ISSN 1514-3465
Vulnerabilidade clínico-funcional da pessoa idosa praticante de exercícios físicos
Clinical-Functional Vulnerability of Older Adults who Practice Physical Exercise
Vulnerabilidad clínica-funcional de personas mayores que practican ejercicio físico
Thalyta Cristina Leite de Sousa
*thalytaleite01@gmail.com
Janaina Nunes de Oliveira
**jana.bonjovi@gmail.com
Charles Jhonatan Martins de Andrade
***charles.unir2018@gmail.com
Melissa de Souza Barbosa
+melissa.barbosaa@gmail.com
Patrícia Lemos Maus
++patymausbrasil@gmail.com
Tatiane Gomes Teixeira
+++tatiane.teixeira@unir.br
*Graduada em Educação Física – Licenciatura
pela Universidade Federal de Rondônia (UNIR)
Mestranda em Gerontologia
pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)
Integra o grupo de pesquisa LADORFE
participando de investigações científicas voltadas à abordagem
funcional e multiprofissional em gerontologia
**Graduada em Educação Física pela UNIR
Membro do Grupo de estudo e pesquisa
em Educação Física e saúde (GEPEFS) da UNIR
com experiência em Projetos de iniciação científica (PIBIC/UNIR)
e extensão universitária. Profissional atuante
no Projeto Idade Ativa, em Porto Velho, RO
***Licenciado em Educação Física pela UNIR
Graduando em Saúde Coletiva
pela Universidade Federal do Acre (UFAC)
+Licenciada em Educação Física pela UNIR
Bacharel em Ciências Biológicas pela UNIR
Pós-graduação Lato Sensu em Metodologia do Ensino Superior
++Professora do Projeto Viva Mais
da Secretaria Municipal de Turismo, Esporte
e Lazer (SEMTEL), Porto Velho, RO
Graduada em Educação Física pela UNIR
Especialista em Gestão Pública
Especialista em Ciências do Movimento Humano.
+++Líder do Grupo de estudo e pesquisa
em Educação Física e saúde (GEPEFS) da UNIR
Docente do Departamento de Educação Física da UNIR
Doutora em Educação Física
Mestre em Gerontologia
Graduada em Educação Física
(Brasil)
Recepción: 17/07/2025 - Aceptación: 11/12/2025
1ª Revisión: 21/09/2025 - 2ª Revisión: 07/12/2025
Documento acessível. Lei N° 26.653. WCAG 2.0
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Este trabalho está sob uma licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional (CC BY-NC-ND 4.0) https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/deed.pt |
Cita sugerida
: Sousa, T.C.L. de, Oliveira, J.N. de, Andrade, C.J.M. de, Barbosa, M. de S., Maus, P.L., e Teixeira, T.G. (2026). Vulnerabilidade clínico-funcional da pessoa idosa praticante de exercícios físicos. Lecturas: Educación Física y Deportes, 31(338), 64-82. https://doi.org/10.46642/efd.v31i338.8479
Resumo
O objetivo deste estudo foi investigar o perfil de vulnerabilidade clínico-funcional de idosos praticantes de exercícios físicos. Trata-se de um estudo transversal, observacional de abordagem quantitativa, realizado com 64 idosos participantes de um projeto de atividade física na cidade de Porto Velho - RO. Foi utilizado como instrumento de pesquisa o índice de vulnerabilidade clínico-funcional 20 (IVCF-20). Os resultados revelaram 56,3 % dos idosos classificados como robustos e 35,9 % em risco de fragilidade. Os domínios do IVCF-20 com maior frequência de prejuízos foram: mobilidade, cognição e humor. Portanto, a maioria dos idosos fisicamente ativos apresenta baixo risco de vulnerabilidade clínico-funcional (robustez), porém uma parcela significativa encontra-se em risco de fragilização, sugerindo necessidade de um olhar atento e intervenções dirigidas às condições desses sujeitos.
Unitermos:
Vulnerabilidade. Fragilidade. Atividade física. Pessoa idosa.
Abstract
The objective of this study was to investigate the clinical-functional vulnerability profile of older adults practitioners of physical exercises. This is a cross-sectional, observational study with a quantitative approach, carried out with 64 older adults participants in a physical activity project in the city of Porto Velho - RO. The clinical-functional vulnerability index (IVCF-20) was used as a research instrument. The results show that 56.3 % of the elderly are classified as robust, and 35.9 % at risk of frailty. The domains of IVCF-20 more frequently compromised were: mobility, cognition and humor. Therefore, most of the physically active older adults presents low risk for clinical-functional vulnerability (robust), however a significative part of them are in risk of fragility, suggesting the need for an attentive view and directed interventions to their condition.
Keywords:
Vulnerability. Fragility. Physical activity. Older adults.
Resumen
El objetivo de este estudio fue investigar el perfil de vulnerabilidad clínico-funcional de personas mayores que practican ejercicio físico. Se trata de un estudio observacional transversal con un enfoque cuantitativo, realizado con 64 participantes mayores en un proyecto de actividad física en la ciudad de Porto Velho, RO. Se utilizó el Índice de Vulnerabilidad Clínico-Funcional 20 (IVCF-20) como instrumento de investigación. Los resultados revelaron que el 56,3 % de las personas mayores fueron clasificadas como robustas y el 35,9 % con riesgo de fragilidad. Los dominios del IVCF-20 con mayor frecuencia de deterioro fueron: movilidad, cognición y estado de ánimo. Por lo tanto, la mayoría de las personas mayores físicamente activas presentan un bajo riesgo de vulnerabilidad clínico-funcional (robustez), pero una parte significativa se encuentra en riesgo de fragilidad, lo que sugiere la necesidad de una atención cuidadosa e intervenciones dirigidas a las condiciones de estas personas.
Palabras clave
: Vulnerabilidad. Fragilidad. Actividad física. Persona mayor.
Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 31, Núm. 338, Jul. (2026)
Introdução
O envelhecimento pode ser compreendido como um processo natural, que acontece de forma heterogênea e gradual, caracterizado e influenciado por alterações morfológicas, funcionais, bioquímicas e psicológicas, que envolvem fatores externos e internos, e devem ser considerados de forma integrada (Barbon et al., 2016; Macena et al., 2018). Com o envelhecimento, ocorre diminuição progressiva da capacidade funcional, definida como a capacidade de realizar atividades da vida diária (AVD’s). (Ferreira et al., 2012)
É consenso na literatura que a redução da capacidade funcional é condição negativa associada ao envelhecimento, que merece prioridade de atenção, pois significa perda de habilidades para executar funções cotidianas e de viver de forma independente, além de estar fortemente associada ao processo de fragilização (Andrade et al., 2019; Berlezi et al., 2016; Rockwood et al., 2005; Sousa et al., 2022). A fragilidade é uma síndrome geriátrica de caráter multifatorial, caracterizada pelo declínio funcional de vários sistemas fisiológicos, vulnerabilidade a estressores, maior risco de quedas, incapacidades cognitivas, transtornos de humor, hospitalização e morte. (Lins et al., 2019)
Nesse cenário, a identificação precoce de pessoas idosas frágeis ou em risco de fragilização torna-se uma estratégia prioritária de saúde pública. Esse rastreio multidimensional é indispensável para subsidiar o planejamento de intervenção preventivas resolutivas, capazes de mitigar o declínio funcional, postergar a perda da independência e reduzir as taxas de hospitalização e institucionalização, minimizando assim o impacto socioeconômico sobre o sistema de saúde. (Andrade et al., 2019; Berlezi et al., 2016)
Na literatura internacional, embora o modelo de Fried et al. (2001) permaneça como um marco histórico na avaliação biomédica da fragilidade, abordagens contemporâneas têm preconizado modelos mais abrangentes e de rápida aplicação na Atenção Primária à Saúde (Montero-Odasso et al., 2023) No cenário brasileiro, o Índice de Vulnerabilidade Clínico-Funcional 20 (IVCF-20), proposto por Moraes et al. (2016), tem se consolidado como uma ferramenta de triagem rápida e altamente eficaz para a estratificação de idosos em três espectros: baixo risco (robusto), moderado risco (em risco de fragilização) e alto risco (frágil). Ao longo dos últimos anos, o IVCF-20 tem demonstrado eficácia na avaliação geriátrica, possibilitando a identificação precoce da fragilidade e permitindo intervenções direcionadas para a promoção da saúde e prevenção de agravos.
O IVCF-20 se mostra também sensível a intervenções, incluindo programas de exercícios físicos, tornando-se uma ferramenta relevante para o monitoramento dos efeitos do exercício físico em idosos (Costa Maia et al., 2022; A.G.M. Rodrigues et al., 2022). Nesse sentido, é uma ferramenta importante que pode também ser utilizada no contexto de prescrição de exercícios para idosos, visto que se mostra capaz de detectar mudanças em diferentes domínios potencialmente impactados pela prática de exercícios.
Anteriormente à coleta de dados, os pesquisadores hipotetizaram que o percentual de idosos com comprometimentos no IVCF-20 seria pequeno, dado o fato de serem vinculados a um único programa de exercícios físicos, uma intervenção reconhecidamente eficaz na prevenção e no manejo da síndrome da fragilidade (Costa Maia et al., 2022). Compreender o perfil clínico dessa parcela da população é crucial para que os profissionais de Educação Física e demais profissionais de saúde possam refinar as condutas e prescrição. Diante dessa lacuna, o objetivo deste estudo foi investigar o perfil de vulnerabilidade clínico-funcional de pessoas idosas praticantes de exercícios físicos na cidade de Porto Velho - RO.
Métodos
Trata-se de um estudo transversal, observacional, de abordagem quantitativa, realizado com participantes vinculados a um Projeto municipal que realiza exercícios físicos na cidade de Porto Velho. Consiste no oferecimento regular de prática de exercícios físicos a pessoas idosas, acompanhada por um profissional de educação física.
A coleta de dados ocorreu no período de setembro a novembro de 2022. Adotou-se como critérios de inclusão: estar regularmente inscrito no polo onde a pesquisa foi realizada, ter idade maior ou igual a 60 anos, estar presente nos dias da coleta de dados. O referido programa oferecia aulas regularmente com frequência de duas vezes por semana e duração de 50 minutos por sessão, englobando a prática planejada de exercícios de força muscular, equilíbrio e estimulação cognitiva. No período avaliado, havia 90 pessoas cadastradas nos polos de atendimento, porém, somente 64 frequentavam as atividades de maneira consistente. Todos foram convidados a participar voluntariamente da pesquisa, não havendo recusas, o que resultou em uma amostra final de 64 participantes com idade entre 60 e 85 anos (média de 69 ± 5,9 anos). Em relação ao perfil antropométrico, o Índice de Massa Corporal (IMC) foi de 27,61 ± 5,53, variando de 14,45 a 48,45 kg/m².
Foi utilizado como instrumento de pesquisa o IVCF-20, desenvolvido em 2015 pelo Núcleo de Geriatria e Gerontologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com o objetivo de identificar a fragilidade no âmbito da Atenção Básica de Saúde. Foram seguidas as sugestões do site oficial do IVCF-20 para a sua aplicação.
O questionário contém 20 questões que avaliam oito dimensões consideradas preditoras de fatores de risco para declínio funcional e/ou óbito: idade (1 questão), autopercepção da saúde (1 questão), incapacidades funcionais (4 questões), cognição (3 questões), humor (2 questões), mobilidade (6 questões), comunicação (2 questões) e comorbidades múltiplas (1 questão). Na dimensão específica da mobilidade, o instrumento integra parâmetros objetivos para a mensuração do Índice de Massa Corporal (IMC), da circunferência da panturrilha e o teste de velocidade da marcha em 4 metros.
Cada seção possui uma pontuação estabelecida que somam um valor máximo de 40 pontos, no qual valores mais elevados indicam maior risco de vulnerabilidade clínico funcional. A pontuação é organizada em três classificações:
0 a 6 pontos: Baixa vulnerabilidade (idoso robusto);
7 a 14 pontos: Moderado risco de fragilidade (idoso em risco de fragilização)
15 ou mais pontos: Alto risco de vulnerabilidade (idoso frágil, com declínio funcional já estabelecido).
Os dados obtidos foram tabulados e analisados utilizando a estatística descritiva e inferencial. Para as variáveis categóricas, foram calculadas as frequências absoluta e relativa (percentuais). Para as variáveis numéricas discretas e contínuas, foram calculados os valores de média e desvio-padrão. Para estas, foi realizada também análise de correlação de Pearson ou Spearman, conforme distribuição dos dados (paramétrica ou não paramétrica), adotando p<0,05 para definição de significância estatística. Todos os cálculos e testes foram realizados utilizando o Microsoft Excel e o software ActionStat.
A presente pesquisa está vinculada ao projeto de pesquisa matricial intitulado "Respostas agudas e crônicas do exercício físico em adultos e idosos", aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Universidade Federal de Rondônia (UNIR) sob o número de CAAE 06783119.7.0000.5300 e parecer nº 5.711.236, institucionalizado na citada Instituição. Todos os sujeitos assinaram voluntariamente o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), após receberem esclarecimentos detalhados sobre os objetivos e procedimentos do estudo.
Resultados e discussão
A presente pesquisa teve como objetivo identificar a prevalência de vulnerabilidade clínico-funcional de idosos participantes de um programa de exercícios físicos na cidade de Porto Velho. A média do escore final do IVCF-20 foi 6,65 ± 4,45, variando de 0 a 20 pontos. A maioria dos idosos foi classificada como robusta, seguido dos idosos em risco de fragilização (Tabela 1).
Tabela 1. Frequências absoluta e relativa (%) de idosos segundo classificação do IVCF-20, Porto Velho-RO, 2022
|
Classificação (e pontuação total do IVCF-20) |
Total (n=64) |
Percentual |
|
Idoso robusto (0 a 6 pontos) |
36 |
56,3 % |
|
Idoso em risco de fragilização (7 a 14 pontos) |
23 |
35,9 % |
|
Idoso frágil (15 a 20 pontos) |
5 |
7,8 % |
Fuente: Dados de pesquisa
A predominância de idosos robustos corrobora outras pesquisas realizadas no Brasil com a utilização do IVCF-20 em idosos residentes na comunidade (Barra et al., 2023; Melo et al., 2022). Esse achado fundamenta-se no perfil funcional da amostra investigada, a qual, além de residir em ambiente comunitário, mantendo um estilo de vida teoricamente mais autônomo, encontrava-se ativamente inserida em um programa estruturado de exercício físico.
Em contrapartida, a identificação de idosos não robustos (soma dos estratos em risco de fragilização e frágeis) (n=28; 43,7 %) configurou um panorama superior às expectativas iniciais deste estudo. Sabendo-se que a prática regular de exercícios físicos promove adaptações protetoras e terapêuticas sobre os domínios avaliados pelo IVCF-20 (Costa Maia et al., 2022), hipotetizou-se encontrar uma taxa de não robustez substancialmente inferior à linha dos 30 %, o que não se confirmou, embora o índice dialogue com a variação de 30,61 % a 55,9 % reportada em estudos brasileiros recentes. (Barra et al., 2023; Melo et al., 2022)
Esse cenário encontra possíveis explicações nas características intrínsecas da própria amostra e no delineamento metodológico adotado. Primeiramente, deve-se considerar o fator etário, visto que a amostra englobou indivíduos com idade avançada, de até 85 anos. Nessa faixa etária, as alterações degenerativas, a senescência neuromuscular e o declínio da aptidão física manifestam-se de forma acentuada, incluindo a perda progressiva de neurônios motores e de fibras musculares de contração rápida (tipo II). (F. Rodrigues et al., 2022)
Esses fatores biológicos reduzem a eficiência da contração muscular voluntária e atenuam significativamente a magnitude e a velocidade das respostas adaptativas crônicas ao exercício físico, justificando a persistência de escores indicativos de vulnerabilidade em uma parcela dos sujeitos. Ademais, por tratar-se de um desenho transversal, não foi estabelecido o controle do tempo prévio de engajamento dos sujeitos no programa de exercícios físicos antes da aplicação do instrumento.
Esse resultado demonstra que o IVCF-20 é um instrumento importante para profissionais de Educação Física que atuam com a população idosa, conforme preconizado por Militão et al. (2024). Em coortes comunitárias, é comum haver grande heterogeneidade entre os sujeitos; enquanto parte do grupo preserva uma excelente condição funcional, outros indivíduos apresentam condição de vulnerabilidade importante (Travers et al., 2023). Nesse sentido, identificar quantos e quais são os idosos com maior comprometimento, bem como detectar quais dimensões necessitam maior atenção é fundamental para a segurança e efetividade do trabalho do profissional de Educação Física.
Neste contexto, é relevante destacar, também, sobre o IVCF-20 a sua possibilidade de detectar mudanças decorrentes dos exercícios físicos (Rodrigues et al., 2022) e a sua associação com a qualidade de vida de idosos (Sena et al., 2021). Portanto, a aplicação do referido instrumento no contexto da prescrição de exercícios físicos para grupos de idosos é recomendada. Um dos aspectos positivos da aplicação do IVCF-20 é a possibilidade de identificar comprometimentos em diferentes domínios que impactam a fragilidade, e não somente nos aspectos físicos. Nas Tabelas 2 e 3 constam as frequências encontradas para as dimensões avaliadas pelo instrumento em questão. Na primeira constam os dados das questões 1 a 11 e, na segunda, das questões 12 em diante.
Tabela 2. Frequências absoluta e relativa (%) de idosos aos itens idade, autopercepção
de saúde, atividades de vida diária, cognição e humor do IVCF-20, Porto Velho-RO
|
Variáveis avaliadas pelo IVCF-20 (número da questão no instrumento) |
Total (n=64) |
Percentual |
|
Dimensão Idade (Questão 1) |
||
|
Idade |
||
|
60 -74 anos |
56 |
87,5 % |
|
75 – 84 anos |
7 |
10,9 % |
|
85 anos ou mais |
1 |
1,6 % |
|
Dimensão Autopercepção de saúde (Questão 2) |
||
|
Percepção de saúde |
||
|
Excelente, muito boa ou boa |
37 |
57,8 % |
|
Regular ou ruim |
27 |
42,2 % |
|
Dimensão Atividades de vida diária (Questões 3 a 6) |
||
|
AVD fazer compras ou controlar as finanças |
||
|
Sem comprometimento |
62 |
96,9 % |
|
Com comprometimento |
2 |
3,1 % |
|
AVD realizar pequenos trabalhos domésticos |
||
|
Sem comprometimento |
60 |
93,7 % |
|
Com comprometimento |
4 |
6,3 % |
|
AVD Básica (tomar banho sozinho) |
||
|
Sem comprometimento |
64 |
100 % |
|
Com comprometimento |
0 |
0 % |
|
Dimensão Cognição (Questões 7 a 9) |
||
|
Está ficando esquecido, segundo familiares ou amigos |
||
|
Sim |
23 |
35,9 % |
|
Não |
41 |
64,1 % |
|
Este esquecimento está piorando |
||
|
Sim |
14 |
21,9 % |
|
Não |
50 |
78,1 % |
|
O esquecimento está atrapalhando atividades cotidianas |
||
|
Sim |
8 |
12,5 % |
|
Não |
56 |
87,5 % |
|
Dimensão Humor (Questões 10 e 11) |
||
|
Desânimo, tristeza ou desesperança no último mês |
||
|
Sim |
31 |
48,4 % |
|
Não |
33 |
51,6 % |
|
Perda de interesse em atividades antes prazerosas |
||
|
Sim |
12 |
18,8 % |
|
Não |
52 |
81,2 % |
Fuente: Dados de pesquisa
A maioria dos idosos participantes da pesquisa tinha idade até 74 anos e não apresentava limitações em AVDs, resultado semelhante àqueles encontrados em estudos anteriormente realizados com idosos brasileiros participantes de grupos de convivência em unidades básicas de saúde ou centros de convivência para idosos (Filho et al., 2019; Oliveira et al., 2020), representando um desfecho esperado previamente à coleta de dados.
Já os resultados observados nas dimensões saúde autopercebida, cognição e humor (Tabela 2), assim como dificuldades de marcha e quedas (Tabela 3) destacam-se pelo percentual de respostas que indicam comprometimento desses. A saúde autopercebida é considerada um importante preditor de saúde geral, bem-estar e incapacidade funcional em idosos (Borges et al., 2014; Harris et al., 2016; Manso et al., 2021). Pessoas idosas com maior carga de doenças e incapacidade, fragilidade e declínio cognitivo, por exemplo, apresentam pior saúde percebida. Neste sentido, considerando que os idosos desta pesquisa eram fisicamente ativos, chama atenção que 42,2 % deles classificaram a própria saúde como regular ou ruim.
No estudo de Barra e colaboradores (2023), o percentual de idosos que avaliaram sua própria saúde como regular ou ruim (31,54 %) foi inferior ao observado na presente pesquisa. O estudo em questão foi conduzido com 47.182 residentes na comunidade na cidade de Uberlândia e incluiu idosos centenários. No estudo de Maia et al (2021), também realizado com idosos residentes em um município mineiro, o percentual de idosos com avaliação negativa da saúde foi ainda menor (25,4 %). Portanto, embora a pesquisa não seja representativa da população de idosos de Porto Velho, os dados sinalizam que nesta cidade o percentual de avaliação negativa da saúde é alto, sugerindo necessidade de atenção a essa população, especialmente diante do rápido processo de envelhecimento populacional vivenciado nesta cidade. (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2022)
Um dos fatores que pode ter contribuído para o alto percentual de idosos com percepção negativa da saúde é o também elevado número de idosos com redução do humor. Dos 64 participantes da pesquisa, 31 relataram desesperança, tristeza e desânimo no mês anterior (48,4 %), percentual superior ao encontrado em Montes Claros, MG, por Lima Filho e colaboradores (2019) (37,9 % a 39 %). Em idosos, estados negativos de humor, emoções negativas, assim como a presença de depressão, impactam de forma expressiva a saúde autopercebida (Ito et al., 2023; Peleg, e Nudelman, 2021). Portanto, o alto percentual de idosos com comprometimento de humor pode ser um dos aspectos que contribuíram para o também alto número de idosos com percepção negativa de saúde.
Essa propensão ao declínio do humor e ao desenvolvimento de sintomas depressivos na população geriátrica é sustentada por determinantes multifatoriais, que abrangem desde alterações neurológicas degenerativas até fatores sociais críticos (F. Rodrigues et al., 2022). Do ponto de vista psicossocial, o envelhecimento é frequentemente marcado pelo isolamento social e pela solidão, elementos que aumentam a vulnerabilidade clínica e o risco de desfechos negativos, como as quedas (Santos et al., 2024). Instrumentos de triagem multidimensional revelam que, embora o exercício físico regular possua impacto positivo significativo na saúde mental, no humor e na capacidade intrínseca (Zhou et al., 2023), a complexidade das demandas desse grupo exige intervenções integradas e personalizadas. Portanto, para mitigar sentimentos de desânimo e promover autonomia é fundamental que as estratégias de saúde combinem os exercícios com componentes de engajamento social e suporte psicossocial.
Outro resultado da presente pesquisa que chama atenção é o percentual de idosos que relatam esquecimento (35,9 %). O declínio da cognição e da memória é um fenômeno comum e prevalente no envelhecimento, sendo que cerca de dois terços a três quartos dos adultos com 65 anos ou mais apresentam perdas em um ou mais domínios da Capacidade Intrínseca (Zhou et al., 2023). Esse processo é caracterizado por uma deterioração progressiva resultante de mecanismos neurológicos relacionados ao envelhecimento e pelo comprometimento neural próprio da senescência biológica. Embora o valor encontrado seja similar àqueles encontrado em outras pesquisas brasileiras que utilizaram o IVCF-20 (Costa Maia et al., 2022; Marques et al., 2023), ele indica que um terço dos participantes relata sinal de alterações cognitivas, as quais deveriam ser avaliadas de forma mais aprofundada. A literatura especializada demonstra que exercícios físicos complementados por atividades cognitivas são mais eficientes que exercícios físicos gerais para melhorar a cognição (Lenardt et al., 2019; Montero-Odasso et al., 2023; A. R. dos Santos, 2019). Desta forma, a importância de utilizar o IVCF-20 está na possibilidade de identificar os sujeitos com queixas cognitivas para então viabilizar o planejamento de intervenções apropriadas às necessidades físicas e cognitivas dos indivíduos, ou mesmo para fornecer aos profissionais informações para encaminhar e/ou orientar a pessoa idosa e sua família a complementar os exercícios com intervenções cognitivas.
Outros dados que chamaram atenção nesta pesquisa foi o percentual de idosos com comprometimento da dimensão mobilidade do IVCF-20, assim como problemas de visão (Tabela 3), aspectos que podem estar relacionados entre si. No IVCF-20 a mobilidade é avaliada por um conjunto de seis perguntas e três medidas/testes. Dos nove itens avaliados, três apresentaram percentual de comprometimento entre os idosos: dificuldades de marcha auto relatada, tempo igual ou maior que 5 segundos para percorrer 4 metros em velocidade habitual e quedas no último ano.
Tabela 3. Frequências absoluta e relativa (%) de idosos aos itens idade, autopercepção
de saúde, atividades de vida diária e mobilidade do IVCF-20, Porto Velho-RO
|
Variáveis avaliadas pelo IVCF-20 (número da questão no instrumento) |
Total (n=64) |
Percentual |
|
Dimensão Mobilidade (Questões 12 a 17) |
||
|
Incapaz elevar braços acima ombros |
||
|
Sim |
2 |
3,1 % |
|
Não |
62 |
96,9 % |
|
Incapaz de segurar objetos pequenos |
||
|
Sim |
3 |
4,7 % |
|
Não |
61 |
95,3 % |
|
Perda de peso não intencional |
||
|
Sim |
9 |
14,1 % |
|
Não |
55 |
85,9 % |
|
IMC <21 Kg/m² |
||
|
Sim |
6 |
9,4 % |
|
Não |
58 |
90,6 % |
|
Circunferência da panturrilha <31 cm |
||
|
Sim |
4 |
6,3 % |
|
Não |
60 |
93,7 % |
|
Marcha em 4 metros >5 segundos |
||
|
Sim |
21 |
32,8 % |
|
Não |
43 |
67,2 % |
|
Dificuldade na marcha |
||
|
Sim |
11 |
17,2 % |
|
Não |
53 |
82,8 % |
|
Duas ou mais quedas no último ano |
||
|
Sim |
14 |
21,9 % |
|
Não |
50 |
78,1 % |
|
Perde urina e/ou fezes em algum momento |
||
|
Sim |
8 |
12,5 % |
|
Não |
56 |
87,5 % |
|
Dimensão Comunicação (Questões 18 e 19) |
||
|
Problemas de visão |
||
|
Sim |
19 |
29,7 % |
|
Não |
43 |
67,2 % |
|
Problemas de audição |
||
|
Sim |
11 |
17,2 % |
|
Não |
53 |
82,8 % |
|
Dimensão comorbidades múltiplas (Questão 20) |
||
|
Polipatologia |
||
|
Sim |
2 |
3,1 % |
|
Não |
62 |
96,9 % |
|
Polifarmácia |
||
|
Sim |
3 |
4,7 % |
|
Não |
61 |
95,3 % |
|
Internação recente (últimos 6 meses) |
||
|
Sim |
4 |
6,3 % |
|
Não |
60 |
93,7 % |
Fuente: Dados de pesquisa
O resultado encontrado para o domínio mobilidade reforça o alerta sobre a condição de saúde da população idosa da capital do Estado de Rondônia. A velocidade habitual de marcha é um marcador importante de funcionalidade, independência e risco de quedas, além de ter impacto potencialmente negativo sobre a interação social e saúde mental da pessoa idosa (Arango-Paternina et al., 2021; Guedes et al., 2019; Marino et al., 2019). Idosos que demoram 5 segundos ou mais para percorrer 4 metros (equivalente a 0,8 metros por segundo) tem maiores riscos de incapacidade funcional, baixa qualidade de vida e também de quedas (Lenardt et al., 2019; A. R. dos Santos, 2019). Assim, o percentual de idosos com duas ou mais quedas no último ano (21,9 %) – superior aos 8,12 % encontrados por Barra e colaboradores (2023) também expressa o comprometimento da mobilidade no grupo avaliado.
No estudo de Barra et al. (2023) que incluiu idosos dos diferentes perfis de vulnerabilidade, incluindo centenários, apenas 11,69 % apresentaram tempo maior que 5 segundos, enquanto, na presente pesquisa, esse percentual foi de 32,8 %. Esse contraste desperta atenção, visto que a amostra investigada em Porto Velho era composta por idosos consideravelmente mais jovens (média de 69 ± 5,9 anos) e engajada em um programa regular de exercícios físicos, com frequência de duas vezes por semana, sessões de 50 minutos e estímulos planejados de força muscular, equilíbrio e estimulação cognitiva. Sob uma perspectiva estritamente local, esses achados sinalizam uma tendência a maiores comprometimentos de saúde e funcionalidade nessa amostra específica quando comparada a outras coortes brasileiras, a despeito do seu perfil fisicamente ativo. Contudo, devido ao tamanho reduzido da amostra (n=64) e à delimitação do estudo a participantes de um único projeto municipal, esses dados não possuem representatividade de base populacional e não permitem generalização.
A presente pesquisa demonstrou que idosos fisicamente ativos demandam um rastreamento contínuo em relação à vulnerabilidade clínico-funcional. Conforme previamente hipotetizado e fundamentado na introdução deste estudo, esperava-se que o percentual de indivíduos com comprometimentos expressivos no IVCF-20 fosse residual, dado o engajamento direto em um programa estruturado de exercícios, uma intervenção amplamente reconhecida na literatura por sua eficácia na prevenção e manejo da fragilidade (Costa Maia et al., 2022). Porém, os resultados não confirmaram tal hipótese, já que em uma parte significativa das dimensões avaliadas o percentual de idosos com comprometimentos foi superior ao encontrado em um estudo de base populacional conduzido com idosos residentes na Região Sudeste do Brasil (Barra et al., 2023). Esse contraste sugere que o estímulo motor isolado pode não ser suficiente para sobrepor-se às vulnerabilidades socioambientais específicas dessa coorte.
O resultado encontrado representa um alerta para a cidade onde a pesquisa foi conduzida, indicando a necessidade de estudos mais amplos no mesmo município, incluindo também idosos não vinculados a programas de atividades físicas. No mesmo sentido, ressalta-se a importância que os idosos participantes deste estudo sejam avaliados e acompanhados ao longo do tempo, com o objetivo de prevenir e/ou postergar o desenvolvimento da fragilidade.
Conclusão
A maioria das pessoas idosas praticantes de exercícios físicos investigados foi classificada como robusta, contudo, uma parcela significativa apresenta risco de fragilização, o que demanda atenção dos profissionais responsáveis por seu acompanhamento. Os domínios do IVCF-20 com maior frequência de alterações foram mobilidade, cognição e humor, evidenciando a necessidade de intervenção específicas direcionadas para tais domínios. Deste modo, os achados deste estudo revelam que, embora a maior parte dos idosos praticantes de exercícios na cidade de Porto Velho - RO apresente um perfil clínico-funcional compatível com o extrato da robustez, há uma expressiva e alarmante parcela de indivíduos em risco iminente de fragilização ou já estabelecidos no espectro de fragilidade funcional. Esse cenário evidencia que a prática regular de exercício físico, isoladamente, não atua como como uma ferramenta de proteção absoluta contra os declínios multifatoriais do envelhecimento, especialmente quando há o envolvimento subclínico de domínios sensíveis como o humor, a cognição e a velocidade de marcha.
A presente pesquisa demonstrou que idosos fisicamente ativos precisam ser avaliados em relação à vulnerabilidade clínico-funcional. A partir desta pesquisa recomenda-se que as intervenções voltadas à pessoa idosa sejam precedidas da aplicação de ferramentas de rastreio multidimensional, como o IVCF-20. No contexto da atuação do profissional de Educação Física, essa ação subsidiará a elaboração de programas de exercícios físicos direcionados às demandas individuais e coletivas identificadas.
Sob a perspectiva da gestão pública, os dados funcionam como um indicador de alerta para as políticas de saúde do município. Recomenda-se o fortalecimento de redes de apoio interdisciplinares na APS, promovendo o matriciamento entre profissionais de Educação Física, psicólogos, geriatras, e assistentes sociais. Adicionalmente, sugere-se que o poder público municipal adote o IVCF-20 como instrumento padrão nos polos de exercícios físicos da cidade, permitindo o mapeamento da fragilidade e a destinação eficiente de recursos para intervenções preventivas direcionadas. Somente através desse esforço conjunto será possível reverter trajetórias de fragilização, reduzir custos com hospitalizações decorrentes de quedas e assegurar a real eficácia dos programas de exercícios na promoção de um envelhecimento bem sucedido e autônomo.
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