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ISSN 1514-3465

 

Insatisfação corporal em estudantes de Educação Física: 

análise de fatores associados

Body Dissatisfaction in Physical Education Students: 

Analysis of Associated Factors

Insatisfacción corporal en estudiantes de Educación Física: 

un análisis de los factores asociados

 

Gláucio Oliveira da Gama*

glaucio_gama@hotmail.com

Cláudio Oliveira da Gama**

claudiodagama@hotmail.com

Nancy Vieira Ferreira+

nancyvireiraferreira@yahoo.com.br

Jefferson Portela Silveira++

dr.jeffersonportella@gmail.com

Agnaldo José Lopes+++

alopes@souunisuam.com.br

 

*Médico; Doutorando em Ciências da Reabilitação

Centro Universitário Augusto Motta (UNISUAM)

**Doutor em Epidemiologia em Saúde Pública

Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ)

Pós-Doutor em Educação

Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ)

+Médica; Mestre em Saúde Pública (FIOCRUZ)

++Médico. Pós-Graduado em Dermatologia

Instituto IMS/Hospital da Gamboa

+++Médico; Doutor em Ciências Médicas

Universidade Estadual de Rio de Janeiro (UERJ)

Docente da UNISUAM

(Brasil)

 

Recepción: 05/10/2025 - Aceptación: 13/11/2025

1ª Revisión: 31/10/2025 - 2ª Revisión: 09/11/2025

 

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https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/deed.pt

Cita sugerida: Gama, G.O. da, Gama, C.O. da, Ferreira, N.V., Silveira, J.P., e Lopes, A.J. (2026). Influência da força relativa no número máximo de repetições na barra fixa em estudantes universitários. Lecturas: Educación Física y Deportes, 30(332), 14-53. https://doi.org/10.46642/efd.v30i332.8579

 

Resumo

    A insatisfação corporal (IC) é uma avaliação negativa da imagem corporal com alta prevalência na população universitária, configurando-se como fator de risco para comorbidades físicas e psicológicas. Objetivo: Analisar fatores sociodemográficos, comportamentais e de percepção de saúde associados à IC em estudantes do curso de Educação Física. Métodos: Estudo transversal e analítico conduzido com 214 universitários. A IC foi mensurada pelo Body Shape Questionnaire (BSQ) e as associações foram investigadas por meio dos testes Qui-Quadrado e t de Student. Resultados: A prevalência total de IC foi de 22,9 %, com 11,2 % nos níveis moderado ou grave. A IC associou-se a IMC mais elevado (p<0,0001), histórico de transtornos alimentares (p<0,0001), problemas de saúde mental (p=0,001) e uso de edição de fotos (p=0,0001), sendo mais prevalente no sexo feminino (p<0,0001). Conclusão: A IC mostrou-se prevalente e multifatorial, envolvendo fatores clínicos, comportamentais e contextuais. O estudo contribui ao identificar um perfil de risco específico e emergente, reforçando a necessidade de estratégias de prevenção, alfabetização midiática e reabilitação psicossocial no ambiente universitário.

    Unitermos: Imagem corporal. Insatisfação corporal. Saúde mental. Grupos de risco. Universitários.

 

Abstract

    Body dissatisfaction is a negative evaluation of body image with high prevalence in the university population, constituting a risk factor for physical and psychological comorbidities. Objective: To analyze sociodemographic, behavioral, and health perception factors associated with body dissatisfaction in Physical Education students. Methods: A cross-sectional and analytical study was conducted with 214 university students. Body dissatisfaction was measured using the Body Shape Questionnaire (BSQ), and associations were investigated using Chi-square and Student's t-tests. Results: The overall prevalence of body dissatisfaction was 22.9 %, with 11.2 % at moderate or severe levels. Body dissatisfaction was associated with higher BMI (p<0.0001), a history of eating disorders (p<0.0001), mental health problems (p=0.001), and the use of photo editing (p=0.0001), being more prevalent in females (p<0.0001). Conclusion: Body dissatisfaction proved to be prevalent and multifactorial, involving clinical, behavioral, and contextual factors. The study contributes by identifying a specific and emerging risk profile, reinforcing the need for prevention strategies, media literacy, and psychosocial rehabilitation in the university environment.

    Keywords: Body image. Body dissatisfaction. Mental health. Risk groups. University students.

 

Resumen

    La insatisfacción corporal (IC) es una evaluación negativa de la imagen corporal con alta prevalencia en la población universitaria, constituyendo un factor de riesgo para comorbilidades físicas y psicológicas. Objetivo: Analizar los factores sociodemográficos, conductuales y de percepción de la salud asociados a la IC en estudiantes de Educación Física. Métodos: Se realizó un estudio transversal y analítico con 214 estudiantes universitarios. La IC se midió mediante el Body Shape Questionnaire (BSQ) y las asociaciones se investigaron mediante las pruebas de chi-cuadrado y t de Student. Resultados: La prevalencia general de IC fue del 22,9 %, con un 11,2 % en niveles moderados o graves. La IC se asoció con un IMC más elevado (p<0,0001), antecedentes de trastornos de la conducta alimentaria (p<0,0001), problemas de salud mental (p=0,001) y el uso de edición fotográfica (p=0,0001), siendo más prevalente en mujeres (p<0,0001). Conclusión: La imagen corporal resultó ser un fenómeno prevalente y multifactorial, que involucra factores clínicos, conductuales y contextuales. Este estudio contribuye a la identificación de un perfil de riesgo específico y emergente, reforzando la necesidad de estrategias de prevención, alfabetización mediática y rehabilitación psicosocial en el ámbito universitario.

    Palabras clave: Imagen corporal. Insatisfacción corporal. Salud mental. Grupos de riesgo. Estudiantes universitarios.

 

Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 30, Núm. 332, Ene. (2026)


 

Introdução 

 

    A imagem corporal é um construto psicossocial complexo e multifacetado, definido como a representação mental que um indivíduo faz do seu próprio corpo, englobando percepções, pensamentos, sentimentos e as atitudes em relação à aparência física (Gama et al., 2025a). Trata-se de um fenômeno dinâmico, influenciado por fatores intrínsecos (biológicos e psicológicos) e extrínsecos (sociais, culturais e contextuais). Enquanto sua manifestação positiva está associada a benefícios como maior autoestima, controle de peso saudável e melhor qualidade de vida, o seu aspecto negativo está fortemente relacionado com desfechos adversos de saúde, incluindo ansiedade, compulsão alimentar, excessivo controle de peso e problemas de saúde mental, como a síndrome do pânico, anorexia, bulimia e vigorexia. É a partir da avaliação negativa e desse possível sofrimento psicossocial que se define o constructo da insatisfação corporal (IC).

 

    A IC é definida pela discrepância entre a forma corporal percebida e a idealizada pelo indivíduo, e representa a forma disfuncional mais comum da imagem corporal, com potencial de evolução para quadros clinicamente graves, como o transtorno dismórfico corporal (TDC) (Gama et al., 2025a). Este fenômeno tem se revelado crescente na contemporaneidade, uma era marcada pelo culto obsessivo ao corpo modelo onde a aparência física é frequentemente percebida como um bem de consumo, um marcador de status social e um veículo de prestígio. Em países como o Brasil, a veiculação do “corpo belo” é amplamente associada a prazer, prestígio e poder social, um fenômeno exponencialmente amplificado com o uso das mídias e redes sociais, que impõem estilos de vida com padrões estéticos cada vez mais exigentes e irrealistas. (Gama et al., 2025a)

 

    A análise dos diferentes contextos sociais nos quais a IC pode atingir níveis preocupantes mostra-se essencial para a compreensão desse fenômeno. O ambiente universitário, em especial, destaca-se como um espaço de significativa vulnerabilidade, no qual múltiplos fatores, como o estresse acadêmico, a transição da adolescência para a vida adulta, o contato com a diversidade cultural e a intensa pressão social relacionada à aparência e à comparação entre pares se entrelaçam de maneira complexa.

 

    A experiência universitária representa uma etapa crucial no desenvolvimento pessoal e acadêmico dos estudantes. Durante esse período, os jovens enfrentam desafios que podem impactar diversos aspectos de suas vidas, incluindo a autoestima, a percepção da própria imagem corporal e os hábitos alimentares (Estrada-Araoz et al., 2025). Pesquisas anteriores também indicam que fatores sociodemográficos e acadêmicos estão associados à preocupação com a imagem corporal, reforçando a relevância de aprofundar a investigação dessa temática no contexto universitário. (Levorato, 2021)

 

    Nesse cenário, a IC desponta como um importante fator de risco para o sofrimento psicológico e para a queda da autoestima, sobretudo entre jovens em situação de vulnerabilidade social e de saúde (Pimentel et al., 2025). Trata-se, portanto, de um sinal de alerta para as múltiplas tensões psicossociais e estéticas que atravessam a experiência universitária.

 

    No contexto brasileiro, diversas investigações têm se dedicado à compreensão desse fenômeno. Uma revisão sistemática com metanálise recente, conduzida por Gama et al. (2024), buscou estimar a magnitude da IC entre universitários no Brasil, incluindo uma vasta amostra com mais de 10.000 participantes. Os resultados apontaram uma prevalência geral de IC de 30,2 % entre os universitários, abrangendo diferentes regiões e cursos acadêmicos de todo território nacional.

 

    A relevância do presente estudo é potencializada pelo fato de ter sido conduzido com estudantes de graduação em Educação Física (EF) da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Trata-se de uma população de especial interesse clínico e científico, uma vez que a área do conhecimento enfatiza aspectos relacionados à estética corporal, saúde e ao desempenho físico, fatores que a tornam particularmente suscetível à pressão por um corpo ideal e, consequentemente, a níveis mais elevados de IC (Gama et al., 2025b). Embora investigações anteriores no Rio de Janeiro (RJ) com o mesmo curso tenham apontado para a relevância do tema (Bosi et al., 2008; Pires, 2017), oferecendo uma base comparativa, uma análise atualizada dos fatores de risco associados nesta população específica faz-se necessária, sobretudo após o período pandémico de COVID-19.

 

    Portanto, o objetivo deste estudo foi analisar os fatores sociodemográficos, comportamentais e de percepção de saúde associados à insatisfação com a imagem corporal (IC) em estudantes do curso de Educação Física (EF).

 

Métodos 

 

    Trata-se de um estudo observacional, de delineamento transversal e analítico, conduzido com estudantes do curso de EF-UFRRJ. A amostra, do tipo não probabilística por conveniência, foi composta por 214 discentes que atenderam aos seguintes critérios de inclusão: estar regularmente matriculado(a) no curso e ter idade igual ou superior a 18 anos. Foram excluídos da análise questionários incompletos, além de participantes gestantes, pessoas com deficiência visual e recusas em participar.

 

    A coleta de dados ocorreu entre março e setembro de 2024 por meio do preenchimento de formulários digitais (Google Forms). O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da instituição (CAAE nº 77319424.8.0000.5235), e todos os participantes assentiram ao Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) antes de preencherem os instrumentos.

 

    Os instrumentos aplicados na amostra foram os seguintes:

  1. Questionário sociodemográfico e comportamental: Foram incluídos dados sociodemográficos, antropométricos, clínicos (histórico de transtornos alimentares e problemas de saúde mental, dentre outros) e contextuais (uso de edição de fotos, questões envolvendo o período da pandemia de COVID-19, etc.).

  2. Body Shape Questionnaire (BSQ-34): A IC (desfecho primário) foi mensurada pela versão brasileira do BSQ-34 (Cooper et al., 1987; Di Pietro, e Silveira, 2009). Este é um instrumento autoaplicável de 34 itens (com escala de Likert de seis pontos). A classificação da IC seguiu as categorias de pontuação: ausência (até 110 pontos); leve (111 e 138 pontos); moderada (139 a 167 pontos); e grave (acima de 168 pontos). A pontuação total é dada pela soma das notas atribuídas a cada uma das 34 respostas do questionário, assinaladas pelo próprio participante (Campana e, Tavares, 2009).

  3. Escala de Figuras de Silhuetas: Para a avaliação da percepção da forma corporal, foi utilizada a Escala de Figuras de Silhuetas (Kakeshita, 2008). Desenvolvida a partir de fotografias de adultos brasileiros com índices de massa corporal (IMC) previamente conhecidos, os desenhos das silhuetas foram construídos por computação gráfica. O instrumento é composto por 15 figuras para cada sexo, dispostas em ordem crescente de adiposidade, com cada representação gráfica vinculada a um valor de IMC que varia de 12,5 a 47,5 kg/m², com um incremento de 2,5 kg/m² entre elas. Aos participantes foi solicitado que indicassem a silhueta correspondente ao seu corpo “atualmente” e a silhueta que “gostariam de ter” (ideal). A comparação entre as respostas permitiu categorizar o desejo em relação à silhueta em: “manter” (atual = ideal), “aumentar” (ideal > atual) ou “diminuir” (ideal < atual).

Análise estatística 

 

    As análises foram conduzidas no software SPSS, versão 26.0, adotando-se um nível de significância de p<0,05. Inicialmente, as variáveis categóricas foram descritas por meio de frequências absolutas (n) e relativas (%), enquanto as variáveis numéricas, após verificação da normalidade pelo teste de Shapiro-Wilk, foram apresentadas como média e desvio padrão (DP) ou mediana e intervalo interquartil (IIQ).

 

    Para testar a associação entre as variáveis independentes e a IC (categorizada como “satisfeito” vs. “insatisfeito”), foram utilizados os testes Qui-Quadrado (χ²) ou Exato de Fisher para as variáveis categóricas; e o teste t de Student para amostras independentes dos dados numéricos. Adicionalmente, foi realizada uma análise descritiva exploratória do subgrupo classificado com IC grave, em uma perspectiva de estudo de casos múltiplos.

 

Resultados 

 

Caracterização da amostra (n= 214) 

 

    A amostra demonstrou uma distribuição homogênea para ambos os sexos (50 % feminino e 50 % masculino). A vasta maioria dos estudantes identificou-se como cisgênero (98,5 %), solteira (94,9 %) e sem filhos (95,3 %). Quanto à orientação sexual, 65,2 % declararam-se heterossexuais, seguidos por uma proporção significativa de bissexuais (26,2 %) e uma minoria homossexual (8,1 %). Em relação à cor/raça autodeclarada, o grupo foi majoritariamente composto por indivíduos de cor branca (50,9 %), pardos (31,3 %) e pretos (16,8 %). No contexto socioeconômico, a maior parte dos discentes residia com familiares (66,4 %) e possuía renda familiar entre 2 e 5 salários-mínimos (39,3 %). Metade da amostra (51,9 %) reportou exercer alguma atividade ocupacional extracurricular, e o perfil acadêmico prevalente foi de estudantes cursando o período intermediário da graduação (68,7 %).

 

Hábitos, atividade física e lazer 

 

    A amostra demonstrou alto engajamento em comportamentos em prol da saúde, como esperado para o perfil do curso. Um total de 77,6 % dos estudantes reportou praticar exercícios físicos de modo regular, com a maioria (57,8 %) realizando atividades mais de três vezes por semana, e um nível de aptidão física predominantemente moderado (70,1 %). A maioria (63,6 %) relatou ingerir bebidas alcoólicas, mas o tabagismo foi negado por 87,4 % dos participantes. No que tange ao lazer, a atividade principal foi o uso da internet e redes sociais (38,3 %), seguida de perto pela prática de atividades físicas (36,4 %).

 

Comportamento de risco, saúde mental e exposição sociodigital 

 

    Em relação ao histórico de intercorrências de saúde, 33,6 % dos participantes já tiveram diagnóstico ou realizaram tratamento para problemas de saúde mental (como depressão ou ansiedade). Deste grupo (n=72), 58,3 % acreditam que este quadro afetou ou esteve relacionado a uma possível insatisfação com o próprio corpo. O risco de comportamentos disfuncionais foi notório: 24,3 % dos estudantes reportaram histórico de dietas restritivas para perder ou suplementar para ganhar peso, e 13,6 % possuíam histórico de transtornos alimentares. Além disso, 5,6 % relataram histórico de uso de substâncias para ganho ou perda de peso.

 

    A exposição digital demonstrou ser um fator de risco constante. A totalidade dos participantes possuía redes sociais ativas, sendo o Instagram a plataforma de maior uso e engajamento. A atividade que concentra a maior parte do tempo de lazer dos estudantes é o uso da Internet através das redes sociais (38,3 %), superando a prática de atividades físicas (36,4 %). Essa vigilância digital é intensa, com 86,9 % dos participantes relatando checar as redes sociais várias vezes ao dia (sem controle).

 

    O ponto de maior vulnerabilidade reside na manipulação da autoimagem: um terço dos estudantes (35 %) relata usar recursos de edição ou filtros em suas fotos pessoais postadas nas redes sociais. Essa prática é crucial para a análise de risco, uma vez que a associação significativa entre o uso de edição de fotos e a IC (p=0,0001) demonstrou o impacto direto desse ambiente digital na saúde psicossocial do estudante. Tais dados confirmam a interligação entre o ambiente digital e a predisposição clínica para os distúrbios de imagem.

 

Autopercepção e contexto pandêmico 

 

    A autopercepção da saúde geral não foi majoritariamente positiva, visto que 36,4 % se autoavaliaram como razoável ou ruim. Em relação à imagem corporal, 43,9 % dos estudantes se sentiam insatisfeitos com a própria aparência no momento da pesquisa. O impacto da pandemia de COVID-19 também foi evidente, com 40,2 % percebendo aumento na composição corporal ou ganho de peso; 21 % percebendo diminuição ou redução de peso. Em suma, 61,2 % dos participantes observaram variações em sua composição corporal naquele período.

 

    A caracterização da amostra indicou um perfil de estudantes universitários regularmente engajados em práticas de atividade física, porém altamente expostos e vulneráveis a pressões estéticas. Esse cenário fundamentou a necessidade de uma investigação aprofundada das associações com a IC, conduzida na etapa subsequente do estudo. As tabelas referentes à caracterização da amostra podem ser consultadas nos anexos 1 e 2.

 

Prevalência e fatores associados à insatisfação corporal 

 

    A prevalência total de IC na amostra (N=214), mensurada pelo BSQ-34, foi de 22,9 %, com 11,2 % nos níveis moderado ou grave (Tabela 1). A análise estratificada por sexo, detalhada na Tabela 4.1, revelou que a insatisfação é significativamente mais prevalente no sexo feminino (p < 0,0001). A prevalência de IC nas mulheres (n=107) foi de 35,5 % (n=38), enquanto nos homens (n=107) foi de 10,3 % (n=11). No grupo total de insatisfeitos, 77,6 % eram mulheres e 22,4 % eram homens. A pontuação do BSQ-34, que pode variar de 34 a 204 pontos, revelou uma pontuação média de 85,7 (DP=36,4) e uma mediana de 75,5 (intervalo interquartil: 57-107), com escores que variaram de 34 a 193. A distribuição dos dados não seguiu uma curva normal, justificando o uso da mediana como principal medida de tendência central.

 

Tabela 1. Prevalência de IC e níveis de gravidade (BSQ-34) na população estudada.

Classificação BSQ-34 (IC)

N

Prevalência (%)

Satisfeitos (≤110 pontos)

165

77,1

Insatisfação leve (111 a 138 pontos)

25

11,7

Insatisfação moderada/grave (≥139 pontos)

24

11,2

Insatisfeitos (>110 pontos)

49

22,9

Total

214

100

Fonte: Autoria própria

 

Análise da percepção da silhueta corporal 

 

    Complementarmente à avaliação atitudinal da imagem corporal mensurada pelo BSQ-34, a dimensão perceptiva foi avaliada por meio da Escala de Figuras de Silhuetas. A análise revelou uma clara discrepância entre a percepção da silhueta atual e a idealizada pela maioria dos estudantes. A Tabela 2 fornece a distribuição da avaliação subjetiva da silhueta atual, ideal e a ideal para o sexo oposto, por sexo (feminino e masculino). Os dados foram expressos pela frequência (n) e porcentagem (%).

 

Tabela 2. Avaliação subjetiva da silhueta atual, ideal e do sexo oposto por sexo feminino e masculino

Figura (Nº)

Silhueta atual

Silhueta ideal

Silhueta ideal do sexo oposto

femenino

masculino

femenino

masculino

femenino

masculino

n

%

n

%

n

%

n

%

n

%

n

%

Figura 1 (magra)

7

6,5

8

7,5

0

0,0

2

1,9

3

2,8

1

0,9

Figura 2

17

15,9

15

14,0

15

14,0

9

8,4

6

5,6

3

2,8

Figura 3

14

13,1

17

15,9

32

29,9

14

13,1

21

19,6

9

8,4

Figura 4

13

12,1

13

12,1

34

31,8

26

24,3

28

26,2

36

33,6

Figura 5

20

18,7

17

15,9

18

16,8

30

28,0

30

28,0

17

15,9

Figura 6

12

11,2

9

8,4

6

5,6

13

12,1

10

9,3

21

19,6

Figura 7

5

4,7

9

8,4

2

1,9

9

8,4

6

5,6

10

9,3

Figura 8

10

9,3

5

4,7

0

0,0

4

3,7

2

1,9

5

4,7

Figura 9

5

4,7

4

3,7

0

0,0

5

4,7

Figura 10

2

1,9

5

4,7

1

0,9

0

0,0

Figura 11

1

0,9

2

1,9

Figura 12

1

0,9

0

0,0

Figura 13

0

0,0

2

1,9

Figura 14

0

0,0

1

0,9

Figura 15 (gorda)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fonte: Autoria própria

 

    Verificou-se predominância da silhueta número 5 entre as participantes do sexo feminino, enquanto, entre os participantes do sexo masculino, observaram-se maior recorrência das silhuetas 3 e 5. No tocante à silhueta ideal, as mulheres indicaram o modelo 4 como representação corporal desejada, ao passo que os homens atribuíram tal posição à silhueta 5. Quando considerada a percepção do ideal estético do sexo oposto, as mulheres elegeram a silhueta 5 como ideal para o sexo masculino, enquanto os homens apontaram a silhueta 4 como ideal para o feminino. Assim, evidencia-se que as silhuetas 4 e 5 configuraram-se como referências centrais nas percepções de imagem corporal entre ambos os sexos.

 

    A análise da dimensão perceptiva da imagem corporal, realizada por meio da Escala de Figuras de Silhuetas, revelou um quadro de IC ainda mais expressivo que o mensurado pelo BSQ-34. Conforme a análise estatística, 85 % de todos os estudantes se declararam insatisfeitos com sua silhueta corporal atual, enquanto apenas 15 % se mostraram satisfeitos.

 

    A natureza dessa insatisfação, contudo, mostrou-se complexa e dependente do sexo. Dentro do grupo majoritário de insatisfeitos, a maior parte (50,9 %) desejava uma silhueta menor, indicando uma insatisfação por excesso de peso percebido. Em contrapartida, um grupo também expressivo (34,1 % dos insatisfeitos) desejava uma silhueta maior, sugerindo uma insatisfação por magreza percebida. Crucialmente, a análise de associação demonstrou que essa preferência possui uma relação estatisticamente significativa com o sexo do participante (χ², p=0,020). Observou-se uma tendência clara dos participantes do sexo masculino preferirem uma silhueta maior, enquanto as participantes do sexo feminino, de forma predominante, tenderam a preferir uma silhueta menor. Este achado detalha a natureza da IC na amostra, mostrando que ela não apenas é altamente prevalente, mas se manifesta de formas distintas e com direções opostas entre os sexos. Na Tabela 3, os dados estão detalhados.

 

Tabela 3. Relação entre a silhueta atual e a ideal.

Silhueta atual x ideal

Total

Feminino

Masculino

p valor

n

%

n

%

n

%

Desejou manter a silhueta

32

15,0

19

17,8

13

12,1

0,020

Desejou aumentar a silhueta

73

34,1

27

25,2

46

43,0

Desejou diminuir a silhueta

109

50,9

61

57,0

48

44,9

Os dados foram expressos pela frequência (n) e porcentagem (%). Teste de χ2. Fonte: Autoria própria

 

Convergência entre as medidas de IC (silhuetas - BSQ) 

 

    Para validar e aprofundar a compreensão da IC, investigou-se a associação entre a medida atitudinal (classificação do BSQ-34) e a medida perceptiva (desejo de mudança da silhueta). A análise demonstrou uma associação estatisticamente muito significativa entre os dois instrumentos (χ², p<0,0001), com forte convergência entre as avaliações.

 

    A grande maioria dos estudantes classificados como insatisfeitos pelo BSQ-34 (83,7 %) também manifestou o desejo de diminuir a silhueta. Em contraste, apenas 10,2 % deste grupo de insatisfeitos indicou estar satisfeito com sua forma corporal atual.

 

    Um achado notório, contudo, emergiu do grupo classificado como satisfeito pelo BSQ-34. Embora a maioria deste grupo (54,5 %) de fato desejasse manter sua silhueta, uma parcela expressiva de 41,2 % ainda indicou o desejo por uma forma corporal menor. Este dado sugere a presença de um descontentamento corporal latente mesmo entre indivíduos que não atingem o ponto de corte para insatisfação no BSQ-34, reforçando a complexidade e a ampla disseminação do fenômeno na população estudada.

 

Tabela 4. Relação entre o desejo de silhueta e a classificação de insatisfação pelo BSQ-34.

Variável

Total

Insatisfeito (BSQ-34)

Satisfeito (BSQ-34)

p valor

Relação silhueta atual x ideal

Desejo manter a silhueta

32

15,0

5

10,2

27

16,4

< 0,0001

Desejo aumentar a silhueta

73

34,1

0

0,0

73

44,2

Desejo diminuir a silhueta

109

50,9

44

89,8

65

39,4

Os dados foram expressos pela frequência (n) e porcentagem (%) e comparados pelo teste χ2 ou exato de Fisher. 

Fonte: Autoria própria

 

Mapeamento dos fatores de risco 

 

    Para aprofundar a compreensão sobre a natureza da IC na amostra, foi realizada uma análise de frequência das respostas individuais do BSQ-34, com foco nas respostas que indicam maior preocupação (“frequentemente”, “muito frequentemente” e “sempre”). A análise revelou que o desconforto dos estudantes se manifesta em três eixos centrais de disfunção. O primeiro é o domínio cognitivo, centrado na vigilância e no medo de engordar. Mais da metade dos participantes (54,2 %) relatou ter receio de engordar de forma frequente a constante, e 41,2 % indicaram que a preocupação com a forma física os leva a pensar em fazer dieta. O segundo eixo refere-se ao prejuízo funcional e à evitação social, onde 17,6 % dos estudantes admitiram ter deixado de participar de eventos sociais por se sentirem mal com a própria aparência. Por fim, o terceiro eixo aponta para comportamentos de risco, com 25,2 % dos participantes relatando o hábito de beliscar áreas do corpo para verificar a gordura e 4,2 % admitindo ter vomitado para se sentir mais magro(a). Estes dados detalham os comportamentos e cognições que sustentam a prevalência de IC encontrada (estes dados podem ser consultados no anexo 4).

 

    Para identificar o perfil de risco associado à IC, foi realizada também uma análise bivariada comparando o grupo satisfeito (n=165) com o grupo insatisfeito (n=49), conforme classificação do BSQ-34. O anexo 4 apresenta em forma de tabelas, todas as variáveis analisadas, destacando-se aquelas que demonstraram significância estatística (p < 0,05).

 

    O grupo com IC apresentou associações de maior magnitude com um conjunto de variáveis demográficas, clínicas e comportamentais. Observou-se que a IC foi significativamente mais prevalente no sexo feminino (p<0,0001) e em indivíduos com IMC médio mais elevado (p<0,001). Adicionalmente, o grupo insatisfeito demonstrou uma altura média significativamente menor (p=0,001) em comparação ao grupo satisfeito.

 

    As associações mais robustas foram encontradas com o histórico clínico e comportamentos de risco. O histórico de transtornos alimentares (p<0,001), a realização prévia de dietas restritivas (p<0,001) e o diagnóstico de problemas de saúde mental (p=0,001) estiveram fortemente ligados à presença de IC. A autopercepção da saúde geral como razoável/ruim (p<0,001) e o desejo de diminuir a silhueta, avaliado pela escala de Kakeshita (p<0,001), também se mostraram determinantes. Por fim, fatores contextuais como o uso de edição de fotos em redes sociais (p<0,001) e a percepção de mudança corporal durante a pandemia de COVID-19 (p=0,003) completam o perfil de risco identificado.

 

Discussão 

 

Prevalência e magnitude da IC 

 

    A prevalência total de IC de 22,9 % encontrada no presente estudo, embora numericamente abaixo da média nacional de 30,2 % para todos os universitários brasileiros (Gama et al., 2025b), alinha-se à faixa superior quando comparada a outros estudos focados exclusivamente em estudantes de EF, cujas taxas variaram entre 8,3 % (Legnani et al., 2012), 10 % (Lustosa et al., 2017), 16,8 % (Bosi et al., 2008), 18,5 % (Nilson et al., 2013) e 26 % (Sousa et al., 2015) e de outros cursos da área da saúde 9,1 % (Cardoso et al., 2020).

 

    Contudo, o dado mais crítico deste estudo não reside na prevalência total, mas na distribuição de sua gravidade: 11,2 % da amostra concentra-se nos níveis de insatisfação moderada e grave. Este percentual configura-se como um forte indicador de que a IC nesta população não é um mero descontentamento, mas uma condição preocupante que atinge um limiar de risco clínico para o possível desenvolvimento de quadros patológicos, como o TDC.

 

    A análise do contexto histórico dos estudos realizados no Rio de Janeiro revela uma preocupante tendência de aumento da IC entre os estudantes de EF ao longo dos anos. Enquanto estudos anteriores reportavam prevalências de 16,8 % (Bosi et al., 2008) e 14,3 % (Pires, 2017), o índice de 22,9 % observado no presente estudo aponta para uma elevação significativa ao longo da última década. Esta, possivelmente impulsionada pela intensificação da cultura fitness e pela disseminação de padrões estéticos nas mídias sociais (Gama et al., 2025a), faz com que os estudantes de EF atinjam um patamar de risco análogo ao de cursos tradicionalmente considerados mais vulneráveis. Para efeito de comparação, a taxa encontrada aproxima-se das prevalências já documentadas no RJ para estudantes de Psicologia, que variam de 24,7 % (Pires, 2017) a 43,4 % (Bosi et al., 2009), Medicina 27,7 % (Bosi et al., 2014) e para os de Nutrição, com 40,4 % (Bosi et al., 2006). Pode-se inferir, portanto, que o ideal do “corpo atlético”, outrora um possível fator de proteção para a população de estudantes de EF, teve seu papel ressignificado. A pressão contemporânea por uma estética de performance tornou-se predominante, elevando a vulnerabilidade dos estudantes a distúrbios de imagem.

 

Investigando fatores associados 

 

    A análise estatística realizada confirmou que a IC é um fenômeno multifacetado, sustentado por uma complexa interação de fatores individuais, socioculturais e comportamentais, conforme dados da literatura especializada. (Alvarenga et al., 2010; Souza, e Alvarenga, 2016; Gama, 2021)

 

    A forte associação entre a IC e o sexo feminino (p<0,0001), bem como com o índice de massa corporal (IMC) mais elevado (p<0,0001), corrobora de maneira consistente os achados da literatura nacional, que apontam maior vulnerabilidade das mulheres jovens às pressões socioculturais relacionadas à magreza (Gama, 2021). Nesse contexto, a estratificação por sexo nas análises torna-se pertinente e necessária, uma vez que os padrões estéticos e as exigências corporais são historicamente mais rigorosos para o público feminino. A indústria da moda e os meios de comunicação, ao reforçarem ideais de corpo magro e esteticamente “perfeito”, exercem influência significativa sobre a percepção corporal das mulheres, tornando o estudo da variável sexo essencial para a compreensão das dinâmicas psicossociais associadas à imagem corporal.

 

    A relação entre maior IMC e maior insatisfação, também amplamente documentada (Braga, 2006; Kakeshita, e Almeida, 2006; Miranda et al., 2012), evidencia que, mesmo em um público com alto nível de conhecimento sobre o corpo, como o de estudantes e profissionais da saúde, a internalização de ideais de magreza permanece determinante.

 

    De forma ainda mais contundente, este estudo reforçou a interdependência entre a percepção corporal e a saúde mental. A associação da IC com histórico de transtornos alimentares (p<0,0001) e dietas restritivas (p<0,0001) alinha-se a pesquisas como a de Legnani et al. (2012), que encontraram uma probabilidade 5,29 vezes maior de transtornos alimentares em universitários com distorção da imagem corporal. Essa recorrência aponta para uma preocupante relação entre percepção distorcida e comportamento disfuncional. Adicionalmente, a ligação com a percepção de saúde geral “razoável/ruim” (p<0,0001) correlaciona-se com os achados de Legey et al. (2016), sugerindo que a imagem corporal atua como um mediador simbólico da própria percepção de saúde, extrapolando a questão do bem-estar global para a estética corporal.

 

    A influência de fatores contextuais contemporâneos também se mostrou estatisticamente robusta. A associação significativa com o uso de edição de fotos pessoais nas redes sociais (p=0,0001) e a mudança na composição corporal durante a COVID-19 (p=0,0003) materializa o impacto da era digital e de crises de saúde pública na autoimagem.

 

    A análise dos dados revelou a alta vulnerabilidade da amostra a essa convergência entre histórico clínico, comportamentos de risco e exposição digital. Sobre este último, o estudo relevou 100 % de estudantes com o uso atuante das redes sociais, com 36,4 % dos estudantes utilizando-as predominantemente como atividades de maior tempo de lazer, dentre as quais, as mais mencionadas foram aquelas com maiores recursos de imagem (como o Instagram e o TIK TOK).

 

    Esses achados corroboram investigações anteriores que apontam associação entre o tempo de exposição às mídias sociais e o aumento da insatisfação corporal, bem como de distúrbios alimentares e de imagem corporal. (Ando et al., 2021; Arjona e, Checa, 2024)

 

Limitações do estudo e recomendações futuras 

 

    Algumas limitações devem ser consideradas na interpretação destes resultados. O delineamento transversal não permite estabelecer relações de causalidade (bidirecionalidade reversa). A amostra, por conveniência, pode ter tido sua adesão impactada por fatores como uma greve de três meses na instituição, a distribuição geográfica dos estudantes e o desinteresse geral pelo tema ou por preenchimentos de questionários online. Outra limitação metodológica reside na heterogeneidade dos pontos de corte do BSQ-34 na literatura, o que dificulta comparações diretas. (Gama et al., 2022).

 

    Recomenda-se a condução de estudos observacionais de coorte prospectiva, que permitam o acompanhamento longitudinal de estudantes ao longo do período acadêmico.

 

    Sugere-se também que futuras investigações adotem a estratificação das amostras por sexo, considerando as diferenças socioculturais e estéticas que influenciam de modo distinto a construção da imagem corporal em homens e mulheres.

 

    Sugere-se, ainda, a realização de novas pesquisas que cruzem os instrumentos aqui utilizados com outras escalas e questionários validados no Brasil que mensurem outros fatores e variáveis associadas, como estilo de vida, qualidade de vida, práticas esportivas, ansiedade, estresse, depressão e comportamentos de risco para transtornos alimentares, a fim de aprofundar a compreensão das redes de multicausalidade envolvidas na IC.

 

Conclusão 

 

    A IC demonstrou ser um fenômeno de alta prevalência entre os estudantes do curso de EF da UFRRJ, configurando-se como um problema multifatorial, complexo e em evolução contínua. Esse panorama reflete uma realidade já consolidada no contexto universitário e de saúde pública global. A relevância clínica dos achados não se restringe à prevalência geral, mas sobretudo à magnitude do risco identificado: 11,2 % dos participantes foram classificados nos níveis moderado e grave. Esse subgrupo expressa um agravamento em relação a estudos prévios e representa um marcador direto de vulnerabilidade funcional e psicossocial, transcendendo a dimensão estética e evidenciando um impacto clínico relevante.

 

    O presente estudo alcançou seus objetivos ao mapear e validar fatores de risco associados à IC em um conjunto abrangente de variáveis. O grupo de estudantes insatisfeitos apresentou associações estatisticamente significativas e de maior magnitude nas variáveis IMC, sexo, histórico de transtornos alimentares, dietas restritivas, percepção negativa da saúde geral e desejo de reduzir a silhueta. Adicionalmente, observou-se que os participantes insatisfeitos apresentaram estatura média inferior e idade média superior, reforçando o caráter multifacetado e interseccional do fenômeno.

 

    Os resultados evidenciam a urgência de atenção aos subgrupos mais vulneráveis. A IC em níveis graves foi rara entre os homens, mas apresentou ocorrência expressiva entre as mulheres, sugerindo a necessidade de aprofundar as investigações sobre determinantes socioculturais e psicológicos da disparidade de gênero. A associação entre IC e aspectos funcionais do processo saúde-doença é inequívoca, dada a correlação com indicadores de sofrimento psíquico e transtornos mentais relacionados à imagem corporal. Tais achados reforçam que a insatisfação corporal, neste público, já ultrapassa o campo da estética, atingindo um nível de sofrimento com implicações clínicas e educacionais significativas.

 

    Adicionalmente, confirmou-se a influência de fatores contextuais contemporâneos, como o uso de edição de fotos pessoais nas redes sociais e as alterações na composição corporal durante a pandemia de COVID-19. Esses fatores emergentes configuram determinantes modernos da IC, potencializando o descontentamento e a autovigilância corporal em ambientes digitais e acadêmicos.

 

    Em síntese, as evidências obtidas reforçam a necessidade de uma atuação integrada entre professores (especialmente de EF) e profissionais de saúde, voltada à promoção do equilíbrio emocional, social e corporal dos estudantes. Recomenda-se a implementação de estratégias de identificação precoce e intervenção direcionada, com foco em políticas públicas de aceitação corporal, alfabetização midiática, prevenção de agravos e reabilitação psicossocial nos grupos de risco identificados.

 

    O presente estudo contribui ao investigar, em uma amostra representativa de estudantes de EF, a interação entre fatores individuais, comportamentais e digitais na gênese da IC. Ao mapear a gravidade e os determinantes clínicos e contextuais, fornece subsídios para formulação de estratégias preventivas e políticas de promoção da saúde no ambiente universitário. Futuras pesquisas devem priorizar o acompanhamento longitudinal desses grupos, bem como o uso de instrumentos complementares (como escalas de comportamento alimentar, qualidade de vida e saúde mental etc.), visando compreender mais profundamente a IC e o impacto das intervenções pedagógicas e psicossociais na redução desse fenômeno.

 

Referências 

 

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Anexos

 

Anexo 1. Caracterização da amostra (dados descritivos)

Variável

n

%

Moradia

Amigos

35

16,4

Familiares

142

66,4

Sozinho

37

17,3

Ano de ingresso e semestre no curso de Educação Física

2016-2

3

1,4

2017-2

2

0,9

2018-1

2

0,9

2018-2

12

5,6

2019-1

7

3,3

2019-2

10

4,7

2020-1

8

3,7

2020-2

9

4,2

2021-1

15

7,0

2021-2

10

4,7

2022-1

26

12,1

2022-2

27

12,6

2023-1

25

11,7

2023-2

18

8,4

2024-1

38

17,8

2024-2

2

0,9

Estimativa de conclusão do curso

2024-1

11

5,1

2024-2

18

8,4

2025-1

14

6,5

2025-2

25

11,7

2026-1

43

20,1

2026-2

23

10,7

2027-1

24

11,2

2027-2

25

11,7

2028-1

15

7,0

2028-2

12

5,6

2029-1

4

1,9

Qual o seu estágio na graduação

Concluinte (cursando o último semestre)

22

10,3

Ingressante (2024-1 ou 2024-2)

6

2,8

Ingressante (2024-1)

39

18,2

Intermediário

147

68,7

Sexo (biológico)

Feminino

107

50,0

Masculino

107

50,0

Orientação sexual (N = 210)

Assexual

1

0,5

Bissexual

55

26,2

Heterossexual

137

65,2

Homossexual

17

8,1

Gênero com o qual se identifica (N = 206)

Cisgênero (mesmo do nascimento

203

98,5

Homem transgênero, no campo "s

1

0,5

Não-Binário

2

1,0

Tem filhos?

Não

204

95,3

Sim

10

4,7

Tem alguma religião?

Não

93

43,5

Sim

121

56,5

Qual sua renda familiar mensal bruta? Salário mínimo (2024)

Classe B: entre 5 e 15 salários mínimos.

30

14,0

Classe C: entre 2 e 5 salários mínimos.

84

39,3

Classe D: entre 1 e 2 salários mínimos.

62

29,0

Classe E: abaixo de 1 salário mínimo.

38

17,8

Estado civil

Casado (a) ou união estável

10

4,7

Divorciado(a)

1

0,5

Solteiro (a)

203

94,9

Está envolvido em algum tipo de relacionamento amoroso no momento?

Não

94

43,9

Não tenho certeza

19

8,9

Sim

101

47,2

Cor/raça autodeclarada (IBGE)

Amarela

1

0,5

Branca

109

50,9

Indígena

1

0,5

Parda

67

31,3

Preta

36

16,8

Status ocupacional

Não

103

48,1

Sim

111

51,9

No seu tempo de lazer, com qual dessas atividades você ocupa a maior parte do seu tempo?

Artes

1

0,5

Atividades físicas

78

36,4

Depende, bastante mas se divide em "Games" e "Internet"

1

0,5

Dormir

1

0,5

Dormir, sair com amigos.

1

0,5

Games

25

11,7

Internet (redes sociais)

82

38,3

Leituras

14

6,5

Momentos em família, ou com amigos de infância

1

0,5

Música/instrumentos

1

0,5

Namorar

1

0,5

TV

8

3,7

Ingere bebidas alcoólicas?

Não

78

36,4

Sim

136

63,6

Com que frequência ingere bebidas alcoólicas (N = 136)

1 - 1 vez (ou menos) por mês

42

30,9

2 - De 2 a 4 vezes por mês

75

55,1

3 - 2 a 3 vezes por semana

18

13,2

4 - 4 ou mais vezes por semana

1

0,7

Possui hábito de fumar?

Não

187

87,4

Sim

27

12,6

Pratica exercícios físicos de modo regular e programado?

Não

48

22,4

Sim (pelo menos duas vezes na semana)

166

77,6

Com qual frequência semanal (em média) (N = 166)

1 - Duas vezes

37

22,3

2 - Três vezes

33

19,9

3 - Mais de três vezes

96

57,8

Nível de aptidão física

1 - Baixo (sedentário)

26

12,1

2 - Moderado

150

70,1

3 - Alto/Atleta

38

17,8

Frequenta o ambiente de academias de ginástica?

Não

122

57,0

Sim

92

43,0

Histórico de transtornos alimentares?

Não

143

66,8

Não tenho certeza

42

19,6

Sim

29

13,6

Histórico de dietas restritivas para perder ou suplementar para ganhar peso?

Não

153

71,5

Não tenho certeza

9

4,2

Sim

52

24,3

Histórico de uso de substâncias (ex: medicamentos) para perder e/ou ganhar peso?

Não

200

93,5

Não tenho certeza

2

0,9

SIM

12

5,6

Já realizou alguma intervenção profissional de natureza exclusivamente estética?

Não

198

92,5

Sim

16

7,5

Já teve diagnóstico ou realizou tratamento para problemas de saúde mental (como depressão, ansiedade ou transtornos alimentares)?

Não

142

66,4

Sim

72

33,6

Este quadro afetou ou esteve relacionado a uma possível insatisfação com o seu corpo? (N = 72)

Não

30

41,7

Sim

42

58,3

Tem conta em redes sociais?

Sim

214

100

Não

0

0

Qual a sua rede social “favorita”? (N = 211)

Discord apesar de não usar muito

1

0,5

Facebook

5

2,4

Instagram

125

59,2

LinkedIn

1

0,5

Reddit

1

0,5

TIKTOK

31

14,7

Whatsapp/Telegram

30

14,2

X Twitter

14

6,6

YouTube

1

0,5

YouTube/Instagram

2

0,9

Quantas horas por dia você gasta, em média, navegando pelas redes sociais?

1 - Até 1 hora

13

6,1

2 - Entre 1 e 3 horas.

94

43,9

3 - Entre 3 e 5 horas

72

33,6

4 - 5 horas ou mais

35

16,4

Checa suas redes sociais várias vezes ao dia (sem controle do número de vezes)

Não

28

13,1

Sim

186

86,9

Possui hábito de usar recursos de edição ou filtros em suas fotos pessoais (nas redes sociais)?

Não

136

63,6

Não tenho certeza

3

1,4

Sim

75

35,0

Você percebe alguma variação na sua imagem corporal ou autoestima durante o ciclo menstrual? (N = 106)

Não, minha imagem corporal permanece relativa/ a mesma

13

12,3

Sim, minha imagem corporal tende a variar

93

87,7

Como está sua saúde geral (autopercepção)?

Boa ou muito boa

136

63,6

Razoável ou ruim

78

36,4

Apresenta alguma condição médica (patologia) que impacta na forma de enxergar seu próprio corpo?

Não

203

94,9

Sim

11

5,1

Você percebeu alguma variação (que você tenha medido) na sua composição corporal durante a pandemia de COVID-19?

Não, minha composição corporal permaneceu “relativamente” a mesma

83

38,8

Sim, minha composição corporal aumentou (aumento de peso)

86

40,2

Sim, minha composição corporal diminuiu (redução de peso)

45

21,0

Como você se sente em relação a sua aparência neste momento?

Indiferente

49

22,9

Insatisfeito

94

43,9

Satisfeito

71

33,2

Fonte: Autoria própria

 

Anexo 2. Variáveis da amostra

 

Tabela 2.a. Descritiva das variáveis numéricas, em estudo, na amostra total.

AMOSTRA TOTAL

Variável

n

média

DP

mediana

IIQ

mínimo

máximo

Idade (anos completos)

214

22,7

5,3

21

20 - 24

18

57

Massa corporal (kg)

214

70,5

15,5

68

59 - 80

46,5

133

Altura (m)

214

1,69

0,09

1,70

1,64 - 1,75

1,48

1,96

IMC (kg/m2)

214

24,4

4,3

23,9

21 - 26

17,3

37,7

Pontuação BSQ34

214

85,7

36,4

75,5

57 - 107

34

193

DP: desvio padrão, IIQ: intervalo interquartil (Q1 - Q3). Fonte: Autoria própria

 

Tabelas 2.b e 2.c. Descritiva das variáveis numéricas nos grupos insatisfação e satisfação-BSQ

GRUPO COM INSATISFAÇÃO

Variável

n

média

DP

mediana

IIQ

mínimo

máximo

Idade (anos completos)

49

22,4

5,8

21

20 - 23

18

57

Massa corporal (kg)

49

75,6

17,0

72

62 – 86

52

132

Altura (m)

49

1,66

0,09

1,64

1,58 - 1,72

1,48

1,87

IMC (kg/m2)

49

27,3

4,5

26,0

24 - 30

19,8

37,7

Pontuação BSQ34

49

140,9

20,4

135,0

127 - 155

111

193

DP: desvio padrão, IQ: intervalo interquartil (Q1 - Q3). Fonte: Autoria própria

 

GRUPO SEM INSATISFAÇÃO

Variável

n

média

DP

mediana

IIQ

mínimo

máximo

Idade (anos completos)

165

22,7

5,1

21

20 - 24

18

57

Massa corporal (kg)

165

69,0

14,7

68

58 - 78

46,5

133

Altura (m)

165

1,71

0,08

1,70

1,65 - 1,76

1,53

1,96

IMC (kg/m2)

165

23,6

3,8

22,9

21 - 26

17,3

37,2

Pontuação BSQ34

165

69,3

20,3

68,0

53 - 84

34

110

DP: desvio padrão, IIQ: intervalo interquartil (Q1 - Q3). Fonte: Autoria própria

 

Anexo 3. Instrumento bsq-34 e padrões de resposta

 

Tabela 3.1. Distribuição de frequência das respostas do BSQ-34

Pergunta do BSQ-34

Opção 1

Opção 2

Opção 3

Opção 4

Opção 5

Opção 6

n

%

n

%

n

%

n

%

n

%

n

%

P1

Sentir-se entediado (a) faz você se preocupar com a forma física

29

13,6

30

14,0

65

30,4

39

18,2

26

12,1

25

11,7

P2

Sua preocupação com a forma física chega ao ponto de você pensar que deveria fazer uma dieta?

26

12,1

28

13,1

46

21,5

38

17,8

26

12,1

50

23,4

P3

Já lhe ocorreu que suas coxas, quadril ou nádegas são grandes demais para o restante do corpo?

129

60,3

22

10,3

19

8,9

13

6,1

11

5,1

20

9,3

P4

Você tem receio que poderia engordar ou ficar mais gordo (a)?

48

22,4

22

10,3

25

11,7

27

12,6

30

14,0

62

29,0

P5

Você anda preocupado (a) achando que seu corpo não é firme o suficiente?

51

23,8

33

15,4

42

19,6

34

15,9

25

11,7

29

13,6

P6

Ao ingerir uma refeição completa e sentir o estômago cheio, você se preocupa em ter engordado?

97

45,3

27

12,6

28

13,1

24

11,2

13

6,1

25

11,7

P7

Você já se sentiu tão mal com sua forma física a ponto de chorar?

112

52,3

28

13,1

25

11,7

17

7,9

12

5,6

20

9,3

P8

Você já deixou de correr por achar que seu corpo poderia balançar?

169

79,0

14

6,5

13

6,1

8

3,7

4

1,9

6

2,8

P9

Estar com pessoas magras do mesmo gênero que você faz você reparar em sua forma física?

75

35,0

30

14,0

38

17,8

25

11,7

13

6,1

33

15,4

P10

Você já se preocupou com o fato de suas coxas poderem ocupar muito espaço quando se senta?

134

62,6

30

14,0

15

7,0

14

6,5

8

3,7

13

6,1

P11

Você já se sentiu gordo (a) após ingerir uma pequena quantidade de alimento?

128

59,8

22

10,3

20

9,3

23

10,7

11

5,1

10

4,7

P12

Você tem reparado na forma física de outras pessoas do mesmo gênero que o seu, e ao se comparar, tem se sentido em desvantagem?

36

16,8

41

19,2

41

19,2

38

17,8

31

14,5

27

12,6

P13

Pensar na sua forma física interfere em sua capacidade de se concentrar em outras atividades (assistir televisão, ler ou acompanhar conversa)?

122

57,0

31

14,5

33

15,4

14

6,5

7

3,3

7

3,3

P14

Ao estar nu (nua), por exemplo, ao tomar banho, você se sente gordo (a)?

93

43,5

28

13,1

35

16,4

19

8,9

19

8,9

20

9,3

P15

Você tem evitado usar roupas mais justas para não se sentir desconfortável com sua forma física?

78

36,4

38

17,8

36

16,8

25

11,7

18

8,4

19

8,9

P16

Você já se pegou pensando em remover partes mais carnudas do seu corpo?

122

57,0

18

8,4

17

7,9

15

7,0

17

7,9

25

11,7

P17

Comer doces, bolos ou outros alimentos ricos em calorias faz você se sentir gordo (a)?

98

45,8

29

13,6

35

16,4

18

8,4

15

7,0

19

8,9

P18

Você já deixou de participar de eventos sociais (como por exemplo, festas) por se sentir mal em relação a sua forma física?

128

59,8

35

16,4

19

8,9

13

6,1

12

5,6

7

3,3

P19

Você se sente muito grande e arredondado (a)?

133

62,1

27

12,6

22

10,3

11

5,1

11

5,1

10

4,7

P20

Você sente vergonha do seu corpo?

67

31,3

47

22,0

41

19,2

28

13,1

20

9,3

11

5,1

P21

A preocupação frente a sua forma física o/a leva a fazer dieta

63

29,4

42

19,6

46

21,5

27

12,6

24

11,2

12

5,6

P22

Você se sente mais contente em relação a sua forma física quando seu estômago está vazio (como por ex., pela manhã)?

74

34,6

27

12,6

26

12,1

21

9,8

12

5,6

54

25,2

P23

Você acredita que sua forma física se deve à sua falta de controle?

68

31,8

33

15,4

33

15,4

24

11,2

22

10,3

34

15,9

P24

Você se preocupa que outras pessoas vejam dobras na sua cintura ou estômago?

74

34,6

39

18,2

28

13,1

22

10,3

19

8,9

32

15,0

P25

Você acha injusto que outras pessoas do mesmo gênero que o seu sejam mais magras do que você?

162

75,7

29

13,6

13

6,1

5

2,3

3

1,4

2

0,9

P26

Você já vomitou para se sentir mais magro (a)?

175

81,8

10

4,7

15

7,0

6

2,8

5

2,3

3

1,4

P27

Quando acompanhado (a), você fica preocupado (a) em estar ocupando muito espaço (sentado (a) num sofá ou de um banco de ônibus)?

161

75,2

19

8,9

21

9,8

8

3,7

0

0

5

2,3

P28

Você se preocupa com o fato de estar cheio (a) de “dobras” ou “banhas”?

94

43,9

30

14,0

36

16,8

17

7,9

10

4,7

27

12,6

P29

Ver seu reflexo (por exemplo, num espelho ou na vitrine da loja) faz você sentir-se mal em relação a seu corpo físico?

89

41,6

40

18,7

32

15,0

22

10,3

18

8,4

13

6,1

P30

Você belisca áreas do seu corpo para ver quanto há de gordura?

65

30,4

44

20,6

36

16,8

33

15,4

15

7,0

21

9,8

P31

Você evita situações nas quais as pessoas possam ver seu corpo (como por exemplo, vestiários e banheiros)?

89

41,6

48

22,4

32

15,0

12

5,6

9

4,2

24

11,2

P32

Você já tomou laxantes para se sentir mais magro (a)?

191

89,3

4

1,9

4

1,9

5

2,3

5

2,3

5

2,3

P33

Você fica mais preocupado (a) com sua forma física quando em companhia de outras pessoas?

71

33,2

34

15,9

46

21,5

24

11,2

21

9,8

18

8,4

P34

A preocupação com sua forma física leva você a sentir que deveria fazer exercícios?

25

11,7

14

6,5

26

12,1

39

18,2

32

15,0

78

36,4

Fonte: Autoria própria

 

Anexo 4. Resultados estatísticos detalhados

 

Tabela 4.1. Associação das variáveis sociodemográficas com a insatisfação segundo BSQ-34.

Variável

TOTAL

INSATISFEITO

(BSQ-34)

SATISFEITO

(BSQ-34)

p valor

Moradia

Amigos

35

16,4

13

26,5

22

13,3

0,087

Familiares

142

66,4

28

57,1

114

69,1

Sozinho

37

17,3

8

16,3

29

17,6

Qual o seu estágio na graduação

1 - Ingressante

45

21,0

9

18,4

36

21,8

0,87

2 - Intermediário

147

68,7

35

71,4

112

67,9

3 - Concluinte

22

10,3

5

10,2

17

10,3

Idade (anos)

média ± desvio padrão

22,7 ± 5,3

22,4 ± 5,8

22,7 ± 5,1

0,68

Massa Corporal (Kg)

média ± desvio padrão

70,5 ± 15,5

75,6 ± 17,0

69,0 ± 14,7

0,008

Altura (metros)

média ± desvio padrão

1,69 ± 0,09

1,66 ± 0,09

1,71 ± 0,08

0,0006

IMC (Kg/m2)

média ± desvio padrão

24,4 ± 4,3

27,3 ± 4,5

23,6 ± 3,8

< 0,0001

Sexo (biológico)

Feminino

107

50,0

38

77,6

69

41,8

< 0,0001

Masculino

107

50,0

11

22,4

96

58,2

Orientação sexual (N = 210)

Heterossexual

137

65,2

24

50,0

113

69,8

0,011

Ñ Heterossexual

73

34,8

24

50,0

49

30,2

Tem filhos?

Não

204

95,3

45

91,8

159

96,4

0,17

Sim

10

4,7

4

8,2

6

3,6

Tem alguma religião?

Não

93

43,5

23

46,9

70

42,4

0,58

Sim

121

56,5

26

53,1

95

57,6

Os dados foram expressos pela média ± desvio padrão e comparados pelo teste t de Student para amostras independentes. Já, os dados categóricos foram expressos pela frequência (n) e porcentagem (%) e comparados pelo teste χ2 ou exato de Fisher

Fonte: Autoria própria

 

Tabela 4.2. Associação das variáveis sociodemográficas com a insatisfação segundo BSQ-34

Variável

TOTAL

INSATISFEITO (BSQ-34)

SATISFEITO (BSQ-34)

p valor

Renda familiar mensal bruta? Salário mínimo

Classe B: entre 5 e 15.

30

14,0

4

8,2

26

15,8

0,34

Classe C: entre 2 e 5.

84

39,3

18

36,7

66

40,0

Classe D: entre 1 e 2.

62

29,0

15

30,6

47

28,5

Classe E: abaixo de 1.

38

17,8

12

24,5

26

15,8

Estado civil

Não solteiro

11

5,1

2

4,1

9

5,5

0,52

Solteiro(a)

203

94,9

47

95,9

156

94,5

Está envolvido em algum tipo de relacionamento amoroso no momento?

Não

113

52,8

28

57,1

85

51,5

0,30

Sim

101

47,2

21

42,9

80

48,5

Cor/Raça autodeclarada (IBGE)

Branca

109

51,4

29

60,4

80

48,8

0,36

Parda

67

31,6

12

25,0

55

33,5

Preta

36

17,0

7

14,6

29

17,7

Status ocupacional

Não

103

48,1

21

42,9

82

49,7

0,40

Sim

111

51,9

28

57,1

83

50,3

No seu tempo de lazer, com qual dessas atividades você ocupa a maior parte do seu tempo?

1 - Atividades Físicas

78

36,4

10

20,4

68

41,2

0,022

2 - Redes sociais, Games, TV

115

53,7

34

69,4

81

49,1

3 - Outras atividades

21

9,8

5

10,2

16

9,7

Ingere bebidas alcoólicas?

Não

78

36,4

13

26,5

65

39,4

0,10

Sim

136

63,6

36

73,5

100

60,6

Frequência de uso de bebidas alcoólicas (N = 136)

1 - 1 vez (ou menos) por mês

42

30,9

10

27,8

32

32,0

0,82

2 - De 2 a 4 vezes por mês

75

55,1

20

55,6

55

55,0

3 - 2 ou mais vezes por semana

19

14,0

6

16,7

13

13,0

Os dados foram expressos pela frequência (n) e porcentagem (%) e comparados pelo teste χ2 ou exato de Fisher. 

Fonte: Autoria própria

 

Tabela 4.3. Associação das variáveis sociodemográficas com a insatisfação segundo BSQ34

Variável

TOTAL

INSATISFEITO (BSQ34)

SATISFEITO (BSQ34)

p valor

Possui hábito de fumar?

Não

187

87,4

43

87,8

144

87,3

0,93

Sim

27

12,6

6

12,2

21

12,7

Pratica exercícios físicos de modo regular e programado?

Não

48

22,4

13

26,5

35

21,2

0,43

Sim (pelo menos duas vezes na semana)

166

77,6

36

73,5

130

78,8

Com qual frequência semanal (n = 166)

1 - Duas vezes

37

22,3

8

22,2

29

22,3

0,17

2 - Três vezes

33

19,9

11

30,6

22

16,9

3 - Mais de três vezes

96

57,8

17

47,2

79

60,8

Nível de aptidão física

1 - Baixo (sedentário)

26

12,1

11

22,4

15

9,1

0,032

2 - Moderado

150

70,1

32

65,3

118

71,5

3 - Alto/Atleta

38

17,8

6

12,2

32

19,4

Frequenta o ambiente de academias de ginástica?

Não

122

57,0

29

59,2

93

56,4

0,73

Sim

92

43,0

20

40,8

72

43,6

Histórico de transtornos alimentares?

Não

143

66,8

17

34,7

126

76,4

< 0,0001

Sim

71

33,2

32

65,3

39

23,6

Histórico de dietas restritivas para perder ou suplementar para ganhar peso?

Não

153

71,5

22

44,9

131

79,4

< 0,0001

Sim

61

28,5

27

55,1

34

20,6

Histórico de uso de substâncias (ex: medicamentos) para perder e/ou ganhar peso?

Não

200

93,5

44

89,8

156

94,5

0,19

Sim

14

6,5

5

10,2

9

5,5

Já realizou alguma intervenção profissional de natureza exclusivamente estética?

Não

198

92,5

41

83,7

157

95,2

0,012

Sim

16

7,5

8

16,3

8

4,8

Os dados foram expressos pela frequência (n) e porcentagem (%) e comparados pelo teste χ2 ou exato de Fisher. 

Fonte: Autoria própria

 

Tabela 4.4. Associação das variáveis sociodemográficas com a insatisfação segundo BSQ34

Variável

TOTAL

INSATISFEITO (BSQ34)

SATISFEITO (BSQ34)

p valor

Já teve diagnóstico ou realizou tratamento para problemas de saúde mental (como depressão, ansiedade ou transtornos alimentares)?

Não

142

66,4

23

46,9

119

72,1

0,001

Sim

72

33,6

26

53,1

46

27,9

Este quadro afetou ou esteve relacionado a uma possível insatisfação com o seu corpo? (N = 72)

Não

30

41,7

5

19,2

25

54,3

0,004

Sim

42

58,3

21

80,8

21

45,7

Quantas horas por dia você gasta, em média, navegando pelas redes sociais?

1 - Até 1 hora

13

6,1

0

0,0

13

7,9

0,082

2 - Entre 1 e 3 horas.

94

43,9

19

38,8

75

45,5

3 - Entre 3 e 5 horas

72

33,6

19

38,8

53

32,1

4 - 5 horas ou mais

35

16,4

11

22,4

24

14,5

Checa suas redes sociais várias vezes ao dia (sem controle do número de vezes)

Não

28

13,1

9

18,4

19

11,5

0,21

Sim

186

86,9

40

81,6

146

88,5

Possui hábito de usar recursos de edição ou filtros em suas fotos pessoais (nas redes sociais)?

Não

136

63,6

20

40,8

116

70,3

0,0001

Sim

78

36,4

29

59,2

49

29,7

Você percebe alguma variação na sua imagem corporal ou autoestima durante o ciclo menstrual? (N = 106)

Não, minha imagem corporal permanece relativa/ a mesma

13

12,3

3

8,1

10

14,5

0,27

Sim, minha imagem corporal tende a variar

93

87,7

34

91,9

59

85,5

Como está sua saúde geral (autopercepção)?

Boa ou muito boa

136

63,6

14

28,6

122

73,9

< 0,0001

Razoável ou ruim

78

36,4

35

71,4

43

26,1

Apresenta alguma condição médica (patologia) que impacta na forma de enxergar seu próprio corpo?

Não

203

94,9

46

93,9

157

95,2

0,48

Sim

11

5,1

3

6,1

8

4,8

Percebeu alguma variação (que você tenha medido) na sua composição corporal durante a pandemia covid-19?

Não, minha composição corporal permaneceu "relativamente" a mesma

83

38,8

7

14,3

76

46,1

0,0003

Sim, minha composição corporal aumentou (peso)

86

40,2

28

57,1

58

35,2

Sim, minha composição corporal diminuiu (peso)

45

21,0

14

28,6

31

18,8

Como se sente em relação a sua aparência neste momento?

Insatisfeito

94

43,9

38

77,6

56

33,9

< 0,0001

Satisfeito

120

56,1

11

22,4

109

66,1

Os dados foram expressos pela frequência (n) e porcentagem (%) e comparados pelo teste χ2 ou exato de Fisher. 

Fonte: Autoria própria


Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 30, Núm. 332, Ene. (2026)