ISSN 1514-3465
Na corda bamba das Diretrizes Curriculares Nacionais dos cursos de
graduação em Educação Física. Os malabarismos da dupla formação
Walking a Tightrope within the National Curriculum Guidelines for Undergraduate
Physical Education Programs. The Juggling Act of Dual Professional Training
En la cuerda floja de las Directrices Curriculares Nacionales de los cursos
de grado en Educación Física. Los malabarismos de la doble formación
Anibal Correia Brito Neto
*anibal.neto@uepa.br
Matheus Costa Dias
**matheus.cdias@aluno.uepa.br
Rodrigo Daniel Rodrigues Ribeiro
***rodrigo.ribeiro@aluno.uepa.br
*Professor Adjunto
da Universidade do Estado do Pará (UEPA)
Doutor em Educação
pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)
Mestre em Educação pela UEPA
Licenciado em Educação Física pela UEPA
Bacharel em Direito pela Faculdade Ideal/Wyden
Membro do Grupo de Pesquisa Ressignificar - Experiências Inovadoras
na Formação de Professores e Prática Pedagógica da UEPA
**Acadêmico do Curso de Licenciatura em Educação Física
da Universidade do Estado do Pará (UEPA)
Bolsista de Iniciação Científica da Fundação Amazônia
de Amparo a Estudos e Pesquisas (FAPESPA)
no âmbito do Programa de Iniciação Científica da UEPA
***Acadêmico do Curso de Bacharelado em Educação Física
da Universidade do Estado do Pará (UEPA)
Monitor Bolsista do Departamento de Desporto da UEPA
Voluntário do Programa de Iniciação Científica da UEPA
(Brasil)
Recepción: 17/12/2025 - Aceptación: 08/02/2026
1ª Revisión: 22/01/2026 - 2ª Revisión: 05/02/2026
Documento acessível. Lei N° 26.653. WCAG 2.0
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Cita sugerida
: Neto, A.C.B., Dias, M.C., e Ribeiro, R.D.R. (2026). Na corda bamba das Diretrizes Curriculares Nacionais dos cursos de graduação em Educação Física. Os malabarismos da dupla formação. Lecturas: Educación Física y Deportes, 31(336), 77-91. https://doi.org/10.46642/efd.v31i336.8702
Resumo
Este estudo teve como objetivo caracterizar as Instituições Públicas de Ensino Superior que adotam a possibilidade de dupla formação em Educação Física para os matriculados nos cursos de licenciatura e bacharelado, bem como analisar os direcionamentos curriculares e institucionais para sua operacionalização, considerando as Diretrizes Curriculares Nacionais. De natureza documental, a pesquisa analisou 17 Projetos Pedagógicos de Curso de 13 Instituições distribuídas em diferentes regiões do Brasil. Os resultados revelam distintos níveis de integração entre licenciatura e bacharelado, evidenciando uma diversidade de arranjos curriculares que refletem tanto esforços de inovação quanto as limitações e ambiguidades presentes nas normativas vigentes. Destaca-se o protagonismo de algumas instituições, especialmente no estado de Goiás, na busca por modelos integrados. Contudo, a instabilidade regulatória, as recentes orientações que restringem a dupla formação simultânea e a utilização da Área Básica de Ingresso apontam desafios significativos para a consolidação desse modelo formativo. Conclui-se que os chamados “malabarismos” expressam, simultaneamente, a tentativa de sobrevivência institucional e a persistência de um projeto formativo generalista e ampliado, em defesa da construção de uma Educação Física crítica e comprometida com as reais necessidades dos trabalhadores e sua efetiva inserção no mundo do trabalho.
Unitermos:
Educação Física. Formação profissional. Projeto pedagógico. Currículo.
Abstract
This study aimed to characterize public higher education institutions that offer integrated dual-degree programs in Physical Education, combining teacher education and bachelor’s training, as well as to analyze the curricular and institutional guidelines for its implementation considering the National Curricular Guidelines. This documentary research analyzed 17 Course Pedagogical Projects from 13 Institutions distributed across different regions of Brazil. The results reveal varying levels of integration between the licentiate and bachelor programs, highlighting a diversity of curricular arrangements that reflect both innovation efforts and the limitations and ambiguities present in the current regulations. The protagonism of some institutions, particularly in the state of Goiás, stands out in the pursuit of integrated models. However, regulatory instability, recent guidelines restricting simultaneous dual-degree offerings, and the use of the Basic Admission Area present significant challenges to the consolidation of this educational model. It is concluded that the so-called “juggling” simultaneously expresses institutional survival attempts and the persistence of a broad and generalist formative project, advocating for the development of a critical Physical Education committed to the real needs of workers and their effective integration into the labor market.
Keywords:
Physical Education. Professional training. Course educational project. Curriculum.
Resumen
Este estudio tuvo como objetivo caracterizar las Instituciones Públicas de Educación Superior que adoptan la posibilidad de doble formación en Educación Física para estudiantes matriculados en los cursos de licenciatura y bachillerato, así como analizar las orientaciones curriculares e institucionales para su implementación, considerando las Directrices Curriculares Nacionales. De carácter documental, la investigación analizó 17 Proyectos Pedagógicos de Curso pertenecientes a 13 instituciones distribuidas en diferentes regiones de Brasil. Los resultados revelan distintos niveles de integración entre licenciatura y bachillerato, evidenciando una diversidad de arreglos curriculares que reflejan tanto esfuerzos de innovación como las limitaciones y ambigüedades presentes en las normativas vigentes. Se destaca el protagonismo de algunas instituciones, especialmente en el estado de Goiás, en la búsqueda de modelos integrados. Sin embargo, la inestabilidad regulatoria, las recientes orientaciones que restringen la doble formación simultánea y la utilización del Área Básica de Ingreso señalan desafíos significativos para la consolidación de este modelo formativo. Se concluye que los llamados “malabarismos” expresan, simultáneamente, el intento de supervivencia institucional y la persistencia de un proyecto formativo generalista y ampliado, en defensa de la construcción de una Educación Física crítica y comprometida con las necesidades reales de los trabajadores y su efectiva inserción en el mundo del trabajo.
Palabras clave:
Educación Física. Formación profesional. Proyecto pedagógico. Currículo.
Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 31, Núm. 336, May. (2026)
Introdução
A implementação das Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) dos cursos de graduação em Educação Física no Brasil tem-se configurado, talvez mais do que em qualquer outra área do conhecimento, como uma “corda bamba” permanente para as instâncias universitárias responsáveis pela organização e pelo desenvolvimento da dinâmica formativa.
Longe de configurar um horizonte estável, o processo tem sido marcado por instabilidade crônica, alimentada por orientações tardias, normatizações inócuas e revogações vertiginosas. Esse cenário impõe um ritmo acelerado e errático de (in)definições e exigências, resultando em sucessivos “malabarismos” que, em última instância, consomem tempo e geram sobrecarga de trabalho, comprometendo a atribuição precípua daqueles que assumem o compromisso de assegurar a qualidade da formação superior.
Na configuração das atuais DCNs da Educação Física (Brasil, 2018), para além de uma conjuntura marcada por uma reação conservadora neoliberal e por uma contrarreforma educacional (Silva, e Furtado, 2022), a área também incorpora mediações internas relacionadas à influência de sujeitos sociais historicamente vinculados ao campo conservador e corporativista, com destaque para o Conselho Federal de Educação Física (CONFEF) e seus respectivos Conselhos Regionais de Educação Física (CREFs) (Maciel, 2021), somadas à interferência das políticas curriculares dos cursos de formação de professores para a educação básica, que sofreram duas revogações sucessivas e intempestivas de suas DCNs (Brasil, 2015, 2019), impactando diretamente a organização e a configuração da formação em Educação Física.
Mesmo diante da insatisfação manifestada por diferentes entidades, instituições, grupos de pesquisa e intelectuais da área em relação a esse contexto e ao projeto formativo delineado pelas atuais DCNs, que abrange, inclusive, o pedido formal de revogação apresentado pelo Comitê Nacional contra as atuais DCNs da Educação Física (2021), algumas Instituições Públicas de Ensino Superior (IPES) têm investido na alternativa prevista no Art. 5º, §3º, e Art. 30 da referida resolução (Brasil, 2018), a qual possibilita a implementação de uma formação integrada, conduzindo à dupla formação dos matriculados em bacharelado e licenciatura em Educação Física.
Embora ainda iniciais, as análises sobre a dupla formação integrada, na vigência das atuais DCNs, indicam que, além de ter gerado inúmeros impasses (Souza et al., 2021; Silva et al., 2025) e encaminhamentos diversos (Anes et al., 2023), essa possibilidade formativa tem sido apontada como a alternativa mais coerente para instituições que defendem uma concepção generalista e ampliada da formação em Educação Física. (Ventura, e Anes, 2020; Furtado, 2020; Brito Neto et al., 2020)
Nesse sentido, considerando a excepcionalidade dessa perspectiva de formação em relação à designação predominante nas DCNs dos cursos de graduação em Educação Física, que estabelecem a opção do graduando por uma formação específica, o presente artigo tem como objetivo caracterizar as IPES que, na organização de seus Projetos Pedagógicos de Curso (PPCs), optaram por oferecer a dupla formação aos matriculados em licenciatura e bacharelado, bem como analisar os direcionamentos adotados pelas IPES para operacionalizar a escolha e o desenvolvimento dessa dupla formação.
Este artigo resulta de pesquisa desenvolvida no âmbito do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica e de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação (PIBIC/PIBITI), edição 2024-2025, da Universidade do Estado do Pará (UEPA).
Métodos
A presente pesquisa caracteriza-se como documental, pois, conforme explica Oliveira (2007), esse tipo de investigação tem como foco a análise de fontes que ainda não passaram por tratamento científico, como é o caso deste estudo, que se debruça sobre os PPCs das IPES. A autora ressalta que, nesse tipo de pesquisa, é fundamental uma postura cuidadosa do pesquisador no manejo desses dados originais, uma vez que se estabelece uma relação direta entre o pesquisador e os fatos a serem analisados, sem a mediação de interpretações ou análises previamente realizadas por outros estudiosos. (Oliveira, 2007)
Como fundamentos teórico-metodológicos para a análise das dimensões explícitas e implícitas presentes nos documentos, adotaram-se contribuições da tradição marxista, conforme sistematizadas por Evangelista, e Shiroma (2019). As autoras assinalam que os textos produzidos no contexto das reformas educacionais expressam uma racionalidade política marcada por contradições, o que demanda do pesquisador um movimento analítico voltado à reconstrução de seus processos de formulação e consolidação, bem como dos mecanismos e discursos mobilizados para a legitimação de seus conteúdos. (Evangelista, e Shiroma, 2019)
Em termos procedimentais, inicialmente buscou-se identificar as IPES que previam, em suas propostas, a possibilidade de dupla formação dos estudantes matriculados nos cursos de Licenciatura e Bacharelado em Educação Física, com base nos seguintes procedimentos metodológicos: 1) consulta ao Cadastro Nacional de Cursos e Instituições de Educação Superior (e-MEC), considerando as instituições com oferta ativa de ambos os graus; 2) pesquisa na Internet, por meio do mecanismo de busca Google, utilizando a combinação das palavras-chave “educação física”, “dupla formação” e “PPC”, com foco nos resultados que indicassem tal possibilidade formativa; e 3) acesso aos websites institucionais para localizar e realizar o download dos PPCs dos cursos de Educação Física, com o propósito de verificar se os documentos atendiam aos requisitos da pesquisa.
Como critérios de inclusão da constituição do corpus documental de PPCs, estabeleceu-se: 1) documentos disponíveis em acesso público nos websites institucionais; 2) documentos elaborados em conformidade com as atuais DCNs da Educação Física (Brasil, 2018); 3) PPCs com previsão da dupla formação como uma possibilidade efetiva para o estudante regularmente matriculado, mediante decisão exclusiva deste, sem a necessidade de reingresso por meio de editais de vagas ociosas, aproveitamento de vagas remanescentes ou novo processo seletivo, uma vez que tais mecanismos contrariam o disposto no Art. 30 das DCNs da Educação Física, que estabelece a dupla formação como ampliação das possibilidades formativas, e não como um processo restritivo ou condicionado que limite o direito dos matriculados à integralização ampliada de sua formação.
Sendo assim, foram coletados 17 PPCs, pertencentes a 13 IPES, considerando que duas dessas instituições adotam PPCs distintos de acordo com o campus ou unidade em que o curso é ofertado, conforme apresentado no Figura 1.
Figura 1. Relação das IPES e respectivos PPCs analisados.
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Código PPC |
Município de oferta |
Ano PPC |
Sigla da IPES |
Link de acesso |
Categoria da IPES |
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PPC 1 |
Guarapuava-PR |
2020 |
UNICENTRO |
https://www3.unicentro.br/proen/cursos/matrizes-curriculares/#1536092615594-11a645b8-97c3 |
Universidade Pública Estadual |
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PPC 2 |
Irati-PR |
2020 |
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PPC 3 |
Fortaleza-CE |
2022 |
UECE |
https://www.uece.br/ccs/cursos/graduacao/curso-de-graduacao-em-educacao-fisica/ |
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PPC 4 |
Campinas-SP |
2022 |
UNICAMP |
https://fef.unicamp.br/graduacao/ |
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PPC 5 |
Rio Claro-SP |
2022 |
UNESP |
https://ib.rc.unesp.br/#!/graduacao/cursos-conselho-de-curso/educacao-fisica/projeto-politico-pedagogico---ppp/ |
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PPC 6 |
Goiânia-GO |
2023 |
UEG |
https://www.ueg.br/eseffego/conteudo/21003_ppc_e_matriz |
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Quirinópolis-GO |
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Porangatu-GO |
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Itumbiara-GO |
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PPC 7 |
Divinópolis-MG |
2021 |
UEMG |
https://uemg.br/graduacao/cursos2/course/educacao-fisica |
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PPC 8 |
Ituiutaba-MG |
2021 |
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PPC 9 |
Passos-MG |
2021 |
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PPC 10 |
Ibirité-MG |
2025 |
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PPC 11 |
Petrolina-PE |
2020 |
UNIVASF |
https://portais.univasf.edu.br/cefis/ |
Universidade Pública Federal |
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PPC 12 |
Catalão-GO |
2022 |
UFCAT |
https://ibiotec.ufcat.edu.br/ppc-ef |
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PPC 13 |
Castanhal-PA |
2023 |
UFPA |
https://campuscastanhal.ufpa.br/?page_id=149 |
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PPC 14 |
Rio Grande-RS |
2024 |
FURG |
https://prograd.furg.br/cursos/projeto-politico-pedagogico-dos-cursos-de-graduacao |
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PPC 15 |
Goiânia-GO |
2025 |
UFG |
https://fefd.ufg.br/p/educacaofisicaabi |
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PPC 16 |
Urutaí-GO |
2019 |
IF Goiano |
https://ifgoiano.edu.br/home/index.php/cursos-superiores-urutai/12734-graduacao-em-educacao-fisica.html |
Instituto Público Federal |
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PPC 17 |
Juazeiro do Norte-CE |
2021 |
IFCE |
https://portal.ifce.edu.br/cursos/juazeiro-do-norte-educacao-fisica/ |
Fonte: Dados de pesquisa
Para apresentar de forma adequada a dinâmica observada no material analisado, foram realizadas, conforme orientam Moroz, e Gianfaldoni (2006), as etapas de análise e interpretação dos dados. Inicialmente, procedeu-se ao trabalho de definição, organização, representação, descrição e estabelecimento de relações entre os dados, a partir das categorias, com o propósito de estruturar a compreensão do material. Na sequência, os resultados foram interpretados à luz de referenciais críticos da produção acadêmica sobre a formação em Educação Física, atribuindo-lhes significado e discutindo suas direções, implicações, lacunas, inovações e proposições.
Entre a fragmentação e a integração: os impasses das atuais DCNs da Educação Física
A aprovação das DCNs dos Cursos de Graduação em Educação Física (Brasil, 2018), considerada uma derrota para o campo progressista da área, foi alvo de duras críticas do Comitê Nacional contra as atuais DCNs da Educação Física (2021). As contestações incidiram tanto sobre o processo de deliberação, marcado pela restrição da participação da comunidade acadêmica, estudantil e de demais interessados, quanto sobre o conteúdo do documento, caracterizado por redações imprecisas e ambíguas.
Entre os principais pontos levantados pelo Comitê estão o incentivo à fragmentação do currículo em duas etapas formativas, comum e específica, e a confusão gerada pela presumida obrigatoriedade de oferta simultânea de bacharelado e licenciatura, o que desencadeou intensas polêmicas junto às instituições, aos núcleos docentes estruturantes e aos colegiados de curso.
Diante desse cenário, o Comitê Nacional protocolou solicitação de revogação das DCNs de 2018 junto ao Conselho Nacional de Educação (CNE), defendendo a reabertura do debate com maior participação das instituições e dos cursos. O manifesto reuniu 753 assinaturas individuais e 58 institucionais, entre entidades sindicais, estudantis, fóruns, colegiados e associações acadêmicas.
Em paralelo a esse movimento, pesquisadores passaram a defender alternativas à fragmentação da formação, sinalizando a necessidade de integração das áreas específicas da licenciatura e do bacharelado no processo de reorganização dos PPCs. Segundo Furtado (2020), essa integração implicaria em:
[...] avaliar os caminhos a serem seguidos por uma proposta de formação rigorosa teoricamente e que vise um percurso formativo em que, ao final, sejam atribuídos os dois graus acadêmicos ao egresso, já que esta expressão do movimento contrário foi assimilada e está posta no texto da Resolução, mesmo que de forma subsumida à fragmentação (p. 128).
As próprias DCNs, embora priorizem a diferenciação e a opção entre licenciatura e bacharelado, abriram margem para essa interpretação. O Art. 5º, §3º, ao condicionar a integração das áreas específicas às decisões institucionais, e o Art. 30, ao admitir a possibilidade de dupla formação nos PPCs, foram vistos como “brechas” para aqueles que defendem uma concepção generalista e ampliada da formação. Contudo, tais dispositivos mostraram-se genéricos, sem oferecer detalhamento ou procedimentos claros para sua efetiva aplicação.
Nesse contexto, Silva et al. (2025) evidenciaram a genealogia dos impasses das DCNs, cujo epicentro reside nas ambiguidades em torno da admissão da dupla formação. Os autores destacam que apenas em 2024, com a publicação da Nota Técnica nº 36/2024/DPR/SERES/SERES, de 14 de agosto de 2024 (Brasil, 2024), pela Secretaria de Regulação e Supervisão da Educação Superior do Ministério da Educação (SERES/MEC), ocorreu a divulgação de orientações sobre a oferta e a operacionalização desses cursos. Até então, por mais de cinco anos, os ofícios e pareceres oriundos do CNE “mantiveram as ambiguidades e a insegurança jurídica e administrativa quanto à consolidação da dupla formação como possibilidade legítima e amparada pela legislação educacional vigente”. (Silva et al., 2025, p. 8)
Em meio a tais contradições, Maciel et al. (2021) destacam que a utilização dos mecanismos previstos nas DCNs para articular licenciatura e bacharelado em um projeto pedagógico integrado, orientado pelos preceitos de uma formação única, de caráter ampliado e generalista, não pode prescindir de uma dimensão mais ampla, voltada à luta política pela reabertura do debate democrático e pela elaboração de novas diretrizes que superem os interesses do sistema CONFEF/CREFs e seu projeto hegemônico de caráter conservador.
Nessa mesma direção, Anes et al. (2021) indicam que, enquanto se buscam as “fendas” capazes de romper os laços hegemônicos que perpetuam a fragmentação imposta pelas atuais DCNs, é igualmente necessário prosseguir na luta por políticas comprometidas com a formação ampliada. Para isso, a aproximação a essa perspectiva formativa diante das DCNs vigentes deve ocorrer por meio da integração curricular, tendo como grande desafio a articulação entre os conhecimentos historicamente separados pelo advento do bacharelado em Educação Física, que promoveu a atomização dos conteúdos e a especialização precoce, consolidando a fragmentação do objeto da área. (Anes et al., 2021)
Ventura, e Anes (2020) corroboram essa perspectiva ao ressaltarem que a principal contribuição das atuais DCNs é a possibilidade de retomada da formação ampliada, não apenas como opção metodológica do curso, mas como alternativa que, ao final, permite ao aluno obter a dupla certificação de licenciado e bacharel. Entretanto, alertam para o risco de uma adoção meramente pragmática, voltada ao aligeiramento da formação, o que comprometeria tanto a qualidade quanto o papel social da Educação Física.
Furtado (2020), por sua vez, ressalta que a viabilização da dupla formação não deve se resumir a um simples somatório de horas ou à sobreposição de percursos que sobrecarreguem o currículo com conteúdos redundantes. Para o autor, a integração curricular requer projetos consistentes que assegurem tanto a especificidade de cada grau quanto a articulação teórica, empírica e profissional entre licenciatura e bacharelado. Caso contrário, corre-se o risco de esvaziar a licenciatura e ampliar ainda mais a atração pelo bacharelado, perpetuando a hegemonia da formação voltada à biodinâmica e ao universo do fitness e do esporte de alto rendimento.
Brito Neto et al. (2020) situam essa luta por projetos de formação em uma perspectiva histórica abrangente. Para os autores, embora as DCNs vigentes reflitam interesses conservadores ao manter a divisão da formação em Educação Física, é necessário reafirmar e levar às últimas consequências a possibilidade de retomada do projeto generalista, amadurecido nos anos 1980 e refinado ao longo das décadas pela licenciatura de caráter ampliado, explorando plenamente as oportunidades de integração das áreas específicas e da dupla formação durante a reorganização das propostas curriculares dos cursos de Educação Física.
Como se pode observar, as discussões em torno das atuais DCNs da Educação Física evidenciam não apenas os limites e contradições da resolução vigente, mas também a emergência de movimentos acadêmicos e políticos que buscam reverter a fragmentação e consolidar a dupla formação integrada como alternativa legítima. Entretanto, o avanço desse projeto depende de como as instituições têm interpretado e operacionalizado tais possibilidades em seus PPCs. É nesse contexto que se insere o próximo tópico deste artigo, dedicado a analisar como as IPES que optaram pela dupla formação têm enfrentado os desafios práticos de articular as dimensões da licenciatura e do bacharelado.
Entre a fragmentação e a integração: os malabarismos da dupla formação em Educação Física nos PPCs
Embora, como mencionado anteriormente, a possibilidade de dupla formação em licenciatura e bacharelado em Educação Física, de forma integrada, tenha sido reconhecida pelo campo progressista da área como uma oportunidade concreta de dar continuidade à luta por uma formação generalista e ampliada, os dados desta pesquisa revelam que a maioria das IPES que, em períodos anteriores, conforme exposto por Ventura, e Anes (2020), se destacaram na defesa por uma licenciatura com formação ampliada, durante a vigência das DCNs da Educação Física de 2004 (Brasil, 2004), não são as mesmas que atualmente implementam a proposta da dupla formação integrada.
Exceção, contudo, deve ser feita à Universidade Federal de Goiás (UFG) e à Universidade Estadual de Goiás (UEG), que, além de pioneiras na proposta de licenciatura com formação ampliada (Ventura, e Anes, 2020), mantêm, por meio de seus docentes e pesquisadores, o protagonismo na formulação de alternativas baseadas na integração entre as duas formações em Educação Física.
Como se observa na Figura 2, além da UFG, com oferta em Goiânia-GO, e da UEG, com unidades em Goiânia-GO, Quirinópolis-GO, Porangatu-GO e Itumbiara-GO, o estado de Goiás se destaca nacionalmente como o que concentra o maior número de IPES aderindo à proposta de dupla formação integrada. A esse grupo somam-se a Universidade Federal de Catalão (UFCAT), com oferta em Catalão-GO, e o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Goiano (IF Goiano), com oferta em Urutaí-GO, reforçando o protagonismo goiano nesse movimento formativo.
Figura 2. IPES com adesão à dupla formação em Educação Física no território nacional
Fonte: Autores
Apesar da distribuição dessas IPES de forma diversificada, ainda que desigual, pelo território nacional, observa-se que, além do estado de Goiás, a região Sudeste também se destaca. No estado de São Paulo, duas instituições aderem à proposta de dupla formação integrada: a Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), com oferta no campus de Campinas-SP, e a Universidade Estadual Paulista (UNESP), no campus de Rio Claro-SP. Em Minas Gerais, o destaque é a Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), que mantém quatro unidades, localizadas em Divinópolis-MG, Ibirité-MG, Ituiutaba-MG e Passos-MG, todas com PPCs distintos, mas que contemplam a dupla formação com base em tal perspectiva.
No Nordeste, sobressai o estado do Ceará, com a Universidade Estadual do Ceará (UECE), campus Fortaleza-CE, e o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE), campus Juazeiro do Norte-CE, além da Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF), localizada em Petrolina-PE.
Mesmo com a presença de experiências em todas as regiões do país, observa-se menor adesão nas regiões Sul e Norte. No Sul, apenas duas IPES adotam a proposta: a Universidade Estadual do Centro-Oeste do Paraná (UNICENTRO), com oferta de dupla formação integrada e PPCs distintos nos campi de Guarapuava-PR e Irati-PR, e a Universidade Federal do Rio Grande (FURG), com curso no campus de Rio Grande-RS. Já no Norte, apenas uma IPES, a Universidade Federal do Pará (UFPA), campus Castanhal-PA, indica, em seu PPC, a possibilidade de dupla formação em Educação Física aos matriculados.
Todo esse cenário de reconfiguração das IPES, aliado à adesão das universidades paulistas, UNICAMP e UNESP, à proposta de dupla formação, ratifica não apenas a influência histórica dessas instituições, em articulação com o Sistema CONFEF/CREFs, na definição das políticas de formação em Educação Física no Brasil (Brito Neto et al., 2020; Maciel et al., 2021), mas também as contradições e o caráter mediador que o debate sobre a adoção da dupla formação pelas IPES deve exercer no campo das disputas por projetos formativos voltados a uma concepção generalista e ampliada. Isso porque, ao fim e ao cabo, a proposta de dupla formação, ainda que concebida de modo integrado, mantém vivo o perfil acadêmico-profissional do bacharelado em Educação Física, que carrega consigo o estigma de um modelo conservador, sustentado na lógica de mercado, na centralidade da aptidão física e na perspectiva de uma ciência de base positivista.
Vale destacar, ainda, que, conforme observam Maciel et al. (2021), o relator das atuais DCNs da Educação Física (Brasil, 2018), Luiz Roberto Liza Curi, fez menção ao professor Sebastião Gobbi, docente aposentado da UNESP de Rio Claro e reconhecido intelectual orgânico do Sistema CONFEF/CREFs, quanto à sua presumida colaboração na proposta final deste documento. Nesse sentido, o PPC da própria UNESP de Rio Claro, desde 2008, revela forte similaridade com a estrutura de formação prevista nas atuais DCNs da Educação Física (Brasil, 2018). Inclusive, o PPC mais recente da instituição (UNESP, 2022) assim se pronuncia sobre as diretrizes vigentes: “Devido ao modelo já bem-sucedido, as diretrizes atuais pouco impactaram na reestruturação do curso, que não sofreu alteração de nomenclatura, quantidade de oferta de vagas, formato de ingresso e escolha da modalidade específica, nem do perfil profissional”. (UNESP, 2022, p. 7)
Por outro lado, para buscar, de algum modo, amenizar o impacto causado pela fragmentação da formação em licenciatura e bacharelado, explorando-se as brechas possíveis diante das exigências das normativas nacionais, constatam-se verdadeiros “malabarismos” na organização dos PPCs pelas IPES, a fim de assegurar a dupla formação dos matriculados, seja no processo de escolha pela dupla formação, seja na configuração dos conhecimentos que compõem a Etapa Comum, as Etapas Específicas e as possibilidades de integração entre essas áreas, seja, ainda, na dinâmica de integralização curricular.
No que se refere aos “malabarismos” observados no processo de escolha da formação que os graduandos pretendem obter, cabe ratificar que foram excluídos da amostra deste estudo os PPCs que não indicaram a dupla formação como uma decisão de iniciativa exclusiva dos estudantes matriculados, ou seja, como uma possibilidade efetiva, sem a necessidade de reingresso por meio de editais de vagas ociosas, aproveitamento de vagas remanescentes ou novo processo seletivo.
Tal procedimento fundamenta-se no Art. 30 das DCNs da Educação Física (Brasil, 2018), que se configura como um dispositivo permissivo ao assegurar o direito à dupla formação àqueles que atendam ao requisito básico de matrícula. Contudo, em muitas IPES, constatou-se o contrário: a imposição de barreiras institucionais que, em vez de garantir o acesso, estimulam uma competição predatória entre os estudantes. Dessa forma, além da seletividade no ingresso, instauram-se também mecanismos concorrenciais para a conclusão de ambas as formações, expressões típicas da racionalidade mercadológica que tem orientado parte significativa das práticas acadêmicas e educacionais.
Nesse contexto, observa-se que, em geral, as IPES que instituíram a dupla formação como um mecanismo de ampliação das possibilidades formativas buscam inovar para além da simples consulta oficial prevista para o quarto semestre do curso, conforme indicado no Art. 5º, § 1º, das DCNs da Educação Física (Brasil, 2018). Em vez de tratar a escolha apenas como um ato administrativo, essas instituições têm desenvolvido iniciativas que procuram tornar o processo mais formativo e reflexivo.
A UFCAT, por exemplo, estruturou Estágios Curriculares Obrigatórios no 3º e 4º semestres da etapa comum, denominados Estágio e Docência em Educação Física I e II. O primeiro tem como foco a aproximação ao ambiente profissional da Educação Básica, enquanto o segundo enfatiza os campos de atuação do esporte, da saúde, do artístico-cultural e do lazer, possibilitando ao estudante realizar uma escolha mais consciente acerca do grau acadêmico a seguir.
O IFCE realiza o Seminário de Esclarecimentos para Indicação Prioritária de Habilitação (SEIPH), configurando um espaço de diálogo que auxilia os estudantes no processo decisório. A UFG, por sua vez, adota uma proposta singular ao vincular a escolha da habilitação à elaboração de um memorial acadêmico, no qual o estudante reflete sobre sua trajetória formativa e seus projetos profissionais, um instrumento que funciona, simultaneamente, como autoavaliação discente e como avaliação institucional da formação oferecida.
A FURG desenvolveu um Quadro de Sequência Lógica com o propósito de preservar o caráter integral da dupla formação. Esse dispositivo inclui um processo de indução, conduzido pela coordenação do curso, para que os alunos optem inicialmente pela Licenciatura e, posteriormente, possam reingressar no Bacharelado, para concluir ambas as formações. Por fim, a UEG elaborou o PPC mais singular entre todos os analisados: com formação única e currículo totalmente integrado, o curso possibilita que os egressos obtenham, simultaneamente, as duas formações, licenciatura e bacharelado, garantindo-lhes, segundo o documento, uma formação ampla, capaz de favorecer a intervenção profissional em todos os espaços de atuação do campo da Educação Física.
No que se refere à dinâmica de integralização curricular da dupla formação, Silva et al. (2025) destacam os impasses decorrentes da ausência de orientações específicas sobre as condições e os critérios que deveriam balizar sua implementação. Essa lacuna, segundo os autores, foi reforçada pelos próprios posicionamentos do CNE em resposta a consultas encaminhadas por diferentes IPES, reconhecendo como viáveis tanto a oferta simultânea quanto a sequencial das duas formações, desde que essa possibilidade estivesse prevista no PPC e devidamente registrada no sistema e-MEC.
Esse cenário de indefinição normativa resultou em uma multiplicidade de estratégias adotadas pelas instituições. Algumas IPES, como a UEG, UFCAT, UNIVASF, IFCE, UEMG-Ibirité, UEMG-Ituiutaba e UEMG-Passos, permitem a realização da dupla formação de forma simultânea, possibilitando que os estudantes concluam ambas as formações ao mesmo tempo. Outras, como a FURG, o IF Goiano, a UNICENTRO-Guarapuava, a UNICENTRO-Irati, a UNESP-Rio Claro, a UFPA e a UECE, optaram pela oferta sequencial, exigindo que o estudante conclua uma formação antes de iniciar a outra. A UEMG-Divinópolis adota uma postura mais flexível, permitindo ambas as modalidades, enquanto o PPC da Unicamp não explicita a forma de integralização da dupla formação.
Diante desse quadro, tudo indica que as instituições que ofertam a dupla formação simultânea precisarão adequar-se à Nota Técnica nº 36/2024/DPR/SERES/SERES (Brasil, 2024), que inviabilizou essa modalidade. Essa aparente incongruência, reiteradamente legitimada pelo próprio CNE, evidencia que os “malabarismos” em torno da dupla formação em Educação Física não se restringem às IPES na elaboração de seus PPCs. A própria Nota Técnica apresenta argumentos inconsistentes e, em certa medida, contraditórios. Em um primeiro momento, fundamenta a inviabilidade da dupla formação concomitante na Lei nº 12.089/2009, que proíbe a ocupação simultânea de duas vagas em instituições públicas de ensino superior. No entanto, posteriormente, o documento alega que a criação de um código específico no sistema e-MEC para contemplar o duplo grau, licenciatura e bacharelado, poderia gerar entraves administrativos e comprometer o andamento de determinadas políticas educacionais.
Assim, o que se observa, em última instância, é a falta de sinergia entre órgãos que integram a mesma estrutura, revelando um descompasso nas orientações emanadas pelo CNE e pela SERES. Essa desarticulação tem provocado insegurança normativa e operacional entre as IPES, que se veem diante do desafio de interpretar e adequar seus PPCs a DCNs que, por vezes, se apresentam ambíguas ou até mesmo contraditórias.
Somado a isso, os diferentes “malabarismos” alcançam as formas de organização dos currículos, em especial, a definição dos conhecimentos que compõem a Etapa Comum, as Etapas Específicas e as possibilidades de articulação entre essas dimensões. O art. 5º, § 3º, das DCNs da Educação Física (Brasil, 2018) atribui às instituições a autonomia para promover a integração entre Licenciatura e Bacharelado, desde que não haja supressão de temas ou conteúdos próprios de cada formação. Tal orientação resultou em uma ampla diversidade de PPCs, com distintos níveis de articulação entre as duas formações, que podem ser sintetizados em três configurações predominantes: 1) formação única, com currículo totalmente integrado para a dupla formação; 2) dupla formação opcional, com uma etapa comum às duas habilitações e compartilhamento parcial de componentes curriculares na etapa específica; e 3) dupla formação opcional, com uma etapa comum, mas com etapas específicas organizadas de forma totalmente independente.
No que se refere à formação única, com currículo totalmente integrado para a dupla formação, identifica-se apenas a experiência da UEG, cujo curso apresenta carga horária total de 4.365 horas e tempo mínimo de integralização de dez semestres. Conforme indicado em seu Projeto Pedagógico, “o egresso integralizará uma formação ampla, obtendo ambas as certificações previstas para a área de conhecimento da Educação Física (bacharel e licenciado), podendo atuar no campo escolar e não escolar [...]”. (UEG, 2023, p. 21)
Embora a singularidade dessa experiência demande uma análise específica, que extrapola os objetivos deste artigo, destaca-se que se trata de um curso único de graduação, estruturado a partir de uma proposta de formação integrada. Tal proposta se materializa em uma organização curricular composta por diferentes núcleos: o Núcleo Comum, com duas disciplinas obrigatórias a todos os cursos da UEG, totalizando 120 horas; o Núcleo de Modalidade, que respeita as especificidades de cada tipo de curso (Licenciatura, Bacharelado ou Superior Tecnológico); o Núcleo Livre, voltado às escolhas e interesses dos estudantes; e o Núcleo Específico, que concentra as exigências das DCNs e das demandas regionais, englobando as disciplinas próprias da Educação Física, o Estágio Curricular Supervisionado Obrigatório e o Trabalho de Conclusão de Curso, organizados de forma integrada ou com especificidades indicadas para a Licenciatura e o Bacharelado.
No grupo de IPES que estruturaram seus PPCs tendo a dupla formação como opção, com uma etapa comum às duas habilitações e compartilhamento parcial de componentes curriculares na etapa específica, concentra-se o maior número de instituições. Trata-se, portanto, do conjunto que apresenta a maior diversidade de arranjos curriculares, adotados com o objetivo de viabilizar a dupla formação em um tempo de integralização considerado adequado, sem infringir a garantia de contemplação dos conteúdos próprios de cada uma das áreas específicas. (Brasil, 2018)
Nesse conjunto, destacam-se experiências como a do IF Goiano, que estende o Núcleo Comum até o quinto período do curso, e a da Unicamp, que amplia a Etapa Comum para além das 1.600 horas referenciais, alcançando 1.830 horas e projetando-a para além dos quatro primeiros semestres, com a incorporação de componentes curriculares também no quinto e no sexto semestres.
Da análise dos conteúdos curriculares compartilhados na etapa específica pelas formações em Licenciatura e Bacharelado, nas diferentes IPES, evidencia-se a fragilidade da divisão imposta à área da Educação Física. Tal insuficiência manifesta-se na dificuldade recorrente de justificar por que determinados conhecimentos seriam pertinentes a uma terminalidade e não à outra.
Os temas vinculados à cultura corporal, por exemplo, que abrangem desde as modalidades esportivas clássicas até manifestações mais recentes, como as Práticas Corporais de Aventura, a Cultura Gímnica e Circense e as Práticas Integrativas e Holísticas, integram, de diferentes modos, as formações específicas tanto da Licenciatura quanto do Bacharelado nos cursos da UFCAT, UNIVASF, FURG, IF Goiano, IFCE, UEMG-Ibirité e UEMG-Passos.
No campo da pesquisa e da produção do conhecimento, com desdobramentos diretos na elaboração do Trabalho de Conclusão de Curso, também se ratifica a impertinência dessa separação. Mostra-se incongruente conceber conhecimentos que não sejam relevantes para ambas as formações em Educação Física. Nesse sentido, diversas IPES optam por compartilhar componentes e saberes relacionados à pesquisa entre Licenciatura e Bacharelado, a exemplo da UFCAT, UNIVASF, IF Goiano, IFCE, UEMG-Divinópolis, UEMG-Ibirité, UEMG-Ituiutaba, UEMG-Passos e UFG.
Situação semelhante ocorre em atividades e eixos previstos nas DCNs da Educação Física, como a atuação profissional com pessoas com deficiência, os estudos integradores, as atividades de extensão e os estágios supervisionados.
No caso específico dos estágios, embora os dispositivos legais indiquem eixos que devem compor os currículos, as IPES buscam articular finalidades comuns às duas formações, tensionando a separação rígida entre Licenciatura e Bacharelado. Exemplos dessa articulação podem ser observados na UFCAT, com o componente Estágio e Docência em Práticas Artístico-Culturais; na UEMG-Ibirité, com ênfase em Programas e Projetos Sociais e Educacionais; na UFPA, ao incorporar o Estágio em Educação Inclusiva; e na UFG, que organiza um estágio específico em Ensino das Práticas Corporais, além de um estágio contínuo ao longo do curso, articulando ensino, pesquisa e extensão.
Por fim, no grupo das IPES que optaram pela dupla formação opcional, com uma etapa comum às duas formações, mas com etapas específicas organizadas de forma independente, identificam-se as experiências da UNESP-Rio Claro, da UECE e da UNICENTRO, nos campi de Guarapuava e Irati. Nesses casos, a ausência de estratégias de integração entre as formações específicas resulta na ampliação significativa do tempo de integralização curricular necessário à obtenção da dupla diplomação.
Mesmo diante das distintas configurações curriculares e das dificuldades enfrentadas pelas IPES para assegurar a dupla formação, independentemente do grau de integração estabelecido entre Licenciatura e Bacharelado, os PPCs analisados evidenciam significativa capacidade de inovação e adaptação às exigências normativas vigentes. Todavia, conforme já sinalizado, a permanente condição de “corda bamba” imposta pelas DCNs da Educação Física voltou a se manifestar de forma explícita em 2025, aproximadamente um ano após a publicação das DCNs para a Formação Inicial em Nível Superior de Profissionais do Magistério da Educação Escolar Básica (Brasil, 2024), anunciando o avizinhamento de um novo cenário de instabilidade regulatória.
As orientações para a implantação desse novo marco normativo (Brasil, 2025) indicam que os PPCs elaborados a partir dessas DCNs (Brasil, 2024) não poderão mais se valer da Área Básica de Ingresso (ABI), o que, na prática, compromete o arranjo estruturante das atuais DCNs da Educação Física e, por conseguinte, a própria viabilidade da dupla formação, ao inviabilizar a oferta de uma única forma de ingresso seguida da escolha posterior por uma formação acadêmica específica após a conclusão da etapa comum. (Brasil, 2025)
À luz desse contexto, torna-se evidente que a implementação das DCNs da Educação Física tem deslocado o debate da necessária qualificação dos processos formativos para a gestão contínua de incertezas normativas. As múltiplas estratégias curriculares construídas pelas IPES, embora revelem esforço técnico e pedagógico, não conseguem amadurecer nem se consolidar diante da exigência permanente de responder a um quadro regulatório instável, contraditório e de curta duração.
Nesse cenário, os chamados “malabarismos” curriculares passam a expressar menos a materialização de um projeto formativo consistente e mais uma estratégia de sobrevivência institucional da formação em Educação Física, diante de DCNs que, em vez de orientar com clareza e previsibilidade, tensionam, fragmentam e fragilizam o campo, produzindo efeitos diretos sobre o sentido, a coerência e a sustentabilidade da dupla formação ou de quaisquer outras configurações que se pretendam generalistas e ampliadas no âmbito da formação superior.
Conclusão
Este estudo evidenciou que a adoção da dupla formação integrada em Educação Física, embora reconhecida como uma alternativa para a consolidação de um projeto formativo generalista e ampliado, enfrenta inúmeros desafios institucionais, regulatórios e curriculares. A análise dos PPCs das IPES revela um cenário marcado por diferentes níveis de integração entre licenciatura e bacharelado, no qual a diversidade de arranjos curriculares reflete tanto a busca por inovação quanto as limitações impostas pelas DCNs.
Destaca-se o protagonismo histórico e atual das IPES que têm experimentado diferentes configurações para operacionalizar a dupla formação, mesmo diante de normativas frequentemente ambíguas, contraditórias ou insuficientes para garantir a viabilidade dessa modalidade formativa. A coexistência de modelos simultâneos e sequenciais de integração, bem como as estratégias institucionais para facilitar a escolha formativa pelo estudante, ilustram os “malabarismos” que caracterizam este período de instabilidade.
Ademais, a pesquisa evidencia que, apesar da forte influência do sistema CONFEF/CREFs e das práticas acadêmico-profissionais associadas à manutenção do bacharelado, as instituições têm buscado alternativas para preservar a perspectiva de uma formação ampliada, articulando conteúdos e atividades que tensionam a divisão rígida entre Licenciatura e Bacharelado, especialmente em temas relacionados à cultura corporal, pesquisa, inclusão e estágios supervisionados.
Entretanto, o contexto regulatório recente, com a publicação das novas DCNs para a formação de professores e as orientações que restringem a oferta da dupla formação simultânea, sinaliza um novo ciclo de incertezas e possíveis retrocessos para essa proposta formativa. Tal cenário impõe às instituições e aos coletivos envolvidos o desafio de articular modelos curriculares e estratégias pedagógicas dentro de uma luta mais ampla pela direção do projeto formativo instituído pelas DCNs, além de enfrentar os responsáveis pela instabilidade normativa que tem dificultado a consolidação de políticas progressistas no campo da formação em Educação Física.
Em suma, os “malabarismos” curriculares observados expressam não apenas a busca pela sobrevivência institucional, mas também a persistência de um projeto de transformação da formação em Educação Física, que precisa ser apoiado por uma política abrangente capaz de assegurar previsibilidade, autonomia e qualidade formativa. O enfrentamento desses desafios será fundamental para que uma formação com perspectiva generalista e ampliada se consolide como uma alternativa legítima na construção de uma Educação Física crítica e comprometida com as reais necessidades dos trabalhadores e sua efetiva inserção no mundo do trabalho.
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