ISSN 1514-3465
Mecanismos centrais e periféricos de fadiga neuromuscular: suas
implicações para a prescrição do treinamento físico. Uma revisão narrativa
Central and Peripheral Mechanisms of Neuromuscular Fatigue:
Their Implications for Exercise Training Prescription. A Narrative Review
Mecanismos centrales y periféricos de la fatiga neuromuscular: sus implicaciones
para la prescripción del entrenamiento físico. Una revisión narrativa
Cristian Giacomoni
cristian.giacomoni@regente.uniasselvi.com.br
Doutor e Mestre em Educação pelo Programa de Pós Graduação-PPGEdu
da Universidade de Caxias do Sul/RS,
na Linha de Pesquisa História e Filosofia da Educação
Professor regente dos Cursos de Educação Física
do Centro Universitário Leonardo da Vinci (Uniasselvi)
Pós-graduando em Docência do Ensino Superior
e Educação Física (Facuminas/MG)
Pós-graduando em Educação Física em Neurologia (Facuminas/MG)
Pós-graduando em Educação a Distância
e Docência do Ensino Superior (Facuminas/MG)
Especialista em Docência em Ciências do Esporte (Faculeste/MG)
Especialista em Bioquímica do Exercício (Faculeste/MG)
Especialista em Cinesiologia, Biomecânica e Treinamento (Faculeste/MG)
Especialista em Treinamento Esportivo (UNINTER)
Especialista em Treinamento Funcional Para a Saúde
e Condicionamento Físico (Faculdade Iguaçu)
Especialista em Personal Training
Metodologia da Preparação Física Personalizada (Faculdade Iguaçu)
Especialista em Docência e Mediação (Uniasselvi)
Especialista em Docência no Ensino Superior (UNINTER)
Especialista em Preparação Física de Alto Desempenho (Faculdade Iguaçu)
Especialista em Psicologia do Esporte e do Exercício (UNINTER)
Especialista em Pedagogia do Esporte (UNINTER)
Especialista em Nutrição Esportiva (UNINTER)
Especialista em Fisiologia do Exercício (UNINTER)
Especialista em Obesidade e Emagrecimento pela Faculdade Unyleya
Bacharel em Educação Física pela Universidade de Caxias do Sul/RS
Membro do GRUPHEIM - Grupo de Pesquisa História da Educação, Imigração
e Memória da Universidade de Caxias do Sul/RS
Coordenador do Núcleo de Pesquisas em Educação Física - Uniasselvi
Coordenador do Grupo Interdisciplinar de Estudos
e Pesquisas do Movimento Humano (GEPMOV-UNIASSELVI)
(Brasil)
Recepción: 21/01/2026 - Aceptación: 21/5/2026
1ª Revisión: 30/03/2026 - 2ª Revisión: 18/05/2026
Documento acessível. Lei N° 26.653. WCAG 2.0
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Este trabalho está sob uma licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional (CC BY-NC-ND 4.0) https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/deed.pt |
Cita sugerida
: Giacomoni, C. (2026). Mecanismos centrais e periféricos de fadiga neuromuscular: suas implicações para a prescrição do treinamento físico. Uma revisão narrativa. Lecturas: Educación Física y Deportes, 31(338), 239-256. https://doi.org/10.46642/efd.v31i338.8739
Resumo
A fadiga neuromuscular (FNM) é um estado complexo que limita o desempenho e a segurança no treinamento, sendo classificada em fadiga periférica (muscular, ligada à disfunção de Ca²⁺ e metabólitos) e fadiga central (no sistema nervoso central, relacionada à falha do drive neural). O objetivo principal visou fornecer um modelo integrado de prescrição do treinamento físico que auxilie os profissionais de Educação Física na tomada de decisão, buscando a máxima eficácia e a minimização do risco de overtraining e de lesões. A metodologia adotada foi a de revisão narrativa crítica e analítica da literatura, compreendida entre os anos de 2021 e 2025. A busca por estudos ocorreu nas bases de dados PubMed, Scopus e Web of Science. A estratégia de busca utilizou termos-chave para mecanismos de fadiga (central e periférico) e prescrição de treinamento (pausas, treinamento concorrente). A FNM é um contínuo dinâmico, em que a fadiga central, em parte interpretada à luz do Modelo do Governador Central e de modelos psicobiológicos, atua como regulador protetor do desempenho, enquanto a fadiga periférica se configura como limite bioenergético final. A discussão propõe o uso de ferramentas de monitoramento (Percepção Subjetiva de Esforço, Repetições em Reserva e Velocidade de Execução) para guiar a manipulação de variáveis de treino, como pausas e organização do treinamento concorrente. A prescrição do treinamento deve evoluir para um modelo de "engenharia da fadiga", utilizando o conhecimento integrado dos mecanismos centrais e periféricos para otimizar a eficácia e minimizar o risco de overtraining e/ou lesões.
Unitermos:
Fadiga muscular. Treinamento físico. Manifestações neuromusculares.
Abstract
Neuromuscular fatigue (NMF) is a complex state that constrains performance and safety during training. It is commonly classified into peripheral fatigue (muscular, linked to Ca²⁺ dysregulation and metabolite accumulation) and central fatigue (within the central nervous system, related to failures in neural drive). The primary objective of this study was to provide an integrated model of exercise training prescription to support Physical Education professionals in decision-making, aiming to maximize effectiveness while minimizing the risk of overtraining and injury. A critical and analytical narrative review of the literature published between 2021 and 2025 was conducted. The literature search was performed in the PubMed, Scopus, and Web of Science databases. The search strategy employed key terms related to fatigue mechanisms (central and peripheral) and training prescription (rest intervals, concurrent training). NMF is conceptualized as a dynamic continuum in which central fatigue—partly interpreted in light of the Central Governor Model and psychobiological models—acts as a protective regulator of performance, whereas peripheral fatigue represents the final bioenergetics limit. The discussion proposes the use of monitoring tools (Ratings of Perceived Exertion, Repetitions in Reserve, and Movement Velocity) to guide the manipulation of training variables such as rest intervals and the organization of concurrent training. Training prescription should evolve towards a “fatigue engineering” model, integrating knowledge of central and peripheral mechanisms to optimize effectiveness and reduce the risk of overtraining and/or injury.
Keywords:
Muscle fatigue. Physical training. Neuromuscular manifestations.
Resumen
La fatiga neuromuscular (FNM) es un estado complejo que limita el rendimiento y la seguridad en el entrenamiento, y se clasifica en fatiga periférica (muscular, vinculada a la disfunción del Ca²⁺ y sus metabolitos) y fatiga central (en el sistema nervioso central, relacionada con fallos en la activación neuronal). El objetivo principal fue proporcionar un modelo integrado para la prescripción del entrenamiento físico que ayude a los profesionales de la Educación Física en la toma de decisiones, buscando la máxima eficacia y minimizando el riesgo de sobreentrenamiento y lesiones. La metodología adoptada fue una revisión narrativa crítica y analítica de literatura, de 2021 a 2025. La búsqueda se realizó en las bases de datos PubMed, Scopus y Web of Science. La estrategia de búsqueda utilizó palabras clave para mecanismos de fatiga (central y periférica) y prescripción del entrenamiento (pausas, entrenamiento concurrente). La FNM es un continuo dinámico en el que la fatiga central, interpretada en parte a la luz del Modelo del Gobernador Central y modelos psicobiológicos, actúa como regulador protector del rendimiento, mientras la fatiga periférica se configura como el límite bioenergético final. El análisis propone usar herramientas de monitorización (Percepción Subjetiva del Esfuerzo, Repeticiones en Reserva y Velocidad de Ejecución) para guiar la manipulación de variables de entrenamiento, como periodos de descanso y organización del entrenamiento concurrente. La prescripción del entrenamiento debe evolucionar hacia un modelo de "ingeniería de la fatiga", integrando mecanismos centrales y periféricos para optimizar la efectividad y minimizar riesgos de sobreentrenamiento y/o lesiones.
Palabras clave
: Fatiga muscular. Entrenamiento físico. Manifestaciones neuromusculares.
Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 31, Núm. 338, Jul. (2026)
Introdução
A fadiga neuromuscular (FNM) é um estado fisiológico complexo e multifatorial, caracterizado pela incapacidade momentânea de manter a produção de força ou de potência desejada durante um exercício, ou de reproduzir um nível de desempenho preestabelecido. Sua relevância ultrapassa a esfera do desempenho físico e/ou esportivo, sendo um fator determinante para a segurança, a prevenção de lesões e a eficácia de programas de treinamento, desde o condicionamento físico geral até o esporte de alto rendimento (Aslam, Habyarimana, e Bin, 2025). A FNM não deve ser entendida como um evento binário (presente ou ausente), mas como um contínuo dinâmico que se manifesta em diferentes níveis do eixo cérebro-músculo.
Ressalta‑se que diferenças genéticas no perfil de fibras musculares, no fenótipo metabólico e na eficiência neural podem fazer com que dois indivíduos respondam de forma totalmente distinta ao mesmo estímulo de carga (Meeusen, Van Cutsem, e Roelands, 2021). Ignorar tais variabilidades pode levar a prescrições padronizadas e ineficazes para uma parcela significativa da população, sobretudo atletas que buscam alto rendimento. Portanto, a compreensão da FNM deve evoluir para um modelo que incorpore biomarcadores de predisposição individual e indicadores de resposta à fadiga.
A FNM é dividida em dois grandes componentes: a fadiga periférica, que se origina no músculo esquelético ou na junção neuromuscular, e a fadiga central, que provém do sistema nervoso central (SNC). Embora distintos em sua origem, esses componentes interagem de maneira complexa e sinérgica para delimitar o limite do desempenho humano (Yang et al., 2025). As investigações tradicionais concentram-se nos mecanismos periféricos, que representam o limite bioenergético e molecular, em que a falha em manter a força é consequência direta de eventos distais ao SNC. (Soendenbroe, Boraxbekk, e Mackey, 2025)
Contudo, a fadiga central, caracterizada pela falha em manter o drive neural adequado, tem recebido crescente atenção, especialmente em exercícios prolongados e de alto volume e intensidade, nos quais a modulação do SNC pode anteceder e, por vezes, definir o limite da exaustão (Yang et al., 2025). Nesse contexto, o Modelo do Governador Central (MGC) oferece uma perspectiva segundo a qual o cérebro atua como regulador antecipatório, limitando significativamente a saída motora antes que ocorram falhas catastróficas ou que a homeostase seja comprometida. (Denadai, e Greco, 2025)
Desse modo, a sensação de fadiga é interpretada como um sinal de proteção, e não apenas como uma consequência do desgaste muscular. A percepção de esforço torna-se a manifestação consciente dessa regulação, integrando informações sobre o estado fisiológico atual, experiências prévias e a demanda antecipada da tarefa. (Van Cutsem et al., 2022)
Ressalta-se que os modelos psicobiológicos complementam essa visão ao enfatizar o papel de fatores motivacionais e psicossociais, como a motivação intrínseca e a resistência mental, na modulação da percepção de esforço e da tolerância à fadiga. Incorporar tais variáveis aprofunda a compreensão da FNM ao integrar componentes afetivos à regulação do esforço. Assim, a resiliência neuromuscular pode ser entendida como a capacidade de manter o desempenho, adaptar‑se e recuperar‑se sob fadiga, alinhando‑se ao objetivo central do treinamento periodizado. (Jones, e Kirby, 2025)
Assim sendo, a compreensão integrada dos mecanismos periféricos e centrais possui implicações diretas para a prescrição do treinamento físico. O profissional de Educação Física não deve mais se limitar a manipular apenas carga e volume, mas atuar como um “engenheiro da fadiga”, utilizando variáveis de treino para modular a resposta fisiológica e neural do praticante (Staniszewski et al., 2024). A perspectiva inclui o monitoramento da fadiga por meio de ferramentas de campo, a manipulação das pausas entre séries, a organização temporal do treinamento concorrente e o uso intencional de estratégias de recuperação.
Apesar do avanço na descrição isolada de mecanismos centrais e periféricos de FNM, a literatura recente ainda carece de modelos integradores que articulem esses mecanismos com estratégias concretas de prescrição do treinamento. São escassas as pesquisas que correlacionam, de forma sistemática, os biomarcadores e as ferramentas de monitoramento de fadiga com a manipulação intencional de variáveis como as pausas entre séries, a organização do treinamento concorrente e as estratégias de recuperação.
Diante da complexidade da FNM e de suas implicações para a prática baseada em evidências científicas, o estudo propõe realizar uma revisão narrativa crítica e analítica dos mecanismos centrais e periféricos, articulando‑os com estratégias práticas de prescrição do treinamento. O principal objetivo é fornecer um modelo integrado que auxilie o profissional de Educação Física na tomada de decisões, visando à máxima eficácia e à minimização do risco de overtraining e de lesões.
Metodologia
O estudo adotou a metodologia de revisão narrativa crítica e analítica da literatura científica, com busca estruturada. O propósito principal foi sintetizar e articular o conhecimento contemporâneo sobre os mecanismos de FNM e suas aplicações na prescrição do treinamento. Essa abordagem permite uma análise aprofundada e a construção de uma argumentação integradora, indo além da mera sumarização descritiva dos estudos.
Foram incluídos artigos publicados entre 1º de janeiro de 2021 e 31 de março de 2025. A escolha desse recorte temporal visou fundamentar a discussão em evidências mais recentes, sem pretensão de esgotar a literatura histórica sobre o tema. Os critérios de inclusão foram: (a) artigos originais, revisões sistemáticas, meta‑análises ou revisões narrativas; (b) estudos com seres humanos; (c) publicações que discutissem explicitamente mecanismos centrais e/ou periféricos de FNM; e (d) estudos que apresentassem, de forma clara, implicações para a prescrição do treinamento físico. Foram excluídos: (a) estudos in vitro ou em modelos animais; (b) artigos focados em populações com patologias neuromusculares específicas; e (c) publicações anteriores a 2021.
A busca bibliográfica foi conduzida nas bases de dados PubMed, Scopus e Web of Science. A utilização de múltiplas bases visou ampliar a cobertura da literatura relevante em diferentes contextos. A estratégia de busca combinou descritores controlados e termos livres, utilizando operadores booleanos (AND e OR) em dois eixos principais: mecanismos de fadiga e prescrição do treinamento. Os termos-chave incluíram, entre outros: para mecanismos, “neuromuscular fatigue” ou “fadiga neuromuscular” associados a “central mechanisms”, “peripheral mechanisms”, “central governor model” ou “serotonin hypothesis”; para prescrição, “training prescription” ou “prescrição do treino” associados a “rest interval manipulation”, “manipulação de pausas”, “concurrent training”, “treinamento concorrente”, “active recovery” ou “recuperação ativa”.
A busca foi realizada em artigos disponíveis nos idiomas inglês, português e espanhol, desde que o texto completo estivesse acessível. A estratégia de busca foi estruturada para favorecer a especificidade e a abrangência, sem se vincular formalmente a um protocolo de revisão sistemática. O Quadro 1 demonstra em síntese a estratégia de busca detalhada por eixo temático.
Quadro 1. Estratégia de busca detalhada por eixo temático
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Eixo temático |
Descritores (Termos-Chave) |
Operadores booleanos |
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Mecanismos |
"neuromuscular fatigue" ou "fadiga neuromuscular" e "central mechanisms" ou "peripheral mechanisms" ou "central governor model" ou "serotonin hypothesis" |
AND e OR
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Prescrição |
"training prescription" ou "prescrição do treino" e "rest interval manipulation" ou "manipulação de pausas" ou "concurrent training" ou "treinamento concorrente" ou "active recovery" ou "recuperação ativa" |
Fonte: Elaboração própria
A aplicação da estratégia de busca resultou na identificação de 410 estudos (PubMed: 152; Scopus: 137; Web of Science: 121). Após a remoção de 58 duplicatas, realizada manualmente em planilha eletrônica, permaneceram 352 estudos para triagem de títulos e resumos. Nessa etapa, foram excluídos 267 registros por não abordarem FNM em humanos, por focarem exclusivamente em desfechos clínicos sem relação com a prescrição do treinamento, ou por não discutirem mecanismos centrais e periféricos de forma explícita. Restaram 85 artigos para leitura na íntegra.
Após a leitura integral, 70 artigos foram excluídos por apresentarem pelo menos um dos seguintes conflitos: (a) ausência de discussão aplicável à prescrição do treinamento; (b) foco exclusivo em populações clínicas específicas; (c) ausência de distinção entre componentes centrais e periféricos da fadiga; ou (d) dados redundantes em relação a revisões mais abrangentes já incluídas. Assim, a amostra final foi composta por 15 estudos, selecionados com base na sua relevância para três eixos temáticos centrais de revisão: (1) mecanismos centrais (por exemplo, MGC, modelos psicobiológicos e neurotransmissores); (2) mecanismos periféricos (metabólitos, falha de Ca²⁺ e perda de força específica); e (3) estratégias de prescrição (manipulação de pausas, organização do treinamento concorrente, estratégias de recuperação e ferramentas de monitoramento).
Como critério de qualidade metodológica, foram considerados, de forma descritiva, o tipo de estudo (ensaios clínicos, estudos observacionais, revisões sistemáticas, revisões narrativas), bem como o tamanho da amostra, a clareza da definição dos desfechos e a adequação dos instrumentos utilizados para avaliar a fadiga central e periférica. Não foi aplicada uma ferramenta formal de avaliação de risco de viés, em consonância com o caráter narrativo e interpretativo desta revisão.
Reconhece‑se, por fim, que o estudo trata-se de uma revisão narrativa crítica com busca estruturada, e não de uma revisão sistemática. Assim, embora a estratégia de busca e a seleção dos estudos tenham sido descritas de forma transparente, não se reivindica exaustividade nem se aplicou protocolo PRISMA completo.
Resultados e discussão
A análise crítica da literatura permitiu a síntese de um modelo integrado que articula os mecanismos de FNM com estratégias de prescrição de treino. A partir da amostra final de 15 estudos, organizou-se a síntese em torno da tríade Mecanismos-Teorias-Prescrição. Os estudos selecionados foram distribuídos entre os três eixos temáticos definidos na metodologia, contemplando tanto estudos com foco predominante em mecanismos centrais e periféricos quanto trabalhos voltados para ferramentas de monitoramento, manipulação de pausas, organização do treinamento concorrente e estratégias de recuperação. O Quadro 2 apresenta a síntese dos artigos selecionados e suas contribuições.
Quadro 2. Síntese dos artigos selecionados e contribuições
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Autor(es) |
Ano |
Foco principal |
Contribuição para a prescrição |
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Aslam et al. |
2025 |
Adaptações neuromusculares em atletas de elite (FNM Central). |
Necessidade de estímulos intensos para atletas avançados. |
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Baron Baron et al. |
2024 |
Comparação de dois programas de força em adultos, avaliando seus efeitos sobre diferentes capacidades físicas e motoras. |
Em idosos, a prescrição deve considerar não só a carga, mas também a velocidade de execução. |
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Bustos-Viviescas et al. |
2025 |
Aplicação de séries cluster em cardíacos para manter a intensidade com menor sobrecarga fisiológica. |
Uteis para cardíacos por ajudar no controle da fadiga e do estresse cardiovascular no treino. |
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Denadai et al. |
2025 |
Treinamento Concorrente (Fenômeno de Interferência). |
Hipótese aguda da fadiga residual e organização temporal do treino. |
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Hernández Nájera et al. |
2022 |
Testes para medir fadiga muscular em atletas, com foco em avaliações físicas e marcadores bioquímicos. |
Monitoramento da fadiga combina diferentes instrumentos, como CMJ e marcadores fisiológicos, para ajustar variáveis do treino. |
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Jones et al. |
2025 |
Influência da fadiga e dos mecanismos centrais no desempenho de resistência, que dependem da percepção de esforço e da motivação. |
Prescrição do treinamento deve considerar também fatores centrais, e não apenas variáveis musculares e metabólicas. |
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Lopes et al. |
2022 |
Conceito de esforço percebido, base neurofisiológica e aplicações práticas no exercício, esporte e reabilitação. |
Esforço percebido utilizado como variável de controle da intensidade e fadiga e no ajuste individual das cargas. |
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Meeusen et al. |
2021 |
Variabilidade interindividual e fadiga mental. |
Considerar biomarcadores individuais para prescrição personalizada. |
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Soendenbroe et al. |
2025 |
FNM Periférica e perda de força específica. |
Ênfase na qualidade muscular (força/massa) e não apenas na hipertrofia. |
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Smiles et al. |
2024 |
Interação de AMPK e mTORC1 via fosforilações recíprocas e sinalização lisossomal para modular o equilíbrio anabolismo-catabolismo. |
Timing entre sessões de treino, minimizando interferência molecular na hipertrofia mediante modulação dinâmica por intensidade/duração do exercício. |
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Staniszewski et al. |
2024 |
Manipulação de Pausas (Trabalho Descanso). |
Otimização do work-to-rest ratio para recuperação metabólica. |
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Van Cutsem et al. |
2022 |
Demonstra que a fadiga mental reduz o desempenho de resistência ao aumentar a percepção de esforço. |
É preciso ajustar treinos de resistência e estratégias motivacionais para minimizar o efeito da fadiga mental. |
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Weakley et al. |
2021 |
Validação de dispositivos de monitoramento. |
Discutir limitações práticas e acessibilidade das ferramentas de campo. |
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Wei et al. |
2025 |
Estratégias de Recuperação (Ativa vs. Passiva). |
Eficácia da recuperação ativa na remoção de metabólitos. |
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Yang et al. |
2025 |
FNM Central (Biomarcadores e Neurotransmissores). |
Ajustes de carga do treinamento para mitigar a fadiga central modulando neurotransmissores, estresse oxidativo cerebral e energia no cérebro. |
Fonte: Elaboração própria
De forma geral, os estudos sintetizados no Quadro 2 convergem em três eixos principais de aplicação prática: (1) monitoramento da fadiga por meio de ferramentas de campo, como Percepção Subjetiva de Esforço (PSE), Repetições em Reserva (RER), treinos baseados em Velocidade de Execução (VBT) e Countermovement Jump (CMJ); (2) manipulação de pausas, organização do treinamento concorrente e escolha estratégica de modalidades para modular a fadiga central e periférica; e (3) estratégias de recuperação e consideração de variáveis psicobiológicas e de resiliência para individualizar a prescrição em diferentes populações.
Desse modo, o MGC auxilia a entender a regulação do esforço, mas não explica toda a complexidade da limitação do desempenho. As evidências apontam que o esforço percebido é uma experiência consciente, com base neurofisiológica própria e grande relevância prática, resultante da interação dos sinais fisiológicos e dos processos cognitivo-motivacionais. Assim, a interrupção do exercício é um desfecho multifatorial, influenciado também por estratégias cognitivas e comportamentais que podem alterar a percepção de dificuldade e a resposta ao exercício. (Lopes, Pereira, e Silva, 2022)
Outro ponto de atenção é em relação aos codificadores lineares e a medição exata da RER que necessitam de aparelhos, de conhecimento técnico e de tempo que podem não ser práticos em ambientes de academias comerciais ou em treinamentos em grupo (Weakley et al., 2021). Existem abordagens viáveis, econômicas e escaláveis, como os testes de Squat Jump (SJ) ou as escalas de PSE ajustadas, fundamentais para a aplicação do modelo sugerido.
A principal hipótese da fadiga residual pode ser refinada pela sinalização molecular entrelaçada, em que evidências recentes demonstram que a via mTORC1 (ligada a adaptações de força e hipertrofia) é rapidamente inibida pela AMPK (ligada a adaptações de endurance/metabólicas). Essa modulação ocorre em poucos minutos, configurando uma interferência molecular aguda independente de fadiga manifestada, o que reforça a divisão temporal entre as sessões de força e de resistência. (Smiles et al., 2024)
O sexo também influencia a resposta neuromuscular ao treino de força, pois homens e mulheres diferem em perfil de fibras musculares, capacidade oxidativa e adaptações neurais, o que altera a fadiga e a recuperação. Porém, as mulheres ainda são pouco estudadas, especialmente quanto ao efeito das variações hormonais do ciclo menstrual na fadiga periférica e central, exigindo cautela na interpretação dos dados. Assim, uma prescrição realmente individualizada deve considerar o sexo biológico, ajustando periodização e estratégias de recuperação. (Aslam, Habyarimana, e Bin, 2025)
Do ponto de vista periférico, a FNM está associada principalmente à falha do acoplamento excitação‑contração, mediada por alterações na cinética do Ca²⁺, e ao acúmulo de metabólitos de íons hidrogênio (H⁺), fosfatos inorgânicos (Pi), espécies reativas de oxigênio (EROs), bem como à depleção de substratos, como glicogênio e fosfocreatina. Esses fatores interferem na liberação de Ca²⁺ pelo retículo sarcoplasmático, reduzem a sensibilidade das proteínas contráteis e limitam a ressíntese de adenosina trifosfato (ATP), culminando na perda de força específica (Wei, Shen, e Wang, 2025). Para Soendenbroe, Boraxbekk, e Mackey (2025), a perda de força que excede a perda de massa muscular, resultando na diminuição da força específica é uma manifestação direta dessa disfunção molecular.
Outro pilar da fadiga periférica é o acúmulo de metabólitos e a depleção de substratos energéticos. O acúmulo de H⁺, Pi e EROs interfere diretamente na função das pontes cruzadas de actina e miosina, inibindo a hidrólise de ATP e a geração de força. Cabe ainda mencionar a depleção do glicogênio muscular e da fosfocreatina (PCr) que limita a taxa de ressíntese de ATP, impondo um limite energético à continuidade do exercício de alta intensidade. (Staniszewski et al., 2024)
Logo, a FNM deve ser entendida como um contínuo dinâmico, visto que, embora a falha periférica seja o ponto de não retorno, a fadiga central é o regulador primário do desempenho. Essa visão integrada é fundamental, pois a fadiga é um estado psicobiológico em que a percepção de esforço central é o principal driver para a interrupção do exercício, mesmo que o músculo ainda tenha capacidade contrátil periférica. (Aslam, Habyarimana, e Bin, 2025)
Dessa forma, a resiliência representa o conceito oposto à susceptibilidade ao overtraining. A complexidade da fadiga central fica evidente quando se considera o papel dos neurotransmissores, em especial da serotonina e da dopamina, na regulação do desempenho durante o exercício. A serotonina (5-HT), de ação inibitória, quando se eleva em relação à dopamina (DA), favorece a inibição central, aumentando a sensação de cansaço e reduzindo a motivação. Desse modo, o equilíbrio 5-HT/DA é considerado um marcador neuroquímico de fadiga central e um elo bioquímico entre o estresse metabólico do exercício e o ajuste do drive neural em estruturas corticais e subcorticais relacionadas ao controle motor. (Yang et al., 2025)
Para prescrever um treinamento físico de forma eficaz, o profissional de Educação Física precisa identificar qual componente da fadiga é predominante. A literatura contemporânea aponta métodos que utilizam técnicas invasivas de laboratório e ferramentas de campo não invasivas, indicando que a fadiga muscular não deve ser avaliada por um único teste, pois diferentes instrumentos identificam diferentes dimensões. Assim, recomenda-se a combinação de medidas para maior precisão na tomada de decisão prática. (Hernández Nájera, Cervantes Hernández, e Carrasco Legleu, 2022)
Hernández Nájera, Cervantes Hernández, e Carrasco Legleu (2022) destacam que a variabilidade dos treinos diários torna a relação entre testes físicos e marcadores bioquímicos mais consistente, já que nenhum indicador isolado consegue explicar toda a carga metabólica e a recuperação. Contudo, o CMJ é útil para detectar fadiga neuromuscular aguda, mas, utilizado isoladamente, pode subestimar as exigências dos membros superiores e o componente metabólico da sessão, como ilustrado no Quadro 3.
Quadro 3. Ferramentas de medição da fadiga central e periférica
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Componente da fadiga |
Ferramenta de medição |
Princípio de funcionamento |
Aplicação prática |
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Central |
Estimulação Magnética Transcraniana (TMS) |
Utilizaram TMS para avaliar alterações na excitabilidade cortical e no drive neural durante o exercício. (Yang et al., 2025) |
Laboratório (Padrão Ouro) |
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Percepção Subjetiva de Esforço (PSE/RER) |
Indicador psicobiológico da regulação do Governador Central. (Staniszewski et al., 2024) |
Campo (Não Invasivo) |
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Periférica |
Estimulação Elétrica Periférica (Twitch Interpolation) |
Mede a capacidade contrátil do músculo e a falha do acoplamento excitação-contração. (Soendenbroe, Boraxbekk, e Mackey, 2025) |
Laboratório |
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Velocidade de Execução (VBT) |
Queda na velocidade de levantamento da carga, refletindo a falha muscular. (Aslam, Habyarimana, e Bin 2025) |
Campo (Não Invasivo) |
Fonte: Elaboração própria
A transição para a prescrição do treinamento exige a aplicação estratégica desses achados, transformando o conhecimento fisiológico em ferramentas de manipulação de carga. No que tange aos mecanismos periféricos, os estudos reforçam que o declínio na força excede a perda de massa muscular, resultando na perda de força específica (Soendenbroe, Boraxbekk, e Mackey, 2025). Tal falha é atribuída a eventos ligados à junção neuromuscular, como a disfunção na liberação de Ca²⁺ pelo retículo sarcoplasmático e a interferência metabólica direta nas pontes cruzadas. (Wei, Shen, e Wang, 2025)
A depleção de glicogênio é revisitada à luz da sua implicação na homeostase iônica. A fadiga periférica, portanto, representa o limite mecânico e energético final do músculo, sendo um fator limitante primário em exercícios de alta intensidade e curta duração (Aslam, Habyarimana, e Bin, 2025). Em exercícios de resistência prolongada, a fadiga central pode se tornar um importante fator limitante do desempenho (Yang et al., 2025). O principal ponto encontrado aqui é a diminuição do drive neural, ou seja, a redução na frequência e no recrutamento das unidades motoras pelo córtex motor. (Denadai, e Greco, 2025)
A discussão crítica do MGC posiciona-o não como uma falha, mas como um sistema de controle antecipatório, um "algoritmo de segurança" cerebral. O cérebro, ao processar múltiplos dados (temperatura, glicemia e/ou estresse metabólico), modula a saída motora para garantir que o exercício termine antes que o dano tecidual irreversível ocorra. É o cérebro que decide o tempo ideal do esforço, e não a falha muscular isolada. (Denadai, e Greco, 2025)
Assim, o equilíbrio entre a serotonina e a dopamina (razão 5‑HT/DA) é considerado um marcador neuroquímico importante da fadiga central, e o aumento relativo de 5‑HT em relação à DA está associado à maior inibição central, sensação de cansaço e redução da motivação durante o exercício (Yang et al., 2025). Para os autores a modulação dessa razão é um alvo potencial para intervenções não farmacológicas, confirmando a natureza psicobiológica da fadiga. Assim, conforme Yang et al. (2025, p. 1304, tradução nossa) a:
[...] serotonina não necessariamente aumenta a liberação de serotonina, e a função cerebral não é determinada por um único neurotransmissor. Portanto, a proporção serotonina/dopamina é considerada um parâmetro mais preciso para a fadiga central.
Conforme Bustos-Viviescas, García-Yerena, e Wilches-Visbal (2025), essa perspectiva reforça que a prescrição dos exercícios e treinamentos deve considerar o equilíbrio neuroquímico, e não apenas variáveis metabólicas isoladas. A transição para a prática exige a aplicação estratégica dos achados, transformando o conhecimento fisiológico em ferramentas para a manipulação da carga. A manipulação das pausas entre séries também é uma ferramenta poderosa para modular a fadiga metabólica, ajustando o grau de estresse imposto aos diferentes sistemas energéticos. Assim, a combinação entre controle de intervalo, volume e intensidade permite refinar a resposta adaptativa e otimizar o desempenho ao longo da periodização.
Além disso, pesquisas contemporâneas demonstram que o exercício intermitente permite uma recuperação metabólica mais eficiente, com o lactato retornando à linha de base mais rapidamente, o que sustenta a intensidade do treino subsequente. Pausas mais longas, de 3 a 5 minutos, são cruciais para a recuperação da PCr e do drive neural, sendo indicadas para o treino de força máxima e de potência. Sob uma lógica semelhante, a distribuição do esforço em séries clúster pode ser útil para preservar a qualidade mecânica das repetições e controlar o estresse cardiovascular da sessão, sobretudo em contextos que exigem maior cautela na resposta hemodinâmica (Bustos-Viviescas, García-Yerena, e Wilches-Visbal, 2025). Se observam algumas estratégias justificadas no Quadro 4.
Quadro 4. Estratégias para mitigar a interferência no treinamento concorrente
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Estratégia |
Justificativa fisiológica |
Referência |
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Priorizar Força antes de Aeróbico |
Minimiza a fadiga central e a depleção de glicogênio antes da sessão de força. |
Denadai, e Greco (2025) |
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Separar Sessões por > 6 horas |
Permite a ressíntese de glicogênio e a dissipação da fadiga periférica e central. |
Staniszewski et al. (2024) |
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Ênfase na Qualidade (Força Específica) |
Focar no recrutamento neural máximo, que é o mais sensível à fadiga residual. |
Aslam, Habyarimana, e Bin (2025) |
Fonte: Elaboração própria
A recomendação prática, portanto, é priorizar o treino de força antes do aeróbico, ou separá-los por um período de tempo suficiente para a dissipação da fadiga residual, bem como a recuperação pós-exercício também deve ser ativa e intencional (Denadai, e Greco, 2025). Wei, Shen, e Wang (2025) reforçam que a recuperação ativa de baixa intensidade é superior ao descanso passivo na otimização da remoção de metabólitos, devido à manutenção do fluxo sanguíneo. A escolha da estratégia, ativa, imersão em água fria e/ou massagem, deve ser individualizada, mas o princípio da otimização da homeostase metabólica permanece central.
Para o profissional de Educação Física, propõe-se um modelo de prescrição diferenciado: o Modelo de Monitoramento de Fadiga (MDF), que utiliza indicadores não invasivos para monitorar, de forma integrada, os componentes central e periférico da FNM. O MDF parte do princípio de que a prescrição ideal deve ser guiada pela resposta individual à fadiga, e não apenas por parâmetros pré-determinados de volume, intensidade e frequência. Essa lógica converge com revisões que recomendam a combinação de indicadores de desempenho e biomarcadores para evitar leituras superficiais da fadiga e da recuperação. (Hernández Nájera, Cervantes Hernández, e Carrasco Legleu, 2022)
No eixo central, o MDF incorpora ferramentas como a PSE e as RER, interpretadas à luz do MGC e do modelo psicobiológico. Nessa perspectiva, variações na PSE e nas RER refletem ajustes antecipatórios do sistema nervoso central frente ao estresse metabólico e às demandas da tarefa, traduzindo a “negociação” entre a proteção homeostática e o desempenho (Lopes, Pereira, e Silva, 2022). No eixo periférico, o MDF integra indicadores de campo como a VBT e o CMJ e, quando disponíveis, medidas laboratoriais específicas de força e contratilidade (Weakley et al., 2021).
Na prática, o MDF permite ao profissional de Educação Física estabelecer limiares operacionais para o encerramento de séries ou sessões. Por exemplo, pode-se definir que a série seja interrompida quando a perda de velocidade exceder determinado percentual em relação à velocidade média prevista (por exemplo, 20%), concomitantemente a uma PSE elevada (≥8 em escala de 0-10) e à redução nas RER relatadas. A combinação desses indicadores oferece uma leitura mais robusta do estado de fadiga: uma PSE elevada com pouca queda de velocidade sugere predominância de mecanismos centrais; por outro lado, grande perda de velocidade com PSE ainda moderada indica contribuição periférica mais pronunciada.
Esse ajuste em tempo real de volume, intensidade e pausas configura a “engenharia da fadiga” proposta neste estudo, na qual o profissional de Educação Física atua como um modulador consciente da resposta de fadiga, e não apenas como um prescritor de cargas. Ao manipular intencionalmente variáveis como pausas, ordem das modalidades em protocolos concorrentes e estratégias de recuperação, com base nas respostas de PSE, RER e VBT, torna-se possível aproximar o indivíduo de seu limite periférico de forma segura, minimizando o risco de overtraining e de lesões.
Entre as possíveis limitações do MDF, destacam-se a necessidade de educar o praticante para o uso adequado das escalas subjetivas e a disponibilidade de dispositivos confiáveis para mensurar a VBT em ambientes de campo. Além disso, o MDF, enquanto modelo teórico-operacional ainda carece de validação sistemática em diferentes populações (idosos, atletas de força e de resistência ou de praticantes recreacionais), o que configura uma demanda importante para pesquisas futuras.
Contudo, a integração de dois indicadores, como a PSE e as RER, permitem ao profissional tomar decisões, diferenciando se a interrupção do exercício se deve a uma regulação protetora cerebral ou a uma falha muscular iminente. A principal limitação desta revisão narrativa reside na impossibilidade de quantificar o efeito das intervenções, o que é inerente ao seu desenho metodológico. (Soendenbroe, Boraxbekk, e Mackey, 2025)
De modo complementar, Baron Baron, Fernández Ortega, e Camargo Rojas (2024) demonstraram que as mudanças relevantes em desempenho funcional e VBT nem sempre vieram acompanhadas por diferenças significativas na ativação da eletromiografia, reforçando que a interpretação da fadiga e da adaptação não deve se apoiar em um único marcador neuromuscular.
Conclusão
Esta revisão narrativa crítica e analítica evidenciou que a fadiga neuromuscular é um fenômeno complexo, regido por uma interação dinâmica entre mecanismos periféricos e centrais. A fadiga periférica mantém sua relevância como limite bioenergético e mecânico do desempenho, associada à disfunção do acoplamento excitação-contração, ao acúmulo de metabólitos e à perda de força específica. Em paralelo, a fadiga central, descrita em modelos como o MGC e o modelo psicobiológico, emerge como componente regulador do esforço, no qual a percepção de esforço e fatores motivacionais modulam a decisão de interromper o exercício.
As evidências analisadas sugerem que mecanismos centrais participam da modulação antecipatória do esforço, reduzindo o drive neural como estratégia de proteção homeostática. A principal conclusão teórica é que a fadiga pode ser compreendida como um espectro dinâmico, em que a falha periférica representa o limite de segurança, mas a fadiga central atua como gatilho que modula o esforço antes que esse limite seja alcançado. O desempenho ótimo é atingido quando o indivíduo consegue operar próximo desse limite periférico de forma segura, o que exige tolerância e modulação central elevadas.
Em termos práticos, os achados apontam que a manipulação estratégica de pausas, a organização temporal do treinamento concorrente e a escolha intencional de estratégias de recuperação são elementos centrais da “engenharia da fadiga”. Pausas adequadas, a priorização do treinamento de força antes do aeróbico e a recuperação ativa contribuem para otimizar a ressíntese de substratos, mitigar a fadiga residual e preservar a qualidade mecânica das repetições ao longo da periodização.
A principal contribuição do trabalho é a proposta de integrar conhecimentos sobre mecanismos centrais e periféricos de FNM à prescrição do treinamento por meio da “engenharia da fadiga” e do MDF. Ao combinar indicadores como PSE, RER e VBT, o MDF permite ajustar, em tempo real, volume, intensidade e pausas, individualizando a carga de treino com base na resposta de fadiga e reduzindo o risco de overtraining e de lesões. Essa perspectiva reforça o papel do profissional de Educação Física como “engenheiro da fadiga”, responsável por modular conscientemente o estresse imposto ao sistema neuromuscular.
Para pesquisas futuras, destaca-se a necessidade de: (a) validar o MDF em diferentes populações (idosos, atletas de força, atletas de endurance e/ou praticantes recreacionais); (b) investigar, por meio de ensaios controlados, o impacto de diferentes estratégias de manipulação de pausas e organização do treinamento concorrente sobre indicadores de fadiga central e periférica, incluindo marcadores neuroquímicos como a razão 5‑HT/DA; e (c) explorar o papel de fatores psicossociais e de resiliência neuromuscular na resposta à fadiga e na adaptação a longo prazo.
Em síntese, a FNM transcende a simples falha muscular, configurando‑se como uma negociação contínua entre as demandas periféricas e a capacidade protetora do cérebro. Avançar na direção de uma “engenharia da fadiga” significa transformar a prescrição do treinamento em uma ciência de precisão, na qual a integração entre fisiologia muscular, neurociência e monitoramento em tempo real orienta decisões mais seguras e eficazes para o desempenho e para a saúde.
Referências
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Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 31, Núm. 338, Jul. (2026)