabalho está sob uma licença Creative Commons

Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional (CC BY-NC-ND 4.0)

https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/deed.pt

Cita sugerida: Araújo, A.J.L. de, Silva, N. da S., Rodrigues, R. de O., Sório, H.Q., Cardoso, M.G.F., e Duarte, M.G. (2026). Programa universitário de musculação como estratégia de promoção da saúde: perfil, prontidão e padrões de adesão dos participantes. Lecturas: Educación Física y Deportes, 31(342), 117-131. https://doi.org/10.46642/efd.v31i342.9039

 

Resumo

    Objetivo: Analisar o perfil sociodemográfico e antropométrico, a prontidão para a prática de atividade física e os padrões de adesão de participantes de um programa universitário de musculação. Método: Trata-se de um estudo transversal, com 379 participantes do Programa Academia Escola da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul - UFMS. Foram coletadas informações sociodemográficas, comportamentais e antropométricas por meio de anamnese estruturada. A prontidão para a prática de atividade física foi avaliada pelo Questionário de Prontidão para a Atividade Física (PAR-Q). Os dados foram analisados por estatística descritiva e pelo teste do qui-quadrado, adotando-se nível de significância de 5 % (p<0,05). Resultados: Observou-se predominância do sexo feminino (54,9 %), média de idade de 24,45 anos e maior proporção de participantes eutróficos (51,6 %). A maioria relatou frequência semanal de três a cinco vezes (60,2 %), tempo de prática inferior a dois anos (81,0 %) e nível iniciante (57,8 %). Em relação à prontidão, 91,3 % foram classificados como aptos. Não foram observadas associações estatisticamente significativas entre a classificação do IMC e a frequência semanal de prática (p=0,403), nem entre o IMC e a prontidão para a atividade física (p=0,812). Conclusão: A prática de musculação em contexto universitário envolve um público predominantemente jovem, apto e com frequência compatível com as recomendações de saúde, independentemente da classificação do IMC. Os resultados reforçam a importância de programas institucionais na promoção de hábitos saudáveis.

    Unitermos: Atividade física. IMC. Prontidão para exercício. Adesão. Universitários.

 

Abstract

    Objective: To analyze the sociodemographic and anthropometric profile, readiness for physical activity, and adherence patterns of participants in a university resistance training program. Method: This is a cross-sectional study conducted with 379 participants from the Academia Escola Program at the Federal University of Mato Grosso do Sul - UFMS Sociodemographic, behavioral, and anthropometric data were collected through structured anamnesis. Readiness for physical activity was assessed using the Physical Activity Readiness Questionnaire (PAR-Q). Data were analyzed using descriptive statistics and the chi-square test, adopting a significance level of 5 % (p<0.05). Results: A predominance of females (54.9 %), a mean age of 24.45 years, and a higher proportion of eutrophic individuals (51.6 %) were observed. Most participants reported a weekly frequency of three to five times (60.2 %), less than two years of practice (81.0 %), and a beginner level (57.8 %). Regarding readiness, 91.3 % were classified as fit. No statistically significant associations were found between BMI classification and weekly practice frequency (p=0.403), nor between BMI and readiness for physical activity (p=0.812). Conclusion: Resistance training in a university context involves a predominantly young, fit population with a practice frequency consistent with health recommendations, regardless of BMI classification. The findings reinforce the importance of institutional programs in promoting healthy habits.

    Keywords: Physical activity. BMI. Exercise readiness. Adherence. University students.

 

Resumen

    Objetivo: Analizar el perfil sociodemográfico y antropométrico, la disposición para la actividad física y los patrones de adherencia de los participantes en un programa universitario de entrenamiento con pesas. Método: Se realizó un estudio transversal con 379 participantes del Programa Gimnasio Escuela de la Universidad Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Se recopiló información sociodemográfica, conductual y antropométrica mediante una anamnesis estructurada. La disposición para la actividad física se evaluó mediante el Cuestionario de Disposición para la Actividad Física (PAR-Q). Los datos se analizaron mediante estadística descriptiva y la prueba de chi-cuadrado, con un nivel de significancia del 5 % (p<0,05). Resultados: Se observó un predominio de mujeres (54,9 %), una edad media de 24,45 años y una mayor proporción de participantes con peso normal (51,6 %). La mayoría reportó una frecuencia semanal de tres a cinco veces (60,2 %), menos de dos años de práctica (81,0 %) y un nivel principiante (57,8 %). En cuanto a la preparación física, el 91,3 % se clasificó como apto. No se observaron asociaciones estadísticamente significativas entre la clasificación del IMC y la frecuencia de práctica semanal (p=0,403), ni entre el IMC y la preparación para la actividad física (p=0,812). Conclusión: El entrenamiento con pesas en un entorno universitario involucra a un público predominantemente joven y apto, con una frecuencia compatible con las recomendaciones de salud, independientemente de la clasificación del IMC. Los resultados refuerzan la importancia de los programas institucionales para promover hábitos saludables.

    Palabras clave: Actividad física. IMC. Preparación para el ejercicio. Adherencia. Estudiantes universitarios.

 

Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 31, Núm. 342, Nov. (2026)


 

Introdução 

 

    A prática regular de atividade física é reconhecida como um importante determinante da promoção da saúde, estando associada à melhoria da qualidade de vida, à prevenção de doenças crônicas não transmissíveis e à saúde mental. Segundo a Organização Mundial da Saúde (WHO, 2020), níveis adequados de atividade física contribuem para o controle do peso corporal, melhora do condicionamento cardiovascular e redução de sintomas de ansiedade e depressão.

 

    No contexto universitário, esses benefícios tornam-se ainda mais relevantes, considerando que estudantes frequentemente apresentam elevados níveis de estresse, mudanças no estilo de vida e comportamentos sedentários. Evidências demonstram que a prática regular de atividade física está associada à melhora do desempenho acadêmico, da qualidade do sono e da saúde mental (Mendes et al., 2021; Silva et al., 2021), reforçando o papel das universidades como ambientes estratégicos para a promoção da saúde.

 

    Nesse cenário, programas institucionais de atividade física têm sido recomendados como estratégias para ampliar o acesso ao exercício físico e incentivar hábitos saudáveis (OPAS, 2019). Iniciativas desenvolvidas em universidades brasileiras oferecem prática supervisionada e orientação profissional, em consonância com as recomendações da Organização Pan-Americana da Saúde. (OPAS, 2019)

 

    Apesar de sua relevância, ainda são escassos os estudos que investigam, de forma integrada, o perfil dos participantes, suas características antropométricas, a prontidão para a prática de atividade física e os padrões de adesão em programas universitários. A maioria das pesquisas analisa esses aspectos isoladamente, limitando a compreensão dos fatores relacionados ao ingresso e à permanência dos participantes.

 

    A prontidão para a prática de atividade física constitui um componente importante desse processo, por estar relacionada à segurança e à capacidade de iniciar e manter um programa de exercícios. O modelo dos estágios de mudança de Prochaska e DiClemente (Prochaska, e DiClemente, 1983) destaca que a adoção de comportamentos saudáveis ocorre de forma progressiva. Além disso, variáveis como frequência semanal, tempo de prática e experiência estão associadas a melhores indicadores de saúde e comportamento ativo. (WHO, 2014; Aparicio-Chueca et al., 2021)

 

    Nesse contexto, o Programa Institucional Academia Escola, desenvolvido por uma universidade pública brasileira, representa uma estratégia de promoção da saúde ao oferecer prática supervisionada para diferentes segmentos da comunidade acadêmica e externa. Diante desse cenário, o presente estudo teve como objetivo analisar o perfil sociodemográfico e antropométrico, a prontidão para a prática de atividade física e os padrões de adesão de participantes de um programa universitário de musculação, explorando suas implicações para a promoção da saúde.

 

Método 

 

Participantes do estudo 

 

    Participaram do estudo 379 praticantes de musculação do Programa Institucional Academia Escola da Universidade Federal da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul - UFMS, incluindo estudantes, servidores e membros da comunidade externa. A amostra foi selecionada por conveniência, de forma não probabilística, sendo incluídos indivíduos com idade entre 18 e 58 anos e frequência mínima de 75 % nas atividades. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul - UFMS sob o CAAE: 89697025.5.0000.0021.

 

Anamnese 

 

    O perfil dos participantes foi caracterizado por meio de uma anamnese estruturada, elaborada pelos pesquisadores e aplicada em formulário eletrônico. Foram coletadas informações sociodemográficas (sexo, idade, categoria de vínculo com o programa e tipo de vaga) e comportamentais, incluindo frequência semanal de participação, tempo de prática e nível de experiência autorreferido na musculação.

 

Índice de Massa Corporal (IMC) 

 

    O Índice de Massa Corporal (IMC) foi calculado a partir do peso corporal (kg) e da estatura (m) autorreferidos, utilizando a fórmula IMC = peso/estatura². A classificação seguiu os critérios da Organização Mundial da Saúde (WHO, 2000): baixo peso, eutrofia, sobrepeso e obesidade. Para as análises, os diferentes graus de obesidade foram agrupados em uma única categoria ("obesidade total").

 

Escala de Motivação para a Prática de Exercícios (EMPE) 

 

    A motivação foi avaliada por meio da Escala de Motivação para a Prática de Exercícios (EMPE), instrumento validado para a população brasileira. A escala utiliza itens em formato Likert para identificar os principais fatores motivacionais relacionados à prática de exercícios. Neste estudo, foram analisadas as dimensões condicionamento físico, emagrecimento, hipertrofia e saúde/lazer.

 

Prontidão para a prática de atividade física (PAR-Q) 

 

    A prontidão para a prática de atividade física foi avaliada pelo Questionário de Prontidão para a Atividade Física (PAR-Q), composto por sete questões dicotômicas ("sim"/"não") sobre condições de saúde relacionadas à prática de exercícios. A presença de pelo menos uma resposta positiva indicou necessidade de avaliação médica prévia antes do início ou continuidade da prática de exercícios.

 

Procedimentos de coleta 

 

    A coleta de dados foi realizada entre julho de 2023 e julho de 2024 por meio de formulário eletrônico aplicado aos participantes do programa de musculação. Antes da participação, todos foram informados sobre os objetivos da pesquisa, os procedimentos e a confidencialidade das informações, concordando voluntariamente com o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) em formato eletrônico.

 

    O formulário contemplou informações sociodemográficas (sexo, idade, categoria de vínculo e tipo de vaga), características da prática de musculação (frequência semanal, tempo de prática e nível de experiência), além da Escala de Motivação para a Prática de Exercícios (EMPE), do Questionário de Prontidão para a Atividade Física (PAR-Q) e dos dados autorreferidos de peso e estatura para cálculo do Índice de Massa Corporal (IMC). A coleta foi realizada de forma individual, assegurando o anonimato e a confidencialidade das informações.

 

Análise de dados 

 

    A análise dos dados foi realizada por meio de estatística descritiva e inferencial. As variáveis categóricas foram apresentadas em frequências absolutas e relativas (n, %), e as contínuas em média ± desvio padrão. A associação entre a frequência semanal de participação e a classificação do Índice de Massa Corporal (IMC) foi analisada pelo teste do qui-quadrado de independência (χ²), considerando as categorias de obesidade agrupadas em "obesidade total". As análises foram realizadas no software Statistical Package for the Social Sciences (SPSS), versão 26, adotando-se nível de significância de 5 % (p < 0,05).

 

Resultados 

 

    A Tabela 1 apresenta as características sociodemográficas, antropométricas e comportamentais dos 379 participantes do Programa Academia Escola da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Observou-se predominância do sexo feminino, com média de idade de 24,45 ± DP anos. A maioria dos participantes foi classificada como eutrófica e era composta por estudantes. Quanto à prática de musculação, predominou a frequência de três a cinco vezes por semana. A maior parte dos participantes relatou menos de dois anos de prática e nível de experiência iniciante. Os principais objetivos para a prática foram condicionamento físico, hipertrofia e emagrecimento, seguidos por saúde/lazer e recomendação médica.

 

Tabela 1. Características dos Participantes da Academia Escola UFMS. Campo Grande, Mato Grosso do Sul, Brasil, 2025

Variável

N

%

Classificação IMC

Baixo peso

23

6,1

Eutrófico

196

51,6

Sobrepeso

101

26,6

Obesidade I, II e III

59

15,6

Categoria de usuário

Estudante

259

69

Servidor

78

21

Comunidade externa

42

10

Frequência Semanal

Até 2 vezes

124

32,7

3 a 5 vezes

228

60,2

Mais de 5 vezes

27

7,1

Tempo de Prática (meses)

Menos de 2 anos

307

81,0

De 2 anos a 5 anos

61

16,1

Mais de 5 anos

11

2,9

Na prática de musculação vocês considera-se

Iniciante

219

57,8

Intermediário

144

38,0

Avançado

16

4,2

Estou buscando as atividades de musculação com o objetivo de melhorar

Condicionamento físico

109

28,8

Emagrecimento

82

21,6

Hipertrofia

95

25,1

Saúde e lazer

66

17,4

Saúde (recomendação médica/possui alguma patologia)

27

7,1

Fonte: Própios autores

 

    A Tabela 2 apresenta os resultados do Questionário de Prontidão para a Atividade Física (PAR-Q). A maioria dos participantes respondeu negativamente a todas as questões, indicando aptidão para a prática de atividade física. As maiores frequências de respostas positivas foram observadas para problemas osteoarticulares (4,7 %) e episódios de tontura ou perda de consciência (4,2 %), enquanto as demais condições apresentaram baixa ocorrência.

 

    De acordo com os critérios do PAR-Q, participantes com pelo menos uma resposta positiva foram classificados como não aptos, enquanto aqueles que responderam negativamente a todas as questões foram considerados aptos para a prática de atividade física.

 

Tabela 2. Prontidão para a atividade física. Campo Grande, Mato Grosso do Sul, Brasil, 2025

Pergunta

Sim (n, %)

Não (n, %)

Algum médico já disse que você possui algum problema no coração?

3 (0,8)

376 (99,2)

Você sente dores no peito quando pratica atividade física?

8 (2,1)

371 (97,9)

No último mês, você sentiu dores no peito ao se exercitar?

3 (0,8)

376 (99,2)

Você apresenta desequilíbrio devido à tontura e/ou perda de consciência?

16 (4,2)

363 (95,8)

Possui algum problema ósseo/articular que pode ser agravado pelo exercício?

18 (4,7)

361 (95,3)

Toma algum medicamento para pressão arterial e/ou coração?

9 (2,4)

370 (97,6)

Sabe de alguma outra razão para não praticar atividade física?

3 (0,8)

376 (99,2)

Fonte: Próprio autores

 

    A maioria dos participantes foi classificada como apta para a prática de atividade física pelo PAR-Q, enquanto uma parcela menor foi considerada não apta, reforçando a importância da triagem inicial. Observou-se maior proporção de indivíduos aptos entre os eutróficos, ao passo que participantes com sobrepeso e obesidade apresentaram maior frequência de restrições.

 

    A Tabela 3 apresenta a distribuição da frequência semanal de prática de atividade física segundo a classificação do Índice de Massa Corporal (IMC). A maior concentração de participantes foi observada na frequência de três a cinco vezes por semana, principalmente entre indivíduos eutróficos e com sobrepeso. Em todas as categorias de frequência, predominou a classificação eutrófica, enquanto participantes com sobrepeso e obesidade concentraram-se nas frequências intermediárias. O teste do qui-quadrado não identificou associação significativa entre a classificação do IMC e a frequência semanal de prática de atividade física (χ²(6) = 6,20; p = 0,40), indicando que a frequência de prática não diferiu entre as categorias de IMC na amostra estudada.

 

Tabela 3. Relação entre Frequência de Participação e Classificação do IMC. Campo Grande, Mato Grosso do Sul, Brasil, 2025

Frequência semanal

Baixo Peso

Eutrófico

Sobrepeso

Obesidade total

(IMC < 18,5)

(18,5 - 24,9)

(25 - 29,9)

(³ 30,0)

Até 2 vezes

5 (1,32)

59 (15,56)

35 (9,24)

25 (6,59)

3 a 5 vezes

18 (4,75)

119 (31,40)

58 (15,30)

33 (8,71)

Mais de 5 vezes

0

18 (4,75)

8 (2,11)

1 (0,26)

Fonte: Próprio autores

 

    Na Tabela 4, a classificação da prontidão para a prática de atividade física foi realizada com base nas respostas ao Questionário de Prontidão para Atividade Física (PAR-Q). Foram considerados aptos os participantes que responderam negativamente a todas as questões do instrumento, enquanto aqueles que apresentaram pelo menos uma resposta positiva foram classificados como não aptos. Observa-se predominância de indivíduos aptos para a prática de exercícios físicos, indicando um perfil geral de baixo risco na amostra estudada.

 

Tabela 4. Classificação da prontidão para a prática de atividade física dos participantes do 

Programa Academia Escola da UFMS (n = 379). Campo Grande, Mato Grosso do Sul, Brasil, 2025

Classificação

n

%

Apto

346

91,3

Não Apto

33

8,7

Fonte: Próprio autores

 

    A Tabela 5 apresenta a distribuição da prontidão para a prática de atividade física segundo a classificação do Índice de Massa Corporal (IMC). Em todas as categorias de IMC predominou a classificação de apto, com maior frequência entre os indivíduos eutróficos, seguidos pelos participantes com sobrepeso e obesidade. Entre os não aptos, as maiores frequências também foram observadas nos grupos eutrófico e sobrepeso. O teste do qui-quadrado não identificou associação significativa entre a classificação do IMC e a prontidão para a prática de atividade física (χ²(3) = 0,955; p = 0,812), indicando que a aptidão para a prática de exercícios não diferiu entre as categorias de IMC na amostra estudada.

 

Tabela 5. Relação entre a classificação do IMC e a prontidão para a prática de

atividade física dos participantes. Campo Grande, Mato Grosso do Sul, Brasil, 2025

Classificação do IMC

Apto (n; %)

Não Apto (n; %)

Baixo peso

21 (91,3 %)

2 (8,7 %)

Eutrófico

180 (91,8 %)

16 (8,2 %)

Sobrepeso

90 (89,1 %)

11 (10,9 %)

Obesidade

55 (93,2 %)

4 (6,8 %)

Fonte: Próprio autores

 

Discussão 

 

    Os resultados deste estudo ampliam a compreensão do perfil de participantes de um programa universitário de musculação e reforçam o potencial dessas iniciativas para a promoção da saúde. A predominância de mulheres, jovens e estudantes está de acordo com estudos que apontam elevada vulnerabilidade dos universitários à inatividade física e demonstram que programas institucionais favorecem a saúde, a qualidade de vida e o bem-estar. (Sousa et al., 2013; Couto et al., 2019; Santos et al., 2024; Donelly et al., 2024; Huang et al., 2024)

 

    Embora a maioria dos participantes tenha apresentado IMC compatível com eutrofia, a presença de indivíduos com sobrepeso e obesidade evidencia que o programa atende diferentes perfis, reforçando seu caráter inclusivo. Esse aspecto é relevante, considerando que o treinamento resistido promove benefícios na composição corporal, capacidade funcional e saúde metabólica independentemente do estado nutricional inicial. (Westcott, 2012; Wewege et al., 2022)

 

    A frequência predominante de três a cinco sessões semanais indica adesão compatível com as recomendações para promoção da saúde. A ausência de associação entre IMC e frequência semanal sugere que, em um ambiente supervisionado e com acesso facilitado, fatores motivacionais e contextuais podem exercer maior influência sobre a permanência do que características antropométricas isoladas (Garcia-Hermoso et al., 2023; Sousa et al., 2013; Sperandei et al., 2016). A elevada proporção de participantes iniciantes e com menos de dois anos de prática demonstra que o programa desempenha importante papel na iniciação à musculação, mas também evidencia a necessidade de estratégias voltadas à retenção. Estudos mostram que a permanência em programas de exercício depende de fatores como motivação, expectativas, apoio profissional e organização da rotina. (Sperandei et al., 2016; Liz, e Andrade, 2016)

 

    Essa interpretação é reforçada pelos principais motivos relatados para a prática — condicionamento físico, hipertrofia, emagrecimento e saúde/lazer —, confirmando que a adesão resulta de múltiplos fatores, conforme observado em universitários brasileiros. (Legnani et al., 2011; Guedes et al., 2012; Guedes et al., 2013)

 

    Em relação à prontidão para a prática, a elevada proporção de participantes aptos indica baixo risco aparente para participação no programa, sem reduzir a importância da triagem inicial. O PAR-Q permanece uma ferramenta útil para identificação de indivíduos que necessitam de avaliação complementar antes da prática de exercícios (Warburton et al., 2011). Da mesma forma, a inexistência de associação entre IMC e prontidão reforça que o estado nutricional, isoladamente, não constitui um indicador suficiente de risco, sendo necessária uma avaliação individualizada.

 

    Sob a perspectiva aplicada, os resultados evidenciam que programas universitários de musculação podem ampliar o acesso ao exercício físico, favorecer a adoção de hábitos saudáveis e contribuir para a permanência dos participantes quando associados à supervisão profissional, triagem adequada e estratégias de retenção, especialmente para iniciantes. (Sperandei et al., 2016; Donelly et al., 2024)

 

    Em síntese, os achados demonstram que a participação em programas universitários de musculação é influenciada por fatores motivacionais, contextuais e institucionais, mais do que pelo estado nutricional. Assim, essas iniciativas devem ser compreendidas como estratégias relevantes de promoção da saúde e permanência estudantil no ensino superior. (Thomazini et al., 2024)

 

Conclusões 

 

    O presente estudo demonstrou que participantes de um programa universitário de musculação apresentam perfil predominantemente jovem, maior participação feminina, aptidão para a prática de atividade física e frequência de treinamento compatível com as recomendações para promoção da saúde. A ausência de associação entre IMC, frequência de prática e prontidão reforça que a adesão ao programa depende de fatores que vão além do estado nutricional.

 

    Os achados evidenciam o potencial dos programas universitários de musculação como estratégias de promoção da saúde e ampliação do acesso ao exercício físico, destacando a importância da triagem inicial, do acompanhamento profissional e de ações voltadas à permanência dos participantes. Estudos futuros devem investigar fatores motivacionais e comportamentais associados à adesão em delineamentos longitudinais.

 

Referências 

 

Aparicio-Chueca, P., Elasri-Ejjaberi, A., e Triadó-Ivern, X. (2021). Perfil de los usuarios de centros deportivos según sus expectativas. Sport TK-EuroAmerican Journal of Sport Sciences, 10(2), 1-10. https://doi.org/10.6018/sportk.438371

 

Couto, D. A. C., Saint Martin, D. R., Molina, G. E., Porto, L. G. G., e Junqueira, L. F., Jr. (2019). Nível insuficiente de atividade física se associa a menor qualidade de vida e ao estudo noturno em universitários do Distrito Federal. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, 41(3), 322–330. https://doi.org/10.1016/j.rbce.2018.04.017

 

Donnelly, S., Penny, K., e Kynn, M. (2024). The effectiveness of physical activity interventions in improving higher education students’ mental health: A systematic review. Health Promotion International, 39(2), daae027. https://doi.org/10.1093/heapro/daae027

 

Garcia-Hermoso, A., López-Gil, J.F., Ramírez-Vélez, R., Brazo-Sayavera, J., Olloquequi, J., e Izquierdo, M. (2023). Adherence to aerobic and muscle-strengthening activities guidelines: A systematic review and meta-analysis. British Journal of Sports Medicine, 57(4), 225–229. https://doi.org/10.1136/bjsports-2022-106189

 

Guedes, D.P., Legnani, R.F.S., e Legnani, E. (2013). Exercise motives in a sample of Brazilian university students. Motriz: Revista de Educação Física, 19(3), 590-596. https://doi.org/10.1590/S1980-65742013000300009

 

Guedes, D.P., Legnani, R.F.S., e Legnani, E. (2012). Motivos para a prática de exercício físico em universitários e fatores associados. Revista Brasileira de Educação Física e Esporte, 26(4), 679-689. https://educa.fcc.org.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1981-46902012000400012

 

Huang, K., Beckman, EM, Ng, N., Dingle, GA, Han, R., James, K., Winkler, E., Stylianou, M., e Gomersall, SR (2024). Effectiveness of physical activity interventions on undergraduate students’ mental health: Systematic review and meta-analysis. Health Promotion International, 39(3), daae054. https://doi.org/10.1093/heapro/daae054

 

Legnani, R.F.S., Guedes, D.P., Legnani, E., Barbosa Filho, V.C., e Campos, W. (2011). Fatores motivacionais associados à prática de exercício físico em estudantes universitários. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, 33(3), 761–772. https://cev.org.br/biblioteca/fatores-motivacionais-associados-pratica-exercicio-fisico-estudantes-universitarios/

 

Liz, C.M., e Andrade, A. (2016). Análise qualitativa dos motivos de adesão e desistência da musculação em academias. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, 38(3), 268-274. https://doi.org/10.1016/j.rbce.2015.11.005

 

Mendes, TB, Souza, KC, França, CN, Rossi, FE, Santos, RPG, Duailibi, K., Tuleta, I., Armond, JE, Stubbs, B., e Neves, LM (2021). Atividade física e sintomas de ansiedade e depressão entre estudantes de medicina durante a pandemia. Revista Brasileira de Medicina do Esporte, 27(6), 618–622. https://doi.org/10.1590/1517-8692202127062021_0059

 

Organização Pan-Americana da Saúde (2019). Ambientes saudáveis para a prática de atividade física nas universidades. OPAS. https://iris.paho.org

 

Prochaska, J.O., e DiClemente, C.C. (1983). Stages and processes of self-change of smoking: Toward an integrative model of change. Journal of Consulting and Clinical Psychology, 51(3), 390-395. https://doi.org/10.1037/0022-006X.51.3.390

 

Santos, D.F.C., Silva, E.S., Ferreira, M.S., e Gordia, A.P. (2024). Prática insuficiente de atividades físicas em universitários do estado da Bahia. Cadernos de Saúde Coletiva, 32(3), e32030296. https://doi.org/10.1590/1414-462X202432030296

 

Silva, R.P., Faber, M.A., Lima, A.B., e Rodrigues, A.J.A. (2021). Análise do estilo de vida e fatores associados de estudantes universitários. Brazilian Journal of Development, 7(3), 33139–33152, 2021. https://doi.org/10.34117/bjdv7n3-844

 

Sousa, T.F., Fonseca, S.A., e Barbosa, A.R. (2013). Perceived barriers by university students in relation to the leisure-time physical activity. Revista Brasileira de Cineantropometria e Desempenho Humano, 15(2), 164-173. http://dx.doi.org/10.5007/1980-0037.2013v15n2p164

 

Sperandei, S., Vieira, M.C., e Reis, A.C. (2016). Adherence to physical activity in an unsupervised setting: Explanatory variables for high attrition rates among fitness center members. Journal of Science and Medicine in Sport, 19(11), 916-920. https://doi.org/10.30958/ajspo.6-2-3

 

Thomazini, J.P.C., Azevedo, M.J., Costa, G.P., e Trapé, A.A. (2024). Relação entre prática de exercícios físicos ou esporte, motivação e barreiras percebidas para a prática em funcionários de uma empresa de agregadores corporativos para academias em São Paulo-SP. Conexões, 21, e023026. https://doi.org/10.20396/conex.v21i00.8674063

 

Warburton, DER, Gledhill, N., Jamnik, VK, Bredin, SSD, McKenzie, DC, Stone, J., Charlesworth, S., e Shephard, RJ (2011). Evidence-based risk assessment and recommendations for physical activity clearance. Applied Physiology, Nutrition, and Metabolism, 36(S1), S266–S298. https://doi.org/10.1139/h11-062

 

Westcott, W.L. (2012). Resistance training is medicine: Effects of strength training on health. Current Sports Medicine Reports, 11(4), 209-216. https://doi.org/10.1249/JSR.0b013e31825dabb8

 

Wewege, MA, Desai, I., Honey, C., Coorie, B., Jones, MD, Clifford, BK, Leake, HB, e Hagstrom, AD (2022). The effect of resistance training in healthy adults on body fat percentage, fat mass and visceral fat: A systematic review and meta-analysis. Sports Medicine, 52, 287-300. https://doi.org/10.1007/s40279-021-01562-2

 

World Health Organization (2000). Obesity: Preventing and managing the global epidemic. WHO Technical Report Series, Nr. 894. WHO. https://apps.who.int/iris/handle/10665/42330

 

World Health Organization (2014). Atividade física. Folha informativa No. 385. WHO. https://actbr.org.br/uploads/arquivo/957_FactSheetAtividadeFisicaOMS2014_port_REV1.pdf

 

World Health Organization (2020). WHO guidelines on physical activity and sedentary behaviour. WHO. https://apps.who.int/iris/handle/10665/325147


Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 31, Núm. 342, Nov. (2026)