ISSN 1514-3465
A filosofia do cuidado de si e a hermenêutica
da liberdade. Integração entre o corpo e a mente
The Philosophy of Self-Care and the Hermeneutics of Freedom. Body and Mind Integration
La filosofía del cuidado de sí y la hermenéutica de la libertad. Integración entre cuerpo y mente
Zilda Dalliany Lisboa Arruda de Melo
*Tadeu João Ribeiro Baptista
**tadeujrbaptista@yahoo.com.br
*Fisioterapeuta pela Faculdade Estácio do Rio Grande do Norte
Mestre em Educação Física pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte
Responsável
técnica pelo Studio de Fisioterapia e Pilates Mais Movimento
**Licenciatura em Educação Física/ESEFFFEGO
mestrado em Educação Brasileira/UFG
Doutorado em Educação/UFG
Pós-Doutorado em Educação/UNICAMP
Docente da Universidade Federal do Rio Grande do Norte
(Brasil)
Recepción: 12/05//2026 - Aceptación: 19/09/2026
1ª Revisión: 27/08/2026 - 2ª Revisión: 07/09/2026
Documento acessível. Lei N° 26.653. WCAG 2.0
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Cita sugerida
: Melo, Z.D.L.A. de, e Ribeiro, B.T.J. (2026). A filosofia do cuidado de si e a hermenêutica da liberdade. Integração entre o corpo e a mente. Lecturas: Educación Física y Deportes, 31(341), 144-157. https://doi.org/10.46642/efd.v31i341.8950
Resumo
O acesso aos modelos de sucesso pode dispersar da premência do cuidado de si. Todavia, o Estado tem responsabilidade social com a vida humana, porém, sem cercear a liberdade. O objetivo deste artigo é debater a filosofia do cuidado de si e a hermenêutica da liberdade, a partir do vínculo entre o corpo e a mente, tendo como autores de referência Foucault, Pilates e Merleau-Ponty. O primeiro nos leva através de uma busca aos modos de subjetivação do sujeito relacionado à percepção mental do mundo, sem desconsiderar as parcialidades morais, éticas e não apenas epistemológicas do estudo. Já o segundo autor, trata de uma filosofia do corpo, muito mais relacionada ao físico, sendo que para isso, a mente também é um dos principais caminhos de orientação através da utilização dos seus princípios. O terceiro traz na corporeidade uma integração entre o corpo e a mente. Permeando diversos autores/pesquisadores, tais estudos filosóficos, quando geminados (mental e físico), conduzem propósitos subjetivos de busca por linhas de saúde e bem-estar que nos levam a importantes conquistas de liberdade, felicidade e disposição.
Unitermos:
Filosofia do cuidado de si. Hermenêutica da liberdade. Integração entre corpo e mente.
Abstract
Access to role models of success can distract from the urgency of self-care. However, the state has a social responsibility toward human life, without, however, restricting freedom. This article aims to discuss the philosophy of self-care and the hermeneutics of freedom, based on the connection between the body and the mind, drawing on the Foucault, Pilates, and Merleau-Ponty works. The first author guides us through an exploration of the modes of subjectivation of the subject related to the mental perception of the world, without disregarding the moral and ethical, and not merely epistemological, dimensions of the study. The second author, meanwhile, addresses a philosophy of the body, one much more closely tied to the physical, wherein the mind also serves as a primary pathway of orientation through the application of its principles. The third author brings to corporeality an integration between body and mind. Permeating the work of various authors and researchers, such philosophical studies, when combined (mental and physical), lead to subjective pursuits of health and well-being that bring us to significant achievements in freedom, happiness, and vitality.
Keywords
: Self-care philosophy. Freedom hermeneutics. Body and mind integration.
Resumen
El acceso a modelos exitosos puede distraer de la urgencia del cuidado de sí. Sin embargo, el Estado tiene una responsabilidad social hacia la vida humana, pero sin restringir la libertad. El objetivo de este artículo es analizar la filosofía del autocuidado y la hermenéutica de la libertad, basándose en la relación entre cuerpo y mente, utilizando a Foucault, Pilates y Merleau-Ponty como autores de referencia. El primero nos guía en la búsqueda de los modos de subjetivación del sujeto relacionados con la percepción mental del mundo, sin descuidar las implicaciones morales, éticas y, sobre todo, epistemológicas del estudio. El segundo autor aborda una filosofía del cuerpo, mucho más ligada a lo físico, donde la mente constituye una de las principales vías de orientación mediante el uso de sus principios. El tercero introduce en la corporalidad una integración entre cuerpo y mente. Estos estudios filosóficos, presentes en diversas obras de autores e investigadores, al combinarse (mental y físico), conducen a propósitos subjetivos de búsqueda de salud y bienestar que nos llevan a importantes logros de libertad, felicidad y disposición.
Palabras clave:
Filosofía del cuidado de sí. Hermenéutica de la libertad. Integración entre cuerpo y mente.
Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 31, Núm. 341, Oct. (2026)
Introdução
Ao se pensar no autocuidado, as primeiras questões que surgem são relacionadas à atenção ao corpo por meio da alimentação e das práticas corporais, contudo, responsabilidade e dedicação com a parte mental, psicológica e a forma de viver no mundo são tão importantes quanto, e por isso não podem ser negligenciadas. Pensando nisso, não é difícil perceber a importância deste caminho no combate aos problemas de tristeza, depressão e ainda identificar a base científica e os diferentes meios do cuidado de si, reunindo os estudos e ideias que corroboram para um viver mais baseado em nossas vontades e reais necessidades, do que nos ditames mercadológicos e doutrinários da sociedade. Ao ser expostos a diferentes modelos de sucesso, ha uma tendência de se perder a compreensão de que é importante manter certa vigilância em relação à dificuldade de se garantir o cuidado de si. A responsabilidade social e política do Estado referente à vida humana deve ser efetuada e gestada de tal forma que não restrinja a liberdade dessa vida.
A revisão narrativo reflexiva aqui apresentada, mostra uma visão mais aguçada, tendo como ponto inicial basilar o pensamento de Michel Foucault, Joseph Pilates e Maurice Merleau Ponty, cada qual com sua linha filosófica. Estes novos horizontes de pensamentos surgiram principalmente para combater vícios e desvios de um mundo onde os poderes de dominação políticos e religiosos, ditam as regras, baseadas em ideias de cuidado e proteção questionáveis, muito mais ligados à construção de normas e deveres para o controle social através das comunidades do que aos propósitos iniciais, sendo que algumas destas construções são tão antigas que nem mesmo seus coadjuvantes se dão conta. Embora isso funcione para uma parcela da sociedade, o teor compulsório acaba sendo muito prejudicial para muitos, uma vez que toda essa estrutura cria uma espécie de base prisional invisível. (Foucault, 2008a)
Assim, justificam-se trabalhos que se ocupam em apontar novas perspectivas para resolver estas questões específicas que levam o grupo, através das ideias do cuidado a se conhecerem e criarem mecanismos para sua proteção, seu viver melhor e sua liberdade. Dessa forma, o objetivo central do artigo é debater a filosofia do cuidado de si e a hermenêutica da liberdade, a partir do vínculo entre o corpo e a mente, tendo como autores de referência Foucault, Pilates e Merleau-Ponty.
Abordagem hermenêutica
A hermenêutica em um sentido geral, refere-se à teoria e prática da interpretação, especialmente de textos e discursos, porém Foucault, para ampliar sua filosofia, não se limitou a ela no sentido tradicional, mas desenvolveu uma análise crítica das formas como o conhecimento e o poder se entrelaçam e moldam a realidade, possibilitando significativa expansão de nossa visão de mundo. A fluidez dos direcionamentos para a abordagem hermenêutica foucaultiana nos levam às questões filosóficas do corpo e da mente onde aludir a educação física junto à filosofia, teríamos as linhas de Joseph Pilates, e sua técnica poderia ser considerada como essa interlocução entre o corpo e a mente, através dos exercícios conjuntos aos seus seis princípios1. (Foucault, 1988)
Michel Foucault, em sua obra sobre o "cuidado de si" (ou "soin de soi", no original francês), examina a prática filosófica e ética da antiguidade, especialmente em sua última fase de vida. Em textos como "A Hermenêutica do Sujeito" e "O Nascimento da Biopolítica", ele explora como os indivíduos, na Grécia e Roma antigas, se dedicavam a um tipo de autocuidado que visava não apenas o desenvolvimento pessoal, mas a própria constituição ética do sujeito. (Foucault, 2008a)
Para Foucault, o "cuidado de si" é uma prática essencialmente ética, que envolve uma série de técnicas e reflexões voltadas para a formação e manutenção da própria identidade. Não se trata apenas de cuidados físicos ou materiais, mas de uma atenção constante à própria maneira de ser e agir. Essa prática antiga estava profundamente ligada à noção de liberdade, pois, para os antigos, ser livre significava também ter controle e conhecimento sobre si mesmo e a possibilidade de agir de acordo com a moral e a ética, devidamente revisada para se alinhar àquilo que cada um mais acreditava. (Foucault, 2000)
Práticas de subjetivação na modernidade
No contexto contemporâneo, a noção de cuidado de si precisa ser reavaliada frente às transformações nos modos de subjetivação. A modernidade trouxe mudanças profundas na forma como os sujeitos percebem e se relacionam com o mundo e consigo mesmos. A individualização e a medicalização da vida cotidiana, por exemplo, alteraram significativamente as práticas de cuidado pessoal e sua relação com a liberdade.
Atualmente, o sujeito moderno é moldado por uma combinação de forças compelidas por exigências sociais e culturais às pressões econômicas e tecnológicas. As práticas de cuidado de si, na era contemporânea, são muitas vezes mediadas por discursos sobre saúde, eficiência e sucesso, e a liberdade é frequentemente percebida em termos de escolha e autonomia individual (Amaral, Neves, e Baptista, 2022). No entanto, esse novo paradigma não é isento de desafios. A liberdade, na era da auto-otimização e da auto-vigilância, pode se transformar em uma forma de controle interno, em que o sujeito se torna simultaneamente o monitor e o monitorado de suas próprias práticas de vida, conduzidas por ideais que não são os seus. (Foucault, 2008b)
Cuidado de si e liberdade: reflexões contemporâneas
A conexão entre cuidado de si e liberdade no contexto atual pode ser observada através das práticas de autoajuda, desenvolvimento pessoal e bem-estar, que estão cada vez mais presentes na vida cotidiana. Essas práticas frequentemente prometem uma maior liberdade através da capacidade de tomar controle sobre a própria vida. Todavia, a questão que se coloca é se essas práticas realmente ampliam a liberdade das pessoas ou se simplesmente a redefinem dentro dos limites impostos por normas e expectativas sociais. (Raimundo, 2025)
O cuidado de si, no sentido foucaultiano, é mais do que um conjunto de técnicas; é uma forma de subjetivação que permite ao indivíduo transformar sua relação consigo mesmo e com os outros. No entanto, no contexto atual, essas práticas de cuidado podem ser incorporadas a um regime mais amplo de normatização e controle, no qual a liberdade é entendida como um ato de conformidade com ideais de auto-realização e sucesso pessoal. A percepção mental do mundo moderno, influenciada por tecnologias e mídias digitais, altera profundamente como os indivíduos se percebem e se relacionam com suas próprias vidas. A exposição constante a padrões de sucesso e as comparações incessantes podem desviar o cuidado de si — que deveria ser um autêntico exercício de liberdade — para a procura de conformidade com as normas externas (Butler, 1997). Atualmente, quando a tecnologia e a digitalização nos afastam frequentemente da experiência corporal direta, o conceito de liberdade proposto por Merleau-Ponty (1994) oferece uma crítica poderosa. A exposição constante aos ecrãs e a vida em ambientes virtuais podem desviar a atenção das experiências corporais diretas, gerando um tipo de alienação que limita a capacidade de viver plenamente no mundo físico.
Liberdade e sujeito: caminhos para a autonomia
Para reconciliar o autocuidado com a liberdade na contemporaneidade, é necessário repensar como as práticas de subjetivação podem ser usadas para promover uma liberdade autêntica, em vez de uma conformidade disfarçada. A reflexão sobre o cuidado de si deve levar em conta não apenas a auto-otimização, mas também a capacidade de resistir às pressões externas e de questionar as normas e expectativas que moldam a experiência da subjetividade. O cuidado de si pode contribuir para o desenvolvimento de técnicas capazes de possibilitar um espaço de reconhecimento identitário. (Carvalho, e Franceschini, 2025)
A liberdade, no sentido mais profundo, envolve a capacidade de agir em conformidade com uma visão pessoal de bem-estar e propósito, em vez de simplesmente seguir prescrições externas. Para Foucault, isso significa desenvolver práticas de cuidado que permitam ao sujeito não apenas adaptar-se às normas sociais, mas também criticar e transformar essas normas em nome de uma autenticidade pessoal.
Poderíamos dizer que, em Foucault, era a liberdade que olhava o poder. E porque o olhava tão bem, em suas minúcias, em suas técnicas, em suas modalidades, ele foi capaz de indicar as formas-ensaios pelas quais a liberdade pode ser experiencial, experienciada: na duplicação da problemática política no campo do cuidado ético de si, campo do sujeito, da hermenêutica de si. (Sousa Filho, 2008, p. 15)
Portanto, o cuidado de si deve ser entendido como um processo dinâmico e crítico, onde a liberdade é alcançada não pela mera conformidade com ideais de autoajuda, mas pela construção consciente e crítica de uma identidade autêntica e livre. Essa prática, assim, se torna uma ferramenta para questionar e reconfigurar a própria relação com a liberdade, abrindo espaço para uma forma mais genuína e autônoma de viver e experimentar o mundo.
O cuidado do corpo com o uso da mente
O profundo legado deixado por Joseph Pilates não apenas na prática física, mas também na filosofia de cuidado do corpo com o uso da mente, caracterizou uma abordagem, que surgiu em um contexto de turbulência e transformação na primeira metade do século XX, oferecendo ricas reflexões sobre a relação entre autocuidado e liberdade. Ao revisitar seus princípios, encontram-se valiosas lições para compreender a liberdade no mundo contemporâneo.
O cuidado com o corpo e a mente em Pilates
Joseph Pilates, nascido nos longínquos 1883, desenvolveu seu método inicialmente como uma forma de reabilitação e fortalecimento físico para uso próprio e que logo foi compartilhado. Sua filosofia era clara: o corpo e a mente estão intrinsecamente conectados e, para alcançar um estado ideal de saúde, ambos precisam ser cuidados com igual atenção. Pilates acreditava que um corpo saudável poderia cultivar uma mente forte e disciplinada, e vice-versa.
A prática de Pilates enfatiza a importância da consciência corporal e do controle preciso dos movimentos. Este método, que combina elementos de yoga, balé e treinamento de força, requer um entendimento profundo dos próprios limites e capacidades. “O corpo como ‘instrumento da vontade’, para Joseph Pilates, parece aludir também a uma sabedoria prática que gravita entre seus princípios de controle e equilíbrio, tanto nos exercícios como, por extensão, na vida cotidiana”. (Roble, 2015, p. 177)
Através de exercícios que promovem a flexibilidade, força e alinhamento, Pilates ensinava seus praticantes a se tornarem mais conscientes de seus corpos e a desenvolver um sentido de autoeficácia. A mente, por sua vez, é desafiada a se concentrar e a se disciplinar, promovendo uma forma de meditação em movimento. (Pilates, 2001)
Conexão com a liberdade
Para compreender como os princípios de Pilates se conectam com a noção de liberdade, se explora a ideia de liberdade em dois contextos: o físico e o mental.
Liberdade física
No mundo moderno, onde as rotinas muitas vezes são saturadas de estresse e sedentarismo, a liberdade física se refere à capacidade de movimentar-se sem dor e com agilidade. Pilates promove uma forma de liberdade física ao ajudar os indivíduos a desenvolverem força e flexibilidade, reduzindo tensões e prevenindo lesões. Um corpo bem-cuidado é, portanto, um corpo que está livre das limitações impostas por desordens físicas e que pode se movimentar com mais facilidade e graça. (Roble, 2015, p. 179)
Esta liberdade física é particularmente relevante no contexto atual, onde muitos enfrentam problemas relacionados ao estilo de vida sedentário e ao estresse. O método Pilates oferece uma forma de redescobrir a própria capacidade de movimento e de autoconhecimento corporal, proporcionando uma sensação de autonomia e controle sobre o próprio corpo.
Liberdade mental
A liberdade mental, por outro lado, está ligada à capacidade de viver sem as amarras da ansiedade e do estresse que frequentemente dominam nossas vidas. Pilates, através de sua abordagem holística, também aborda o aspecto mental da liberdade. A prática regular ajuda a acalmar a mente e a melhorar a concentração, contribuindo para o desenvolvimento da saúde mental, embora possa haver diferenças estaticamente significativas em diferentes grupos. (Câmara et al., 2026)
Em uma era marcada pela sobrecarga de informações e pelo ritmo acelerado, o método Pilates oferece um refúgio de introspecção e foco. Ao exigir que os praticantes se concentrem plenamente em cada movimento e respiração. A prática cria um espaço mental, nno qual a mente pode se libertar das distrações externas e se reconectar com um estado de equilíbrio interno.
A liberdade no contexto contemporâneo
Nos tempos atuais, a liberdade é um conceito multifacetado que vai além das dimensões físicas e mentais. Reflete também questões sociais, culturais e pessoais. A autonomia sobre o próprio corpo e mente é uma forma fundamental de liberdade individual, e o método Pilates é uma ferramenta que pode ajudar as pessoas a alcançarem esse nível de autonomia e bem-estar psicológico, contrapondo a sintomas de ansiedade e depressão que tendem a limitar as ações de cada um. (Martins et al., 2026)
O autocuidado promovido por Pilates pode ser visto como uma forma de resistência contra as forças que tentam limitar as pessoas. Em um mundo onde as demandas externas frequentemente pressionam os indivíduos, encontrar um espaço para cuidar de si é um ato de autoafirmação e libertação. A prática de Pilates, ao enfatizar a importância da autoconsciência e do equilíbrio entre corpo e mente, pode ser entendida como uma forma de reivindicar um espaço de liberdade pessoal e interior.
No contexto das sociedades contemporâneas, o tempo para si é frequentemente limitado e, o Pilates oferece uma maneira de priorizar o bem-estar individual. As práticas relacionadas à liberdade podem contribuir para uma forma de cuidado de si, a qual se estabelece em via de mão dupla, contribuindo de alguma forma para resistir a certos modelos de sucesso. (Medrado, 2022)
Corporeidade e liberdade
Maurice Merleau-Ponty, um dos mais influentes pesquisadores da fenomenologia, ofereceu uma profunda reinterpretação da corporeidade que ressoa intensamente com os desafios do autocuidado e da liberdade. Nos tempos atuais, sua filosofia, centrada na ideia de que o corpo é o meio primordial através do qual se experiencia o mundo, fornece uma base rica para examinar como nossa relação com o corpo pode influenciar nossa autonomia e bem-estar na era contemporânea.
Reflexões no contexto contemporâneo
Merleau-Ponty (1994), convida a reconsiderar a corporeidade não como uma entidade isolada ou meramente física, mas como um entrelaçamento complexo entre o corpo, a mente e o mundo. Em sua obra Fenomenologia da Percepção, o autor francês explora como o corpo é o ponto de partida para toda percepção e experiência. O corpo, para Merleau-Ponty, não é um objeto passivo, mas um agente ativo que molda e é moldado pela experiência. (Merleau-Ponty, 1994)
Este entendimento da corporeidade tem implicações significativas para o autocuidado. Nos tempos atuais, marcados por uma busca incessante por produtividade e um ideal de eficiência, muitas vezes se esquece o papel fundamental do corpo na nossa vida cotidiana. O autocuidado é frequentemente reduzido a práticas superficiais ou estéticas, desconectadas da verdadeira essência do que significa cuidar de si. No entanto, o autocuidado deve ser entendido como um reconhecimento e um respeito profundo pelo corpo como o meio primordial do ser humano estar no mundo. (Langer, 1942)
Considere-se, por exemplo, o conceito de “habitar o corpo” que Merleau-Ponty (1994) explora. Habitar o corpo não significa apenas estar ciente das necessidades físicas, mas também, reconhecer a maneira como – o corpo – molda a percepção e interação com o ambiente. No contexto atual, no qual a saúde mental e emocional está cada vez mais em foco, o autocuidado deve incluir práticas que não apenas atendam às necessidades físicas, mas também respeitem o corpo como uma expressão da subjetividade e da identidade. Isso inclui atividades que promovam um equilíbrio saudável entre o corpo e a mente, como a prática de meditação, o exercício físico consciente, e a alimentação que respeita tanto o desejo quanto a necessidade do corpo.
No entanto, o entendimento de Merleau-Ponty (1994) sobre a corporeidade também abre uma reflexão sobre a liberdade. A liberdade, em muitos contextos, é frequentemente entendida como a capacidade de escolher sem restrições externas. Mas, para Merleau-Ponty, a liberdade está fundamentalmente ligada ao corpo e à capacidade de agir no mundo. A verdadeira liberdade não é apenas a ausência de constrangimentos, mas a habilidade de se engajar autenticamente com o mundo a partir de uma compreensão integrada de si.
Nos tempos atuais, no qual a tecnologia e a digitalização muitas vezes nos afastam da experiência corporal direta, o conceito de liberdade proposto por Merleau-Ponty (1994) oferece uma crítica poderosa. A constante exposição a telas e a vida em ambientes virtuais podem desviar a atenção das experiências corporais diretas, criando um tipo de alienação que limita a capacidade de viver plenamente no mundo físico. O autocuidado, nesse sentido, torna-se uma prática de reconexão com o corpo e, por extensão, com uma forma mais genuína de liberdade, sendo este um dos aspectos que pode ser desenvolvido pelo método Pilates.
Ao se considerar a liberdade em relação ao autocuidado, vê-se que a capacidade de cuidar de si mesmo é uma expressão da liberdade de viver de acordo com os próprios valores e necessidades. Nesse ínterim, essa liberdade não deve ser vista como uma imposição de escolhas individuais sobre um corpo indiferente, mas como uma forma de interação respeitosa e reflexiva com a própria corporeidade. Em outras palavras, a liberdade autêntica, segundo Merleau-Ponty (1994), é aquela que reconhece e integra o corpo como parte essencial da experiência e da escolha individual.
Em uma sociedade que vive sob o contexto das pressões para conformidade e produtividade intensas, a filosofia de Merleau-Ponty convida a repensar a forma como abordar o autocuidado e a liberdade. Em vez de buscar uma liberdade dissociada da corporeidade ou um autocuidado que ignora a complexidade do corpo, deve-se procurar uma abordagem que reconheça a interdependência entre o corpo, a mente e o mundo. A verdadeira liberdade, então, pode ser vista como a capacidade de se engajar de maneira autêntica com o mundo através de um corpo que é obra de arte e ao mesmo tempo o meio de experiência e a fonte da subjetividade. (Nóbrega, 2000)
Prática de liberdade
A liberdade para os gregos significava a não-escravidão. Ao escravizado não é permitido uma ética própria, ele é obrigado a seguir a ética determinada por seus dominadores. Nessa leitura, nos dias de hoje, pode-se entender que seguir a ética de outros sem antes pensar e definir o que seguir seria basicamente estar escravizado.
Um éthos bom, belo, honroso, memorável e exemplar
Trabalhar de si sobre si mesmo é a maneira de ser e de se guiar, de traduzir seus hábitos ao responder os acontecimentos à sua volta. Raciocinar este comportamento para que ele seja direcionado da melhor forma possível é permitir que a razão indique o melhor caminho a ser conduzido adequadamente e pode ser visto como uma nova regra ou nova ética, independente dela coincidir ou não com aquelas estabelecidas para o controle do grupo, sempre procurando cuidar da relação com o outro. “O cuidado de si não consiste em uma ética em que o sujeito se isola do mundo, mas sim retorna para si mesmo para depois agir”. (Galvão, 2014, p. 157)
As interconexões da liberdade física e da liberdade do pensamento
Michel Foucault trata da liberdade de expressão da mente, conectada com o corpo que o ser habita, enquanto que Joseph Pilates vai se preocupar com a liberdade ativa do ser através de um corpo conectado e controlado pela mente. Já o Estado terá o papel de organizar as duas linhas, garantindo segurança, saúde, acessibilidade, educação e liberdade, entre outros, tanto mental quanto física. As oportunidades de cada um serão permeadas de acordo com a eficiência que estas linhas forem disponibilizadas. Ocorre que um Estado democrático de direito será forte e permanecerá assim desde que seus cidadãos também o sejam. Negligenciar qualquer uma destas questões implicará num lento e perigoso enfraquecimento de alguns de seus elos.
Promoção do pensar como forma de viver melhor
É possible dizer que o pensamento é livre? Evidentemente não estar-se-ía errando se disser que sim, contudo, sua aplicação prática seguramente não será de tão simples implementação, caso as bases deste pensamento ameace abalar as estruturas de poder da sociedade ou os alicerces dos costumes sociais, profundamente arraigados de forma ideológica e cultural.
Michel Foucault alinhou as ideias trazidas da moral greco-romana antiga, transportando esta visão para o presente e abriu a caixa de pandora das “morais” em que o pensamento de cada um entra participativamente para coordenar a melhor forma de viver para si próprio, atraído pelo contexto onde na Grécia e Roma da época, inexistia a imposição de uma moral e ética única para todos, como parte da sociedade atual teima tentar defender. Ele resguardava a produção de morais interdependentes, criada por grupos com estilizações de vida particulares a cada um, seja nas esferas do sujeito, da sexualidade ou da sociabilização cultural. O autor francês acabou trazendo para si a marca de “pensador da liberdade”, tema que desde o início em seus trabalhos, sempre esteve presente nas suas buscas, mesmo que de forma imanente e mesmo que a ideia surgisse bem mais objetivada ao final de seus estudos. (Sousa Filho, 2008)
Agora vai se ampliar essa ideação: imagine a unicidade de valores e a grandeza da intensidade que seria o cuidado de si de Michel Foucault, estruturado através da corporeidade de Merleau-Ponty. Se o corpo aprende com as sensações e a mente materializa as linhas de pensamento utilizando essa forma de ver, o resultado poderia ser a reunião do melhor dos dois mundos.
O fomento do “cuidar de si” pelo Estado
Ao Estado cabe o papel de proteger a vida humana e oferecer condições de uma existência saudável. Essas ideias surgiram no século XIX com o nascimento da medicina social (Foucault, 2008b), mas são muito atuais (Gomes, 2013). A responsabilidade social e política do estado sobre a vida humana deve ser dirigida e cuidada de forma a não interceptar sua liberdade. Embora exista o interesse para que a população se mantenha saudável, a preocupação deve se estender tanto para o corpo quanto para a mente (Foucault, 2008a). “A estilização das condutas, norteada pela noção do cuidado de si dos antigos, permitia uma reflexão moral e ética, na qual os sujeitos se encarregariam de estar cientes de suas práticas e exercícios de liberdade”. (Gomes, Ferreri, e Lemos, 2018, p. 1)
Nos dias atuais, as preocupações com o certo e o errado estão muito mais relacionadas a seguir conceitos morais e éticos compulsórios, determinados culturalmente ao longo dos anos ou pelas instituições de poder. A repressão quanto a repensar novas questões morais e éticas já não existem como antes, contudo apenas uma pequena parcela da população se deu conta que tem em suas mãos o poder para auto regular seus caminhos.
O cuidado de si e sua relação com a liberdade têm um impacto profundo em nossa saúde e bem-estar, e isso se reflete diretamente nas nossas conquistas pessoais e na nossa capacidade de lidar com problemas mentais e físicos. Isso refere-se à prática consciente de cuidar da saúde física, mental e emocional. Esse conceito, amplamente explorado na filosofia, especialmente na obra de Michel Foucault, envolve o desenvolvimento de práticas que promovem a autocompreensão e a autorregulação. Quando se pratica o cuidado de si, está se permitindo viver de forma mais autêntica e alinhada com os próprios valores e desejos. (Foucault, 2020)
Conclusões
A análise do cuidado de si de Michel Foucault e sua relação com a liberdade na contemporaneidade revela uma complexa interseção entre práticas de subjetivação e percepção mental. Em um mundo marcado por transformações tecnológicas e culturais, o cuidado de si continua a ser uma prática essencial, mas deve ser repensado e adaptado para promover uma liberdade verdadeira e autêntica. O desafio contemporâneo é, portanto, encontrar formas de autocuidado que permitam uma liberdade que transcenda a conformidade com normas externas e que fomente uma auto-realização crítica e independente.
De outro lado, a filosofia de Joseph Pilates sobre o cuidado com o corpo e a mente transcende a mera prática física; é uma abordagem que se relaciona diretamente com a ideia de liberdade. Ao promover um corpo saudável e uma mente tranquila, Pilates oferece com seu método uma forma de liberdade tanto física quanto mental, que em tempos modernos, nos quais o autocuidado e o equilíbrio são muitas vezes negligenciados, serve como um lembrete valioso da importância de manter nossa própria autonomia e integridade.
A prática do Método Pilates convida a refletir sobre como se pode cultivar a própria liberdade pessoal e conectar mais profundamente com cada ser individual. Assim, o legado de Joseph Pilates continua a oferecer uma luz orientadora na busca por uma vida equilibrada e livre.
A revisão da corporeidade à luz da filosofia de Merleau-Ponty, permitiu perceber que o autocuidado e a liberdade estão profundamente interligados. Cuidar de si mesmo de maneira significativa requer uma consciência plena do corpo como a base na experiência e ação do ser no mundo. Por sua vez, uma liberdade genuína é aquela que abraça o corpo como um elemento central da existência e permite agir no mundo de maneira autêntica e integrada. Em tempos onde a superficialidade muitas vezes predomina, a filosofia de Merleau-Ponty oferece um caminho para uma compreensão mais profunda e enriquecedora da liberdade e do autocuidado.
O cuidado de si é um pilar fundamental para uma vida equilibrada e saudável, e sua conexão com a liberdade pessoal capacita a viver de maneira mais autêntica e plena. Ao adotar práticas que promovam o bem-estar, não apenas se melhora a saúde física e mental, mas também prepara melhor cada ser humano para enfrentar os desafios da vida e alcançar as metas e conquistas individuais. Essa abordagem holística e consciente é crucial para a felicidade, o sucesso e a liberdade a longo prazo.
Uso de
inteligência artificial
Durante a elaboração deste artigo, foram utilizadas ferramentas de inteligência artificial generativa exclusivamente como apoio à revisão linguística e à identificação de repetições. Todo o conteúdo foi posteriormente revisado e validado pelos autores, que assumem integral responsabilidade pela autoria, pela integridade científica e pelo conteúdo final do manuscrito, em consonância com as recomendações para o uso ético da inteligência artificial na pesquisa científica.
Nota
Princípios do método de Pilates: respiração, concentração, centro, fluidez, controle, precisão.
Referências
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Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 31, Núm. 341, Oct. (2026)