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ISSN 1514-3465

 

Programa Academia da Saúde na Atenção Primária:

limites e possibilidades do cuidado no SUS

Health Gym Program in Primary Care:

Limits and Possibilities of Care in the SUS

Programa Gimnasio de Salud en Atención Primaria:

límites y posibilidades de la atención en el Sistema Único de Salud (SUS)

 

Pablo Augusto Garcia Agostinho*

pablo.agostinho@ufv.br

Suene Franciele Nunes Chaves*

suene.nchaves@ufv.br

Larissa Quintão Guilherme*

larissa.guilherme@ufv.br

Thuila Ferreira Meirelles**

thuilaferreiram@gmail.com

Renata Corrêa Arruda*

renatarrudaufv@gmail.com

Marcela Siqueira Benjamim*

marcela.benjamim@ufv.br

Sebastião Felipe Ferreira Costa*

sebastiao.costa@ufv.br

Luciano Bernardes Leite*

luciano.leite@ufv.br

 

*Department of Physical Education

Federal University of Viçosa - Viçosa Campus, Viçosa, Minas Gerais

**Department of Nutrition, Antônio Carlos University Center

Juiz de Fora, Minas Gerais

(Brazil)

 

Recepción: 12/04/2026 - Aceptación: 22/06/2026

1ª Revisión: 10/06/2026 - 2ª Revisión: 11/06/2026

 

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https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/deed.pt

Cita sugerida: Agostinho, PAG, Chaves, SFN, Guilherme, LQ, Meirelles, TF, Arruda, RC, Benjamim, MS, Costa, SFF, e Leite, LB (2026). Programa Academia da Saúde na Atenção Primária: limites e possibilidades do cuidado no SUS. Lecturas: Educación Física y Deportes, 31(339), 183-199. https://doi.org/10.46642/efd.v31i339.8848

 

Resumo

    O envelhecimento populacional e a elevada prevalência de inatividade física impõem desafios crescentes aos sistemas de saúde, especialmente na Atenção Primária à Saúde. Nesse contexto, o Programa Academia da Saúde constitui uma estratégia de promoção da saúde voltada à ampliação do acesso às práticas corporais e à promoção da equidade em saúde, podendo contribuir para a redução das desigualdades sociais em saúde. Este estudo teve como objetivo analisar criticamente as possibilidades e limitações do Programa Academia da Saúde no contexto da promoção da saúde e do trabalho em saúde no Sistema Único de Saúde. A análise indica que o programa apresenta potencial para ampliar o acesso às práticas corporais, fortalecer vínculos comunitários e favorecer a produção de cuidado integral quando articulado à Atenção Primária. Entretanto, persistem limitações relacionadas ao financiamento, à infraestrutura, às desigualdades territoriais, à formação profissional e à articulação intersetorial. Conclui-se que o fortalecimento do programa depende do alinhamento entre seu referencial normativo e as condições de implementação no Sistema Único de Saúde.

    Unitermos: Atenção básica. Educação Física. Políticas públicas de saúde. Práticas corporais. Promoção da saúde.

 

Abstract

    Population aging and the high prevalence of physical inactivity pose increasing challenges to health systems, particularly within Primary Health Care. In this context, the Health Gym Program is a health promotion strategy aimed at expanding access to physical activity practices and may contribute to reducing social health inequalities. This study aimed to critically analyze the possibilities and limitations of the Health Gym Program within the context of health promotion and health work in the Unified Health System. The analysis indicates that the program has the potential to expand access to physical activity practices, strengthen community bonds, and support the provision of comprehensive care when integrated with Primary Health Care. However, limitations persist regarding funding, infrastructure, territorial inequalities, professional training, and intersectoral coordination. It is concluded that strengthening the program depends on alignment between its normative framework and the conditions of its implementation within the Unified Health System.

    Keywords: Primary health care. Physical Education. Public health policy. Body practices. Health promotion.

 

Resumen

    El envejecimiento de la población y la alta prevalencia de inactividad física plantean desafíos crecientes para los sistemas de salud, especialmente en la Atención Primaria. En este contexto, el Programa Gimnasio de Salud constituye una estrategia de promoción de la salud orientada a ampliar el acceso a la actividad física y promover la equidad en salud, y puede contribuir a reducir las inequidades sociales en salud. Este estudio tuvo como objetivo analizar críticamente las posibilidades y limitaciones del Programa Gimnasio de Salud en el contexto de la promoción de la salud y el trabajo en salud dentro del Sistema Único de Salud (SUS). El análisis indica que el programa tiene el potencial de ampliar el acceso a la actividad física, fortalecer los vínculos comunitarios y promover la prestación de atención integral cuando se articula con la Atención Primaria. Sin embargo, persisten limitaciones relacionadas con el financiamiento, la infraestructura, las inequidades territoriales, la formación profesional y la articulación intersectorial. Se concluye que el fortalecimiento del programa depende de la alineación entre su marco normativo y las condiciones de implementación en el Sistema Único de Salud.

    Palabras clave: Atención primaria. Educación Física. Políticas de salud pública. Actividad física. Promoción de la salud.

 

Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 31, Núm. 339, Ago. (2026)


 

Introdução 

 

    O envelhecimento populacional configura-se como um fenômeno global e impõe desafios crescentes aos sistemas de saúde pública e às políticas sociais, sobretudo em função do aumento da expectativa de vida e da maior prevalência de condições crônicas (Trintinaglia, Bonamigo, e Azambuja, 2022; Alghannam et al., 2023). No contexto brasileiro, marcado por profundas desigualdades sociais e territoriais, a promoção da saúde assume papel estratégico no Sistema Único de Saúde (SUS), demandando políticas públicas capazes de ampliar o acesso da população a práticas corporais, ambientes saudáveis e formas ampliadas de produção do cuidado. Esse cenário demanda estratégias que promovam um envelhecimento saudável, com manutenção da autonomia, funcionalidade e qualidade de vida ao longo do curso da vida. Nesse contexto, a prática regular de atividade física no lazer constitui um dos principais componentes do envelhecimento ativo, favorecendo a manutenção da capacidade funcional, da participação social e da independência da população idosa, embora sua prática permaneça desigual entre os idosos brasileiros (Lima et al., 2018). Entre os principais fatores que comprometem a saúde dessa população, destaca-se a inatividade física, associada à redução da força muscular, ao agravamento de doenças crônicas, à perda de funcionalidade e ao aumento dos custos para os sistemas públicos de saúde. (Dipietro et al., 2019; Yuan, e Larsson, 2023; Strain et al., 2024; Santos et al., 2023)

 

    Nesse contexto, a prática regular de atividade física tem sido amplamente reconhecida como uma intervenção eficaz na prevenção de doenças crônicas não transmissíveis e na promoção da saúde física, mental e social (Caldas et al., 2025; Santos et al., 2023). No entanto, evidências recentes indicam que respostas sustentáveis a esse problema exigem políticas públicas estruturadas, capazes de ir além de intervenções individuais e de abordagens exclusivamente biomédicas (Alghannam et al., 2023). A Promoção da Saúde, enquanto campo conceitual e político, propõe ações intersetoriais, participativas e territorializadas, voltadas à ampliação da autonomia dos sujeitos e à redução das iniquidades sociais em saúde.

 

    No âmbito do SUS, iniciativas que utilizam espaços públicos e articulam ações educativas, práticas corporais e cuidado em saúde têm se consolidado como estratégias relevantes de promoção da saúde coletiva. Programas dessa natureza ampliam o acesso da população a ambientes favoráveis à prática corporal e ao lazer, contribuindo para o bem-estar físico, mental e social de forma gratuita e universal (Caldas et al., 2025; Agostinho et al., 2024; Santos et al., 2023). Essas iniciativas tornam-se particularmente importantes em contextos de vulnerabilidade social, nos quais barreiras econômicas, territoriais e culturais limitam o acesso a práticas de atividade física.

 

    A Educação Física, inserida no campo da Saúde Coletiva, desempenha papel estratégico nesse cenário ao contribuir para a promoção da saúde por meio de práticas corporais que ultrapassam a dimensão técnica do exercício físico. No âmbito desse campo, a produção do cuidado envolve processos de trabalho interdisciplinares e práticas educativas voltadas à construção de autonomia e à transformação das condições de vida nos territórios (Neto et al., 2023). A atuação profissional nesse campo envolve processos educativos, produção de vínculos e mediação do cuidado, reconhecendo o corpo como construção social, cultural e histórica. Essa perspectiva amplia a compreensão da atividade física, deslocando-a de uma lógica centrada exclusivamente na prescrição e no controle de fatores de risco para uma abordagem que valoriza modos de vida saudáveis e o cuidado integral em saúde. Nesse contexto, compreender o Programa Academia da Saúde (PAS) também implica analisar os processos de trabalho em saúde envolvidos na implementação das práticas corporais no SUS, bem como o papel dos profissionais de Educação Física na produção do cuidado no âmbito da Atenção Primária.

 

    O PAS insere-se nesse contexto como uma política pública de promoção da saúde implementada no âmbito da Atenção Primária à Saúde, estruturada a partir de polos comunitários com infraestrutura específica e atuação multiprofissional. O programa foi concebido para enfrentar doenças e agravos não transmissíveis e reduzir desigualdades em saúde, alinhando-se às diretrizes da Política Nacional de Promoção da Saúde e da Política Nacional de Atenção Básica (Malta, e Silva, 2012; Hallal, 2014). Ao oferecer práticas corporais, atividades físicas, ações educativas e outras estratégias de cuidado, o PAS busca ampliar o acesso da população a ambientes saudáveis e promover estilos de vida ativos.

 

    Apesar de sua relevância e do reconhecimento de seus benefícios, o PAS enfrenta desafios persistentes relacionados à sua implementação, incluindo limitações estruturais, financeiras e desigualdades regionais. Estudos apontam que tais barreiras podem comprometer a efetividade do programa e tensionar sua proposta original, especialmente quando as ações desenvolvidas se restringem à oferta prescritiva de exercícios físicos, em detrimento de práticas educativas, participativas e integradas à Atenção Primária à Saúde (Sá et al., 2016). Essas limitações evidenciam a necessidade de análises críticas que considerem não apenas os resultados alcançados, mas também os processos de implementação e o papel dos profissionais envolvidos.

 

    Diante desse cenário, o presente estudo tem como objetivo analisar criticamente as possibilidades e limitações do PAS no contexto da promoção da saúde e do trabalho em saúde no SUS. Nessa perspectiva, a análise do programa permite problematizar a interface entre trabalho em saúde, processos formativos e práticas de cuidado no SUS, especialmente no que se refere à atuação da Educação Física na Atenção Primária.

 

Métodos 

 

    O presente estudo caracteriza-se como uma revisão narrativa da literatura com abordagem analítica, voltada à discussão crítica das possibilidades e limitações do PAS no contexto da promoção da saúde e das políticas públicas no SUS. Diferentemente das revisões sistemáticas, a revisão narrativa não se propõe a esgotar todas as evidências disponíveis nem a aplicar critérios rígidos de elegibilidade, permitindo maior flexibilidade analítica e interpretativa, coerente com o objetivo proposto neste manuscrito.

 

    A busca pelos estudos foi realizada nas bases de dados PubMed, Periódicos CAPES, SciELO e Google Acadêmico, considerando publicações em língua portuguesa e inglesa, sem restrição de período temporal, de modo a contemplar tanto estudos fundadores quanto produções mais recentes sobre o tema. Foram utilizados, de forma combinada, os seguintes descritores e termos livres: “Programa Academia da Saúde”, “Programa Academia da Cidade”, “Saúde Pública”, “Política Pública”, “Promoção da Saúde”, “Atividade Física” e “Brasil”.

 

    Inicialmente, procedeu-se à leitura dos títulos e resumos dos estudos identificados, com o objetivo de verificar sua pertinência em relação à temática do PAS e à interface entre Educação Física, promoção da saúde e políticas públicas. Foram excluídos os trabalhos que não apresentavam relação direta com o objeto do estudo ou que abordavam exclusivamente contextos internacionais sem articulação com a realidade brasileira. Na etapa seguinte, os textos selecionados foram lidos na íntegra, buscando-se extrair informações relevantes e consistentes que contribuíssem para a compreensão das possibilidades, limitações e desafios do PAS.

 

    Além disso, realizou-se a análise das listas de referências dos artigos incluídos, estratégia que possibilitou a identificação de estudos adicionais considerados pertinentes para o aprofundamento da discussão. O processo de seleção e análise dos estudos foi orientado por critérios de relevância temática, consistência teórica e contribuição para o debate sobre promoção da saúde, Atenção Primária à Saúde e atuação da Educação Física no SUS.

 

    A interpretação dos achados foi conduzida de forma crítica e reflexiva, articulando os resultados da literatura com os marcos normativos do PAS, os princípios da Política Nacional de Promoção da Saúde e as discussões contemporâneas da Saúde Coletiva. A análise buscou identificar convergências, lacunas e tensões presentes na literatura, permitindo uma interpretação crítica sobre o papel do PAS na produção do cuidado e na organização das práticas corporais na Atenção Primária.

 

    Durante a preparação deste manuscrito, os autores utilizaram ferramentas de inteligência artificial, incluindo o ChatGPT (GPT-5.5, OpenAI) e o Gemini (Gemini 3.1 Pro), exclusivamente para melhorar a clareza, a gramática e a legibilidade do texto académico. Estas ferramentas foram apenas empregues para suporte linguístico e revisão de estilo. Não foi utilizada inteligência artificial para gerar dados de investigação, interpretar resultados ou criar conteúdo científico original para o manuscrito. Todo o conteúdo científico foi desenvolvido, revisto e validado na íntegra pelos autores. Os autores analisaram cuidadosamente todas as sugestões geradas pela IA e assumem total responsabilidade pelo conteúdo final desta publicação.

 

Programa Academia da Saúde 

 

    A ideia de criação do PAS surgiu a partir dos resultados promissores de experiências locais bem-sucedidas, como o Programa Academia da Cidade, implementado em cidades como Recife, Curitiba, Vitória, Aracaju e Belo Horizonte, além de outros programas similares (Malta, e Silva, 2012; Hallal, 2014). O PAS foi estruturado num contexto de fortalecimento das políticas públicas de saúde, como a Política Nacional de Promoção da Saúde e a Política Nacional de Atenção Básica, com o intuito de enfrentar doenças e agravos não transmissíveis e reduzir desigualdades por meio de ações de promoção da saúde no âmbito do SUS. (Brasil, 2013)

 

    O programa foi oficialmente instituído pela Portaria GM/MS nº 719, de 7 de abril de 2011 (Brasil, 2011), com o objetivo de contribuir para a promoção da saúde por meio da implantação de polos dotados de infraestrutura adequada e profissionais capacitados para orientar práticas corporais, atividades físicas de lazer e estilos de vida saudáveis. Posteriormente, a Portaria nº 2.681, de 7 de novembro de 2013 (Brasil, 2013), redefiniu e ampliou os objetivos do PAS, passando a abranger também ações intersetoriais e multidisciplinares, incluindo promoção da alimentação saudável, práticas integrativas e complementares, atividades culturais, educação em saúde, planejamento participativo e mobilização comunitária.

 

    Atualmente, o PAS desenvolve suas ações em estreita articulação com a Atenção Primária à Saúde (Brasil, 2026). Sua operacionalização segue orientada pelos princípios do SUS: universalidade, integralidade e equidade. Este último se expressa na democratização do acesso aos polos por populações em situação de vulnerabilidade, visando garantir ambientes saudáveis e inclusivos para a prática de atividades físicas e ações de promoção da saúde.

 

    Desde 2017, o PAS passou a adotar como referência os oito eixos estruturantes definidos pela Portaria de Consolidação nº 5 (Brasil, 2017), que continuam vigentes em 2025 e orientam a atuação dos polos em todo o país. Esses eixos são: (1) práticas corporais e atividades físicas; (2) produção do cuidado e modos de vida saudáveis; (3) promoção da alimentação saudável; (4) práticas integrativas e complementares em saúde; (5) práticas artísticas e culturais; (6) educação em saúde; (7) planejamento e gestão; e (8) mobilização da comunidade. A adoção desses eixos visa garantir uma abordagem integral e intersetorial das ações de promoção da saúde, ampliando o potencial do programa como ferramenta de inclusão social, equidade em saúde e fortalecimento do SUS.

 

Possibilidades e facilitadores do Programa Academia da Saúde 

 

    O PAS apresenta um conjunto expressivo de possibilidades enquanto política pública de promoção da saúde, destacando-se como estratégia populacional voltada à ampliação do acesso às práticas corporais, à prevenção de doenças crônicas não transmissíveis e à produção de impactos positivos na saúde coletiva. Evidências apontam que o programa contribui não apenas para a melhoria de indicadores de saúde física, mental e social, mas também para a redução de gastos públicos associados a internações evitáveis (Carvalho, e Vieira, 2022), reforçando sua relevância no âmbito do SUS. Entretanto, embora diferentes estudos relatem associações positivas entre a participação no programa e desfechos em saúde, a literatura também destaca a dificuldade histórica de avaliar sua efetividade em escala nacional, considerando a heterogeneidade da implementação entre municípios, a diversidade dos contextos locais e as limitações dos estudos disponíveis, predominantemente observacionais. (Tusset et al., 2020)

 

    Entre os principais facilitadores do PAS, destaca-se sua inserção na Atenção Primária à Saúde, o que favorece a articulação com equipes multiprofissionais e a construção de ações integradas de cuidado. Nesse contexto, o programa amplia a compreensão da atividade física ao incorporá-la como componente de estratégias educativas, de convivência social e de fortalecimento de vínculos comunitários, especialmente em territórios marcados por vulnerabilidades sociais. Essa característica aproxima o PAS dos princípios da Promoção da Saúde, ao promover ambientes favoráveis, estimular a participação social e buscar reduzir barreiras de acesso historicamente associadas à prática corporal.

 

    O direito ao lazer e à prática de atividades físicas encontra respaldo em marcos legais nacionais e internacionais e constitui dimensão essencial do direito à saúde. A operacionalização desse direito, no entanto, exige políticas públicas capazes de ofertar oportunidades concretas e acessíveis à população. Nesse sentido, o PAS assume papel estratégico ao viabilizar ações de alcance populacional, integradas à Atenção Primária, com potencial para favorecer a equidade e a universalidade do acesso às práticas corporais e à atividade física. A literatura aponta que programas dessa natureza podem contribuir para reduzir desigualdades em saúde ao priorizar territórios e grupos sociais historicamente menos favorecidos. Contudo, a presença de polos em territórios socialmente vulneráveis, por si só, não garante a promoção da equidade. Estudos têm demonstrado que o perfil dos usuários permanece concentrado, predominantemente, em mulheres, idosos e determinados grupos sociais, indicando que a distribuição territorial dos serviços não elimina, necessariamente, desigualdades relacionadas ao acesso, à adesão e à permanência no programa (Tusset et al., 2020; Wolker et al., 2020). Assim, a equidade deve ser compreendida como um processo que envolve, além da localização dos polos, a capacidade do programa de alcançar diferentes segmentos populacionais e responder às necessidades específicas dos territórios.

 

    Entre as estratégias desenvolvidas no âmbito do PAS, o aconselhamento individualizado em saúde emerge como ferramenta relevante para ampliar a efetividade das ações e fortalecer a autonomia dos usuários (Sposito, Guerra, e Kokubun, 2023). O aconselhamento caracteriza-se como um processo de escuta ativa e abordagem personalizada, no qual o profissional de saúde estabelece uma relação de confiança com o usuário, favorecendo a construção compartilhada de estratégias para a adoção de modos de vida mais ativos e saudáveis (Brasil, 1999). No campo da atividade física, essa prática assume caráter educativo ao incentivar o movimento corporal em diferentes domínios da vida cotidiana, como deslocamento, lazer, trabalho e exercícios estruturados.

 

    Estudos indicam que o aconselhamento em saúde apresenta baixo custo operacional e elevada aplicabilidade por diferentes categorias profissionais, consolidando-se como estratégia viável no contexto da Atenção Primária à Saúde (Florindo et al., 2013). No entanto, sua implementação ainda ocorre de forma desigual, sendo mais frequente entre profissionais fisicamente ativos e entre usuários em situação de maior vulnerabilidade, como idosos, pessoas com doenças crônicas e indivíduos com excesso de peso (Moraes et al., 2019; Neto et al., 2020; Moraes et al., 2024). Esse achado reforça o potencial do aconselhamento como instrumento de equidade, ao direcionar ações para grupos que mais se beneficiam da prática regular de atividade física. (Melvin et al., 2017)

 

    Outro aspecto que merece atenção refere-se ao perfil dos participantes do PAS. A literatura descreve, de forma recorrente, maior participação de mulheres nas atividades desenvolvidas pelos polos. Embora esse achado possa refletir maior procura feminina por ações de promoção da saúde e maior utilização dos serviços da Atenção Primária, também suscita questionamentos acerca das barreiras de acesso, adesão e permanência enfrentadas pela população masculina (Tusset et al., 2020; Wolker et al., 2020). Dessa forma, compreender as diferenças de participação segundo sexo representa um desafio importante para ampliar o alcance populacional do programa e fortalecer seus princípios de universalidade e equidade.

 

    Evidências empíricas demonstram que a participação regular no PAS está associada a benefícios consistentes, como melhora da saúde física, mental e social, estabilização de condições crônicas e fortalecimento do vínculo dos usuários com a rede de Atenção Primária à Saúde (Quadros et al., 2020; Dias et al., 2023; Souza et al., 2024). Esses resultados indicam que o programa atua como espaço de produção de cuidado continuado, favorecendo a adesão às práticas corporais e a permanência dos usuários nas ações ofertadas.

 

    A experiência do PAS durante a pandemia de COVID-19 evidencia, ainda, sua capacidade de adaptação e resiliência frente a contextos adversos. A adoção de estratégias remotas, como o envio de vídeos, orientações por aplicativos de mensagens e o acolhimento de usuários com condições pós-COVID-19, possibilitou a manutenção do vínculo com a população e a continuidade das ações de promoção da saúde (Tusset et al., 2022). Estudos apontam que tais iniciativas podem ter contribuído para a redução de internações hospitalares e para a mitigação de custos ao sistema público de saúde (Lima et al., 2020; Barreto et al., 2020), reforçando o papel estratégico do PAS mesmo em situações de crise sanitária.

 

    De forma sintética, as possibilidades e facilitadores do PAS evidenciam seu potencial como política pública capaz de articular práticas corporais, educação em saúde e cuidado integral, sobretudo quando suas ações são orientadas por abordagens educativas, participativas e territorializadas. Contudo, a consolidação desse potencial depende do reconhecimento da Educação Física como núcleo profissional inserido no campo da Saúde Coletiva, cuja atuação ultrapassa a prescrição de exercícios físicos e incorpora práticas educativas, construção da autonomia dos usuários, produção do cuidado e trabalho interdisciplinar na Atenção Primária à Saúde (Lima, Lima, e Sampaio, 2022; Lima, Souza, e Sampaio, 2025). Nesse sentido, o PAS configura-se como um espaço que favorece a integração entre práticas corporais, educação em saúde e cuidado territorial, ampliando as possibilidades de atuação da Educação Física no SUS.

 

Limitações e barreiras do Programa Academia da Saúde 

 

    Embora o PAS tenha sido concebido como uma política pública estruturada nos princípios da Promoção da Saúde, da equidade e da integralidade, conforme previsto na Política Nacional de Promoção da Saúde, sua implementação no território nacional revela importantes distanciamentos entre o referencial normativo e a prática cotidiana dos serviços. Essas lacunas expressam desafios históricos do SUS, particularmente no que se refere ao financiamento, à gestão, à infraestrutura e à organização do trabalho em saúde.

 

    Outro desafio amplamente discutido na literatura refere-se ao monitoramento e à avaliação da efetividade do PAS em escala nacional. Apesar da expansão do número de polos ao longo dos últimos anos, persistem dificuldades relacionadas à disponibilidade e à padronização de indicadores capazes de avaliar, de forma consistente, o alcance populacional, a qualidade das ações desenvolvidas e seus impactos sobre diferentes desfechos em saúde. Essa limitação dificulta comparações entre municípios e restringe a produção de evidências robustas acerca da efetividade do programa em âmbito nacional.

 

    O modelo de financiamento do PAS, baseado na corresponsabilização entre União, Estados e Municípios, constitui um dos principais entraves à sustentabilidade do programa. Apesar da retomada recente da expansão com o credenciamento de novos polos e do aumento dos repasses federais, a irregularidade no financiamento compromete a manutenção das estruturas físicas e das equipes multiprofissionais. Os efeitos prolongados da Emenda Constitucional nº 95/2016 (Brasil, 2016), que instituiu o teto de gastos públicos, continuam a limitar o investimento em políticas sociais e de saúde em diversos municípios, aprofundando desigualdades regionais e estruturais (Carvalho, e Vieira, 2022; Carvalho et al., 2024). Nesse cenário, o PAS torna-se mais vulnerável à descontinuidade, especialmente em territórios com menor capacidade administrativa e orçamentária.

 

    As desigualdades territoriais também se expressam na distribuição e no funcionamento dos polos do PAS. Municípios de pequeno porte, áreas rurais e regiões socialmente vulneráveis enfrentam maiores dificuldades para implantar e manter o programa, o que tensiona o princípio da equidade que orienta sua concepção. Estudos de monitoramento indicam que, entre 2011 e 2017, apenas cerca de 30% dos polos cadastrados operavam plenamente (Tusset et al., 2020), revelando fragilidades na capacidade de execução local. Embora haja sinais de recuperação nos anos mais recentes, persistem disparidades significativas que comprometem o alcance populacional do programa (Wolker et al., 2020). Além disso, embora a implantação de polos em áreas socialmente vulneráveis represente importante estratégia de ampliação da oferta, essa distribuição territorial não assegura, isoladamente, que os grupos em maior situação de vulnerabilidade sejam efetivamente alcançados ou permaneçam vinculados às ações desenvolvidas, reforçando a necessidade de avaliações que considerem diferentes dimensões da equidade em saúde.

 

    A infraestrutura inadequada dos polos e a escassez de profissionais qualificados constituem barreiras adicionais à efetividade do PAS. Espaços físicos mal-conservados, equipamentos obsoletos ou insuficientes e ausência de condições adequadas de segurança impactam negativamente a adesão dos usuários às atividades ofertadas. Essa limitação é particularmente relevante para populações idosas, cuja participação em práticas corporais depende diretamente da acessibilidade, da segurança e da adequação dos ambientes (Cleland et al., 2019). Além disso, a incompatibilidade entre os horários de funcionamento dos polos e a rotina da população usuária restringe o acesso e dificulta a permanência dos participantes no programa.

 

    No âmbito da organização do trabalho em saúde, a carência de profissionais habilitados, especialmente da Educação Física, e a fragilidade da formação inicial e continuada para atuação na Atenção Primária à Saúde representam obstáculos importantes (Carvalho et al., 2024). A sobrecarga de trabalho, a rotatividade das equipes e a ausência de processos sistemáticos de educação permanente limitam a consolidação de práticas corporais orientadas por abordagens educativas, participativas e territorializadas. Em muitos contextos, essas fragilidades contribuem para a redução do PAS a uma oferta prescritiva de exercícios físicos, esvaziando seu potencial como estratégia de produção de cuidado e promoção da saúde (Sá et al., 2016). Essas condições evidenciam desafios relacionados à organização dos processos de trabalho no SUS, especialmente no que se refere à integração entre equipes multiprofissionais, à valorização da Educação Física e à consolidação de práticas corporais como componente do cuidado em saúde.

 

    Essa perspectiva reforça a necessidade de compreender a atuação da Educação Física na Atenção Primária à Saúde para além da prescrição de exercícios físicos. No âmbito da Saúde Coletiva, o trabalho desses profissionais envolve práticas educativas, construção compartilhada do cuidado, promoção da autonomia dos usuários e atuação integrada às equipes multiprofissionais, ampliando as possibilidades de resposta às necessidades dos diferentes territórios (Lima, Lima, e Sampaio, 2022; Lima, Souza, e Sampaio, 2025). Sob essa perspectiva, o potencial do PAS depende não apenas da oferta de práticas corporais, mas também da capacidade de integrar essas ações aos princípios da promoção da saúde e do cuidado integral.

 

    A limitada articulação intersetorial e a baixa participação comunitária nos processos de planejamento e gestão do programa também figuram entre as principais barreiras à sua efetividade (Santos, e Novais, 2023; Carvalho et al., 2025). A ausência de estratégias estruturadas de escuta ativa e de envolvimento da comunidade dificulta a identificação das demandas locais, dos valores socioculturais e das reais barreiras à participação. Como consequência, as ações desenvolvidas podem não dialogar plenamente com as necessidades dos territórios, comprometendo a adesão dos usuários e a sustentabilidade do programa ao longo do tempo.

 

    Superar essas limitações requer o fortalecimento de políticas públicas sensíveis às especificidades territoriais, com financiamento público contínuo e mecanismos de avaliação sistemática. Investimentos em infraestrutura, formação profissional e educação permanente, aliados à incorporação de tecnologias de monitoramento e à ampliação da articulação intersetorial, constituem caminhos estratégicos para alinhar o referencial teórico do PAS à sua implementação prática. Nesse processo, a valorização da Educação Física como prática educativa, territorial e produtora de cuidado emerge como elemento central para a consolidação do programa enquanto estratégia de equidade e promoção da saúde no SUS. Paralelamente, o fortalecimento de sistemas de monitoramento e avaliação torna-se fundamental para produzir evidências sobre a efetividade do programa, identificar desigualdades persistentes no acesso e subsidiar ajustes capazes de ampliar seu alcance entre diferentes grupos populacionais.

 

Conclusão 

 

    O PAS configura-se como uma política pública estratégica para a promoção da saúde e para a ampliação do acesso às práticas corporais e à atividade física no Brasil, especialmente no contexto da Atenção Primária à Saúde. A partir da análise da literatura científica, esta revisão narrativa evidenciou que o programa apresenta múltiplas possibilidades enquanto estratégia populacional, destacando-se pelos benefícios relatados na literatura nos âmbitos clínico, social e econômico, bem como pela ampliação do acesso a práticas corporais, atividades físicas e ações educativas em territórios historicamente marcados por vulnerabilidades.

 

    Os achados indicam que o PAS apresenta potencial para atuar como espaço de produção de cuidado integral, fortalecendo vínculos comunitários, promovendo modos de vida saudáveis e contribuindo para a promoção da equidade em saúde, embora esses efeitos dependam das condições de implementação do programa e ainda demandem evidências mais robustas quanto à sua efetividade em escala populacional. Estratégias como o aconselhamento individualizado em saúde, a atuação multiprofissional e a articulação com a rede de Atenção Primária à Saúde emergem como facilitadores importantes para o desenvolvimento das ações do programa, sobretudo quando orientadas por abordagens educativas, participativas e territorializadas.

 

    Entretanto, a análise também evidencia limites estruturais e operacionais persistentes que comprometem a plena realização dos objetivos do PAS. Fragilidades relacionadas ao financiamento público, à infraestrutura dos polos, à formação e à valorização dos profissionais, bem como às desigualdades territoriais e à limitada articulação intersetorial, revelam tensões entre o referencial normativo do programa e sua implementação concreta. Esses desafios tendem a reduzir o alcance do PAS quando suas ações se restringem a uma lógica prescritiva de exercícios físicos, esvaziando seu potencial como política de promoção da saúde ampliada.

 

    Nesse contexto, o fortalecimento do PAS exige compromisso político, financeiro e técnico contínuo por parte das diferentes esferas governamentais, aliado à implementação de mecanismos sistemáticos de monitoramento e avaliação. Torna-se igualmente imprescindível investir na formação inicial e continuada dos profissionais envolvidos, especialmente da Educação Física, fortalecendo processos de educação permanente em saúde e qualificando sua atuação no contexto da Atenção Primária à Saúde e do SUS.

 

    Do ponto de vista científico, os resultados desta revisão reforçam a relevância de aprofundar o debate sobre a atuação da Educação Física no campo da Saúde Coletiva, especialmente no que se refere à produção do cuidado, às práticas corporais e ao trabalho interdisciplinar na Atenção Primária à Saúde, temas que merecem maior desenvolvimento teórico e empírico em estudos futuros.

 

    Como limitação, destaca-se que esta investigação consiste em uma revisão narrativa da literatura, abordagem que possibilita uma análise ampla e interpretativa da produção científica, porém não possui o rigor metodológico de revisões sistemáticas ou meta-análises para estabelecer sínteses quantitativas ou inferências robustas acerca da efetividade do Programa Academia da Saúde. Dessa forma, os resultados devem ser interpretados como uma síntese crítica das evidências disponíveis, considerando as limitações inerentes aos estudos incluídos, predominantemente observacionais.

 

    Por fim, recomenda-se que pesquisas futuras priorizem delineamentos metodológicos mais robustos, incluindo revisões sistemáticas, estudos longitudinais e avaliações de implementação, capazes de investigar a efetividade do PAS em diferentes contextos regionais e perfis populacionais, bem como de compreender aspectos relacionados à adesão, permanência dos usuários, equidade no acesso e sustentabilidade das ações desenvolvidas nos polos.

 

Referências 

 

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Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 31, Núm. 339, Ago. (2026)