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ISSN 1514-3465

 

Teoria dos cercamentos afetivos do comum esportivo. Governamentalidade

do desejo, tarifa do pertencimento e necropresença no futebol de elite

Theory of Affective Enclosures of the Sporting Common. Governmentality

of Desire, Belonging Fee and Necropresence in Elite Soccer

Teoría de los recintos afectivos en los espacios deportivos comunes. La gubernamentalidad

del deseo, el valor de la pertenencia y la necropresencia en el fútbol de élite

 

Adriano Menino de Macêdo Júnior

adrianomenino2016@gmail.com

 

Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Letras

na Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (PPGL/UERN)

Pesquisador no Grupo de Estudo do Discurso

na Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (GEDUERN/UERN)

Farmacêutico-Bioquímico pelo Centro Universitário Natalense (UNICEUNA)

Bolsista pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES)

(Brasil)

 

Recepción: 07/10/2025 - Aceptación: 18/03/2026

1ª Revisión: 08/12/2025 - 2ª Revisión: 14/03/2026

 

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Cita sugerida: Macedo Junior, A.M. de (2026). Teoria dos cercamentos afetivos do comum esportivo. Governamentalidade do desejo, tarifa do pertencimento e necropresença no futebol de elite. Lecturas: Educación Física y Deportes, 31(336), 29-62. https://doi.org/10.46642/efd.v31i336.8583

 

Resumo

    O estudo tem como objetivo descrever as condições discursivas que permitem a constituição do futebol de elite como dispositivo de governo do sensível, examinando de que modo os cercamentos afetivos do comum esportivo produzem e delimitam pertencimento e visibilidade ao converter o amor torcedor em lógica de acesso, pagamento e exclusividade. A investigação adota o método arqueogenealógico, articulando dois movimentos: na arqueologia, a reconstituição das regras de formação que estabilizam a equivalência amor ↔ acesso ↔ pagamento; na genealogia, o rastreamento das técnicas, contingências e contracondutas que operacionalizam e, por vezes, fraturam essa equivalência. O corpus empírico abrange quatro frentes: o debate público sobre o afastamento de torcedores do Maracanã; as intervenções de coletivos no espaço urbano; os protestos sob o lema “ingresso caro, arquibancada vazia”; e reportagens comparativas sobre o custo de entrada para visitantes. Os resultados evidenciam cercamentos afetivos que submetem a pertença a um teste de solvência; a contabilidade do afeto que traduz a vitalidade coletiva em métricas de receita; e uma tarifa do pertencimento que performa a equivalência amor ↔ compra por meio de setorização, fidelização e preços dinâmicos. Revelam também a necropresença e a governamentalidade do desejo que administram diferencialmente presenças e ausências, normalizando vazios como ruídos de gestão; e contradispositivos que reabrem o comum, como redes solidárias e pautas por reciprocidades. Conclui-se que o espetáculo futebolista mercantiliza o afeto ao converter amor em assinatura e presença em ticket médio, mas ainda abriga brechas regulatórias e coletivas para a restituição do comum.

    Unitermos: Necropresença. Futebol de elite. Arqueogenealogia.

 

Abstract
    The study aims to describe the discursive conditions that enable the constitution of elite soccer as a devise for governing the sensible, examining how the affective enclosures of the sporting commons produce and delimit belonging and visibility by converting supporters’ love into a logic of access, payment, and exclusivity. The investigation adopts an archeogenealogical method that articulates two movements: in the archaeological dimension, the reconstruction of the rules of formation that stabilize the equivalence love ↔ access ↔ payment; and in the genealogical dimension, the tracing of techniques, contingencies, and counter-conducts that operationalize and at times fracture this equivalence. The empirical corpus comprises four fronts: the public debate on the exclusion of fans from Maracanã Stadium; the interventions of collectives in urban space; the protests under the slogan “expensive ticket, empty stands”; and comparative reports on ticket prices for visiting supporters. The results indicate affective enclosures that subject belonging to a solvency test; an affect accounting that translates collective vitality into revenue metrics; and a belonging tariff that performs the love-purchase equivalence through sectorization, loyalty programs, and dynamic pricing. They also reveal necropresence and the governmentality of desire, which differentially manage presences and absences, normalizing emptiness as managerial “noise”; and counter-devices that reopen the commons, such as solidarity networks and agendas based on reciprocity. It is concluded that the soccer spectacle commodifies affect by converting love into subscription and presence into average ticket value, yet still harbors regulatory and collective breaches that allow for the restitution of the common.

    Keywords: Necropresence. Elite soccer. Archaeogenealogy.

 

Resumen

    Este estudio pretende describir las condiciones discursivas que permiten que el fútbol de élite se constituya como un dispositivo para gobernar lo sensible, examinando cómo los recintos afectivos de bienes comunes deportivos producen y delimitan pertenencia y visibilidad al convertir el amor de aficionados en una lógica de acceso, pago y exclusividad. La investigación adopta el método arqueogenealógico, articulando: en arqueología, la reconstrucción de las reglas de formación que estabilizan equivalencia amor ↔ acceso ↔ pago; en genealogía, el rastreo de técnicas, contingencias y contraconductas que operacionalizan y, ocasionalmente, fracturan esta equivalencia. El corpus empírico abarca cuatro frentes: el debate público sobre la exclusión de aficionados del estadio Maracaná; las intervenciones de colectivos en el espacio urbano; las protestas bajo el lema "entradas caras, tribunas vacías"; e informes comparativos sobre el coste de entrada para visitantes. Los resultados muestran recintos afectivos que someten la pertenencia a una prueba de solvencia; la contabilidad del afecto traduce la vitalidad colectiva en métricas de ingresos; y una tarifa de pertenencia realiza la equivalencia amor ↔ compra a través de la sectorización, programas de fidelización y fijación dinámica de precios. También revelan la necropresencia y la gubernamentalidad del deseo, que normalizan ausencias como ruido administrativo. Frente a esto, surgen redes de solidaridad y reciprocidad para recuperar lo común. Aunque el espectáculo futbolístico mercantiliza el afecto, transformando el amor en suscripciones y la presencia en precios de entradas, aún persisten fisuras regulatorias y espacios colectivos que permiten la resistencia y la restitución del terreno compartido.

    Palabras clave: Necropresencia. Fútbol de élite. Arqueogenealogía.

 

Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 31, Núm. 336, May. (2026)


 

Introdução 

 

    Nas últimas décadas, o futebol profissional de alta performance vem sendo reconfigurado por processos de financeirização, midiatização e plataformização que alteram, simultaneamente, a economia do espetáculo e a ecologia social do torcer. O que antes se organizava, em larga medida, como experiência pública densa — marcada pela copresença, por repertórios corporais e sonoros e por formas populares de sociabilidade — passa a ser atravessado por arquiteturas de acesso baseadas em setorização, programas de associação, precificação dinâmica, pacotes de hospitalidade e exclusividades de transmissão, produzindo um cenário recorrente de arquibancadas parcializadas, deslocamento do público historicamente popular e conflitos explícitos em torno do “preço do ingresso” e do “direito de estar”.

 

    A partir da problemática formulada por Pierre Bourdieu em A distinção: crítica social do julgamento, o problema desta pesquisa não pode ser formulado em termos de mera elevação de preços, modernização administrativa dos estádios ou simples mutação comportamental do torcedor, porque tais descrições permanecem na superfície fenomênica de um processo cujo núcleo é relacional, classificatório e distintivo. Se, como afirma Bourdieu (2007, p. 95), “a compreensão completa das disposições que orientam as escolhas entre os bens da cultura legítima só é possível com a condição de reinseri-las na unidade do sistema das disposições”, então o torcer, o estar no estádio, o poder pagar, o preferir determinados setores, modos de acesso, regimes de associação e formas de consumo do espetáculo não podem ser lidos como escolhas isoladas nem como preferências espontâneas, mas como práticas inscritas em um espaço social estruturado, no qual “o gosto, enquanto ‘faculdade de julgar valores estéticos de maneira imediata e intuitiva’, é indissociável do gosto no sentido de capacidade para discernir os sabores próprios dos alimentos que implica a preferência por alguns deles” (Bourdieu, 2007, p. 95). Em outras palavras, o futebol de elite contemporâneo deixa de ser apenas um espetáculo esportivo e passa a operar como mercado de distinções, no qual os modos legítimos de presença, os ritmos de adesão, os padrões de consumo e as formas socialmente valorizadas de pertencimento são produzidos e hierarquizados de acordo com a distribuição desigual do capital econômico, cultural e social.

 

    É precisamente nesse ponto que se instaura o problema central deste estudo: de que modo a reconfiguração recente do futebol profissional de alta performance, por meio da financeirização, da plataformização, da setorização dos estádios, da precificação diferenciada, dos programas de sócio-torcedor, dos pacotes premium e das exclusividades de transmissão, converte o pertencimento torcedor em bem raro, distintivo e diferencialmente acessível, fazendo com que a presença no estádio deixe de funcionar como forma relativamente compartilhada de copresença popular para tornar-se prática seletiva de distinção social? A pertinência dessa pergunta decorre do fato de que, para Bourdieu (2007, p. 96), “o consumo dos bens culturais mais legítimos é um caso particular de concorrência pelos bens e práticas raras”, de tal sorte que a análise do acesso ao estádio de futebol não deve partir da suposição economicista de que os consumidores percebem uniformemente os mesmos atributos objetivos do produto, mas da necessidade de compreender “o que advém aos produtos na relação com os consumidores, ou seja, com as disposições que definem suas propriedades úteis e seus usos reais”. O ingresso, o plano de fidelização, a cadeira cativa, o lounge, o setor hospitality ou a transmissão exclusiva não são, portanto, simples mercadorias neutras; eles adquirem valor social na relação entre suas “possibilidades e impossibilidades” objetivas e as “disposições de um agente ou de uma classe de agentes” (Bourdieu, 2007, p. 96), isto é, os esquemas de percepção, apreciação e ação que tornam alguns usos possíveis, desejáveis e legítimos, e outros improváveis, custosos ou simbolicamente desqualificados.

 

    Nessa chave, a questão não consiste apenas em verificar se o torcedor popular foi economicamente afastado, mas em compreender como esse afastamento se torna socialmente inteligível, moralmente justificável e simbolicamente naturalizado. Isso exige abandonar a leitura linear e monofatorial do fenômeno, já que, como adverte Bourdieu (2007, p. 101), “a classe social não é definida por uma propriedade”, nem por uma simples soma de atributos, “mas pela estrutura das relações entre todas as propriedades pertinentes que confere seu valor próprio a cada uma delas e aos efeitos que ela exerce sobre as práticas”. Assim, o problema da pesquisa não pode ser reduzido ao preço do ingresso, porque o que está em jogo é a articulação entre renda, escolarização, localização urbana, familiaridade com os códigos legítimos de consumo, disponibilidade temporal, formas de sociabilidade, trajetórias de classe e modalidades de capital herdado ou adquirido. Em termos bourdieusianos, o estádio contemporâneo deve ser pensado como espaço atravessado por lutas em torno de diferentes “capacidades de apropriação específica” (Bourdieu, 2007, p. 114), nas quais determinados grupos conseguem transformar sua posição no espaço social em possibilidade material e simbólica de ocupar os lugares mais valorizados da experiência futebolística, enquanto outros são empurrados para fora, física ou simbolicamente, do ritual.

 

    Desse modo, o problema não é apenas econômico, mas propriamente sociológico: trata-se de saber como práticas aparentemente dispersas — comprar ingresso antecipado, aderir a planos de associação, aceitar a segmentação espacial do estádio, consumir produtos oficiais, valorizar conforto, segurança, exclusividade e conveniência — se unificam como estilo de relação com o futebol. Nesse sentido, Bourdieu (2007, p. 97) oferece a matriz para essa formulação quando sustenta que a análise deve retornar “ao princípio unificador e gerador das práticas, ou seja, ao habitus de classe, como forma incorporada da condição de classe e dos condicionamentos que ela impõe”. Isso significa que o torcer não é uma essência indiferenciada, mas uma prática socialmente produzida, e que o estádio é um lugar onde se manifestam, de modo condensado, “estilos de vida distintos e distintivos” (Bourdieu, 2007, p. 97). Sob tal perspectiva, a elitização do futebol não aparece simplesmente como exclusão de renda, mas como imposição de um modo legítimo de fruição do espetáculo, no qual determinadas disposições — silêncio relativo, consumo individualizado, busca de conforto, moderação corporal, adesão às mediações tecnológicas, confiança nos dispositivos de controle, aceitação da experiência premium — tendem a ganhar centralidade, enquanto outras — aglomeração, copresença ruidosa, improviso popular, sociabilidade densa, corporalidade expansiva, ocupação menos disciplinada do espaço — tornam-se progressivamente estigmatizadas, marginalizadas e/ou expulsas.

 

    Com isso, o futebol de espetáculo, ao reorganizar seus regimes de acesso e fruição, transforma o estádio em espaço de classificação social no qual se distribuem diferencialmente presenças, visibilidades e legitimidades, convertendo o pertencimento torcedor em prática de distinção? Essa formulação encontra respaldo na proposição bourdieusiana segundo a qual “os estilos de vida são essencialmente distintivos”, de maneira que “numerosos traços só adquirem verdadeiro sentido se forem colocados em relação não só com as posições sociais que eles exprimem, mas também com os traços situados em outro polo do espaço” (Bourdieu, 2007, p. 120). No caso do futebol, isso significa que o torcedor premium só se define plenamente em oposição ao torcedor popular; o setor hospitality só adquire seu valor pela distância em relação à arquibancada ordinária; a associação fidelizada só se converte em signo prestigioso porque outros são relegados à fila, à demora, ao preço cheio ou à exclusão. O pertencimento, portanto, deixa de ser vínculo comum e passa a operar como capital diferencialmente distribuído.

 

    Além disso, a problemática bourdieusiana permite compreender que tal processo não é estático, mas dinâmico e concorrencial. Ao insistir em que o espaço social deve ser construído segundo o “volume e [a] estrutura do capital assim como [a] evolução no tempo dessas duas propriedades”, Bourdieu (2007, p. 107) obriga a reconhecer que o torcer contemporâneo também é atravessado por trajetórias, reconversões e disputas por reposicionamento. Certos grupos, outrora mais afastados dos bens legítimos do consumo esportivo premium, passam a investir nesses bens como forma de ascensão simbólica; outros, antes estabilizados em posições dominantes, intensificam estratégias de fechamento, rarificação e exclusividade para conservar distância. O resultado é que o futebol de elite se torna um dos espaços em que se observa, a “dialética da desclassificação e da reclassificação” (Bourdieu, 2007, p. 157), pela qual os agentes lutam para não perder posição e, ao mesmo tempo, para distinguir-se daqueles que se aproximam. Assim, a elevação de preços, a sofisticação da experiência, a curadoria de públicos e a multiplicação de barreiras de acesso não são acidentes laterais do mercado esportivo, mas instrumentos pelos quais se mantém “o conjunto das distâncias, diferenças, posições, precedências, prioridades, exclusividades, distinções, propriedades ordinais” (Bourdieu, 2007, p. 157) que organizam a estrutura social.

 

    Em consequência, este estudo se justifica porque pretende romper com duas ilusões correlatas que Bourdieu (2007) combate energicamente: de um lado, a ilusão espontaneísta, segundo a qual o gosto torcedor seria natural, autogerado e indiferente às condições sociais de produção; de outro, a ilusão economicista, segundo a qual bastaria descrever preços, oferta e demanda para explicar quem entra, quem permanece e quem é afastado. Contra ambas, a investigação parte do princípio de que “os produtos não são objetivos no sentido atribuído, habitualmente, a esta palavra”, uma vez que seus usos e valores são produzidos na relação com disposições socialmente diferenciadas, e de que “o habitus permite estabelecer uma relação inteligível e necessária entre determinadas práticas e uma situação” (Bourdieu, 2007, p. 96). Por isso, o verdadeiro problema da pesquisa consiste em analisar como os dispositivos contemporâneos de organização do futebol de elite produzem, sob a aparência de eficiência, modernização e experiência aprimorada, uma redistribuição socialmente desigual das possibilidades de torcer, em que o acesso ao estádio, a forma legítima do consumo esportivo e a própria inteligibilidade do pertencimento são redefinidos segundo a lógica da distinção. Em síntese, pergunta-se aqui como o estádio, outrora símbolo denso de copresença popular, vai sendo convertido em espaço de rarificação socialmente regulada, no qual o torcedor não apenas assiste ao jogo, mas é ele próprio classificado, hierarquizado e distinguido segundo a posição que ocupa no espaço social e segundo o volume, a estrutura e a trajetória dos capitais que pode mobilizar.

 

    Essa problematização ganha densidade adicional quando articulada à leitura configuracional de Norbert Elias, e Eric Dunning (1992, p. 282), para os quais o futebol não pode ser reduzido à soma de ações individuais, pois constitui “uma forma específica da dinâmica de grupos”, na qual “todos os indivíduos se mantêm, do princípio até ao fim, mais ou menos interdependentes; movimentam-se e reagrupam-se em resposta uns aos outros”, de tal modo que “a configuração dos jogadores de uma das equipas e a dos jogadores da outra equipa são interdependentes e inseparáveis” e, “de facto, formam uma única configuração” (Elias, e Dunning, 1992, p. 282). Embora formulada a propósito do jogo em sentido estrito, essa chave é decisiva para o presente estudo porque permite compreender que também o estádio, enquanto espaço social do torcer, não é simples recipiente de espectadores isolados, mas configuração viva de presenças, antagonismos, identificações, cooperações e tensões controladas. Como observam os autores, “uma característica fundamental não só do futebol, mas praticamente de todos os jogos-desporto é que se constitui um tipo de dinâmica de grupo que é originado por tensões controladas entre, pelo menos, dois subgrupos”, sendo que “a dinâmica de grupo de um jogo pressupõe tensão e cooperação numa variedade de níveis ao mesmo tempo”. (Elias, e Dunning, 1992, p. 282-284)

 

    Nessa direção, o afastamento progressivo do torcedor popular, a segmentação espacial das arquibancadas, a tarifação do pertencimento e a filtragem econômica dos públicos não devem ser lidos apenas como efeitos mercantis exteriores ao espetáculo, mas como intervenções sobre o próprio “equilíbrio de tensão” (Elias, e Dunning, 1992, p. 291) que sustenta a configuração futebolística. Se, para Elias, e Dunning (1992, p. 292), “as regras, e em especial as regras formais, são apenas um dos ‘instrumentos’ de controlo responsáveis pela relativa estabilidade dos grupos em tensão controlada”, então os dispositivos contemporâneos de acesso ao estádio — programas de associação, prioridades de compra, setores premium, barreiras tarifárias, protocolos de segurança e mediações tecnológicas — podem ser compreendidos como instrumentos de controle que reordenam a composição legítima da copresença e alteram a economia afetiva do rito. Por isso, a transformação recente do futebol de elite não afeta apenas quem entra e quem fica de fora, mas a própria tessitura relacional da experiência esportiva, já que, como insistem Elias, e Dunning (1992, p. 293), “um complexo de polaridades interdependentes criadas no padrão de jogo proporciona a principal força motriz da dinâmica de grupo de um jogo de futebol”. Transposta ao plano do torcer, tal formulação permite sustentar que pertencimento e exclusão, identificação e rivalidade, excitação e contenção, massa e setor, povo e premium passam a ser reordenados por dispositivos que administram seletivamente as possibilidades de presença. Desse modo, em convergência com Bourdieu (2007), pode-se dizer que o futebol de espetáculo contemporâneo não apenas distribui desigualmente bens e acessos, mas reconfigura as próprias condições configuracionais da excitação coletiva, convertendo o estádio em espaço de distinção social e de regulação diferencial dos corpos autorizados a compor, em sua forma legítima, a dinâmica sensível do jogo.

 

    Para enfrentar esse problema, o estudo mobiliza um referencial arqueogenealógico ancorado em Michel Foucault, articulando duas dimensões complementares do seu percurso teórico. No campo arqueológico, examinam-se as regras de formação discursiva que tornam dizível e plausível, no interior de um arquivo histórico específico, a equivalência entre amor ↔ acesso ↔ pagamento, descrevendo regularidades de objetos, posições de sujeito, conceitos e escolhas temáticas que constituem formações discursivas e autorizam certas justificativas e silenciamentos. Na genealogia, rastreiam-se as técnicas, racionalidades e contracondutas pelas quais tais regularidades se tornam operatórias como formas de governo: não apenas como “economia” do espetáculo, mas como governamentalidade que incide sobre condutas, afetos e modos de presença, em continuidade com a problemática foucaultiana da governamentalidade e da biopolítica, e em diálogo crítico com a formulação contemporânea de necropolítica, do filosofo camaronês Achille Mbembe, para pensar a administração da ausência como “morte social” do torcedor no rito.

 

    Nesse quadro, analisar a naturalização das barreiras de acesso e a reconfiguração seletiva do pertencimento torcedor torna-se relevante não apenas para a compreensão sociológica das novas formas de distinção no futebol de espetáculo, mas também para o debate público sobre desigualdade, regulação e recomposição do comum esportivo. Diante do exposto, o objetivo geral deste artigo é analisar, em perspectiva arqueogenealógica, como discursos sobre preços de ingressos e acesso aos estádios produzem formas desiguais de pertencimento, presença e exclusão no futebol de elite. Como objetivos específicos, o estudo busca: identificar as regularidades discursivas que tornam pensável a equivalência entre amar o clube ↔ pagar ↔ pertencer; descrever as técnicas e racionalidades que modulam o acesso ao estádio e administram diferencialmente a presença torcedora; examinar como os quatro corpora analisados enunciam a precificação do acesso, a exclusão de torcedores e as disputas em torno do comum esportivo; e reconhecer as contrapalavras, contracondutas e formas de contestação que tensionam a redução do pertencimento à lógica mercantil.

 

Método 

 

    Como tentativa de responder a problematização exposta na introdução, surge a teoria dos cercamentos afetivos do comum esportivo que concebe o futebol de elite como um dispositivo de governo do sensível que, ao mesmo tempo, produz um comum afetivo do torcer e o submete a cercamentos econômico-jurídicos e midiotécnicos que tarifam o pertencimento e administram diferencialmente a presença; por isso, o discurso não comparece como mera descrição, mas como engrenagem produtiva que forja léxicos de devoção, promete proximidades ritualizadas e desenha arquiteturas de acesso capazes de converter amor em assinatura, participação em pagamento e identidade em hierarquia de lugares. Nesse horizonte, o percurso arqueogenealógico sustenta a coerência interna do constructo: no registro arqueológico, estabilizam-se as condições de possibilidade que tornam pensável a equivalência amor ↔ acesso ↔ pagamento; no registro genealógico, desdobram-se as contingências, as técnicas e as contracondutas que operacionalizam e fraturam tal equivalência. Dessa maneira, o dispositivo torna-se inteligível não como epifenômeno da mercantilização, mas como seu princípio operativo, razão pela qual a arquibancada aparece produzida como topologia de inclusão precária e a intervenção política se define menos como restauração de equilíbrio e mais como reabertura do comum onde foi cercado.

 

    Para dar estatuto epistemológico à teoria dos cercamentos afetivos do comum esportivo, a proposta é inscrita no horizonte arqueológico foucaultiano, na qual o futebol de elite é apreendido como “os próprios discursos, enquanto práticas que obedecem a regras” (Foucault, 2005, p. 157). Assim, afirma-se que ele funciona como dispositivo de governo do sensível que, simultaneamente, produz um comum afetivo e o submete a cercamentos econômico-jurídicos e midiotécnicos, toma-se o discurso “em seu volume próprio, na qualidade de monumento” (Foucault, 2005, p. 157), e não como simples espelho de uma mercantilização prévia. Desse modo, as operações que tarifam o pertencimento e administram diferencialmente a presença aparecem como regularidades enunciativas — uma “análise diferencial das modalidades de discurso” (Foucault, 2005, p. 158) — pelas quais se forjam léxicos de devoção, prometem-se proximidades ritualizadas e desenham-se arquiteturas de acesso que convertem amor em assinatura, participação em pagamento e identidade em hierarquia de lugares.

 

    Nesse horizonte, o percurso arqueogenealógico sustenta a coerência interna do constructo: no registro arqueológico, são descritos “tipos e regras de práticas discursivas que atravessam obras individuais” (Foucault, 2005, p. 158) e são estabilizadas as condições de possibilidade que tornam pensável a equivalência amor ↔ acesso ↔ pagamento; no registro genealógico, são seguidas as contingências, técnicas e contracondutas que a operacionalizam e a fraturam. Em consequência, o dispositivo torna-se inteligível não como epifenômeno, mas como princípio operativo que produz a arquibancada como topologia de inclusão precária; e a intervenção crítica é, ela mesma, “uma reescrita [...] uma transformação regulada do que já foi escrito; [...] a descrição sistemática de um discurso-objeto”. (Foucault, 2005, p. 158)

 

    Para assegurar coesão conceitual e orientar a análise, a teoria dos cercamentos afetivos do comum esportivo organiza-se em categorias mutuamente implicadas, demarcadas a seguir em regime de continuidade textual. Em primeiro lugar, cercamentos afetivos designam a passagem do comum esportivo — bem simbólico coproduzido por memórias, cantos, corpos e vínculos — para um regime de propriedade seletiva, no qual o acesso ao rito é graduado por escassez programada, securitização do convívio e exclusividades escalonadas; por conseguinte, a cidade sensível do jogo reconfigura-se segundo mapas de solvência que testam permanentemente a pertença. Em segundo lugar, a contabilidade do afeto — categoria transversal — indica o tratamento mensurável da paixão por indicadores de recorrência, retenção e ticket médio, mediante os quais a vitalidade coletiva é recapturada como mais-valia emocional e reorganizada em fluxos calculáveis de valor. Em terceiro lugar, tarifa do pertencimento descreve a equivalência performada entre devoção e pagamento, pela qual provas de amor se convertem em recorrências financeiras, upgrades e coortes de acesso, enquanto a proximidade prometida se difere em etapas seriadas, de modo que a dívida afetiva alimente a dívida pecuniária. Em quarto lugar, economia da presença formula a conversão do estar-junto em variável de negócio, operando a compressão seletiva da presença popular e a maximização da rentabilidade marginal do assento por dinâmicas de prioridade, setorização e fechamento estratégico; desse modo, até a visibilidade de lacunas converte-se em ruído administrável quando compensada por métricas de receita e engajamento.

 

    Em quinto lugar, a necropresença transpõe a problemática da administração da morte para a gestão da ausência social no espetáculo: corpos convocados a compor o comum afetivo permanecem em vida simbólica e, simultaneamente, são apagados do lugar onde sua subjetividade se constitui, sendo reconduzidos a consumos periféricos de telas, pacotes fragmentados e mediações custosas; nessa esteira, a energia política da arquibancada desloca-se para circuitos dispersos de vigilância e compra. Em sexto lugar, a governamentalidade do desejo nomeia a racionalidade que prescinde da interdição direta e modula o apetite afetivo por liturgias de proximidade, calendários de novidade, gamificação da fidelidade e pedagogias do sacrifício; assim, não se proíbe o amor, disciplina-se sua forma, sua periodicidade e sua intensidade, até torná-lo previsível e precificável. Em sétimo lugar, contradispositivos e linhas de fuga remetem às práticas que reativam o comum para além da tarifa — coletivos, redes de solidariedade e pedagogias de rua —, deslocando a gramática da fidelidade do débito para o vínculo e instaurando microeconomias de cuidado que desautorizam a equivalência entre pertencimento e compra; por isso mesmo, funcionam como operadores de fratura no regime de verdade do dispositivo. Em oitavo lugar, saúde pública discursiva identifica o adoecimento produzido pela captura da alegria como trabalho emocional e pela exaustão financeira como condição de pertença, reescrevendo protocolos de bem-estar como razões sanitárias de manutenção do engajamento, ao passo que a experiência ordinária evidencia sobrecarga psíquica, endividamento e desistências silenciosas.

 

    Com esse encadeamento, a teoria preserva coerência e progressão argumentativa: parte da constituição do comum, explicita a racionalidade que governa desejos, define a tarifa que converte afeto em pagamento, mostra a engenharia da presença, descreve a política da ausência, quantifica a captura, abre as brechas de resistência e, por derradeiro, recoloca a dimensão sanitária como índice crítico do governo do sensível. Desse arranjo deriva uma proposição normativa implícita: investigar, regular e intervir significam reabrir o comum onde foi cercado, restituindo ao laço social do torcer uma espessura ética que não se deixa reduzir a linha de receita, precisamente porque o discurso — enquanto engrenagem — é o lugar onde se decide quem pode existir, quanto custa existir e como se luta para continuar existindo.

 

    No plano operacional, a pesquisa foi conduzida por meio de um desenho qualitativo de análise documental, articulado à análise midiática, sob orientação arqueogenealógica e organizado em quatro etapas. Por análise documental, entende-se, aqui, o exame sistemático de documentos públicos já produzidos e socialmente circulantes, tomados não como registros neutros de fatos, mas como materialidades enunciativas dotadas de condições históricas de produção, circulação e legitimação. Por análise midiática, entende-se o tratamento analítico de textos jornalísticos digitais enquanto dispositivos de visibilidade pública, isto é, enquanto superfícies nas quais se selecionam temas, se hierarquizam vozes, se estabilizam problemas e se oferecem chaves de inteligibilidade para o debate social sobre o futebol. O arquivo empírico não foi composto por “materiais públicos de 2025” em sentido amplo e indeterminado, mas por quatro textos jornalísticos digitais, publicados em 2025, escolhidos por sua aderência direta ao problema da pesquisa, por sua circulação ampliada e por sua capacidade de condensar posições discursivas distintas acerca da precificação do acesso, da exclusão torcedora e das formas de reabertura política do comum esportivo.

 

    Adicionalmente, integraram o corpus: (1) o texto de Agnes da Silva Rigas e Mauricio Luz (2025), publicado no Lance!, intitulado “‘Só quem perde é o Flamengo’: discurso de torcedor viraliza e divide opiniões. Torcedores estão deixando de comparecer no estádio pelo aumento dos ingressos”; (2) o texto de Daniela Prandi (2025), publicado no Jornal da Unicamp, intitulado “Quando o futebol vai além da torcida: pesquisa analisa atuação dos grupos Democracia Corinthiana, do Corinthians; Porcomunas, do Palmeiras; e Bloco Tricolor Antifa, do São Paulo”; (3) o texto da Redação do Ge (2025), intitulado “Motivo de protestos da torcida, ingressos para jogos do Flamengo estão mais caros em 2025? Veja”; (4) e o texto de Irlan Simões (2025), publicado no Ge, intitulado “Ingressos para torcedores visitantes atingem preços exorbitantes no Brasileirão — atingindo também os locais”. O recorte temporal concentrou-se em 2025 porque esse ano apresentou forte visibilidade pública para controvérsias relativas ao aumento dos ingressos, às críticas torcedoras ao pricing e à emergência de coletivos e repertórios de contestação, o que tornou possível reunir, em um mesmo horizonte sincrônico, materiais que expressam tanto a racionalidade econômica de gestão da presença quanto as contrapalavras produzidas em reação a ela. O critério de seleção, portanto, não foi quantitativo nem amostral, mas teórico-analítico: buscou-se compor um arquivo pequeno, porém denso, capaz de tornar visíveis diferentes posições de sujeito, diferentes regimes de justificação e diferentes formas de nomear o problema do acesso ao futebol de elite.

 

    Na segunda etapa, os quatro textos foram integralmente lidos, fichados e organizados em um arquivo analítico, com registro de autoria, veículo, data, título, tema central, léxico recorrente, posições de sujeito mobilizadas e justificativas predominantes. A leitura arqueológica incidiu sobre regularidades enunciativas, objetos de discurso, formas de problematização e modos de legitimação, permitindo observar como se tornava dizível a equivalência entre amor ao clube, capacidade de pagamento, presença física e direito à arquibancada. Na terceira etapa, de caráter genealógico, esses enunciados foram reconectados às racionalidades e técnicas que os tornavam operatórios — precificação, setorização, prioridade de acesso, fidelização e filtragem econômica dos públicos —, com o objetivo de descrever seus efeitos de governo do desejo, administração diferencial da presença e naturalização da exclusão. Na quarta etapa, as categorias analíticas da teoria dos cercamentos afetivos do comum esportivo foram construídas em movimento indutivo-dedutivo, emergindo do confronto entre o arquivo empírico e o referencial teórico, e não como grade apriorística aplicada aos textos. Essa sequência metodológica assegura que os corpora mobilizados não aparecem de forma contingente no manuscrito, mas resultam de um processo explícito de delimitação, organização e análise, no qual método, resultados e discussão constituem momentos distintos de uma mesma operação analítica.

 

    A escolha dessas categorias não decorre de ecletismo teórico nem de simples justaposição de autores, mas da exigência de ajustar o instrumental analítico aos diferentes níveis de constituição do objeto. No plano arqueológico, mobilizam-se formação discursiva e enunciado porque a questão central da pesquisa não reside na intenção dos agentes, na interpretação de conteúdos ocultos ou na reconstrução de uma consciência subjacente, mas nas condições históricas que tornam possível dizer, repetir e legitimar a equivalência entre afeto, pagamento, prioridade e pertencimento no futebol de elite. Nesse registro, cercamentos afetivos e contabilidade do afeto são ancorados em formação discursiva por designarem regularidades históricas mais amplas, isto é, arranjos de objetos, conceitos, posições de sujeito e estratégias que tornam pensável e aceitável a conversão do vínculo torcedor em matéria de cálculo, filtragem e valoração diferencial. Já tarifa do pertencimento e economia da presença são sustentadas pelo conceito de enunciado, uma vez que operam na materialidade de formulações concretas que, ao circularem em corpora heterogêneos, distribuem diferencialmente o valor de estar, acessar, pagar e comparecer.

 

    No plano genealógico, por sua vez, a eleição de governamentalidade, biopolítica, necropolítica e linhas de fuga responde ao fato de que o problema não se esgota na dizibilidade dessas equivalências, exigindo também a análise das técnicas que conduzem condutas, administram o desejo, hierarquizam corpos, regulam presenças e produzem zonas de exclusão ou espectralização. Por isso, governamentalidade do desejo é referida à analítica foucaultiana do governo das condutas (Foucault, 1979), saúde pública discursiva à biopolítica (Foucault, 1999), necropresença à necropolítica de Mbembe (2018), e contradispositivos e linhas de fuga ao corpo sem órgãos deleuzeguattariano (1996), na medida em que tais categorias permitem apreender, respectivamente, a condução mercadológica do pertencimento, a legitimação sanitária e securitária da filtragem dos públicos, a produção de presenças socialmente esvaziadas e as fraturas pelas quais o comum esportivo pode ser reaberto. Assim, essas categorias, e não outras, foram selecionadas porque são as que melhor permitem descrever as condições de possibilidade do arquivo, analisar a materialidade dos enunciados, explicar os mecanismos de governo do sensível e reconhecer as contracondutas que tensionam a captura do pertencimento no futebol de elite.

 

Resultados 

 

    No primeiro corpus, a cena enunciativa organizada pelo enunciado “estão tirando o flamenguista do Maracanã” dá a ver uma regularidade de objetos, posições de sujeito, conceitos e escolhas temáticas que, articuladas, configuram uma formação discursiva na qual a pertença histórica ao comum do torcer é reconduzida a um teste de solvência. O testemunho do torcedor — “Sou ‘mulambo’. Preto, mesmo, cabelo duro. Estão tirando esse torcedor do estádio [...] Só quem perde é o Flamengo” — emerge como ponto de condensação que racializa e classifica quem é produzido como excedente do rito, enquanto, no mesmo arquivo, respostas moralizantes e polarizadas (“é só arrumar um trabalho que pague mais”, “economiza”, “torcedor modinha”) deslocam o conflito estrutural para a responsabilidade individual, reposicionando o “verdadeiro torcedor” segundo a capacidade de pagar (vide Figura 1).

 

Figura 1. ‘Só quem perde é o Flamengo’: discurso de torcedor viraliza e divide opiniões.

Torcedores estão deixando de comparecer no estádio pelo aumento dos ingressos

Figura 1. ‘Só quem perde é o Flamengo’: discurso de torcedor viraliza e divide opiniões. Torcedores estão deixando de comparecer no estádio pelo aumento dos ingressos

Fonte: Rigas, e Luz (2025)

 

    Essa constelação não resulta do acaso; como propõe Foucault (2005, p. 42-43), trata-se de descrever “sistemas de dispersões. “No caso em que se puder descrever, entre um certo número de enunciados, semelhante sistema de dispersão, e no caso em que entre os objetos, os tipos de enunciação, os conceitos, as escolhas temáticas, se puder definir uma regularidade (uma ordem, correlações, posições e funcionamentos, transformações), diremos, por convenção, que se trata de uma formação discursiva”. Com efeito, a regularidade que se deixa ver organiza, portanto, é um léxico de devoção atravessado por dispositivos de filtragem que naturalizam a passagem do comum afetivo a um regime de propriedade seletiva, isto é, instauram cercamentos afetivos que graduam o acesso por escassez programada, securitização do convívio e exclusividades escalonadas, reconfigurando a cidade sensível do jogo segundo mapas de solvência que testam permanentemente a pertença. No interior dessa mesma formação discursiva, a contabilidade do afeto funciona como tecnologia de estabilização do regime de verdade: números de bilheteria “expressivos”, médias por partida, altos “custos operacionais” e percentuais de adimplência de sócios são mobilizados como equivalentes objetivos da vitalidade coletiva, traduzindo protesto e exclusão em variáveis administráveis. A faixa “ingresso caro, arquibancada vazia” (Redação do GE, 2025) tensiona esse enquadramento ao indexar o vazio visível à tarifa que o produz, mas a contrarresposta contábil recompõe a inteligibilidade do acontecimento ao recodificar a ausência como “otimização de demanda”.

 

Figura 2. “Torcida do Flamengo protesta contra o preço dos ingressos e xinga Bap, veja”

Figura 2. “Torcida do Flamengo protesta contra o preço dos ingressos e xinga Bap, veja”

Fonte: Redação do GE (2025)

 

    Desse modo, a circulação de indicadores de receita, adimplência e “base ativa” realiza a captura do afeto sob a forma de fluxos calculáveis de valor, convertendo o amor em assinatura e a presença em ticket médio, precisamente como define a categoria contabilidade do afeto. Em termos arqueológicos, o que se observa são regras de formação que permitem a coexistência — sem escândalo epistemológico — de promessas de pertencimento e de práticas de tarifação: “Chamaremos de regras de formação as condições a que estão submetidos os elementos dessa repartição (objetos, modalidade de enunciação, conceitos, escolhas temáticas). As regras de formação são condições de existência (mas também de coexistência, de manutenção, de modificação e de desaparecimento) em uma dada repartição discursiva” (Foucault, 2005, p. 43). A consequência analítica é nítida: a política de preços não aparece como decisão contingente externa ao discurso, mas como condição de possibilidade de sua própria racionalidade; os cercamentos afetivos, por sua vez, não constituem apenas tema do debate, senão regra que autoriza quem pode falar como “nós” e em que termos pode aparecer — pagando, justificando ou silenciando-se. Assim, a formação discursiva que o corpus expõe produz simultaneamente a equivalência entre amor ↔ acesso ↔ pagamento e a gramática que a legitima, tornando inteligível que o “sem a gente, o Flamengo não é o Flamengo” opere como contraenunciado que reinscreve o comum justamente onde ele foi cercado.

 

    No segundo corpus, as enunciações inscritas em faixas, cartazes e intervenções urbanas — “Coletivo Democracia Corinthiana”, “Lugar de mulher é na arquibancada”, “Fora Bolsonaro”, “Se você é fora Bolsonaro, buzine” por Prandi (2025) — produzem, no sentido foucaultiano, condições de existência para dizeres que desestabilizam a equivalência entre amor e compra e, simultaneamente, reterritorializam o estar-junto para fora do perímetro tarifado do espetáculo.

 

Figura 3. “Campanhas realizadas pelo Coletivo Democracia Corinthiana, do Corinthians: atuação fora dos estádios”; “O Bloco Tricolor Antifa, do São Paulo faz parte do Trio de Ferro do futebol paulista”; “Atuação do Porcomunas, do Palmeiras em frente ao estádio para a pesquisa Felipe Lopes participou de reuniões e fez entrevistas com os participantes”; “Estudo está vinculado às pesquisas realizadas pelo Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Futebol, criado em 2001, na FEF”

Figura 3. “Campanhas realizadas pelo Coletivo Democracia Corinthiana, do Corinthians: atuação fora dos estádios”; “O Bloco Tricolor Antifa, do São Paulo faz parte do Trio de Ferro do futebol paulista”; “Atuação do Porcomunas, do Palmeiras em frente ao estádio para a pesquisa Felipe Lopes participou de reuniões e fez entrevistas com os participantes”; “Estudo está vinculado às pesquisas realizadas pelo Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Futebol, criado em 2001, na FEF”

Figura 3. “Campanhas realizadas pelo Coletivo Democracia Corinthiana, do Corinthians: atuação fora dos estádios”; “O Bloco Tricolor Antifa, do São Paulo faz parte do Trio de Ferro do futebol paulista”; “Atuação do Porcomunas, do Palmeiras em frente ao estádio para a pesquisa Felipe Lopes participou de reuniões e fez entrevistas com os participantes”; “Estudo está vinculado às pesquisas realizadas pelo Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Futebol, criado em 2001, na FEF”

Figura 3. “Campanhas realizadas pelo Coletivo Democracia Corinthiana, do Corinthians: atuação fora dos estádios”; “O Bloco Tricolor Antifa, do São Paulo faz parte do Trio de Ferro do futebol paulista”; “Atuação do Porcomunas, do Palmeiras em frente ao estádio para a pesquisa Felipe Lopes participou de reuniões e fez entrevistas com os participantes”; “Estudo está vinculado às pesquisas realizadas pelo Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Futebol, criado em 2001, na FEF”

Fonte: Prandi (2025)

 

    Diante do exposto, tomadas como função e não como mera frase, tais fórmulas performam o que Foucault descreve: “o enunciado [...] é uma função de existência que pertence, exclusivamente, aos signos” e, em seu “modo de ser singular (nem inteiramente linguístico, nem exclusivamente material)”, é ele que permite decidir se “fazem sentido” e “que espécie de ato se encontra realizado por sua formulação” (Foucault, 2005, p. 98). Nesse registro arqueológico do enunciado, “Lugar de mulher é na arquibancada” desloca a prova de pertencimento do eixo solvência/consumo para o eixo direito/visibilidade, isto é, contesta a tarifa do pertencimento ao afirmar que a presença não se compra, reivindica-se; “Fora Bolsonaro” e “Buzine [...]” recodificam a economia da presença ao converterem a participação política em ocupação sensível de ruas, pontes e fachadas, instaurando uma coreografia de corpos e sons que não depende do ticket, mas da circulação e da audibilidade públicas; e o estandarte do CDC, ladeado por cartazes que associam a financeirização (“bilionários, bancos, bets”) à captura do comum, enuncia a crítica do dispositivo que transforma devoção em recorrência pecuniária, interpelando os próprios operadores da tarifa.

 

    Desse modo, a tarifa do pertencimento aparece aqui como alvo explícito de contrapalavras que negam a equivalência compra ↔ proximidade, enquanto a economia da presença é reconfigurada por atos que retiram a presença do regime de setorização e prioridade vendidas, reinscrevendo-a como circulação política de baixa barreira. Não se trata de “frases de opinião”, mas de atos enunciativos que, ao cruzarem materialidades (tecido, tinta, voz, buzina) e posições de sujeito (mulheres, antifascistas, coletivos clubísticos), instauram outro regime de existência do dizer: “o enunciado não é, pois, uma estrutura; é uma função [...] que cruza um domínio de estruturas e de unidades possíveis e que faz com que apareçam, com conteúdos concretos, no tempo e no espaço” (Foucault, 2005). Por isso, quando os coletivos recusam o lugar de plateia tarifada e produzem presença fora dos estádios, operam uma contra-economia do estar-junto, na qual a visibilidade não é ruído compensável por métricas de receita, mas princípio de inteligibilidade do comum; e quando nomeiam a financeirização do futebol em banners e palavras de ordem, instauram enunciados que deslegitimam a contabilidade do afeto como regime de verdade, reabrindo o campo de enunciação para que pertença e presença sejam novamente pensáveis como direitos, e não como mercadorias.

 

    No terceiro corpus, a fórmula performada em faixas — “INGRESSO CARO, ARQUIBANCADA VAZIA” — opera como contraenunciado que revela a tessitura necropolítica do espetáculo e sua gramática governamental. De um lado, a governamentalidade do desejo aparece quando a direção justifica “abrir setores conforme a demanda” e introduz planos segmentados de fidelização: trata-se de modular desejos e condutas populacionais por meio de preços, prioridades e fechamentos estratégicos, convertendo o estar-junto em variável de gestão. É exatamente o que Foucault descreve ao indicar que “a população aparecerá como o objetivo final do governo”, tornando-se simultaneamente “fim e instrumento do governo”, alvo de “táticas e técnicas [...] que têm por alvo a população [...] e por instrumentos técnicos essenciais os dispositivos de segurança” (Foucault, 1979, p. 289). As tabelas de reajustes (25% a 63%) não são meros dados: são atos de linguagem que autorizam a redistribuição diferencial da presença e a produção de lacunas visíveis como ruído administrável, isto é, a normalização da ausência como efeito colateral aceitável de uma otimização.

 

    De outro lado, a necropresença emerge quando o rito é reorganizado por fronteiras tarifárias que deslocam parte da base afetiva para consumos periféricos — telas, pacotes fragmentados — ou para a pura desistência; nesse contexto, a soberania do espetáculo decide quem permanece integrado ao campo de visibilidade e quem é tornado descartável. Nas palavras de Mbembe, a ocupação do espaço social funda “a produção de fronteiras e hierarquias, zonas e enclaves”, e a soberania consiste em “definir quem importa e quem não importa, quem é ‘descartável’ e quem não é” (Mbembe, 2018, p. 25). Assim, a política de preços reescreve o estádio como território compartimentado, no qual setores populares são progressivamente convertidos em enclaves de acesso condicional, e o vazio se torna índice de um mundo de “mortos-vivos” (Mbembe, 2018, p. 50) afetivos: torcedores mantidos em vida simbólica pela marca e, ao mesmo tempo, apagados do lugar onde sua subjetividade se constitui. Nessa chave, o protesto em faixa não apenas denuncia um efeito, mas nomeia a racionalidade que o produz: o governo do sensível que, ao instrumentalizar a população como alvo calculável, institui fronteiras internas do comum — governando a presença e administrando a ausência.

 

    Por derradeiro, no quarto corpus, o enunciado jornalístico que enumera preços, desmonta a equivalência legal “visitante = local” e demonstra a naturalização de três dígitos opera como diagnóstico da captura da festa por um dispositivo tarifário que redistribui presenças e normaliza ausências. Em primeiro lugar, a arquitetura de planos, descontos assimétricos e “tabelamentos” produz uma superfície de registro na qual todo o fluxo afetivo do torcer é reinscrito como valor diferencial por setor e por coorte de fidelização. O texto de Simões (2025) evidência exatamente esse efeito de quase-causalidade: aparenta ser “a demanda” que exige preços, quando, na verdade, é o capital enquanto socius que reordena o campo e se apresenta como origem do que ele próprio captura. É o que Deleuze e Guattari nomeiam ao dizer que “um corpo pleno determinado como socius [...] se assenta sobre toda a produção, constitui uma superfície na qual se distribuem as forças e os agentes de produção, de modo que se apropria do sobreproduto e atribui a si próprio o conjunto e as partes do processo, que, então, parecem emanar dele como de uma quase-causa” (Deleuze, e Guattari, 1996, p. 22). Assim, quando a reportagem compara rodadas, coteja borderôs e lista picos de R$ 200, R$ 220, R$ 240 e R$ 300, ela não apenas informa: ela reverte a “máquina miraculante” (Deleuze, e Guattari, 1996, p. 24) da justificativa (“é o mercado”) ao reinscrever os cálculos onde eles produzem antiprodução do comum. Daí que os “setores equivalentes” tornem-se, ao mesmo tempo, equivalentes e incomensuráveis: a equivalência jurídica é dissolvida pela estratificação econômica, e a antiprodução, no sentido deleuzoguattariano, transforma o rito em parada seletiva da circulação — “o corpo sem órgãos se assenta sobre a produção desejante, e a atrai, apropria-se dela [...] estabelecendo uma superfície encantada de inscrição”. (Deleuze, e Guattari, 1996, p. 24)

 

    Nota-se que é precisamente nesse ponto que emergem contradispositivos e linhas de fuga. O próprio gesto investigativo do texto — sistematizar dados oficiais, comparar ligas com tetos de preço, denunciar a “naturalização” — funciona como contradispositivo discursivo, pois desloca o regime de verdade do pricing da esfera do inevitável para a esfera do contestável, reabrindo o comum como problema público. Além disso, quando o corpus evidencia arranjos de reciprocidade, “meias-entradas” massivas e passaportes anuais, revela dobras onde a linguagem contábil não fecha sozinha: redes de consulados, compras coletivas, circulação de informação e campanhas por tetos para visitantes constituem linhas de fuga que reativam o vínculo para além da compra unitária, instaurando microeconomias de cuidado e de acesso solidário. Não se trata de romantizar remendos; trata-se de reconhecer, na própria cartografia enunciada, os pontos de fratura por onde a equivalência “pertencer ↔ pagar” pode ser desautorizada. Como lembram Deleuze, e Guattari (1996, p. 21), contra a organização que fixa funções e lugares, “o corpo é o corpo/ ele está só/ e não precisa de órgão [...] os organismos são os inimigos do corpo”, ao qual “as máquinas-órgãos [são] enganchadas”; desse modo, linhas de fuga não negam a máquina, mas desfazem seus acoplamentos hegemônicos ao devolver o uso à multiplicidade do comum.

 

    Com isso, torna-se visível a dimensão de saúde pública discursiva que o corpus convoca. Ao qualificar R$ 80 como “valor razoável” apenas por contraste com exageros e ao mostrar que o custo anual de ser local ultrapassa “em muito” um salário mínimo, o texto expõe a pedagogia de sacrifício que transforma lazer em trabalho emocional e dívida. Nessa racionalidade, campanhas e programas de fidelidade operam como biopolítica do engajamento: regulam intensidade, periodicidade e aceitabilidade do gozo torcedor, com métricas de presença e gasto convertidas em normas de boa cidadania clubística. É nesse plano que Foucault ajuda a ler as cesuras produzidas: o biopoder introduz “no domínio da vida [...] um corte: o corte entre o que deve viver e o que deve morrer”, reconfigurando populações por “subgrupos” e tornando admissível “a morte política, a expulsão, a rejeição” como efeitos de normalização (Foucault, 1999, p. 304-306). Transposto ao estádio, o corte não é biológico no sentido literal, mas econômico-moral: quem não performa a norma de consumo é empurrado para a “morte” simbólica da arquibancada — ausência, telepresença cara, desistência silenciosa — ao mesmo tempo em que a gestão se autojustifica como profilaxia do espetáculo.

 

    Portanto, quando o corpus reclama “inserir na agenda” a exploração do torcedor, ele recodifica o problema como questão sanitária do laço social: endividamento, sobrecarga psíquica e erosão dos espaços de convivência não são externalidades; são sintomas de um governo dos corpos que, para otimizar receita, aceita produzir adoecimento. Daí a pertinência de contramedidas públicas — tetos regulatórios, reciprocidades obrigatórias, auditorias de borderô, quotas sociais territorializadas — como contradispositivos institucionais que, somados às linhas de fuga já em curso, podem desengatar o desejo torcedor da superfície que o captura. Em suma, ao tornar visível a superfície de inscrição do capital e ao enunciar as fendas por onde o comum escapa, o corpus não apenas descreve um regime; ele já opera, discursivamente, a sua contestação.

 

    Os resultados analíticos deste artigo permitem sustentar que o futebol de elite contemporâneo deve ser compreendido como um dispositivo de reorganização seletiva do comum esportivo, no interior do qual a presença torcedora é progressivamente convertida em prática diferencial de acesso, de distinção e de governo. O que os quatro corpora tornaram visível não foi apenas a elevação do preço dos ingressos, a financeirização da experiência estádio ou a segmentação administrativa do público, mas, a produção de um regime de verdade no qual amar ↔ acessar ↔ pagar tendem a tornar-se enunciados equivalentes. É precisamente nesse ponto que a articulação entre arqueologia, genealogia e sociologia da distinção formam lastros. Com efeito, se em Bourdieu (2007, p. 162) “o habitus é, com efeito, princípio gerador de práticas objetivamente classificáveis e, ao mesmo tempo, sistema de classificação (principium divisionis) de tais práticas”, então o torcer, o pagar, o ocupar certos setores, o aderir a programas de sócio-torcedor, o aceitar determinadas formas de conforto, controle e fidelização não podem ser lidos como simples escolhas individuais, mas como práticas socialmente produzidas, classificáveis e classificantes, inseridas no “espaço dos estilos de vida” (Bourdieu, 2007, p. 162). Em outros termos, o futebol de espetáculo não apenas seleciona públicos; ele produz classificações sociais sob a forma de regimes legítimos de presença, de visibilidade e de pertencimento.

 

    No primeiro corpus, a análise mostrou que o enunciado “estão tirando o flamenguista do Maracanã” não se reduz a frase de queixa ou desabafo, mas condensa uma regularidade discursiva na qual objetos, posições de sujeito, conceitos e escolhas temáticas se articulam de forma estável, compondo aquilo que Foucault (2005), em A arqueologia do saber, denomina formação discursiva. Trata-se, como ele escreve, de “descrever sistemas de dispersão” e de reconhecer, entre objetos, tipos de enunciação, conceitos e escolhas temáticas, uma “regularidade”. Foi justamente essa regularidade que se deixou apreender: a historicidade popular do torcer é reconduzida a um teste de solvência, enquanto o conflito estrutural é deslocado para o plano da moral individual. O torcedor que não consegue mais entrar no estádio aparece, nesse arquivo, não como sujeito expropriado de um bem comum, mas como alguém que falhou em adaptar-se às novas exigências do consumo esportivo. Desse modo, o que a categoria cercamentos afetivos procurou nomear foi exatamente a operação pela qual o vínculo histórico, sensível e popular com o clube é cercado, filtrado e redistribuído por critérios de rarificação programada, segurança seletiva e exclusividade tarifária. Aqui o diálogo com Bourdieu (2007, p. 162) é imediato, porque, como ele afirma, “a relação estabelecida [...] entre as características pertinentes da condição econômica e social [...] e os traços distintivos associados à posição correspondente no espaço dos estilos de vida não se torna uma relação inteligível a não ser pela construção do habitus como fórmula geradora”. O acesso ao estádio, portanto, não exprime apenas renda; ele retraduz um sistema de disposições, aptidões e capitais que autorizam certos grupos a reconhecer-se e a serem reconhecidos como os ocupantes legítimos da cena esportiva.

 

    Ainda nesse primeiro corpus, a categoria contabilidade do afeto mostrou seu rendimento heurístico ao evidenciar que médias de público, receitas, percentuais de adimplência e “bases ativas” não funcionam como dados neutros, mas como tecnologias discursivas de estabilização de um regime de verdade. O afeto é capturado sob a forma de fluxo calculável; a devoção é convertida em assinatura; a presença, em ticket médio. Em termos foucaultianos, as métricas passam a operar como condições de existência e de coexistência de enunciados que tornam compatíveis, sem escândalo, amor clubístico e tarifação excludente. Em termos bourdieusianos, vê-se a transmutação de uma distribuição contínua de desigualdades em sistema visível de distinções. Afinal, como escreve Bourdieu (2007, p. 166), “o gosto é o operador prático da transmutação das coisas em sinais distintos e distintivos, das distribuições contínuas em oposições descontínuas”; assim, o torcedor prioritário, o adimplente, o associado, o consumidor premium e o frequentador residual não designam apenas categorias administrativas, mas formas simbólicas de hierarquização do pertencimento. O que era comum torna-se raro; o que era vínculo torna-se prova; o que era copresença torna-se acesso diferencial.

 

    No segundo corpus, a análise arqueológica do enunciado permitiu observar a emergência de contrapalavras e contrafigurações do comum. “Lugar de mulher é na arquibancada”, “Fora Bolsonaro”, “Se você é fora Bolsonaro, buzine”, “Coletivo Democracia Corinthiana” não são frases dispersas, mas atos de linguagem que instauram outras condições de existência do dizer. Foucault (2005) insiste que o enunciado não é mera estrutura linguística, mas “função de existência que pertence, exclusivamente, aos signos”, atravessando materialidades, posições de sujeito e condições de aparecimento. Foi exatamente isso que o corpus mostrou: a tarifa do pertencimento e a economia da presença tornam-se pensáveis como problemas públicos porque outros enunciados deslocam a equivalência entre compra e proximidade, entre pagamento e legitimidade. Se a tarifa do pertencimento designa o ponto em que a entrada no rito é condicionada pela solvência, a economia da presença nomeia a gestão desigual das formas de aparecer, circular e ser visto no universo do futebol. Os coletivos, ao ocuparem ruas, muros, pontes e fachadas, reterritorializam a presença fora do perímetro tarifado do estádio. Nesse gesto, reinscrevem o pertencimento como visibilidade política e não como privilégio pecuniário. Também aqui o diálogo com Bourdieu (2007, p. 162) é fecundo, pois ele lembra que “a questão desse espaço é formulada nesse mesmo espaço”, isto é, os agentes ocupam posições a partir das quais buscam conservar ou transformar o mundo social. As torcidas antifascistas, feministas e populares, portanto, não apenas reagem; elas disputam o princípio legítimo de classificação do torcer.

 

    O terceiro corpus deslocou a análise para o plano propriamente genealógico e permitiu descrever o funcionamento da governamentalidade do desejo e da necropresença. A primeira categoria se mostrou pertinente porque a gestão do futebol de elite atua menos por interdição direta do que por modulação de condutas, incentivos, segmentações, descontos seletivos, fidelizações e aberturas “conforme a demanda”. Trata-se exatamente do tipo de racionalidade que Foucault (1979), em sua formulação sobre a governamentalidade, descreve como ação sobre populações por meio de táticas e dispositivos de segurança. A população torcedora aparece, assim, como alvo e instrumento do governo: ela deve ser monitorada, segmentada, prevista, conduzida. O desejo de estar no estádio é governado, não reprimido; é canalizado para modalidades rentáveis de presença. A categoria necropresença, por sua vez, permitiu nomear a operação complementar: aqueles que permanecem simbolicamente vinculados ao clube, mas já não conseguem ocupar o lugar físico do rito, passam a existir relegados ao estatuto, status, do vivos afetivos e mortos presenciais, isto é, como torcedores mantidos sob a marca, porém expulsos da centralidade sensível da experiência. A formulação de Mbembe (2018) ilumina esse ponto de modo substancial, pois a necropolítica envolve precisamente a produção de fronteiras, zonas, enclaves e hierarquias a partir das quais se decide “quem importa e quem não importa, quem é ‘descartável’ e quem não é”. No estádio financeirizado, essa soberania não precisa assumir a forma direta do extermínio; basta-lhe administrar a ausência, torná-la admissível, fazê-la funcionar como efeito colateral tolerável da otimização. O vazio da arquibancada, quando associado ao preço que o produz, torna-se índice de uma morte socialmente regulada do torcedor popular no interior do rito.

 

    Essa mesma cena pode ser reintroduzida em chave bourdieusiana para mostrar que o futebol de elite reproduz, de modo exemplar, aquilo que Bourdieu (2007, p. 167) chama de “homologia entre os espaços”. Se, como ele escreve, “as práticas ou os bens que estão associados às diferentes classes nos diferentes domínios da prática organizem-se segundo estruturas de oposição que são perfeitamente homólogas entre si”, então o estádio não é exterior ao espaço social: ele o reencena, o condensa e o torna sensível. As oposições entre conforto e aperto, exclusividade e aglomeração, moderação e excesso, setorização e copresença densa, prioridade e fila, hospitalidade premium e arquibancada ordinária repetem, no espaço do espetáculo, as oposições entre gostos de luxo e gostos de necessidade, entre distinção e vulgaridade, entre distância da necessidade e presença sob o império da necessidade. O torcer premium passa a integrar o universo dos consumos raros e distintivos; o torcer popular é progressivamente rebaixado à posição de excesso incômodo, memória residual ou problema de gestão.

 

    O quarto corpus aprofundou esse diagnóstico ao mostrar que a superfície tarifária do futebol funciona como verdadeiro socius de captura, para retomar a formulação de Deleuze, e Guattari (1996). A enumeração de preços, os descontos assimétricos, os pacotes, os passaportes anuais, os setores equivalentes juridicamente mas incomensuráveis economicamente, tudo isso compõe uma superfície de inscrição na qual o desejo torcedor é registrado, repartido e apropriado. Deleuze e Guattari ajudam a compreender que o capital aparece, então, como quase-causa do processo que ele próprio captura: parece ser “a demanda” que pede os preços, quando é a própria máquina de valoração que produz, organiza e justifica a escassez. A categoria contradispositivos mostrou-se útil para nomear os gestos — discursivos, regulatórios e coletivos — que desnaturalizam essa superfície encantada de inscrição, reinscrevendo a política tarifária no terreno da disputa pública. Já as linhas de fuga permitiram ler os arranjos solidários, as redes de informação, as reciprocidades, as campanhas por tetos, os circuitos de apoio e os usos alternativos do acesso não como simples remendos contingentes, mas como pontos de fratura na equivalência hegemônica entre pertencer e pagar. Não se trata, evidentemente, de celebrar a fuga como solução total, mas de reconhecer, com Deleuze, e Guattari (1996), que há sempre fissuras por onde os acoplamentos dominantes podem ser desfeitos e reorientados.

 

    É nesse ponto que a categoria saúde pública discursiva ganha plena inteligibilidade. O que o material mostrou é que a pedagogia tarifária do futebol não produz apenas exclusão econômica; ela produz sobrecarga afetiva, endividamento, normalização do sacrifício, erosão de espaços de convivência e internalização da culpa por não conseguir acompanhar a norma do consumo clubístico. Aqui a interlocução com Foucault (1999), especialmente com o problema da biopolítica, torna-se fundamental. Quando ele afirma que o biopoder introduz “no domínio da vida [...] um corte: o corte entre o que deve viver e o que deve morrer”, ele oferece lastros para compreender como populações são repartidas por cesuras normativas que tornam admissíveis certos destinos diferenciais. Transposto ao futebol, esse corte não é biológico no sentido estrito, mas econômico-moral: alguns devem viver plenamente o rito; outros podem continuar existindo apenas como audiência televisiva, consumidor remoto, sócio residual ou desistente silencioso. A gestão da presença torna-se, assim, biopolítica do engajamento, porque regula intensidades de participação, periodicidades do gozo, aceitabilidade do gasto e formas normais de adesão. O torcedor ideal é aquele que comparece, consome, fideliza, compreende a lógica do mercado e ajusta sua paixão à racionalidade econômica do clube.

 

    Retomados em conjunto, os resultados confirmam que as categorias propostas pelo artigo não são acessórios terminológicos, mas operadores analíticos ajustados à materialidade investigada. Cercamentos afetivos e contabilidade do afeto permitiram descrever, no plano arqueológico, como a formação discursiva do futebol de elite torna possível dizer, sem contradição aparente, que o clube ama sua torcida ao mesmo tempo que a filtra economicamente. Tarifa do pertencimento e economia da presença nomearam, ainda no registro arqueológico, os enunciados pelos quais o acesso é redistribuído e a aparição é hierarquizada. Governamentalidade do desejo, necropresença e saúde pública discursiva permitiram, no plano genealógico, mostrar como essas regularidades se tornam operatórias como formas de governo dos corpos, dos afetos e das populações torcedoras. Contradispositivos e linhas de fuga, por fim, tornaram legíveis as fraturas, contracondutas e reaberturas do comum que impedem o fechamento completo do dispositivo.

 

    Em diálogo final com Bourdieu (2007, p. 164), pode-se dizer que o futebol de elite contemporâneo constitui um laboratório privilegiado daquilo que ele chama de “alquimia que transforma a distribuição do capital [...] em sistema de diferenças percebidas, de propriedades distintivas”. O ingresso, o plano, o setor, o conforto, o controle e a presença já não são apenas meios funcionais de assistir ao jogo; tornam-se sinais distintivos, índices visíveis de posição no espaço social. A prática torcedora converte-se, assim, em estilo de vida classificado e classificante. Mais ainda, o processo confirma a tese de que “as condições diferentes de existência produzem habitus diferentes” (Bourdieu, 2007, p. 164), de sorte que as formas de torcer, consumir, justificar, protestar ou silenciar-se aparecem como disposições sistemáticas, e não como meras preferências contingentes. O torcedor que aceita a segmentação, que naturaliza o preço, que valoriza o conforto e a exclusividade, que toma a fila popular como atraso e a moderação premium como avanço, encarna uma forma social de gosto; o torcedor que denuncia a expropriação, que insiste na copresença popular, que recusa a redução do vínculo a ticket médio, encarna outra. A luta em torno do estádio é, portanto, luta em torno da forma legítima do gosto torcedor, da presença legítima, do corpo legítimo e do pertencimento legítimo.

 

    Em suma, os quatro corpora permitem concluir que o futebol de elite não apenas vende espetáculo: ele produz distinção, administra afetos, governa presenças, regula ausências e distribui diferencialmente o direito de existir no rito. Nessa direção, o diagnóstico aqui construído encontra direta ressonância em Dunning (1992, p. 299), para quem o desporto moderno é atravessado por uma “tendencia no sentido de uma crescente competitividade, seriedade no modo de envolvimento e orientação para os resultados”, processo pelo qual se verifica a “inevitável erosão das atitudes, valores e estruturas «amadoras»” e sua substituição por formas cada vez mais profissionais e orientadas por rendimento. Mais do que simples entretenimento, o futebol contemporâneo passa a operar, como diz Dunning (1992, p. 299), como instituição “central e muito mais valorizada”, tornando-se “uma das principais, senão a principal, fonte de identificação, significado e gratificação das suas vidas”; por isso mesmo, sua captura mercantil não incide sobre um bem periférico, mas sobre um dos lugares centrais de produção de vínculo, sentido e reconhecimento coletivo. Ao mesmo tempo, quando o Dunning (1992, p. 324) afirma que “o desporto se está a tornar cada vez mais a religião secular da nossa época”, ele oferece a chave para compreender por que a tarifação do acesso ao estádio não equivale apenas a uma política de preços, mas à administração seletiva de uma esfera quase sagrada de pertencimento. Nessa mesma linha, Dunning (1992, p. 323) observa que o desporto se converteu em “um dos principais meios de identificação coletiva” e em “uma fonte decisiva de sentido na vida de muitas pessoas”, de modo que o cercamento do comum esportivo aparece, aqui, como cercamento de uma das últimas liturgias seculares de copresença popular.

 

    Assim, o que este artigo demonstrou é que, precisamente porque o futebol concentra excitação, identificação e sentido, ele se torna terreno privilegiado de financeirização, de governo do desejo e de luta pela definição legítima de quem pode aparecer, permanecer e pertencer. Mas, ao mesmo tempo, os corpora revelam que o comum não desaparece sem resto: ele resiste sob a forma de contraenunciados, de ocupações sensíveis, de auditorias públicas, de redes solidárias, de campanhas regulatórias e de presenças insurgentes. É nesse ponto que a arqueogenealogia ao descrever as condições de possibilidade do cercamento afetivo, torna visíveis também as condições de possibilidade de sua fratura. E é nesse mesmo ponto que Bourdieu (1984) ajuda a consolidar o alicerce do argumento, ao mostrar que aquilo que aparece como simples política de preços é, na verdade, uma reorganização do espaço social do torcer, isto é, uma luta pela produção legítima dos estilos de vida, dos gostos e das distinções no interior do futebol contemporâneo.

 

    Lidos em conjunto, os quatro corpora não autorizam uma interpretação simplificadora segundo a qual a transformação do futebol de elite decorreria de uma vontade linear, homogênea e exclusivamente “maligna” do capital, como se o subcampo dos produtores e gestores operasse fora de constrangimentos históricos mais amplos. O que a análise arqueogenealógica permite entrever é uma racionalidade mais complexa, na qual clubes, dirigentes, plataformas, patrocinadores, operadores de segurança, arenas e mercados de mídia agem no interior de uma modernidade radicalizada, marcada por intensificação concorrencial, financeirização dos riscos, pressão por performance econômica e necessidade permanente de converter paixão em receita previsível. Nesse quadro, o gestor não aparece apenas como agente moralmente condenável, mas como operador situado num campo atravessado por imperativos de solvência, escalabilidade, governança e retenção de valor, em que o torcedor é simultaneamente sujeito de vínculo, consumidor e ativo relacional. Isso não absolve a lógica excludente identificada; antes, permite compreendê-la com maior rigor.

 

    A chamada “reabertura do comum esportivo”, nesse sentido, não pode significar retorno nostálgico ou regressão ingênua a um suposto futebol “raiz” intacto, porque as condições históricas de produção, circulação e consumo do espetáculo foram profundamente alteradas. Ela deve ser entendida, mais precisamente, como disputa política e institucional pelos limites da mercantilização, isto é, como tentativa de reintroduzir mediações públicas, regulações democráticas e critérios de justiça de acesso em um campo que já não pode ser simplesmente restaurado em moldes pretéritos, mas que tampouco precisa ser abandonado à soberania irrestrita do cálculo. O choque entre tradição e modernidade, portanto, não se resolve nem pela idealização conservadora do passado nem pela capitulação celebratória ao presente, mas pela análise das formas concretas pelas quais o espetáculo pode continuar moderno sem deixar de ser socialmente partilhável.

 

    Ao mesmo tempo, os resultados também sugerem que essa configuração não se impõe apenas de cima para baixo, pois os próprios torcedores participam, de modo desigual e por vezes contraditório, da reprodução e da contestação desse regime. A paixão clubística não produz apenas submissão; ela pode alimentar consumos reflexivos, adesões estratégicas, justificações pragmáticas, resignações dolorosas, críticas abertas e, também, lutas internas de distinção, nas quais pertencimento, autenticidade e legitimidade são medidos entre pares, tanto no interior de uma mesma torcida quanto na comparação com outras. Isso significa que o consumo do futebol espetáculo não deve ser lido automaticamente como passividade alienada, mas como prática relacional atravessada por disposições, capitais, expectativas e constrangimentos que podem tanto reforçar quanto tensionar a ordem mercantil.

 

    Do mesmo modo, não seria metodologicamente correto atribuir a nova conjuntura apenas às decisões clubísticas: o papel do Estado comparece, ainda que de forma nem sempre explícita, na regulação insuficiente dos preços, na modelagem jurídica das arenas, nas políticas de segurança, na desproteção do poder de compra popular e no quadro mais amplo de fragilização econômica que torna o ingresso proporcionalmente mais pesado em contextos periféricos do que em países centrais. Também por isso, a politização observada no segundo corpus não autoriza concluir que a militância clubística exista apenas porque certos sujeitos não podem entrar no estádio; mais rigorosamente, os materiais indicam que o pertencimento futebolístico pode transbordar o contexto do jogo e assumir forma política em espaços outros, sem que isso implique ausência necessária das arquibancadas ou dissolução completa da política dentro delas. O que se pode afirmar, com prudência analítica, é que o futebol contemporâneo se converteu em arena ampliada de disputa discursivas, na qual mercado, Estado, gestores e torcedores se coproduzem mutuamente, ora reforçando, ora fraturando a equivalência entre amar ↔ pagar ↔ pertencer. É precisamente essa coprodução tensa, e não uma causalidade unilateral, que os corpora tornam visível.

 

Discussão 

 

    Os resultados deste estudo se alinham a um conjunto recente de pesquisas internacionais que mapeiam a reconfiguração mercantil do torcer e as contrapalavras que a contestam. No eixo tarifa do pertencimento e da economia da presença, cresce a evidência de que clubes e ligas vêm deslocando o pricing “fixo” para arquiteturas de otimização dinâmica e pacotes de fidelização que estratificam o acesso e transformam presença em variável de negócio — exatamente a equivalência amor ↔ acesso ↔ pagamento descrito pela teoria dos cercamentos afetivos do comum esportivo. Em termos de modelagem, trabalhos recentes mostram como instrumentos financeiros e algoritmos de receita são trazidos para o esporte, com efeitos de seleção sobre quem aparece e como aparece (Sainam et al., 2023). De modo correlato, a literatura de previsão de demanda em eventos vem documentando o uso de preços dinâmicos e segmentação em artes e entretenimento — lógica que migra para o futebol de elite e sustenta a captura do afeto via métricas de receita (Popp et al., 2025). Na chave da contabilidade do afeto, tais arranjos traduzem vitalidade coletiva em indicadores (retenção, churn, ticket médio) e estabilizam um regime de verdade contábil que legitima reajustes e fechamentos setoriais.

 

    No plano da necropresença e da governamentalidade do desejo e da economia da presença, evidências comparativas sugerem que setorização, fechamentos e variações de preço por anel compõem mapas de solvência e produzem lacunas visíveis como “ruído administrável”, especialmente no pós-pandemia. Análises econométricas para ligas europeias mostram que custos, fricções e incertezas modulam de maneira desigual a assistência — o que, no quadro do presente estudo, aparece como cercamentos afetivos operando sobre populações distintas (Quansah, e Breuer, 2025). Ao mesmo tempo, a literatura sobre a “economia moral” das arquibancadas tem evidenciado como torcedores interpretam preços e políticas de acesso como (i) justos/injustos e, diante de choques tarifários, produzem mobilizações — achado que dialoga com o Corpus 1 e a gramática de “ingresso caro, arquibancada vazia” (Lee Ludvigsen, 2024). Em termos de governamentalidade do desejo, estudos sobre Supporter Liaison Officers (SLOs) apontam limites e oportunidades desses arranjos como mediação institucional entre clubes e base torcedora — um ponto crucial quando o pricing torna-se política pública do estádio. (Jordan-Vallverdú et al., 2024; Turner, 2020; Granström, 2011)

 

    Do “lado de lá” — contradispositivos e linhas de fuga —, há um renascimento do ativismo torcedor que se organiza fora do perímetro tarifado, convergindo com a análise do Corpus 2. Estudos recentes mostram coletivos que deslocam a energia clubística para a ação cívica e para a disputa simbólica (do antirracismo à democratização interna), reabrindo o comum onde foi cercado (Nagel et al., 2015; Mier, e Sheard, 2024). Esse feixe dialoga com trabalhos que analisam o ciclo de mobilizações anti-ESL na Europa — caso paradigmático de reapropriação do futebol como causa pública e fronteira de cidadania torcedora (Na, Gisladottir, e Sato, 2025). No recorte das disputas de gênero — central para a variável crítica à tarifa do pertencimento —, pesquisas em comunicação esportiva têm mostrado o “paradoxo da visibilidade”: quanto mais as mulheres torcedoras se tornam visíveis, mais enfrentam hostilidade, gatekeeping e violência simbólica, o que confirma a potência de enunciados como “Lugar de mulher é na arquibancada” como atos de desmercantilização da prova de pertença (Doehler, 2024). Análises feministas recentes também mapeiam ecologias de afeto e cuidado criadas por fãs, oferecendo gramáticas positivas para linhas de fuga e reconstituição de comuns (Brandt, Krugliak, e Warnecke, 2024). O arco saúde pública discursiva da tese deste estudo encontra respaldo emergente em estudos sobre bem-estar associado à espectação — elemento que politiza a discussão de barreiras de preço. Evidências recentes indicam que assistir a esportes pode elevar indicadores subjetivos de bem-estar, o que torna a exclusão tarifária um problema também sanitário (pela perda de benefícios psicossociais) e não apenas econômico (Butler et al., 2025). Complementarmente, o estudo de Kinoshita, Nakagawa, e Sato (2024) um estudo reforça esse efeito com um desenho quasi-experimental.

 

    À luz da discussão analítica construída nesta seção, torna-se possível afirmar que a teoria dos cercamentos afetivos do comum esportivo encontra em Bourdieu (2007) lastros para compreender como o futebol de elite vem sendo reorganizado como espaço de distinção, filtragem social e rentabilização diferencial das presenças. O que o estudo nomeia como tarifa do pertencimento, economia da presença, contabilidade do afeto, necropresença, governamentalidade do desejo, cercamentos afetivos, contradispositivos e linhas de fuga, longe de constituir apenas um vocabulário descritivo setorial, revela-se como uma grade de inteligibilidade apta a captar, no interior do espetáculo esportivo, aquilo que Bourdieu (2007, p. 212) descreve como a inscrição objetiva da “relação de distinção” nos próprios bens, práticas e modos de apropriação. Quando ele afirma que “cada um desses universos [...] fornece os raros traços distintivos que, funcionando como sistema de diferenças, de distâncias diferenciais, permitem exprimir as mais fundamentais diferenças sociais” e que “o universo dos bens de luxo e, entre eles, dos bens culturais” é particularmente predisposto a exprimir diferenças sociais, porque “a relação de distinção encontra-se aí inscrita objetivamente e se realiza [...] em cada ato de consumo”, ele oferece precisamente a chave para compreender o estádio contemporâneo como universo estilístico de classificação social, no qual o torcer deixa de ser mera prática afetiva coletiva e passa a ser distribuído como bem diferencialmente acessível (Bourdieu, 2007, p. 212). O ingresso, o setor, o plano de sócio, a experiência premium, a hospitalidade corporativa e a própria visibilidade da arquibancada convertem-se, então, em objetos de apropriação desigual, cuja eficácia não é apenas econômica, mas simbólica, porque, como sustenta Bourdieu (2007, p. 214), as obras e os bens culturais “são o objeto de uma apropriação exclusiva, material ou simbólica” e garantem “um ganho tanto de distinção, proporcionado à raridade dos instrumentos necessários à sua apropriação”. É exatamente aí que a tarifa do pertencimento mostra sua força explicativa: ela nomeia o mecanismo pelo qual amor clubístico, presença física e capacidade de pagamento são progressivamente alinhados numa mesma gramática de merecimento, solvência e legitimidade de acesso.

 

    Nessa direção, os trabalhos de Sainam et al. (2023) e Popp et al. (2025), tal como mobilizados nesta discussão, tornam visível a materialidade técnico-gerencial dessa transformação ao mostrarem como instrumentos financeiros, algoritmos de receita, modelagens preditivas e arquiteturas de precificação dinâmica passam a reger a circulação do público, estabilizando formas de seleção que não apenas estimam demanda, mas produzem públicos legítimos e públicos residuais. À luz de Bourdieu (1992, p. 215), não se trata simplesmente de ajuste mercadológico entre oferta e procura, mas daquilo que ele chama de “orquestração objetiva de duas lógicas relativamente independentes, ou seja, a dos campos de produção e a do campo do consumo”, de tal modo que “os produtos elaborados nas lutas de concorrência [...] encontrem [...] a demanda que se elabora” nas relações entre classes e frações de classe. Em outras palavras, a economia da presença não apenas responde a gostos preexistentes: ela fabrica condições de possibilidade para que certos gostos, certas formas de consumir o futebol e certos modos de comparecimento sejam reconhecidos como legítimos. O torcedor solvente, previsível, engajado sob a forma da assinatura, do consumo recorrente e da docilidade estatística, emerge como o equivalente esportivo da figura bourdieusiana do agente provido dos instrumentos de apropriação simbólica. É nesse ponto que a categoria contabilidade do afeto adquire pleno relevo: aquilo que antes se expressava como paixão, ritual, filiação e memória coletiva passa a ser traduzido em retenção, churn, ticket médio, lifetime value e elasticidade-preço, isto é, em um regime de veridicção no qual a vitalidade afetiva somente adquire inteligibilidade institucional quando convertida em cifra. Bourdieu (1991, p. 212) antecipa essa lógica ao observar que o gosto “rege as relações com o capital objetivado, com este mundo de objetos hierarquizados e hierarquizantes que contribuem para defini-lo”, pois também no futebol contemporâneo o gosto torcedor só se realiza mediante um universo de bens, acessos e experiências já estruturado hierarquicamente.

 

    As evidências trazidas por Quansah, e Breuer (2025), ao sugerirem que custos, fricções e incertezas modulam diferencialmente a assistência, reforçam a categoria necropresença, pois tornam empiricamente visível a produção social das ausências. O que o artigo interpreta como administração diferencial da presença pode ser lido, em chave bourdieusiana, como um efeito do fato de que “os gostos efetivamente realizados dependem do estado do sistema dos bens oferecidos”, de modo que toda mudança no sistema de bens e acessos acarreta uma mudança no próprio regime de presença possível (Bourdieu, 2007, p. 216). A necropresença, nesse sentido, não designa ausência pura, mas uma forma administrada de rarefação social do torcer, uma distribuição desigual do direito de aparecer, permanecer e compor o corpo visível do comum esportivo. Ao mesmo tempo, Lee Ludvigsen (2024), ao mostrar que torcedores interpretam políticas de preço segundo gramáticas de justo e injusto, recoloca em cena a dimensão moral das classificações, lembrando que a luta em torno do futebol não é apenas luta por lugares físicos, mas também luta pela definição legítima do que deve contar como vínculo autêntico. Aqui Bourdieu (2007, p. 213) é decisivo quando afirma que “toda apropriação de uma obra de arte [...] é, por sua vez, uma relação social e, contra a ilusão do comunismo cultural, uma relação de distinção”. O estádio tarifado não exclui apenas materialmente; ele produz, ao mesmo tempo, uma ordem moral na qual alguns acessos parecem merecidos e outros excessivos, alguns públicos parecem desejáveis e outros ruidosos, algumas presenças são valorizadas e outras tornadas administráveis enquanto resto.

 

    É justamente por isso que os estudos de Jordan-Vallverdú et al. (2024), Turner (2020) e Granström (2011), ao discutirem mediações institucionais, governança torcedora e Supporter Liaison Officers, podem ser relidos como tentativas de intervir nas formas de homologação entre campo esportivo e campo social. Se, para Bourdieu (2007, p. 217), “o acordo que se estabelece, assim, objetivamente entre classes de produtores e classes de consumidores só se realiza no consumo por intermédio dessa espécie de senso da homologia entre bens e grupos, que define o gosto”, então tais dispositivos mediadores aparecem como tentativas de reintroduzir negociação política num processo que tende a se autonomizar sob a forma de racionalidade técnica. Em outros termos, quando o pricing torna-se política pública do estádio, não está em jogo apenas um cálculo administrativo, mas uma disputa pelo princípio legítimo de composição do público. O problema já não é somente quanto custa entrar, mas quem pode contar como destinatário legítimo da experiência futebolística, em que termos e sob quais regimes de visibilidade. A governamentalidade do desejo, tal como formulada neste artigo, designa exatamente esse processo pelo qual as instituições não se limitam a responder a preferências, mas modulam, induzem, classificam e hierarquizam formas de desejar o jogo, produzindo uma pedagogia silenciosa do consumo torcedor.

 

    Do lado dos contradispositivos e das linhas de fuga, os trabalhos de Nagel et al. (2015), Mier, e Sheard (2024) e An, Gisladottir, e Sato (2025) mostram que o torcer não se deixa reduzir integralmente à lógica da mercantilização. Ao deslocarem a energia clubística para a ação cívica, para o protesto e para a disputa pública do sentido do futebol, esses movimentos restituem à paixão torcedora sua dimensão política, reabrindo o comum onde ele havia sido cercado. Bourdieu (2007, p. 214) ajuda a compreender a profundidade dessa luta quando insiste em que “o capital cultural objetivado só existe e subsiste atuante como capital cultural [...] nas e pelas lutas travadas nos campos de produção cultural [...] e, acima disso, no campo das classes sociais”. O futebol, pensado como bem cultural e espaço de pertencimento, subsiste igualmente nas lutas que tentam definir se ele será tratado como ativo premium, plataforma de receita, tradição partilhada ou direito cultural. Os protestos anti-ESL, por exemplo, aparecem como momento privilegiado em que a homologia funcional entre elites dirigentes e consumidores desejados sofre fratura pública, permitindo que o torcedor se reinscreva não como cliente, mas como sujeito de reivindicação e coproprietário simbólico da instituição clubística. Nessa inflexão, o comum deixa de ser apenas memória afetiva e se torna terreno estratégico de disputa.

 

    As contribuições de Doehler (2024) e de Brandt, Krugliak, e Warnecke (2024) aprofundam ainda mais essa camada ao mostrar que o pertencimento ao futebol é também atravessado por relações de gênero, hostilidade, gatekeeping e violência simbólica. A categoria contradispositivos, nesse caso, não nomeia apenas resistência abstrata, mas práticas concretas de reconstituição de comunidades de cuidado, reconhecimento e hospitalidade no interior de um espaço historicamente masculinizado. Em Bourdieu (2007), isso pode ser conectado ao fato de que os campos funcionam como espaços nos quais as posições não são dadas substancialmente, mas relacionalmente, e nos quais as classificações sociais se naturalizam sob a forma de gosto, competência e legitimidade.

 

    Quando mulheres torcedoras afirmam “Lugar de mulher é na arquibancada”, desestabilizam precisamente a distribuição desigual dos instrumentos de apropriação simbólica do futebol; recusam o monopólio masculino da competência torcedora e expõem o caráter arbitrário daquilo que parecia natural. A disputa não é só por presença física, mas por reconhecimento legítimo de fala, memória, saber e afeto. Também aqui ressoa Bourdieu (2007, p. 236) quando sustenta que “as lutas [...] a propósito da representação de sua posição no mundo social” são constitutivas da própria realidade social. A arquibancada, portanto, não é simples lugar, mas regime de classificação, e sua democratização implica romper o privilégio daqueles que sempre puderam parecer naturalmente feitos para ela.

 

    Por sua vez, Butler et al. (2025) e Kinoshita, Nakagawa, e Sato (2024), ao associarem a espectação esportiva a indicadores de bem-estar, oferecem forte sustentação à categoria saúde pública discursiva. O ponto crucial é que, se assistir ao esporte participa da produção de vínculos, bem-estar subjetivo, sentido de pertencimento e estabilidade psicossocial, então a exclusão tarifária deixa de ser apenas problema econômico ou administrativo e passa a afetar as condições coletivas de vida. A saúde pública discursiva, tal como proposta neste artigo, não reduz o futebol a terapêutica, mas evidencia que a regulação do acesso ao espetáculo incide sobre a distribuição social do cuidado, do prazer, da convivência e da possibilidade de partilhar afetos legitimados. Aqui a teoria bourdieusiana da distinção oferece mais lastros teóricos para o presente estudo, pois mostra que os bens culturais não são exteriores à reprodução das hierarquias; ao contrário, eles garantem “legitimidade, ganho por excelência, que consiste no fato de sentir-se justificado para existir” (Bourdieu, 2007, p. 214). Ser excluído do estádio por preço, setorização ou dispositivos de solvência é também ser simbolicamente deslocado da posição de sujeito legitimado a existir naquele mundo, a falar nele e a reconhecê-lo como seu.

 

    Dessa maneira, as oito categorias analíticas da teoria dos cercamentos afetivos do comum esportivos, defendido neste artigo, podem ser lidas como desdobramentos contemporâneos do problema bourdieusiano da distinção em um campo esportivo financeirizado. Os cercamentos afetivos nomeiam a operação estrutural pela qual um bem comum é reorganizado como sistema de acessos diferenciais; a contabilidade do afeto mostra a conversão do vínculo em métrica e do engajamento em capital extraível; a tarifa do pertencimento evidencia que a adesão passa a ser provada monetariamente; a economia da presença descreve a transformação do comparecimento em variável de negócio; a necropresença capta a administração diferencial das ausências socialmente produzidas; a governamentalidade do desejo revela o trabalho institucional de modulação das formas legítimas de querer o jogo; os contradispositivos identificam as práticas que tensionam esse regime; e as linhas de fuga apontam os processos pelos quais o comum pode ser reaberto.

 

    Em seu conjunto, elas demonstram que o futebol contemporâneo não pode mais ser pensado fora daquilo que Bourdieu (2007, p. 229) chamou de “lutas simbólicas” em torno da definição legítima dos bens, dos públicos, dos modos de apropriação e dos próprios princípios da hierarquia social. Por isso, a grande contribuição deste artigo está em mostrar que o estádio não é apenas cenário esportivo, mas campo de produção de distinção; que o ingresso não é apenas preço, mas operador classificatório; que a arquibancada não é apenas espaço de presença, mas dispositivo de seleção; e que o torcer, quando submetido à lógica da rentabilidade, torna-se uma forma exemplar de administração contemporânea do sensível. Em suma, o que esta discussão demonstra, em convergência com Bourdieu (2007, p. 217), é que o futebol de elite tornou-se um dos lugares privilegiados onde “a lógica do campo de produção e a lógica do campo do consumo são objetivamente orquestradas”, de modo que o amor ao clube, longe de escapar às lutas de classe e às estratégias de distinção, converte-se precisamente em um de seus mais eficazes meios de atualização.

 

    Nessa mesma direção, a leitura de Dunning, Murphy, e Williams (1992) permite adensar a discussão ao mostrar que o torcer não se organiza apenas como consumo de espetáculo, mas também como trama relacional de territorialidade, honra, antagonismo e alianças móveis. Ao analisarem o hooliganismo como fenômeno “complexo e multifacetado”, os autores observam que, para os segmentos hardcore, “o confronto e o comportamento agressivo” podem ser vividos como “uma parte integrante do ‘ir ao desafio de futebol’”, isto é, como dimensão constitutiva — e não acidental — da experiência torcedora (Dunning, Murphy, e Williams, 1992, p. 356). Mais do que simples desvio, trata-se de compreender o estádio e seus arredores como espaço no qual se condensam disposições de grupo, códigos de masculinidade, demarcações territoriais e economias simbólicas do pertencimento. Essa formulação dialoga com a teoria dos cercamentos afetivos do comum esportivo porque revela que a presença no futebol sempre foi mais do que presença física: ela envolve disputa por reconhecimento, defesa do “bom nome do bairro”, afirmação do “território da casa” e produção de solidariedades diferenciais entre coletivos rivais. (Dunning, Murphy, e Williams, 1992, p. 371).

 

    Quando Dunning, Murphy, e Williams (1992, p. 358) mostram que a política de segregação dos torcedores acabou por intensificar a solidariedade nos “territórios do futebol” e deslocar parte do conflito “para o lado de fora do recinto”, eles oferecem uma chave decisiva para compreender que todo dispositivo de ordenamento da presença também reconfigura, e não elimina, as tensões constitutivas do torcer. Do mesmo modo, sua noção de “segmentação ordenada”, segundo a qual grupos relativamente independentes tendem a combinar-se “por meio de oposição e de conflito”, bem como a chamada “síndroma beduína” — sintetizada no princípio “o amigo de um amigo é um amigo; o inimigo de um inimigo é um amigo” — ajuda a perceber que o comum esportivo nunca foi homogêneo, mas estruturado por composições instáveis de proximidade, rivalidade e coalizão (Dunning, Murphy, e Williams, 1992, p. 370). Em outras palavras, se o presente artigo mostra que o futebol de elite contemporâneo administra a copresença mediante preço, setorização e filtragem econômica, Dunning, Murphy, e Williams (1992) permitem acrescentar que essa administração incide sobre um terreno já historicamente marcado por confrontos simbólicos e territoriais, isto é, sobre uma configuração na qual pertencer sempre significou também ocupar, defender, disputar e tornar visível uma posição coletiva. Assim, a tarifa do pertencimento e a economia da presença não recaem sobre um público abstrato, mas sobre formações torcedoras cujas energias, rivalidades, alianças ad hoc e códigos de honra já compunham, muito antes da financeirização intensiva, a gramática sensível do futebol; por isso, o cercamento contemporâneo não apenas seleciona consumidores, mas reordena as possibilidades de antagonismo, solidariedade e reconhecimento que faziam da arquibancada um espaço vivo de conflito social dramatizado.

 

Conclusão 

 

    Este artigo demonstrou a consistência explanatória da teoria dos cercamentos afetivos do comum esportivo para descrever o governo do sensível no futebol de elite. Ao longo dos quatro corpora, evidenciou-se que o espetáculo não apenas reflete a mercantilização, mas opera como seu princípio: produz um comum afetivo do torcer ao mesmo tempo que o submete a tarifas, prioridades e exclusividades que reordenam quem pode existir como sujeito legítimo da festa. As oito categorias propostas mostraram-se mutuamente implicadas e empiricamente rastreáveis: cercamentos afetivos (passagem do comum a um regime de propriedade seletiva) e contabilidade do afeto (tradução da vitalidade coletiva em métricas de receita); tarifa do pertencimento e economia da presença (equivalência amor ↔ acesso ↔ pagamento e gestão algorítmica da visibilidade); necropresença e governamentalidade do desejo (administração diferencial de ausências/presenças e modulação do vínculo por liturgias de proximidade); contradispositivos e linhas de fuga (práticas, redes e regulações que reabrem o comum) e saúde pública discursiva (adoecimento produzido por endividamento, sobrecarga emocional e desistências silenciosas).

 

    O percurso com o método arqueogenealógico forneceu o arcabouço decisivo. No registro arqueológico (Foucault, 2005), tratou-se o futebol de elite como prática discursiva e forma descritas as regras de formação que tornam pensável e dizível a equivalência amor ↔ acesso ↔ pagamento, estabilizando léxicos de devoção, argumentos de “demanda” e narrativas de “otimização”. No registro genealógico, rastreou-se técnicas, dispositivos e contracondutas que operacionalizam (e por vezes fraturam) essa equivalência: a governamentalidade (Foucault, 1979) mostrou como a população torcedora é alvo e instrumento de táticas de preço, setorização e fidelização; a biopolítica (Foucault, 1999) iluminou as cesuras normativas que tornam admissível a exclusão como “profilaxia” do espetáculo; a necropolítica (Mbembe, 2018) permitiu ler a produção de fronteiras internas do comum e a administração da ausência como forma de “morte social” no rito; por fim, o corpo sem órgãos (Deleuze, e Guattari, 1996) ajudou a pensar a superfície de inscrição em que o capital captura o desejo torcedor e, simultaneamente, os contradispositivos e linhas de fuga que desfazem acoplamentos hegemônicos, reinstalando usos coletivos do comum.

 

    Do ponto de vista do estado da arte recente (2020-2025), a tese encontra respaldo em quatro frentes convergentes: (i) estudos sobre preços dinâmicos, segmentação e pacotes de fidelização em esportes e entretenimento mostram a transformação da presença em variável de negócio, reforçando tarifa do pertencimento e economia da presença; (ii) evidências econométricas pós-pandemia documentam heterogeneidades de acesso e lacunas visíveis correlatas a custos e fricções, o que dialoga com cercamentos afetivos e necropresença; (iii) pesquisas sobre governança e ativismo torcedor (SLOs, mobilizações anti-ESL, coletivos feministas e antirracistas) explicitam contradispositivos que deslocam a energia clubística para a esfera pública, corroborando as linhas de fuga mapeadas; (iv) literatura emergente em bem-estar indica ganhos psicossociais associados à espectação, o que sustenta a categoria saúde pública discursiva e politiza as barreiras de preço como questão sanitária e não apenas econômica. Em conjunto, esse corpo de pesquisas internacional atualiza e robustece a proposta teórica, indicando que o fenômeno não é local ou episódico, mas uma tendência setorial com variações contextuais.

 

    Do ponto de vista analítico-normativo, os achados sustentam três implicações: (1) a mercantilização do vínculo opera por discurso e dispositivos, logo a crítica não pode restringir-se a contestações morais do “preço alto”, devendo incidir sobre regimes de verdade (indicadores, metas, algoritmos) que legitimam a exclusão; (2) políticas públicas e arranjos de governança (tetos regulatórios para visitantes, reciprocidades obrigatórias, auditorias de borderô, quotas sociais territorializadas, fortalecimento de SLOs com accountability) emergem como contradispositivos institucionais capazes de reabrir o comum onde foi cercado; (3) a agenda de pesquisa-ação deve articular arqueologia do dizer (mapas de enunciados e regras de formação) com genealogias situadas (etnografias de arquibancadas e redes), além de propor métricas alternativas — índice de permeabilidade social do estádio e índice de bem-estar torcedor — que disputem a contabilidade do afeto reduzida a receita.

 

    Como toda investigação, esta possui limites: foi analisado um conjunto finito de corpora e contextos, sem modelar elasticidades de demanda nem efeitos causais de políticas específicas. Ainda assim, o desenho arqueogenealógico permitiu identificar generalizações teórico-analíticas: ficou demonstrado como o dispositivo transforma amor em assinatura e presença em ticket médio, e onde se evidenciam brechas para reinstalar o comum. Pesquisas futuras podem testar intervenções regulatórias em desenhos quase-experimentais, qualificar efeitos em recortes de raça, gênero e território, e modelar interações entre preço, telepresença paga e bem-estar.

 

    Em suma, ao tratar o futebol de elite como discurso-dispositivo e ao integrar oito categorias em um mesmo quadro, a teoria dos cercamentos afetivos do comum esportivo oferece uma explicação coesa e transferível do presente regime do torcer — e indica caminhos de fratura. A reabertura do comum onde foi cercado deixa de configurar gesto nostálgico e passa a constituir programa crítico: a disputa pelos léxicos, a regulação das engrenagens e o fortalecimento das redes delineiam um horizonte em que pertencer volta a significar direito e cuidado, e não senha de pagamento. É nesse tripé — análise discursiva, regulação pública e práticas coletivas — que se desenha um horizonte no qual pertencer volta a significar direito e cuidado, não senha de pagamento.

 

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Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 31, Núm. 336, May. (2026)