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ISSN 1514-3465

 

Reflexões sobre a Educação Física escolar e 

seu papel na formação crítica dos adolescentes

Reflections on School Physical Education and its Role in the Critical Development of Adolescents

Reflexiones sobre la Educación Física escolar y su papel en la formación crítica de los adolescentes

 

Rosemeire Brasilio de Castro*

rosebcs123@gmail.com

Fábio Ricardo Mizuno Lemos**

mizunolemos@gmail.com

 

*Mestra em Educação Física Escolar

pelo Programa de Mestrado Profissional em Educação Física

em Rede Nacional (ProEF/UFSCar)

Professora de Educação Física Escolar

da Prefeitura Municipal de São Paulo

**Doutor em Educação pela UFSCar

Professor do IFSP e do Programa de Mestrado Profissional

em Educação Física em Rede Nacional (ProEF/UFSCar)

Líder do Núcleo de Investigações Progressistas em Educação (NINPED/IFSP)

(Brasil)

 

Recepción: 19/06/2025 - Aceptación: 28/10/2025

1ª Revisión: 23/10/2025 - 2ª Revisión: 24/10/2025

 

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Cita sugerida: Castro, R.B. de, e Lemos, F.R.M. (2026). Reflexões sobre a Educação Física escolar e seu papel na formação crítica dos adolescentes. Lecturas: Educación Física y Deportes, 30(332), 2-13. https://doi.org/10.46642/efd.v30i332.8443

 

Resumo

    A Educação Física no Brasil tem passado por uma transição de um modelo eurocêntrico e militarizado para uma abordagem mais democrática e sociocultural, que valoriza a cultura corporal e as competências humanas. Este estudo objetivou refletir sobre o papel da Educação Física Escolar na formação crítica de adolescentes, com ênfase no protagonismo juvenil e na escuta de suas experiências e percepções. A pesquisa, de natureza bibliográfica e de campo, foi realizada com 20 estudantes do 9º ano do Ensino Fundamental de uma escola pública na periferia de São Paulo. A coleta de dados ocorreu por meio de questionário com perguntas abertas, analisadas qualitativamente, com abordagem descritiva e interpretativa. Os resultados evidenciaram a valorização dos jogos adaptados como espaços de criação e ressignificação, além da presença de narrativas relacionadas a emoções, sonhos, práticas corporais e engajamento comunitário. Conclui-se que a Educação Física, ao adotar uma perspectiva crítica e dialógica, contribui significativamente para o desenvolvimento de pessoas autônomas, sensíveis às questões sociais e capazes de intervir em suas realidades.

    Unitermos: Educação Física. Educação. Protagonismo estudantil.

 

Abstract

    Physical Education in Brazil has undergone a transition from a Eurocentric and militarized model to a more democratic and sociocultural approach that values bodily culture and human competencies. This study aimed to reflect on the role of School Physical Education in the critical formation of adolescents, with an emphasis on youth protagonism and the attentive listening to their experiences. The research, both bibliographic and field-based, was conducted with 20 ninth-grade students from a public school in the outskirts of São Paulo. Data were collected through an open-ended questionnaire and analyzed qualitatively using descriptive and interpretative approaches. The results highlighted the appreciation of adapted games as spaces for creation and re-signification, as well as the presence of narratives related to emotions, dreams, bodily practices, and community engagement. It is concluded that Physical Education, by adopting a critical and dialogical perspective, significantly contributes to the development of autonomous individuals who are sensitive to social issues and capable of intervening in their realities.

    Keywords: Physical Education. Education. Student protagonism.

 

Resumen

    La Educación Física en Brasil ha experimentado una transición desde un modelo eurocéntrico y militarizado hacia un enfoque más democrático y sociocultural, que valora la cultura corporal y las competencias humanas. Este estudio tuvo como objetivo reflexionar sobre el papel de la Educación Física Escolar en la formación crítica de adolescentes, con énfasis en el protagonismo juvenil y la escucha de sus experiencias. La investigación, de naturaleza bibliográfica y de campo, se realizó con 20 estudiantes de noveno grado de una escuela pública ubicada en la periferia de São Paulo. La recolección de datos se llevó a cabo mediante un cuestionario con preguntas abiertas, analizadas cualitativamente desde una perspectiva descriptiva e interpretativa. Los resultados evidenciaron la valorización de los juegos adaptados como espacios de creación y resignificación, además de la presencia de narrativas relacionadas con emociones, sueños, prácticas corporales y compromiso comunitario. Se concluye que la Educación Física, al adoptar una perspectiva crítica y dialógica, contribuye significativamente al desarrollo de personas autónomas, sensibles a las problemáticas sociales y capaces de intervenir en sus realidades.

    Palabras clave: Educación Física. Educación. Protagonismo estudiantil.

 

Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 30, Núm. 332, Ene. (2026)


 

Introdução 

 

    Abordar a Educação Física como componente curricular implica reconhecer seu papel na vivência do movimento corporal dotado de sentido, compreendido não apenas como ação física, mas como prática social, cultural, afetiva e cognitiva que expressa a totalidade da experiência humana. (Lemos, e Gonçalves Junior, 2021)

 

    Para compreender sua configuração atual no ambiente escolar, é necessário considerar que sua inserção histórica foi marcada por influências eurocêntricas e militaristas, com ênfase na ginástica, na padronização e no controle dos corpos - práticas que atendiam aos interesses das elites e reforçavam uma lógica disciplinadora (Castellani Filho, 2024; Bertini Junior, 2012). Essa herança consolidou uma abordagem técnica e biologicista da Educação Física, centrada no desempenho e na eficiência corporal.

 

    Nas últimas décadas, no entanto, o campo passou por transformações significativas, impulsionadas por reformas curriculares - como os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) e a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) - e, sobretudo, por movimentos coletivos de educadores, pesquisadores e profissionais da área que tensionaram o modelo hegemônico. As práticas pedagógicas críticas e as articulações colaborativas vêm contribuindo para a construção de uma perspectiva mais democrática e humanizadora, comprometida com a formação integral dos estudantes e com a valorização da cultura corporal de movimento como objeto legítimo de estudo. (Monteiro, 2022)

 

    Nesse processo de reconfiguração, o papel do professor também se transforma. A docência crítica exige uma postura protagonista, que ultrapasse a reprodução de conteúdos e promova o diálogo com os saberes dos alunos. O professor protagonista é aquele que se inquieta diante da estagnação, que propõe, articula, problematiza e estabelece conexões significativas com os contextos escolares e sociais, contribuindo para um currículo integrado e emancipador. (Felipe et al., 2021)

 

    De modo complementar, a centralidade do estudante como protagonista ativo do processo educativo exige práticas pedagógicas dialógicas e sensíveis às singularidades juvenis. O educador assume, nesse cenário, o papel de mediador e provocador de sentidos, fomentando experiências que favoreçam a reflexão crítica, a autonomia intelectual e o posicionamento ético diante das questões contemporâneas. (Santos, e Oliveira, 2025)

 

    Apesar dos avanços teóricos e normativos, a realidade educacional brasileira segue atravessada por desigualdades históricas, estruturais e políticas. A Educação Física, inserida nesse contexto, frequentemente reproduz práticas alinhadas a uma lógica seletiva e meritocrática, distante dos interesses e das realidades da juventude das classes populares. A precarização da escola pública compromete diretamente os processos formativos e limita o potencial emancipador do componente curricular. (Lemos, e Gonçalves Junior, 2021)

 

    Diante desses desafios, o presente artigo - originado de uma dissertação de mestrado desenvolvida no âmbito do Programa de Mestrado Profissional em Educação Física em Rede Nacional (ProEF) (Castro, 2024) - teve como objetivo refletir sobre o papel da Educação Física Escolar na formação crítica de adolescentes, com ênfase no protagonismo juvenil e na escuta de suas experiências e percepções.

 

Procedimentos metodológicos 

 

    Este estudo combinou pesquisa bibliográfica e de campo. A pesquisa bibliográfica fundamentou-se na análise de livros, artigos científicos, legislações e documentos curriculares relacionados à Educação Física Escolar e ao protagonismo (Lichtman, 2023). Esse levantamento subsidiou a elaboração da seção “Protagonismo e consciência crítica na Educação Física Escolar”.

 

    A seção “Escutando as vozes da turma: uma avaliação diagnóstica em busca de sentidos” decorre da pesquisa de campo, realizada por meio de um questionário com perguntas abertas (Lichtman, 2023). Para esta análise, foram consideradas as respostas a dez questões específicas:

  1. Você já passou por alguma situação constrangedora? Qual foi a maior?

  2. O que costuma te chatear ou te deixar com sentimentos negativos?

  3. Qual é sua maior qualidade e seu maior defeito?

  4. Qual é o seu maior sonho?

  5. Em sua opinião, qual é a importância das aulas de Educação Física?

  6. Que tema você gostaria que fosse abordado nas aulas de Educação Física?

  7. Qual profissão você deseja seguir no futuro?

  8. O que você mais gosta de fazer no seu tempo livre?

  9. Você pratica algum esporte ou atividade física fora da escola? Com que frequência?

  10. Você já fez, faz ou gostaria de fazer algo para melhorar sua comunidade? O quê?

    A pesquisa de campo envolveu 20 estudantes do 9º ano do Ensino Fundamental de uma escola pública localizada no distrito de Cidade Tiradentes, região periférica da zona leste da cidade de São Paulo. O estudo original (Castro, 2024), conduzido pela primeira autora deste artigo sob orientação do segundo autor, contou com autorização da instituição escolar e aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de São Carlos (Parecer n. 5.843.098; CAAE 65068422.1.0000.5504).

 

    As análises, tanto da pesquisa bibliográfica quanto da pesquisa de campo, adotaram uma abordagem qualitativa, priorizando interpretações descritivas e compreensivas (Lichtman, 2023).

 

Resultados 

 

Protagonismo e consciência crítica na Educação Física Escolar 

 

    Contribuir para que adolescentes e jovens encontrem propósitos significativos para suas vidas é uma função essencial da docência, voltada à formação integral e à superação das desigualdades sociais. Nesse processo, o protagonismo estudantil emerge como elemento central, especialmente nas aulas de Educação Física, ao potencializar um espaço de escuta, participação e construção crítica do conhecimento. De acordo com Kunz (2012), a atuação conjunta entre professores e estudantes deve orientar-se para transformar o mundo vivido e o universo do movimento, possibilitando que ambos sejam reconhecidos como sujeitos do processo educativo, fazendo do ensino uma produção compartilhada de conhecimento, em vez de uma simples transmissão de informações.

 

    É fundamental que a participação dos estudantes seja autêntica, evitando práticas simbólicas, decorativas ou manipuladas. A participação distorcida pode comprometer o desenvolvimento pessoal e social dos jovens, além de fragilizar as relações pedagógicas. Por outro lado, quando efetiva, essa vivência torna-se uma experiência formadora, tanto individual quanto coletivamente. (Castro, 2024)

 

    Essa concepção dialoga com Françoso, e Neira (2014), que defendem a escuta como instrumento para incorporar as experiências juvenis ao currículo. Mais do que ouvir, é preciso dialogar, interpretar e agir a partir das vozes que ecoam na escola, reconhecendo a potência educativa presente nos saberes dos estudantes.

 

    O protagonismo, portanto, não deve se limitar à escolha de atividades. Envolve a participação ativa nas decisões sobre as práticas pedagógicas e a promoção de reflexões críticas sobre as vivências corporais. Essa abordagem amplia o alcance da Educação Física para além do espaço escolar, contribuindo para o desenvolvimento integral dos estudantes.

 

    Inspirado por Freire (2021), esse modelo rompe com a lógica da educação bancária, propondo uma prática pedagógica dialógica e participativa. No contexto da Educação Física, isso se concretiza por meio de planejamentos colaborativos, projetos temáticos e metodologias que valorizem os interesses e realidades dos alunos, promovendo a integração das dimensões cognitivas, afetivas e motoras. (Oliveira Filho, Varotto, e Lemos, 2022)

 

    Essa construção coletiva do currículo exige que o educador atue como mediador cultural e provocador de sentidos. Santos, e Oliveira (2025) destacam a importância de considerar os projetos de vida dos estudantes como ponto de partida para o planejamento pedagógico, reafirmando o papel formativo da Educação Física Escolar.

 

    Para Freire (2017), a tomada de consciência é fundamental à superação da opressão. A consciência crítica, segundo o autor, não se limita à identificação superficial da realidade, mas abarca a compreensão das relações causais e estruturais que a constituem.

 

    Nessa perspectiva, a Educação Física se torna um espaço de formação emancipadora. Os estudantes deixam de ser receptores passivos de conteúdos para se tornarem protagonistas ativos na construção de saberes, vivenciando de forma crítica as diversas manifestações da cultura corporal - como jogos, danças, lutas, brincadeiras e ginásticas - em consonância com os princípios de uma educação integral.

 

    A prática pedagógica crítica também possibilita abordar temas sociais relevantes, como gênero, classe, etnia e diversidade, ampliando o olhar dos alunos sobre o corpo e sua dimensão simbólica. Assim, estimula-se o desenvolvimento de uma autonomia intelectual e de uma consciência social que desafia estereótipos e promove uma educação inclusiva.

 

    No âmbito desta proposta, cultura é compreendida como o conjunto de práticas, sentidos e tradições compartilhadas socialmente. Daolio (2018) critica o uso simplificado do termo na Educação Física, propondo uma abordagem intersubjetiva que reconheça as pessoas como ativas, reflexivas e expressivas em suas vivências.

 

    Ao adotar esse enfoque, o ensino da Educação Física promove a construção de narrativas corporais mais plurais, coerentes com as realidades dos estudantes. A consciência crítica, nesse processo, impulsiona o empoderamento, favorecendo a participação ativa dos alunos na construção de seus conhecimentos e no enfrentamento das desigualdades.

 

    Num contexto de profundas desigualdades sociais, a escola deve assumir o compromisso de oferecer um ambiente que valorize o diálogo, a participação e a escuta. A articulação entre o currículo e as realidades locais representa um desafio para os educadores, mas é também uma oportunidade para desenvolver práticas pedagógicas comprometidas com a transformação social.

 

    A esse respeito, Almeida, e Fensterseifer (2018) defendem uma abordagem crítica na Educação Física, que favoreça a análise da cultura corporal e o diálogo interdisciplinar, ampliando a compreensão dos alunos sobre os fenômenos sociais contemporâneos.

 

    A escola, enquanto espaço de formação integral, deve acolher as experiências e os saberes dos estudantes. A Educação Física, alinhada aos princípios progressistas (Luckesi, 2017), desempenha papel central na formação de pessoas críticas e atuantes. Como enfatiza Freire (2017), o diálogo verdadeiro exige um pensamento crítico que reconheça a realidade como um processo em constante transformação.

 

    Ao integrar-se a um projeto pedagógico progressista, a Educação Física Escolar fortalece a construção de uma sociedade mais justa e democrática. Isso implica abordar temas polêmicos com responsabilidade, promovendo a participação crítica dos estudantes e respeitando suas culturas e trajetórias. (Françoso, e Neira, 2014)

 

    Por fim, é importante destacar que favorecer a liberdade na educação não significa abrir mão da autoridade docente, mas exercê-la de forma ética e democrática. Conforme Freire (2017; 2021; 2022) e Hooks (2014), o papel do educador é fomentar a autonomia e a reflexão crítica, criando um ambiente de respeito, escuta e construção coletiva de saberes.

 

Escutando as vozes da turma: uma avaliação diagnóstica em busca de sentidos 

 

    Considerando que o ato de “dar voz”, embora frequentemente bem-intencionado, carrega implicações de poder - já que pressupõe a concessão de fala por quem a detém -, uma abordagem mais coerente com uma perspectiva progressista é o exercício da escuta atenta: ouvir de forma respeitosa, sensível e comprometida com o reconhecimento de todas as pessoas como detentoras de saberes e experiências.

 

    Com essa intenção, os estudantes foram convidados a responder, de maneira individual e espontânea, a um questionário composto por questões previamente apresentadas na metodologia da pesquisa. O instrumento teve como finalidade registrar o perfil e as reflexões iniciais da turma. A pesquisa, de natureza qualitativa, envolveu 20 participantes de uma turma heterogênea. Observou-se predominância do sexo masculino, refletindo a composição específica do grupo. A faixa etária mais recorrente foi a de 14 anos, variando entre 14 e 16, o que possibilitou a emergência de múltiplas experiências e perspectivas, enriquecendo a compreensão do coletivo.

 

    Essa escuta sensível, que se opõe a práticas simbólicas ou verticais de participação (Hooks, 2014), baseia-se na horizontalidade das relações, reconhecendo os estudantes como pessoas ativas na produção de significados. Freire (2021) ressalta que não há educação libertadora sem diálogo autêntico, e este só ocorre quando o educador rompe com a lógica transmissiva e se compromete com a escuta de todas as pessoas.

 

    Desde o início da investigação, foi adotada uma postura dialógica e reflexiva, considerando as vozes e subjetividades dos estudantes como elementos centrais do processo. Antes da análise das respostas, havia a expectativa de que o interesse da turma se voltasse prioritariamente para esportes coletivos. No entanto, emergiu um dado relevante: o entusiasmo pelo universo dos jogos adaptados, compreendidos pelos estudantes como possibilidades de recriação, inovação e protagonismo. Muitos expressaram o desejo de incorporar essas práticas não apenas nas aulas de Educação Física, mas também em outras dimensões da vida escolar, o que reforça a importância de um currículo mais flexível e responsivo aos interesses do grupo.

 

    Essa valorização da adaptação está profundamente vinculada a uma visão ampliada da cultura corporal, conforme propõe Daolio (2018), ao defender uma abordagem intersubjetiva do corpo, articulada às trajetórias sociais e históricas das pessoas. Para os estudantes, adaptar significou criar, resistir e transformar, revelando práticas criativas mesmo diante de contextos adversos.

 

    Como estratégia para estabelecer vínculos e criar um ambiente de confiança, foi proposta uma dinâmica que convidava os estudantes a compartilharem experiências constrangedoras, ou “micos”. Inicialmente, houve certa hesitação, mas o compartilhamento de histórias pessoais por parte da primeira autora deste artigo rompeu barreiras e estimulou a participação espontânea. Entre os relatos, destacaram-se situações como escorregar durante um jogo, cometer erros em momentos decisivos no basquete ou enfrentar situações embaraçosas em redes sociais.

 

    Essas trocas, longe de serem meramente recreativas, estabeleceram espaços de pertencimento e humanização, fundamentais para o engajamento dos estudantes. Dialogam com o que defendem Santos, e Oliveira (2025), ao enfatizarem o papel da afetividade e da confiança na construção de relações pedagógicas significativas e promotoras da autonomia estudantil.

 

    As respostas ao questionário também revelaram uma ampla gama de emoções e autopercepções. Sentimentos como raiva foram associados a experiências específicas, como mudanças de tom de voz ou atitudes inconvenientes. Entre os atributos valorizados pelos próprios estudantes estavam ser engraçado, inteligente, carinhoso, esportivo e atraente; enquanto entre os aspectos negativos mais citados surgiram procrastinação, irritabilidade e ser “bom demais com as pessoas”. Já os sonhos manifestados variaram entre metas profissionais - como tornar-se médico ou jogador de futebol - e aspirações mais amplas, como alcançar sucesso financeiro.

 

    Esses dados evidenciam que a Educação Física, mais do que espaço para o desenvolvimento motor, pode atuar como potente mediadora do desenvolvimento socioemocional. Em consonância com a BNCC (Brasil, 2018), que reconhece o componente curricular como promotor de competências socioemocionais, o acolhimento das emoções, desejos e autopercepções deve ser parte integrante das práticas pedagógicas.

 

    No que se refere às motivações para a participação nas aulas, os estudantes destacaram aspectos relacionados à saúde, lazer, estética e desenvolvimento de habilidades. Embora muitos considerem a disciplina atraente, o nível de engajamento variou entre participação regular e esporádica, revelando diferentes relações com o conteúdo escolar.

 

    As aspirações profissionais demonstraram diversidade: meninos mencionaram áreas como saúde, forças armadas e direito, enquanto meninas citaram carreiras ligadas à estética e à estabilidade financeira. Essas preferências revelam tanto influências socioculturais e de gênero quanto experiências individuais.

 

    Em relação ao lazer e às práticas fora da escola, observou-se maior envolvimento dos meninos com esportes como futebol e basquete, enquanto as meninas também relataram interesse por práticas estéticas. Essas escolhas refletem não apenas preferências pessoais, mas também construções sociais de gênero. (Silva et al., 2024)

 

    O engajamento comunitário, por sua vez, apresentou respostas variadas. Alguns estudantes relataram pouco envolvimento com ações sociais, enquanto outros citaram experiências como auxílio a animais de rua, doação de cestas básicas e participação em iniciativas voltadas à comunidade. Em certos casos, identificou-se uma conexão entre vivências pessoais e disposição para o engajamento coletivo, assim como preocupações com questões sociais e ambientais.

 

    Essas manifestações reafirmam a concepção freireana de que a escola deve articular os conteúdos escolares com as realidades dos estudantes, promovendo consciência crítica e responsabilidade coletiva (Freire, 2017). Ao incorporar as vivências dos estudantes e seus territórios de pertencimento, a Educação Física amplia sua função formativa, tornando-se espaço de mediação entre experiências individuais e coletivas.

 

    Importa destacar que os dados coletados não foram reduzidos a estatísticas, mas analisados à luz das experiências subjetivas dos participantes, em sua complexidade. A pesquisa, pautada por uma perspectiva crítica e dialógica, reafirma o protagonismo dos estudantes e suas potencialidades transformadoras, promovendo uma prática pedagógica comprometida com o diálogo e a construção coletiva do conhecimento.

 

    Mesmo diante de desafios, os estudantes demonstraram capacidade de criar sentidos, propor mudanças e reinventar práticas escolares. Nesse processo, a Educação Física mostrou-se um ambiente formativo potente para o desenvolvimento da consciência crítica e da emancipação dos estudantes, conforme apontam Freire (2021), Kunz (2012), Felipe et al. (2021) e Almeida, e Fensterseifer (2018).

 

Conclusões 

 

    Os resultados e reflexões deste estudo reafirmam que a Educação Física Escolar, orientada por uma abordagem crítica e dialógica, pode exercer um papel fundamental na formação de pessoas autônomas, conscientes e socialmente engajadas. Longe de se limitar às práticas corporais, a disciplina se revela um espaço potente para a construção de sentidos, o desenvolvimento socioemocional e a articulação entre saberes, afetos e experiências.

 

    As vozes dos estudantes revelaram uma diversidade de interesses e percepções, destacando-se o entusiasmo pelos jogos adaptados como práticas que possibilitam recriar, ressignificar e afirmar identidades. Esse dado aponta para a necessidade de um currículo mais responsivo às vivências juvenis, capaz de acolher suas expressões culturais e suas demandas por participação real no processo pedagógico.

 

    Ao promover o protagonismo estudantil como prática emancipadora - e não como mera retórica -, a Educação Física desafia modelos autoritários e bancários ainda presentes na escola. A integração das dimensões cognitivas, afetivas, sociais e corporais torna-se, assim, condição essencial para uma educação integral e verdadeiramente democrática.

 

    Num cenário marcado por profundas desigualdades e desafios estruturais, é urgente que os educadores da área assumam posturas ativas e comprometidas com a transformação da realidade. A Educação Física, quando enraizada na valorização da cultura corporal e no diálogo com os territórios de pertença dos estudantes, possui potência formativa e política para contribuir na construção de uma sociedade mais justa, plural e solidária.

 

Apoio 

 

    Este estudo teve apoio financeiro da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES).

 

Referências 

 

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Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 30, Núm. 332, Ene. (2026)