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ISSN 1514-3465

 

Conhecimento em cuidados paliativos: estudo

com residentes de um hospital do Norte Gaúcho

Palliative Care Knowledge: A Study with Residents at a Hospital in Northern Rio Grande do Sul

Conocimiento en cuidados paliativos: un estudio con residentes de un hospital del norte de Rio Grande do Sul

 

Willian Guerra de Lima*

willlianguerralima@gmail.com

Lia Mara Wibelinger**

liafisio@upf.br

Júlio César Stobbe+

julio.stobbe@uffs.edu.br

Ana Carolina Teixeira++

anacteixeira.rs@gmail.com

 

*Graduado em Fisioterapia pela Universidade de Passo Fundo (UPF)

Especialista em Estética pela Universidade do Vale do Taquari

Mestre em Envelhecimento Humano pela UPF

**Graduada em Fisioterapia pela Universidade de Cruz Alta

Especialista em Saúde Pública pela Universidade de Ribeirão Preto-UNAERP-SP

Mestre em Gerontologia Biomédica pela PUC-RS

Doutora em Gerontologia Biomédica pela PUC-RS

Estágio Pós-Doutoral em Gerontologia na Universidade Estadual de Campinas-SP

Professora Pesquisadora, Coordenadora de Pesquisa

do Instituto da Saúde da UPF

Coordenadora do Programa de Pós Graduação

em Envelhecimento Humano (Mestrado e Doutorado) da UPF

+Graduado em Medicina pela UPF

Mestre em Clínica Médica e Doutorado em Clínica Médica

pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul

Tutor do programa Mais Médico para o Brasil

Diretor do Campus Passo Fundo da Universidade Federal Fronteira Sul (UFFS)

++Graduada em Fisioterapia pela UPF

Especialista em Fisioterapia em Gerontologia

pela residência multiprofissional em saúde do idoso (UPF)

Mestra em Envelhecimento Humano (UPF)

(Brasil)

 

Recepción: 04/10/2025 - Aceptación: 11/12/2025

1ª Revisión: 25/11/2025 - 2ª Revisión: 08/12/2025

 

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https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/deed.pt

Cita sugerida: Lima, W.F. de, Wibelinger, L.M., Stobbe, J.C., e Teixeira, A.C. (2026). Conhecimento em cuidados paliativos: estudo com residentes de um hospital do Norte Gaúcho. Lecturas: Educación Física y Deportes, 31(335), 128-150. https://doi.org/10.46642/efd.v31i335.8565

 

Resumo

    Introdução: O cuidado paliativo (CP) é uma abordagem integrada, realizada para pacientes e familiares em situações de doenças ameaçadoras da vida. Essa assistência é frequentemente ofertada em hospitais, nos quais os residentes integram a equipe cuidadora. Entretanto, pode haver falha na formação desses profissionais. Objetivo: Analisar o conhecimento e a autoeficácia no tratamento de cuidados paliativos entre os residentes de um hospital, para que se possa analisar coerentemente essa relação entre CP e os participantes dos programas de residência médica e multiprofissional. Métodos: É um estudo observacional, descritivo e transversal, realizado em um hospital filantrópico, de média e alta complexidade. A coleta de dados foi realizada de 01 de outubro de 2024 a 31 de março de 2025, por meio do Questionário conhecimento e autoeficácia sobre cuidados paliativos (BPW-BR), e de um questionário (perfil sociodemográfico). Resultados: A amostra foi composta por 99 residentes, participantes dos programas de residência, sendo maioria mulheres (74,7 %), idade média de 28 anos (DP=3,461), solteiras (80,8 %), tempo de formação de 1 a 5 anos (65,3 %). Em relação à formação, a maioria são médicos (37,4 %), formados por instituição privada (69,7%), e a grande maioria não possui pós-graduação (74,7 %). Já 65,7% relataram que tiveram disciplina com essa temática em sua formação, porém a maioria (44,9 %) através de tópicos. Verificou-se um resultado significativo estatisticamente (p=0,003) para os residentes médicos comparado aos da equipe multiprofissional em relação à autoeficácia. Conclusão: Os residentes possuem um bom nível de conhecimento e autoeficácia sobre os cuidados paliativos.

    Unitermos: Cuidado paliativo. Equipe de assistência ao paciente. Internato e residência. Conhecimento. Hospital.

 

Abstract

    Introduction: Palliative care (PC) is an integrated approach provided to patients and their families in situations of life-threatening illnesses. This assistance is commonly provided in hospitals, where residents participate as members of the caregiving team. However, there may be gaps in the training of these professionals. Objective: To analyze the knowledge and self-efficacy regarding palliative care among hospital residents, in order to coherently examine the relationship between palliative care and the participants of medical and multidisciplinary residency programs. Methods: It is an observational, descriptive, cross-sectional study conducted at a philanthropic hospital providing medium and high complexity care. Data were collected from October 1, 2024 to March 31, 2025 using the Palliative Care Knowledge and Self-Efficacy Questionnaire (BPW–BR) and a sociodemographic questionnaire. Results: The sample consisted of 99 residents enrolled in residency programs, most of whom were women (74.7 %), with a mean age of 28 years (SD=3.461), single (80.8 %), and with 1 to 5 years since graduation (65.3 %). Regarding academic background, most participants are physicians (37.4 %), graduated from private institutions (69.7 %), and the vast majority do not hold postgraduate degrees (74.7 %). Moreover, 65.7 % reported having coursework on this topic during their training; however, most (44.9 %) encountered it only as isolated topics. A statistically significant result (p=0.003) was found for medical residents compared with those from the multiprofessional team with respect to self-efficacy. Conclusion: These residents have a good level of knowledge and self-efficacy regarding palliative care.

    Keywords: Palliative care. Multiprofessional team. Residents. Knowledge. Hospital.

 

Resumen

    Introducción: Los cuidados paliativos (CP) constituyen un enfoque integral que se brinda a pacientes y familias en situaciones de enfermedad potencialmente mortal. Esta atención se ofrece con frecuencia en hospitales, donde los residentes forman parte del equipo de atención. Sin embargo, puede haber deficiencias en la formación de estos profesionales. Objetivo: Analizar el conocimiento y autoeficacia en el tratamiento de CP entre los residentes de un hospital, con el fin de analizar coherentemente esta relación entre CP y los participantes en programas de residencia médica y multiprofesional. Métodos: Estudio observacional, descriptivo y transversal, realizado en un hospital filantrópico de mediana y alta complejidad. La recolección de datos se realizó, utilizando el Cuestionario de Conocimiento y Autoeficacia en Cuidados Paliativos (BPW-BR) y un cuestionario (perfil sociodemográfico). Resultados: Muestra compuesta por 99 residentes participantes en programas de residencia, mayoría mujeres (74,7 %), edad media de 28 años (DE=3,461), solteras (80,8 %) y con un periodo de formación de 1 a 5 años (65,3%). En cuanto a la formación, la mayoría son médicos (37,4 %), egresados ​​de instituciones privadas (69,7 %) y la gran mayoría no cuenta con estudios de posgrado (74,7 %). El 65,7 % reportó haber realizado un curso sobre este tema durante su formación, pero la mayoría (44,9 %) lo hizo a través de fuentes temáticas. Se observó un resultado estadísticamente significativo (p=0,003) para residentes médicos en comparación con el equipo multidisciplinario en cuanto a autoeficacia. Conclusión: Los residentes tienen un buen nivel de conocimiento y autoeficacia sobre cuidados paliativos.

    Palabras clave: Cuidados paliativos. Equipo de atención al paciente. Internado y residencia. Conocimiento. Hospital.

 

Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 31, Núm. 335, Abr. (2026)


 

Introdução 

 

    Em sua versão moderna, os cuidados paliativos (CP), mundialmente, vêm sendo discutidos, nas últimas décadas. Em terras brasileiras, seu crescimento pode ser observado a partir da década de 1980 (Alves, e Oliveira, 2022). Contudo, o tema ganhou mais notoriedade em 2018, momento em que a OMS (Organização Mundial da Saúde) publicou diretrizes reconhecendo os CP como uma abordagem capaz de promover melhor qualidade de vida a pacientes de todas as idades que enfrentam doenças ameaçadoras à vida. Essa modalidade de cuidado visa evitar e aliviar o sofrimento, incluindo a dor e demais agravos de ordem física, psicossocial e espiritual, por meio da identificação precoce, avaliação adequada e manejo das alterações que possam surgir ao longo do curso da doença (Ministério da Saúde, 2023). Nos últimos anos, verifica-se um crescente empenho por parte dos profissionais de saúde, das instituições hospitalares e das instituições formadoras de profissionais de saúde na valorização e na incorporação de práticas voltadas à melhoria da atenção e do cuidado prestado aos pacientes. (Alves, e Oliveira, 2022)

 

    Embora a rede de CP venha se expandindo progressivamente, no contexto brasileiro ainda persiste uma carência significativa de equipes multidisciplinares e de profissionais devidamente capacitados para a oferta adequada dessa abordagem. O Brasil apresenta desempenho insatisfatório no contexto mundial, evidenciando a insuficiência na oferta desses serviços (Clark et al., 2020). Observa-se a ausência de profissionais qualificados para a implementação efetiva dos CP, o que resulta na predominância de intervenções baseadas no modelo tradicional, frequentemente marcadas por procedimentos invasivos. Nessa perspectiva, a fim de que os CP possam ser implantados e implementados nas unidades hospitalares, é importante adotar um rol de normas e práticas profissionais, buscando a efetiva implementação deste processo. Desse modo, emerge a necessidade premente de que as instituições formadoras de profissionais da saúde incluam, em seus currículos, a capacitação de seus discentes para uma atuação consciente, ética e humanizada no cuidado a pacientes em processo de morte, especialmente no contexto dos cuidados de fim de vida. (Santos, 2021)

 

    De acordo com D’Alessandro et al. (2023), os CP são caracterizados por uma abordagem voltada à promoção da qualidade de vida de pacientes (adultos e crianças) bem como suas famílias, diante de condições clínicas associadas a doenças ameaçadoras da continuidade da vida. Tal abordagem almeja prevenir e aliviar o sofrimento por meio da identificação precoce, avaliação correta e tratamento da dor e de outros problemas físicos, psicossociais ou espirituais.

 

    Além disso, segundo Franco et al. (2017), o modelo assistencial pautado na humanização visa atender às necessidades de usuários fora de possibilidades terapêuticas de cura, por meio da oferta de cuidados individualizados e integrados. Tal conduta contempla tanto os pacientes que demandam hospitalização quanto aqueles inseridos em programas de CP no âmbito da atenção primária ou da assistência domiciliar, respeitando, de forma sensível, seus desejos, valores e escolhas ao longo do processo de cuidado.

 

    Dessa forma, os cuidados de fim de vida representam uma dimensão essencial dentro dos CP, por se referirem à assistência prestada ao paciente na etapa terminal de sua trajetória, quando a finitude se torna iminente. Trata-se de um momento particularmente sensível, tanto para a pessoa em processo de morte quanto para seus familiares e os profissionais envolvidos. Essa fase acaba por exigir competências específicas da equipe multiprofissional, a qual precisa trabalhar de maneira integrada e sensível, a fim de contemplar todas as dimensões do cuidado, sempre pautada em uma comunicação eficaz, cuidados individualizados e continuados, objetivando a promoção da qualidade de vida do paciente. Nesse contexto, o paciente necessita ser o centro do cuidado, considerando seus valores, desejos e preferências, com a preservação de sua dignidade e autonomia nas decisões que dizem respeito à finitude da vida. (Nascimento, e Santos, 2019).

 

    De acordo com Evangelista et al. (2021), uma equipe multiprofissional é a responsável por ofertar os CP, visto que essa forma de assistência demanda a integração de saberes e práticas de diferentes áreas da saúde. Além disso, é necessário e imprescindível a atuação de mais de um profissional, pois se trata de um processo que exige a atuação de maneira colaborativa, a fim de garantir um cuidado integral e de excelência. Portanto, os residentes, inseridos em seus respectivos programas de residência, formam essa equipe multiprofissional, podendo realizar o atendimento direto ao paciente que está sob esses cuidados.

 

    Embora, no Brasil, tenha-se evoluído bastante nos últimos anos, a abordagem sobre o tema, a utilização dessa estratégia como tratamento, é restrita, principalmente há poucos centros de saúde, entretanto para muitos profissionais algo desconhecido e distante. Esse tratamento possui a capacidade de proporcionar um impacto bastante positivo na vida desses pacientes que estão à mercê de uma doença avassaladora. (Alves, e Oliveira, 2022)

 

    Para a garantia desse tratamento digno no final da vida, é necessário que os profissionais de saúde, incluindo-se os residentes, tenham conhecimento sobre a funcionalidade e a aplicabilidade dos CP. Nessa perspectiva, são inúmeros as pesquisas que demonstram certa falta de conhecimento, bem como deficiência na formação desses profissionais para atuação nessa área. Além disso, observa-se uma significativa lacuna nas discussões e abordagens em relação aos CP nos currículos dos cursos de graduação da área da saúde, revelando a incipiente inserção desse tema nas formações acadêmicas. Tal ausência compromete a formação crítica e humanizada dos futuros profissionais, dificultando o desenvolvimento de competências essenciais para o enfrentamento qualificado das demandas oriundas do cuidado em contextos de terminalidade da vida. (Spineli, 2019)

 

    Assim, torna-se necessário a análise e a compreensão desses profissionais da saúde que estão realizando residência, assim como compõem a equipe multiprofissional que cuidam do paciente em terminalidade no âmbito hospitalar.

 

    Dessa forma, o objetivo deste estudo é analisar o conhecimento e a autoeficácia no tratamento de CP entre os residentes de um hospital, para que se possa analisar coerentemente essa relação entre CP e os participantes dos programas de residência médica e multiprofissional. Busca-se, assim, contribuir para uma abordagem mais abrangente sobre o tema, assegurando ao paciente o direito de enfrentar a doença e o processo de morrer com maior dignidade.

 

Métodos 

 

    Trata-se de um estudo observacional, transversal, descritivo e analítico, realizado em um hospital da região Norte do estado do Rio Grande do Sul. 

 

    A amostra foi composta por 99 indivíduos, residentes dos programas de residência multiprofissional e médica do referido hospital, os quais aceitaram participar da pesquisa e assinaram o Termo de Compromisso Livre e Esclarecido (TCLE). O período da coleta de dados foi de 01 de outubro de 2024 a 31 de março de 2025. Dessa maneira, caracterizou-se por uma amostragem por conveniência não probabilística. Este estudo foi submetido à aprovação do setor de ensino e pesquisa do hospital, no qual foi realizada a pesquisa e após do Comitê de Ética e Pesquisa da Universidade de Passo Fundo, respeitando as Diretrizes da Resolução 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde (CNS) sendo aprovado com CAAE número 82868624.4.0000.5342.

 

    A fim de avaliar o conhecimento e a autoeficácia sobre CP dos profissionais da saúde foi utilizado um questionário estruturado denominado: Questionário de conhecimento e autoeficácia sobre CP (BPW-BR), validado em 2023 para o português e o contexto brasileiro em pesquisa com profissionais de diferentes áreas da Atenção Primária em Saúde (APS). (Libardi, 2023)

 

    O BPW–BR é a adaptação do questionário alemão Bonn Palliative Care Knowledge Test (BPW), originalmente construído na Alemanha em 2011 e publicado por Pfister e seus colaboradores. Este instrumento conta com 38 tópicos, 23 perguntas que avaliam conhecimento sobre os CP (filosofia, manejo de dor, medicação, tratamentos alternativos) e 15 para a avaliação da aplicabilidade e autoeficácia dos CP (se o profissional é capaz de fazer). O questionário é do tipo Likert, através do qual os respondentes julgam cada afirmativa seguindo os termos “verdadeiro”, “mais ou menos verdadeiro”, “dificilmente verdadeiro” ou “não é verdadeiro”. Para posterior análise das afirmativas, as alternativas foram agrupadas em duas possibilidades “verdadeiro” e “mais ou menos verdadeiro” ou “dificilmente verdadeiro” e “não é verdadeiro”. (Libardi, 2023; Spineli, 2019)

 

    A escolha do BPW-BR baseou-se no fato de ser o único questionário validado no Brasil, para avaliar o conhecimento sobre CP voltado para os profissionais da saúde. Também, por apresentar em suas considerações as recentes mudanças relacionadas ao conceito de CP, bem como as diretrizes recomendadas pela OMS, a partir de 2002, as quais abordam, além das questões físicas, os tópicos referentes aos aspectos psicossociais e espirituais. E, para coleta dos dados sociodemográficos, fez-se uso de um questionário sociodemográfico, elaborado pelo próprio pesquisador. 

 

    Após coletados, os dados obtidos foram analisados no programa de estatística Statistical Package por the Social Sciences, versão 24.0 (SPSS), com a extensão PSM (Propensity Score Matching), de acesso livre comercialmente. Foi realizado o teste de normalidade de Kolmogorov-Smirnov para as variáveis numéricas, a fim de escolher as estatísticas. Assim, as análises descritivas foram demonstradas em mediana (IIQ) ou média (DP) para as variáveis numéricas e número absoluto (%) para as variáveis categóricas. Os testes estatísticos utilizados foram os testes de correlação Tau de Kendall, Teste U de Mann-Whitney, Teste de Kruskal-Wallis. Para todas as análises foi considerado um alfa menor ou igual a 5%, de dois lados, como estatisticamente significativo.

 

Resultados 

 

    A amostra foi composta por 99 indivíduos residentes. Dessa forma, identificaram-se as características sociais, demográficas e clínicas desses 99 profissionais, os quais fizeram parte da pesquisa e encontram-se elencadas na Tabela 1.

 

Tabela 1. Características sociodemográficas dos profissionais do estudo

Variáveis

Total (n = 99)

Sexo

Feminino

74 (74,7%)

Masculino

25 (25,3%)

Idade (anos)

28,0 (22-40)

Estado civil

Solteiro

80 (80,8%)

Casado

18 (18,2%)

Divorciado/Separado

1 (1,0%)

Tempo de formação

<1 anos

17 (17,3%)

1-5 anos

64 (65,3%)

6-10 anos

17 (17,3%)

Formação

Assistente Social

6 (6,1%)

Enfermeiro

19 (19,2%)

Fisioterapeuta

12 (12,1%)

Médico

37 (37,4%)

Nutricionista

2 (2,0%)

Psicólogo

10 (10,1%)

Fonoaudiólogo

5 (5,1%)

Farmacêutico

8 (8,1%)

Instituição formativa

Pública

30 (30,3%)

Privada

69 (69,7%)

Pós-graduação

Sim

25 (25,3%)

Não

74 (74,7%)

Fonte: Os autores

 

    Verifica-se, primeiramente, que há o predomínio do sexo feminino, que a média de idade dos indivíduos é de 28 anos (DP=3,461), variando de 22 a 40 anos. Quanto ao estado civil, percebe-se que a maior parte são solteiros. Por outro lado, em relação ao tempo de formação desses profissionais, verifica-se de 1 a 5 anos. Já no que tange à formação, a maioria são médicos, enfermeiros e fisioterapeutas, sendo que a instituição de ensino em que colaram grau foi privada e a grande maioria ainda não possui nenhuma pós-graduação.

 

Tabela 2. Medicina X Multiprofissional

Q7_Formação

_DICO

 

 

BPW_TOTAL teste U de Mann-Whitney NÃO sig, p=0,618

AUTOEF_TOTAL teste U de Mann-Whitney sig, p=0,003

Medicina

N

Valid

37

37

Missing

0

0

Median

 

17,00

51,00

Percentiles

25

15,00

47,00

75

19,00

55,50

Multiprofissional

N

Valid

62

62

Missing

0

0

Median

 

17,00

47,00

Percentiles

25

16,00

41,00

75

18,00

51,25

Fonte: Os autores

 

    Já a Tabela 02 comparou variáveis contínuas entre dois grupos independentes (médicos e multiprofissionais). Em relação ao Conhecimento (BPW_TOTAL), verificou-se que o resultado não foi significativo (p=0,618), logo não se visualizou diferença estatisticamente significativa entre os grupos Medicina e Multiprofissional. Entretanto, no que tange à Autoeficácia (AUTOEF_TOTAL), vislumbrou-se um resultado significativo (p=0,003). Assim, houve diferença estatisticamente significativa entre os dois grupos, sendo que os profissionais de Medicina apresentaram maior autoeficácia (mediana = 51,00), em comparação aos multiprofissionais (mediana = 47,00). Nesse sentido, sugere-se possível relação entre a formação profissional e a confiança na prática.

 

Tabela 3. Dados referente ao contato dos profissionais do estudo com os CP

Variáveis

Total (n=99)

Disciplinas sobre o tema

Não

34 (34,3%)

Sim

65 (65,7%)

Caráter da disciplina

Disciplina obrigatória

26 (37,7%)

Disciplina optativa

12 (17,4%)

Tópicos em outras disciplinas

31 (44,9%)

Residência

Atenção ao Câncer

16 (16,2%)

Cardiologia

14 (14,1%)

Atenção à Saúde Mental

1 (1,0%)

Urgência e Emergência/Intensivismo

16 (16,2%)

Atenção clínica especializada em Neurologia

9 (9,1%)

Materno Infantil e Neonatologia

9 (9,1%)

Ginecologia e Obstetrícia

2 (2,0%)

Cirurgia Geral

16 (16,2%)

Clínica Médica

8 (8,1%)

Ortopedia e Traumatologia

1 (1,0%)

Pediatria

2 (2,0%)

Oncologia Clínica

5 (5,1%)

Nível da residência

1

51 (52%)

2

42 (42,9%)

3

5 (5,1%)

Contato com cuidados paliativos

Não

12 (12,2%)

Sim

86 (87,8%)

Formação em cuidados paliativos

Não

99 (100%)

Interesse em cuidados paliativos

Não

2 (2,0%)

Sim

96 (98%)

Dificuldades questionário

Conhecimento

60 (62,5%)

Autoeficácia

22 (22,9)

Nenhum

13 (13,5%)

Ambos

1 (1,0%)

Fonte: Os autores

 

    No que tange ao contato com os CP, tema da presente pesquisa, a grande maioria dos profissionais relatou que teve essa disciplina em sua formação (graduação). Entretanto, a grande parte teve contato apenas por meio de alguns tópicos sobre o assunto juntamente com as demais disciplinas. Ainda, a totalidade das pessoas pesquisadas não possui formação específica em CP, todavia demonstrou interesse sobre o assunto.

 

Tabela 4. Respostas corretas por questão em termos de frequência absoluta e relativa (%) na amostra total

Questões BPW-BR – Conhecimento

Respostas correta (n 99)

1

80 (80,8%)

2

71 (71,7%)

3

46 (46,5%)

4

77 (77,8%)

5

99 (100%)

6

94 (94,9%)

7

56 (56,6%)

8

98 (99%)

9

72 (72,7%)

10

63 (63,6%)

11

94 (94,9%)

12

80 (80,8%)

13

64 (64,6%)

14

61 (61,6%)

15

98 (99,0%)

16

54 (54,5%)

17

73 (73,7%)

18

91 (91,9%)

19

91 (91,9%)

20

77 (77,8%)

21

80 (80,8%)

22

67 (67,7%)

23

85 (85,9%)

Fonte: Os autores

 

    Outro ponto a ser ressaltado nessa pesquisa é a mediana (IIQ = P25-P75) do BPW no escore geral para os residentes. Foi composta por 23 questões, em que cada acerto pontuava valor um na questão, sendo de 17,00 (15,00-18,00). Por outro lado, o construto autoeficácia continha 15 questões, sendo que o escore geral poderia variar de zero (sente-se incapaz) a quatro (sente-se totalmente capaz), assim a mediana (IIQ) foi 49,00 (43,00-54,00) e o valor das questões foi de 3,20.

 

    Além disso, neste estudo, optou-se por avaliar separadamente as questões. Dessa maneira, possibilitou-se constatar quais as maiores potencialidades e dificuldades encontradas, tanto no aspecto conhecimento (Tabela 4) quanto autoeficácia (Tabela 5).

 

    Nesse sentido, os itens da escala de conhecimento (BPW) foram classificados, de acordo com tercis: oito itens mais difíceis (questões 3, 7, 10, 13, 14, 16, 21 e 22), com percentil de acertos ≤ 67,0; sete itens com dificuldade moderada (questões 1, 2, 4, 9, 12, 17 e 20), com percentil de acertos ≥ 67,1 e ≤ 84,6, e oito itens mais fáceis (questões 5, 6, 8, 11, 15, 18, 19 e 23), com percentil de acertos ≥ 84,7.

 

Tabela 5. Respostas corretas por questão em termos de frequência absoluta e relativa (%) na amostra total

Questões BPW-BR-

Autoeficácia

Não é verdadeiro

Dificilmente verdadeiro

Mais ou menos verdadeiro

Verdadeiro

1

6 (6,1%)

8 (8,1%)

29 (29,3%)

56 (56,6%)

2

7 (7,1%)

11 (11,1%)

24 (24,2%)

57 (57,6%)

3

3 (3,0%)

8 (8,1%)

34 (34,3%)

54 (54,5%)

4

11 (11,1%)

19 (19,2%)

44 (44,4%)

25 (25,3%)

5

1 (1,0%)

5 (5,1%)

36 (36,4%)

57 (57,6%)

6

9 (9,1%)

15 (15,2%)

32 (32,3%)

43 (43,4%)

7

3 (3,0%)

4 (4,0%)

30 (30,3%)

62 (62,6%)

8

6 (6,1%)

12 (12,1%)

58 (58,6%)

23 (23,2%)

9

6 (6,1%)

15 (15,2%)

36 (36,4%)

42 (42,4%)

10

5 (5,1%)

23 (23,2%)

34 (34,3%)

37 (37,4%)

11

28 (28,3%)

21 (21,2%)

15 (15,2%)

35 (35,4%)

12

13 (13,1%)

13 (13,1%)

24 (24,2%)

49 (49,5%)

13

7 (7,1%)

16 (16,2%)

41 (41,4%)

35 (35,4%)

14

6 (6,1%)

17 (17,2%)

32 (32,3%)

44 (44,4%)

15

1 (1,0%)

1 (1,0%)

8 (8,1%)

89 (89,9%)

Fonte: O autor (2025)

 

    Por fim, para os itens da escala de autoeficácia, os cinco itens mais difíceis (questões 4, 8, 10, 11 e 13), com percentil de acertos ≤ 303,6; cinco itens com dificuldade moderada (questões 2, 6, 9, 12 e 14), com percentil de acertos ≥ 303,7 e ≤ 331,4, e cinco itens mais fáceis (questões 1, 3, 5, 7 e 15), com percentil de acertos ≥ 331,5.

 

Tabela 6. Comparações dos resultados do escore de conhecimento sobre BPW e 

Autoeficácia, em mediana (P25-P75), conforme variáveis, entre residentes (n=99)

Variáveis

BPW

Autoeficácia

Tempo de formação

≤ 5 anos

17,0 (15,0-18,0)

48,0 (42,5-52,0)

6 a 10 anos

17,0 (15,5-18,5)

51,0 (44,0-55,5)

Valor p*

0,497

0,258

Disciplina sobre CP

Sim

17,0 (15,0-18,0)

49,5 (42,0-55,0)

Não

17,0 (15,0-18,0)

48,0 (43,0-52,0)

Valor p*

0,649

0,434

Instituição de Ensino na graduação

Pública

17,0 (16,0-18,0)

45,5 (41,0-50,3)

Privada

17,0 (15,0-18,0)

50,0 (44,5-54,0)

Valor p*

 

0,365

0,065

Contato com paciente em CP

Sim

17,0 (15,0-18,0)

49,0 (43,0-54,0)

Não

17,0 (15,3-18,8)

46,5 (38,5-50,0)

Valor p*

0,882

0,228

Ano residência

R1

17,0 (15,0-18,0)

49,0 (43,0-54,0)

R2

17,0 (16,0-19,0)

48,0 (41,8-52,0)

R3

18,0 (16,5-18,5)

49,0 (49,0-59,5)

Valor p*

0,090

0,185

*Valor do p ³ 0,005. Fonte: Os autores

 

    Correlacionado o número de acertos do questionário de conhecimento com a autoeficácia da amostra total: através do teste Tau de Kendall, constata-se que não houve correlação significativa entre escores totais (r=-0,006; p=0,939).

 

    No que se refere às comparações dos escores dos questionários de conhecimento e de autoeficácia, considerando as áreas de formação - multiprofissional e médica -, observou-se que os participantes da área multiprofissional apresentaram os menores valores em ambos os escores. Contudo, tais diferenças mostraram-se de baixa relevância estatística.

 

    O valor mediano das respostas nos construtos que avaliam conhecimento foi para pós-graduação (p=0,750) e autoeficácia (p=0,117).

 

Discussão 

 

    A crescente demanda por CP cresce, sobremaneira, diante da transição demográfica e epidemiológica. Apesar dos avanços na implementação desse modelo de cuidado, uma parcela expressiva da população mundial que necessita desse suporte ainda permanece sem acesso aos seus benefícios (Spineli, 2019). Conceição et al. (2019) salientam a importância do conhecimento do médico residente sobre CP no ambiente hospitalar. Nesses momentos de intenso sofrimento e medo, o residente, conjuntamente com uma equipe multidisciplinar, assume um papel crucial no conforto do paciente. 

 

    A maior parte da amostra era do sexo feminino, jovem, solteira e possuía um tempo de formação profissional compreendido entre um e cinco anos. Os dados extraídos na presente pesquisa são semelhantes ao estudo desenvolvido por Conceição et al. (2019). Este buscou analisar sobre CP entre internos de medicina e médicos residentes de um Hospital Universitário em uma capital do Nordeste. O perfil predominante foi de profissionais entre 20 e 29 anos, do sexo feminino, e entre um a quatro anos de formado. Outro estudo analisado foi de Ribeiro e Leite (2024), o qual buscou identificar o grau de informação dos residentes médicos e da equipe multidisciplinar em relação aos CP pediátrico. Essa amostra contou com participantes de ambos os sexos, entretanto a maioria eram mulheres, com faixa etária entre 21 e 30 anos.

 

    A avaliação do conhecimento e da autoeficácia dos residentes no que tange aos CP, em todos os níveis de atenção à saúde, reveste-se de importância para a qualidade da assistência. No presente estudo, os médicos, de forma geral, apresentaram níveis mais elevados de autoeficácia neste estudo. Esse resultado pode ser atribuído pela própria experiência prática adquirida ao longo de sua formação, uma vez que esses profissionais mantêm contato direto com pacientes desde as etapas iniciais do curso, fato que não se observa entre os demais grupos profissionais analisados. Nesse contexto, os achados de Libardi (2023) também reforçam essa interpretação, ao apontar que os médicos tendem a se perceberem mais aptos no manejo de CP. De acordo com esse autor, esses profissionais demonstraram maior segurança em relação às condutas clínicas, como prescrições medicamentosas, controle da dor e da náusea, atendimento às necessidades fisiológicas no final da vida, além de apresentarem maior capacidade de estabelecer vínculos empáticos com os familiares dos pacientes.

 

    No que se refere ao contato com CP, tema central desta pesquisa, bem como um dos objetivos específicos do estudo, “relacionar a ocorrência do estudo de CP na graduação e o nível de conhecimento e a autoeficácia”, a maioria dos profissionais participantes relatou ter sido abordada essa temática durante sua formação na graduação. Contudo, indicou-se que o conteúdo foi tratado de forma pontual, limitado a tópicos inseridos em outras disciplinas, sem constituir uma formação específica. Já no estudo de Conceição et al. (2019), a maior parte dos médicos residentes afirmou não ter recebido informação sobre o tema, verificando, desse modo, que o assunto é pouco abordado nas instituições acadêmicas. Converge-se, assim, para o entendimento de que a discussão em sala de aula permanece incipiente, corroborando os achados deste estudo. Além disso, Ribeiro, e Leite (2024) reportaram que metade dos participantes teve contato na graduação, bem como a maioria também na pós-graduação, reforçando a persistência de lacunas formativas.

 

    Na pesquisa de Ghisleni, Valandro, e Saavedra (2023), foi identificado uma diferença estatisticamente significativa na porcentagem de acertos nas questões de CP entre os residentes de segundo ano e os médicos contratados. O grupo de residentes, que apresentou a maior média de acertos, teve todos os participantes relatando terem recebido aulas sobre CP durante a residência. Em contrapartida, apenas 26 % dos médicos contratados afirmaram ter tido esse tipo de formação. Embora a inclusão de CP nos currículos da graduação e da residência médica ainda seja limitada, esses dados reforçam o que já vem sendo apontado pela literatura: o ensino sistemático de CP na formação é uma estratégia essencial para ampliar o conhecimento sobre o tema e, consequentemente, garantir maior acesso a esses cuidados para quem deles necessita.

 

    Nesse sentido, mesmo diante da sua importância, ainda a formação acadêmica nos cursos de graduação na área da saúde enfatiza e prioriza, na grande maioria das instituições de ensino, modelos curativos, dessa maneira os CP são considerados como secundários, deixados em segundo plano (Castro et al., 2025). Além disso, de acordo com Castro et al. (2022), os próprios acadêmicos relatam, por vezes, condições em que se encontram despreparados e mesmo desconfortáveis ao ter contato com pacientes em fases de terminalidade, assim se constatando um gap na formação acadêmica.

 

    Ademais, observou-se que nenhum dos respondentes possui formação especializada. Apesar disso, constatou-se um elevado interesse pelo tema, manifestado por 96% dos participantes. Nesse sentido, Barros (2025), em sua pesquisa, evidenciou dados semelhantes. Os resultados decorrentes da sua análise, relativos à formação e à experiência profissional, evidenciaram que 92,7 % dos participantes prestavam assistência a pacientes em CP. Contudo, 52,8 % declararam não possuir experiência prévia sobre a temática e 87,7 % consideraram insuficientes seus conhecimentos para atuar nessa abordagem, revelando uma discrepância significativa entre a prática assistencial exercida e a formação profissional recebida. Cabe salientar, também, que, conforme Pereira (2021), a partir desse contexto presente nas universidades brasileiras, a carência de disciplinas obrigatórias sobre o assunto acaba por retratar um modelo, basicamente, centrado na cura, então, de certa maneira, omitindo esse cuidado final da vida.

 

    Ghisleni, Valandro, e Saavedra (2023), através de um estudo realizado nas 12 unidades de saúde vinculadas a um serviço de APS, afirmam que 98,4 % dos participantes, em relação à percepção sobre o conhecimento em CP, disseram ter necessidade de mais formação sobre o tema. Também, foram questionados se sentiam aptos para manejar esses pacientes vinculados às suas unidades de saúde, 16,1 % consideraram-se aptos na maior parte dos casos, 61,3% aptos em alguns casos e 22,6 % não se consideraram aptos. Além disso, foi questionado aos residentes de MFC se consideravam que a formação na residência estava sendo suficiente para se sentirem aptos a manejar paciente em CP; 21,1 % consideraram parcialmente suficiente e 78,9 %, insuficiente.

 

    Cabe salientar ainda que, entre os fatores que limitam a oferta de CP, destaca-se o conhecimento insuficiente dos profissionais de saúde acerca desse tema. A efetiva consolidação desse conhecimento não se dá exclusivamente por meio do ensino teórico, sendo igualmente indispensável a vivência prática, por meio da atuação direta na prestação dos CP (Silva, 2018). Ainda, além das competências técnicas necessárias para a realização de procedimentos, torna-se essencial o desenvolvimento de uma postura compassiva, capaz de atender de forma sensível e humanizada às demandas de cuidado dos pacientes e de seus familiares. (Spineli, 2019)

 

    Através da análise do público pesquisado para compor a presente pesquisa, os itens da escala de conhecimento (BPW) foram classificados em tercis, conforme o nível de dificuldade: os oito itens mais difíceis (itens 3, 7, 10, 13, 14, 16, 21 e 22), com percentil de acertos igual ou inferior a 67,0. Nessa perspectiva, torna-se imprescindível ultrapassar entraves de ordem institucional e cultural, a fim de que a formação acadêmica efetivamente cumpra seu papel de preparar profissionais competentes, empáticos e habilitados ao cuidado integral. Nessa Nesse sentido, uma das maiores pontuações foi no item cinco (Habilidade de comunicação), bem como no primeiro estudo desenvolvido no Brasil por Spineli (2019). Os residentes consideram a comunicação essencial para o cuidado adequado nessa abordagem. Também, no estudo de Conceição et al. (2019), no aspecto “comunicação”, quase a totalidade dos participantes (99 %) enfatizaram que habilidades de comunicação podem ser aprendidas.

 

    De acordo com Campos, Silva, e Silva (2019), o diálogo empático, nesse aspecto, torna-se uma estratégia, assim como uma habilidade primordial para qualquer equipe, a qual busca a compreensão das angústias e do sofrimento do doente. Além disso, objetiva promover a beneficência, gerando conforto, reduzindo sintomas e, principalmente, não ocasionando mais danos ao paciente. Corrobora, nesse sentido, Silva (2008), afirmando que se torna essencial que os profissionais de saúde reconheçam o direito dos pacientes à informação clara e honesta sobre sua condição clínica, respeitando, contudo, o desejo individual de conhecer — ou não — determinados aspectos de sua doença. A transparência no processo comunicativo possibilita que o paciente participe ativamente da elaboração do plano terapêutico, exerça o consentimento informado e reorganize sua vida e a de seus familiares de maneira consciente e autônoma.

 

    Entretanto, embora todos considerem a comunicação de suma importância, ela surge na pesquisa como um desafio a ser superado. Da mesma maneira, como já apontado na pesquisa de Spineli (2019), os residentes também sentem dificuldade em responder adequadamente às necessidades complexas do paciente em CP. Corroboram Campos, Silva, e Silva (2019) afirmando que em se tratando de CP, a comunicação e a relação interpessoal são de vital importância, no sentido de assegurar um amparo completo tanto aos pacientes como a seus familiares. Tornam-se fundamentais a fim de atender às necessidades que vão além do escopo das medicações e intervenções de alta tecnologia, proporcionando um acolhimento que reconhece a dor humana e facilita a expressão das angústias por meio de técnicas adequadas.

Dessa forma, para que a comunicação ocorra eficazmente, ou seja, para falar e escutar ativamente, as estratégias de comunicação interpessoal precisam ser aprendidas. Assim, faz-se necessário abordar o tema nos currículos dos cursos de formação inicial na área de saúde, bem como em programas de EPS no trabalho. (Bastos et al., 2016)

 

    Conforme Spineli (2019), objetivando garantir ao indivíduo um fim de vida centrado em CP, torna-se necessário conversar sobre o que é importante para ele e sua própria família. Abordar sobre a morte, o morrer e o luto são aspectos difíceis de serem conversados, mas são importantes e necessários. Nesse contexto, destaca-se a relevância da elaboração de um plano de cuidado fundamentado no processo de tomada de decisão compartilhada e na comunicação eficaz entre todos os envolvidos. (Deckx et al., 2019)

 

    Além disso, correlacionando o conhecimento sobre CP e o nível de autoeficácia de tratamento dos residentes deste estudo, não houve resultados significativos. Mesmo assim é importante enfatizar sobre a relevância da formação e da educação permanente em saúde, a fim de qualificar a assistência nesse processo.

 

    Vale enfatizar, também, que, muitas vezes, o pouco preparo em enfrentar o processo da morte é amplificado pela sua dificuldade em abandonar a lógica do curar. Essa prioridade impede que as necessidades dos CP sejam devidamente reconhecidas. Ribeiro et al. (2021), por meio de sua pesquisa, verificou que muitos profissionais (médicos, enfermeiros, psicólogos, fisioterapeutas e nutricionistas) enfrentam algumas dificuldades em aceitar a morte como algo inerente ao ser humano, assim procuram oferecer diversas condutas terapêuticas, a fim de prolongar a vida a qualquer custo, uma vez que foi o aprendido durante a graduação. Outro fator crucial é a insuficiência curricular, que se manifesta pela ausência de discussões sobre o tema durante a formação acadêmica (Salbego et al., 2022). Nesse sentido, emerge a necessidade de ampliar a oferta de CP através da implementação de mudanças nas políticas públicas de saúde e na formação médica. (Pieters et al., 2020)

 

    Além disso, foi possível constatar, no presente estudo, com um alto percentual a empatia e o respeito às condições de vida, dinâmicas familiares e necessidades associadas ao paciente. Tal fato também pode ser comprovado na pesquisa de Farias, e Feijó (2024), a qual se verificou que a maioria da população foi capaz de criar empatia com o paciente em suas diferentes situações de vida, bem como com seus familiares. Nesta, também, verificou-se essa evidência. Essa relação de confiança beneficia a ambos, contribui para se alcançar maior sucesso para melhorar a qualidade de vida do paciente, o médico é visto como um porto seguro, enquanto ele tem a satisfação de oferecer um cuidado mais completo e eficaz.

 

    Ainda, para Salbego et al. (2022), a medicina paliativa e a medicina curativa são complementares, a fim de proporcionar o apoio ao paciente ao longo de seu processo de adoecimento e do morrer, reconhecendo essa última etapa como uma parte natural da vida. Todavia, é notório que a falta de preparo em situações as quais exigem comunicação e suporte a pacientes em fim de vida prejudica significativamente a relação entre o profissional de saúde e o paciente. Além disso, verifica-se que são inerentemente desafiadores vivenciar o processo de morte daqueles que são cuidados. Observa-se, ainda, a dificuldade em compreender e aceitar o sofrimento inerente ao sentido obscuro que a morte confere a cada indivíduo.

 

    Ademais, compreende-se que o processo de morte deve ser vivenciado da maneira mais digna e confortável possível. Nessa perspectiva, o CP emerge como um modelo integrativo para a transição entre a vida e a morte. De acordo com a World Health Organization (2002), é uma abordagem que promove a qualidade de vida de pacientes e seus familiares diante de doenças que ameaçam a continuidade da vida. Isso é feito por meio da prevenção e alívio do sofrimento, o que exige identificação precoce, avaliação e tratamento impecável da dor e outros problemas de natureza física, psicossocial e espiritual. Nessa perspectiva, Maciel (2012) ressalta que os CP e a medicina paliativa exigem um conhecimento técnico refinado, aliado à compreensão do ser humano como protagonista de sua própria história de vida e corresponsável pelo seu processo de adoecer e morrer. Essa abordagem valoriza não apenas a história natural da doença, mas também a trajetória pessoal, as experiências emocionais e culturais e as reações fisiológicas diante do adoecimento. Busca-se, assim, uma atenção centrada no controle de sintomas e na promoção do bem-estar do paciente e de seu entorno, reconhecendo a importância de incluir a família nesse processo. É essencial que os familiares compreendam a evolução da doença e a cadeia de acontecimentos que conduzem ao desfecho final, favorecendo uma vivência mais consciente, acolhedora e digna desse percurso.

 

Conclusão 

 

    Através deste estudo, pode-se observar que os residentes possuem um bom nível de conhecimento sobre CP, assim como elevada autoeficácia. Além disso, evidenciou-se que, quando comparados, equipe multidisciplinar e os médicos, estes apresentaram níveis mais altos de autoeficácia. Entretanto, os dados também revelam uma lacuna na preparação desses profissionais para o cuidado de pacientes e familiares em fase de terminalidade da vida. Nesse contexto, destaca-se e reforça-se a importância da formação acadêmica adequada, da educação permanente em saúde, bem como a transformação, revisão e renovação dos currículos, a fim de qualificar e humanizar a assistência nesse processo.

 

    Dessa forma, pode-se afirmar que são necessários o fortalecimento e a ampliação da abordagem paliativa, por meio de um compromisso contínuo das instituições acadêmicas, dos serviços de saúde, das políticas públicas e dos profissionais, buscando superar os entraves curriculares, institucionais, políticos e culturais ainda vigentes. Espera-se que os resultados oriundos do presente estudo se tornem subsídios para fomentar o desenvolvimento de novas iniciativas de pesquisa, de formação profissional e de gestão em saúde, promovendo a formulação de políticas públicas eficazes, assegurando o acesso universal, digno e qualificado aos CP, condição essencial para promover qualidade de vida a pacientes e familiares em contextos de vulnerabilidade e sofrimento, bem como dignidade no processo de morrer.

 

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