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ISSN 1514-3465

 

Treinamento com restrição de fluxo sanguíneo em idosos. 

Revisão de literatura sobre efeitos musculares e funcionais

Blood Flow Restriction Training in Older Adults. A Literature Review on Muscular and Functional Effects

Entrenamiento con restricción del flujo sanguíneo en adultos mayores. 

Una revisión de la literatura sobre los efectos musculares y funcionales

 

Julian Alexander Bernardini*

juli_bernardini@hotmail.com

Carlos Ricardo Maneck Malfatti**

crmalfatti@gmail.com

Raul Osiecki***

raulfisioex@gmail.com

 

*Bacharel em Educação Física e Fisioterapia

pelo Centro Universitário UGV (UGV)

Mestrando em Promoção da Saúde

pelo Centro Universitário Guairacá (UNIGUAIRACÁ)

**Graduado em Biomedicina (Habilitado em Análises Clínicas,

Fisiopatologia, Bioquímica, Toxicologia Forense e Imagem)

e em Educação Física (Licenciatura Plena)

Professor de Fisiologia e Bioquímica do Exercício na UNICENTRO

Policial Científico do Paraná (QPPO), membro da Academia Brasileira

de Ciências Forenses, Conselheiro e Delegado do CRBM6 (2021-2025)

***Professor Titular do Curso de Educação Física

da Universidade Federal do Paraná (UFPR)

Professor Efetivo do Programa de Pós Graduação em Educação Física da UFPR

Doutor e Mestre em Fisiologia do Exercício

Líder do Grupo de Pesquisa CEPEFIS - Centro de Estudos

da Performance Física da UFPR

(Brasil)

 

Recepción: 09/06/2025 - Aceptación: 15/03/2026

1ª Revisión: 16/01/2026 - 2ª Revisión: 11/03/2026

 

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Cita sugerida: Bernardini, J.A., Malfatti, C.R.M., e Osiecki, R. (2026). Treinamento com restrição de fluxo sanguíneo em idosos. Revisão de literatura sobre efeitos musculares e funcionais. Lecturas: Educación Física y Deportes, 31(336), 250-263. https://doi.org/10.46642/efd.v31i336.8421

 

Resumo
    O envelhecimento está associado a perdas progressivas de força e massa muscular, que comprometem a funcionalidade e a qualidade de vida dos idosos. O treinamento resistido com cargas elevadas é eficaz para atenuar esses efeitos, porém nem sempre viável devido a limitações clínicas. Nesse contexto, a restrição de fluxo sanguíneo (RFS) aplicada ao exercício de baixa intensidade surge como alternativa promissora. Esta revisão de literatura teve como objetivo analisar os efeitos da RFS sobre variáveis musculares, funcionais e hemodinâmicas em idosos. A busca foi realizada nas bases PubMed, Web of Science e Google Acadêmico, entre janeiro e maio de 2025, utilizando descritores em português, inglês e espanhol, com filtros para publicações entre 2015 e 2025, em humanos e texto completo disponível. Foram incluídos 12 estudos, sendo a maioria ensaios clínicos randomizados, além de um quase-experimental. Os resultados indicaram que 9 estudos relataram aumentos de força muscular, 7 aumentos de massa muscular, 5 melhorias funcionais e 4 evidenciaram segurança hemodinâmica, reforçando a eficácia e a tolerabilidade da técnica. Conclui-se que a RFS representa uma alternativa segura e eficaz ao treinamento resistido tradicional, com potencial de aplicação em academias, clínicas de reabilitação e programas de saúde pública para promoção do envelhecimento ativo.

    Unitermos: Idoso. Exercício físico. Força muscular. Restrição de fluxo sanguíneo. Treinamento resistido.

 

Abstract
    Aging is associated with progressive loss of muscle strength and mass, which compromises functionality and quality of life in older adults. High-load resistance training is effective in attenuating these effects but is not always feasible due to clinical limitations. In this context, blood flow restriction (BFR) applied to low-intensity exercise emerges as a promising alternative. This literature review aimed to analyze the effects of BFR on muscular, functional, and hemodynamic variables in older adults. The search was conducted in PubMed, Web of Science, and Google Scholar databases between January and May 2025, using descriptors in Portuguese, English, and Spanish, with filters applied to studies published between 2015 and 2025, in humans, and with full text available. A total of 12 studies were included, most of them randomized clinical trials, along with one quasi-experimental design. The results indicated that 9 studies reported increases in muscle strength, 7 increases in muscle mass, 5 improvements in functional capacity, and 4 demonstrated hemodynamic safety, supporting the effectiveness and tolerability of the technique. In conclusion, BFR represents a safe and effective alternative to traditional resistance training, with potential application in gyms, rehabilitation clinics, and public health programs to promote active aging.

    Keywords: Older adults. Physical exercise. Muscle strength. Blood flow restriction. Resistance training.

 

Resumen

    El envejecimiento se asocia con pérdidas progresivas de fuerza y ​​masa muscular, lo que compromete la funcionalidad y la calidad de vida de las personas mayores. El entrenamiento de resistencia con cargas elevadas es eficaz para mitigar estos efectos, pero no siempre es factible debido a limitaciones clínicas. En este contexto, la restricción del flujo sanguíneo (RFS) aplicada al ejercicio de baja intensidad surge como una alternativa prometedora. Esta revisión bibliográfica tuvo como objetivo analizar los efectos de la RFS en variables musculares, funcionales y hemodinámicas en personas mayores. La búsqueda se realizó en las bases de datos PubMed, Web of Science y Google Scholar entre enero y mayo de 2025, utilizando descriptores en portugués, inglés y español, con filtros para publicaciones entre 2015 y 2025, en humanos y con texto completo disponible. Se incluyeron doce estudios, la mayoría ensayos clínicos aleatorizados, además de un estudio cuasiexperimental. Los resultados indicaron que 9 estudios reportaron aumentos en la fuerza muscular, 7 aumentos en la masa muscular, 5 mejoras funcionales y 4 mostraron seguridad hemodinámica, lo que refuerza la eficacia y tolerabilidad de la técnica. Se concluye que la restricción del flujo sanguíneo (RFS) representa una alternativa segura y eficaz al entrenamiento de resistencia tradicional, con potencial aplicación en gimnasios, clínicas de rehabilitación y programas de salud pública para promover el envejecimiento activo.

    Palabras clave: Personas mayores. Ejercicio físico. Fuerza muscular. Restricción del flujo sanguíneo. Entrenamiento de resistencia.

 

Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 31, Núm. 336, May. (2026)


 

Introdução 

 

    O envelhecimento é um processo multifatorial que impacta diretamente diversos sistemas fisiológicos, sendo caracterizado por alterações celulares, inflamatórias e funcionais que comprometem a qualidade de vida e a independência funcional do indivíduo idoso.

 

    Evidências recentes apontam que disfunções mitocondriais, produção excessiva de espécies reativas de oxigênio e senescência celular estão entre os principais mecanismos biológicos que sustentam essas alterações (Somasundaram et al., 2024; Maldonado et al., 2023; Khaltourina et al., 2020). Essa concepção reforça a necessidade de intervenções eficazes para mitigar os efeitos deletérios do envelhecimento sobre a função muscular e cardiovascular. Nesse contexto, o treinamento resistido se destaca como uma das estratégias mais eficazes para promover força muscular e retardar os efeitos da sarcopenia e da fragilidade. No entanto, para a obtenção de ganhos expressivos de força, a literatura sugere a utilização de cargas elevadas (acima de 60 % de 1RM), conforme demonstrado por Schoenfeld et al. (2017).

 

    Apesar de sua eficácia, esse modelo de treinamento muitas vezes não é viável para idosos com limitações osteomusculares, dores articulares ou doenças crônicas não transmissíveis, o que exige abordagens alternativas mais toleráveis. A restrição de fluxo sanguíneo (RFS) aplicada ao exercício resistido de baixa intensidade surge como uma técnica promissora e viável para esse público. Estudos recentes (Ma et al., 2024; Fabero-Garrido et al., 2024; Ren et al., 2025) indicam que o uso da RFS permite induzir adaptações significativas de força, hipertrofia e biomarcadores anabólicos sem a necessidade de cargas elevadas, mantendo risco cardiovascular e de lesão relativamente baixo.

 

    Diante dessas evidências, torna-se evidente a relevância de explorar intervenções que aliem segurança e eficácia na manutenção da funcionalidade em idosos. Percebendo a importância dessa temática e considerando as limitações associadas ao treinamento convencional, esta revisão de literatura foi conduzida com o objetivo de analisar os efeitos da RFS sobre variáveis musculares, funcionais e hemodinâmicas em idosos, consolidando os achados mais recentes disponíveis na literatura científica.

 

Metodologia 

 

    A busca pelos estudos foi realizada nas bases de dados PubMed, Web of Science e Google Acadêmico, no período de janeiro a maio de 2025. Foram utilizados descritores em português, inglês e espanhol relacionados à restrição de fluxo sanguíneo, treinamento resistido de baixa intensidade e população idosa, tais como blood flow restriction, vascular occlusion, KAATSU, low-load resistance training, elderly e older adults, combinados por meio dos operadores booleanos AND e OR. Os filtros aplicados restringiram a busca a publicações entre 2015 e 2025, em humanos, com texto completo disponível, nos idiomas português, inglês e espanhol.

 

    Foram incluídos estudos que apresentaram como população indivíduos idosos, com intervenções envolvendo o uso da restrição de fluxo sanguíneo (RFS) associada ao treinamento de força com baixa carga, prioritariamente delineados como ensaios clínicos randomizados. Contudo, estudos quase-experimentais com delineamento pré e pós-intervenção também foram considerados, desde que atendessem aos critérios de elegibilidade.

 

    Foram excluídos estudos que abordaram populações não idosas, contextos de reabilitação pós-operatória, protocolos com cargas superiores a 50 % de 1RM, bem como estudos de natureza secundária, como revisões, protocolos e editoriais, além daqueles indisponíveis em texto completo ou publicados em idiomas diferentes dos previamente estabelecidos.

 

    O processo de triagem e seleção dos estudos foi conduzido por dois revisores independentes, com auxílio da plataforma Rayyan®, em três etapas: leitura dos títulos, dos resumos e dos textos completos. As divergências entre os revisores foram resolvidas por consenso.

 

    Para fins de organização e transparência metodológica, as etapas de identificação, triagem, elegibilidade e inclusão dos estudos foram representadas por meio de um fluxograma adaptado do modelo PRISMA, conforme apresentado na Figura 1. Ao final, 12 estudos preencheram todos os critérios de elegibilidade e foram incluídos nesta revisão.

 

Figura 1. Fluxograma adaptado do processo de seleção dos estudos incluídos na revisão

Figura 1. Fluxograma adaptado do processo de seleção dos estudos incluídos na revisão

Fonte: Elaborado pelos autores com adaptação do modelo PRISMA

 

Resultados 

 

    Na Tabela 1 são apresentados os dados, em forma resumida, dos estudos selecionados para esta revisão de literatura, indicando os autores e o ano de publicação, o número e as características dos participantes, os protocolos de intervenção com restrição de fluxo sanguíneo (RFS), os grupos comparadores, os desfechos avaliados e os principais resultados obtidos.

 

Tabela 1. Características dos estudos com restrição de fluxo sanguíneo em idosos (n = 12)

Autor (Ano)

População (n, idade)

Tipo de Intervenção

Comparador

Duração e Frequência

Desfechos Avaliados

Principais Resultados

Pinto et al. (2018)

18 mulheres idosas hipertensas (67 ± 1,7 anos)

Exercício resistido agudo com RFS (20 % de 1RM, 3x10 rep.)

Exercício resistido de alta intensidade (65 % 1RM)

Sessão única

Parâmetros hemodinâmicos, percepção de esforço, lactato

RFS resultou em menor lactato e esforço percebido, com segurança hemodinâmica

Letieri et al. (2018)

56 mulheres idosas (68,8 ± 5,1 anos)

Treinamento resistido com RFS de baixa intensidade (pressão alta/baixa)

Alta intensidade, baixa intensidade e grupo controle

16 semanas + 6 semanas destreinamento, 3x/semana

Torque isocinético de joelho

RFS aumentou força comparável à alta intensidade; efeitos parciais mantidos após destreinamento

Lopes et al. (2022)

32 idosos não treinados (72 ± 7 anos)

Treinamento resistido com RFS leve (50 % pressão oclusiva, 30 % 1RM)

Treinamento de alta intensidade (70 % 1RM) e sem RFS

12 semanas, 3x/semana

Força de preensão, massa muscular, IGF-1, função vascular

RFS aumentou força, massa e IGF-1 preservando a função vascular

Yasuda et al. (2016)

30 mulheres idosas (68- 72 anos)

Treinamento com bandas elásticas + RFS

Treinamento elástico moderado/alto e controle

12 semanas, 2x/semana

CSA de coxa, força isométrica, pressão arterial central

RFS aumentou CSA e força sem afetar negativamente a função vascular

Harper et al. (2019)

35 idosos com osteoartrite de joelho (≥60 anos)

Treinamento com RFS (20 % 1RM)

Treinamento moderado (60 % 1RM)

12 semanas, 3x/semana

Força, dor, função física (WOMAC, SPPB, velocidade de marcha)

RFS promoveu menos dor espontânea, ganhos comparáveis em força

Clarkson et al. (2017)

19 idosos sedentários (60-80 anos)

Caminhada com RFS

Caminhada tradicional

6 semanas, 5x/semana

SPPB, TUG, caminhada 6 min, teste step

Melhora funcional 2,5-4,5x maior com RFS; maior esforço percebido

Shimizu et al. (2016)

40 idosos saudáveis (71 ± 4 anos)

Treinamento resistido com RFS (20 % 1RM)

Treinamento tradicional sem RFS

4 semanas

Função endotelial, oxigenação periférica, biomarcadores

Melhorou função endotelial e circulação; aumentos em VEGF, GH e lactato

Cook et al. (2017)

36 idosos com risco de limitação de mobilidade (75,6 ± 2,5 anos)

Treinamento com RFS (30 % 1RM)

Alta carga (70 % 1RM) e controle

12 semanas, 2x/semana

Força, CSA, 400m, SPPB, qualidade de vida

Ambos aumentaram força e CSA; RFS mais lento que alta carga, mas similar após 12 sem.

Espinosa-Méndez et al. (2025)

16 mulheres idosas, (70,9 ± 5,5 anos)

Treino de força MMII com PBFR, 20-50 % 1RM, circuitos

Pré-pós, sem grupo controle

12 sem., 3x/sem., 30-35 min

Força preensão, sentar-levantar, TUG, IMM

Aumento da força preensão e sentar-levantar; sem efeito em IMM/TUG

Letieri, R. V. et al. (2019)

23 mulheres idosas sarcopênicas; LI+BFR n=11 (69,4 ± 5,7 anos),

CG n=12 (69,0 ± 6,4 anos)

Exercício resistido baixa intensidade (20-30 % 1RM), 3-4 séries, 75 repetições, com RFS nos MMII

Grupo controle sem exercício

16 semanas, 3x/semana, 40-50 min por sessão

Força de preensão, Chair stand, Arm curl, Sit-and-reach, Back scratch, TUG, caminhada 6 min, massa muscular (MMI)

LI+ BFR aumentou de forma significativa em todas as variáveis funcionais e MMI; CG sem mudanças

Pereira Neto et al. (2018)

20 mulheres com osteoporose

(61,4 ± 4,6 anos)

BIRFS: treino de força baixa intensidade + RFS

ARFS: treino aeróbio

AI: treino de força alta intensidade.

Grupo controle sem exercício (GC)

12 semanas, 2x/semana, total 24 sessões

Força dinâmica máxima (FDM) na extensão de joelho (1RM)

ARFS e BIRFS resultou em aumento significativo da FDM (21,6 % e 24,2 % após 12 sem.); AI mostrou maior ganho (62 %); GC sem alterações

Yuing Farías et al. (2019)

22 idosos ambos os sexos, (71,9 ± 4,0 anos)

Exercício dinâmico de preensão manual com oclusão vascular

Valores basais de cada participante (pré vs. pós)

Sessão única de 40 minutos

Pressão arterial sistólica (PAS), pressão arterial diastólica (PAD), frequência cardíaca (FC)

 

Redução significativa da PAS e FC aos 15’, 20’ e 25’, e da PAD aos 10’ e 20’ após o exercício

Legenda: 1RM = uma repetição máxima; RFS = restrição de fluxo sanguíneo; PBFR = Partial Blood Flow Restriction (restrição parcial de fluxo sanguíneo); LI+BFR = Low Intensity + Blood Flow Restriction (exercício de baixa intensidade com restrição de fluxo sanguíneo); CG = Grupo Controle; Chair Stand = Teste de sentar e levantar da cadeira; Arm Curl = Flexão de braço com peso; Sit-and-Reach = Teste de sentar e alcançar; Back Scratch = Teste do arranhão nas costas; IMM = Índice de Massa Muscular; MMII = Membros Inferiores; CSA = área de secção transversal do músculo; SPPB = Short Physical Performance Battery (Bateria de Desempenho Físico Curto); TUG = Timed Up and Go (Teste de Levantar e Andar); VEGF = Vascular Endothelial Growth Factor (fator de crescimento endotelial vascular); GH = Growth Hormone (hormônio do crescimento); IGF-1 = Insulin-like Growth Factor 1 (fator de crescimento semelhante à insulina tipo 1); WOMAC = Western Ontario and McMaster Universities Osteoarthritis Index (índice de dor e função para osteoartrite); MVC = Maximal Voluntary Contraction (contração voluntária máxima); TPO₂ = pressão transcutânea de oxigênio; RHI = Reactive Hyperemia Index (índice de hiperemia reativa); vWF = von Willebrand Factor (fator de von Willebrand). Fonte: Elaborado pelos autores

 

Discussão 

 

Efeitos sobre a força muscular 

 

    A maioria dos estudos incluídos nesta revisão de literatura demonstrou aumentos significativos na força muscular de idosos submetidos ao treinamento com restrição de fluxo sanguíneo (RFS) associado a cargas baixas, reforçando a eficácia da técnica como alternativa ao treinamento resistido tradicional de alta intensidade. O estudo de Letieri et al. (2018) foi um dos mais robustos em termos de protocolo longitudinal, mostrando que tanto a RFS com pressão de oclusão alta quanto baixa geraram ganhos expressivos de força isocinética após 16 semanas de intervenção, com efeitos parcialmente mantidos após seis semanas de destreinamento. Esses achados são corroborados por Lopes et al. (2022), que também observaram aumento da força de preensão manual e força geral em idosos não treinados submetidos à RFS de baixa carga, além de elevação nos níveis de IGF-1, hormônio associado ao crescimento e regeneração muscular.

 

    No estudo de Harper et al. (2019), conduzido com idosos com osteoartrite de joelho, a RFS com carga baixa mostrou eficácia semelhante à do treinamento moderado em termos de ganho de força extensora de joelho, sugerindo que mesmo em populações clínicas com dor e limitação funcional, a RFS pode ser viável e segura. De forma semelhante, Cook et al. (2017) observaram melhorias significativas na força muscular de membros inferiores após 12 semanas de RFS com 30 % de 1RM, ainda que os ganhos iniciais tenham sido mais lentos em comparação ao grupo de alta carga. Após o período completo, no entanto, os resultados se mostraram comparáveis entre os grupos.

 

    O estudo de Pereira Neto et al. (2018) demonstrou que tanto o treinamento aeróbio em esteira quanto o treinamento resistido de baixa intensidade, quando associados à restrição de fluxo sanguíneo, foram eficazes em aumentar a força dinâmica máxima de mulheres com osteoporose após 12 semanas de intervenção. Os ganhos obtidos foram similares aos do treinamento de força de alta intensidade, reforçando a RFS como uma alternativa viável e segura para populações que não toleram cargas elevadas.

 

    Esses estudos, quando analisados em conjunto, reforçam que o treinamento de força com RFS e cargas leves é capaz de induzir melhorias na força muscular mesmo em indivíduos idosos com diferentes perfis funcionais, o que amplia a aplicabilidade clínica da técnica. A eficácia observada em relação à força pode ser atribuída a mecanismos como o recrutamento precoce de unidades motoras do tipo II, hipoxia local induzida pela oclusão e alterações hormonais favoráveis ao anabolismo muscular.

 

Hipertrofia e massa muscular 

 

    Além dos ganhos de força, os estudos incluídos nesta revisão também relataram aumentos na massa muscular de indivíduos idosos submetidos ao treinamento com restrição de fluxo sanguíneo (RFS) associado a cargas reduzidas. A hipertrofia foi observada tanto por medidas diretas, como área de secção transversal muscular (CSA), quanto por indicadores indiretos como composição corporal e marcadores hormonais.

 

    O estudo de Lopes et al. (2022) demonstrou um aumento de 6 % na massa muscular após 12 semanas de treinamento com RFS, valor superior ao observado no grupo de alta intensidade (2 %) e no grupo controle (-1 %). Esse mesmo grupo também apresentou elevação nos níveis de IGF-1, fator de crescimento que desempenha papel essencial na síntese proteica muscular, sugerindo que a RFS pode favorecer um ambiente hormonal anabólico mesmo com cargas leves. Já Yasuda et al. (2016) identificaram aumento significativo de CSA do quadríceps (6,9 %) por meio de ressonância magnética em mulheres idosas submetidas ao treino com bandas elásticas e RFS. Nenhuma alteração foi observada nos grupos sem oclusão, mesmo utilizando intensidades moderadas, o que reforça o papel da restrição vascular como estímulo hipertrofiante.

 

    De forma complementar, Cook et al. (2017) também verificaram aumento da CSA muscular após 12 semanas de intervenção com RFS em comparação ao grupo controle. Embora os ganhos tenham sido menores que os do grupo de alta carga nas primeiras seis semanas, ao final do protocolo ambos os grupos apresentaram valores semelhantes, reforçando o potencial do método para promover hipertrofia progressiva. Esses resultados demonstram que a RFS não apenas preserva, mas também promove o crescimento muscular em idosos, mesmo em contextos em que o uso de cargas elevadas não é recomendado.

 

Função física e desempenho funcional 

 

    O estudo de Clarkson et al. (2017) avaliou diretamente a função física por meio de testes clínicos como o Timed Up and Go (TUG), o teste de caminhada de seis minutos e o teste de sentar e levantar em 30 segundos. Os participantes do grupo de caminhada com RFS apresentaram de 2,5 a 4,5 vezes mais melhora funcional do que o grupo controle. Esses resultados são particularmente relevantes, pois demonstram que a RFS pode ser aplicada até mesmo em atividades de baixa complexidade, como a caminhada, com efeitos funcionais significativos.

 

    De forma semelhante, Harper et al. (2019) observaram melhora na força extensora de joelho e no desempenho funcional (SPPB e velocidade de marcha) em idosos com osteoartrite de joelho após 12 semanas de treinamento com RFS. Embora os efeitos tenham sido ligeiramente inferiores aos observados no grupo de intensidade moderada, a RFS se mostrou eficaz e segura, inclusive com menor relato de dor durante as sessões. Por outro lado, Cook et al. (2017) relataram que, apesar dos ganhos de força e hipertrofia, as melhorias nos testes de desempenho funcional (como a caminhada de 400 metros e SPPB) não foram estatisticamente significativas, o que pode estar relacionado ao perfil da amostra, já que todos os grupos, inclusive o controle, apresentaram aumento semelhante na velocidade de caminhada (~4 %).

 

    Tanto o estudo quase experimental de Espinosa-Méndez et al. (2025), conduzido com 16 idosas mexicanas, quanto o ensaio clínico randomizado de Letieri et al. (2019), realizado com 23 idosas brasileiras sarcopênicas, demonstraram que o treinamento resistido de baixa intensidade associado à restrição de fluxo sanguíneo promoveu ganhos significativos de força muscular. Espinosa-Méndez et al. observaram aumento na força de preensão manual e no teste de sentar e levantar, enquanto Letieri et al. relataram melhorias abrangentes em múltiplos componentes funcionais (força de preensão, chair stand, arm curl, flexibilidade, mobilidade e capacidade aeróbica). Em ambos os estudos, entretanto, os efeitos sobre a massa muscular foram limitados: Espinosa-Méndez não encontrou diferenças significativas no índice de massa muscular, e Letieri, apesar de observar aumento no MMI, as participantes permaneceram classificadas como sarcopênicas.

 

Segurança vascular e hemodinâmica 

 

    Um dos principais receios na aplicação da restrição de fluxo sanguíneo (RFS) em idosos está relacionado à sua segurança hemodinâmica e ao possível impacto negativo na função vascular, especialmente em populações com hipertensão ou risco cardiovascular aumentado.

 

    O estudo de Pinto et al. (2018) avaliou respostas hemodinâmicas agudas em mulheres idosas hipertensas durante o exercício de extensão de joelho com RFS (20 % de 1RM) e comparou com o exercício tradicional de alta intensidade (65 % de 1RM). Embora ambos os protocolos tenham provocado aumentos semelhantes na pressão arterial sistólica e diastólica durante o exercício, a percepção de esforço e a concentração de lactato foram significativamente menores no grupo com RFS. Esses resultados reforçam que a RFS pode provocar estresse cardiovascular comparável ao treinamento convencional, mas com menor desconforto subjetivo e menor carga metabólica.

 

    O estudo de Yuing Farías et al. (2019) observaram reduções significativas na pressão arterial e na frequência cardíaca após uma sessão de exercício dinâmico com oclusão vascular em idosos, reforçando o potencial da RFS como estratégia de manejo não farmacológico da hipertensão. De forma complementar, Clarkson et al. (2017) demonstraram que a caminhada com RFS em idosos sedentários promoveu ganhos expressivos de função física, sem comprometimento hemodinâmico relevante, evidenciado pela ausência de eventos adversos e pela manutenção de níveis seguros de percepção subjetiva de esforço.

 

    Por outro lado, o estudo de Shimizu et al. (2016) demonstrou que a RFS com baixa carga, aplicada durante 4 semanas, resultou em melhora da função endotelial vascular em idosos saudáveis, com aumento significativo no índice de hiperemia reativa (RHI) e na oxigenação transcutânea (Foot-tcPO₂), além de redução no fator de von Willebrand (vWF), associado à disfunção endotelial. Esses achados indicam não apenas a segurança da técnica, mas também seu potencial efeito protetor sobre a saúde vascular.

 

    Além disso, Yasuda et al. (2016) verificaram que o treinamento com RFS utilizando faixas elásticas não provocou alterações adversas na pressão arterial central nem em índices como o cardio-ankle vascular index (CAVI) e o índice tornozelo-braquial (ABI), confirmando a neutralidade vascular da intervenção.

 

Aplicabilidade clínica e tolerabilidade da RFS em idosos 

 

    O estudo de Harper et al. (2019) mostraram que o treinamento com RFS foi associado a menos relatos espontâneos de dor articular em comparação ao grupo de intensidade moderada, mesmo em uma amostra composta por idosos com osteoartrite de joelho. A menor sobrecarga articular, aliada aos benefícios em força e função, torna a RFS uma abordagem particularmente atrativa para idosos com contraindicações relativas ao exercício de alta carga.

 

    De forma geral, a análise dos 12 estudos incluídos nesta revisão revelou que 9 relataram ganhos consistentes de força muscular, 7 evidenciaram aumentos de massa muscular, 5 apontaram melhorias funcionais em testes clínicos e 4 confirmaram a segurança hemodinâmica da técnica. Embora a maior parte dos ensaios tenha sido randomizada, um estudo quase-experimental também corroborou esses achados, ampliando a robustez das evidências. Ainda assim, a literatura apresenta limitações importantes, como amostras reduzidas, predominância de mulheres, heterogeneidade metodológica e ausência de estudos longitudinais, o que demanda cautela na generalização dos resultados. Apesar dessas restrições, os achados indicam que a RFS é uma estratégia eficaz, segura e viável para promover força, função e possivelmente benefícios cardiovasculares, consolidando-se como alternativa prática em contextos de academia, reabilitação e saúde pública.

 

Conclusão 

 

    A presente revisão indica que a restrição de fluxo sanguíneo (RFS) associada ao treinamento de baixa intensidade é uma estratégia eficaz para promover ganhos de força e melhorias funcionais em idosos, com efeitos semelhantes ao treinamento resistido de alta carga. Além disso, mostrou-se uma técnica segura e bem tolerada, inclusive em indivíduos com osteoartrite, hipertensão e osteoporose, destacando seu potencial de aplicação em populações com limitações clínicas. Apesar das diferenças metodológicas entre os protocolos e do número reduzido de participantes nos estudos, os achados reforçam a viabilidade da RFS como alternativa ao exercício tradicional de alta intensidade. A utilização da técnica em ambientes como academias, clínicas de reabilitação e programas de saúde pública pode ampliar a adesão de idosos ao treinamento físico. Contudo, são necessários ensaios clínicos de maior duração e com maior padronização metodológica para confirmar seus efeitos a longo prazo e consolidar sua aplicabilidade na promoção do envelhecimento ativo.

 

Referências 

 

Clarkson, M.J., Conway, L., e Warmington, S.A. (2017). Blood flow restriction walking and physical function in older adults: A randomized control trial. Journal of Science and Medicine in Sport, 20(12), 1041-1046. https://doi.org/10.1016/j.jsams.2017.04.012

 

Cook, S.B., LaRoche, D.P., Villa, M.R., Barile, H., e Manini, T.M. (2017). Blood flow restricted resistance training in older adults at risk of mobility limitations. Experimental Gerontology, 99, 138-145. https://doi.org/10.1016/j.exger.2017.10.004

 

Espinosa-Méndez, C.M., Flores-Moreno, P.J., Reyes-Espejel, I., e Ortega-González, J.A. (2025). Strength training with partial blood flow restriction: Effect on factors associated with sarcopenia in older women. Sport Mont, 23(2), 43-48. https://doi.org/10.26773/smj.250607

 

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Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 31, Núm. 336, May. (2026)