ISSN 1514-3465
Redes sociais, futebol universitário e psicologia do
esporte: implicações para o desenvolvimento humano
Social Media, University Soccer, and Sports Psychology: Implications for Human Development
Redes sociales, fútbol universitario y psicología del deporte: implicaciones para el desarrollo humano
Fernando de Lima Fabris
*fernando.fabris@unesp.br
Adriane Beatriz de Souza Serapião
**adriane.serapiao@unesp.br
*Doutorado e Mestrado em Desenvolvimento Humano e Tecnologias
pela Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (UNESP)
Licenciado e Bacharel em Educação Física (UNESP)
Especialização em Psicopedagogia e, Gestão e Administração Escolar
Membro do Laboratório de Estudos e Pesquisas
em Psicologia do Esporte (LEPESPE)
**Graduada em Engenharia Elétrica
pela Universidade Federal de Goiás (UFG)
Mestrado em Engenharia Elétrica
Doutorado em Ciências Biológicas (Fisiologia)
pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP)
Professora titular (MS-6) da UNESP
Departamento de Estatística, Matemática Aplicada e Computação (DEMAC)
do Instituto de Geociências e Ciências Exatas (IGCE)
Docente do Programa de Pós-Graduação
em Desenvolvimento Humano e Tecnologias (PPG-DEHUTE)
do Instituto de Biociências (IB)
Entre 2022 e 2023 esteve em estágio de pós-doutorado
na University of New South Wales, em Sydney, Australia
(Brasil)
Recepción: 14/11/2025 - Aceptación: 15/12/2025
1ª Revisión: 24/11/2025 - 2ª Revisión: 11/12/2025
Documento acessível. Lei N° 26.653. WCAG 2.0
|
|
Este trabalho está sob uma licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional (CC BY-NC-ND 4.0) https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/deed.pt |
Cita sugerida
: Fernando de Lima Fabris, F. de L., e Serapião, A.B. de S. (2026). Redes sociais, futebol universitário e psicologia do esporte: implicações para o desenvolvimento humano. Lecturas: Educación Física y Deportes, 30(333), 47-68. https://doi.org/10.46642/efd.v30i333.8657
Resumo
Atletas universitários de futebol navegam em uma complexa intersecção de ecossistemas: o acadêmico, o esportivo e o digital. Este estudo investiga como eles utilizam as redes sociais digitais neste contexto. O trabalho tem como objetivo principal de compreender as finalidades de uso e os impactos psicossociais resultantes dessa interação. Adotou-se uma abordagem de métodos mistos com delineamento sequencial exploratório, quali-quanti. A fase qualitativa utilizou entrevistas semiestruturadas com atletas, tratadas pela Análise de Conteúdo, enquanto a fase quantitativa aplicou um questionário (QRSD) a 23 participantes, cujos dados foram submetidos à Análise de Cluster. Os resultados revelam a emergência de dois perfis distintos de navegação no ambiente digital: o Criador Engajado, que utiliza as plataformas de forma estratégica para visibilidade e desenvolvimento, e o Consumidor Reflexivo, que adota uma postura de consumo cauteloso e de autoproteção. A discussão, ancorada na Teoria Bioecológica do Desenvolvimento Humano de Bronfenbrenner e em fundamentos da Psicologia do Esporte, interpreta esses perfis como estratégias adaptativas para gerenciar as tensões entre os múltiplos sistemas de influência na vida do atleta. Conclui-se que o uso das redes sociais é um fenômeno heterogêneo e que há uma necessidade premente de programas de letramento digital personalizados, que fortaleçam a resiliência e ofereçam suporte direcionado a cada perfil, maximizando o potencial de desenvolvimento e minimizando a vulnerabilidade psicossocial no ciberespaço.
Unitermos:
Ciberespaço. Impactos psicológicos. Esporte. Resiliência. Atleta universitário.
Abstract
University soccer players navigate a complex intersection of ecosystems: the academic, the athletic, and the digital. This study investigates how they utilize digital social media within this context. The primary objective of this work is to understand the purposes of usage and the resulting psychosocial impacts of this interaction. A mixed-methods approach was adopted, utilizing an exploratory sequential design (qual-quan). The qualitative phase employed semi-structured interviews with athletes, analyzed via Content Analysis, while the quantitative phase applied a questionnaire (QRSD) to 23 participants, with data subjected to Cluster Analysis. The results reveal the emergence of two distinct navigation profiles in the digital environment: the Engaged Creator, who uses platforms strategically for visibility and development, and the Reflective Consumer, who adopts a stance of cautious consumption and self-protection. The discussion, anchored in Bronfenbrenner's Bioecological Theory of Human Development and the foundations of Sport Psychology, interprets these profiles as adaptive strategies to manage tensions between the multiple systems of influence in the athlete's life. It is concluded that social media use is a heterogeneous phenomenon and that there is a pressing need for personalized digital literacy programs. These programs should strengthen resilience and offer targeted support to each profile, maximizing developmental potential and minimizing psychosocial vulnerability in cyberspace.
Keywords
: Cyberspace. Psychological impacts. Sport. Resilience. University athlete.
Resumen
Los futbolistas universitarios navegan en una compleja intersección de ecosistemas: el académico, el deportivo y el digital. Este estudio investiga cómo utilizan las redes sociales digitales en este contexto. El objetivo principal de este trabajo es comprender los propósitos de uso y los impactos psicosociales resultantes de esta interacción. Se adoptó un enfoque de métodos mixtos con un diseño exploratorio secuencial, cualitativo-cuantitativo. La fase cualitativa utilizó entrevistas semiestructuradas con atletas, analizadas mediante análisis de contenido, mientras que la fase cuantitativa aplicó un cuestionario (QRSD) a 23 participantes, cuyos datos se sometieron a análisis de conglomerados. Los resultados revelan la aparición de dos perfiles distintos de navegación en el entorno digital: el Creador Comprometido, que utiliza las plataformas estratégicamente para su visibilidad y desarrollo, y el Consumidor Reflexivo, que adopta una postura de consumo cautelosa y autoprotectora. La discusión, basada en la Teoría Bioecológica del Desarrollo Humano de Bronfenbrenner y en los fundamentos de la Psicología del Deporte, interpreta estos perfiles como estrategias adaptativas para gestionar las tensiones entre los múltiples sistemas de influencia en la vida del atleta. Se concluye que el uso de las redes sociales es un fenómeno heterogéneo y que existe una necesidad apremiante de programas de alfabetización digital personalizados que fortalezcan la resiliencia y ofrezcan apoyo específico a cada perfil, maximizando el potencial de desarrollo y minimizando la vulnerabilidad psicosocial en el ciberespacio.
Palabras clave
: Ciberespacio. Impactos psicológicos. Deporte. Resiliencia. Deportista universitario.
Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 30, Núm. 333, Feb. (2026)
Introdução
A universidade, atualmente, transcende seu papel tradicional de formação profissional e produção de conhecimento. Imersa em uma sociedade digitalmente conectada, ela se consolida como um ecossistema complexo que modula o desenvolvimento humano de seus membros em múltiplas frentes (Horton, 2021). Este ambiente não apenas prepara os indivíduos para futuras profissões, mas também atua como um espaço de socialização, crítica e construção de identidade, sendo um palco central para as transições da juventude para a vida adulta.
Nessa perspectiva, a Teoria Bioecológica do Desenvolvimento Humano de Urie Bronfenbrenner (Bronfenbrenner, 2002) oferece uma base teórica poderosa para compreender este cenário. A universidade funciona como um Exossistema crucial na vida do jovem, uma estrutura que não o envolve diretamente em todas as suas facetas, mas cujas políticas, cultura e oportunidades, ou a falta delas, afetam seu desenvolvimento (Bronfenbrenner, 2002). Dentro deste sistema maior, as associações atléticas emergem como Microssistemas de grande relevância. Ambientes de interação proximais, onde os atletas desenvolvem não apenas habilidades motoras em competições, mas também relações diretas, disciplina e um senso de pertencimento que são fundamentais para seu crescimento pessoal.
Em paralelo com todo esse contexto, as redes sociais digitais consolidaram-se como outro Microssistema dominante, um ciberespaço que permeia a rotina e medeia as relações humanas de forma cada vez mais profunda. Para o atleta universitário, estas plataformas digitais não são apenas um canal de entretenimento, elas representam uma extensão de sua identidade esportiva, uma área para construção de marca pessoal e um espaço de intensa exposição e avaliação social. A interação neste ambiente virtual gera impactos diretos e indiretos no modo de pensar, agir e sentir, influenciando desde a autoconfiança antes de uma competição até a gestão da saúde mental em resposta ao feedback online. (Gissel, 2021)
Diante da intersecção desses ecossistemas, o universitário, o esportivo e o digital, emerge uma lacuna no conhecimento, embora a influência das redes sociais sobre atletas seja amplamente discutida, pouco se sabe sobre as variações dessa interação no contexto específico do atleta universitário de futebol no Brasil, que equilibra as demandas acadêmicas, esportivas e de uma vida social crescentemente midiatizada.
O trabalho adotou um delineamento de métodos mistos, de caráter quali-quantitativo, visando uma compreensão aprofundada do fenômeno. A fase qualitativa consistiu em entrevistas semiestruturadas, analisadas por meio da Análise de Conteúdo de Bardin (2018), enquanto a fase quantitativa utilizou questionários, cujos dados foram submetidos à análise descritiva (Thomas et al., 2012) e de Cluster (Frank et al., 2016). Os resultados confluíram para a identificação de dois perfis predominantes de uso, o Criador Engajado e o Consumidor Reflexivo, demonstrando que as percepções e experiências no ambiente digital estão intrinsecamente ligadas aos interesses e à forma como cada atleta se posiciona nesse espaço.
Concluiu-se, a partir dos achados, pela iminente necessidade de intervenções de preparação para o uso adequado do ciberespaço, uma vez que os atletas desenvolvem, muitas vezes de forma autônoma, mecanismos para lidar com os estressores emocionais resultantes dessa interação. Apesar das limitações do estudo, notadamente quanto à generalização dos resultados, esta pesquisa contribui para o entendimento do fenômeno ao mapear perfis de uso e suas implicações, oferecendo subsídios para o desenvolvimento de estratégias de apoio mais eficazes por parte de treinadores, instituições e profissionais da psicologia do esporte.
Desta forma, a presente pesquisa teve como objetivo central investigar as finalidades e os padrões de uso das redes sociais digitais por atletas universitários da modalidade de futebol, buscando compreender os impactos dessa interação em suas dimensões esportiva e psicológica.
Metodologia
Este estudo, de abordagem com métodos mistos de desenho sequencial exploratório (Creswell, e Clark, 2017), foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (UNESP), sob o parecer nº 5.881.939, seguindo as normas da Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde (CNS).
A pesquisa foi conduzida em duas fases sequenciais. A primeira fase, de natureza qualitativa e exploratória, consistiu em um grupo focal com atletas da categoria universitária que disputaram o Campeonato Paulista Universitário (FUPE). Os dados coletados nesta etapa, analisados por meio da Análise de Conteúdo (Bardin, 2018), serviram de base para a elaboração e validação do instrumento da fase seguinte.
Para a seleção dos participantes de ambas as fases, foram estabelecidos os seguintes critérios de inclusão: estar devidamente matriculado em uma instituição de ensino superior e participar ativamente de competições oficiais universitárias, especificamente o Campeonato Paulista Universitário (FUPE) e/ou os Jogos Universitários Brasileiros (JUBS). Foram excluídos da amostra atletas que, embora treinem com as equipes, não estivessem inscritos nestas competições oficiais durante o período da coleta de dados.
A segunda fase, quantitativa, utilizou o "Instrumento de Investigação sobre o Uso das Redes Sociais Digitais no Futebol" – QRSD (Fabris, e Serapião, 2025), um questionário online aplicado a uma amostra de 23 atletas da categoria universitária do Campeonato Paulista Universitário (FUPE). A análise dos dados quantitativos ocorreu em duas etapas: primeiramente, uma análise estatística descritiva (frequência, média) para caracterizar a amostra e, em seguida, uma análise de cluster com o algoritmo SimpleKMeans (via software Weka) foi empregada para identificar perfis de uso. Embora o tamanho da amostra (n=23) limite a generalização dos resultados, ele é considerado adequado para os propósitos de um estudo exploratório. (Malhotra, 2019)
Por fim, os resultados de ambas as fases foram integrados na etapa de discussão, utilizando os dados qualitativos do grupo focal para aprofundar e contextualizar os perfis quantitativos encontrados, fortalecendo a validade dos achados por meio da triangulação metodológica. (Denzin, 2017)
Resultados
Dados qualitativos
Nesta seção, são apresentados os dados qualitativos obtidos por meio de entrevistas semiestruturadas realizadas com cinco atletas universitários de futebol, integrantes da equipe principal de uma universidade pública do interior de São Paulo. A análise das entrevistas segue os pressupostos da análise de conteúdo proposta por Bardin (2018), permitindo identificar categorias, padrões de sentido e significados atribuídos pelos atletas em relação à sua experiência digital.
Análise e discussão dos resultados qualitativos
A partir da análise das falas dos participantes, emergiram quatro categorias centrais, motivação para o uso das redes sociais digitais, objetivos em relação ao futebol, impactos emocionais e percepção sobre o comportamento dos colegas. Cada categoria será explorada individualmente, com a apresentação de uma análise qualitativa sustentada por trechos das entrevistas, organizados e apresentados em tabelas para maior clareza.
A primeira categoria investiga as principais motivações que levam os atletas universitários a utilizarem as redes sociais digitais em seu cotidiano. A análise revela que o uso é multifacetado, transitando entre o entretenimento, a comunicação interpessoal e as obrigações profissionais ou acadêmicas.
A Tabela 1 apresenta uma convergência notável entre os entrevistados no que se refere à percepção das redes sociais digitais como uma ferramenta de lazer e diversão. Contudo, observam-se diferenças importantes: os Jogadores 2, 3 e 5 demonstram uma abordagem mais pragmática, integrando o uso das plataformas a fins profissionais e de aprendizado, enquanto os Jogadores 1 e 4 enfatizam a dimensão da socialização e da recreação.
Tabela 1. Motivação para o uso das redes sociais digitais
|
Unidade de Registro (Trecho da Entrevista) |
Entrevistado |
|
"Eu uso bastante redes sociais digitais todos os dias, inclusive pelas páginas. Tenho algumas páginas que tento manter, inclusive uma sobre futebol." |
Jogador 1 |
|
"Eu uso muito para serviço, uso muito para faculdade, mas também para comunicar com os meus amigos, diversão em geral." |
Jogador 2 |
|
"A parte inútil, né? Nossa, eu daria tudo para mudar. Mas o Instagram assim, rouba muito tempo." |
Jogador 3 |
|
"O meu principal motivo para mexer na rede social é que é divertido." |
Jogador 4 |
|
"Eu uso a rede social mais para trabalho, para conhecimento, não é? E, claro, para a diversão." |
Jogador 5 |
Fonte: Elaborado pelos autores
A segunda categoria apresenta a análise sobre como os atletas utilizam especificamente as redes sociais digitais para fins relacionados à sua prática no futebol. Evidencia-se que as plataformas digitais são ferramentas consolidadas para o consumo de conteúdo esportivo, embora os objetivos variem entre aprendizado técnico e entretenimento.
Todos os entrevistados relatam utilizar as redes sociais digitais para se manterem informados sobre o universo do futebol (Tabela 2). No entanto, o propósito desse consumo diverge. Os Jogadores 2, 3 e 5 demonstram um viés mais educacional e técnico, buscando conteúdos que possam agregar conhecimento tático. Por outro lado, os Jogadores 1 e 4 apresentam um uso mais voltado à interação social e ao lazer, priorizando o compartilhamento de conteúdo e o consumo de lances humorísticos, referidos como "zoeiras".
Tabela 2. Objetivos em relação ao futebol
|
Unidade de Registro (Trecho da Entrevista) |
Entrevistado |
|
"As redes sociais digitais têm bastante influência, sim, na relação com o futebol. Até para ver notícias, coisas engraçadas, ver análises táticas." |
Jogador 1 |
|
"Quando não consigo assistir, vejo os melhores momentos por alguma rede social." |
Jogador 2 |
|
"Eu, que estudo, é para análise, né? De organização, de equipe e tudo mais." |
Jogador 3 |
|
"Os 3 motivos principais para usar as redes sociais digitais em relação ao futebol: zoeira, diversão e informação." |
Jogador 4 |
|
"Às vezes monto algum treino com base em algum movimento que vi em um treinamento de algum time europeu." |
Jogador 5 |
Fonte: Elaborado pelos autores
A terceira categoria explora a percepção dos atletas sobre os efeitos emocionais decorrentes de sua interação com as redes sociais digitais no contexto do futebol. Os relatos indicam uma gama de experiências, que vão desde o reforço positivo até o enfrentamento de questões sociais complexas e prejudiciais.
A Tabela 3 demonstra que a maioria dos jogadores (1, 4 e 5) descreve impactos predominantemente positivos ou neutros, destacando uma capacidade de utilizar o feedback recebido de forma construtiva. Contudo, emergiram relatos de grande relevância sobre os impactos negativos. O Jogador 2 destaca ter sido abalado por questões raciais, evidenciando que as plataformas podem ser um espaço de violência simbólica. O Jogador 3 reflete sobre a vulnerabilidade dos atletas aos altos e baixos emocionais provocados pela opinião pública online, descrevendo o ambiente como "extremamente perigoso".
Tabela 3. Impactos emocionais
|
Unidade de Registro (Trecho da Entrevista) |
Entrevistado |
|
"Já me senti emocionalmente afetado de forma positiva, sim. É um elogio." |
Jogador 1 |
|
"Já fui emocionalmente afetado, abalado, acho que mais pela questão racial. Sempre que vejo casos de racismo, isso me afeta bastante, ainda mais por ser um homem preto." |
Jogador 2 |
|
"Futebol e as redes sociais digitais, definiria como um ambiente extremamente perigoso... interferem diretamente no desempenho da carreira, do cara e até muitas vezes na vida pessoal." |
Jogador 3 |
|
"Às vezes, quando eu vi algum programa esportivo, me fazia pensar no meu jogo e melhorar as coisas que eu poderia fazer." |
Jogador 4 |
|
"As redes sociais digitais já interferiram na minha prática, sim, mas de forma positiva. Quando eu posto algum lance ou jogada e recebo um comentário, eu analiso a situação." |
Jogador 5 |
Fonte: Elaborado pelos autores
A quarta categoria analisa o comportamento de seus colegas no futebol universitário, os entrevistados indicam que o uso das redes sociais digitais é predominantemente recreativo e social. As plataformas servem mais para o compartilhamento de aspectos da vida pessoal e para o fortalecimento das amizades do que para a promoção da carreira ou desenvolvimento técnico.
Os dados da Tabela 4 fundamentam essa percepção. A fala do Jogador 1 exemplifica como as redes são utilizadas para reforçar a identidade coletiva da equipe. O Jogador 4 introduz uma distinção crucial ao correlacionar o tipo de uso com o nível de engajamento no esporte, observando que atletas que competem em outras categorias utilizam as redes de maneira mais estratégica.
Tabela 4. Percepção sobre o comportamento dos colegas
|
Unidade de Registro (Trecho da Entrevista) |
Entrevistado |
|
"O pessoal comentando ali, ó, você viu aquela página, falou da gente." |
Jogador 1 |
|
"Na minha bolha social, a maioria tem contato com o futebol nas redes sociais digitais, seja para lazer ou profissionalmente." |
Jogador 2 |
|
"Muito raramente você vê um comentário negativo." |
Jogador 3 |
|
"Poucos postam sobre tudo o que faz no futebol. Mas quem joga mesmo por fora, tipo 'Kante' [companheiro de equipe], que posta bastante coisa." |
Jogador 4 |
|
"No clube em que jogo, percebo que as redes sociais digitais são algo bem presente. Ninguém fica sem o celular na mão." |
Jogador 5 |
Fonte: Elaborado pelos autores
A análise dos dados qualitativos revela que as redes sociais digitais ocupam uma posição central e ambivalente na jornada de atletas universitários de futebol. A principal convergência observada reside no uso híbrido dessas plataformas, que funcionam como espaço de socialização e como ferramenta para a construção de marca pessoal. As divergências emergem das tensões dessa dualidade. No âmbito da psicologia do esporte, o impacto é paradoxal: por um lado, as redes podem oferecer validação social, funcionando como reforço positivo; por outro, convertem-se em um significativo estressor ambiental, elevando a ansiedade competitiva e expondo os atletas a ataques cibernéticos, o que afeta o bem-estar emocional. (Weinberg, e Gould, 2017)
Pesquisas recentes confirmam que, embora possam promover apoio, as plataformas amplificam a ansiedade de performance e a comparação social (Zhang et al., 2023). No que tange ao desenvolvimento técnico, observa-se que atletas as empregam para aprendizagem observacional. Contudo, essa prática pode se tornar prejudicial, com estudos indicando que o uso de redes sociais antes de sessões de treino pode levar à fadiga mental e prejudicar o desempenho (Freitas Junior, 2023), transformando um recurso de aprimoramento em um fator de risco.
Dados quantitativos
Os resultados coletados por meio do questionário QRSD (Fabris, e Serapião, 2025) serão apresentados inicialmente por meio de uma análise descritiva, seguida pela técnica de clusterização com o software Weka para identificar agrupamentos de perfis semelhantes entre os atletas (Frank et al., 2016). Por fim, todos os resultados serão integrados por meio de triangulação metodológica, articulando os dados quantitativos com a análise qualitativa. (Denzin, 2017; Creswell, e Creswell, 2018)
Análise descritiva dos resultados quantitativos
A análise quantitativa revela um padrão de uso intenso das redes sociais digitais entre os atletas universitários. Conforme a Figura 1, 39% da amostra utiliza as plataformas de 5 a 6 horas diárias, sendo esta a categoria de maior prevalência. De forma cumulativa, um total de 82% dos atletas dedica 3 horas ou mais por dia a essas mídias, o que evidencia a centralidade das redes sociais em sua rotina.
Figura 1. Média de uso diário das redes sociais digitais
Fonte: Elaborado pelos autores
A finalidade desse uso, detalhada na Figura 2, aponta para uma clara distinção entre o comportamento de consumo passivo e o de criação ativa de conteúdo, permitindo a caracterização de dois perfis predominantes. O perfil 1, do atleta como consumidor de conteúdo, tem como tendência principal é o consumo de informações. A atividade mais frequente é "Acompanhar notícias/resultados", com 73,91% dos atletas fazendo isso "Sempre". A busca por modelos aspiracionais também se destaca: 69,56% dos respondentes afirmam buscar inspiração em outros atletas com alta frequência ("Muitas vezes" e "Sempre"). Além disso, a influência da imagem de outros atletas é significativa, com mais de 69% relatando ser influenciado em algum grau (raramente, muitas vezes ou sempre).
Em contrapartida, o perfil 2, o atleta como criador de conteúdo, a autopublicação de conteúdo é marcadamente limitada. A grande maioria dos atletas raramente ou nunca compartilha seu dia a dia (somando 86,95%), lances próprios (82,61%) ou mesmo momentos de jogos (78,26%), conforme exibido na Figura 2. Este padrão sugere uma postura mais reservada ou seletiva na hora de se expor.
Figura 2. Escala de interação do uso das redes sociais digitais
Fonte: Elaborado pelos autores
A análise sobre a interação com os conteúdos (Figura 3) aprofunda essa percepção, indicando que, embora consumam muito, os atletas têm plena consciência do impacto da vida online. Para 73,91%, a rede social "Sempre" impacta as chances de oportunidade e patrocínio. Da mesma forma, o comportamento online e polêmicas de outros jogadores influenciam a percepção e admiração de mais de 70% da amostra, reforçando a ideia de que o ambiente digital é visto como um espaço de alto risco e recompensa.
Figura 3. Escala de frequência de interação com conteúdos relacionados ao futebol
Fonte: Elaborado pelos autores
Em síntese, os resultados destacados até aqui revelam que o atleta universitário navega nas redes sociais digitais de maneira complexa e calculada. Apesar do alto volume de uso, seu engajamento é predominantemente passivo, caracterizando-o mais como um espectador do que como um protagonista de sua própria narrativa digital. A intensa busca por inspiração e o acompanhamento da imagem de outros atletas criam um ambiente fértil para a comparação social, um mecanismo duplo que, segundo Weinberg, e Gould (2017), pode tanto servir como fonte de motivação quanto intensificar a pressão por performance.
A notável resistência em compartilhar conteúdo próprio sugere uma resposta a essa pressão, uma estratégia consciente ou inconsciente de reduzir riscos. Em um ambiente percebido como de alto impacto para a carreira, a autopreservação parece superar a necessidade de autoexpressão. Portanto, a análise descritiva indica que, para este grupo, as redes sociais são menos um palco para interação e mais um ambiente de observação, onde os potenciais custos da visibilidade frequentemente superam os benefícios da participação excessiva.
Em relação aos comportamentos específicos dos atletas universitários, as questões de múltipla escolha presentes no questionário fornecem compreensões sobre atitudes em relação ao uso das redes sociais digitais e percepções sobre orientação e controle no contexto esportivo. Esses achados serão apresentados e destacados a partir das suas questões.
Os dados da Tabela 5, revelam as principais motivações que levam os atletas a acessarem as redes sociais digitais. A comunicação com amigos e familiares emerge como a motivação mais prevalente, com 91,30% dos atletas (n=21), seguida pelo acompanhamento de notícias e conteúdos gerais (86,96%, n=20).
O uso como passatempo também se destaca significativamente (78,26%, n=18), confirmando os achados qualitativos sobre a dimensão recreativa das redes sociais. Em relação ao futebol especificamente, 73,91% dos atletas (n=17) buscam conteúdos e notícias sobre o esporte, enquanto 69,57% (n=16) procuram conteúdos específicos sobre futebol. É notável que 60,87% dos atletas seguem perfis de jogadores e clubes, e o mesmo percentual busca conteúdos de "zueira" sobre o futebol, evidenciando a dualidade entre o consumo sério e o entretenimento.
Tabela 5. Motivações para o uso das redes sociais digitais
|
Motivação |
Frequência (n) |
Percentual |
|
Comunicar-se com amigos e familiares |
21 |
91,30% |
|
Acompanhar notícias e conteúdos gerais |
20 |
86,96% |
|
Utilizar como passatempo |
18 |
78,26% |
|
Buscar conteúdos e notícias sobre o futebol |
17 |
73,91% |
|
Buscar conteúdos específicos sobre futebol |
16 |
69,57% |
|
Seguir perfis de jogadores, clubes, etc. |
14 |
60,87% |
|
Buscar conteúdos de "zueira" sobre o futebol |
14 |
60,87% |
|
Compartilhar opiniões e experiências |
8 |
34,78% |
|
Entrar em jogos online |
7 |
30,43% |
Fonte: Elaborado pelos autores
A Tabela 6 destaca os padrões de utilização das redes sociais digitais, em relação a finalidade do Consumo de Vídeos (Q17), os atletas demonstram uma abordagem multifacetada ao consumir vídeos relacionados ao futebol. Observar habilidades e técnicas é o interesse mais comum (69,57%, n=16), seguida por acompanhar táticas e estratégias (60,87%, n=14). O entretenimento também ocupa posição relevante (56,52%, n=13), confirmando a dualidade educação-diversão identificada na análise qualitativa. Em relação ao Tipo de Conteúdo Consumido (Q21), o entretenimento e descontração dominam o consumo de conteúdo futebolístico (86,96%, n=20), seguido pelos resultados (56,52%, n=13) e bastidores dos clubes (47,83%, n=11). O ensino e aprendizagem representa 39,13% (n=9), indicando que, embora presente, o uso educacional não é majoritário.
Outro aspecto abordado na Tabela 6, é a Reação a Movimentos Técnicos (Q18), quando os atletas encontram vídeos de movimentos técnicos executados por jogadores famosos, 47,83% (n=11) tentam reproduzir o movimento, 26,09% (n=6) compartilham com colegas ou nas redes sociais, 21,74% (n=5) apenas assistem por curiosidade, e 4,35% (n=1) simplesmente ignoram. Este resultado é significativo pois demonstra que, embora uma parcela considerável dos atletas busque aplicar o que observa (47,83%), a maioria não adota uma postura ativa de reprodução técnica, contrastando com a alta motivação para observar habilidades e técnicas (69,57% na Q17).
Tabela 6. Padrões de consumo de mídia esportiva
|
Questão |
Resposta |
Frequência Absoluta (n) |
Frequência Relativa (%) |
|
17. Você assiste a vídeos relacionados ao futebol para: |
Observar habilidades e técnicas |
16 |
69,57% |
|
Acompanhar táticas e estratégias |
14 |
60,87% |
|
|
Apenas por entretenimento |
13 |
56,52% |
|
|
Buscar inspiração e motivação |
11 |
47,83% |
|
|
Estudar acertos e erros de outros |
9 |
39,13% |
|
|
Estudar e analisar os adversários |
5 |
21,74% |
|
|
Analisar meus lances |
3 |
13,04% |
|
|
Avaliar meus próprios erros e acertos |
2 |
8,70% |
|
|
18. Você encontra um vídeo de um atleta famoso executando um movimento técnico... Qual seria sua reação? |
Tento reproduzir o movimento |
11 |
47,83% |
|
Compartilho com colegas ou nas redes |
6 |
26,09% |
|
|
Apenas assisto por curiosidade |
5 |
21,74% |
|
|
Simplesmente ignoro |
1 |
4,35% |
|
|
21. O conteúdo de futebol que você consome nas redes sociais é mais voltado para: |
Entretenimento e descontração |
20 |
86,96% |
|
Resultados |
13 |
56,52% |
|
|
Bastidores dos clubes |
11 |
47,83% |
|
|
Ensino e aprendizagem |
9 |
39,13% |
|
|
Vida pessoal dos jogadores |
5 |
21,74% |
|
|
Inspiração e motivação |
5 |
21,74% |
|
|
Futebol amador |
3 |
13,04% |
|
|
Categorias de base |
2 |
Fonte: Elaborado pelos autores
Os impactos emocionais resultantes das interações online são abordados na Tabela 7, como o caso da Reação a Elogios (Q13): Os elogios em publicações geram impactos predominantemente positivos. 82,61% dos atletas (n=19) se sentiriam valorizados e confiantes, 52,17% (n=12) se sentiriam mais seguros para postar, e 39,13% (n=9) acreditariam estar no caminho certo.
Em comparação com a Reação a Críticas (Q14), as críticas geram impactos mais diversificados e potencialmente negativos. 52,17% dos atletas (n=12) se tornariam mais cautelosos ao se expor, 47,83% (n=11) se desmotivariam a postar sobre jogos, e o mesmo percentual (47,83%, n=11) se incentivaria a melhorar o desempenho. 39,13% (n=9) se sentiriam desmotivados e desvalorizados. Reação a Erros Viralizados (Q16): Diante de um erro em campo que viralizasse nas redes sociais, 56,52% dos atletas (n=13) usariam como motivação para melhorar, 47,83% (n=11) ignorariam e seguiriam a rotina.
Tabela 7. Síntese dos impactos emocionais das interações online
|
Tipo de Interação |
Reação Mais Comum |
Percentual |
|
Elogios |
Se sentiria valorizado e confiante |
82,61% |
|
Críticas |
Se tornaria mais cauteloso ao se expor |
52,17% |
|
Falta de interações |
Não me afetaria |
52,17% |
|
Erro viralizado |
Usaria como motivação para melhorar |
56,52% |
Fonte: Elaborado pelos autores
A análise dos dados de múltipla escolha aprofunda a compreensão sobre o uso multifacetado das redes sociais por atletas universitários. Primeiramente, identifica-se uma tensão entre o aprendizado passivo e a aplicação ativa. O alto interesse em observar habilidades e técnicas (69,57%) caracteriza o uso de plataformas como o YouTube e Instagram como ferramentas de aprendizagem observacional, um dos pilares da aquisição de habilidades motoras (Weinberg, e Gould, 2017). No entanto, a menor taxa de aplicação prática (47,83%) pode ser atribuída à ausência de feedback corretivo e supervisão profissional, elementos cruciais que diferenciam a modelagem informal da prática deliberada.
Em segundo lugar, os resultados desvendam a assimetria do impacto emocional do feedback online. Enquanto os elogios atuam como um previsível reforço positivo, fortalecendo a autoconfiança, a reação às críticas é mais complexa. A divergência de respostas, da desmotivação à inspiração para melhorar, sugere que traços psicológicos e experiências individuais são mediadores cruciais. A capacidade de enfrentar uma crítica como um desafio construtivo é uma característica central de resiliência e da mentalidade de crescimento, em oposição a uma mentalidade fixa que veria o mesmo feedback como uma ameaça ao ego (Weinberg, e Gould, 2017). Essa variabilidade está alinhada com pesquisas que demonstram que atletas com maior resistência mental reportam menor impacto de estressores online na sua performance e bem-estar. (Lu et al., 2025)
Finalmente, estes achados quantitativos enriquecem a análise qualitativa ao fornecerem uma estrutura empírica para as experiências relatadas. Eles quantificam a dualidade entre o uso recreativo e preparatório e, mais importante, demonstram a gama de respostas ao ambiente digital, confirmando que a interação online é um campo dinâmico onde a personalidade e as habilidades mentais do atleta determinam, em grande parte, o resultado da experiência.
Análise de Cluster: Identificação de perfis de atletas
A análise de Cluster, realizada com o algoritmo k-means no software Weka, permitiu a segmentação dos atletas universitários em dois perfis distintos com base em seus padrões de uso das redes sociais digitais. A Tabela 8 detalha as características de cada grupo, apresentando as médias das respostas para as principais variáveis analisadas. É importante destacar que os valores numéricos correspondem às médias das respostas em uma escala Likert de 1 a 4, onde 1 significa "nunca" ou "nada" e 4 significa "sempre" ou "muito".
Tabela 8. Resumo dos perfis de atletas identificados pelo Weka
|
Característica |
Cluster 0 (n=8, 35%)Criador Engajado |
Cluster 1 (n=15, 65%) Consumidor Reflexivo |
|
Perfil Identificado |
Criador Engajado |
Consumidor Reflexivo |
|
Idade média |
21,25 anos |
21,67 anos |
|
Horas de uso |
5-6 horas |
5-6 horas |
|
Acompanha notícias/resultados |
3,88 |
3,60 |
|
Aprende técnicas |
2,88 |
2,53 |
|
Compartilha dia a dia |
2,25 |
1,60 |
|
Compartilha lances próprios |
2,25 |
1,53 |
|
Procura inspiração em atletas |
3,38 |
2,73 |
|
Compartilha momentos de jogos |
2,50 |
1,53 |
|
Participa de desafios virais |
2,25 |
1,53 |
|
Interage com conteúdos |
2,13 |
1,80 |
|
Acredita no potencial profissional |
4,00 |
3,20 |
|
Recebeu orientação sobre uso |
Sim |
Não |
|
Reação à proibição antes de jogos |
Incomodado |
Confortável |
Fonte: Elaborado pelos autores
O Cluster 0, nomeado “Criador Engajado”, agrupa 8 atletas (35%) com um perfil de uso mais ativo e estratégico das redes sociais. Este grupo se destaca por apresentar médias mais altas em variáveis de criação de conteúdo, como o compartilhamento do dia a dia (média = 2,25) e de lances próprios (média = 2,25). A característica mais distintiva é a forte crença no potencial das redes para a carreira profissional, com uma média de 4,00, o valor máximo da escala, indicando concordância total com a afirmativa. Significativamente, este grupo já recebeu orientações específicas sobre o uso das redes sociais e se sente incomodado com possíveis restrições antes dos jogos, sugerindo uma relação mais dependente e estratégica com as plataformas.
O Cluster 1, denominado “Consumidor Reflexivo”, representa a maioria dos atletas (15 participantes, 65%) e caracteriza-se por um uso mais passivo. Apresentam médias notavelmente mais baixas em todas as atividades de criação de conteúdo, como compartilhamento do dia a dia (média = 1,60) e de lances próprios (média = 1,53). Este grupo não recebeu orientações sobre o tema e se sente confortável com restrições antes dos jogos, indicando uma relação mais desapegada. Embora ainda percebam o potencial profissional das redes (média = 3,20), demonstram uma postura mais cautelosa, alinhando-se com as preocupações sobre os riscos do ambiente digital expressas na fase qualitativa da pesquisa.
A identificação destes dois perfis através da clusterização valida e aprofunda os achados da fase qualitativa, permitindo segmentar a amostra em um grupo proativo e estratégico (Cluster 0) e outro mais cauteloso e observador (Cluster 1).
Discussão
A triangulação dos dados qualitativos e quantitativos revela um panorama complexo sobre o uso das redes sociais por atletas universitários de futebol, no qual se destacam dois perfis distintos, o Criador Engajado e o Consumidor Reflexivo. Essas duas abordagens ao ambiente digital não apenas refletem as categorias qualitativas emergentes, mas também dialogam diretamente com os resultados de múltipla escolha, oferecendo uma visão nuançada do fenômeno.
O Criador Engajado, correspondendo a 35% da amostra, utiliza as plataformas como uma extensão estratégica de sua carreira. Este atleta demonstra alta atividade, compartilhando conteúdos e participando de tendências virais, o que se alinha aos 34,78% que emitem opiniões e aos 47,83% que replicam movimentos técnicos observados online. Tal comportamento exemplifica a tese de Ergün (2025) sobre a construção da identidade online, onde a rotina do atleta é convertida em capital social, como no caso do "Jogador 5", que reproduz treinos europeus.
Contudo, essa mesma exposição acarreta uma acentuada vulnerabilidade emocional. A comunicação evolui de monólogo para um diálogo com o público, marcado por uma forte assimetria: enquanto elogios validam a grande maioria (82,61%), as críticas levam mais da metade (52,17%) a se retrair, com 47,83% afirmando que se desmotivaram a postar após um feedback negativo. Este desequilíbrio é a chave para compreender os riscos e recompensas da experiência deste perfil.
Em contrapartida, o Consumidor Reflexivo, perfil majoritário (65%), adota uma postura mais cautelosa. Com menor atividade de criação de conteúdo, ele se aproxima dos 65,22% que não compartilham opiniões, mas seu consumo é altamente focado. A análise revela uma lacuna significativa de 21,74% entre o interesse teórico (69,57% observam técnicas) e a aplicação prática (apenas 47,83% as reproduzem), sugerindo que este perfil busca conhecimento sem necessariamente convertê-lo em ação. Esta postura ressoa com as falas do "Jogador 3", que percebe as redes como um ambiente "extremamente perigoso", e do "Jogador 2", que relata impactos emocionais negativos. Como mecanismo de proteção, este atleta se informa sem se expor, demonstrando maior desapego da validação online, como indicam os 52,17% que não se abalam com a baixa interação em suas postagens.
Essa dualidade de experiências corrobora estudos recentes na psiquiatria esportiva, como o de Merrill, e Faustin (2023), que destacam que, embora as redes sociais ofereçam conexão social, o uso desregulado exacerba problemas de imagem corporal e ansiedade em atletas. Adicionalmente, pesquisas com jogadores de futebol indicam que a pressão por performance combinada à exposição midiática pode enfraquecer o efeito protetor que o esporte geralmente exerce sobre a saúde mental. (Weber et al., 2023)
Aprofundando a análise da experiência emocional, os dados desafiam narrativas simplistas sobre os perigos das redes. Embora vulnerabilidades existam, como no caso extremo de racismo vivido pelo "Jogador 2", a maioria dos atletas demonstra uma notável resiliência digital. As críticas, por exemplo, geram reações complexas: 47,83% dos atletas as utilizam como incentivo para melhorar. Essa capacidade de transformar feedback negativo em motivação é ainda mais evidente quando 56,52% afirmam que usariam um erro viralizado como estímulo, contrastando com os apenas 4,35% que se abateriam com o fato. Fica claro, portanto, que a vulnerabilidade não é uma condição uniforme, mas uma variável que depende do perfil e de mecanismos de enfrentamento individuais.
No que tange aos padrões de consumo, identifica-se uma dualidade fundamental. A principal motivação é o entretenimento (86,96%), superando em muito o uso para aprendizagem (39,13%). No entanto, ao analisar o conteúdo específico, o interesse no desempenho técnico de jogadores famosos é altíssimo (82,61%). Essa aparente contradição sugere que o aprendizado técnico ocorre de forma incidental, inserido num contexto primariamente recreativo, o que representa um potencial educacional ainda subutilizado.
Diante desse cenário, torna-se imperativa a criação de programas de preparação digital diferenciados. Para o Criador Engajado, as intervenções devem focar em gestão emocional avançada e estratégias de proteção contra a superexposição. Para o Consumidor Reflexivo, o apoio deve visar a transposição da lacuna entre interesse e prática, valorizando sua cautela como uma estratégia de proteção válida. De modo geral, é necessário promover a resiliência digital em todos os atletas, com mediação profissional para maximizar os benefícios das redes e reconhecer suas múltiplas funções: social, educacional e profissional.
A presente pesquisa, contudo, possui limitações, principalmente o tamanho reduzido da amostra (n=23), que restringe a generalização dos resultados. Ainda assim, os achados sobre a lacuna entre interesse e aplicação e a variabilidade na resiliência emocional levantam questões cruciais para investigações futuras: Quais fatores medeiam a transição do interesse teórico para a prática? Como desenvolver resiliência emocional específica para o contexto esportivo digital? E como personalizar intervenções de letramento digital com base nos perfis de uso aqui identificados? Pesquisas futuras, com amostras maiores e delineamento longitudinal, são essenciais para validar estes perfis e aprofundar a compreensão sobre o potencial educacional subutilizado das redes sociais no esporte.
Conclusão
Este estudo demonstrou que o uso das redes sociais por atletas de futebol universitário é um fenômeno heterogêneo, que se estrutura em torno de dois perfis distintos: o Criador Engajado, que utiliza as plataformas de forma estratégica, e o Consumidor Reflexivo, que adota uma postura mais cautelosa. A análise integrada dos dados revelou as tensões inerentes a essas abordagens, bem como os diferentes níveis de vulnerabilidade e resiliência emocional que coexistem no ambiente digital.
Um dos achados relevantes é a discrepância entre o alto interesse em conteúdo técnico (69,57%) e a menor propensão à aplicação prática (47,83%), indicando que o potencial educacional das redes sociais permanece largamente inexplorado. Adicionalmente, a assimetria dos impactos emocionais, com elogios gerando confiança (82,61%) e críticas provocando reações mais complexas e até motivacionais, reforça a necessidade de uma preparação psicológica específica para a interação online. As categorias qualitativas forneceram o alicerce para a compreensão das experiências subjetivas, enquanto a segmentação quantitativa dos perfis e a demanda por maior orientação institucional iluminaram o caminho para ações práticas.
Conclui-se que, para navegar com sucesso no ecossistema digital, atletas, clubes e instituições de ensino precisam ir além de abordagens genéricas, desenvolvendo estratégias de apoio personalizadas. A customização de intervenções com base nos perfis aqui identificados, aliada a programas de letramento digital, emerge como um caminho eficaz para maximizar os benefícios do engajamento online e, simultaneamente, mitigar seus riscos. Esta pesquisa abre, assim, novas avenidas para estudos que validem esses perfis em amostras maiores e desenvolvam intervenções focadas no bem-estar e no desenvolvimento integral dos atletas na era digital.
Referencias
Bardin, L. (2015). Análise de conteúdo. Edições 70.
Bonet, L., Benito, A., Usó, H., Peraire, M., Haro, G., e Almodóvar-Fernández, I. (2024). Mental health in first- and second-division soccer players: A cross-sectional study. Sports, 12(4), 106. https://doi.org/10.3390/sports12040106
Bronfenbrenner, U. (1996). A ecologia do desenvolvimento humano: Experimentos naturais e planejados. Artes Médicas.
Brougham, J.K. (2021). The impact of social media on the mental health of student-athletes across NCAA divisions. Journal of Issues in Intercollegiate Athletics, 14(1), Article 33. https://scholarcommons.sc.edu/jiia/vol14/iss1/33/
Creswell, J.W., e Creswell, J.D. (2018). Research design: Qualitative, quantitative, and mixed methods approaches (5th ed.). SAGE Publications.
Creswell, J.W., e Plano Clark, V.L. (2017). Designing and conducting mixed methods research (3rd ed.). SAGE Publications.
Denzin, N.K. (2017). The research act: A theoretical introduction to sociological methods. Routledge. https://doi.org/10.4324/9781315134543
Ergün, Z. (2025). Athlete identity in social media: The effect of online identity construction on social media addiction and self-esteem in university students. Research in Sport Education and Sciences, 27(3), 200–207. https://doi.org/10.62425/rses.1684289
Fabris, F.L., e Serapião, A.B.S. (2025). Índice de validação de conteúdo (IVC) do instrumento de investigação sobre o uso das redes sociais digitais no futebol – QRSD (Questionário para Redes Sociais Digitais). Lumen et Virtus, 16(49), 699–701. https://doi.org/10.56238/levv16n49-059
Frank, E., Hall, M.A., e Witten, I.H. (2016). The WEKA Workbench (4th ed.) [Online appendix]. Morgan Kaufmann.
Freitas Junior, C.G. de (2023). Efeitos de uma intervenção multicomponente sobre o deslocamento ativo para a escola: Um estudo randomizado por clusters [Tese de Doutorado. Universidade Federal da Paraíba]. https://repositorio.ufpb.br/jspui/handle/123456789/30069
Lu, X., Xu, Z., Zhou, R., Ding, H., e Zhang, W. (2025). The arena under digital shadows: The cross-temporal impact of cyberbullying on perceived pressure and competitive depression in high-level athletes. Journal of Health Psychology. https://doi.org/10.1177/13591053251376853
Malhotra, N.K. (2019). Marketing research: An applied orientation (7th ed.). Pearson.
Merrill, S., e Faustin, M. (2023). Likes and hashtags: Influence of athlete social media use. Sports Psychiatry, 2(4), 153–156. https://doi.org/10.1024/2674-0052/a000060
Natale, S.M., Sora, S.A., e Drumheller, M. (2012). The importance of the university in the 21st century: Ethical conflicts and moral choices. Journal of Academic Ethics, 10(1), 41–55. https://doi.org/10.1007/s10805-012-9152-9
Thomas, J.R., Nelson, J.K., e Silverman, S.J. (2012). Métodos de pesquisa em atividade física (6ª ed.). Artmed Editora.
Weinberg, R.S., e Gould, D. (2017). Fundamentos de psicologia do esporte e do exercício (6ª ed.). Artmed Editora.
Zhang, W., Jiang, F., Zhu, Y., e Zhang, Q. (2023). Risks of passive use of social network sites in youth athletes: A moderated mediation analysis. Frontiers in Psychology, 14, 1219190. https://doi.org/10.3389/fpsyg.2023.1219190
Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 30, Núm. 333, Feb. (2026)