ISSN 1514-3465
Jogos Escolares de Minas Gerais (JEMG): esporte
educacional ou esporte de rendimento?
Minas Gerais School Games (JEMG): Educational Sport or Competitive Sport?
Juegos Escolares de Minas Gerais (JEMG): ¿deporte educativo o deporte competitivo?
Bruno de Cassio Coelho
*bruno.cassio@ufv.br
Arthur Patricio Canavarros
**arthur.canavarros@ufv.br
*Doutorando em Educação Física
pela Universidade Federal de Viçosa (UFV)
**Mestrando em Educação Física
pela Universidade Federal de Viçosa (UFV)
(Brasil)
Recepción: 17/10/2025 - Aceptación: 22/09/2026
1ª Revisión: 01/04/2026 - 2ª Revisión: 19/09/2026
Documento acessível. Lei N° 26.653. WCAG 2.0
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Cita sugerida
: Coelho, B. de R., y Canavarros, A.P. (2026). Jogos Escolares de Minas Gerais (JEMG): esporte educacional ou esporte de rendimento? Lecturas: Educación Física y Deportes, 31(342), 34-45. https://doi.org/10.46642/efd.v31i342.8599
Resumo
O Programa Minas Olímpica/Jogos Escolares de Minas Gerais (JEMG) constitui uma das principais políticas públicas esportivo-educacionais do Governo do Estado de Minas Gerais. Diante da tensão histórica entre as finalidades educativas declaradas pelo programa e sua operacionalização prática, objetivou-se analisar, na concepção dos professores participantes, a relação entre as ações práticas do JEMG e as políticas esportivas educacionais formalmente propostas, buscando responder se o programa se caracteriza, na prática, como esporte educacional ou como esporte de rendimento. Trata-se de pesquisa descritiva, de abordagem quantitativa, com amostra não probabilística e intencional (censo dos professores presentes), composta por 51 professores de Educação Física de 35 municípios mineiros, participantes das etapas municipal, microrregional e regional do JEMG em 2012. Os dados foram coletados por questionário estruturado, com 14 questões fechadas organizadas em blocos temáticos (perfil de formação, histórico de participação, critérios de seleção de equipes, percepção sobre a natureza do evento e intencionalidade do programa), aplicado após assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, e analisados por estatística descritiva. Os resultados indicaram que 94 % dos professores classificam o JEMG como esporte de rendimento e 90 % utilizam o desempenho esportivo como principal critério de seleção das equipes, evidenciando descompasso entre o discurso educacional do programa e sua operacionalização prática. Conclui-se que há distanciamento expressivo entre as políticas públicas propostas e sua caracterização prática, com ênfase crescente no rendimento esportivo em detrimento da dimensão educacional, recomendando-se estudos periódicos que acompanhem a intencionalidade e as práticas do programa nas diferentes regiões do Estado.
Unitermos:
Esporte educacional. Esporte de rendimento. JEMG. Políticas públicas esportivas. Educação Física escolar.
Abstract
The Minas Olímpica/Minas Gerais School Games program (JEMG) is one of the main sport-educational public policies of the State Government of Minas Gerais. Given the historical tension between the program's declared educational purposes and its practical implementation, this study aimed to examine, from the perspective of participating teachers, the relationship between the practical actions of the JEMG and the educational sport policies formally proposed by the program, seeking to determine whether it functions, in practice, as educational sport or competitive sport. This descriptive, quantitative study used a non-probabilistic, intentional sample (a census of teachers present), comprising 51 physical education teachers from 35 municipalities in Minas Gerais who participated in the municipal, micro-regional, and regional stages of the 2012 JEMG. Data were collected through a structured questionnaire with 14 closed questions organized into thematic blocks (professional background, participation history, team-selection criteria, perceptions of the event's nature, and program intentionality), administered after signature of an informed consent form, and analyzed using descriptive statistics. Results showed that 94 % of teachers classified the JEMG as competitive sport and 90 % used athletic performance as the main criterion for team selection, revealing a mismatch between the program's educational discourse and its practical implementation. The findings reveal a significant gap between proposed public policies and their implementation, with athletic performance increasingly overshadowing educational objectives. To address this disparity and better evaluate the program's true intent and regional execution, periodic studies are strongly recommended across all state regions to effectively monitor ongoing practices.
Keywords:
Educational sport. Competitive sport. JEMG. Sport public policy. School Physical Education.
Resumen
El programa Minas Olímpica/Jogos Escolares de Minas Gerais (JEMG) constituye una política pública clave del estado. Dada la tensión entre sus metas formativas y su ejecución real, este estudio cuantitativo y descriptivo analizó la relación entre las prácticas del JEMG y sus directrices educativas desde la perspectiva docente, evaluando si el programa se orienta al deporte educativo o al alto rendimiento. La investigación contó con una muestra no probabilística e intencional (censo de participantes) de 51 profesores de Educación Física, representantes de 35 municipios de Minas Gerais, quienes integraron las etapas municipal, microrregional y regional del JEMG en 2012. Los datos se recolectaron mediante un cuestionario estructurado de 14 preguntas cerradas, aplicado tras la firma del Formulario de Consentimiento Informado y analizado con estadística descriptiva. Las preguntas se organizaron en bloques temáticos: perfil de entrenamiento, historial de participación, criterios de selección, percepción del evento e intencionalidad del programa. Los resultados mostraron que el 94 % de los docentes clasifica los JEMG como deporte de alto rendimiento y el 90 % prioriza el rendimiento atlético para seleccionar sus equipos, evidenciando una discrepancia entre el discurso educativo y su aplicación práctica. Se concluye la existencia de una brecha entre las políticas públicas y su ejecución, con un énfasis desmedido en el rendimiento. Se recomienda realizar estudios periódicos para monitorear las intenciones y prácticas en el Estado.
Palabras clave
: Deporte educativo. Deporte de alto rendimiento. JEMG. Políticas públicas de deporte. Educación Física escolar.
Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 31, Núm. 342, Nov. (2026)
Introdução
O esporte constitui fenômeno social e cultural amplamente reconhecido por sua contribuição ao desenvolvimento integral dos indivíduos, associando-se a valores como cidadania, participação e autonomia (Brasil, 1988). No âmbito educacional brasileiro, o esporte escolar assume papel central nas práticas pedagógicas e nas políticas públicas voltadas à formação integral, à inclusão social e ao desenvolvimento de competências cognitivas, sociais e motoras dos estudantes (Ramos et al., 2025). No âmbito curricular, os Conteúdos Básicos Comuns (CBC) de Educação Física de Minas Gerais também orientam a abordagem do esporte como conteúdo da Educação Física escolar, articulando sua prática às dimensões formativas e pedagógicas do componente curricular (CBC, 2006; CBC, 2019). A política nacional de Educação Física e esporte escolar reafirma essa função ao destacar a importância de práticas que ultrapassem a reprodução técnica, favorecendo reflexões críticas sobre seus significados e efeitos no ambiente escolar. (Sevegnani et al., 2019)
Nesse contexto, o Programa Minas Olímpica, por meio dos Jogos Escolares de Minas Gerais (JEMG), constitui uma das principais políticas públicas de esporte educacional do Estado de Minas Gerais, voltada à ampliação da participação de estudantes do ensino fundamental e médio em atividades esportivas e paradesportivas, à integração social, ao exercício da cidadania e à identificação de novos talentos esportivos (Morais de Aquino, 2024; Governo de Minas Gerais, 2025). As competições organizam-se em etapas municipal, microrregional, regional e estadual, mobilizando expressivo número de escolas públicas e privadas e envolvendo, historicamente, milhares de professores e estudantes em todo o território mineiro.
Não obstante os objetivos educacionais formalmente declarados, estudos realizados em programas de jogos escolares em diferentes estados brasileiros têm identificado tensão persistente entre o discurso educacional proposto e sua operacionalização prática, marcada por forte seletividade, ênfase em resultados e reprodução de lógicas próprias do esporte de rendimento (Oliveira, e Oliveira, 2019; Santos, 2008; Santos, e Figueiredo, 2022). Ao investigar os Jogos Escolares do Rio Grande do Norte, Santos, e Figueiredo (2022) constataram direcionamento semelhante ao alto rendimento, distorcendo os princípios formativos originalmente propostos para o evento. De modo próximo, Coelho, e Santos (2022) discutem como o investimento público municipal em esporte tende a privilegiar o rendimento em detrimento das dimensões educacional e de participação. No plano internacional, pesquisas sobre esporte escolar também apontam tensão semelhante entre a lógica formativa da Educação Física escolar e a lógica competitiva assumida quando professores acumulam a função de técnicos de equipes representativas (DiSanti et al., 2019; Morais, Marinho, Castro, e Barbosa, 2021), evidenciando tratar-se de fenômeno não exclusivo do contexto brasileiro.
Essa dualidade suscita um problema de pesquisa relevante: em que medida a operacionalização prática do JEMG, na percepção dos professores que nela atuam diretamente — muitas vezes acumulando funções pedagógicas e de técnicos das equipes representativas —, corresponde às finalidades educacionais formalmente propostas pelo programa? Os dados que fundamentam o presente estudo foram coletados em 2012, junto a professores participantes das etapas municipal, microrregional e regional do JEMG daquele ano, no âmbito de um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) em Educação Física. A sistematização e a publicação desses achados somente agora se justificam pelo caráter de registro histórico que assumem: tratando-se de um dos primeiros levantamentos sistemáticos sobre a percepção docente a respeito da natureza educacional ou competitiva do programa, os resultados oferecem um retrato de referência da primeira década de consolidação do JEMG, permitindo comparações longitudinais com estudos mais recentes sobre o mesmo fenômeno (Santos, e Figueiredo, 2022; Coelho, e Santos, 2022) e contribuindo para a análise da persistência, ao longo do tempo, da tensão entre esporte educacional e esporte de rendimento nos jogos escolares brasileiros.
Diante do exposto, o presente estudo teve como objetivo analisar, na concepção dos professores participantes, a relação entre as ações práticas do JEMG e as políticas esportivas educacionais formalmente propostas pelo programa, buscando compreender se, em sua operacionalização, predomina uma lógica de esporte educacional ou de esporte de rendimento.
Métodos
Delineamento e participantes
Trata-se de pesquisa descritiva, de abordagem quantitativa (Gil, 2008; Creswell, e Creswell, 2018), realizada com 51 professores de Educação Física participantes do Programa Minas Olímpica/JEMG no ano de 2012, atuantes em 35 municípios de Minas Gerais, majoritariamente das regiões da Zona da Mata e do Vale do Aço. A amostragem foi não probabilística e de caráter intencional, constituída pelo censo dos professores responsáveis pelas equipes escolares presentes nas etapas municipal, microrregional e regional do evento durante o período de coleta, critério de inclusão que assegurou o acesso direto a profissionais diretamente envolvidos na operacionalização do programa.
Por se tratar de amostragem não probabilística por censo da população acessível, e não de amostragem probabilística extraída de uma população maior, não se aplicou cálculo amostral baseado em margem de erro e nível de confiança, procedimento reconhecido como adequado a estudos descritivos e exploratórios que investigam a totalidade dos sujeitos acessíveis em determinado evento ou contexto (Gil, 2008; Creswell, e Creswell, 2018; Thomas, Nelson, e Silverman, 2015). Reconhece-se, como limitação metodológica, que o caráter não probabilístico da amostra restringe a generalização estatística dos resultados para o conjunto de professores do Estado, aspecto retomado na seção de limitações do estudo.
Instrumento de coleta de dados
Os dados foram coletados por meio de questionário estruturado, elaborado pelos autores com base no referencial teórico sobre esporte escolar, políticas públicas esportivas e esporte educacional, e orientado por instrumentos utilizados em estudos anteriores sobre a temática dos Jogos Escolares de Minas Gerais (Senra, 2020; Abade et al., 2022.).
O instrumento foi constituído por 14 questões fechadas, organizadas em cinco blocos temáticos: (a) perfil de formação profissional (tipo de habilitação — licenciatura, bacharelado ou formação em andamento — e tempo de participação no JEMG); (b) histórico de participação no programa (número de edições e etapas já disputadas); (c) percepção sobre a relevância educativa e o potencial emancipatório do evento; (d) critérios adotados para a seleção e composição das equipes escolares; e (e) percepção sobre a natureza do evento (esporte educacional, participativo ou de rendimento), sobre a intencionalidade do Programa Minas Olímpica e sobre o alcance de suas finalidades declaradas, incluindo questões sobre apoio financeiro por etapa, inclusão de novas modalidades e participação em modalidades paralímpicas.
O instrumento foi submetido à apreciação da orientação do TCC previamente à aplicação, procedimento que conferiu validade de conteúdo à luz do referencial teórico adotado. Não foi realizado, contudo, procedimento formal de validação psicométrica (por exemplo, teste piloto com análise de consistência interna via alfa de Cronbach), o que constitui limitação reconhecida do estudo e é retomado na seção de limitações.
Procedimentos de coleta e aspectos éticos
A coleta de dados ocorreu entre abril e junho de 2012, durante reuniões técnicas e momentos institucionais de organização das etapas municipal, microrregional e regional do JEMG, mediante aplicação presencial do questionário aos professores responsáveis pelas equipes escolares. Previamente à aplicação, todos os participantes foram informados sobre os objetivos da pesquisa e assinaram Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), sendo assegurados os princípios éticos de participação voluntária, sigilo e anonimato das respostas, em conformidade com a Resolução CNS nº 196/1996, vigente à época da coleta.
Registra-se, com transparência, que o estudo originado de Trabalho de Conclusão de Curso realizado em 2012 não dispõe, no momento desta submissão, do número de parecer de aprovação por Comitê de Ética em Pesquisa (CEP), documentação que os autores buscam localizar junto ao arquivo institucional da instituição de origem. Ainda que os cuidados éticos essenciais tenham sido observados por meio do TCLE, essa ausência é assumida como limitação formal do estudo, retomada na seção correspondente.
Análise dos dados
As respostas foram tabuladas em planilha eletrônica (Microsoft Excel®) e submetidas a análise estatística descritiva, com cálculo de frequências absolutas e relativas, apresentadas em gráficos de barras e colunas. Em razão do caráter censitário e não probabilístico da amostra, não foram aplicados testes estatísticos inferenciais (por exemplo, testes de associação ou comparação entre subgrupos), uma vez que tais procedimentos pressupõem amostragem probabilística para permitir inferências à população mais ampla (Gil, 2008; Thomas, Nelson, e Silverman, 2015). Essa opção metodológica é assumida como limitação do estudo, recomendando-se que investigações futuras, com amostras probabilísticas de maior amplitude, incorporem análise estatística inferencial para aprofundar a robustez dos achados.
Resultados
Perfil da amostra
Participaram do estudo 51 professores de Educação Física responsáveis por equipes escolares em 35 municípios de Minas Gerais, majoritariamente das regiões da Zona da Mata e do Vale do Aço. Quanto à formação profissional, 72,5 % possuíam Licenciatura em Educação Física, 19,5 % apresentavam formação simultânea em Licenciatura e Bacharelado e 8 % ainda cursavam a graduação no período da coleta. Não foi possível, a partir do instrumento aplicado em 2012, resgatar a distribuição por sexo, faixa etária e escolaridade individual dos participantes, uma vez que tais variáveis não constaram do questionário original; essa ausência é assumida como limitação do estudo, recomendando-se que investigações futuras incluam a caracterização sociodemográfica completa da amostra.
Participação, percepção educativa e critérios de seleção
Quanto ao histórico de participação no programa, verificou-se que 40 % dos professores já haviam participado de seis ou mais edições do JEMG, 20 % de cinco edições, 20 % de quatro edições, 13 % de três edições, 5 % de duas edições e apenas 2 % relataram tratar-se da primeira participação (Figura 1), indicando expressiva experiência acumulada da amostra com a dinâmica do evento.
Figura 1. Número de participações dos professores em edições do JEMG
Fonte: Dados de pesquisa
No que se refere à percepção sobre o potencial educativo do programa, 96 % dos professores reconheceram o JEMG como iniciativa relevante para a formação acadêmica e social dos estudantes, e 86 % concordaram que a competição, quando orientada pedagogicamente, pode constituir ferramenta educativa de promoção da cidadania.
Quanto ao critério utilizado para a composição das equipes escolares, 90 % dos professores relataram adotar o desempenho esportivo como principal critério de seleção dos alunos, 6 % mencionaram a afinidade e 4 % o desempenho escolar (Figura 2).
Figura 2. Método utilizado para a montagem das equipes que disputam o JEMG
Fonte: Dados de pesquisa
Classificação do evento e intencionalidade do programa
Ao serem questionados sobre a classificação do JEMG quanto à natureza do evento, 94 % dos professores classificaram o programa como esporte de rendimento, 4 % como esporte educacional e 2 % como esporte participativo (Figura 3).
Figura 3. Classificação do JEMG quanto à manifestação esportiva
Fonte: Dados de pesquisa
Quanto à intencionalidade percebida do Programa Minas Olímpica, 69 % dos professores apontaram a indicação de representantes do Estado em competições nacionais como principal objetivo do programa, seguida por promoção do intercâmbio socioesportivo (14 %), contribuição para o desenvolvimento integral do aluno (12 %) e identificação de novos talentos esportivos (3 %) (Figura 4).
Figura 4. Intencionalidade atribuída ao Programa Minas Olímpica
Fonte: Dados de pesquisa
Em relação ao alcance das finalidades formalmente propostas pelo programa, 77 % dos professores consideraram que os objetivos são atingidos parcialmente, 17 % responderam que não são atingidos e apenas 6 % consideraram que são plenamente alcançados (Figura 5).
Figura 5. Percepção sobre o alcance das finalidades do Programa Minas Olímpica
Fonte: Dados de pesquisa
Apoio financeiro, novas modalidades e inclusão paralímpica
Quanto às etapas em que o apoio financeiro do governo estadual foi considerado fundamental, 96 % dos professores indicaram a necessidade de apoio em todas as etapas do programa, e 4 % apontaram especificamente a etapa municipal (Figura 6).
Figura 6. Etapas em que o apoio financeiro do governo do Estado foi considerado fundamental
Fonte: Dados de pesquisa
No que concerne à inclusão de novas modalidades no JEMG 2012 — ginástica artística, ginástica rítmica, ginástica de trampolim e taekwondo —, 100 % dos professores relataram não desenvolver nenhuma dessas modalidades em suas escolas (Figura 7). De modo semelhante, nenhum professor relatou desenvolver modalidades paralímpicas em suas escolas, ainda que o regulamento do JEMG 2012 previsse dez modalidades paralímpicas nos naipes masculino e feminino. (Minas Olímpica, 2012)
Figura 7. Novas modalidades incluídas no JEMG 2012 desenvolvidas pelos professores em suas escolas
Fonte: Dados de pesquisa
Por fim, quanto à etapa de maior relevância já alcançada pelas escolas dos professores participantes, 38 % relataram a etapa microrregional e 38 % a etapa regional, 18 % a etapa estadual, 4 % a etapa municipal e 2 % relataram participação nos Jogos Escolares Brasileiros JEB's (Figura 8).
Figura 8. Etapa de maior relevância já alcançada pela escola do professor participante
Fonte: Dados de pesquisa
Discussão
Os achados relativos à formação profissional dos participantes reforçam questão central levantada pela literatura da área: a atuação dos professores de Educação Física no JEMG frequentemente extrapola o papel pedagógico previsto para a Licenciatura, aproximando-se das atribuições de um técnico esportivo (Reverdito, Carvalho, e Gonçalves, 2016). Conforme a regulamentação vigente, a Licenciatura habilita o profissional para a docência na educação básica, com foco no planejamento pedagógico e no desenvolvimento de práticas educativas, enquanto o Bacharelado destina-se a contextos não escolares, saúde, lazer, treinamento esportivo e programas sociais, não habilitando, formalmente, para a docência (Resolução CNE/CP nº 1/2002; Resolução CNE nº 7/2004; Conselho Federal de Educação Física, 2006). No presente estudo, contudo, verificou-se que a totalidade dos participantes, inclusive os licenciados que atuou, na prática, como técnico das equipes escolares representativas, acumulando funções pedagógicas e de treinamento esportivo durante a preparação e a disputa do JEMG. Esse acúmulo de papéis é discutido na literatura internacional sobre esporte escolar: DiSanti et al. (2019) observam que, em contextos de esporte escolar, professores que assumem a função de técnico tendem a incorporar valores e práticas orientadas ao rendimento, mesmo quando sua formação de origem é pedagógica, fenômeno que Morais, Marinho, Castro, e Barbosa (2021) associam à tensão entre especialização precoce e desenvolvimento de longo prazo no esporte juvenil. No contexto brasileiro, esse mesmo acúmulo de papéis, professor-treinador tem sido apontado como fator que favorece a reprodução, no ambiente escolar, de lógicas e critérios próprios do esporte de alto rendimento. (Cardoso, Motta, Belli, e Galatti, 2023)
Essa tensão entre formação pedagógica e atuação como técnico ajuda a compreender o achado mais expressivo deste estudo: 90 % dos professores relataram adotar o desempenho esportivo, e não critérios pedagógicos como participação, disciplina ou frequência escolar, como principal parâmetro de seleção dos alunos para compor as equipes do JEMG. A sobreposição das funções de professor de Educação Física e treinador pode gerar conflitos entre as demandas, responsabilidades e expectativas associadas a esses diferentes papéis, especialmente quando as exigências relacionadas ao treinamento e à competição entram em tensão com as responsabilidades pedagógicas da docência (Richards, e Templin, 2012). No presente estudo, essa possível tensão manifesta-se na adoção do desempenho esportivo como principal critério para a seleção dos estudantes às equipes representativas. Tal resultado converge com o observado por Santos e Figueiredo (2022) nos Jogos Escolares do Rio Grande do Norte, nos quais os princípios do esporte educacional voltados à formação de um cidadão crítico e reflexivo mostraram-se distorcidos por valores de competição, rivalidade e treinamento característicos do esporte de rendimento. De modo semelhante, Coelho, e Santos (2022), ao analisarem políticas públicas municipais de esporte, identificaram tendência de priorização do rendimento em detrimento das dimensões educacional e de participação, mesmo quando o desenho formal das políticas aponta para objetivos educativos.
A percepção de que o JEMG configura-se, majoritariamente, como esporte de rendimento (94 % dos professores) e não como esporte educacional (4 %) ou participativo (2 %) corrobora a crítica de Bracht (2003) e Daolio (2005) quanto ao risco de os jogos escolares reproduzirem, sem a devida mediação pedagógica, o modelo do esporte de alto rendimento, orientado por regras e lógicas de resultado próprias da legislação esportiva nacional (Lei nº 9.615/1998). Esse descompasso é particularmente relevante quando confrontado com a intencionalidade atribuída ao programa pelos próprios professores: 69 % identificaram como principal objetivo do JEMG a indicação de representantes do Estado para competições nacionais, finalidade tipicamente associada ao rendimento e não a promoção do desenvolvimento integral do aluno (12 %) ou o intercâmbio socioeducativo (14 %), ainda que estes últimos figurem entre os objetivos formalmente declarados no regulamento do programa. Some-se a isso o dado de que 77 % dos professores consideram que as finalidades do programa são alcançadas apenas parcialmente, o que sinaliza hiato relevante entre o discurso institucional e sua efetivação prática, na linha do que também discutem, em outros estados, Sevegnani et al. (2019) e Ramos et al. (2025) ao analisarem o planejamento das políticas de esporte educacional no Brasil entre 2003 e 2024.
Quanto ao apoio financeiro, a quase unanimidade dos professores (96 %) que o consideram fundamental em todas as etapas do programa sinaliza a percepção de que a sustentabilidade do JEMG, incluindo a viabilização de deslocamentos, materiais e preparação das equipes, depende de investimento público robusto e contínuo, corroborando discussões sobre a relação entre financiamento público e consolidação do esporte educacional (Oliveira, 2011; Ministério do Esporte, 2012). Já os resultados referentes à ausência de participação das escolas em novas modalidades incluídas em 2012 (ginástica artística, ginástica rítmica, ginástica de trampolim e taekwondo) e em modalidades paralímpicas reforçam desigualdades estruturais historicamente associadas ao esporte escolar público, uma vez que tais modalidades demandam infraestrutura, materiais específicos e formação continuada mais frequentemente disponíveis em instituições privadas, questão também discutida, em outro contexto, por Thompson et al. (2022) ao analisarem escolas com estrutura esportiva diferenciada. Esse cenário aponta para a necessidade de políticas específicas de fomento à inclusão paradesportiva e à diversificação de modalidades nas escolas públicas mineiras, sob pena de o próprio caráter inclusivo do JEMG permanecer apenas no plano normativo.
Conclusões
O Programa Minas Olímpica - Jogos Escolares de Minas Gerais (JEMG) consolida-se como relevante política pública de esporte escolar no Estado, ampliando o acesso à prática esportiva e promovendo integração, sociabilidade e experiências formativas entre os estudantes. Os resultados deste estudo, contudo, evidenciam distanciamento expressivo entre os objetivos educacionais formalmente propostos pelo programa e sua caracterização prática na percepção dos professores participantes, os quais reconhecem o JEMG, majoritariamente, como evento de esporte de rendimento, conduzido sob critérios de seleção e intencionalidade mais alinhados à busca por resultados competitivos do que à formação integral dos estudantes.
Esse distanciamento relaciona-se, em parte, ao acúmulo de funções pedagógicas e de treinamento esportivo exercido pelos professores, que atuam simultaneamente como educadores e como técnicos das equipes representativas, papel que tende a favorecer a incorporação de valores e práticas do esporte de rendimento no contexto escolar. Ainda assim, os professores reconhecem o potencial educativo do JEMG e sua relevância para a formação cidadã dos estudantes, condicionando esse potencial a maior suporte pedagógico, financeiro e estrutural por parte do poder público.
Recomenda-se, para estudos futuros, a realização de investigações periódicas, com amostras probabilísticas mais amplas e caracterização sociodemográfica completa dos participantes, contemplando também a percepção de gestores, estudantes e demais atores da comunidade escolar, de modo a subsidiar o aperfeiçoamento das estratégias de implementação do Programa Minas Olímpica e o fortalecimento de seu caráter educacional nas diferentes regiões de Minas Gerais.
Limitações do estudo
Este estudo apresenta limitações que devem ser consideradas na interpretação dos resultados. Primeiramente, a amostra foi não probabilística e de caráter censitário, restrita aos professores presentes nas etapas do JEMG 2012 em determinadas regiões do Estado, o que limita a generalização estatística dos achados para o conjunto de professores mineiros e para edições posteriores do programa; por esse mesmo motivo, não foi realizado cálculo amostral nem análise estatística inferencial. Em segundo lugar, o instrumento de coleta não contemplou variáveis sociodemográficas individuais dos participantes (sexo, idade e escolaridade), impossibilitando sua caracterização detalhada, e não foi submetido a procedimento formal de validação psicométrica, ainda que tenha sido fundamentado em literatura da área e apreciado pela orientação do estudo.
Em terceiro lugar, os dados foram obtidos por meio de questionário autoaplicável, baseando-se exclusivamente na percepção dos docentes, o que pode implicar vieses de subjetividade nas respostas, e o estudo não contemplou a visão de outros atores envolvidos, como gestores, alunos e famílias. Por fim, registra-se que o estudo, originado de Trabalho de Conclusão de Curso realizado em 2012, não dispõe, nesta submissão, do número de parecer de Comitê de Ética em Pesquisa, ainda que os princípios éticos de pesquisa com seres humanos vigentes à época tenham sido observados por meio do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.
Referências
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Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 31, Núm. 342, Nov. (2026)