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ISSN 1514-3465

 

Variações na prática de atividade física entre

escolares do Ensino Médio segundo o sexo

Variations in Physical Activity Patterns among High School Students According to Sex

Variaciones en la práctica de actividad física entre estudiantes de Educación Secundaria según el sexo

 

Adriana Braga Costa Bittencourt*

bragadrika11@gmail.com

Luciano Ferreira Bittencourt**

kalu1601@gmail.com

Gabriela Souza Quadros***

gsquadros@hotmail.com

Franck Nei Monteiro Barbosa+

francknei@uesb.edu.br

Cézar Augusto Casotti++

cacasotti@uesb.edu.br

Hector Luiz Rodrigues Munaro+++

hlrmunaro@uesb.edu.br

 

*Mestra em Educação Física

pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB)

Especializada em Atividades Físicas para Populações Especiais (UESB)

Graduada em Educação Física (UESB) e em Ciências Contábeis (FIJ)

Professora da Secretaria de Educação do Estado da Bahia (SEC/BA)

**Mestre em Letras pelo Mestrado Profissional em Letras (PROFLETRAS)

da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB)

Especializado em Metodologia do Ensino na Educação Física

e em Linguística Aplicada ao Português: Produção de Texto

Graduado em Educação Física e Letras – Língua Portuguesa, pela UESB

Professor efetivo da Secretaria de Educação do Estado da Bahia (SEC/BA)

Especializado em Educação Inclusiva, Especial

e Políticas de Inclusão (Instituto Cândido Mendes/RJ),

em Educação Física Escolar (FACE)

e em Atividades Físicas para Populações Especiais (UESB)

***Licenciada em Educação Física e em Fisioterapias pela UESB

Professora de Educação Física da rede estadual da Bahia (SEC/BA)

+Mestre em Enfermagem e Saúde pela (UESB)

Especializado em Metodologia do Ensino de Educação Física

Licenciado em Educação Física, ambas pela UESB

Professor Assistente do curso de Educação Física da UESB, câmpus de Jequié,

lotado no Departamento de Saúde,

onde ministra disciplinas de Estágio Supervisionado

e atua como Coordenador da Área de Educação Física

Professor de Educação Física no ensino básico

da rede estadual da Bahia

Membro da Comissão de Reformulação Curricular

do Curso de Educação Física da UESB

++Doutor em Odontologia Preventiva e Social

pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP)

Mestre em Odontologia Social

pela Universidade Federal Fluminense (UFF)

Especializado em Odontologia em Saúde Coletiva

pela Universidade de São Paulo (USP)

Graduação em Odontologia

pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES)

Professor Pleno - Curso de Odontologia

Coordenador do Programa de Mestrado em Enfermagem e Saúde

Docente Permanente do Programa de Pós-Graduação (stricto sensu) na UESB

+++Doutor em Educação Física

pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

​Mestre em Educação Física (UFSC)

​Especializado em Fisiologia do Exercício

pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES)

​Graduação em Fisioterapia, UESB

​Graduação em Educação Física, UFES

Professor efetivo (tempo integral) do Curso de Educação Física (UESB)

​Líder e coordenador do Núcleo de Estudos

em Atividade Física & Saúde (NEAFIS)

(Brasil)

 

Recepción: 19/10/2025 - Aceptación: 17/02/2026

1ª Revisión: 11/01/2026 - 2ª Revisión: 14/02/2026

 

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https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/deed.pt

Cita sugerida: Bittencourt, A.B.C., Bittencourt, L.F., Quadros, G.S., Barbosa, F.N.M., Casotti, C.A., e Munaro, H.L.R. (2026). Variações na prática de atividade física entre escolares do Ensino Médio segundo o sexo. Lecturas: Educación Física y Deportes, 31(335), 99-113. https://doi.org/10.46642/efd.v31i335.8600

 

Resumo

    Monitorar variações nos níveis de atividade física entre escolares ao longo do tempo é essencial para compreender esse fenômeno e orientar políticas públicas. Este estudo teve como objetivo analisar mudanças no nível de atividade física de escolares do ensino médio, segundo o sexo, com base em dois inquéritos escolares (2015 e 2023). Trata-se de um estudo epidemiológico, transversal, com dados de inquéritos repetidos em amostras representativas de escolares da zona urbana de Jequié-BA. A primeira coleta ocorreu em 2015 (n = 1,170) e a segunda em 2023 (n = 1,007). A variável de desfecho foi o nível suficiente de atividade física (≥60 minutos/dia, cinco dias por semana), segundo recomendações da Organização Mundial da Saúde. Para análise dos dados utilizou-se software SPSS (versão 21®) e teste de Qui-quadrado (α = 5 %). Em 2015, observou-se maior proporção de adolescentes suficientemente ativos do sexo masculino (n = 136; 61,3 %; p < 0,001), resultado mantido em 2023. Contudo, entre as meninas houve aumento significativo no nível suficiente de atividade física, alcançado em 2023 (n = 199; 44, 2%; Δ% = 5,5 p.p.). Conclui-se que o sexo feminino, embora tenha apresentado melhora em relação a 2015, permanece menos ativo que o masculino em ambos os momentos. Recomenda-se a implementação de políticas públicas específicas para estimular a prática de atividade física em adolescentes do sexo feminino, visando reduzir as disparidades e promover ganhos em saúde.

    Palavras chave: Atividade motora. Adolescente. Estudos transversais. Disparidades em saúde.

 

Abstract

    Monitoring variations in physical activity levels among school adolescents over time is essential to understand this phenomenon and guide public policies. This study aimed to analyze changes in physical activity levels among high school students according to sex, based on two school surveys (2015 and 2023). It is an epidemiological, cross-sectional study using repeated survey data from representative samples of students in urban Jequié, Bahia, Brazil. The first survey was conducted in 2015 (n = 1.170) and the second in 2023 (n = 1.007). The outcome variable was sufficient physical activity level (≥60 minutes/day, five days per week) according to World Health Organization recommendations. Data were analyzed using SPSS software (version 21®) and Chi-square test (α = 5 %). In 2015, a higher proportion of sufficiently active male adolescents was observed (n = 136; 61.3 %; p < 0.001), a result maintained in 2023. However, among girls there was a significant increase in sufficient physical activity levels, reaching in 2023 (n = 199; 44.2 %; Δ% = 5.5 p.p.). It is concluded that, although females showed improvement compared to 2015, they remain less active than males in both survey periods. It is recommended that specific public policies be implemented to promote physical activity practice among female adolescents, aiming to reduce disparities and promote health gains.

    Keywords: Motor activity. Adolescent. Cross-sectional studies. Health disparities.

 

Resumen

    Monitorear las variaciones en los niveles de actividad física entre escolares a lo largo del tiempo es esencial para comprender este fenómeno e informar políticas públicas. Este estudio tuvo como objetivo analizar cambios en los niveles de actividad física entre estudiantes de educación media según el sexo, basándose en dos encuestas escolares (2015 y 2023). Se trata de un estudio epidemiológico transversal con datos de encuestas repetidas en muestras representativas de estudiantes de la zona urbana de Jequié-BA. La primera encuesta se realizó en 2015 (n = 1,170) y la segunda en 2023 (n = 1,007). La variable dependiente fue el nivel suficiente de actividad física (≥60 minutos/día, cinco días a la semana) según las recomendaciones de la Organización Mundial de la Salud. Los datos se analizaron utilizando software SPSS (versión 21®) y prueba de Chi-cuadrado (α = 5 %). En 2015 se observó una mayor proporción de adolescentes suficientemente activos del sexo masculino (n = 136; 61,3 %; p < 0,001), resultado que se mantuvo en 2023. Sin embargo, entre las niñas se registró un aumento significativo en los niveles de actividad física suficiente, alcanzando en 2023 (n = 199; 44,2 %; Δ % = 5,5 p.p.). Se concluye que, aunque el sexo femenino presentó mejora en relación con 2015, sigue siendo menos activo que el masculino en ambos períodos. Es necesario implementar políticas públicas que fomenten el ejercicio en adolescentes mujeres, con el fin de reducir la brecha de género y mejorar su salud general.

    Palabras clave: Actividad motora. Adolescente. Estudios transversales. Disparidades en salud.

 

Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 31, Núm. 335, Abr. (2026)


 

Introdução 

 

    Observar as mudanças em determinados períodos de tempo nos níveis de atividade física em adolescentes é importante para o entendimento deste fenômeno. A adolescência é um período marcado por transformações físicas, psicológicas e emocionais, no qual se desenvolvem comportamentos relacionados à saúde que podem influenciar a vida adulta. (Araújo et al., 2022; Gomes et al., 2019; Organização Mundial da Saúde, 2010)

 

    Apesar de serem considerados saudáveis, os adolescentes têm suas necessidades de saúde frequentemente negligenciadas, o que pode levar à adoção de comportamentos de risco, como inatividade física e alimentação inadequada (World Health Organization, e United Nations Children's Fund., 2020; Bezerra et al., 2021). A prática de atividade física é essencial para a saúde, protegendo contra doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs), enquanto a inatividade e o comportamento sedentário estão associados ao aumento dessas condições. (Nascimento et al., 2020; Organização Mundial da Saúde, 2020)

 

    Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE, 2019) mostram que apenas um terço dos adolescentes pratica atividades físicas conforme recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), com redução significativa no percentual de ativos entre 2012 e 2019 (31,2 % vs. 18 %) (IBGE, 2021; Soares et al., 2023). Além da inatividade física, hábitos alimentares inadequados, como baixo consumo de frutas e verduras, também são preocupantes. Estudos indicam que apenas 54,8 % dos adolescentes consomem frutas e 60,8 % verduras, valores abaixo do recomendado (Munaro, Silva, e Lopes, 2016; Araújo et al., 2022). O tempo excessivo de tela, associado ao consumo de alimentos pouco saudáveis, agrava esses comportamentos de risco, sendo um fenômeno observado em diferentes contextos culturais. (Rodrigues et al., 2020; Falbe et al., 2014)

 

    A escola é um ambiente estratégico para a promoção de hábitos saudáveis, sendo essencial compreender os fatores associados aos comportamentos de risco entre os adolescentes (Santos et al., 2020; Bezerra et al., 2021). Estudos transversais e prospectivos são necessários para orientar intervenções eficazes, especialmente considerando as diferenças entre sexos e contextos socioeconômicos (Franklin et al., 2018; Shigaki et al., 2019). Particularmente, análises sobre disparidades de sexo na prática de atividade física revelam persistentes diferenças na participação, com possíveis implicações para a saúde integral de adolescentes.

 

    Diante disso, o objetivo deste estudo é analisar, a partir de dois inquéritos de base escolar (2015 e 2023), mudanças no nível de atividade física em adolescentes do ensino médio em relação ao sexo, contribuído para o preenchimento da lacuna existente em análises de tendência temporal em cidades de médio porte do Nordeste brasileiro.

 

Metodologia 

 

    Trata-se de um estudo epidemiológico, de corte transversal, vinculado a um projeto maior intitulado “Comportamentos de risco à saúde em escolares do ensino médio de Jequié-BA”, que teve sua primeira coleta de dados realizada em 2015 e a mais recente em 2023, ambas com amostras representativas de escolares da rede estadual, da zona urbana.

 

    A pesquisa foi conduzida em Jequié-BA, cidade localizada na região Sudoeste do Estado da Bahia, distante aproximadamente 370 km da capital Salvador. A população do estudo incluiu 3.161 estudantes de 98 turmas, distribuídos em 12 colégios públicos da zona urbana, em 2015, e 4.222 escolares, de 138 turmas, em 10 instituições públicas estaduais da mesma região em 2023. Todas as escolas selecionadas ofereciam ensino médio regular nos turnos matutino e vespertino.

 

    Para a composição da amostra, utilizou-se o efeito de delineamento (def = 1,42 em 2015 e def = 1,38 em 2023) do cálculo de amostragem aleatória por conglomerados para população finita (Luiz, e Magnanini, 2000). O intervalo de confiança adotado foi de 95 %, com margem de erro amostral de 3,5 %, nível de significância de 5 %, prevalência esperada de atividade física de 50 % (para minimizar o tamanho amostral), e acréscimo de 20 % para possíveis perdas ou recusas. Resultando em uma amostra de 1.170 estudantes em 2015 e 1.007 em 2023. As turmas foram selecionadas por sorteio randomizado em cada escola.

 

    O procedimento de coleta de dados ocorreu em etapas: 1) Autorização prévia dos coordenadores das escolas; 2) Aprovação dos protocolos éticos pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da universidade; 3) Treinamento da equipe de pesquisadores, incluindo simulações de aplicação para esclarecer dúvidas; 4) Agendamento e visita prévia às instituições para apresentação do projeto aos gestores, verificação do número de salas e alunos por turma, além da entrega dos termos de consentimento e assentimento; 5) Aplicação do instrumento nas turmas selecionadas. A aplicação do instrumento ocorreu em sala de aula, nos períodos de junho a agosto de 2015 e agosto a novembro de 2023.

 

    O instrumento utilizado foi uma adaptação do questionário COMPAC II (Silva et al., 2013), que apresentou bons índices de reprodutibilidade (0,51 a 0,97) e tempo médio de preenchimento entre 14 e 28 minutos pelos estudantes. O questionário abordava informações pessoais, sociodemográficas e comportamentais, com foco em atividade física.

 

    A variável de desfecho foi o nível suficiente de atividade física, operacionalizado conforme as recomendações da Organização Mundial da Saúde (2010), sendo considerados suficientemente ativos os adolescentes que praticavam atividade física por ≥60 minutos diários, em pelo menos cinco dias na semana (Garcia, 2021). A variável preditora foi o sexo, comparado nos dois inquéritos.

 

    Para a análise dos dados, utilizou-se o pacote estatístico SPSS for Windows versão 21®. Foram calculadas frequências absolutas (n) e relativas (%) para descrição da amostra. Para comparação das proporções entre os sexos em cada ano, foi aplicado o teste de Qui-quadrado, com nível de significância de 5% (p˂0,05). A variação percentual (∆ %) foi calculada como a diferença entre as proporções de 2023 e 2015, dividida pela proporção de 2015 e multiplicada por 100. As análises foram conduzidas separadamente para cada sexo e ano.

 

    O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (parecer nº 83.957/14 para a coleta de 2015). A emenda para a coleta de 2023 também foi aprovada, sob o parecer nº 5.662.326 (CAAE: 33526014.1.0000.0055). A participação foi voluntária, com a entrega do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) assinado pelos pais ou responsáveis para menores de idade, enquanto os maiores de 18 anos assinaram o próprio TCLE.

 

Resultados 

 

    Foram observadas diferenças significativas no nível de atividade física entre os sexos nos dois momentos avaliados. Em 2015, 61,3 % dos meninos eram classificados como suficientemente ativos, contra apenas 38,7 % das meninas (p < 0,001). Em 2023, houve manutenção da vantagem entre os meninos (55,8 %), porém com aumento da proporção de meninas suficientemente ativas para 44,2 % (Δ %=5,5 p.p), diferença também estatisticamente significativa (p < 0,001).

 

Tabela 1. Associação entre níveis de atividade física e sexo em escolares do ensino médio

Variáveis

2015

2023

Insuficiente

Suficiente

Insuficiente

Suficiente

n

%

n

%

n

%

N

%

Sexo

Masculino

365

37,6

136

61,3*

172

36,5

251

55,8

Feminino

606

62,4

86

38,7

264

63,5

199

44,2**

Nota: *diferença entre os sexos em 2015 (p=0,00); **diferença entre os sexos em 2023 (p=0,00). Fonte: Dados de pesquisa

 

    A Figura 1 demonstra que tanto em 2015 quanto em 2023 existe uma diferença persistente entre os sexos em relação ao nível de atividade física: o sexo masculino apresentou maior proporção de atividade física suficiente, enquanto o sexo feminino apresentou maiores índices de insuficiência de atividade física. Observa-se contudo, que em 2023 houve uma redução na proporção de meninos suficientemente ativos (redução de 2,2 p.p.) e um aumento entre as meninas (aumento de 5,5 p.p.), ainda que a disparidade entre os sexos permaneça evidente.

 

Figura 1. Tendências de mudança do nível de atividade física e da diferença persistente

entre os sexos. Distribuição do nível de atividade física por sexo em 2015 e 2023

Figura 1. Tendências de mudança do nível de atividade física e da diferença persistente entre os sexos. Distribuição do nível de atividade física por sexo em 2015 e 2023

Fonte: Dados de pesquisa

 

Discussão 

 

    Os dados apresentados neste estudo evidenciam que ambos os sexos mantêm elevada insuficiência na prática de atividade física, porém observa-se um aumento positivo entre as meninas ao longo do período analisado. Esta tendência de diminuição da diferença entre os sexos, embora sutil, está alinhada a evidências internacionais que apontam avanços na participação feminina em diferentes contextos culturais e sociais.

 

    Estudos recentes destacam a persistência de barreiras significativas, como fatores socioculturais, suporte familiar e de pares, além da percepção de insegurança ambiental, que continuam a impactar a adesão das meninas à prática física (Brazo-Sayavera et al., 2021; Duffey et al., 2021; Santana Cordeiro et al., 2024; Rosselli et al., 2020; Guthold et al., 2020). Fatores socioeconômicos, culturais e pedagógicos também são reconhecidos como determinantes fundamentais nessa evolução, sugerindo que ações multissetoriais são essenciais para promover e sustentar o aumento da participação feminina em atividades físicas (Duffey et al., 2021; Lorente et al., 2025). Não foram identificados relatos qualitativos ou achados secundários relevantes para a presente análise. (Pereira, 2013)

 

    Os resultados deste estudo corroboram com a literatura atual, que destaca diferenças expressivas no nível de atividade física entre meninos e meninas adolescentes. O estudo de Soares et al. (2023), que analisou a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) de 2009 a 2019, ratifica que os meninos mantêm níveis de atividade física mais elevados que as meninas em todas as edições, reforçando a persistência dessa desigualdade. Além disso, estudos nacionais e internacionais confirmam a necessidade de políticas públicas específicas para estimular a prática entre jovens do sexo feminino, que permanecem majoritariamente insuficientemente ativas. (Soares et al., 2023; Victo et al., 2021)

 

    A revisão sistemática de Souza et al. (2019) identificou diferenças claras entre meninos e meninas, incluindo fatores como falta de companhia e motivação, mais prevalentes entre meninas. Contribuindo para essa compreensão, Rosa et al. (2023) realizaram um estudo transversal destacando maior fragilidade emocional entre meninas, possivelmente associada à desigualdade em atividade física, ainda que a magnitude dessa diferença necessite de maior entendimento.

 

    Barreiras ambientais, motivacionais e estruturais são confirmadas como determinantes importantes para a participação em atividades físicas por parte das meninas (Santana Cordeiro et al., 2024; Silva et al., 2025; Rosselli et al., 2020). Campos et al. (2021) verificaram que a maturação sexual exerce papel determinante na redução da prática de atividade física, especialmente nas meninas, que tendem a apresentar queda mais acentuada na adolescência. Ademais, o contexto social recente, especialmente a pandemia de COVID-19, influenciou os níveis de inatividade física entre adolescentes, com impacto pronunciado entre meninas. (Nascimento, Brito, e Vilanova-Campelo, 2023; Guthold et al., 2020)

 

    Vale destacar que o PeNSE serve de base fundamental para análises nacionais e evidencia que, embora expressivo o percentual de adolescentes fisicamente ativos entre 2009 e 2019, as diferenças entre os sexos permanecem (Soares et al., 2023). Soma-se a isso os dados apresentados aqui, que mostram um aumento tímido da atividade física feminina entre 2015 e 2023, reforçando a necessidade de políticas públicas específicas, para ampliar a adesão e reduzir desigualdades históricas.

 

    Estudos transversais recentes apontam a complexidade dos fatores que influenciam o nível de atividade física, incluindo barreiras ambientais, motivacionais e estruturais que dificultam a adesão das meninas à atividade física regular na idade escolar (Silva et al., 2025; Carvalho et al., 2024). Tais evidências sustentam a recomendação da implementação de ambientes escolares e comunitários mais acolhedores e inclusivos, que incentivem a prática física sem fortalecer estereótipos de gênero, favorecendo estratégias pedagógicas inovadoras e promoção do protagonismo feminino. (Santana Cordeiro et al., 2024)

 

    Em complemento, pesquisas indicam que intervenções precoces e contínuas são essenciais para prevenir a diminuição do nível de atividade física na transição entre infância e adolescência, sobretudo entre meninas, considerando o impacto negativo desse declínio na saúde física e mental a longo prazo. (Campos et al., 2021; Furtado et al., 2023; Rica et al., 2018; Lorente et al., 2025)

 

    Diante do exposto, o presente estudo destaca a persistência da desigualdade na prática de atividade física por sexo, mesmo com avanços temporais. Portanto, salienta-se a necessidade urgente de estratégias especificamente direcionadas, baseadas em evidências para reverter esse quadro. A adoção de políticas estruturadas, que ampliem as oportunidades para a prática física, associadas a campanhas educacionais e programas escolares práticos e inclusivos, pode contribuir significativamente para a redução dessas discrepâncias. (Soares et al., 2023; Campos et al., 2021; Duffey et al., 2021)

 

    Este estudo possui limitações que devem ser consideradas na interpretação dos resultados. O delineamento transversal repetido não permite estabelecer relações de causalidade. A medida de atividade física baseada em questionário está sujeita a viés de memória e desejabilidade social, podendo levar a sub ou superestimação do nível de atividade. Adicionalmente, a amostra foi restrita a escolas públicas da zona urbana, o que pode limitar a generalização dos resultados para contextos rurais ou instituições privadas. O tempo decorrido entre as coletas (oito anos) também pode ter capturado alterações atribuíveis a mudanças contextuais mais amplas.

 

Conclusão 

 

    Apesar de o sexo feminino ter apresentado um aumento no percentual de adolescentes suficientemente ativo entre os dois inquéritos (12,4 % em 2015 para 43,0 % em 2023), esse aumento ainda é insuficiente para reduzir a disparidade observada em relação ao sexo masculino, que se mantém em aproximadamente 59,3 % em 2023. A persistência dessa desigualdade pode comprometer a saúde a longo prazo, uma vez que a atividade física durante a adolescência está diretamente associada à prevenção de doenças crônicas não transmissíveis e à promoção do bem-estar físico e mental.

 

    Esses resultados sugerem que embora as iniciativas de promoção da saúde possam estar alcançando o público feminino de Jequié, são necessárias estratégias mais robustas e direcionadas para desconstruir as barreiras que ainda limitam a participação das meninas em atividades físicas. A escola tem papel estratégico como agente transformador para estimular mudanças comportamentais nessa faixa etária crítica.

 

    Futuras pesquisas, com delineamentos longitudinais e abordagens qualitativas, devem investigar os fatores contextuais específicos que contribuíram para a tendência positiva entre as meninas, bem como razões para a discreta redução observada entre os meninos, a fim de subsidiar políticas públicas mais eficazes e equitativas. Este estudo contribui para a compreensão das mudanças na atividade física em adolescentes, evidenciando a necessidade de ações direcionadas e baseadas em evidências para reduzir as desigualdades entre os sexos e promover a saúde integral na juventude.

 

Referências 

 

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Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 31, Núm. 335, Abr. (2026)