ISSN 1514-3465
Inatividade física no lazer em população indígena
Sateré-Mawé em cidade no interior do Amazonas
Leisure Time Physical Inactivity among the Sateré-Mawé
Indigenous Population in a City in the Interior of Amazonas
Inactividad física durante el tiempo libre en la población indígena
Sateré-Mawé en una ciudad del interior del Amazonas
Marcelo Rocha Radicchi
radicchi@ufam.edu.br
Professor Associado no Curso de Educação Física
na Universidade Federal do Amazonas (UFAM), Campus de Parintins
Doutor em Epidemiologia em Saúde Pública
pela Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (ENSP)
Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ)
Docente no Mestrado Profissional em Educação Física
em Rede Nacional (PROEF)
Líder do Grupo de Estudos em Saúde
e Cultura Corporal de Movimento (GESCCOM - CNPq/Brasil)
Bolsista pela Fundação de Amparo à Pesquisa
do Estado do Amazonas (FAPEAM)
Edital n. 003/2014 - RH-Interiorização - Fluxo contínuo.
Bolsista pela Coordenação de Aperfeiçoamento
de Pessoal de Nível Superior (CAPES)
Edital n. 19/2016 - Programa de Doutorado Sanduíche no Exterior (PDSE)
(Brasil)
Recepción: 16/12/2025 - Aceptación: 23/5/2026
1ª Revisión: 16/05/2026 - 2ª Revisión: 21/05/2026
Documento acessível. Lei N° 26.653. WCAG 2.0
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Este trabalho está sob uma licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional (CC BY-NC-ND 4.0) https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/deed.pt |
Cita sugerida
: Radicchi, M.R. (2026). Inatividade física no lazer em população indígena Sateré-Mawé em cidade no interior do Amazonas. Lecturas: Educación Física y Deportes, 31(338), 49-63. https://doi.org/10.46642/efd.v31i338.8700
Resumo
Introdução: A situação de saúde de populações indígenas que migram para centros urbanos no Brasil é tradicionalmente invisibilizada nos inquéritos e estatísticas oficiais. O presente trabalho teve como objetivo verificar a prevalência da atividade física insuficiente no tempo livre numa população indígena urbana na Amazônia brasileira e as associações com variáveis. Método: População Sateré-Mawé na cidade de Parintins, maior de 18 anos (n=174), teve sua atividade física insuficiente mensurada em minutos por semana. Foram coletadas variáveis sobre domicílio, vínculo sociocultural indígena, situação socioeconômica, comportamental e biológica. Utilizou-se o modelo logístico hierarquizado, calculando-se a razão de chances e intervalo de confiança (95 %). Resultados: Atividade física insuficiente em todos os domínios encontrou-se superior a 60 %, exceto no trabalho (46,6 %). No domínio lazer, associaram-se as variáveis de nível domiciliar, comportamental e biológico. Conclusão: A maioria da população estava insuficientemente ativa no domínio do lazer. Os laços socioculturais indígenas perderam a associação com o resultado no modelo final. São necessários mais estudos para visibilidade da situação de saúde das populações indígenas em áreas urbanas.
Unitermos:
Saúde de populações indígenas. Atividade física. Área urbana. Análise de regressão.
Abstract
Introduction: The health status of indigenous populations who migrate to urban centers in Brazil is traditionally overlooked in official surveys and statistics. The present study aimed to verify the prevalence of insufficient physical activity during leisure time in an urban indigenous population in the Brazilian Amazon and its associations with variables. Method: The Sateré-Mawé population in the city of Parintins, aged over 18 (n=174), had their insufficient physical activity measured in minutes per week. Variables were collected on domicile, indigenous socio-cultural ties, socio-economic status, behavior, and biology. A hierarchical logistic model was used, calculating the odds ratio and confidence interval (95 %). Results: Insufficient physical activity in all domains was found to be greater than 60 %, except at work (46.6 %). In the leisure domain, household, behavioral, and biological variables were associated. Conclusion: The majority of the population was insufficiently active in the leisure domain. Indigenous sociocultural ties lost their association with the result in the final model. Studies are needed to highlight the health situation of indigenous populations in urban areas.
Keywords:
Health of indigenous peoples. Physical activity. Urban area. Regression analysis.
Resumen
Introducción: El estado de salud de las poblaciones indígenas que migran a centros urbanos en Brasil suele pasarse por alto en las encuestas y estadísticas oficiales. Este estudio tuvo como objetivo verificar la prevalencia de la actividad física insuficiente durante el tiempo libre en una población indígena urbana de la Amazonía brasileña y su asociación con diversas variables. Método: Se midió la actividad física insuficiente en minutos por semana en la población Sateré-Mawé de la ciudad de Parintins, mayor de 18 años (n=174). Se recopilaron variables sobre domicilio, vínculos socioculturales indígenas, estatus socioeconómico, conductual y biológico. Se utilizó un modelo logístico jerárquico, calculando la razón de probabilidades y el intervalo de confianza (95 %). Resultados: La actividad física insuficiente en todos los ámbitos fue superior al 60 %, excepto en el trabajo (46,6 %). En el ámbito del ocio, se observaron asociaciones con variables a nivel doméstico, conductual y biológico. Conclusión: La mayoría de la población presentó actividad física insuficiente durante el tiempo libre. Los vínculos socioculturales indígenas perdieron su asociación con el resultado en el modelo final. Se necesitan más estudios para comprender mejor la situación de salud de las poblaciones indígenas en zonas urbanas.
Palabras clave
: Salud de la población indígena. Actividad física. Zona urbana. Análisis de regresión.
Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 31, Núm. 338, Jul. (2026)
Introdução
O Brasil é o país da América Latina com a maior diversidade étnica em termos de populações indígenas (Del Popolo et al., 2014). Resultados preliminares do Censo Demográfico realizado em 2022 mostraram atualmente 1.693.535 indígenas, correspondendo a 0,83 % da população nacional. (IBGE, 2023)
O acesso público a informações oficiais sobre o estado de saúde das populações indígenas no Brasil ainda é restrito (Reis et al., 2022), favorecendo a “invisibilidade estatística” destas populações (Pagliaro et al., 2005), apesar de terem sido realizadas pesquisas importantes neste sentido (Coimbra Jr et al., 2013; Horta et al., 2013; Simoni et al., 2024). Dados do Censo no Brasil mostraram em 2010 que 36,2 % da população indígena vivia em áreas urbanas (IBGE, 2012). Essa população está exposta a uma maior desigualdade em termos de mortalidade infantil e da população adolescente quando comparada aos seus pares não indígenas em áreas urbanas, independentemente do sexo, idade e região brasileira de residência analisada. (Santos et al., 2020)
A atividade física em nível populacional pode ser medida através da realização de inquéritos com perguntas simples que classificam os indivíduos de acordo com os minutos por semana gastos em atividade física moderada e/ou vigorosa, considerando quatro domínios: lazer, deslocamentos, tarefas domésticas e trabalho (Hallal et al., 2010). Sabe-se que um estilo de vida inativo fisicamente, ou seja, que não cumpre a recomendação mínima semanal de atividade física (WHO, 2020) está associado ao aparecimento de várias doenças crônicas não transmissíveis e à mortalidade prematura. (Ekelund et al., 2019; Xu et al., 2022; Melo et al., 2024)
Alguns estudos têm demonstrado efeitos variados sobre a situação de saúde de contingentes populacionais indígenas quando migram para centros urbanos (Antiporta et al., 2016; Tobias et al., 2023; Mendoza-Caamal et al., 2020). Variáveis como capacidade linguística, idade na migração e tempo de residência na cidade (Antiporta et al., 2016; Chee et al., 2019; Olko et al., 2023) são exemplos de variáveis socioculturais que têm sido estudadas em termos dos seus efeitos sobre o estado de saúde dessas populações. O objetivo deste estudo foi verificar a prevalência de atividade física insuficiente no tempo livre em uma população indígena adulta Sateré-Mawé residente na cidade de Parintins, Amazonas, verificando associações com variáveis em diferentes níveis hierárquicos.
Métodos
A etnia indígena Sateré-Mawé pertence à área cultural dos rios Tapajós-Madeira, localizada na região amazônica brasileira, e faz parte do tronco linguístico Tupi. Dados do Censo de 2010 indicaram que 11.880 Sateré-Mawé viviam no estado do Amazonas (IBGE, 2012), com 1.430 vivendo em áreas urbanas. No município de Parintins (Amazonas), dados do Censo Nacional de 2010, obtidos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), indicaram uma população urbana total de 198 Sateré-Mawé com mais de 18 anos de idade.
Em 2017, foi realizada uma pesquisa domiciliar na área urbana da cidade de Parintins. Os participantes foram os indígenas autodeclarados Sateré-Mawé, com mais de 18 anos de idade. Para alcançar a população estimada pelo Censo, foram contatados informantes-chave Sateré-Mawé na cidade e, em seguida, após a realização de cada entrevista domiciliar, era solicitado do entrevistado a indicação e localização de outras famílias Sateré-Mawé. A pesquisa obteve aprovação no Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos, sob o CAAE nº 57016916.0.0000.5240 e todos os participantes assentiram ao Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).
Foram classificados como em “atividade física insuficiente”, aqueles indivíduos que não cumpriram a recomendação de atividade física para a saúde, ou seja, um mínimo de 150 minutos de atividade física aeróbica de intensidade moderada na semana (ou pelo menos 75 minutos de intensidade vigorosa), ou uma combinação de ambas (WHO, 2020). A atividade física foi medida por auto relato com base numa entrevista com o indivíduo, que relatava a atividade física moderada e vigorosa diária, em minutos por semana, considerando a frequência (dias) e a quantidade (minutos) numa semana normal. Optou-se por adaptar os instrumentos utilizados na Pesquisa Nacional de Saúde do Brasil (IBGE, 2020), considerando os domínios de lazer, trabalho, deslocamento e domicílio, em uma semana normal.
Todas as pessoas com mais de 18 anos que se declararam Sateré-Mawé foram entrevistadas em cada família. As informações foram coletadas por meio de um questionário em nível familiar direcionado ao(à) chefe do domicílio: recebimento de auxílio financeiro e em nível individual: capacidade de falar a língua Sateré-Mawé; proporção de anos vividos em terras indígenas (relação entre os anos vividos em terras indígenas e a idade do participante); renda mensal individual (valor informado em Reais [R$], foi classificado de acordo com tercis de renda da população entrevistada); escolaridade, a saber: “Ensino fundamental ou sem instrução” (ensino fundamental completo/incompleto ou frequentando educação de jovens e adultos); “Ensino médio” (ensino médio completo/incompleto ou frequentando educação de jovens e adultos) e “Superior ou posterior ao ensino médio” (cursos técnicos sequenciais, pré-vestibulares, ensino superior e pós- graduação); estado civil; horas assistindo televisão na semana (ponto de corte considerado de 3 horas por dia), sexo e faixas etárias (18 a 29, 30 a 59 ou 60 ou mais anos de idade).
Foram coletadas no estudo, informações sobre os laços socioculturais de pertença à etnia Sateré-Mawé por meio de variáveis relacionadas à habilidade linguística (capacidade de falar a língua Sateré-Mawé), bem como ao tempo de residência na terra indígena Andirá-Marau (proporção de anos vividos na terra indígena), dada a importância sociocultural para a etnia, além do fato dela estar localizada próxima à área urbana da cidade de Parintins (menos de 90 km por via fluvial). Essas variáveis já foram consideradas em estudos de populações tradicionais, indígenas e migrantes. (Antiporta et al., 2016; Chee et al., 2019; Rumbaut, 2015)
Os dados coletados foram transcritos usando o editor de planilhas Excel 2013 (Microsoft) e analisados usando o software estatístico R de acesso livre, versão 3.2.4 (R Foundation, 2016). A estatística descritiva mostrou as frequências e a distribuição das variáveis independentes. O modelo final foi proposto por meio de análise hierarquizada (Victora et al., 1997) via regressão logística, considerando a presença de atividade física insuficiente como desfecho domínio do lazer, com as variáveis que apresentaram valor de p≤ 0,05 em qualquer uma das etapas da análise sendo mantidas e testadas na próxima etapa. O modelo final foi testado utilizando a estatística de adequação de Hosmer-Lemeshow (α=0,05) e foram calculadas as razões de chance (odds ratios, OR) ajustadas para cada categoria da variável independente, com os seus respetivos intervalos de confiança de 95 % (IC 95 %).
A análise da relação entre as variáveis independentes e o desfecho foi baseada na análise hierarquizada e no conceito de determinantes sociais da saúde. As variáveis significativas (α=0,05) foram inseridas progressivamente, das camadas mais distais às mais proximais, até chegar-se ao modelo final. Para construir o modelo teórico, foram consideradas as variáveis associadas à atividade física insuficiente no lazer na população brasileira (Brasil, 2020; Streb et al., 2019), bem como as informações coletadas por alguns estudos que mediram o efeito da aculturação no estado de saúde das populações indígenas. (Bernabe-Ortiz et al., 2010)
Resultados
Um total de 212 participantes elegíveis foram contatados, dos quais 174 concordaram em participar da pesquisa. As 38 perdas foram registradas pelos seguintes motivos: a) chefe da família recusou-se a participar (14 casos), b) recusas individuais (11 casos) e c) indivíduos ausentes após três tentativas de contato (13 casos).
Na Tabela 1, no que diz respeito ao resultado da atividade física insuficiente, pode-se observar que apenas no domínio do trabalho uma maior proporção da população inquirida estava fisicamente ativa (53,4 %), embora neste resultado específico apenas tenham sido considerados os inquiridos que referiram trabalhar fora de casa (n=73). Em todos os outros domínios de atividade física mensurados houve um percentual mais elevado de classificados como insuficientemente ativos, a saber: 66,1 % no tempo de lazer, 64,4 % no domínio de deslocamento e 60,3 % nas tarefas domésticas.
Tabela 1. Frequência das variáveis dependentes e independentes
(conforme nível hierárquico) na população Sateré-Mawé pesquisada (n=174)
|
Nível hierárquicoa |
Variável |
Categoria |
Sexo |
Total |
||||
|
Masculino |
Feminino |
|||||||
|
n |
% |
n |
% |
n |
% |
|||
|
Variável dependente |
Atividade física no lazerc |
Ativo |
38 |
44,2 |
21 |
23,9 |
59 |
33,9 |
|
Insuficiente |
48 |
55,8 |
67 |
76,1 |
115 |
66,1 |
||
|
Atividade física no domicílio |
Ativo |
14 |
16,3 |
55 |
62,5 |
69 |
39,7 |
|
|
Insuficiente |
72 |
83,7 |
33 |
37,5 |
105 |
60,3 |
||
|
Atividade física no deslocamento |
Ativo |
32 |
37,2 |
30 |
34,1 |
62 |
35,6 |
|
|
Insuficiente |
54 |
62,8 |
58 |
65,9 |
112 |
64,4 |
||
|
Atividade física no trabalhob |
Ativo |
27 |
54,0 |
12 |
52,2 |
39 |
53,4 |
|
|
Insuficiente |
23 |
46,0 |
11 |
47,8 |
34 |
46,6 |
||
|
1. Domiciliar (Distal) |
Bolsa família no domicílio |
Sim |
4 |
4,7 |
34 |
38,6 |
38 |
21,8 |
|
Não |
82 |
95,3 |
54 |
61,4 |
136 |
78,2 |
||
|
2. Vínculo sociocultural indígena |
Falar Sateré-Mawé |
Sim |
74 |
86,0 |
66 |
75,0 |
140 |
80,5 |
|
Não |
12 |
14,0 |
22 |
25,0 |
34 |
19,5 |
||
|
Anos vividos em terra indígena |
< 1/4 |
26 |
30,2 |
27 |
30,7 |
53 |
30,5 |
|
|
1/4 a 1/2 |
26 |
30,2 |
25 |
28,4 |
51 |
29,3 |
||
|
1/2 a 3/4 |
15 |
17,4 |
19 |
21,6 |
34 |
19,5 |
||
|
≥ 3/4 |
19 |
22,1 |
17 |
19,3 |
36 |
20,7 |
||
|
3. Socioeconômico |
Renda individual mensal |
Baixa |
27 |
31,4 |
28 |
31,8 |
55 |
31,6 |
|
Média |
28 |
32,6 |
30 |
34,1 |
58 |
33,3 |
||
|
Alta |
31 |
36,0 |
30 |
34,1 |
61 |
35,1 |
||
|
Escolaridade |
Fundamental / sem instrução |
20 |
23,3 |
28 |
31,8 |
48 |
27,6 |
|
|
Ensino médio |
27 |
31,4 |
33 |
37,5 |
60 |
34,5 |
||
|
Superior / posterior ao ensino médio |
39 |
45,3 |
27 |
30,7 |
66 |
37,9 |
||
|
Estado civil |
Casado / mora junto |
56 |
65,1 |
50 |
56,8 |
106 |
60,9 |
|
|
Não casado / não mora junto |
30 |
34,9 |
38 |
43,2 |
68 |
39,1 |
||
|
4. Comportamental |
Horas de TV na semana |
< 3h/dia |
66 |
76,7 |
62 |
70,5 |
128 |
73,6 |
|
≥ 3h/dia |
20 |
23,3 |
26 |
29,5 |
46 |
26,4 |
||
|
5. Biológico (Proximal) |
Idade |
18 a 29 anos |
40 |
46,5 |
44 |
50,0 |
84 |
48,3 |
|
30 a 59 anos |
36 |
41,9 |
30 |
34,1 |
66 |
37,9 |
||
|
60+ anos |
10 |
11,6 |
14 |
15,9 |
24 |
13,8 |
||
|
Total |
86 |
100,0 |
88 |
100,0 |
174 |
100,0 |
||
Notas: aRefere-se ao nível considerando a análise pelo modelo de regressão hierarquizada.
bTotal de pessoas neste desfecho (n=73) que responderam trabalhar fora do domicílio.
c. Trata-se do desfecho considerado na análise hierarquizada. Fonte: Dados de pesquisa
A maioria da população inquirida era jovem, com quase metade (48,3 %) com idades entre os 18 e os 29 anos, equilibrada em termos de sexo (50,6 % do sexo feminino), sendo a maior proporção de inquiridos casados ou declararam morar junto de um(a) companheiro(a) (60,9 %). Observa-se maior parcela da população com habilidade na língua indígena Sateré-Mawé (80,5 %) e maior proporção (78,2 %) vivendo em famílias onde ninguém recebia o benefício social do governo brasileiro (Bolsa Família).
A Tabela 2 mostra o modelo logístico hierarquizado final ajustado para a atividade física insuficiente durante o tempo de lazer. O fato de nenhuma pessoa na família receber o benefício social do governo teve um efeito inicial protetor que permaneceu significativo (α=0,05) em todos os níveis hierárquicos testados (5 ao total). As pessoas que falavam Sateré-Mawé também tiveram um efeito protetor no segundo nível hierárquico (vínculo sociocultural indígena), perdendo significância quando as variáveis de nível socioeconómico foram adicionadas (terceiro nível), porém, recuperando significância quando a variável horas semanais de televisão foi adicionada (quarto nível hierárquico: comportamental), mas a variável não manteve significância no modelo final (p-valor>0,05), considerando o quinto nível hierárquico (biológico). Níveis mais elevados de escolaridade também tiveram efeito protetor para a atividade física insuficiente no tempo livre, mas não mantiveram significância no modelo final (5º modelo).
Tabela 2. Modelo hierarquizado final para atividade física insuficiente no lazer,
com razão de chance (OR) e intervalos de confiança de 95 % (IC 95 %) (n=174)
|
Nível hierárquico |
Variável |
Categoria |
Modelo 1 |
Modelo 2 |
Modelo 3 |
Modelo 4 |
Modelo 5a |
|||||
|
Lazer |
Lazer |
Lazer |
Lazer |
Lazer |
||||||||
|
O.R. |
I.C. 95 % |
O.R. |
I.C. 95 % |
O.R. |
I.C. 95 % |
O.R. |
I.C. 95 % |
O.R. |
I.C. 95 % |
|||
|
1. Domiciliar |
Bolsa família no domicílio |
Sim |
- |
- |
- |
- |
- |
|||||
|
Não |
0,29* |
(0,11 - 0,75) |
0,25* |
(0,1 - 0,67) |
0,21* |
(0,08 - 0,59) |
0,19* |
(0,07 - 0,53) |
0,25* |
(0,08 - 0,77) |
||
|
2. Vínculo sociocultural indígena |
Falar Sateré-Mawé |
Sim |
- |
- |
- |
- |
||||||
|
Não |
0,36* |
(0,16 - 0,8) |
0,45 |
(0,19 - 1,04) |
0,42* |
(0,18 - 0,99) |
0,66 |
(0,25 - 1,73) |
||||
|
3. Socio-econômico |
Escolaridade |
Fundamental / sem instrução |
- |
- |
- |
|||||||
|
Ensino médio |
0,17* |
(0,06 - 0,47) |
0,15* |
(0,05 - 0,43) |
0,63 |
(0,18 - 2,24) |
||||||
|
Pós ensino médio / superior |
0,23* |
(0,09 - 0,64) |
0,2* |
(0,07 - 0,56) |
0,83 |
(0,24 - 2,87) |
||||||
|
4. Comporta-mental |
Horas de TV na semana |
Menos de 3h/dia |
- |
- |
||||||||
|
3h ou mais |
0,42* |
(0,19 - 0,94) |
0,38* |
(0,16 - 0,93) |
||||||||
|
5. Biológico (proximal) |
Sexo |
Masculino |
- |
|||||||||
|
Feminino |
2,45* |
(1,04 - 5,8) |
||||||||||
|
Idade |
18 a 29 anos |
- |
||||||||||
|
30 a 59 anos |
4,41* |
(1,85 - 10,4) |
||||||||||
|
60+ anos |
b |
|||||||||||
Notas: a. Este é o modelo hierárquico final, por meio de regressão logística,
para atividade física insuficiente no lazer, ajustado pela estatística de Hosmer-Lemeshow.
b. Não houve nenhuma pessoa classificada como ativa fisicamente no lazer nesta categoria.
*p-valor≤0,05. Fonte: Dados de pesquisa
A variável do 4º nível hierárquico (comportamental) manteve-se significativa no modelo final, com um efeito protetor, a variável relacionada às pessoas que assistiam 3 horas ou mais de televisão por semana (OR=0,38; IC 95 %=0,16-0,93). Ambas as variáveis do nível biológico (5º nível) foram significativas, a saber: ser do sexo feminino, com um efeito positivo na presença do desfecho (OR=2,45; IC 95 %=1,04-5,8) e a faixa etária de 30 a 59 anos, em comparação com a faixa etária de 18 a 29 anos, também com efeito positivo (OR=4,41; IC 95 %=1,85-10,4).
Discussão
A população Sateré-Mawé pesquisada apresentou uma porcentagem ligeiramente maior (33,9 %) de atividade física adequada durante o tempo de lazer do que o observada para a população brasileira (30,1 %) em 2019 (IBGE, 2020) (considerando a limitação dessa comparação não padronizada por idade). Quando estratificado por sexo, observou-se uma maior prevalência de atividade física durante o tempo livre para os homens (44,2 %) na população Sateré-Mawé, em comparação com o observado em inquérito nacional em 2019 (34,2 %). Entretanto, foi observado que as mulheres da população Sateré-Mawé (23,9 %) apresentaram prevalência mais baixa na atividade física de lazer, quando comparadas à prevalência observada nas mulheres em geral no Brasil (26,4 %), para o ano de 2019. A população Sateré-Mawé estudada apresentou comportamento semelhante ao observado para a população brasileira (IBGE, 2020; Brasil, 2020; Mielke et al., 2015b; Tavares et al., 2022), com maiores prevalências de atividade física insuficiente durante o tempo livre para mulheres.
Os entrevistados que viviam em famílias que não recebiam o benefício social (bolsa-família) tinham menor chance (OR=0,25) de serem insuficientemente ativos no lazer. Acredita-se que, para a população estudada, residir em domicílios onde nenhum morador recebia benefícios sociais (bolsa-família), poderia ser um indicador de uma melhor situação socioeconômica. Dados de uma pesquisa nacional realizada em 2016 e 2017 com mulheres adultas que recebiam o mesmo benefício social (Bolsa Família) encontraram um resultado semelhante (Malta et al., 2020), com uma associação entre o recebimento do benefício e menor prevalência de atividade física durante o tempo de lazer. Vários estudos já mediram a associação positiva entre o status socioeconômico mais elevado e a prática de atividades físicas durante o tempo livre em populações não-indígenas urbanas (Streb et al., 2019; Ide et al., 2020; Jaeschke et al., 2017), e a mesma situação parece ocorrer com a população Sateré-Mawé pesquisada.
É importante notar que, na análise realizada, as variáveis testadas nos níveis intermediários, a saber: laços socioculturais indígenas (falar a língua Sateré-Mawé) e escolaridade “superior ou posterior ao ensino médio” (no 3º nível hierárquico, socioeconômico) permaneceram protetoras para a presença de atividade física insuficiente no tempo livre até o 5º nível hierárquico (modelo 5), mais proximal, com a entrada das variáveis no nível biológico sexo e idade. Alguns estudos investigaram o efeito da aculturação (Rumbaut, 2015) nos níveis de atividade física. A aculturação pode ser entendida como um processo complexo de difusão cultural entre dois (ou mais) grupos sociais em contato, no sentido de produzir uma semelhança linguística e cultural crescente entre os grupos (Rumbaut, 2015). Na população estudada, o problema já mencionado em pesquisas anteriores (Rio, e Saligan, 2023), da possível barreira linguística estar associada à inatividade física, não ocorreu, dado que todos os entrevistados falavam português, além da habilidade na língua Sateré-Mawé (80,5 % dos entrevistados tinham algum conhecimento da língua).
As pessoas que assistiam 3 horas ou mais de televisão durante a semana apresentavam um efeito protetor (OR=0,38) para a presença da atividade insuficiente no lazer. Esse achado contradiz observações de outros estudos, nos quais o hábito de assistir televisão contribuía para a redução do tempo de lazer ativo na população (Mielke et al., 2015a; Oliveira et al., 2023). Evidências empíricas no momento das entrevistas domiciliares sugerem que a televisão pode não ser uma boa variável para acessar o comportamento sedentário, dado que se trata de uma população jovem (48,3 % na faixa etária de 18 a 29 anos), onde sugere-se que a coleta da variável sobre tempo de tela (ou seja, considerando além da televisão, uso de celulares e tablets), poderia coletar melhor essa informação, fato que já foi relatado no contexto brasileiro não-indígena. (Mielke et al., 2015a)
Variáveis já conhecidas por estarem associadas à atividade física insuficiente no lazer na população brasileira (IBGE, 2020; Ide et al., 2020; Mielke et al., 2015a) também foram observadas na população Sateré-Mawé estudada, tal como ser do sexo feminino (OR=2,45) e faixa etária mais avançada, no caso da faixa etária de 30 a 59 anos, onde foi possível observar quase 4,5 vezes a chance (OR=4,41) de ser insuficientemente ativo no lazer em comparação com a categoria mais jovem (18 a 29 anos de idade).
Conclusão
Mais da metade da população adulta Sateré-Mawé que vive na cidade de Parintins (localizada no estado brasileiro do Amazonas) foi classificada como insuficientemente ativa nos domínios do lazer, deslocamento e tarefas domésticas (60 % ou mais da população), com exceção da atividade física no trabalho, com pouco menos da metade dos entrevistados (46,6 %) sendo insuficientemente ativos nesse domínio. Foram encontradas diferenças no nível de atividade física no lazer entre os sexos, consistentes com o que tem sido observado em pesquisas com a população não indígena, com maior prevalência de atividade física insuficiente no lazer entre as mulheres.
Para o domínio do lazer, as variáveis associadas à atividade física insuficiente foram semelhantes às observadas na população não indígena (status socioeconômico mais baixo, ser do sexo feminino e ter idade mais avançada). Embora a variável de habilidade na língua indígena, ligada ao vínculo sociocultural indígena mensurado, tenha tido um efeito protetor nas análises iniciais, não permaneceu significativa após a adição das variáveis mais proximais no nível biológico (sexo e idade), o que indica a possibilidade de existir algum efeito do vínculo sociocultural indígena, mas que não foi capturado pelas variáveis propostas no presente estudo.
Considera-se que os aspetos socioculturais, mais especificamente, a etnia (referindo-se aos povos indígenas no Brasil), devem ser levados em consideração em estudos das condições de saúde com essas populações, especialmente quando a pesquisa está interessada em verificar fenômenos relacionados a hábitos e comportamentos que implicam na saúde, tais como o nível de atividade física, consumo alimentar e outros.
Deve-se enfatizar a dificuldade de contatar e de identificar a população indígena que vive em áreas urbanas em um país miscigenado e heterogêneo como o Brasil, onde menos de 1 % da população se declara indígena. Essa dificuldade foi resolvida seguindo uma metodologia já utilizada em outras pesquisas sociodemográficas (por meio da amostragem em bola de neve), que, entretanto, pode ser difícil de se realizar em grandes cidades onde as redes de contato entre os diferentes grupos de uma determinada população indígena, podem ser mais difíceis e descontinuados, sem comunicação entre si.
Parintins é um centro urbano de relevância socioeconômica regional, com uma população urbana de aproximadamente 60.000 pessoas, caracterizada como uma cidade pequena para os padrões brasileiros. Esses fatores facilitaram a coleta de dados, além da grande presença dos Sateré-Mawé na cidade, dada a sua proximidade com a terra indígena Andirá-Marau (terra tradicional dos Sateré-Mawé) e os laços culturais, socioeconómicos e políticos historicamente construídos com a etnia. Cabe ressaltar também que a cidade de Parintins abriga o escritório de importante organização política dos Sateré-Mawé (Consórcio dos Produtores Sateré-Mawé), além de ser sede do escritório regional do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI/Ministério da Saúde) responsável pela saúde da população Sateré-Mawé (e outras etnias).
Este estudo faz parte de um esforço para dar visibilidade às condições de saúde de uma população indígena residente em área urbana no Brasil. Dada a pequena parcela da população indígena no total populacional do Brasil, os grandes inquéritos nacionais não geram informações estratificadas com precisão para essas populações, tratando-se de uma limitação estatística esperada. Pesquisas que dão visibilidade às condições de saúde das populações indígenas no Brasil são extremamente importantes, não apenas como base para a formulação de políticas públicas culturalmente adequadas, mas também como forma de resistência às tentativas políticas mais antigas (recentemente renovadas entre 2018 e 2022 pelo governo brasileiro) na história do Brasil de assimilar as populações indígenas, sob o argumento de que a identidade indígena se perde quando elas se mudam para as cidades e centros urbanos.
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