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ISSN 1514-3465

 

Treinamento unilateral no condicionamento físico.

Implicações neuromusculares, biomecânicas e funcionais

Unilateral Training in Physical Conditioning. 

Neuromuscular, Biomechanical and Functional Implications

Entrenamiento unilateral en el acondicionamiento físico. 

Implicaciones neuromusculares, biomecánicas y funcionales

 

Douglas Tajes Junior

tajessports@gmail.com

 

Graduado em Geografia pela Faculdade Estadual

de Filosofia, Ciências e Letras de União da Vitória

Graduado em Educação Física pela Unidade de Ensino Superior Vale do Iguaçu 

Especialização em Didática e Docência e Mestrado em Desenvolvimento Regional. 

Fundador e CEO da TS LAB Smart Training

empresa dedicada ao treinamento e à preparação física

Coordenador Técnico de Competições e Eventos

na Secretaria Municipal de Esportes de União da Vitória

(Brasil)

 

Recepción: 30/03/2026 - Aceptación: 30/07/2026

1ª Revisión: 11/06/2026 - 2ª Revisión: 27/07/2026

 

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Cita sugerida: Tajes Juniors, D. (2026). Treinamento unilateral no condicionamento físico. Implicações neuromusculares, biomecânicas e funcionais. Lecturas: Educación Física y Deportes, 31(341), 227-253. https://doi.org/10.46642/efd.v31i341.8829

 

Resumo

    O treinamento de força evoluiu significativamente nas últimas décadas, incorporando estratégias fundamentadas na especificidade funcional e no desempenho esportivo. Nesse contexto, o treinamento unilateral destaca-se por impor maiores demandas neuromusculares, proprioceptivas e biomecânicas quando comparado ao treinamento bilateral tradicional. A execução de exercícios com apoio único amplia a necessidade de estabilização lombo-pélvica, controle intermuscular e coordenação neural, além de favorecer a identificação e a correção de assimetrias entre os membros. Evidências recentes sugerem que assimetrias interlaterais podem comprometer o desempenho físico e, em determinadas modalidades esportivas, estar associadas ao aumento do risco de lesões musculoesqueléticas, embora essa relação ainda apresente resultados inconsistentes na literatura. O fenômeno do déficit bilateral reforça a relevância das adaptações neurais específicas promovidas pelo estímulo unilateral. Assim, o objetivo deste estudo foi analisar as principais implicações neuromusculares, biomecânicas e funcionais do treinamento unilateral no condicionamento físico, enfatizando seus efeitos sobre o desempenho, a prevenção de lesões e o equilíbrio de força entre os membros. A literatura contemporânea indica que sua aplicação, quando integrada a programas periodizados que também incluem exercícios bilaterais, potencializa ganhos de força funcional, potência e estabilidade dinâmica.

    Unitermos: Treinamento de força. Assimetria muscular. Controle motor. Desempenho esportivo. Estabilidade lombo-pélvica.

 

Abstract

    Strength training has evolved substantially over recent decades, incorporating strategies based on functional specificity and athletic performance. In this context, unilateral training has emerged as a prominent approach due to its greater neuromuscular, proprioceptive, and biomechanical demands compared with traditional bilateral training. Performing exercises with single-leg support increases the requirements for lumbopelvic stabilization, intermuscular control, and neural coordination, while facilitating the identification and correction of inter-limb asymmetries. Recent evidence suggests that inter-limb asymmetries may impair physical performance and, in certain sports, be associated with an increased risk of musculoskeletal injuries, although this relationship remains inconsistent across the current literature. The phenomenon of the bilateral deficit further highlights the importance of the neural adaptations elicited by unilateral exercise. Therefore, the aim of this study was to analyze the main neuromuscular, biomechanical, and functional implications of unilateral training for physical conditioning, emphasizing its effects on athletic performance, injury prevention, and inter-limb strength balance. Contemporary evidence indicates that, when integrated into periodized training programs that also include bilateral exercises, unilateral training enhances gains in functional strength, power, and dynamic stability.

    Keywords: Strength training. Inter-limb asymmetry. Motor control. Athletic performance. Lumbopelvic stability.

 

Resumen

    El entrenamiento de fuerza ha evolucionado significativamente en las últimas décadas, incorporando estrategias basadas en la especificidad funcional y el rendimiento atlético. En este contexto, el entrenamiento unilateral destaca por imponer mayores exigencias neuromusculares, propioceptivas y biomecánicas en comparación con el entrenamiento bilateral tradicional. La realización de ejercicios con un solo apoyo incrementa la necesidad de estabilización lumbopélvica, control intermuscular y coordinación neural, además de favorecer la identificación y corrección de asimetrías entre las extremidades. Evidencia reciente sugiere que las asimetrías interlaterales pueden comprometer el rendimiento físico y, en ciertos deportes, asociarse con un mayor riesgo de lesiones musculoesqueléticas, si bien esta relación aún presenta resultados inconsistentes en la literatura. El fenómeno del déficit bilateral refuerza la relevancia de las adaptaciones neurales específicas promovidas por la estimulación unilateral. Por lo tanto, el objetivo de este estudio fue analizar las principales implicaciones neuromusculares, biomecánicas y funcionales del entrenamiento unilateral en el acondicionamiento físico, haciendo hincapié en sus efectos sobre el rendimiento, la prevención de lesiones y el equilibrio de fuerza entre las extremidades. La literatura contemporánea indica que su aplicación, integrada en programas periodizados que también incluyen ejercicios bilaterales, mejora las ganancias en fuerza funcional, potencia y estabilidad dinámica.

    Palabras clave: Entrenamiento de fuerza. Asimetría muscular. Control motor. Rendimiento deportivo. Estabilidad lumbopélvica.

 

Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 31, Núm. 341, Oct. (2026)


 

Introdução 

 

    O treinamento de força constitui um dos principais componentes da preparação física contemporânea, sendo amplamente reconhecido por sua capacidade de promover adaptações neuromusculares, biomecânicas e funcionais que contribuem para a melhora do desempenho esportivo, da capacidade funcional e da prevenção de lesões. Tradicionalmente, programas de treinamento têm priorizado exercícios bilaterais devido à possibilidade de utilização de maiores cargas absolutas e ao desenvolvimento global da força. Entretanto, o crescente entendimento sobre a especificidade das demandas impostas pelas diferentes modalidades esportivas tem direcionado maior atenção ao treinamento unilateral, uma vez que grande parte das ações determinantes do desempenho, como acelerações, desacelerações, saltos, aterrissagens, mudanças de direção e gestos técnicos, ocorre predominantemente com apoio em um único membro. (Bishop et al., 2021; Dos Santos et al., 2021)

 

    Sob a perspectiva biomecânica e funcional, os exercícios unilaterais diferenciam-se dos bilaterais por imporem maiores exigências de estabilidade dinâmica, controle postural e coordenação intermuscular. A redução da base de suporte e o aumento das demandas de equilíbrio promovem maior recrutamento da musculatura estabilizadora do tronco e do complexo lombo-pélvico, exigindo um controle neuromuscular mais refinado para manter o alinhamento corporal e a eficiência do movimento (McGill, 2010). Além disso, a necessidade de estabilização durante tarefas unilaterais potencializa adaptações relacionadas ao equilíbrio, à propriocepção e à coordenação intermuscular, favorecendo a transferência funcional para atividades esportivas e tarefas da vida diária (Behm, e Colado, 2012). Em conjunto, essas características justificam a ampla utilização dos exercícios unilaterais tanto no treinamento esportivo quanto na prevenção e reabilitação de lesões, especialmente em modalidades que demandam produção de força e estabilidade em apoio unipodal. Paralelamente, o treinamento unilateral também estimula adaptações neurais importantes, incluindo maior recrutamento de unidades motoras, aprimoramento da coordenação intra e intermuscular e o fenômeno de cross-education, no qual o treinamento de um membro promove ganhos de força no membro contralateral por mecanismos predominantemente neurais (Gabriel et al., 2006; Munn et al., 2004; Ruddy, e Carson, 2013). Esses mecanismos reforçam sua aplicabilidade tanto em programas de reabilitação quanto na preparação física de atletas.

 

    Outro aspecto amplamente investigado refere-se às assimetrias interlaterais de força e potência. Embora diferenças entre os membros sejam inerentes ao movimento humano, evidências sugerem que assimetrias acentuadas podem comprometer o desempenho físico e, em determinadas modalidades esportivas, estar associadas ao aumento do risco de lesões musculoesqueléticas, embora essa relação ainda apresente resultados inconsistentes na literatura (Maloney, 2019; Bishop et al., 2021; Fox et al., 2023). Além disso, o fenômeno do déficit bilateral indica que a produção simultânea de força pelos dois membros pode ser inferior à soma das produções unilaterais, possivelmente em decorrência de mecanismos neurais centrais relacionados ao recrutamento motor, à coordenação intermuscular e à modulação da atividade cortical (Sarabon et al., 2020). Em conjunto, esses achados reforçam a importância da avaliação da força unilateral tanto para o monitoramento do desempenho quanto para o direcionamento de estratégias de treinamento e prevenção de lesões.

 

    Apesar do expressivo crescimento das pesquisas sobre treinamento unilateral nas últimas décadas, as evidências permanecem fragmentadas quanto aos seus efeitos sobre o desempenho esportivo, as adaptações neuromusculares, as respostas biomecânicas e as estratégias de prevenção de lesões. Além disso, diferenças relacionadas às populações investigadas, aos protocolos de treinamento, às características dos exercícios e aos métodos de avaliação dificultam a comparação entre os estudos e a tradução dos achados para a prática profissional. Embora revisões anteriores tenham abordado aspectos específicos, como assimetrias interlaterais, cross-education ou adaptações neuromusculares, ainda são escassas sínteses que integrem esses diferentes mecanismos sob uma perspectiva biomecânica e funcional aplicada ao treinamento de força.

 

    Diante desse cenário, o presente estudo teve como objetivo analisar criticamente as evidências disponíveis acerca das implicações neuromusculares, biomecânicas e funcionais do treinamento unilateral no condicionamento físico, enfatizando seus efeitos sobre o desempenho esportivo, o equilíbrio de força entre os membros e a prevenção de lesões, bem como discutir suas aplicações práticas na prescrição do treinamento de força.

 

Metodologia 

 

    O presente estudo caracteriza-se como uma revisão narrativa conduzida por meio de uma estratégia de busca sistematizada (semi-systematic review), com o objetivo de sintetizar criticamente as evidências científicas relacionadas às adaptações neuromusculares, biomecânicas e funcionais decorrentes do treinamento unilateral, bem como suas aplicações no condicionamento físico e no desempenho esportivo.

 

    A busca bibliográfica foi realizada entre os dias 1º e 15 de março de 2026 nas bases de dados PubMed/MEDLINE, Scopus, Web of Science e SPORTDiscus, selecionadas por sua ampla cobertura de periódicos científicos de elevado impacto nas áreas de Ciência do Esporte, Fisiologia do Exercício, Biomecânica e Neurociências do Movimento. Foram considerados estudos publicados entre janeiro de 2000 e março de 2026, período que contempla tanto as investigações pioneiras quanto os avanços metodológicos mais recentes relacionados às adaptações promovidas pelo treinamento unilateral.

 

    A estratégia de busca foi elaborada por meio da combinação de descritores controlados e termos livres em língua inglesa, utilizando operadores booleanos (AND/OR). A sintaxe principal empregada foi:

 

    ("unilateral training" OR "single-leg training" OR "single-limb training" OR "unilateral exercise" OR "single-leg exercise") AND ("strength training" OR "resistance training") AND ("neuromuscular adaptations" OR biomechanics OR "muscle strength" OR performance OR asymmetry OR "injury prevention")

 

    Quando necessário, pequenas adaptações foram realizadas na sintaxe para atender às particularidades de indexação de cada base de dados, preservando-se a equivalência conceitual dos descritores utilizados. Adicionalmente, foram conduzidas buscas manuais nas listas de referências dos artigos incluídos, com o objetivo de identificar estudos potencialmente relevantes não recuperados pela estratégia eletrônica inicial.

 

    Foram elegíveis para inclusão ensaios experimentais, estudos quase-experimentais, investigações biomecânicas e neurofisiológicas, revisões sistemáticas e meta-análises que abordassem os efeitos do treinamento unilateral sobre variáveis relacionadas à força muscular, potência, desempenho funcional, controle neuromuscular, assimetrias intermembros, estabilidade, biomecânica do movimento ou prevenção de lesões. Também foram considerados estudos conduzidos com atletas ou indivíduos fisicamente ativos, desde que apresentassem descrição metodológica suficiente para a interpretação de seus resultados.

 

    Foram excluídos estudos realizados exclusivamente com populações clínicas sem relação direta com o desempenho físico, publicações duplicadas, resumos de congressos, cartas ao editor, capítulos de livros, dissertações, teses e artigos que não apresentassem informações metodológicas suficientes ou cujo foco não estivesse alinhado aos objetivos desta revisão.

 

    O processo de seleção dos estudos foi conduzido em quatro etapas sequenciais: (1) identificação dos registros nas bases de dados; (2) remoção das publicações duplicadas; (3) triagem por meio da leitura dos títulos e resumos; e (4) leitura na íntegra dos estudos potencialmente elegíveis, seguida da seleção final com base na relevância científica, consistência metodológica e aderência aos objetivos da presente revisão.

 

    Para cada estudo incluído, foram extraídas informações referentes ao delineamento metodológico, características da amostra, protocolo de treinamento, duração da intervenção, variáveis analisadas, métodos de avaliação, principais resultados e implicações práticas. A organização dessas informações permitiu a comparação crítica entre os estudos e a identificação de convergências, divergências e lacunas existentes na literatura.

 

    Em virtude da heterogeneidade observada entre os delineamentos experimentais, protocolos de intervenção, características das amostras e desfechos investigados, optou-se pela realização de uma síntese narrativa qualitativa das evidências, sem a condução de metanálise. A interpretação dos resultados fundamentou-se na consistência metodológica dos estudos, na magnitude das adaptações relatadas, na aplicabilidade prática dos achados e na convergência das evidências disponíveis.

 

    Por se tratar de uma revisão narrativa com estratégia de busca sistematizada, não foi realizada avaliação formal do risco de viés nem classificação da qualidade da evidência por instrumentos específicos, priorizando-se a integração crítica e contextualizada dos estudos mais relevantes sobre o treinamento unilateral e suas repercussões para o desempenho físico e esportivo.

 

Resultados 

 

    A estratégia de busca identificou inicialmente 440 registros nas bases de dados consultadas. Após a remoção das publicações duplicadas, procedeu-se à triagem dos títulos e resumos, resultando na seleção de 73 estudos potencialmente elegíveis para leitura na íntegra. Ao final do processo de seleção, 45 artigos atenderam integralmente aos critérios de elegibilidade estabelecidos e compuseram a amostra final desta revisão.

 

    A síntese das evidências foi realizada de forma qualitativa e interpretativa, considerando a consistência metodológica dos estudos, as características das intervenções e a convergência dos achados relacionados às adaptações neuromusculares, biomecânicas e funcionais decorrentes do treinamento unilateral.

 

Caracterização geral das evidências 

 

    Os estudos incluídos contemplaram diferentes delineamentos experimentais, populações e protocolos de intervenção, envolvendo principalmente atletas de modalidades coletivas, indivíduos fisicamente ativos e adultos treinados. As investigações analisaram desfechos relacionados à força muscular, potência, desempenho em sprint, salto vertical, mudanças de direção, desaceleração, estabilidade dinâmica, controle neuromuscular, assimetrias intermembros e adaptações biomecânicas decorrentes da execução de exercícios unilaterais.

 

    De modo geral, as evidências demonstram que o treinamento unilateral promove melhorias consistentes na produção de força e potência, no desempenho esportivo e na redução de assimetrias funcionais, além de aumentar as exigências de estabilização e controle neuromuscular durante a execução dos movimentos.

 

    A Tabela 1 apresenta uma síntese dos principais estudos internacionais que investigaram os efeitos do treinamento unilateral sobre o desempenho físico e as adaptações neuromusculares e biomecânicas.

 

Tabela 1. Síntese dos principais estudos sobre os efeitos do treinamento 

unilateral no desempenho físico, nas adaptações neuromusculares e biomecânicas

Estudo

Desempenho Avaliado

Participantes

Principais achados

Gonzalo-Skok et al. (2022)

Potência de membros inferiores e assimetrias interlaterais

Atletas

O treinamento pliométrico unilateral aumentou a potência dos membros inferiores e reduziu significativamente as assimetrias interlaterais, favorecendo o desempenho em saltos e mudanças de direção.

Ramirez-Campillo et al. (2021)

Salto vertical, sprint e potência

Atletas treinados

A pliometria unilateral promoveu maiores ganhos na potência muscular, desempenho em sprint e salto vertical em comparação ao treinamento convencional.

Munn et al. (2004); Ruddy, e Carson (2013)

Transferência cruzada de força (cross-education)

Adultos saudáveis

O treinamento unilateral promove ganhos de força no membro contralateral não treinado por adaptações neurais centrais, envolvendo aumento da excitabilidade corticoespinal, redução da inibição inter-hemisférica e reorganização cortical.

Behm, e Colado (2012)

Ativação neuromuscular e estabilidade

Adultos treinados

Exercícios unilaterais e realizados sob instabilidade aumentaram a ativação da musculatura estabilizadora do tronco e do quadril, elevando a demanda de controle neuromuscular.

Bishop et al. (2020)

Assimetrias interlaterais e desempenho esportivo

Atletas

A redução das assimetrias interlaterais esteve associada à melhora da potência, aceleração e mudanças de direção, além de potencial redução do risco de lesões.

Dos Santos et al. (2021)

Desaceleração e controle unilateral

Atletas

O treinamento unilateral melhorou a capacidade de desaceleração, o controle do membro inferior e a estabilidade dinâmica durante ações esportivas.

Arakawa et al. (2025)

Demanda biomecânica no Bulgarian Split Squat

Adultos treinados

Alterações na inclinação do tronco e na posição da perna posterior modificaram o momento articular e a distribuição da carga mecânica sobre os extensores do quadril, demonstrando a influência da técnica na intensidade do exercício.

Fonte: Dados de pesquisa

 

    A Tabela 1 apresenta a síntese dos principais estudos identificados na literatura internacional que investigaram essas adaptações.

 

Características dos protocolos de treinamento unilateral 

 

    Observou-se considerável heterogeneidade entre os protocolos empregados pelos estudos incluídos. A duração das intervenções variou entre cinco e dezoito semanas, com frequência predominante de duas sessões semanais. Os programas utilizaram diferentes exercícios unilaterais, incluindo Rear-Foot Elevated Split Squat (RFESS), Bulgarian Split Squat, Step-up, agachamentos unilaterais e protocolos de pliometria unilateral, isoladamente ou combinados ao treinamento tradicional de força.

 

    Independentemente das diferenças metodológicas, a maioria dos estudos relatou ganhos significativos na força máxima, potência muscular, aceleração, velocidade de sprint, capacidade de mudança de direção e redução das assimetrias entre os membros inferiores. Estudos biomecânicos também evidenciaram que pequenas alterações técnicas, especialmente na inclinação do tronco e no posicionamento dos membros durante o Bulgarian Split Squat, modificam significativamente a distribuição das cargas articulares e a demanda mecânica sobre quadril e joelho.

 

Tabela 2. Características dos protocolos de treinamento unilateral descritos na literatura.

Autor (Ano)

Amostra

Intervenção

Protocolo

Principais adaptações observadas

Speirs et al. (2016)

18 jogadores de rugby

Rear-Foot Elevated Split Squat (RFESS) vs. Back Squat

5 semanas; 2 sessões/semana

Ambos os métodos aumentaram significativamente a força máxima e melhoraram o desempenho no sprint e na mudança de direção, demonstrando que o treinamento unilateral é tão eficaz quanto o bilateral para o desenvolvimento do desempenho esportivo.

Gonzalo-Skok et al. (2017)

27 jogadores de futebol de elite

Treinamento de força unilateral vs. bilateral

6 semanas; 2 sessões/semana

O treinamento unilateral promoveu maiores melhorias em aceleração, mudança de direção e desempenho específico, além de reduzir as assimetrias interlaterais.

Ramírez-Campillo et al. (2018)

Jovens jogadores de futebol

Treinamento combinado de força e pliometria unilateral vs. bilateral

8 semanas; 2 sessões/semana

Melhorou significativamente a potência muscular, o desempenho em saltos, a velocidade de sprint e reduziu as assimetrias entre os membros inferiores.

Appleby, Cormack e Newton (2020)

33 adultos treinados

Step-up unilateral vs. Back Squat bilateral

18 semanas; 2 sessões/semana

Ambos os programas aumentaram a força máxima e o desempenho no sprint. O treinamento bilateral apresentou maior transferência para o desempenho em mudança de direção.

Mackey, e Riemann (2021)

20 homens treinados

Comparação biomecânica entre Bulgarian Split Squat e Back Squat

Estudo biomecânico agudo

O Bulgarian Split Squat apresentou elevada demanda sobre os extensores do quadril e menor demanda mecânica sobre o joelho, evidenciando sua aplicabilidade no desenvolvimento da força unilateral.

Arakawa et al. (2025)

Adultos treinados

Variações técnicas do Bulgarian Split Squat

Estudo biomecânico agudo

Alterações na inclinação do tronco e na posição da perna posterior modificaram significativamente os momentos articulares e a distribuição da carga mecânica entre quadril e joelho, demonstrando a influência da técnica sobre a intensidade do exercício.

Fonte: Dados de pesquisa

 

    A análise dos estudos selecionados evidencia ampla diversidade metodológica nos protocolos de treinamento unilateral. A Tabela 2 apresenta as principais características dos programas de treinamento descritos na literatura, incluindo duração das intervenções, frequência semanal e tipos de exercícios empregados.

 

Síntese dos principais achados 

 

    Em conjunto, os estudos analisados demonstram que o treinamento unilateral constitui uma estratégia eficaz para o desenvolvimento da força e da potência muscular, favorecendo adaptações neurais e biomecânicas relevantes para o desempenho esportivo. Entre os principais efeitos observados destacam-se:

  • Aumento da força máxima e da potência dos membros inferiores;

  • Melhora do desempenho em sprint, salto vertical e mudanças de direção;

  • Redução das assimetrias intermembros;

  • Aumento da ativação da musculatura estabilizadora do tronco e do quadril;

  • Melhora da estabilidade dinâmica e do controle neuromuscular;

  • Aprimoramento da capacidade de desaceleração durante ações esportivas;

  • Ocorrência do fenômeno de transferência cruzada de força (cross-education);

  • Modificações biomecânicas dependentes da técnica de execução dos exercícios unilaterais.

    De maneira geral, os resultados evidenciam elevada convergência entre os estudos quanto à efetividade do treinamento unilateral para promover adaptações neuromusculares e biomecânicas com potencial aplicação tanto na otimização do desempenho esportivo quanto na redução de fatores associados ao risco de lesões.

 

Discussão 

 

Adaptações neuromusculares 

 

    Os estudos analisados demonstram que o treinamento unilateral promove adaptações neurais centrais importantes, incluindo modificações na organização cortical, na comunicação inter-hemisférica e no recrutamento de unidades motoras. Embora alguns estudos tenham observado aumento da excitabilidade corticoespinal após intervenções de aproximadamente 6 a 12 semanas, os achados ainda são heterogêneos e parecem depender do tipo de treinamento, da intensidade e dos métodos utilizados para avaliação neurofisiológica. (Ruddy, e Carson, 2013; Colomer-Poveda et al., 2021; Gómez-Feria et al., 2023)

 

    Evidências obtidas por meio da eletromiografia demonstram que exercícios unilaterais aumentam a ativação da musculatura estabilizadora do tronco quando comparados a tarefas bilaterais equivalentes, especialmente em condições de redução da base de apoio ou maior demanda de estabilidade. Da mesma forma, exercícios unilaterais destinados ao membro inferior promovem elevada ativação dos músculos estabilizadores do quadril, particularmente do glúteo médio e do glúteo máximo, contribuindo para o controle postural e a estabilidade pélvica durante tarefas funcionais. (Behm et al., 2005; García-Vaquero et al., 2012; Ekstrom et al., 2007)

 

    Além disso, o treinamento unilateral promove adaptações neurais caracterizadas pelo aumento do neural drive, maior frequência de disparo das unidades motoras, melhora da coordenação intra e intermuscular e redução da coativação antagonista, contribuindo para maior eficiência neuromuscular (Aagaard et al., 2002; Gabriel et al., 2006; Del Vecchio et al., 2019; Nijem, e Galpin, 2014). Outro mecanismo amplamente descrito é o fenômeno de cross-education, no qual o treinamento unilateral promove ganhos de força no membro contralateral não treinado, decorrentes principalmente de adaptações neurais centrais, como alterações no recrutamento motor, na excitabilidade cortical e na comunicação inter-hemisférica. (Munn et al., 2004; Ruddy, e Carson, 2013)

 

Redução de assimetrias interlaterais 

 

    A literatura indica que assimetrias superiores a 10–15 % estão associadas a maior risco de lesões musculoesqueléticas. Além disso, evidências recentes indicam que assimetrias interlaterais podem impactar negativamente o desempenho físico, particularmente em tarefas que envolvem produção de força e potência, reforçando a relevância do monitoramento dessas discrepâncias no contexto esportivo. (Madruga-Parera et al., 2020)

 

    Protocolos de treinamento unilateral com duração entre 8 e 12 semanas têm demonstrado reduções significativas das assimetrias interlaterais, acompanhadas por melhorias na força, potência e desempenho funcional, embora a magnitude dessas adaptações varie conforme a população, o protocolo utilizado e a tarefa avaliada. (Madruga-Parera et al., 2020; Bettariga et al. 2023)

 

    Essas reduções tendem a ser mais evidentes em tarefas que envolvem desacelerações e mudanças de direção, uma vez que tais ações impõem elevadas exigências neuromusculares, mecânicas e de produção de força unilateral durante sua execução. (Dos Santos et al., 2021; Ramírez-Campillo et al., 2021)

 

Melhora do controle biomecânico 

 

    Do ponto de vista biomecânico, o treinamento unilateral tem sido associado à redução do valgo dinâmico do joelho, ao aumento da rigidez musculotendínea e à melhora da eficiência mecânica durante tarefas pliométricas e mudanças de direção (Dos Santos et al., 2021; Ramírez-Campillo et al., 2021; Arakawa et al., 2025). Tais adaptações contribuem para maior estabilidade articular, melhor controle motor em planos multiplanares e maior capacidade de absorção e produção de força durante ações esportivas de alta demanda neuromuscular.

 

Impacto no desempenho esportivo 

 

    Revisões recentes demonstram que assimetrias interlaterais podem comprometer a produção de força e potência, reduzindo a eficiência mecânica durante tarefas explosivas, embora esse efeito dependa da magnitude da assimetria, da modalidade esportiva e do tipo de tarefa avaliada (Bishop et al., 2021; Maloney, 2019). Além disso, programas que combinam exercícios unilaterais de força e potência promovem melhorias significativas na produção de potência, no desempenho em saltos, acelerações e mudanças de direção, favorecendo a transferência para tarefas específicas do esporte (Gonzalo-Skok et al., 2017; Gonzalo-Skok et al., 2019; Suchomel et al., 2018). Em contraste, programas baseados predominantemente em exercícios bilaterais tendem a apresentar menor transferência para tarefas executadas unilateralmente, em razão do princípio da especificidade do treinamento e das diferenças nas exigências neuromusculares e biomecânicas entre essas tarefas. (Behm et al., 2005)

 

Mecanismos neurais e adaptações corticospinais 

 

    Avanços metodológicos recentes, especialmente a utilização da eletromiografia de alta densidade (HD-EMG) e da estimulação magnética transcraniana (TMS), ampliaram a compreensão dos mecanismos neurais associados ao treinamento unilateral. Evidências obtidas por essas técnicas indicam que esse tipo de treinamento promove adaptações centrais, incluindo alterações na excitabilidade corticoespinal, no recrutamento de unidades motoras e na coordenação intermuscular, contribuindo para os ganhos de força e para o fenômeno de transferência cruzada (cross-education) observado após intervenções unilaterais. (Aagaard et al., 2002; Ruddy, e Carson, 2013; Del Vecchio et al., 2019)

 

    O fenômeno do déficit bilateral tem sido amplamente atribuído a mecanismos neurais centrais, particularmente à inibição inter-hemisférica e às diferenças na organização do comando motor durante contrações simultâneas dos membros. Evidências sugerem que, durante ações bilaterais, pode ocorrer aumento da inibição transcalosa entre os hemisférios cerebrais, reduzindo a produção relativa de força quando comparada à soma das contrações unilaterais. Em contrapartida, o treinamento unilateral favorece adaptações neurais associadas ao aumento do recrutamento de unidades motoras, à elevação da frequência de disparo e ao aprimoramento da coordenação intermuscular, contribuindo para ganhos de força e desempenho funcional. (Aagaard et al., 2002; Gabriel et al., 2006; Ruddy, e Carson, 2013; Del Vecchio et al., 2019)

 

    Evidências clássicas já demonstravam que adaptações neurais precedem alterações morfológicas no treinamento de força, reforçando o papel central do sistema nervoso na fase inicial de ganhos funcionais. (Aagaard et al., 2002)

 

    Adicionalmente, estudos utilizando estimulação magnética transcraniana (TMS) demonstram que o treinamento unilateral está associado a alterações na excitabilidade corticoespinal, frequentemente evidenciadas pelo aumento da amplitude dos potenciais evocados motores (motor evoked potentials – MEP). Essas adaptações são compatíveis com maior responsividade das vias corticoespinais ao comando motor voluntário. Paralelamente, alguns estudos relatam redução da inibição intracortical de curta duração (short-interval intracortical inhibition – SICI) e alterações na facilitação intracortical (intracortical facilitation – ICF), sugerindo um refinamento do equilíbrio entre mecanismos excitatórios e inibitórios no córtex motor primário. (Ruddy, e Carson, 2013)

 

    Essas adaptações neurais parecem estar associadas ao aumento da taxa de disparo das unidades motoras, ao aprimoramento da coordenação intermuscular e à modulação da excitabilidade corticoespinal observada após programas de treinamento unilateral. Em tarefas caracterizadas por elevada demanda de estabilidade dinâmica, a necessidade de ajustes posturais contínuos aumenta a complexidade do controle motor, favorecendo adaptações centrais relacionadas ao planejamento e à execução do movimento. (Perez, e Cohen, 2009; Ruddy, e Carson, 2013; Del Vecchio et al., 2019)

 

    Outro aspecto relevante refere-se à modulação da inibição inter-hemisférica transcalosa. Enquanto contrações bilaterais simultâneas podem aumentar a competição inter-hemisférica — contribuindo para o déficit bilateral — o treinamento unilateral tende a favorecer maior especialização funcional do hemisfério contralateral ao membro ativo. Essa reorganização funcional pode explicar parte da superioridade observada nos ganhos relativos de força unilateral e no fenômeno de efeito de transferência cruzada, no qual o membro não treinado apresenta adaptações decorrentes de mecanismos centrais. (Mendez-Villanueva et al., 2016)

 

    Do ponto de vista da coordenação intermuscular, exercícios unilaterais promovem maior ativação da musculatura estabilizadora do tronco e do quadril quando comparados a tarefas bilaterais equivalentes. Evidências eletromiográficas demonstram aumento do recrutamento dos músculos responsáveis pela estabilidade lombo-pélvica, particularmente do glúteo médio, glúteo máximo, oblíquos e eretores da espinha, refletindo maior demanda de controle motor e ajustes posturais dinâmicos durante a execução do movimento. (Behm et al., 2005; Ekstrom et al., 2007; García-Vaquero et al., 2012)

 

    Do ponto de vista da plasticidade neural, estudos sugerem que o treinamento unilateral realizado por períodos de seis a doze semanas pode induzir adaptações centrais relevantes, incluindo aumento da ativação neural, maior recrutamento e frequência de disparo das unidades motoras, aprimoramento da coordenação intermuscular e, em protocolos avaliados por estimulação magnética transcraniana (TMS), aumento da excitabilidade corticoespinal. Essas adaptações contribuem para os ganhos de força, desempenho funcional e para o fenômeno de transferência cruzada (cross-education) observado após intervenções unilaterais. (Aagaard et al., 2002; Kidgell et al., 2015; Ruddy, e Carson, 2013)

 

    Além disso, a complexidade da tarefa parece modular a magnitude dessas adaptações, uma vez que exercícios unilaterais realizados sob condições de instabilidade ou com elevadas demandas reativas aumentam a exigência sensório-motora e o envolvimento dos mecanismos de controle neural responsáveis pela estabilidade e coordenação do movimento. (Behm et al., 2005; Taube et al., 2008)

 

    Em síntese, o treinamento unilateral não apenas modifica parâmetros periféricos de ativação muscular, mas promove reorganização adaptativa do sistema nervoso central, consolidando-se como estratégia eficaz para desenvolvimento de controle motor refinado, eficiência neuromuscular e otimização funcional em contextos esportivos e clínicos.

 

    A integração desses mecanismos pode ser mais bem compreendida por meio de um modelo conceitual ilustrado na Figura 1.

 

Figura 1. Modelo conceitual das adaptações ao treinamento unilateral

Figura 1. Modelo conceitual das adaptações ao treinamento unilateral

Modelo adaptado de Bishop (2020)

 

    A demanda unilateral promove aumento da excitabilidade corticospinal e aprimoramento da coordenação intermuscular, resultando em redução de assimetrias e melhora da estabilidade articular. Essas adaptações favorecem maior eficiência neuromuscular, contribuindo para o aumento do desempenho esportivo e para a redução do risco de lesões.

 

Adaptações biomecânicas e controle dinâmico 

 

    Sob a perspectiva biomecânica, exercícios unilaterais impõem maior momento abdutor no quadril e maior exigência de controle no plano frontal do joelho. Esse aspecto é particularmente relevante na prevenção de lesões do ligamento cruzado anterior (LCA), cuja etiologia multifatorial inclui o colapso dinâmico em valgo. (Dos Santos et al., 2021)

 

    Pesquisas recentes indicam que programas de 8 a 12 semanas com ênfase em exercícios unilaterais promovem melhora significativa na estabilidade dinâmica e redução de assimetrias excêntricas, especialmente em tarefas de desaceleração e mudança de direção. (Gonzalo-Skok et al., 2019)

 

    Além disso, observa-se aumento da rigidez musculotendínea e maior eficiência na reutilização de energia elástica durante tarefas pliométricas, contribuindo diretamente para o desempenho em saltos, sprints e mudanças de direção. (Ramirez-Campillo et al., 2021)

 

    Evidências recentes indicam que, durante o Bulgarian split squat (Agachamento búlgaro), a perna posterior contribui ativamente para a geração de momento externo resultante do sistema (rear-leg derived moment), influenciando diretamente a resistência externa ao momento de extensão do quadril. Essa interação mecânica modifica a distribuição de cargas entre os membros e a magnitude da demanda imposta aos extensores do quadril, sendo modulada por variáveis técnicas como a inclinação do tronco e o posicionamento segmentar. (Arakawa et al., 2025)

 

    Nesse contexto, a forma de aplicação mecânica do treinamento unilateral, particularmente a distinção entre cadeia cinética aberta e fechada, emerge como fator determinante para a magnitude e especificidade dessas adaptações.

 

Cadeia cinética aberta versus cadeia cinética fechada no treinamento unilateral 

 

    Sob a perspectiva biomecânica e funcional, a distinção entre exercícios em cadeia cinética aberta (CCA) e cadeia cinética fechada (CCF) representa um dos principais determinantes das adaptações produzidas pelo treinamento unilateral. Enquanto a classificação tradicional diferencia essas modalidades pela condição do segmento distal — livre nos exercícios em CCA e fixo nos exercícios em CCF —, suas implicações extrapolam a mecânica do movimento, influenciando diretamente o recrutamento neuromuscular, a distribuição das cargas articulares e a especificidade funcional das adaptações. (Escamilla et al., 2012; Kibler et al., 2012)

 

    Nos exercícios em cadeia cinética fechada, como o agachamento unilateral, o step-up e o afundo, a fixação do segmento distal exige produção simultânea de força, manutenção do equilíbrio e controle postural. Consequentemente, observa-se maior coativação entre músculos agonistas e antagonistas, aumento da participação dos estabilizadores do quadril e do tronco e maior integração entre diferentes cadeias musculares (Behm et al., 2005; Escamilla et al., 2012). Essas adaptações refletem uma estratégia neuromuscular mais compatível com as demandas impostas pelas ações esportivas, nas quais o controle da posição corporal durante a aplicação de força constitui um fator determinante para o desempenho.

 

    Essa elevada exigência de estabilização também modifica as demandas relacionadas ao controle motor. Exercícios realizados sob condições de instabilidade aumentam a necessidade de ativação da musculatura estabilizadora e de controle postural, impondo maiores demandas de coordenação neuromuscular e contribuindo para adaptações relacionadas ao controle do movimento (Behm, e Colado Sanchez, 2013). Sob essa perspectiva, parte da superioridade funcional frequentemente atribuída ao treinamento unilateral em cadeia fechada parece decorrer menos do aumento absoluto da força e mais da otimização do controle neuromuscular durante tarefas complexas.

 

    Do ponto de vista biomecânico, diversos estudos demonstram que exercícios em cadeia cinética fechada promovem distribuição mais homogênea das forças articulares, reduzindo componentes de cisalhamento anterior sobre a tíbia quando comparados a determinados exercícios em cadeia aberta, particularmente durante a extensão resistida do joelho em amplitudes específicas de movimento (Escamilla et al., 2012). Além disso, a compressão articular decorrente da coativação entre quadríceps e isquiotibiais contribui para aumentar a estabilidade dinâmica do joelho, aspecto especialmente relevante em programas de prevenção de lesões do ligamento cruzado anterior e durante o processo de reabilitação funcional. (Hewett et al., 2010)

 

    Outro aspecto importante refere-se à especificidade das adaptações. A maioria das ações esportivas, como acelerações, desacelerações, aterrissagens e mudanças de direção, ocorre com apoio unilateral do membro inferior e demanda produção simultânea de força, equilíbrio e controle tridimensional do movimento (Dos Santos et al., 2019). Nesse contexto, os exercícios unilaterais em cadeia cinética fechada apresentam elevada validade ecológica, reproduzindo padrões motores semelhantes aos observados durante a prática esportiva. Essa característica explica, ao menos parcialmente, a maior transferência funcional frequentemente relatada para indicadores como desempenho em saltos, capacidade de desaceleração e mudanças de direção. (Ramírez-Campillo et al., 2021)

 

    Entretanto, a superioridade funcional dos exercícios em cadeia cinética fechada não implica que exercícios em cadeia cinética aberta sejam desprovidos de aplicabilidade. Pelo contrário, exercícios como extensão e flexão de joelho permanecem ferramentas importantes para o desenvolvimento seletivo de grupos musculares específicos, quantificação da força por meio de dinamometria e reabilitação de déficits musculares localizados (Escamilla et al., 2012). Em fases iniciais da reabilitação, a possibilidade de controlar precisamente a carga externa e restringir a participação de outras articulações constitui uma vantagem clínica relevante, especialmente quando há limitação funcional decorrente de dor ou restrições estruturais.

 

    Dessa forma, a dicotomia entre cadeia cinética aberta e fechada deve ser interpretada de maneira complementar, e não excludente. A literatura contemporânea sugere que a combinação estratégica dessas modalidades permite explorar os benefícios específicos de cada abordagem: exercícios em cadeia aberta favorecem o desenvolvimento de força muscular localizada e a recuperação de déficits específicos, enquanto exercícios unilaterais em cadeia fechada potencializam adaptações neuromusculares, biomecânicas e funcionais com maior transferência para o desempenho esportivo e para a prevenção de lesões. Assim, a seleção do exercício deve ser orientada pelos objetivos da intervenção, pelas características da modalidade esportiva e pelo estágio de treinamento ou reabilitação do indivíduo, respeitando o princípio da especificidade e a individualização da prescrição.

 

Figura 2. Comparação conceitual entre exercícios em cadeia cinética aberta e fechada no treinamento de força.

Figura 2. Comparação conceitual entre exercícios em cadeia cinética aberta e fechada no treinamento de força.

Fonte: Autor

 

    Exercícios em cadeia cinética aberta caracterizam-se por movimentos com segmento distal livre, favorecendo a ativação muscular isolada e a produção específica de torque. Em contraste, exercícios em cadeia cinética fechada envolvem apoio fixo, promovendo maior coativação muscular, estabilidade articular e integração neuromuscular. Nesse contexto, exercícios em cadeia fechada tendem a apresentar maior transferência funcional para o desempenho esportivo e para a prevenção de lesões.

 

    Nesse contexto, exercícios unilaterais em cadeia cinética fechada, como o Bulgarian split squat, apresentam elevada complexidade mecânica, uma vez que a interação entre os membros não se limita ao membro dominante. Evidências recentes demonstram que a perna contralateral contribui ativamente para a geração de momento externo, influenciando a mecânica global do exercício (rear-leg derived moment). Esse comportamento reforça a natureza integrada e sistêmica das tarefas em cadeia cinética fechada, nas quais múltiplos segmentos corporais participam simultaneamente da produção e controle de força. (Arakawa et al., 2025)

 

    Esses achados reforçam que exercícios unilaterais em cadeia cinética fechada não devem ser interpretados como ações isoladas de um único membro, mas como sistemas biomecânicos integrados, nos quais a interação entre segmentos determina a eficiência mecânica e o controle motor.

 

    As implicações dessas diferenças tornam-se particularmente relevantes em contextos clínicos e de alto rendimento.

 

Implicações clínicas e aplicações no alto rendimento 

 

    A associação entre assimetrias superiores a 10–15 % e aumento do risco de lesões musculares de membros inferiores tem sido consistentemente relatada. (Hart et al., 2016; Bishop et al., 2021)

 

    Além do risco de lesões, assimetrias interlaterais também podem comprometer o desempenho esportivo, especialmente em ações que exigem elevada produção de força e potência. (Sánchez-Moreno et al., 2021)

 

    Nesse contexto, a predominância de exercícios unilaterais em cadeia cinética fechada em programas preventivos e de reabilitação tem demonstrado maior eficácia na restauração da estabilidade dinâmica e no controle neuromuscular, especialmente em indivíduos em retorno ao esporte (return-to-play).

 

    No alto rendimento, modelos híbridos de periodização têm sido propostos, combinando exercícios bilaterais pesados (para maximização de força absoluta) com estímulos unilaterais específicos (para transferência funcional). Essa abordagem parece aperfeiçoar tanto desempenho quanto segurança neuromuscular (Suchomel et al., 2018). Além disso, o monitoramento sistemático das assimetrias interlaterais tem sido destacado como componente essencial na preparação física contemporânea, permitindo identificar desequilíbrios funcionais, individualizar intervenções e acompanhar adaptações ao treinamento ao longo da temporada esportiva. (Bishop et al., 2021)

 

Limitações metodológicas e lacunas na literatura 

 

    Apesar dos avanços recentes, persistem lacunas importantes na temática abordada. Primeiramente, muitos estudos utilizam protocolos heterogêneos quanto à intensidade, volume e duração, dificultando comparações diretas.

 

    Adicionalmente, a maioria das investigações concentra-se em populações jovens e masculinas, havendo necessidade de estudos em mulheres atletas e populações master. Também há escassez de ensaios clínicos randomizados de longa duração (>16 semanas) que avaliem impacto direto na incidência de lesões.

 

    Outro ponto crítico refere-se à definição de limiares de assimetria. Embora valores de 10–15 % sejam amplamente citados, revisões recentes sugerem que o contexto esportivo e a tarefa avaliada devem ser considerados antes de estabelecer critérios rígidos. (Bishop et al., 2021)

 

    Importante destacar que o treinamento exclusivamente bilateral pode superestimar a capacidade de produção de força simétrica, mascarando déficits interlaterais clinicamente relevantes. Nesse sentido, a avaliação unilateral tem sido recomendada como abordagem mais sensível para o monitoramento de assimetrias em atletas de alto rendimento, permitindo identificação mais precisa de desequilíbrios funcionais e melhor direcionamento de intervenções. (Bishop et al., 2021)

 

Direções futuras de pesquisa 

 

    Apesar do avanço significativo das investigações sobre o treinamento unilateral, diversas lacunas permanecem quanto aos mecanismos responsáveis pelas adaptações neuromusculares e pela transferência dessas adaptações para o desempenho esportivo. Nesse contexto, futuras pesquisas devem priorizar delineamentos experimentais mais robustos, utilizando métodos integrados de avaliação biomecânica, neurofisiológica e funcional, de modo a ampliar a compreensão dos efeitos crônicos do treinamento unilateral em diferentes populações.

 

    Entre as principais perspectivas de investigação, destacam-se:

  • Integração entre biomecânica e neurociência, combinando análise cinemática e cinética tridimensional, eletromiografia de alta densidade (HD-EMG), estimulação magnética transcraniana (TMS) e técnicas de neuroimagem funcional (fMRI), para esclarecer os mecanismos neurais envolvidos na plasticidade induzida pelo treinamento unilateral.

  • Estudos longitudinais de alta qualidade metodológica, com acompanhamento de atletas durante temporadas completas, capazes de determinar se programas sistematizados de treinamento unilateral reduzem efetivamente a incidência de lesões musculoesqueléticas, melhoram o desempenho competitivo e influenciam a manutenção das assimetrias interlaterais ao longo do tempo.

  • Investigação da interação entre fadiga neuromuscular, assimetrias funcionais e controle motor, especialmente em situações que reproduzam as exigências competitivas, permitindo compreender como essas variáveis afetam a capacidade de aceleração, desaceleração, mudança de direção e estabilidade dinâmica durante a prática esportiva.

  • Desenvolvimento de protocolos individualizados, considerando fatores como modalidade esportiva, nível de treinamento, idade, sexo, histórico de lesões e perfil de assimetrias, visando otimizar a prescrição do treinamento unilateral e sua integração aos programas de preparação física e reabilitação.

    Além disso, o avanço de tecnologias vestíveis, sistemas inerciais (IMUs), plataformas de força portáteis e algoritmos de inteligência artificial aplicados à análise do movimento tende a ampliar significativamente a capacidade de monitoramento das assimetrias e da carga mecânica em ambientes de treinamento e competição. A utilização dessas ferramentas poderá favorecer estratégias de prescrição mais individualizadas, possibilitando intervenções precoces para otimização do desempenho e redução do risco de lesões.

 

Conclusão 

 

    O presente estudo demonstrou que o treinamento unilateral constitui uma estratégia eficaz para promover adaptações neuromusculares, biomecânicas e funcionais relevantes ao condicionamento físico. As evidências analisadas indicam que sua aplicação contribui para a redução das assimetrias interlaterais, melhora do controle motor, aumento da estabilidade dinâmica e otimização do desempenho funcional, além de representar importante ferramenta na prevenção de lesões.

 

    Os resultados também evidenciam que exercícios unilaterais em cadeia cinética fechada apresentam maior potencial de transferência para tarefas esportivas, em razão da elevada especificidade em relação às demandas de aceleração, desaceleração, mudanças de direção e produção unilateral de força. Entretanto, os exercícios em cadeia cinética aberta mantêm papel complementar no desenvolvimento de força muscular específica e em programas de reabilitação.

 

    Dessa forma, conclui-se que o treinamento unilateral não deve substituir o treinamento bilateral, mas integrar programas de treinamento de forma complementar, respeitando os princípios da especificidade, individualidade biológica e periodização. A combinação dessas estratégias permite potencializar o desempenho esportivo, favorecer o equilíbrio funcional entre os membros e ampliar a eficiência das intervenções voltadas à prevenção de lesões.

 

    Por fim, recomenda-se que futuras pesquisas empreguem delineamentos longitudinais com maior rigor metodológico, investigando os efeitos do treinamento unilateral em diferentes populações, modalidades esportivas e fases da periodização, bem como sua relação com marcadores neurofisiológicos e a incidência de lesões.

 

Declaração de apoio tecnológico 

 

    Este manuscrito contou com o apoio das ferramentas de inteligência artificial ChatGPT (OpenAI) para revisão linguística, aprimoramento da redação acadêmica, organização estrutural do texto e sugestões de estilo, bem como DeepL Translator para auxílio na tradução e conferência terminológica de trechos em língua inglesa. Todas as informações científicas, seleção e interpretação da literatura, análise crítica das evidências, elaboração das figuras e tabelas conceituais, redação final e conclusões foram realizadas e revisadas pelo autor, que assume integral responsabilidade pelo conteúdo do manuscrito.

 

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Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 31, Núm. 341, Oct. (2026)