ISSN 1514-3465
Comparação entre cinesioterapia e hidroterapia
na fibromialgia: um estudo clínico randomizado
Comparison between Kinesiotherapy and Hydrotherapy in Fibromyalgia: A Randomized Clinical Study
Comparación entre kinesioterapia e hidroterapia en la fibromialgia: un ensayo clínico aleatorizado
Sophia Fernandes de Souza e Silva
*sophiafssilva@gmail.com
Ângela Kemel Zanella
**angela.zanella@ufsm.br
*Fisioterapeuta formada pelo curso de Fisioterapia
da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM)
**Docente do Curso de Graduação em Fisioterapia da UFSM
Doutora em Gerontologia Biomédica
na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS)
(Brasil)
Recepción: 12/09/2025 - Aceptación: 08/02/2026
1ª Revisión: 03/01/2026 - 2ª Revisión: 05/02/2026
Documento acessível. Lei N° 26.653. WCAG 2.0
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Este trabalho está sob uma licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional (CC BY-NC-ND 4.0) https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/deed.pt |
Cita sugerida:
Silva, S.F. de S. e, e Zanella, A.K. (2026). Comparação entre cinesioterapia e hidroterapia na fibromialgia: um estudo clínico randomizado. Lecturas: Educación Física y Deportes, 30(334), 116-136. https://doi.org/10.46642/efd.v30i334.8556
Resumo
Fibromialgia (FM) é uma síndrome crônica dolorosa e multifatorial. Existem diversos tratamentos, sendo que os exercícios físicos e a hidroterapia têm sua eficácia comprovada. Os objetivos do estudo foram descrever o perfil clínico e sociodemográfico de pessoas que possuem FM além de comparar nível de dor, catastrofização da dor e qualidade de vida entre os grupos de exercícios no solo, exercícios na água antes e depois das intervenções propostas. Esse foi um estudo clínico randomizado com dados coletados de 30 participantes no período de junho de 2024 a setembro de 2024. Os participantes foram divididos igualmente em Grupo Cinesioterapia (GCinesio) e Grupo Hidroterapia (GHidro). Ambos os grupos realizaram os mesmos exercícios, com a diferenciação do ambiente, por oito semanas e foram avaliadas as variáveis catastrofização da dor e qualidade de vida por meio de Ficha de Avaliação, Escala de Catastrofização da Dor (ECD) e Versão Brasileira do Questionário de Qualidade de Vida SF-36 (SF-36). No GCinesio houve melhora estatisticamente significativa (p<0,05) da pontuação total do SF-36 e dos domínios Dor, Vitalidade e Aspectos Sociais. No GHidro, foi observada melhora significativa nos domínios Capacidade Funcional e Limitação por aspectos físicos do SF-36. Em nenhum dos grupos houve melhora no resultado da ECD. Nas comparações intergrupos não houve diferença significativa. Sendo assim, embora não se tenha diferença entre a intervenção de cinesioterapia e hidroterapia, ambas individualmente são métodos eficazes na melhora da dor e da qualidade de vida de pacientes fibromiálgicos.
Unitermos:
Dor crônica. Fisioterapia aquática. Terapia por exercício.
Abstract
Fibromyalgia (FM) is a chronic and multifactorial painful syndrome. There are several treatments, and physical exercises and hydrotherapy have proven their effectiveness. The objectives of the study were to describe the clinical and sociodemographic profile of people with FM, in addition to comparing pain level, pain catastrophizing, and quality of life between the groups of land exercises and water exercises before and after the proposed interventions. This is a randomized clinical study with data collected from 30 participants from June 2024 to September 2024. The participants were divided into Kinesiotherapy Group (KG) and Hydrotherapy Group (HG). Both groups performed the same intervention protocol for eight weeks and the variables pain catastrophizing and quality of life were evaluated using an Assessment Form, Pain Catastrophizing Scale (PCS) and the Brazilian Version of the Quality-of-Life Questionnaire-SF-36 (SF-36). In KG, there was a statistically significant improvement (p<0.05) in the total score of the SF-36 and in the Bodily Pain, Energy/Vitality and Social Functioning domains. In HG, a significant improvement was observed in the Physical Functioning and Physical role limitations of the SF-36. In neither group was there an improvement in the PCS result. In the intergroup comparisons, there was no significant difference. Although there is no difference between kinesiotherapy and hydrotherapy interventions, both individually are effective methods for improving pain and the quality of life of fibromyalgia patients.
Keywords:
Aquatic therapy. Chronic pain. Exercise therapy.
Resumen
La fibromialgia (FM) es un síndrome crónico, doloroso y multifactorial. Existen diversos tratamientos, y el ejercicio físico y la hidroterapia han demostrado eficacia. Los objetivos de este estudio fueron describir el perfil clínico y sociodemográfico de personas con FM, así como comparar los niveles de dolor, la catastrofización del dolor y la calidad de vida entre grupos que realizaron ejercicios en tierra y agua antes y después de las intervenciones propuestas. Se trató de un ensayo clínico aleatorizado con datos recopilados de 30 participantes. Los participantes se dividieron equitativamente en un grupo de kinesioterapia (GKinesio) y otro de hidroterapia (GHidro). Ambos grupos realizaron los mismos ejercicios, con diferentes entornos, durante ocho semanas. Las variables de catastrofización del dolor y calidad de vida se evaluaron mediante un formulario de evaluación, la Escala de Catastrofización del Dolor (ECD) y la versión brasileña del Cuestionario de Calidad de Vida SF-36 (SF-36). En el grupo GKinesio, se observó una mejora estadísticamente significativa (p<0,05) en la puntuación total del SF-36 y en las áreas de Dolor, Vitalidad y Aspectos Sociales. En el grupo GHidro, se observó una mejora significativa en las áreas de Capacidad Funcional y Limitaciones Físicas del SF-36. En ninguno de los dos grupos se observó una mejora en el resultado del ECD. En las comparaciones intergrupales, no se observaron diferencias significativas. Por lo tanto, aunque no existen diferencias entre la kinesioterapia y la hidroterapia, ambas son métodos eficaces individualmente para mejorar el dolor y la calidad de vida en pacientes con fibromialgia.
Palabras clave
: Dolor crónico. Fisioterapia acuática. Terapia de ejercicios.
Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 30, Núm. 334, Mar. (2026)
Introdução
Fibromialgia (FM) é uma síndrome crônica, dolorosa, não-articular multifatorial e sem origem conhecida, sendo sua principal característica a presença de tender points, regiões dolorosas bilaterais no esqueleto axial específicas à palpação (Heymann et al., 2010; Robles et al., 2022; Rodríguez, e Mendoza, 2020). A FM também é associada a fadiga, distúrbios do sono, ansiedade, depressão, dor de cabeça, rigidez e outras disfunções musculoesqueléticas. (Rodríguez, e Mendoza, 2020)
FM é diagnosticada de maneira clínica com base na sintomatologia do paciente, podendo serem requisitados exames complementares para exclusão de outras doenças e confirmar o diagnóstico de FM (Heymann et al., 2010; Robles et al., 2022). O tratamento da FM é multidisciplinar e individualizado de acordo com cada caso, combinando remédios para manejo da dor e complicações adjacentes com a educação em saúde e exercícios físicos. (Heymann et al., 2010; Robles et al., 2022; Sánchez et al., 2021)
A fisioterapia tem papel importante no tratamento não medicamentoso da FM, pois suas modalidades como cinesioterapia (exercícios ativos, resistidos e aeróbicos) e hidrocinesioterapia (exercícios no ambiente aquático) são componentes importantes no manejo da FM, associados às terapias medicamentosas e psicológicas. (Rodríguez-Huguet et al., 2024)
A cinesioterapia em pacientes com FM tem efeitos como redução da dor, maior bem-estar e resistência cardiorrespiratória, melhora da aptidão física e da força muscular, diminuição da tensão muscular, aumento da capacidade funcional, melhora da resistência muscular e maior qualidade de vida. (Araújo, e DeSantana, 2019; Kopše, e Manojlović, 2023)
A hidrocinesioterapia propicia diversos benefícios durante a imersão como diminuição da dor, relaxamento muscular, minimiza os impactos dos movimentos, aumenta a circulação de sangue, aumenta amplitude de movimento, melhora a flexibilidade e aumenta a resistência muscular. Ademais, contribui com o aumento da autoestima dos pacientes e melhora a qualidade de vida desses. (Britto et al., 2020; Neira et al., 2024; Rodríguez-Huguet et al., 2024)
Entretanto, a escolha de qual treino usar com pacientes fibromiálgicos ainda é discussão recente, tendo sido demonstrado que exercício terapêutico é o tratamento mais eficiente para a FM, porém não existindo consenso sobre qual é o mais benéfico. Em revisão sistemática e metanálise publicada em 2025 foram analisados 51 estudos sobre exercício físico na FM, porém apenas dois estudos comparavam duas intervenções diferentes e desses, apenas três comparavam cinesioterapia com hidroterapia. Ademais, não foram incluídos estudos publicados após 2021 devido falta de pesquisas que se adequassem aos critérios da revisão. (Rodríguez-Domínguez et al., 2025)
Dessa forma, essa área de pesquisa torna-se de extrema importância para maior entendimento de como os exercícios apresentados melhoram a qualidade de vida desses pacientes e qual desses métodos deve ser preferência de tratamento da FM. Por conseguinte, a presente pesquisa teve como objetivos descrever o perfil clínico e sociodemográfico de pessoas que possuem FM além de comparar nível de dor, catastrofização da dor e qualidade de vida entre os grupos de exercícios no solo, exercícios na água antes e depois das intervenções propostas.
Métodos
Desenho de estudo
Esse estudo é um ensaio clínico randomizado que foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) sob CAAE 81829424.0.0000.5346 e nº do parecer 7.066.245 e registrado no Gabinete de Apoio a Projetos (GAP) do Centro de Ciências da Saúde (CCS) da UFSM sob número 062464.
Amostra
Participantes foram convidados pela divulgação em redes sociais e aplicativos de mensagens instantâneas, como Instagram e WhatsApp contendo link de inscrição. Após divulgação, os participantes foram recrutados pelo preenchimento de formulário on-line disponibilizado pelo link divulgado, no qual foram informados dados para contato. Após análise e identificação do interesse em participar, os pacientes foram convidados a participar do estudo. Aqueles que aceitaram participar receberam esclarecimentos sobre os objetivos, a importância da sua participação, os instrumentos utilizados e o sigilo das informações e receberam o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e o Termo de Confidencialidade (TC) para assinatura. Avaliação, reavaliação e intervenções foram realizadas na Antiga Reitoria da UFSM e na Piscina Aquecida do Centro de Educação Física e Desporto (CEFD) da UFSM.
A randomização foi realizada mediante sorteio, pelo software Randomization.com, onde os nomes dos interessados ficaram em lista de Excel com código de acordo com a ordem de inscrição. A randomização foi feita por meio desse código, onde o sorteio definiu os códigos que pertenceram a cada grupo.
Foram adotados como critérios de inclusão: diagnóstico de FM comprovado por atestado médico, permissão médica para realizar atividades físicas e pacientes de 30 a 70 anos.
Os critérios de exclusão foram: diagnóstico não comprovado, falta de autorização para realização de exercício físico, doenças sistêmicas não controladas (hipertensão e diabetes), doenças articulares severas agudização (artrite reumatoide, artroplastias de joelho e quadril), mudanças nos últimos 3 meses no manejo da FM (medicamentos, exercício físico, terapias alternativas, psicoterapia e programas educativos), histórico de trauma grave ou doença psiquiátrica grave, esquema vacinal para COVID-19 incompleto, hidrofobia e 3 faltas consecutivas à intervenção (por regra pré-determinada do projeto de extensão).
Trinta e nove pessoas responderam ao link de inscrição, concordaram participar do estudo e realizaram avaliação inicial. Após a avaliação, foram alocados 19 participantes ao grupo Cinesioterapia (GCinesio) e 20 participantes ao grupo Hidroterapia (GHidro). Ao longo do estudo, quatro participantes do GCinesio e cinco participantes do GHidro foram excluídos devido faltas, totalizando 15 participantes em cada grupo e 30 participantes no total.
Procedimentos
As coletas de dados das avaliações pré e pós-intervenção foram realizadas por fisioterapeuta ou aluno voluntário do curso de Fisioterapia da UFSM durante o período de junho a setembro de 2024.
Pacientes responderam três questionários e escalas diferentes, sendo esses: Ficha de Avaliação; Escala de Catastrofização da Dor; e Versão Brasileira do Questionário de Qualidade de Vida-SF-36.
Ficha de Avaliação
Para caracterização dos participantes do estudo foi utilizada ficha de avaliação, elaborada pelos pesquisadores e composta por: data da avaliação, nome, telefone para contato, e-mail, endereço, idade, escolaridade, ocupação, estado civil, arranjo familiar domiciliar, história da doença atual (HDA), história patológica pregressa (HPP), medicamentos, massa e estatura.
Escala de Catastrofização da Dor
A Escala de Catastrofização da Dor (ECD), a qual foi traduzida e validada para a língua portuguesa brasileira, avalia os pensamentos que o paciente tem quanto a dor. É dividida em 13 afirmações, que podem pontuar de zero (mínimo) a quatro (muito intenso). Sua pontuação final pode ir de zero a 52, sendo que pontuação total acima de 30 representa nível clinicamente significativo de catastrofização da dor. (Sardá Junior et al., 2008)
Versão brasileira do Questionário de Qualidade de Vida-SF-36
O Questionário de Qualidade de Vida-SF-36 (SF-36), traduzido e validado para a língua portuguesa brasileira, avalia a qualidade de vida de forma multidimensional. É composto por 36 itens, divididos em oito domínios: capacidade funcional, limitação por aspectos físicos, dor, estado geral da saúde, vitalidade, aspectos sociais, limitação por aspectos emocionais e saúde mental. Sua pontuação final pode ir de zero a 100, zero sendo pior estado geral e 100 melhor estado de saúde. (Ciconelli et al., 1999)
Intervenção
Os grupos GCinesio e GHidro realizaram o mesmo protocolo de exercícios, com a diferenciação do ambiente que foi realizado, solo ou água, durante o inverno no Rio Grande do Sul. Foram realizadas duas sessões semanais de exercícios de fortalecimento supervisionados. A intervenção teve duração de oito semanas e cada sessão durou aproximadamente 40 minutos, sendo os exercícios realizados em grupos de no máximo 15 participantes. Foram utilizados equipamentos auxiliares como halteres e caneleiras. Na primeira semana os exercícios foram realizados sem carga, e para progressão, foram adicionados 0,5 Kg semanalmente se o paciente identificou o seu esforço como baixo.
Os participantes realizaram séries de oito repetições, evoluindo para dez, 12 e 15 repetições, de exercícios para os seguintes grupos musculares (Assumpção et al., 2018; Marques et al., 2015): quadríceps, flexores de cotovelo, extensores de cotovelo, peitoral maior, flexores de quadril, adutores de quadril, abdutores de quadril e tríceps sural.
Figura 1. Fluxograma do estudo
Fonte: Dados de pesquisa
Resultado
Participaram do estudo 30 mulheres de 36 a 70 anos, entre 66-75 kg de peso e 1,56-1,6 metros de altura, sendo a maioria com sobrepeso de acordo com o Índice de Massa Corporal (IMC) (Tabela 1). Outros dados sociodemográficos da amostra como escolaridade e ocupação estão expostos na Tabela 1.
Tabela 1. Caracterização antropomórfica e sociodemográfica da amostra
|
|
GCinesio (n = 15) |
GHidro (n = 15) |
Total (%) (n = 30) |
|
Faixa etária |
|||
|
36 - 45 |
3 (20 %) |
3 (20 %) |
6 (20 %) |
|
46 - 55 |
4 (26,7 %) |
5 (33,3 %) |
9 (30 %) |
|
56 - 65 |
8 (53,3 %) |
5 (33,3 %) |
13 (43,3 %) |
|
66 - 70 |
0 (0 %) |
2 (13,3 %) |
2 (6,7 %) |
|
Massa (kg) |
|||
|
55 - 65 |
3 (20 %) |
3 (20 %) |
6 (20 %) |
|
66 - 75 |
5 (33,3 %) |
5 (33,3 %) |
10 (33,3 %) |
|
76 - 85 |
4 (26,7 %) |
4 (26,7 %) |
8 (26,7 %) |
|
86 - 95 |
3 (20 %) |
2 (13,3 %) |
5 (16,7 %) |
|
96 - 100 |
0 (0 %) |
1 (6,7 %) |
1 (3,3 %) |
|
Altura (metros) |
|||
|
1,50 - 1,55 |
1 (6,7 %) |
1 (6,7 %) |
2 (6,7 %) |
|
1,56 - 1,60 |
7 (46,7 %) |
8 (53,3 %) |
15 (50 %) |
|
1,61 - 1,65 |
3 (20 %) |
2 (13,3 %) |
5 (16,7 %) |
|
1,66 - 1,70 |
4 (26,7 %) |
4 (26,7 %) |
8 (26,7 %) |
|
IMC (kg/m²) |
|||
|
Normal - 18,6 a 24,9 |
2 (13,3 %) |
3 (20 %) |
5 (16,7 %) |
|
Sobrepeso - 25,0 a 29,9 |
7 (46,7 %) |
6 (40 %) |
13 (43,3 %) |
|
Obesidade grau I - 30,0 a 34,9 |
4 (26,7 %) |
6 (40 %) |
10 (33,3 %) |
|
Obesidade grau II - 35,0 a 39,9 |
2 (13,3 %) |
0 (0 %) |
2 (6,7 %) |
|
Escolaridade |
|||
|
Não informou / Não soube informar |
0 (0 %) |
5 (33,3 %) |
5 (16,7 %) |
|
Ensino Fundamental Incompleto |
1 (6,7 %) |
0 (0 %) |
1 (3,3 %) |
|
Ensino Fundamental Completo |
3 (20 %) |
1 (6,7 %) |
4 (13,3 %) |
|
Ensino Média Completo |
6 (40 %) |
5 (33,3 %) |
11 (36,7 %) |
|
Superior Incompleto |
0 (0 %) |
1 (6,7 %) |
1 (3,3 %) |
|
Superior Completo |
3 (20 %) |
3 (20 %) |
6 (20 %) |
|
Pós-Graduação |
2 (13,3 %) |
0 (0 %) |
2 (6,7 %) |
|
Ocupação |
|||
|
Do Lar / Dona de Casa |
5 (33,3 %) |
3 (20 %) |
8 (26,7 %) |
|
Aposentada |
2 (13,3 %) |
3 (20 %) |
5 (16,7 %) |
|
Autônoma |
1 (6,7 %) |
1 (6,7 %) |
2 (6,7 %) |
|
Auxílio-Doença INSS |
1 (6,7 %) |
1 (6,7 %) |
2 (6,7 %) |
|
Funcionária Pública |
1 (6,7 %) |
0 (0 %) |
1 (3,3 %) |
|
Outras Profissões |
4 (26,7 %) |
5 (33,3 %) |
9 (30 %) |
|
Desempregada |
0 (0 %) |
1 (6,7 %) |
1 (3,3 %) |
|
Estudante |
1 (6,7 %) |
1 (6,7 %) |
2 (6,7 %) |
|
Estado civil |
|||
|
Casada |
6 (40 %) |
7 (46,7 %) |
13 (43,3 %) |
|
Solteira |
2 (13,3 %) |
1 (6,7 %) |
3 (10 %) |
|
Separada |
4 (26,7 %) |
1 (6,7 %) |
5 (16,7 %) |
|
Viúva |
2 (13,3 %) |
3 (20 %) |
5 (16,7 %) |
|
União Estável |
1 (6,7 %) |
3 (20 %) |
4 (13,3 %) |
|
Arranjo familiar domiciliar |
|||
|
Cônjuge |
6 (40 %) |
5 (33,3 %) |
11 (36,7 %) |
|
Filho (a) |
1 (6,7 %) |
1 (6,7 %) |
2 (6,7 %) |
|
Cônjuge e filho (a) |
2 (13,3 %) |
3 (20 %) |
5 (16,7 %) |
|
Sozinha |
3 (20 %) |
1 (6,7 %) |
4 (13,3 %) |
|
Filho (a) e neto (a) |
2 (13,3 %) |
0 (0 %) |
2 (6,7 %) |
|
Outro / Não disse |
1 (6,7 %) |
5 (33,3 %) |
6 (20 %) |
|
Diagnóstico (referido pelo paciente) |
|||
|
Fibromialgia |
8 (53,3 %) |
4 (26,7 %) |
12 (40 %) |
|
Dor Crônica |
0 (0 %) |
5 (33,3 %) |
5 (16,7 %) |
|
Outros distúrbios reumáticos |
1 (6,7 %) |
0 (0 %) |
1 (3,3 %) |
|
Outros distúrbios não reumáticos |
0 (0 %) |
2 (13,3 %) |
2 (6,7 %) |
|
Não soube informar |
1 (6,7 %) |
0 (0 %) |
1 (3,3 %) |
|
Medicamentos |
|||
|
1 Medicamento |
2 (13,3 %) |
0 (0 %) |
2 (6,7 %) |
|
2 Medicamentos |
1 (6,7 %) |
2 (13,3 %) |
3 (10 %) |
|
3 Medicamentos |
1 (6,7 %) |
3 (20 %) |
4 (13,3 %) |
|
4 Medicamentos |
6 (40 %) |
3 (20 %) |
9 (30 %) |
|
5 ou + Medicamentos |
5 (33,3 %) |
7 (46,7 %) |
12 (40 %) |
Fonte: Elaboração própria
Ao analisar os resultados pós-intervenção do GCinesio percebe-se melhora na média de todos os itens avaliados, porém, de forma estatisticamente relevante (p<0,05), foi observada melhora da pontuação total do SF-36 e dos domínios Dor, Vitalidade e Aspectos Sociais. Não foram observadas mudanças significativas na estatística dos demais domínios do SF-36 nem nos resultados da ECD (Tabela 2).
Tabela 2. Médias obtidas na avaliação pré e pós-intervenção do GCinesio
|
Escala de Catastrofização da Dor |
Pré |
Pós |
t |
p |
|
Média ± DP |
Média ± DP |
|||
|
28,13 ± 13,68 |
21,60 ± 15,80 |
2,01 |
0,06 |
|
|
Questionário SF-36 |
||||
|
Soma Total |
74,87 ± 13,27 |
82,07 ± 16,88 |
-2,26 |
0,04* |
|
Capacidade Funcional |
30,67 ± 17,20 |
35,00 ± 23,83 |
-1,03 |
0,31 |
|
Limitação por aspectos físicos |
10,00 ± 26,39 |
18,33 ± 31,99 |
-1,32 |
0,20 |
|
Dor |
26,40 ± 13,55 |
41,07 ± 20,04 |
-2,85 |
0,01* |
|
Estado Geral de Saúde |
32,33 ± 11,34 |
34,00 ± 12,27 |
-0,57 |
0,57 |
|
Vitalidade |
24,00 ± 15,26 |
34,00 ± 17,74 |
-2,39 |
0,03* |
|
Aspectos Sociais |
46,67 ± 22,81 |
60,73 ± 22,08 |
-2,91 |
0,01* |
|
Limitação por aspectos emocionais |
13,33 ± 35,18 |
22,27 ± 39,22 |
-0,77 |
0,45 |
|
Saúde Mental |
46,93 ± 22,60 |
53,87 ± 21,42 |
-1,98 |
0,68 |
Nota: *p<0,05. Fonte: Elaboração própria
Já nos resultados pós-intervenção do GHidro também houve melhora na média de todos os itens, mas não se teve mudança estatisticamente significativa (p<0,05) nos resultados da ECD. Já no SF-36 observou-se melhora estatística apenas do domínio Capacidade Funcional e do domínio Limitação por aspectos físicos (Tabela 3).
Tabela 3. Médias obtidas na avaliação pré e pós-intervenção do GHidro
|
Escala de Catastrofização da Dor |
Pré |
Pós |
t |
p |
|
Média ± DP |
Média ± DP |
|||
|
19,00 ± 15,98 |
16,73 ± 16,06 |
0,59 |
0,56 |
|
|
Questionário SF-36 |
||||
|
Soma Total |
82,27 ± 16,57 |
88,40 ± 15,67 |
-1,48 |
0,16 |
|
Capacidade Funcional |
30,67 ± 18,86 |
39,00 ± 16,38 |
-2,11 |
0,05* |
|
Limitação por aspectos físicos |
8,33 ± 26,16 |
28,33 ± 33,89 |
-2,47 |
0,02* |
|
Dor |
29,27 ± 17,77 |
39,60 ± 15,98 |
-2,04 |
0,06 |
|
Estado Geral de Saúde |
38,40 ± 16,15 |
43,00 ± 16,75 |
-1,34 |
0,20 |
|
Vitalidade |
41,33 ± 20,39 |
44,67 ± 19,22 |
-0,45 |
0,65 |
|
Aspectos Sociais |
56,87 ± 29,49 |
59,93 ± 33,21 |
-0,40 |
0,69 |
|
Limitação por aspectos emocionais |
20,00 ± 37,39 |
40,00 ± 44,04 |
-1,52 |
0,15 |
|
Saúde Mental |
54,40 ± 21,63 |
57,60 ± 21,42 |
-0,49 |
0,62 |
Nota: *p<0,05. Fonte: Elaboração própria
Na análise intergrupos (Tabela 4 e Tabela 5), comparando GCinesio com GHidro, percebe-se que o GCinesio em sua avaliação pré-intervenção (Tabela 4) apresentou distinção estatística significativa (p < 0,05) no domínio Vitalidade do SF-36. Nas outras avaliações, tanto antes quanto após a intervenção (Tabela 5), não houveram diferença significativa. Dessa forma, nenhum dos métodos de intervenção se demonstrou superior.
Tabela 4. Comparação da avaliação pré-intervenção do GCinesio com o GHidro
|
Média Pré GCinesio |
Média Pré GHidro |
Média Pré Entre Grupos |
f |
p |
|
|
Escala de Catastrofização da Dor |
28,13 |
19,00 |
6,04 |
2,74 |
0,10 |
|
Questionário SF-36 |
|||||
|
Soma Total |
74,87 |
82,27 |
4,10 |
1,82 |
0,18 |
|
Capacidade Funcional |
30,67 |
30,67 |
0,00 |
0,00 |
1,00 |
|
Limitação por aspectos físicos |
10,00 |
8,33 |
2,08 |
0,03 |
0,86 |
|
Dor |
26,40 |
29,27 |
6,16 |
0,24 |
0,62 |
|
Estado Geral de Saúde |
32,33 |
38,40 |
2,76 |
1,41 |
0,24 |
|
Vitalidade |
24,00 |
41,33 |
22,53 |
6,94 |
0,01* |
|
Aspectos Sociais |
46,67 |
56,87 |
7,80 |
1,12 |
0,29 |
|
Limitação por aspectos emocionais |
13,33 |
20,00 |
3,33 |
0,25 |
0,61 |
|
Saúde Mental |
46,93 |
54,40 |
4,18 |
0,85 |
0,36 |
Nota: *p<0,05. Fonte: Elaboração própria
Tabela 5. Comparação da avaliação pós-intervenção do GCinesio com o GHidro
|
Média Pós GCinesio |
Média Pós GHidro |
Média Pós Entre Grupos |
f |
p |
|
|
Escala de Catastrofização da Dor |
21,60 |
16,73 |
1,77 |
0,70 |
0,41 |
|
Questionário SF-36 |
|||||
|
Soma Total |
82,07 |
88,40 |
3,00 |
1,13 |
0,29 |
|
Capacidade Funcional |
35,00 |
39,00 |
1,20 |
0,28 |
0,59 |
|
Limitação por aspectos físicos |
18,33 |
28,33 |
7,50 |
0,69 |
0,41 |
|
Dor |
41,07 |
39,60 |
1,61 |
0,04 |
0,82 |
|
Estado Geral de Saúde |
34,00 |
43,00 |
6,07 |
2,81 |
0,10 |
|
Vitalidade |
34,00 |
44,67 |
8,53 |
2,49 |
0,12 |
|
Aspectos Sociais |
60,73 |
59,93 |
4,80 |
0,006 |
0,93 |
|
Limitação por aspectos emocionais |
22,27 |
40,00 |
23,58 |
1,35 |
0,25 |
|
Saúde Mental |
53,87 |
57,60 |
1,04 |
0,22 |
0,63 |
Fonte: Elaboração própria
Discussão
O objetivo do estudo foi descrever o perfil clínico e sociodemográfico de pessoas que possuem FM além de comparar catastrofização da dor e qualidade de vida entre os grupos de exercícios no solo e exercícios na água antes e depois das intervenções propostas.
O componente emocional da dor é significante em pacientes com FM, pois esses apresentam crença negativa exagerada das experiências de dor atuais ou anteriores (Kopše, e Manojlović, 2023). Nesse estudo utilizou-se a ECD para avaliar os pensamentos que o paciente tem quanto a dor e pontuações acima de 30 pontos representam nível clinicamente significativo de catastrofização da dor (Sardá Junior et al., 2008). Em nossa pesquisa as médias pré e pós-intervenção de ambos os grupos não apresentaram pontuações acima de 30 na ECD. Dessa forma, nossa população não tinha nível de catastrofização da dor clinicamente significativo.
A qualidade de vida dos pacientes com FM é comprometida devido os sintomas de depressão e suas características - fadiga, sentimento de culpa, baixa autoestima e vitimização - que exacerbam os sintomas físicos já existentes (Sánchez et al., 2021). Devido essa característica, foi utilizado o SF-36 como método de avaliação. Sua soma total pode ir de zero a 100, zero sendo pior estado geral e 100 melhor estado de saúde. (Ciconelli et al., 1999)
Ao comparar os desfechos do GCinesio, não foi verificada diferença estatisticamente significante (p<0,05) nos resultados da ECD após tratamento. Esse resultado confere com o estudo de Glasgow et al. (2017), no qual foi analisado, através da ECD, o efeito de oito semanas de treino de resistência em 13 mulheres com FM em comparação com grupo controle. Na pesquisa de Glasgow et al. (2017), embora a média da ECD tenha diminuído, não representou melhora estatisticamente significativa, coincidindo com os resultados do presente estudo.
No que se refere aos desfechos do SF-36 o GCinesio referiu melhora de todos as escalas avaliadas pelo SF-36, embora apenas a soma total e os domínios Dor, Vitalidade e Aspectos Sociais tenham apresentado resultados estatisticamente significantes (p<0,05). Esses resultados são parcialmente refletidos no estudo de Hecker et al. (2011) que utilizou o SF-36 para avaliar a qualidade de vida após 23 semanas de cinesioterapia e hidrocinesioterapia em 24 pacientes com FM. Em consonância com nossa pesquisa, Hecker et al. (2011) demonstrou que o grupo que realizou a intervenção de cinesioterapia teve aumento significativo da pontuação dos domínios Dor e Aspectos Sociais. Ademais, também houve melhora nos domínios Capacidade Funcional, Aspectos Físicos e Saúde Mental, não tendo sido avaliada a soma total e não demonstrando melhora no domínio Vitalidade, diferente do nosso estudo. Essa diferença entre resultados pode ser devido ao maior tempo de intervenção da pesquisa de Hecker et al. (2011), possibilitando resultados melhores.
Assumpção et al. (2018) utilizou da Escala Visual Analógica (EVA) e do SF-36 para avaliar a dor e a qualidade de vida de 16 mulheres com FM após intervenção de 12 semanas com sessões de treino resistido duas vezes na semana em comparação com grupo controle e com grupo realizando exercícios de alongamento. Em concordância com nosso estudo, Assumpção et al. (2018) não encontrou diferença significativa na dor após intervenção baseada em treino de resistência, ainda que tenham sido usados instrumentos de avaliação diferentes. Ademais, houve melhora nos domínios Vitalidade e Aspectos Sociais do SF-36, embora não no domínio Dor como em nosso estudo. Assumpção et al. (2018), entretanto, obteve melhora significativa nos domínios Capacidade Funcional, Limitações por aspectos emocionais e Saúde Mental do SF-36. Sendo assim, o estudo conclui que o treino resistido deve ser implementado como tratamento da FM pois é efetivo na diminuição dos sintomas depressivos e na melhora da qualidade de vida dos pacientes.
Semelhante ao GCinesio, não houve desfecho significante (p<0,05) no resultado da ECD pós-intervenção do GHidro, apesar de ter uma diminuição na pontuação geral. Esse resultado contradiz o de Acosta-Gallego et al. (2018) que traz melhora na dor autopercebida de 37 pacientes com FM após 20 semanas de programa exercícios hidrocinesioterapêuticos. Essa discrepância de resultados pode se dar devido a diferença dos instrumentos de avaliações e do número de semanas da intervenção, Acosta-Gallego et al. (2018) tendo usado a EVA para avaliar dor e ter realizado intervenção por 20 semanas, mais que o dobro de semanas que nosso estudo.
Hecker et al. (2011) em sua pesquisa avaliou, por meio do SF-36, a qualidade de vida de 12 pacientes com FM, pré e pós-intervenção de 23 semanas de hidrocinesioterapia. Ambos, nosso estudo e o de Hecker et al. (2011) identificaram melhora do domínio de Capacidade Funcional após a intervenção. Porém, Hecker et al. (2011) não identificou diferença significativa no domínio Limitação por aspectos físicos, mas sim nos domínios Aspectos Emocionais, Dor, Aspectos Sociais e Saúde Mental. Reitera-se que essa diferença de desfechos se dá ao tempo de intervenção maior do estudo de Hecker et al. (2011) quando comparado ao presente estudo.
A pesquisa de D’Agostini et al. (2018), o qual fez uso do SF-36 para avaliar pacientes fibromiálgicos após 16 sessões de hidrocinesioterapia, demonstrou melhora estatisticamente significativa no domínio Capacidade Funcional, de acordo com nosso estudo, e melhora do domínio Dor, em desacordo com nosso estudo que trouxe melhora no domínio Limitação por aspectos físicos. Essa disparidade pode ser atribuída ao pequeno número amostral de D’Agostini et al. (2018) (n = 5), considerando essa a maior diferença entre os estudos que apresentam o mesmo tempo de intervenção. Embora a pequena amostra, foi observado que programa de hidrocinesioterapia promoveu melhora da sintomatologia da FM.
Ademais, foram comparados os resultados intergrupos o qual demonstrou que não houve diferença entre o GCinesio e o GHidro no resultado do ECD pós-intervenções. Os resultados do presente estudo diferem dos achados de Britto et al. (2020) que avaliou, por meio da EVA, a dor de 33 mulheres fibromiálgicas divididas em grupos de exercícios no solo e exercícios na água, tal qual nosso estudo e pelo mesmo período de tempo de oito semanas. Britto et al. (2020) demonstrou que, no desfecho da dor, houve melhora estatisticamente significativa ao comparar o pré e pós-intervenção intragrupo, porém ao comparar os resultados intergrupo, não se teve diferença significativa. Essa discordância na análise intragrupo entre as pesquisas pode ser explicada pela diferença de instrumento de avaliação.
A revisão sistemática e metanálise de rede de Rodríguez-Domínguez et al. (2025) buscou determinar qual modalidade de exercício físico é mais eficiente na redução da dor de mulheres com FM. Foram analisados 51 estudos, totalizando um número amostral de 2.873. Desses 51 estudos, 15 constavam intervenções de exercícios físicos e oito compararam dois métodos de intervenção diferentes, sendo analisadas 19 intervenções no total, dentre essas hidroterapia e treino de resistência, e seus efeitos na dor de pacientes com FM. Revelou-se que a curto prazo, três meses ou menos, tanto a hidroterapia quanto o treino de resistência reduziram a dor de forma clinicamente importante.
A hidroterapia se sobressai na categoria a curto prazo por apresentar estatística significativa quando comparada com outras intervenções abordadas, porém não se sobressai sobre o treino resistido, corroborando nosso estudo. Já a longo prazo, mais de três meses, apenas três intervenções demonstraram redução da dor clinicamente importante, sendo elas: dança, treino funcional e treino de resistência. Rodríguez-Domínguez et al. (2025) conclui que, à curto prazo, a hidroterapia apresenta maiores benefícios na redução da dor de mulheres com FM e que o treino de resistência é superior quando se considera à intervenção longo prazo. A revisão de Rodríguez-Domínguez et al. (2025) ressalta não só a necessidade de mais ensaios clínicos randomizados que comparem os diferentes métodos de exercício físico em pacientes fibromiálgicos, mas enfatiza que o exercício terapêutico, em qualquer modalidade, é o melhor tratamento para a FM.
No que se refere ao SF-36 e seus domínios, na análise intergrupo não foi demonstrado diferença entre as intervenções do GCinesio e GHidro. O estudo comparativo de Hecker et al. (2011), o qual comparou os efeitos de intervenção no solo com intervenção na água em pacientes fibromiálgicos, corrobora nosso estudo, não tendo apresentado melhora em nenhum dos oito domínios do SF-36 nem em sua soma total após a análise intergrupo.
O estudo de Hecker et al. (2011), previamente citado, objetivou verificar e comparar os efeitos da hidrocinesioterapia e da cinesioterapia na qualidade de vida de pacientes portadoras de FM, sendo utilizado a SF-36 como método de avaliação. Participaram dessa pesquisa 24 pacientes igualmente divididas em dois grupos, cinesioterapia e hidrocinesioterapia, os quais realizaram alongamentos e exercícios aeróbicos de baixa intensidade por 23 semanas. Embora Hecker et al. (2011) tenha sido capaz de demonstrar que protocolos de cinesioterapia e hidrocinesioterapia promovem melhora da qualidade de vida em pacientes com FM, o estudo não conseguiu determinar qual das modalidades seria superior.
A FM é síndrome crônica reumática, mais frequente em mulheres na faixa etária de 30 a 60 anos, como identificado no perfil dessa pesquisa (Al Sharie et al., 2024; Robles et al., 2022; Sánchez et al., 2021). A dor sentida pelos pacientes com FM é muitas vezes incapacitante, fazendo com que o paciente não queira realizar suas atividades do cotidiano, muito menos praticar atividade física, justificando não só o sedentarismo demonstrado pelas 83,3% participantes acima do peso, mas também as perdas amostrais não só dessa pesquisa, como também o baixo n amostral de grande parte das pesquisas sobre a FM. Em nosso estudo, também houve o componente da realização da intervenção durante o inverno, o qual exacerba a dor dessa população.
O diagnóstico da FM pode demorar anos para ser concluído, pois a etiopatogenia da FM é multifatorial, multicausal e não totalmente conhecida, ocorrendo uma carência de testes específicos e de medidas clínicas confiáveis e válidas para seu diagnóstico (Galvez-Sánchez, e Del Paso, 2020). Frequentemente os pacientes esperam anos para conseguir o diagnóstico de FM e acabam mantendo a concepção de diagnóstico de dor crônica, fato esse demonstrado nessa pesquisa na qual cinco pacientes referiram “dor crônica” como seu diagnóstico.
O tratamento mais recomendado para FM é o multimodal e multidisciplinar, englobando recursos medicamentosos e não-medicamentosos. A Sociedade Brasileira de Reumatologia recomenda que os pacientes com FM façam o uso de analgésicos, antidepressivos, relaxantes musculares e hipnóticos (Heymann et al., 2010), sendo que, nesse estudo, 40% das participantes faziam uso de polifarmácia, sendo o mais utilizado a pregabalina.
Percebe-se, dessa forma, a necessidade de maior variedade de pesquisas com essa população, tendo uma carência de estudos de qualidade com grandes números amostrais que avaliem intervenção com hidroterapia comparada a grupo controle e que utilizem o SF-36 como instrumento de avaliação para pacientes com FM. Além disso, existe uma insuficiência de pesquisas recentes que comparem cinesioterapia com hidroterapia em pacientes fibromiálgicos. Ademais, nota-se que a ECD não é frequentemente utilizada como método de avaliação da dor, sendo substituída pela EVA e pelo domínio Dor do SF-36.
Tem-se que o exercício físico é a única recomendação forte atualmente como tratamento para FM (Rodríguez-Domínguez et al., 2025), porém a realização dessas atividades não deve acontecer sem acompanhamento. As avaliações antes, durante e após períodos de realização de atividades físicas nos possibilitam acompanhar o progresso do paciente e nos permite realizar ajustes no modo como o exercício está sendo feito, viabilizando o constante progresso do paciente e que esse possa apresentar os melhores resultados.
Portanto, a fisioterapia nos permite monitorizar o progresso dos pacientes por meio da aplicação das avaliações e gradualmente progredir os exercícios de cada paciente. Dessarte, conclui-se que a fisioterapia é essencial como ferramenta no tratamento multidisciplinar da FM, visto que todos os índices avaliados nesse estudo demonstraram melhora na qualidade de vida, nos níveis de dor e na catastrofização da dor das pacientes.
Limitações
Nosso estudo sofreu com perdas amostrais significativas devido a época em que o estudo foi realizado, em meses com frio. Ademais, não foram coletados mais pacientes devido à greve nacional dos servidores das instituições federais que ocorreu durante o ano de aplicação das intervenções, ocasionando no fechamento da piscina. Além disso, ocorreram problemas estruturais no ambiente da piscina na qual a intervenção era aplicada, fato esse que também impactou na duração do estudo. Por fim, foi utilizada uma pequena quantidade de métodos de avaliação devido às avaliações terem sido feitas em momentos diferentes por avaliadores diferentes, impactando a homogeneidade dos instrumentos de avaliação.
Conclusão
Embora não se tenha apontado diferença entre as intervenções de cinesioterapia e hidroterapia, ambas individualmente são capazes de melhorar a sintomatologia desses pacientes. Por conseguinte, os resultados sugerem que ambas cinesioterapia e hidroterapia são métodos eficazes na melhora da dor e da qualidade de vida de pacientes fibromiálgicas e sugere-se que resultados com intervenções de maior tempo (6 meses e 1 ano) sejam apresentados em breve para novas comparações.
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