Lecturas: Educación Física y Deportes | http://www.efdeportes.com

ISSN 1514-3465

 

Plano Decenal do Esporte do Paraná (2026–2035).

Novos campos de trabalho na Educação Física

Paraná Decennial Sports Plan (2026–2035). New Career Opportunities in Physical Education

Plan Decenal del Deporte de Paraná (2026-2035). Nuevos ámbitos de trabajo en la Educación Física

 

Walcir Ferreira Lima*

walcirflima@uenp.edu.br

Silvia Bandeira da Silva Lima**

silviabslima@uenp.edu.br

Julia Batista da Silva***

julia.silva@discente.uenp.edu.br

Mariane Aparecida Coco+

mariane.coco@uenp.edu.br

Méllanie Beatrice de Lima Barbosa++

mellanie.barbosa@discente.uenp.edu.br

Pedro Lucas Pimentel Quadros de Oliveira+++

pedro.oliveira2@discente.uenp.edu.br

Flávia Évelin Bandeira Lima Valério++++

flavia.lima@uenp.edu.br

 

*Doutor em Atividade Física e Saúde pela Universidad de Extremadura, Espanha

Professor da Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP), em Jacarezinho-PR

Integrante/coordenador do Grupo de Estudos

em Desempenho Motor, Educação, Esporte e Saúde (GEDMES)

**Doutora em Atividade Física e Saúde

Professora da Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP)

Doutora em Atividade Física e Saúde pela Universidad de Extremadura, Espanha

Professora da Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP), em Jacarezinho-PR

Integrante/coordenadora de atividades de pesquisa do Grupo de Estudos

em Desempenho Motor, Educação, Esporte e Saúde (GEDMES)

***Graduanda em Educação Física – Licenciatura

pela Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP), em Jacarezinho-PR

Bolsista do Projeto “Conferência Estadual do Esporte”

Integrante do Grupo de Estudos

em Desempenho Motor, Educação, Esporte e Saúde (GEDMES).

+Mestre em Educação pela Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP)

Graduada em Educação Física – Licenciatura e Bacharelado pela UENP

Professora da Universidade Estadual do Norte do Paraná, em Jacarezinho-PR

Integrante do Grupo de Estudos

em Desempenho Motor, Educação, Esporte e Saúde (GEDMES)

++Cursando Bacharelado em Educação Física

na Universidade Estadual do Norte do Paraná

Graduanda em Educação Física – Bacharelado

pela Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP), em Jacarezinho-PR

Bolsista do Projeto “Conferência Estadual do Esporte”

Integrante do Grupo de Estudos

em Desempenho Motor, Educação, Esporte e Saúde (GEDMES)

+++Graduando em Educação Física – Bacharelado

Bolsista do Projeto “Conferência Estadual do Esporte”

Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP)

Integrante do Grupo de Estudos

em Desempenho Motor, Educação, Esporte e Saúde (GEDMES)

++++Doutora em Ciências do Movimento Humano

Professora da Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP)

Coordenadora do Grupo de Estudos

em Desempenho Motor, Esporte e Saúde (GEDMES)

(Brasil)

 

Recepción: 12/05/2026 - Aceptación: 06/08/2026

1ª Revisión: 29/07/2026 - 2ª Revisión: 03/08/2026

 

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https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/deed.pt

Cita sugerida: Lima, VF, Lima, SBS, Silva, JB, Coco, MA, Barbosa, MBL, Oliveira, PLPQ, e Valério, FEBL (2026). Plano Decenal do Esporte do Paraná (2026–2035). Novos campos de trabalho na Educação Física. Lecturas: Educación Física y Deportes, 31(341), 186-207. https://doi.org/10.46642/efd.v31i341.8951

 

Resumo

    Este artigo tem como objetivo analisar o Plano Decenal do Esporte do Paraná (2026–2035) como indutor de novos campos de trabalho para profissionais de Educação Física, discutindo suas potencialidades, limites e implicações para a área. A partir de um estudo de caso qualitativo, com observação participante nas etapas macrorregionais e estadual da Conferência Estadual do Esporte, e com entrevistas semiestruturadas com dirigentes responsáveis pela elaboração do plano, examinam-se o arcabouço legal, os mecanismos de financiamento fundo a fundo, os três eixos estratégicos – Formação Esportiva, Excelência Esportiva e Esporte para Toda a Vida –, e as propostas sistematizadas na Conferência Universitária do Esporte realizada na Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP). Os resultados indicam que o plano representa um avanço significativo na governança esportiva estadual, com potencial concreto de expandir a oferta de vagas e valorizar a atuação dos profissionais de Educação Física, desde que sustentado por uma mudança cultural de longo prazo e por investimento contínuo na formação e na articulação interinstitucional.

    Unitermos: Plano Decenal do Esporte no Paraná. Gestão pública esportiva. Políticas públicas do esporte.

 

Abstract

    This article analyzes Paraná's Decennial Sport Plan (2026–2035) as an inducer of new labor fields for Physical Education professionals. Drawing on a qualitative case study approach — including participant observation across the plan's regional and statewide Conference stages and semi-structured interviews with key officials — the study examines the legal framework, the fund-to-fund financing mechanisms, the three strategic axes — Sport Formation, Sport Excellence, and Sport for Life —, and the proposals systematized at the University Sport Conference held at Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP). Findings indicate that the plan represents a significant advance in state sport governance, with concrete potential to expand employment opportunities and enhance the recognition of Physical Education professionals, if it is sustained by long-term cultural change and continuous investment in professional training and inter-institutional coordination.

    Keywords: Paraná Decennial Sport Plan. Sport public management. Sport public policies.

 

Resumen

    Este artículo analiza el Plan Decenal de Deportes del Estado de Paraná (2026-2035) como impulsor de nuevos campos de trabajo para los profesionales de la Educación Física, discutiendo su potencial, limitaciones e implicaciones para el área. A partir de un estudio de caso cualitativo, con observación participante en las etapas macrorregional y estatal de la Conferencia Estatal de Deportes, y con entrevistas semiestructuradas a líderes responsables del desarrollo del plan, se examinan el marco legal, los mecanismos de financiamiento entre fondos, los tres ejes estratégicos —Formación Deportiva, Excelencia Deportiva y Deporte para la Vida— y las propuestas sistematizadas en la Conferencia Universitaria de Deportes celebrada en la Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP). Los resultados indican que el plan representa un avance significativo en la gobernanza deportiva estatal, con un potencial concreto para ampliar la oferta de plazas y valorar el desempeño de los profesionales de la Educación Física, siempre que se apoye en un cambio cultural a largo plazo y una inversión continua en capacitación y articulación interinstitucional.

    Palabras clave: Plan Decenal de Deportes del Estado de Paraná. Gestión pública del deporte. Políticas públicas para el deporte.

 

Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 31, Núm. 341, Oct. (2026)


 

Introdução 

 

    A gestão esportiva no Brasil tem passado por transformações significativas, impulsionadas por novas legislações e pela crescente demanda por profissionalização e planejamento estratégico. Esse movimento, longe de ser um fenômeno isolado, reflete mudanças mais amplas na atuação do Estado, que passa a incorporar o esporte como componente relevante das políticas sociais e do desenvolvimento humano, reconhecendo seu potencial não apenas no campo da competição, mas também na inclusão social, na promoção da saúde e na formação cidadã.

 

    No estado do Paraná, a instituição do Plano Decenal do Esporte (2026–2035) emerge como uma iniciativa pioneira que visa ao desenvolvimento esportivo abrangente e integrado, fundamentado em processo de participação democrática conduzido pela Secretaria de Estado do Esporte em parceria com o Conselho Estadual do Esporte. Entretanto, estudos sobre o financiamento público do esporte no Paraná, no período de 2003 a 2017, revelam que o setor nunca ultrapassou 0,15 % do orçamento geral estadual liquidado, sendo marcado por políticas assistemáticas, centradas em eventos esportivos e com baixa prioridade legislativa ao financiamento (Milani et al., 2026). Esse cenário evidencia a histórica marginalidade do esporte na agenda orçamentária estadual, o que torna a emergência de um planejamento decenal ainda mais significativa como possível ponto de inflexão.

 

    O presente artigo apresenta e discute o processo de construção desse plano, com foco especial no papel das Instituições de Ensino Superior (IES) e nos potenciais impactos para a área da Educação Física. A análise é enriquecida pelas perspectivas de dirigentes esportivos diretamente responsáveis pela elaboração do plano e pelas contribuições da comunidade acadêmica, que oferecem um olhar prático e teórico sobre os desafios e oportunidades emergentes. Dessa forma, busca-se preencher uma lacuna analítica relevante: a de que, embora iniciativas dessa natureza representem avanços no planejamento e na organização do esporte, ainda são limitadas as análises que problematizam seu potencial enquanto indutoras de transformações concretas no mundo do trabalho.

 

    No campo da Educação Física, essa lacuna torna-se ainda mais relevante, considerando que a ampliação das políticas públicas de esporte e lazer não se traduz, de forma direta e automática, na criação ou consolidação de novos campos de atuação profissional. Diferentemente de outros setores das políticas públicas, o esporte apresenta características próprias, marcadas pela diversidade de manifestações esportivas, pela multiplicidade de agentes envolvidos e pela necessidade de articulação entre diferentes níveis de governo, instituições e profissionais para sua efetivação. (Starepravo, 2011; Húngaro et al., 2009)

 

    Nesse contexto, a inserção e a valorização dos profissionais de Educação Física estão condicionadas não apenas à existência de programas e ações esportivas, mas também aos processos de institucionalização, financiamento, planejamento e continuidade das políticas públicas implementadas (Bracht, 2011; Canan, Santos, e Starepravo, 2017). Assim, compreender a relação entre políticas públicas esportivas e novos campos de trabalho exige analisar não somente a formulação dessas políticas, mas também os condicionantes estruturais, institucionais e culturais que influenciam sua implementação e materialização.

 

    Nesse contexto, a Conferência Universitária do Esporte – Etapa Livre, realizada na Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP), configura-se como um espaço privilegiado de análise, ao evidenciar as tensões, demandas e perspectivas emergentes no processo de construção do Plano Decenal. A participação da comunidade acadêmica nesse evento permitiu problematizar o papel das IES na agenda esportiva e compreender como diferentes atores percebem as possibilidades e limites dessa política pública.

 

    Diante desse cenário, o presente estudo busca responder à seguinte questão: em que medida o Plano Decenal do Esporte do Paraná (2026–2035) pode efetivamente induzir a criação de novos campos de trabalho para profissionais de Educação Física, considerando os desafios histórico-institucionais envolvidos em sua implementação?

 

    Assim, tem-se como objetivo analisar o referido plano como indutor de novos campos de trabalho, discutindo suas potencialidades, limites e implicações para a área da Educação Física.

 

Arcabouço legal e normativo 

 

    A estruturação do esporte no Brasil é balizada pela Lei Geral do Esporte (Brasil, 2023), que unifica a legislação do setor e institui o Sistema Nacional do Esporte (Sinesp). Essa lei estabelece diretrizes para a promoção, proteção e desenvolvimento do esporte, com ênfase na democratização do acesso, na integridade e na profissionalização da gestão. Ela serve como arcabouço fundamental para as políticas esportivas nos níveis nacional, estadual e municipal, incentivando a criação de sistemas esportivos organizados e a captação de recursos via fundos específicos. (Brasil, 2023)

 

    No âmbito estadual, o Paraná destacou-se pela proatividade na adaptação e regulamentação dessas diretrizes. A Lei Estadual nº 21.405, de 14 de abril de 2023 (Paraná, 2023a), instituiu o Sistema Esportivo Estadual (SEE) e o Fundo Estadual do Esporte (FEE), cujos detalhamentos foram posteriormente regulamentados pelo Decreto Estadual nº 3.809, de 26 de outubro de 2023. Esses instrumentos legais estabelecem as bases para o planejamento esportivo de longo prazo e para a gestão de recursos, promovendo a integração entre os diversos níveis de governo e os atores do ecossistema esportivo. (Paraná, 2023a, 2023b)

 

A política esportiva subnacional em perspectiva internacional: descentralização, o modelo SPLISS e a governança multinível 

 

    A governança do esporte em múltiplos níveis territoriais têm atraído crescente atenção acadêmica desde os anos 2000. Green, e Houlihan (2005), em análise comparada do desenvolvimento do esporte de alto rendimento na Austrália, no Canadá e no Reino Unido, demonstraram que os fracassos de políticas esportivas frequentemente não se originam de deficiências conceituais no nível nacional, mas de “lacunas de implementação” nos níveis subnacionais — isto é, da incapacidade de entes regionais e locais de traduzir diretrizes nacionais em programas operacionais continuados.

 

    Essa constatação foi sistematicamente corroborada em contextos federalistas: no Canadá, pesquisas sobre a província de Ontário demonstraram que os arranjos administrativos no nível provincial moldam os campos organizacionais pelos quais a política esportiva é implementada, e que a fraca coordenação regional limita rotineiramente os resultados de participação e de desenvolvimento da força de trabalho (Rich et al., 2023; Rich et al., 2025). O Plano Decenal do Esporte do Paraná, ao condicionar explicitamente os repasses fundo a fundo à existência de um plano decenal municipal — e ao registrar um salto de aproximadamente 20 para mais de 300 fundos municipais de esporte ativos em dois anos — endereça diretamente o problema da lacuna de implementação identificado na literatura internacional: cria um incentivo estrutural que transforma os municípios de meros receptores passivos de materiais em gestores ativos de programas continuados.

 

    Um dos principais instrumentos analíticos utilizados para comparar sistemas de política esportiva internacionalmente é o modelo Sports Policy Factors Leading to International Sporting Success (SPLISS) — Fatores de Política Esportiva que Conduzem ao Sucesso Esportivo Internacional —, desenvolvido por De Bosscher et al. (2006) e posteriormente expandido para quinze nações no SPLISS 2.0 (De Bosscher et al., 2015).

 

    O modelo organiza a política esportiva de alto rendimento em nove pilares — apoio financeiro; organização e estrutura das políticas esportivas; base e participação; identificação e desenvolvimento de talentos; suporte ao atleta e à carreira pós-esporte; instalações de treinamento; formação e desenvolvimento de treinadores; competições (inter)nacionais; e pesquisa científica — e os situa em dois níveis causais: insumos (Pilar 1, apoio financeiro) e processos (Pilares 2–9, as ações de política que convertem recursos em resultados).

 

    Embora o SPLISS tenha sido concebido primordialmente para comparação transnacional de sistemas esportivos de elite, sua arquitetura conceitual também pode ser empregada para analisar políticas públicas em âmbito subnacional. Nessa perspectiva, os pilares do modelo foram utilizados como referencial analítico para examinar a estrutura do Plano Decenal do Esporte do Paraná, identificando as correspondências entre seus eixos estratégicos e os fatores de política esportiva reconhecidos na literatura internacional. O Quadro 1 sintetiza os principais elementos de convergência identificados.

 

Quadro 1. Correspondência entre os pilares do modelo SPLISS e 

os elementos estratégicos do Plano Decenal do Esporte do Paraná.

Pilar do SPLISS

Elemento identificado

no Plano

Contribuição com

o Plano Decenal

Suporte financeiro

Fundo Estadual do Esporte e mecanismo fundo a fundo

Amplia a capacidade de financiamento e descentraliza a execução das políticas esportivas.

Organização e governança

Sistema Esportivo Estadual e Conselho Estadual do Esporte

Fortalece a coordenação institucional e a governança do esporte no estado.

Participação esportiva

Eixo Esporte para Toda a Vida

Incentiva a prática esportiva em todas as fases da vida, ampliando o acesso e a permanência.

Desenvolvimento de talentos

Eixo Excelência Esportiva e trilha de desenvolvimento de talentos

Estrutura o processo de identificação, formação e acompanhamento de atletas.

Pesquisa e suporte científico

Participação de oito universidades públicas com cursos de Educação Física

Favorece a produção de conhecimento, a qualificação técnica e o apoio científico à gestão esportiva.

Fonte: Elaborado pelos autores com base em De Bosscher et al. (2015) e Paraná (2025).

 

    A análise evidencia que o Plano Decenal do Esporte do Paraná incorpora componentes alinhados a cinco dos nove pilares propostos pelo modelo SPLISS. As convergências identificadas concentram-se nos aspectos relacionados ao financiamento, à governança, à participação esportiva, ao desenvolvimento de talentos e ao suporte científico, demonstrando que o plano contempla dimensões consideradas estratégicas para o fortalecimento das políticas esportivas. Entre os elementos observados, destacam-se a criação do Fundo Estadual do Esporte e do mecanismo de financiamento fundo a fundo, que ampliam a capacidade de investimento e promovem maior descentralização das ações esportivas. Da mesma forma, a instituição do Sistema Esportivo Estadual e do Conselho Estadual do Esporte fortalece a governança, favorecendo a articulação entre os diferentes atores envolvidos na formulação e implementação das políticas públicas.

 

    No que se refere ao desenvolvimento esportivo, o plano contempla tanto estratégias de ampliação do acesso à prática esportiva, por meio do eixo Esporte para Toda a Vida, quanto mecanismos voltados ao esporte de rendimento, representados pelo eixo Excelência Esportiva e pela trilha de desenvolvimento de talentos. Além disso, a participação de oito universidades públicas com cursos de Educação Física evidencia a valorização da produção científica e da qualificação técnica, aproximando pesquisa, formação profissional e gestão esportiva. Embora o Plano Decenal do Esporte do Paraná não tenha sido estruturado explicitamente a partir do modelo SPLISS, as correspondências identificadas indicam que sua concepção incorpora princípios amplamente reconhecidos na literatura internacional sobre políticas esportivas. Esse alinhamento evidencia a aproximação do plano com referenciais consolidados da literatura internacional sobre políticas esportivas e demonstra uma perspectiva integrada de organização do sistema esportivo estadual.

 

    A descentralização da governança esportiva é uma preocupação central na literatura comparada de política esportiva. Teóricos que operam na tradição da governança multinível argumentam que sistemas esportivos eficazes exigem coordenação vertical coerente entre os níveis nacional, regional e local, bem como coordenação horizontal entre campos setoriais como educação, saúde e assistência social (Houlihan, e Green, 2008). A experiência britânica ilustra tanto as promessas quanto as armadilhas da descentralização: a devolução do financiamento do esporte comunitário pela Sport England para as autoridades locais ampliou o acesso no curto prazo, mas também produziu fragmentação, precarização da força de trabalho e excessiva dependência de métricas quantitativas de participação quando os mecanismos de prestação de contas eram mal desenhados. (Mori et al., 2023; Widdop et al., 2018)

 

    O modelo paranaense busca navegar essa tensão por meio de uma arquitetura institucional dual: o Sistema Esportivo Estadual (SEE) confere coerência vertical por meio de exigências de planejamento definidas em lei, enquanto o Conselho Estadual do Esporte promove a coordenação horizontal entre partes interessadas — universidades, governos municipais, federações esportivas e sociedade civil. Esse desenho ecoa a camada de “governança sistêmica” identificada no modelo tridimensional de Henry, e Lee (2004) — governança sistêmica, organizacional e política —, recentemente aplicado a contextos de desempenho esportivo subnacional. (De Bosscher et al., 2015; resultados do SPLISS 2.0)

 

    Uma dimensão comparativa adicional diz respeito à arquitetura de ciclo de vida do plano. A literatura internacional tem criticado a tendência das políticas esportivas de oscilar entre o investimento em desempenho de elite e campanhas episódicas de “esporte para todos”, raramente alcançando integração sustentada entre esses dois objetivos (Green, e Houlihan, 2005; Grix, e Carmichael, 2012). O framework Physical Activity and Sport Participation (PASP) — Participação em Atividade Física e Esporte (Westerbeek et al., 2021), defende uma abordagem populacional de “ecossistema esportivo integral” que conecta a iniciação na infância, a especialização na adolescência, as trilhas de alto rendimento e a participação recreativa ao longo da vida em uma única arquitetura de política coerente. Os três eixos estratégicos do Plano do Paraná — Formação Esportiva (0–17 anos), Excelência Esportiva (talentos e alto rendimento) e Esporte para Toda a Vida (engajamento ativo ao longo da vida) — operacionalizam precisamente esse contínuo de ciclo de vida no nível subnacional, constituindo um caso empírico do modelo PASP em um contexto de Estado federal de renda média. Isso é analiticamente significativo porque a grande maioria dos estudos de política esportiva de ciclo de vida foi conduzida em países de alta renda, unitários ou quase federais (Austrália, Reino Unido, Países Baixos), deixando as dinâmicas de governança de grandes economias federais em desenvolvimento substancialmente subestudadas.

 

    Por fim, a integração deliberada de instituições de ensino superior ao processo de elaboração do Plano Decenal do Esporte do Paraná suscita questões de relevância teórica na literatura de política esportiva sobre coprodução do conhecimento. Chalip, e Johnson (1996) e, mais recentemente, Bloyce, e Smith (2010) argumentaram que a distância epistêmica entre a ciência do esporte acadêmica e a formulação governamental de políticas esportivas constitui um obstáculo estrutural persistente à política baseada em evidências. Estudos no Reino Unido, no Canadá e na Austrália documentaram exemplos isolados de colaboração universidade-governo no design de políticas esportivas, mas esses têm sido tipicamente contratuais e ex-post (isto é, as universidades são contratadas para avaliar políticas já decididas), e não deliberativos e ex-ante (isto é, as universidades contribuem para a formulação dos objetivos da política antes que as decisões sejam tomadas). (Lindsey, e Bacon, 2016; Houlihan, e Green, 2008)

 

    O caso paranaense inverte esse padrão: oito universidades estaduais com cursos de Educação Física participaram das etapas macrorregionais e estadual da Conferência, e a Conferência Universitária do Esporte — realizada na UENP — gerou mais de 150 propostas formalmente registradas, posteriormente submetidas à Secretaria de Estado do Esporte para integração ao plano. Essa modalidade deliberativa e ex-ante de envolvimento universitário na formulação de política esportiva subnacional representa um arranjo institucional distintivo que, até onde é do conhecimento dos autores, não foi documentado nessa escala na literatura comparada de política esportiva, constituindo, portanto, uma das contribuições empíricas originais do presente estudo.

 

Planejamento estratégico e políticas públicas de esporte 

 

    A construção de políticas públicas estruturantes e de longo prazo constitui um dos pilares fundamentais para o desenvolvimento consistente e sustentável de qualquer setor da sociedade. No âmbito esportivo, essa premissa torna-se ainda mais relevante, dada a capacidade de transformação social, promoção da saúde, formação cidadã e revelação de talentos que o esporte encerra.

 

    A literatura sobre políticas públicas de esporte no Brasil — incluindo estudos sobre o Plano Nacional do Esporte (PNEsporte) — aponta para a complexidade do campo, influenciado por disputas políticas e pela interdependência entre governos, pesquisadores e sociedade (Starepravo et al., 2011). O planejamento estratégico é identificado como fator determinante para o sucesso de organizações esportivas, permitindo que respondam melhor às demandas e desafios do contexto contemporâneo. A deficiência na gestão, mais do que a falta de recursos em si, pode representar um importante desafio para o desenvolvimento do esporte no Brasil. (Pires, e Sarmento, 2001; Melo Filho, 2018)

 

O Plano Decenal e seus eixos estruturantes 

 

    O Plano Decenal do Esporte do Paraná (2026–2035) organiza-se em três eixos estratégicos complementares, visando ao atendimento do cidadão paranaense em todas as fases da vida. O eixo Formação Esportiva tem como ementa assegurar o acesso à prática esportiva por meio de múltiplas vivências corporais para crianças e adolescentes (0–17 anos), de forma sistemática, lúdica e inclusiva, dentro e fora do ambiente escolar. O eixo Excelência Esportiva prevê o aperfeiçoamento, a especialização e o suporte ao alto rendimento, visando a identificar e desenvolver potenciais talentos com condições adequadas de treinamento, incluindo suporte para a conciliação com a vida escolar e planejamento para a transição de carreira pós-alto rendimento.

 

    O eixo Esporte para Toda a Vida dedica-se à consolidação de hábitos saudáveis ao longo da existência, valorizando o prazer e a diversão independentemente do nível de envolvimento competitivo ou da condição física, econômica e social do indivíduo, e fomentando a prática esportiva como ferramenta para a adoção de um estilo de vida ativo e saudável. Esses três eixos são articulados por um eixo transversal, responsável por integrar temáticas comuns e favorecer o alinhamento das discussões e das propostas formuladas no âmbito do plano. (Paraná, 2025)

 

Metodologia 

 

    O presente estudo caracteriza-se como um estudo de caso (Yin, 2015), com abordagem qualitativa e natureza descritiva. A escolha por esse delineamento metodológico justifica-se por tratar-se da análise de um fenômeno específico, contemporâneo e inserido em contexto real, relativo à formulação de uma política pública esportiva de longo prazo no estado do Paraná.

 

    A pesquisa adotou como principal estratégia a observação participante. Essa técnica assenta no princípio de que qualquer modalidade de observação — seja científica ou quotidiana, direta ou indireta — capacita o investigador a identificar problemas, apreender conceitos, analisar relações e aplicar esquemas de diferenciação analítica (Evertson, e Green, 1986). Assim, a articulação dos dados observados possibilita uma compreensão abrangente das conexões conceituais entre os problemas estudados, favorecendo, inclusive, a emergência e a indiciação de novas questões de investigação (Mónico, 2010). A escolha pela observação participante justifica-se por permitir não apenas a descrição dos acontecimentos, mas também a apreensão aprofundada dos significados, das interações e dos conflitos inerentes ao processo de construção de uma política pública. A inserção no terreno enquanto equipe de apoio viabilizou a vivência direta do cotidiano do evento, proporcionando uma compreensão empírica das negociações e tensões implícitas — elementos inacessíveis por meio de outras abordagens metodológicas — e enriquecendo, assim, a análise do estudo de caso.

 

    Os pesquisadores foram vinculados ao projeto por meio do edital "EG/PROEC – 001/2025 – UENP Programa de Extensão 'Encomenda Governamental 001/2025'", atuando como equipe de apoio (staff) nas etapas macrorregionais e na etapa estadual final da Conferência Estadual do Esporte. Nessa condição, os pesquisadores desempenharam funções operacionais — cronometragem, registro de informações, orientação aos participantes, suporte logístico e produção de registros audiovisuais — sem participação nas votações ou tomadas de decisão, o que lhes conferiu uma posição privilegiada de observação das dinâmicas organizacionais.

 

    Complementarmente, foram realizadas entrevistas semiestruturadas com dois dirigentes diretamente responsáveis pela elaboração do plano: (a) o representante da Secretaria de Estado do Esporte, Marcos Aurelio Schemberger (identificado neste estudo com pseudônimo "Padre"); e (b) o representante do Conselho Estadual do Esporte, identificado nominalmente como Dilson José de Quadros Martins, conforme autorização dos participantes. Ambos participaram diretamente do processo de elaboração do Plano Decenal do Esporte do Paraná e contribuíram com informações sobre sua concepção e implementação. Para fins de apresentação e análise dos dados, os depoimentos dos participantes serão identificados pelas seguintes referências: Padre (2026) e Martins (2026).

 

    As entrevistas foram realizadas em março de 2026 e tratam de percepções sobre os impactos esperados do plano para a Educação Física e para o mercado de trabalho. A escolha por entrevistas semiestruturadas possibilitou conciliar a exploração de temas previamente definidos com a abertura para emergências discursivas relevantes, permitindo maior aprofundamento nas interpretações dos sujeitos.

 

    A Conferência Universitária do Esporte – Etapa Livre, realizada na UENP em 14 de julho de 2025, constituiu-se como etapa complementar ao processo, organizada por docentes e discentes do curso de Educação Física. Os relatos e contribuições dos estudantes foram registrados por meio de gravações de áudio e vídeo, sistematizados em planilha e encaminhados à Secretaria do Esporte para integração ao Plano Decenal. Para os participantes que preferiram não se manifestar oralmente, foi disponibilizado formulário digital (Google Forms), ampliando o alcance da participação.

 

    As quatro etapas macrorregionais foram realizadas em Ponta Grossa, Toledo, Londrina e Maringá, e a etapa estadual final ocorreu em Foz do Iguaçu, entre os dias 2 e 5 de setembro de 2025, reunindo aproximadamente 1.200 participantes. O Quadro 2 apresenta a distribuição regional, os municípios-sede e as universidades parceiras.

 

Quadro 2. Distribuição macrorregional, municípios-sede, participantes estimados e universidades parceiras

Macrorregional

Escritórios-sede

(Nº de municípios)

Total de municípios

Participantes estimados

Universidades regionalizadas

1

Curitiba (36)

Ponta Grossa (31)

Guarapuava (25)

União da Vitória (15)

102

306

UEPG, UNICENTRO (Guarapuava), UNICENTRO (Irati)

2

Cornélio Procópio (36)

Ivaiporã (31)

Londrina (27)

94

282

UENP, UEL

3

Maringá (30)

Umuarama (30)

Campo Mourão (29)

Paranavaí (24)

113

339

UEM, UNESPAR (Paranavaí)

4

Cascavel (30)

Pato Branco (30)

Foz do Iguaçu (30)

90

270

UNIOESTE

Total

399

1.197

8 IES públicas

Fonte: Elaborado pelos autores, com dados da Secretaria de Estado do Esporte do Paraná (2025)

 

    Para a análise dos dados oriundos das entrevistas e observações, empregou-se a Análise de Conteúdo temática de Bardin (2016). O procedimento envolveu três etapas: (1) pré-análise, com organização do corpus; (2) exploração do material, mediante codificação e categorização; e (3) tratamento dos resultados, com interpretação inferencial. As categorias foram construídas “a posteriori”, a partir da frequência e pertinência dos temas recorrentes nos relatos e nas anotações de campo, resultando em: "integração universidade-gestão", "impacto do financiamento na oferta de trabalho" e "desafios da continuidade das políticas". A interpretação apoiou-se nos modelos de governança esportiva de De Bosscher et al. (2006) e Green, e Houlihan (2004).

 

Resultados e discussão 

 

Integração academia-gestão: um ecossistema em formação 

 

    Um dos aspectos mais distintivos do processo de construção do Plano Decenal foi a integração, inédita no estado do Paraná, entre universidades públicas e a gestão esportiva estadual. Padre (2026) ressalta que, historicamente, as IES estaduais "nunca foram consultadas ou convidadas a participar da elaboração de alguma proposta de esporte no estado do Paraná". Para ele, a parceria cumpriu dois papéis fundamentais:

    Levar para dentro da universidade, principalmente para os estudantes de Educação Física, o conhecimento do que acontece na questão do esporte no Paraná, por meio da gestão esportiva do estado [...] o conhecimento da academia sobre o que acontece na prática e o relacionamento com os gestores, para que, junto das universidades, possamos conhecer melhor as pessoas que fazem parte desse contexto (Padre, 2026).

    Martins (2026) reforça essa perspectiva ao explicitar o propósito sistêmico do plano:

    O Plano Decenal tem o propósito de integrar todos os atores que compõem o que se chama de cadeia produtiva do esporte ou ecossistema esportivo — pessoas e instituições que atuam ou têm algum interesse no esporte, entre eles os professores e profissionais da Educação Física. [...] não é somente cada um fazendo o seu, mas cada um fazendo o seu e ajudando o todo, o funcionamento de um sistema estadual de esportes" (Martins, 2026).

    O envolvimento de oito universidades públicas com cursos de Educação Física no processo de discussão e elaboração do plano representa, portanto, um indicativo concreto de integração que precisa ser continuamente estimulada para garantir a formação de profissionais alinhados às necessidades do sistema esportivo. (Paraná, 2025)

 

Financiamento e interiorização do esporte: o repasse fundo a fundo 

 

    O mecanismo de repasse fundo a fundo constitui um instrumento de descentralização financeira que possibilita a transferência direta de recursos do Fundo Estadual do Esporte para os Fundos Municipais de Esporte, sem a necessidade de celebração de convênios ou instrumentos de parceria entre os entes federativos. Diferentemente dos modelos tradicionais de repasse, caracterizados por processos mais burocráticos e dependentes de editais ou acordos específicos, essa sistemática busca conferir maior agilidade ao financiamento das políticas esportivas, permitindo que os municípios planejem e executem ações de acordo com suas demandas locais. Contudo, a autonomia proporcionada pelo modelo está condicionada à existência de estruturas administrativas, capacidade técnica e planejamento institucional nos municípios, aspectos apontados pelos dirigentes entrevistados como fatores determinantes para a efetividade da política.

 

    Nesse sentido, um aspecto relevante para a análise dos impactos do Plano Decenal do Esporte do Paraná refere-se à expansão dos Fundos Municipais de Esporte, considerados uma condição necessária para a operacionalização do modelo fundo a fundo. Segundo Padre (2026), houve um crescimento expressivo na adesão dos municípios paranaenses: em março de 2024, aproximadamente 20 municípios possuíam fundos municipais de esporte ativos, enquanto, em março de 2026, esse número ultrapassava 300 municípios. Para o entrevistado, essa ampliação representa uma mudança significativa na capacidade de investimento público no setor:

    Isso representa um benefício financeiro importante para o estado do Paraná e para os municípios, que passam a poder investir em programas de esporte e lazer em todas as categorias, desde crianças até a melhor idade, além de infraestrutura. (Padre, 2026)

    A ampliação dos fundos municipais demonstra uma tentativa de consolidar uma lógica de corresponsabilidade entre Estado e municípios, substituindo gradativamente uma perspectiva baseada apenas na transferência pontual de materiais e recursos por um modelo estruturado de planejamento e execução de políticas esportivas. Entretanto, conforme destacado pelos participantes, a efetividade desse processo depende da qualificação das gestões locais para elaboração de planos, organização administrativa e aplicação adequada dos recursos.

 

    Martins (2026) complementa essa perspectiva ao destacar que o planejamento decenal municipal passou a constituir um requisito para o recebimento de recursos por meio da modalidade fundo a fundo, em consonância com as diretrizes estabelecidas pela Lei Geral do Esporte e pela regulamentação do Sistema Esportivo Estadual. Dessa forma, o mecanismo passa a funcionar não apenas como uma estratégia de financiamento, mas também como um indutor de institucionalização da política esportiva nos municípios, especialmente naqueles de pequeno e médio porte, que historicamente apresentavam menor capacidade de planejamento e gestão.

 

    O Quadro 3 sintetiza as principais diferenças entre o modelo anterior de gestão esportiva e as perspectivas abertas pelo novo sistema.

 

Quadro 3. Gestão esportiva no Paraná: cenário anterior versus perspectivas do Plano Decenal

Dimensão de análise

Cenário anterior (tradicional)

Perspectiva do Plano Decenal (SEE/PR)

Planejamento

Focado em curto prazo e eventos isolados.

Estratégico para 10 anos (estado e municípios).

Financiamento

Projetos pontuais e fragmentados.

Modalidade fundo a fundo; Fundo Estadual do Esporte.

Integração

Atores atuando de forma isolada.

Funcionamento sistêmico; ecossistema esportivo.

Oferta esportiva

Concentrada em modalidades tradicionais.

Diversificada; novos projetos e áreas de atuação.

Mercado de trabalho

Demanda limitada a eventos e jogos.

Expansão contínua; novos campos para Educação Física.

Gestão municipal

Carência de planejamento sistêmico.

Sistema ordenado e harmônico; governança clara.

Percentual do orçamento estadual destinado ao esporte

≤ 0,15 % (2003–2017)

A ser monitorado.

Fonte: Elaborado pelos autores, com base nas entrevistas de Martins (2026) e Padre (2026).

 

Impactos na empregabilidade e valorização do profissional de Educação Física 

 

    A convergência entre as opiniões dos dirigentes indica um aumento real e progressivo na demanda por profissionais de Educação Física. Segundo Martins (2026), a obrigatoriedade do planejamento decenal nos municípios cria um "ambiente favorável ao aumento da oferta esportiva" e, consequentemente, à contratação de novos profissionais. Padre (2026) reitera essa tendência:

    Gradativamente, esses municípios, principalmente os menores, que possuem um corpo técnico especializado muito reduzido, sentirão a necessidade de contratar novos profissionais, em virtude do retorno de ações específicas, tanto esportivas quanto financeiras, que ocorrerão após a implantação do Plano Decenal no estado. (Padre, 2026)

    Para Martins (2026), o principal resultado esperado é a constituição de um ciclo virtuoso de desenvolvimento:

    Esse é, para mim, o principal resultado da proposta, pois decorre dessa compreensão a integração das ações e o aumento da oferta esportiva para as pessoas de forma ordenada, criando um ciclo virtuoso de desenvolvimento do esporte no âmbito da formação, excelência e esporte para a vida toda. Porém, é importante considerar que se trata de mudança cultural, portanto, de longo prazo. (Martins, 2026)

    A valorização profissional emerge, assim, não apenas como efeito econômico, mas como resultado de uma mudança estrutural na concepção e na organização do esporte paranaense. Nesse sentido, a análise dos eixos do Plano Decenal, articulada às falas dos dirigentes, permite identificar diferentes frentes de atuação que podem ampliar as possibilidades de inserção e de valorização do profissional de Educação Física no âmbito das políticas públicas de esporte. Entre elas, destacam-se:

 

    A partir da análise dos eixos do Plano Decenal e de sua articulação com as falas dos dirigentes, identificam-se quatro possibilidades concretas de atuação que podem ampliar os espaços de inserção do profissional de Educação Física nas políticas públicas de esporte:

  • Gestão Municipal de Esporte: a exigência do planejamento decenal para a organização das políticas esportivas municipais pode ampliar a necessidade de profissionais capacitados para elaborar projetos, planejar ações, acompanhar sua execução e gerenciar recursos públicos. Essa possibilidade é especialmente relevante nos municípios de pequeno porte, nos quais, conforme apontado pelos dirigentes, o corpo técnico especializado ainda é reduzido.

  • Coordenação de Programas de Formação Esportiva: a implementação do eixo “Formação Esportiva”, voltado à população de 0 a 17 anos, amplia as possibilidades de atuação na coordenação e no desenvolvimento de programas esportivos em diferentes espaços, como escolas, clubes, projetos sociais e centros comunitários. A diversificação das modalidades previstas também pode contribuir para a ampliação dos campos de atuação profissional.

  • Esporte Adaptado e Inclusivo: as ações relacionadas ao eixo “Inclusão e Diversidade” evidenciam a necessidade de profissionais preparados para desenvolver práticas esportivas destinadas a pessoas com deficiência, idosos e diferentes grupos em situação de vulnerabilidade. Nesse campo, a qualificação específica do profissional de Educação Física pode assumir papel estratégico para a efetivação das políticas de inclusão esportiva.

  • Esporte e Saúde: a articulação entre esporte, atividade física e políticas de saúde, prevista no eixo “Esporte para Toda a Vida”, amplia as possibilidades de atuação em programas de promoção da saúde, prevenção de doenças crônicas e incentivo à prática regular de atividade física. Essa perspectiva também favorece a inserção do profissional de Educação Física em equipes multiprofissionais e em ações desenvolvidas no âmbito das políticas públicas de saúde.

    Desse modo, os efeitos esperados do Plano Decenal ultrapassam a ampliação quantitativa da oferta esportiva, podendo repercutir também na diversificação dos espaços de atuação e no reconhecimento das competências do profissional de Educação Física. A gestão, a formação esportiva, a inclusão e a promoção da saúde constituem, nesse cenário, campos estratégicos nos quais a atuação profissional pode contribuir para a implementação das políticas esportivas e, simultaneamente, fortalecer a valorização da profissão.

 

Propostas da Conferência Universitária do Esporte – UENP 

 

    As discussões realizadas na Conferência Universitária do Esporte – UENP produziram propostas distribuídas em sete eixos de ação, sistematizadas no Quadro 4. Destaca-se a ampla convergência entre as demandas estudantis e os eixos estruturantes do Plano Decenal, evidenciando a pertinência da inserção das IES no processo.

 

Quadro 4. Síntese das propostas da Conferência Universitária do Esporte – UENP

Eixo de ação

Propostas principais

Formação Esportiva

Implementação de aulas obrigatórias de Educação Física na Educação Infantil; criação de centros regionais de iniciação esportiva; ampliação do programa Geração Olímpica.

Engajamento Familiar

Criação de projetos lúdicos integrando escolas e famílias; organização de festivais, oficinas e eventos escolares com participação familiar.

Investimento e Terceiro Setor

Editais específicos com regras simples e duradouras; suporte técnico e capacitação; governança compartilhada mediante legislação estadual.

Excelência e Longo Prazo

Formação multiesportiva na infância; postergação da especialização precoce; suporte psicossocial e educacional para atletas.

Saúde e Bem-Estar

Integração do esporte às políticas de saúde e assistência social; atividades acessíveis para todas as faixas etárias; valorização do esporte como instrumento de prevenção e saúde mental.

Inclusão e Diversidade

Programas adaptados e infraestrutura acessível para pessoas com deficiência e idosos; projetos voltados a populações vulneráveis (indígenas, LGBTQIA+, migrantes).

Tecnologia e Inovação

Uso de aplicativos, inteligência artificial e realidade virtual na educação esportiva; incentivo à pesquisa aplicada e ao empreendedorismo em startups esportivas; integração ensino-extensão-comunidade.

Fonte: Dados dos anais da Conferência Universitária do Esporte (UENP, 2025)

 

    Além dessas propostas, a conferência evidenciou demandas relacionadas à valorização profissional: criação de plano de carreira com salários dignos, investimento em formação continuada e especializações, combate ao exercício ilegal da profissão, e fortalecimento da articulação entre universidades, conselhos profissionais e mercado de trabalho. Tais demandas dialogam diretamente com o eixo transversal do Plano Decenal e com os desafios identificados pelos dirigentes entrevistados.

 

Desafios e a questão da mudança cultural 

 

    Apesar do otimismo que permeia os depoimentos dos dirigentes, ambos alertam para a dimensão cultural da transformação pretendida. Martins (2026) enfatiza que os avanços são "concretos e irreversíveis", mas que a integração entre o Fundo Estadual, o Conselho Estadual e a Secretaria de Estado do Esporte precisam ser continuamente estimulados para que o "ciclo virtuoso" não se perca.

 

    Padre (2026) destaca que o maior desafio interno foi fazer com que os próprios integrantes da Secretaria compreendessem "o grau de importância da participação das universidades", e que, externamente, foi necessário demonstrar às IES que a Educação Física deve ser valorizada como qualquer outro curso de ensino superior. Esses relatos indicam que a mudança não é apenas organizacional, mas também simbólica e cultural — o que implica horizontes de tempo mais longos e a necessidade de continuidade das políticas além dos ciclos eleitorais.

 

    Essa dimensão cultural torna-se ainda mais complexa quando considerada à luz do histórico das políticas esportivas no estado. A dificuldade de consolidação de políticas contínuas no Paraná, evidenciada pelo predomínio de emendas parlamentares voltadas à infraestrutura e pela baixa execução orçamentária em diversos exercícios (Milani et al., 2026), sugere que a efetividade do Plano Decenal dependerá não apenas da ampliação de recursos, mas de uma reconfiguração mais profunda da cultura político-administrativa.

 

Conclusões 

 

    O Plano Decenal do Esporte Paranaense (2026–2035) representa a transição do esporte, no estado do Paraná, de um modelo centrado no "calendário de eventos" para uma concepção de política de Estado de longo prazo. Essa mudança implica não apenas uma reorganização institucional, mas também uma redefinição das prioridades e das formas de atuação no campo esportivo. As perspectivas dos dirigentes entrevistados, somadas às contribuições da comunidade universitária da UENP, indicam que o Paraná está construindo um modelo de gestão esportiva com potencial de referência nacional.

 

    A escolha metodológica pelo estudo de caso possibilitou compreender em profundidade um fenômeno contemporâneo inserido em seu contexto real, considerando a complexidade das relações institucionais, políticas e sociais envolvidas na construção do Plano Decenal, conforme proposto por Yin (2015). Além disso, a observação participante contribuiu para a aproximação com o campo investigado, permitindo acompanhar processos, interações e significados atribuídos pelos diferentes atores envolvidos, perspectiva alinhada aos pressupostos qualitativos discutidos por Minayo (2007).

 

    Os principais avanços identificados são: (a) o salto expressivo na criação de Fundos Municipais de Esporte (de 20 para mais de 300 municípios em dois anos); (b) a integração inédita de oito universidades públicas com cursos de Educação Física no processo de elaboração do plano; (c) a estruturação de três eixos estratégicos complementares que abrangem toda a trajetória esportiva do cidadão paranaense; e (d) a produção participativa de mais de 150 propostas e moções, com mais de 60.000 votos registrados ao longo de todo o processo.

 

    Para a área de Educação Física, o Plano Decenal apresenta possibilidades de ampliação dos campos de atuação profissional, especialmente a partir da estruturação de novas demandas relacionadas à gestão esportiva pública, à elaboração, execução e avaliação de programas esportivos, ao acompanhamento das ações financiadas pelos Fundos Municipais de Esporte, à atuação nos municípios por meio do fortalecimento do Sistema Esportivo Estadual e ao desenvolvimento de projetos voltados ao esporte educacional, de participação e de excelência. Entretanto, a concretização dessas possibilidades depende da continuidade das ações previstas, da institucionalização das políticas e do fortalecimento da articulação entre estado, municípios, universidades, entidades esportivas e sociedade civil.

 

    Como desdobramento desta pesquisa, recomenda-se o acompanhamento longitudinal da implementação do Plano Decenal após sua conversão em Projeto de Lei, bem como a realização de estudos comparativos com iniciativas similares em outros estados brasileiros, visando à sistematização de boas práticas em gestão esportiva pública.

 

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