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ISSN 1514-3465

 

Perfil sociodemográfico, clínico e nível de atividade

física em mulheres no Programa Academia da Saúde

Sociodemographic, Clinical, and Physical Activity Profile of Women in the Health Academy Program

Perfil sociodemográfico, clínico, y nivel de actividad física en mujeres del Programa Gimnasio de Salud

 

Bruno da Sila Compassi*

brunocompassi@hotmail.com

Thais Severo Dutra da Veiga**

thais.severo@hotmail.com

Rodrigo de Rosso Krug+

rkrug@unicruz.edu.br

Marilia de Rosso Krug++

mkrug@unicruz.edu.br

 

*Graduado em Educação Física

Bacharelado pela Universidade de Cruz Alta (UNICRUZ)

Atualmente é servidor público da Prefeitura Municipal

de Cruz Alta, atuando na área da saúde

**Fisioterapeuta, aluna do Programa de Pós-graduação stricto sensu

em título de doutorado em atenção em integral a saúde

da Universidade de Cruz Alta em parceria

com a Universidade regional do Noroeste do Rio Grande do Sul

e Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões

+Doutor em Ciências Médicas

pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

Mestre em Ciências do Movimento Humano

pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC)

Graduado em Educação Física

Professor da Universidade de Cruz Alta (UNICRUZ)

Docente permanente e coordenador do Programa de Pós-Graduação

em Atenção Integral à Saúde (PPGAIS/UNICRUZ–UNIJUÍ)

++Profissional de Educação Física

com Mestrado em Ciência do Movimento Humano

e Doutorado em Educação em Ciências pela UFSM

Professora adjunta III na Universidade de Cruz Alta (UNICRUZ)

Coordenadora adjunta e docente permanente

do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu

em Atenção Integral à Saúde – PPGAIS/UNICRZ/URI Erechim/UNIJUÍ

Membro de Comitê de Ética em Pesquisa da UNICRUZ

(Brasil)

 

Recepción: 10/04/2026 - Aceptación: 28/07/2026

1ª Revisión: 16/07/2026 - 2ª Revisión: 27/07/2026

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Cita sugerida: Compassi, B. da S., Veiga, T.S.D. da, Krug, R. de R., e Krug, M. de R. (2026). Perfil sociodemográfico, clínico e nível de atividade física em mulheres no Programa Academia da Saúde. Lecturas: Educación Física y Deportes, 31(341), 110-123. https://doi.org/10.46642/efd.v31i341.8846

 

Resumo

    Este estudo teve como objetivo analisar a associação entre características sociodemográficas, multimorbidade e nível de atividade física em mulheres acompanhadas pela Atenção Primária à Saúde participantes do Programa Academia da Saúde. Trata-se de um estudo transversal, realizado com 59 mulheres com idade igual ou superior a 20 anos. Foram coletadas informações sociodemográficas, renda, presença de doenças crônicas não transmissíveis e nível de atividade física. As associações foram analisadas por meio do teste do qui-quadrado de Pearson ou do teste exato de Fisher, adotando-se nível de significância de 5 %. A amostra foi composta predominantemente por mulheres idosas, idade igual ou superior a 60 (67, 8 %), com baixa escolaridade (80,9 %) e baixa renda (55,9 %). A maioria das participantes não apresentou multimorbidade (74,5 %). Não foram observadas associações estatisticamente significativas entre o nível de atividade física e as variáveis sociodemográficas. Em contrapartida, verificou-se associação significativa entre o nível de atividade física e a presença de multimorbidade, indicando maior prevalência de inatividade física entre as mulheres com duas ou mais doenças crônicas (p < 0,05). Conclui-se que as participantes apresentam um perfil de vulnerabilidade sociodemográfica e que a multimorbidade está associada à inatividade física, reforçando a necessidade de estratégias de promoção da atividade física direcionadas a esse grupo no âmbito da Atenção Primária à Saúde.

    Unitermos: Atividade física. Doenças crônicas. Morbidade múltipla. Atenção primária.

 

Abstract

    To analyze the association between sociodemographic characteristics, multimorbidity, and physical activity level among women receiving care in Primary Health Care and participating in the Health Academy Program. This was a cross-sectional study conducted with 59 women aged 20 years or older. Sociodemographic characteristics, income, the presence of noncommunicable chronic diseases, and physical activity level were assessed. Associations were analyzed using Pearson's chi-square test or Fisher's exact test, adopting a significance level of 5 %. The sample consisted predominantly of older women (67.8 %), with low educational attainment (80.9 %) and low income (55.9 %). Most participants did not present multimorbidity (74.5 %). No statistically significant associations were observed between physical activity level and sociodemographic variables. However, a significant association was found between physical activity level and multimorbidity, indicating a higher prevalence of physical inactivity among women with two or more chronic diseases (p < 0.05). It was concluded that the participants presented a sociodemographically vulnerable profile and that multimorbidity was associated with physical inactivity, reinforcing the need for targeted physical activity promotion strategies for this population within the Primary Health Care setting.

    Keywords: Physical activity. Chronic disease. Multimorbidity. Primary health care.

 

Resumen

    Este estudio tuvo como objetivo analizar la asociación entre las características sociodemográficas, la multimorbilidad y el nivel de actividad física en mujeres atendidas en Atención Primaria de Salud que participan en el Programa Gimnasio de Salud. Se trata de un estudio transversal realizado con 59 mujeres de 20 años o más. Se recopiló información sociodemográfica, ingresos, presencia de enfermedades crónicas no transmisibles y nivel de actividad física. Las asociaciones se analizaron mediante la prueba de chi-cuadrado de Pearson o la prueba exacta de Fisher, adoptando un nivel de significancia del 5 %. La muestra estuvo compuesta predominantemente por mujeres mayores de 60 años (67,8 %), con bajo nivel educativo (80,9 %) y bajos ingresos (55,9 %). La mayoría de las participantes no presentaba multimorbilidad (74,5 %). No se observaron asociaciones estadísticamente significativas entre el nivel de actividad física y las variables sociodemográficas. Por el contrario, se encontró una asociación significativa entre el nivel de actividad física y la presencia de multimorbilidad, lo que indica una mayor prevalencia de inactividad física entre las mujeres con dos o más enfermedades crónicas (p < 0,05). Se concluye que los participantes presentan un perfil de vulnerabilidad sociodemográfica y que la multimorbilidad se asocia con la inactividad física, lo que refuerza la necesidad de estrategias para promover la actividad física dirigidas a este grupo en el ámbito de la Atención Primaria de Salud.

    Palabras clave: Actividad física. Enfermedades crónicas. Multimorbilidad. Atención primaria.

 

Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 31, Núm. 341, Oct. (2026)


 

Introdução 

 

    As doenças crônicas não transmissíveis (DCNT), em especial a hipertensão arterial sistêmica (HAS) e o diabetes mellitus (DM), configuram um dos maiores desafios para os sistemas de saúde em âmbito global. Estima-se que aproximadamente 1,13 bilhão de pessoas vivam com HAS e cerca de 422 milhões com DM, números que vêm aumentando progressivamente nas últimas décadas. Essas condições contribuem de forma expressiva para a carga mundial de morbimortalidade, principalmente por elevarem o risco de doenças cardiovasculares, incapacidades funcionais e morte prematura. (World Health Organization [WHO], 2023; International Diabetes Federation, 2021)

 

    A hipertensão arterial constitui um importante fator de risco para eventos cardiovasculares, estando associada ao aumento da ocorrência de infarto agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral, doença renal crônica e mortalidade cardiovascular e por todas as causas (Barroso et al., 2021). No Brasil, dados do Vigitel indicam que 26,3 % da população adulta relatou diagnóstico médico de HAS em 2021, com prevalência ligeiramente superior entre as mulheres (27,1 %) em comparação aos homens (25,4 %). Esse percentual representa aumento em relação a 2019, quando a prevalência autorreferida era de 24,5 % (Brasil, 2019; Brasil, 2021b). Destaca-se, ainda, que aproximadamente metade das pessoas com níveis pressóricos elevados desconhece sua condição, evidenciando o caráter frequentemente assintomático da doença e a ocorrência de subdiagnóstico (Santiago et al., 2021). Em relação ao DM, estima-se que mais de 13 milhões de brasileiros convivam com a doença, correspondendo a cerca de 6,9 % da população nacional. (Brasil, 2023)

 

    No contexto brasileiro, HAS e DM estão fortemente relacionadas a fatores de risco modificáveis, entre os quais se destaca a insuficiente prática de atividade física (Brasil, 2021a). A prática regular de atividade física constitui uma intervenção não farmacológica amplamente reconhecida para a prevenção e o controle dessas doenças, promovendo redução da pressão arterial, melhora do controle glicêmico, diminuição do risco cardiovascular e aumento da qualidade de vida. (WHO, 2020; Bull et al., 2020)

 

    Nesse contexto, o Programa Academia da Saúde (PAS) constitui uma importante estratégia do Sistema Único de Saúde voltada à promoção da saúde, por meio do incentivo às práticas corporais, à atividade física, à alimentação saudável, à educação em saúde e ao fortalecimento da participação comunitária. Desenvolvido por equipes multiprofissionais, o programa busca ampliar a autonomia dos indivíduos, fortalecer os vínculos sociais e contribuir para a redução das iniquidades em saúde. (Brasil, 2014; Brasil, 2017; Malta et al., 2022)

 

    Embora o PAS ofereça oportunidades sistemáticas para a prática de atividade física e o desenvolvimento de ações de promoção da saúde, a participação no programa não garante, necessariamente, que seus usuários atinjam os níveis de atividade física recomendados para obtenção de benefícios clínicos. Assim, a avaliação do nível de atividade física entre seus participantes torna-se fundamental para verificar a efetividade das ações desenvolvidas e identificar aspectos que possam subsidiar o aprimoramento das estratégias de promoção da saúde.

 

    Além disso, considerando que mulheres com multimorbidade apresentam maior vulnerabilidade clínica e funcional, torna-se relevante investigar como o nível de atividade física se distribui segundo características sociodemográficas, como idade, escolaridade e renda, bem como em relação à presença de multimorbidade. Evidências dessa natureza podem contribuir para o planejamento de intervenções mais equitativas e efetivas no âmbito da Atenção Primária à Saúde.

 

    Diante desse cenário, o presente estudo teve como objetivo analisar a associação entre características sociodemográficas, multimorbidade e nível de atividade física em mulheres acompanhadas pela Atenção Primária à Saúde e participantes do Programa Academia da Saúde.

 

Métodos 

 

    Trata-se de um estudo observacional, transversal, de abordagem quantitativa, realizado nos polos do Programa Academia da Saúde (PAS) do município de Cruz Alta, Rio Grande do Sul.

 

    O PAS constitui uma estratégia do Sistema Único de Saúde voltada à promoção da saúde e à prevenção das doenças crônicas não transmissíveis, desenvolvida por equipes multiprofissionais e alinhada às diretrizes do Ministério da Saúde. No município de Cruz Alta, o programa oferece sessões regulares de atividades físicas presenciais, realizadas, em média, duas vezes por semana, contemplando exercícios aeróbicos, alongamentos, atividades de fortalecimento muscular e práticas corporais adaptadas às necessidades dos participantes. Além disso, desenvolve ações de educação em saúde, orientação nutricional, grupos de convivência e monitoramento de fatores de risco, buscando promover o cuidado integral e o fortalecimento da autonomia dos usuários.

 

    A amostra foi composta por 59 mulheres selecionadas por conveniência, considerando todas as participantes elegíveis presentes nos polos do PAS durante o período de coleta de dados. Foram incluídas mulheres com idade igual ou superior a 20 anos, com diagnóstico médico autorreferido de hipertensão arterial sistêmica e/ou diabetes mellitus, participantes do programa há pelo menos três meses, e que concordaram em participar da pesquisa mediante assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Foram excluídas mulheres com limitações físicas que impossibilitassem a realização das atividades propostas pelo programa, déficits cognitivos que comprometessem a compreensão dos instrumentos de pesquisa ou que não concluíram todas as etapas da coleta de dados.

 

    A coleta de dados foi realizada entre os meses de outubro e novembro de 2025, por pesquisadores previamente treinados, nos locais onde ocorriam as atividades do programa. As informações foram obtidas por meio de entrevista estruturada e aplicação de instrumentos padronizados. Foram coletados dados sociodemográficos, incluindo idade, escolaridade e renda familiar, além da presença de hipertensão arterial sistêmica, diabetes mellitus e multimorbidade.

 

    A idade foi categorizada em adultas (20 a 59 anos) e idosas (≥ 60 anos). A escolaridade foi classificada em baixa (< 8 anos de estudo) e alta (≥ 8 anos de estudo), conforme os critérios da Rede Interagencial de Informações para a Saúde (RIPSA). A renda domiciliar foi categorizada em baixa (≤ 2 salários mínimos) e alta (> 2 salários mínimos), de acordo com a metodologia do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2023).

 

    Para este estudo, a multimorbidade foi definida como a ocorrência simultânea de hipertensão arterial sistêmica e diabetes mellitus. As participantes classificadas como "sem multimorbidade" apresentavam apenas uma dessas condições clínicas.

 

    O nível de atividade física foi avaliado por meio da versão curta do Questionário Internacional de Atividade Física (IPAQ), validada para a população brasileira por Matsudo et al. (2001). O instrumento avalia a frequência e a duração das atividades físicas realizadas nos sete dias anteriores à entrevista, contemplando caminhada, atividades moderadas e vigorosas, além do tempo despendido em comportamento sedentário.

 

    As participantes foram classificadas conforme as recomendações do IPAQ (Craig et al., 2003) e, posteriormente, agrupadas em ativas (ativas e muito ativas) e não ativas (irregularmente ativas e sedentárias), conforme as recomendações internacionais para adultos e pessoas com doenças crônicas.

 

    Os dados foram digitados em planilha eletrônica e analisados no software Jamovi (versão 6.26.0). Inicialmente, foram calculadas frequências absolutas e relativas para todas as variáveis categóricas, sendo realizada a análise descritiva das características sociodemográficas e clínicas da amostra. A associação entre o nível de atividade física e as variáveis sociodemográficas e clínicas foi analisada por meio do teste do qui-quadrado de Pearson ou, quando necessário, do teste exato de Fisher, adotando-se nível de significância de 5 % (p < 0,05).

 

    O estudo foi desenvolvido em conformidade com os princípios éticos estabelecidos pela Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade de Cruz Alta (CEP/UNICRUZ), sob parecer nº 7.733.109. Todas as participantes receberam esclarecimentos sobre os objetivos, riscos e benefícios da pesquisa e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido antes da coleta de dados.

 

Resultados 

 

    Na Tabela 1 são apresentadas as frequências absolutas e relativas das características sociodemográficas e clínicas das participantes do estudo.

 

Tabela 1. Características sociodemográficas e clínicas das participantes. Cruz Alta, RS, Brasil, 2025

Variáveis

Frequência absoluta

Frequência percentual

Faixa etária

Idosos (≥ a 60 anos)

40

67,7

Adultos (20 a 59 anos)

19

32,3

Escolaridade

Baixa

46

80,8

Alta

13

19,2

Renda

Baixa

33

55,9

Alta

26

44,1

Multimorbidades

Não

44

74,4

Sim

15

25,6

Fonte: Elaboração própria

 

    A amostra foi composta por mulheres idosas (67,7 %), enquanto as adultas representaram 32,3 % da amostra. Em relação à escolaridade, observou-se predomínio de baixa escolaridade (80,8 %). Quanto à renda, 55,9 % das participantes apresentaram renda domiciliar de até dois salários mínimos. Em relação às condições clínicas, 74,4 % das mulheres não apresentavam multimorbidade, enquanto 25,6 % apresentavam simultaneamente hipertensão arterial sistêmica e diabetes mellitus.

 

    Quanto ao nível de atividade física, observou-se que 79,7 % (n = 47) das participantes foram classificadas como insuficientemente ativas ou sedentárias, enquanto apenas 20,3 % (n = 12) foram classificadas como ativas. Entre todas as participantes, 8,5 % (n = 5) encontravam-se especificamente na categoria sedentária.

 

    A Tabela 2 apresenta os resultados da associação do nível de atividade física com as variáveis sociodemográficas e clínicas e a presença de multimorbidade. Para associar o NAF com as variáveis: faixa etária, escolaridade e condição clínica, dicotomizou-se a variável em Ativas e Insuficientemente ativas, incluindo as sedentárias nesta última categoria.

 

Tabela 2. Associação entre o nível de atividade física e as características sociodemográficas e clínicas das participantes

Variáveis

Ativos

Não ativos

p

fa

f %

fa

f %

Faixa Etária

Idosos

10

83,33

30

63,8

0,303

Adultos

2

16,66

17

36,2

Escolaridade

Baixa

8

66,7

38

80,9

0,435

Alta

4

33,3

9

19,1

Renda

Baixa

5

41,7

19

40,4

0,265

Alta

7

58,3

28

59,6

Presença Multimorbidade

Não

12

100

32

68,1

0,023*

Sim

0

0

15

31,9

*Existem diferenças estatisticamente significativas ao nível de p < 0,05. Teste do qui-quadrado de Pearson ou teste exato de Fisher p < 0,05; fa: frequência absoluta; f %:frequência percentual. Fonte: Elaboração própria

 

    A comparação entre o nível de atividade física e as variáveis sociodemográficas não evidenciou associações estatisticamente significativas para faixa etária (p = 0,303), escolaridade (p = 0,435) e renda (p = 0,265).

 

    Entre as mulheres classificadas como ativas, 83,3 % eram idosas e 16,7 % adultas. Entretanto, essa distribuição não diferiu significativamente daquela observada entre as participantes não ativas.

 

    Da mesma forma, não foram observadas associações significativas entre o nível de atividade física e a escolaridade ou a renda.

Por outro lado, verificou-se associação estatisticamente significativa entre o nível de atividade física e a presença de multimorbidade (p = 0,023). Todas as participantes classificadas como ativas apresentavam apenas uma doença crônica (100 %), enquanto entre as não ativas observou-se maior frequência de multimorbidade (31,9 %), indicando que mulheres com hipertensão arterial sistêmica e diabetes mellitus concomitantes apresentaram maior prevalência de inatividade física.

 

Discussão 

 

    Os resultados deste estudo evidenciaram elevada prevalência de insuficiência de atividade física entre mulheres participantes do Programa Academia da Saúde (PAS), mesmo diante da oferta regular de ações voltadas à promoção da saúde. Embora o programa tenha como objetivo estimular a prática de atividade física e a adoção de hábitos saudáveis, constatou-se que a maioria das participantes não atingiu os níveis recomendados internacionalmente, evidenciando a complexidade da adoção e manutenção de um estilo de vida ativo.

 

    Esses achados corroboram a literatura nacional e internacional, que reconhece a inatividade física como um problema multifatorial e persistente de saúde pública, mesmo em contextos onde políticas de promoção da saúde estão consolidadas (WHO, 2020; Brasil, 2023; Malta et al., 2022). A oferta de espaços e programas estruturados, por si só, não garante mudanças comportamentais, uma vez que a prática de atividade física é influenciada por fatores sociais, econômicos e ambientais.

 

    A elevada prevalência de insuficiência de atividade física também pode estar relacionada à frequência das atividades presenciais oferecidas pelo programa, geralmente realizadas duas vezes por semana, abaixo do volume recomendado pela Organização Mundial da Saúde (WHO, 2020). Entretanto, a adesão à prática de atividade física depende igualmente de fatores contextuais, como condições socioeconômicas, infraestrutura urbana, segurança, responsabilidades familiares e acesso aos espaços de lazer, que podem limitar a participação das mulheres. (Sallis et al., 2021; WHO, 2022; Florindo et al., 2018; Farias Júnior et al., 2020)

 

    Nesse contexto, Barata (2021) ressalta que a adoção de hábitos saudáveis não deve ser compreendida apenas como uma escolha individual, mas como um comportamento condicionado por determinantes sociais, incluindo vulnerabilidade socioeconômica, condições de trabalho e desigualdades de gênero.

 

    No município de Cruz Alta, o PAS desenvolve uma abordagem multiprofissional que integra profissionais de educação física, nutrição, psicologia, enfermagem e assistência social, promovendo práticas corporais, educação em saúde, grupos de convivência e acompanhamento da saúde física e mental (Brasil, 2017; Florindo et al., 2018). Essa atuação é particularmente relevante para a população estudada, caracterizada por baixa escolaridade, menor renda e presença de multimorbidade, fatores que podem dificultar a manutenção de níveis adequados de atividade física.

 

    A associação observada entre multimorbidade e menor nível de atividade física é consistente com evidências recentes da literatura. Revisão sistemática conduzida por Delpino et al. (2022) demonstrou que indivíduos com multimorbidade apresentam menor probabilidade de atender às recomendações de atividade física. De forma semelhante, estudos observacionais recentes evidenciaram que níveis moderados e elevados de atividade física estão associados a menor risco de multimorbidade e de doenças crônicas, reforçando o papel protetor da atividade física na prevenção e no manejo dessas condições. (Fu et al., 2025; Mou et al., 2025)

 

    Assim, embora os resultados indiquem baixa adesão às recomendações internacionais de atividade física, essa avaliação, baseada em instrumentos como o IPAQ, não contempla integralmente as diferentes práticas corporais desenvolvidas pelo programa nem as barreiras sociais enfrentadas pelas participantes. Esses achados reforçam a importância de estratégias multiprofissionais e intersetoriais que considerem os determinantes sociais da saúde e promovam ações contextualizadas, capazes de ampliar o acesso e favorecer a prática regular de atividade física entre mulheres acompanhadas na Atenção Primária à Saúde. (Malta et al., 2022)

 

Conclusão 

 

    Os resultados deste estudo evidenciaram elevada prevalência de insuficiência de atividade física entre mulheres participantes do Programa Academia da Saúde. Além disso, observou-se associação significativa entre a presença de multimorbidade e a inatividade física, indicando que mulheres com hipertensão arterial sistêmica e diabetes mellitus concomitantes apresentaram menor nível de atividade física.

 

    Não foram observadas associações estatisticamente significativas entre o nível de atividade física e as variáveis sociodemográficas investigadas, incluindo faixa etária, escolaridade e renda.

 

    Esses achados reforçam a importância do desenvolvimento de estratégias voltadas à promoção da atividade física entre mulheres com doenças crônicas acompanhadas na Atenção Primária à Saúde, especialmente aquelas com multimorbidade. Recomenda-se o fortalecimento das ações desenvolvidas no Programa Academia da Saúde e a realização de estudos longitudinais com amostras maiores, capazes de ampliar a compreensão dos fatores associados à prática de atividade física nessa população. Os achados podem subsidiar o planejamento de ações multiprofissionais voltadas ao aumento da atividade física entre mulheres com doenças crônicas acompanhadas na Atenção Primária à Saúde.

 

Referencias 

 

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Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 31, Núm. 341, Oct. (2026)