ISSN 1514-3465
Da alternativa ao conteúdo: ressignificando o lugar
dos jogos de mesa/tabuleiro na Educação Física escolar
From Alternative to Content: Redefining the Place of Table/Board Games in School Physical Education
De alternativa a contenido: resignificando el lugar de los juegos de mesa/tablero en la Educación Física escolar
Viviane Ribeiro Pereira
*vivianeribeirop@hotmail.com
Vanessa Alberton Zanelato
**vanessaalbertoon@gmail.com
João Fabrício Guimara Somariva
***jfsomariva@gmail.com
*Graduada em Educação Física
Universidade do Extremo Sul Catarinense (UNESC)
Mestre em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação (UNESC)
Professora de Educação Física nas redes públicas municipais
Professora efetiva da rede Municipal de Educação
do município de Criciúma-SC e Forquilhinha
Professora universitária no Centro Universitário Barriga Verde (UNIBAVE)
e na Universidade do Extremo Sul Catarinense (UNESC)
**Graduada em Educação Física
pelo Centro Universitário Barriga Verde (UNIBAVE)
***Graduado em Educação Física pela UNESC
Mestrado em Educação pela Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL)
Especialista em Treinamento esportivo
pela Universidade do Extremo Sul Catarinense
Mestre em Educação pela UNISUL
Professor de Educação Física da Escola de Ensino Básico
Prof. Padre Shuler - Cocal do Sul/SC
Professor do UNIBAVE e UNESC
Integrante do Núcleo docente estruturante
e Colegiado dos Cursos de Educação Física e Pedagogia do UNIBAVE
Membro do Grupo de Pesquisa em Educação Física
e escola: Conhecimento e intervenção - GEPEFE
(Brasil)
Recepción: 30/05/2025 - Aceptación: 03/11/2025
1ª Revisión: 29/10/2025 - 2ª Revisión: 31/10/2025
Documento acessível. Lei N° 26.653. WCAG 2.0
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Este trabalho está sob uma licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional (CC BY-NC-ND 4.0) https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/deed.pt |
Cita sugerida
: Pereira, V.R., Zanelato, V.A., e Somariva, J.F.G. (2026). Da alternativa ao conteúdo: ressignificando o lugar dos jogos de mesa/tabuleiro na Educação Física escolar. Lecturas: Educación Física y Deportes, 31(335), 47-65. https://doi.org/10.46642/efd.v31i335.8403
Resumo
Os jogos de mesa, muitas vezes vistos apenas como formas de entretenimento, apresentam grande potencial para contribuir com a aprendizagem e o desenvolvimento dos alunos, principalmente nas aulas de Educação Física. Esses jogos estão inseridos na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) como parte das práticas pedagógicas de diversas disciplinas, mas, na prática, sua inserção no planejamento curricular de professores do Ensino Fundamental é limitada. O objetivo central desta pesquisa é compreender como os jogos de tabuleiro se inserem no planejamento curricular de professores do Ensino Fundamental. Este estudo objetivou analisar como os jogos de mesa são abordados no planejamento curricular de professores de sete escolas do Sul de Santa Catarina, por meio de um questionário. Os resultados indicaram que, embora os jogos de mesa estejam presentes nas escolas com diversos materiais disponíveis, muitos professores não os utilizam pedagogicamente, tratando-os apenas como atividades de lazer ou como solução para situações em dias chuvosos ou falta de organização nas aulas. No entanto, alguns professores reconhecem o potencial pedagógico dos jogos de mesa e os utilizam de forma mais intencional, com foco no desenvolvimento de habilidades cognitivas, trabalho em equipe e reflexão sobre regras. O estudo ressalta a necessidade de mais pesquisas sobre o uso pedagógico de jogos de tabuleiro nas aulas de Educação Física, com o objetivo de promover um ensino mais eficaz e integrado a esse conteúdo.
Unitermos: Educação Física. Escola. Jogos de tabuleiro. Planejamento.
Abstract
Board games, often seen only as forms of entertainment, have great potential to contribute to students’ learning and development, especially in Physical Education classes. These games are included in the National Common Curricular Base (BNCC) as part of the pedagogical practices of various subjects, but in practice, their inclusion in the curricular planning of Primary Education teachers is limited. The central objective of this research is to understand how board games are incorporated into the planning of Physical Education teachers in Primary Education. This study aimed to analyze how board games are addressed in the curricular planning of teachers from seven schools in the south of Santa Catarina through an applied questionnaire. The results indicated that although board games are present in schools with various materials available, many teachers do not use them pedagogically, treating them only as leisure activities or as a solution for rainy days or for situations when classes lack organization. However, some teachers recognize the pedagogical potential of board games and use them more intentionally, aiming at the development of cognitive skills, teamwork, and reflection on rules. The study highlights the need for further research on the pedagogical use of board games in Physical Education classes, with the goal of promoting more effective teaching integrated with this content.
Keywords
: Physical Education. School. Table games. Planning.
Resumen
Los juegos de mesa, a menudo considerados únicamente como formas de entretenimiento, tienen un gran potencial para contribuir al aprendizaje y desarrollo del alumnado, especialmente en las clases de Educación Física. Estos juegos están incluidos en la Base Curricular Nacional de Brasil (BNCC) como parte de las prácticas pedagógicas de diversas asignaturas, pero en la práctica, su inclusión en la planificación curricular del profesorado de primaria es limitada. El objetivo principal de esta investigación es comprender cómo se incorporan los juegos de mesa en la planificación curricular del profesorado de primaria. Este estudio tuvo como objetivo analizar cómo se abordan los juegos de mesa en la planificación curricular del profesorado de siete escuelas del sur de Santa Catarina, mediante un cuestionario. Los resultados indicaron que, si bien los juegos de mesa están presentes en las escuelas con diversos materiales disponibles, muchos docentes no los utilizan pedagógicamente, tratándolos únicamente como actividades de ocio o como una solución para situaciones en días de lluvia o falta de organización en las clases. Sin embargo, algunos docentes reconocen el potencial pedagógico de los juegos de mesa y los utilizan de forma más intencional, centrándose en el desarrollo de habilidades cognitivas, el trabajo en equipo y la reflexión sobre las reglas. El estudio destaca la necesidad de más investigación sobre el uso pedagógico de los juegos de mesa en las clases de Educación Física, con el fin de promover una enseñanza más eficaz e integrada de este contenido.
Palabras clave
: Educación Física. Escuela. Juegos de mesa. Planificación.
Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 31, Núm. 335, Abr. (2026)
Introdução
Os jogos de mesa são atividades recreativas que envolvem uma interação social entre os participantes, com regras claras e uma estrutura definida, geralmente composta por um tabuleiro, peças (como cartas, dados, fichas ou miniaturas) e outros componentes físicos. A dinâmica do jogo é orientada por um conjunto de regras que determinam como as ações devem ser realizadas e como o objetivo pode ser alcançado, que pode variar desde a vitória sobre os adversários até a realização de determinadas tarefas ou conquistas. Esses jogos podem ser competitivos, em que os jogadores disputam entre si, ou cooperativos, em que todos trabalham juntos para alcançar um objetivo comum. A interação entre os jogadores é essencial, e muitos jogos exigem a combinação de sorte, estratégia, tomada de decisões e habilidades específicas para o sucesso. Além disso, muitos jogos de mesa são ambientados em temas ou histórias que imergem os jogadores em cenários de fantasia, ficção científica, história, entre outros.
O jogo é uma atividade ou ocupação voluntária, exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e de espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e de alegria e de uma consciência de ser diferente da “vida quotidiana”. (Huizinga, 2004, p. 33)
Os jogos de mesa representam uma expressão da cultura corporal que pode contribuir de maneira significativa para a aprendizagem e o desenvolvimento dos alunos. Contudo, frequentemente são percebidos apenas como uma forma de entretenimento, em vez de serem reconhecidos como um conteúdo curricular relevante para a Educação Física escolar (Trento, e Meneghel, 2023). Pesquisas recentes, tanto em contextos hispano-americanos quanto anglófonos, têm demonstrado que a integração planejada dos jogos de mesa pode gerar melhorias significativas no engajamento, na motivação e no desenvolvimento de competências cognitivas e socioemocionais. (Mo, Saibon, Li, Li, e He, 2024; Velázquez Callado, 2025; Vita-Barrull et al., 2024)
Tais evidências reforçam que a aplicação pedagógica de jogos de mesa transcende o mero lazer, configurando-se como estratégia didática capaz de promover aprendizagens significativas e colaborativas (Estrada-Plana et al., 2024; Alotaibi, 2024). Estudos recentes confirmam que, quando integrados de forma planejada, os jogos de mesa potencializam o engajamento e o desenvolvimento cognitivo dos estudantes, com impactos positivos comprovados em motivação, interesse situacional e aprendizagem colaborativa. (Mo et al., 2024; Sotoca-Orgaz et al., 2025)
Kishimoto (2016) analisa várias teorias sobre o papel do jogo na educação. A Teoria do Descanso considera o jogo apenas como um momento de pausa, o que pode ser visto de forma negativa para o ensino. Por outro lado, a Teoria do Ativismo vê o jogo como uma parte natural do desenvolvimento infantil. A Teoria do Excesso de Energia sugere que as crianças jogam para liberar a energia acumulada. A Teoria do Exercício Preparatório, por sua vez, entende que o jogo pode preparar as crianças para a vida adulta. Apesar dessas perspectivas, muitas vezes essas teorias não reconhecem o potencial do jogo como uma atividade que pode promover aprendizado e desenvolvimento. (Kishimoto, 2016)
Figura 1. Jogos de mesa e Educação Física escolar
Fonte: Gemini 3
Quanto mais significativos forem, mais os jogos se conectam com a cultura em que são praticados. Isso significa que os jogos mais populares em uma determinada cultura e período podem refletir e ajudar a definir algumas das características morais e intelectuais dessa cultura. Como os jogos são tanto elementos quanto representações culturais, seus impulsos primários muitas vezes coincidem com os da cultura em questão. Assim, os jogos mais comuns e praticados em uma sociedade
“(...) manifestam, por um lado, as tendências, os gostos e as formas de pensar mais correntes e, simultaneamente, educam e treinam os jogadores nessas mesmas virtudes e nesses mesmos erros, sancionando neles os hábitos e preferências. (...) De fato, sendo os jogos fatores e imagens de cultura, daí decorre que, em certa medida, uma civilização e, no seio de uma civilização, uma época, pode ser caracterizada pelos seus jogos”. (Caillois, 1990)
A problemática que orienta esta pesquisa é entender como os jogos de mesa estão incorporados nos planejamentos dos professores de Educação Física nos anos iniciais do Ensino Fundamental. O objetivo central que norteia esta pesquisa é compreender como estão inseridos os jogos de mesa nos planejamentos dos professores de Educação Física no Ensino Fundamental. Para alcançar esse objetivo, foram estabelecidos os seguintes objetivos específicos: a) identificar quais jogos de mesa são disponibilizados nas escolas; b) identificar de que forma o conteúdo dos jogos de mesa está sendo contemplado enquanto conteúdo escolar nas aulas de Educação Física e; c) relatar quais os desafios de incorporar os jogos de mesa às práticas pedagógicas na perspectiva dos professores de Educação Física.
Os autores que fundamentaram este estudo incluem Trento, e Meneghel (2023), Meneghel (2019) e o Coletivo de Autores (1992).
A presente pesquisa é um estudo de campo de abordagem qualitativa. O instrumento utilizado foi um questionário com seis questões, tanto abertas quanto fechadas, que permitiu a coleta de informações sobre o conhecimento dos professores acerca das práticas pedagógicas relacionadas aos jogos de mesa.
Com essa análise, pretende-se estimular uma reflexão mais ampla sobre a importância dos jogos de mesa na Educação Física escolar e suas contribuições para o desenvolvimento completo dos alunos.
A gênese e o desenvolvimento dos jogos de mesa
Segundo De Araujo (2018), desde cedo os jogos de mesa fazem parte da vida das pessoas, seja de forma explícita, ao jogá-los, ou simbólica, por meio de expressões como “a vida é um jogo” ou “colocar as cartas sobre a mesa”, que remetem a regras, estratégias e revelação de intenções presentes nessas práticas.
Os jogos de mesa têm origem na antiguidade e, ao longo da evolução humana, passaram de práticas ligadas a rituais religiosos a expressões culturais integradas à vida social (Custódio, e Afiune, 2019). Registros no Egito Antigo mostram tabuleiros e peças usados em jogos (Klein, 2003), enquanto no Oriente surgiram modalidades como Senet, Alquerque, WeiQi, e Mancala, que influenciaram criações posteriores, como Xiangqi, e Chaturaji. Em algumas culturas, esses jogos tinham função de adivinhação ou decisão comunitária, baseados na crença de influência divina. O Mancala, por exemplo, apresenta variações como o Awari, no Suriname, ligado a rituais fúnebres. Já o xadrez, originado na Ásia, consolidou-se como símbolo de estratégia e planejamento. Muitos desses jogos inspiraram práticas ainda populares, como xadrez, damas, dominó e jogo da onça, que persistem graças à transmissão cultural e à adaptação ao longo do tempo.
Por muitas vezes, alguns jogos de mesa possuíam um caráter religioso, sendo utilizados como uma forma de adivinhação para tomar decisões importantes, como escolher o melhor dia para plantar ou prever se o ano seria produtivo. Essas práticas eram baseadas na crença de que os deuses influenciavam os acontecimentos cotidianos, e os jogos eram uma ferramenta para interpretar sinais divinos e guiar as ações dos indivíduos nas comunidades antigas.
Apesar das transformações culturais e tecnológicas, muitos jogos de mesa continuam presentes no cotidiano, preservados pela prática e reinvenção de seus jogadores. Outros, no entanto, caíram no esquecimento, seja por mudanças nos hábitos sociais, seja pela popularização de novas formas de entretenimento. Essa permanência ou desaparecimento revelam como essas práticas estão diretamente ligadas à identidade cultural e ao interesse coletivo em mantê-las vivas, sendo o registro desses fenômenos em publicações uma parte essencial desse processo (Bontempo, 2012). O estudo dessas manifestações, por sua vez, exige a análise de fontes históricas, como a mídia impressa, para se compreender seu papel como ator social e político. (Kircher, 2005)
Jogos de mesa no contexto escolar
Os jogos, consequentemente os jogos de mesa, representam uma expressão da cultura corporal capaz de enriquecer de maneira significativa a aprendizagem e o desenvolvimento dos alunos. E eles fazem parte, como conteúdo, da Educação Física escolar.
A Educação Física é uma prática pedagógica que, no âmbito escolar, tematiza formas de atividades expressivas corporais como: jogo, esporte, dança, ginástica, formas estas que configuram uma área de conhecimento que podemos chamar de cultura corporal. (Coletivo de Autores, 1992, p. 33)
No entanto, os jogos de mesa frequentemente são percebidos apenas como mero entretenimento, negligenciando-se seu potencial como conteúdo curricular fundamental para a Educação Física escolar. (Trento, e Meneghel, 2023)
O professor de Educação Física deve incorporar em suas aulas todas as formas de expressão corporal, incluindo jogos, esportes, dança, ginástica e lutas, que, juntas, constituem a cultura corporal. Esses elementos são fundamentais na prática pedagógica da Educação Física e devem ser estudados desde suas origens, valor educacional e propósitos, contribuindo para o currículo e a formação dos alunos. (Souza, 2013)
Os jogos de mesa aparecem na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) em diferentes áreas. Na Educação Física, nos anos iniciais, a unidade temática “jogos” inclui “jogos populares do Brasil e do mundo” e “jogos de matriz indígena e africana”; nos anos finais, acrescenta “jogos eletrônicos” (Brasil, 2018). Nem todos os jogos citados se enquadram como jogos de mesa, mas alguns podem ser identificados dentro dessas temáticas. (Trento, e Meneghel, 2023)
Os jogos de mesa são atividades recreativas jogadas em uma superfície plana, como um tabuleiro, onde os jogadores seguem regras para se divertir ou competir. Eles envolvem peças que podem ser movidas ou manipuladas e exigem habilidades como estratégia e raciocínio, ou a combinação de ambas com um elemento de sorte.
Na Educação Física escolar, há uma variedade de jogos de mesa que podem ser explorados, abrangendo categorias como jogo de tabuleiro, jogo de cartas e jogo de Role-Playing Game (Jogo de Interpretação de Personagens). Dentro dessas divisões, encontramos exemplos como: xadrez, damas, dominó, jogo da velha, uno, batalha naval, jogo de cartas, ludo, Dungeons and Dragons, truco, futebol de botão, cara a cara, banco imobiliário, trilha, entre muitos outros. De acordo com a Base Nacional Comum Curricular (Brasil, 2018) a seleção desses jogos pode ser feita de acordo com os objetivos educacionais, os interesses dos alunos e as habilidades que se deseja desenvolver.
Segundo Friedmann (1996), o jogo é um meio de desenvolvimento humano em diversas dimensões. Proporciona o desenvolvimento da linguagem, permitindo a expressão de pensamentos e sentimentos; o desenvolvimento cognitivo, que fortalece habilidades e possibilita a adaptação a novas situações; o desenvolvimento afetivo, oferecendo à criança a chance de expressar suas emoções; o desenvolvimento físico-motor, ao explorar o corpo e interagir com objetos por meio de ações visuais, táteis e auditivas; e o desenvolvimento moral, em que a criança internaliza regras sem coerção externa quando estas são construídas de forma natural (Friedmann, 1996). Brotto (2002) complementa essa ideia ao afirmar que o ato de jogar estimula todos os aspectos do desenvolvimento, permitindo-nos expressar como indivíduos com qualidades e falhas, habilidades e dificuldades.
Para além disso, os jogos de mesa devem ser ensinados não apenas pelos seus aspectos lúdicos ou de entretenimento, mas porque são parte do legado cultural e histórico da humanidade. Eles refletem práticas e tradições que foram construídas e transmitidas ao longo do tempo, e por isso têm valor no contexto educacional. A escola, como espaço de formação e transmissão do conhecimento, tem o papel de proporcionar aos alunos o acesso a esses conteúdos, permitindo-lhes aprender sobre a diversidade cultural, as regras sociais e as habilidades cognitivas que esses jogos envolvem. Assim, os jogos de mesa são mais do que simples passatempos; são instrumentos que ajudam a desenvolver o raciocínio, a estratégia, a colaboração e o respeito às normas, além de fortalecer a compreensão histórica e social de diferentes culturas. (Zanelato, e Pereira, 2024)
Método
A pesquisa é um estudo de campo qualitativo que analisa como os jogos de mesa estão integrados nos planejamentos de professores de Educação Física. Segundo Minayo (1994), essa abordagem conecta a teoria ao contexto investigado, focando em aspectos que não podem ser quantificados, como significados, crenças e atitudes, considerados parte da realidade social, pois envolvem a reflexão e interpretação dos indivíduos sobre suas ações.
A pesquisa foi conduzida em sete escolas municipais de um município no Sul de Santa Catarina, com autorização prévia da Secretaria de Educação Municipal e das direções das escolas. A coleta de dados ocorreu em agosto de 2024. Os professores de Educação Física dos anos iniciais do Ensino Fundamental, selecionados para a amostra, receberam por e-mail uma explicação detalhada sobre os procedimentos da entrevista e foram solicitados a assinar o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. O estudo foi submetido e aprovado pelo comitê de ética, registrado sob o parecer nº 6.974.031.
A amostra incluiu seis professores de ambos os sexos, com idades variando entre 29 e 55 anos, abrangendo dois professores Admitidos em Caráter Temporário (ACT) e quatro Professores Efetivos da rede municipal.
Para a seleção dos professores nesta pesquisa, foram aplicados os seguintes critérios de inclusão: a) estar contratado regularmente na escola; b) ser professor de Educação Física; c) assinar o Termo de Consentimento Livre para participar da pesquisa. Dessa forma, foram aplicados os seguintes critérios de exclusão: a) ausência no dia do questionário; b) falta de autorização dos diretores; c) falta de disposição voluntária para participar respondendo ao questionário; d) não assinar o Termo de Consentimento Livre para a pesquisa.
O instrumento utilizado foi um questionário contendo seis questões, tanto abertas quanto fechadas, que possibilitou a coleta de informações sobre o conhecimento dos professores em relação às práticas pedagógicas dos jogos de mesa, além de proporcionar uma compreensão dos desafios associados a esses jogos na perspectiva dos professores de Educação Física.
Os professores foram contactados pessoalmente e individualmente para responder ao questionário, com duração de 40 minutos. Os horários foram agendados de acordo com a disponibilidade de cada professor. As respostas foram registradas e posteriormente analisadas. Os professores foram identificados com letras, a fim de preservar suas identidades e atender aos preceitos éticos da pesquisa.
Resultados e discussão
Nesta seção, são analisados os resultados da pesquisa obtidos por meio dos questionários aplicados aos professores de Educação Física. Com base em autores como Trento, e Meneghel (2023) e o Coletivo de Autores (1992), buscou-se compreender a percepção docente acerca dos jogos de mesa e sua inserção nas aulas de Educação Física, especialmente em contextos nos quais o uso da área externa da escola não é possível. As respostas são apresentadas de forma descritiva e interpretativa, articulando os dados empíricos com o referencial teórico.
Jogos de mesa disponíveis e utilizados
Em relação aos jogos de mesa disponíveis nas escolas, a maioria dos professores participantes relatou ter acesso a uma variedade de recursos que podem ser incorporados às aulas de Educação Física. Com base nas respostas, foi elaborado um quadro contendo os jogos mencionados e a frequência com que apareceram nos relatos.
Tabela 1. Jogos de mesa disponíveis nas escolas dos professores
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Jogos disponíveis |
Número de vezes mencionados pelos professores |
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Xadrez e Trilha |
5 |
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Jogo da Memória e Damas |
4 |
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Resta Um e Dominó |
3 |
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Cai não Cai e Cara a Cara |
2 |
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Mancala, Jogo da Onça e Lig 4 |
1 |
Fonte: Elaboração própria
O presente dado evidencia a variedade de recursos e abordagens que os educadores podem utilizar para enriquecer suas práticas pedagógicas.
No que diz respeito à utilização dos jogos de mesa no planejamento dos professores no ano letivo atual, observa-se que, apesar de ainda haver uso limitado, experiências internacionais indicam que práticas intencionais e sistemáticas com jogos de mesa podem potencializar o desempenho acadêmico e o desenvolvimento de funções executivas em estudantes da educação básica (Sotoca-Orgaz, Marín-Suelves, e García-García, 2025; Vita-Barrull et al., 2024). Resultados de intervenções conduzidas na Espanha e no Reino Unido mostram que tais jogos, quando integrados de forma regular ao currículo, contribuem não apenas para habilidades cognitivas, mas também para a colaboração e a autorregulação dos alunos. (Velázquez Callado, 2025; Alotaibi, 2024)
Esses achados dialogam com pesquisas recentes que evidenciam o valor pedagógico dos jogos de mesa no desenvolvimento de habilidades cognitivas, sociais e emocionais, quando utilizados com intencionalidade didática e em sessões regulares de 30 a 60 minutos. (Pereira, 2025)
Em relação ao xadrez, destacamos que, na questão anterior, ele é o jogo de mesa que mais foi mencionado nas escolas do município.
O professor deve deixar claro que no xadrez o respeito com o colega é fundamental, e nisso está a possibilidade - como princípio positivo - de trabalhar a competência social. O convívio de jogar um de frente para o outro ou em grupos, respeitando o tempo de cada jogada, faz parte de um comportamento social e que deve ser trabalhado nas aulas de xadrez. Também a relação entre gêneros, uma vez que no caso do esporte de contato físico os meninos geralmente têm vantagem sobre as meninas por seu condicionamento físico ser melhor desenvolvido. No xadrez esse condicionamento físico é igualitário, já que não há contato físico, somente o trabalho mental das funções psicológicas superiores, de planejamento e execução de jogadas, ou seja, “o condicionamento físico biológico de meninos e meninas se equivale”. (Meneghel, 2019, p. 7)
Além disso, jogos como resta um, jogo da memória, dominó, damas e trilha tiveram uma presença significativa nas atividades desenvolvidas com os alunos nesse ano. Segundo Silva (2010), um jogo educacional pode oferecer ao usuário um ambiente de aprendizagem rico e complexo. No entanto, ao serem implementados no contexto escolar com fins educacionais, é fundamental que tenham objetivos de aprendizagem claramente definidos e que ensinem conteúdo das disciplinas aos alunos, essa abordagem coaduna com a necessidade de uma transformação didático-pedagógica da área, voltada à formação integral do aluno (Kunz, 1994). Os benefícios da interação das crianças com jogos educacionais vão além da motivação e do envolvimento na aprendizagem, pode-se desenvolver raciocínio lógico, autonomia, habilidades, estratégicas, motricidade e vocabulário. (Silva, 2010)
Ainda na questão sobre os jogos que foram desenvolvidos com os alunos no respectivo ano letivo, destacamos o professor D, uma vez que trouxe a presença do jogo de mesa conhecido como "jogo da onça", de origem indígena, simbolizando força e ataque para algumas tribos. Conhecido como Adugo, ele é popular entre os povos indígenas Bororo do Mato Grosso, os Manchakerino do Acre e os Guarani de São Paulo. Mileski, e Ramon (2012) indicam que o jogo foi representado em uma gravura da época da dominação espanhola dos incas, em que Atahualpa, o último imperador, joga com seus carcereiros antes de ser executado em 1553. Nessa cultura, o 'puma' é o protagonista, enquanto os carneiros ocupam um papel secundário.
A criatividade dos indígenas na criação de jogos utilizando materiais comuns à sua realidade é amplamente reconhecida. Assim, incentivar o resgate dessas memórias enriquece as aulas, especialmente quando esses jogos são incorporados como prática pedagógica pelos professores. (Mileski, e Ramon, 2012)
Quando questionados sobre a utilização de jogos de mesa em suas aulas de Educação Física nos anos anteriores, todos os participantes da pesquisa afirmaram que já haviam incorporado esses jogos em suas práticas. Entre os jogos mencionados, xadrez, trilha, resta um e jogo da memória se destacaram como os mais utilizados.
Os jogos de mesa representam uma expressão da cultura corporal que pode ter um papel significativo na aprendizagem e no desenvolvimento dos estudantes. Entretanto, muitas vezes são percebidos apenas como uma forma de lazer, e não como um conteúdo relevante para o currículo da Educação Física escolar. (Trento, e Meneghel, 2023)
A cultura corporal engloba um conjunto de manifestações, práticas, valores, expressões e atividades ligadas ao corpo humano e ao movimento. Essa perspectiva inclui esportes, danças, jogos, ginásticas e outras práticas corporais que são transmitidas ao longo do tempo em diversos contextos culturais e sociais. Não se restringe aos aspectos físicos e técnicos dessas atividades, mas também carrega significados sociais e históricos. É moldada pelas tradições, crenças, costumes e valores de uma sociedade, variando entre culturas. Seu propósito é aprofundar a compreensão do corpo e do movimento humano, promovendo o respeito pela diversidade cultural e apreciação das diversas formas de expressão. Isso contribui para que os estudantes desenvolvam habilidades motoras, competências sociais e consciência cultural, reconhecendo a cultura corporal como parte essencial da formação humana. (Coletivo de Autores, 1992)
Ainda quanto a essa pergunta, o professor F mencionou que costuma criar materiais alternativos para integrar jogos de tabuleiro em suas aulas: “Já tivemos um conteúdo chamado jogos de tabuleiro, onde construímos vários tipos de jogos juntamente com os alunos”. Nessa abordagem, os alunos são incentivados a criar seu próprio jogo de tabuleiro, criando suas regras, personagens e personalizando-o de acordo com sua criatividade.
É fundamental estimular a criatividade dos alunos. De acordo com Alencar (1993, p. 15), "a criatividade envolve a emergência de um novo produto, seja uma ideia ou uma invenção original, ou ainda a reelaboração e aprimoramento de ideias ou produtos já existentes". Alencar (1993) também destaca que um produto criativo deve ser uma resposta adequada a uma situação específica. A atividade de criar os próprios jogos é significativa para os alunos, pois aprofunda o conteúdo abordado, desperta interesse e favorece a aprendizagem ativa. Pesquisas recentes reforçam que o design participativo de jogos de mesa, orientado por objetivos pedagógicos claros, amplia a motivação intrínseca e desenvolve competências de resolução de problemas, pensamento crítico e colaboração (Estrada-Plana et al., 2024; Alotaibi, 2024). Tais achados sugerem que envolver os estudantes no processo de concepção e personalização de jogos educativos pode maximizar seu engajamento e facilitar a apropriação dos conteúdos curriculares.
Motivação e inserção dos jogos de mesa no planejamento
Com relação ao questionamento sobre o motivo de incluir os jogos de mesa em suas aulas e como esses conteúdos são inseridos em seus planejamentos, optamos por descrever todas as respostas dos professores de forma mais íntegra possível, a fim de qualificar o trabalho, bem como atingir os objetivos previstos na presente pesquisa.
Tabela 2. Motivo de incluir os jogos de mesa em suas aulas
e como esses conteúdos são inseridos em seus planejamentos
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Professor |
Motivo |
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A |
Utiliza jogos de mesa pelos benefícios ao desenvolvimento cognitivo e à interação social, especialmente quando não é possível usar a área externa da escola. |
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B |
Afirma seguir a BNCC, que prevê jogos e brincadeiras como conteúdo, utilizando-os como alternativa pedagógica em dias de chuva pela falta de espaço coberto. |
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C |
Inclui os jogos no planejamento pedagógico, com registro no sistema educacional, garantindo sua integração ao ensino. |
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D |
Utiliza os jogos para desenvolver concentração, respeito ao outro, paciência, atenção e estratégias de jogo. |
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E |
Relata que os jogos auxiliam no desenvolvimento cognitivo e ampliam o acesso dos alunos a experiências lúdicas que muitos não têm em casa. |
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F |
Destaca os jogos de mesa como conteúdo curricular significativo, citando o xadrez, no qual trabalha história, peças, jogadas e prática. |
Fonte: Elaboração própria
Diante das respostas apresentadas, é importante destacar que as propostas e interesses dos professores em relação aos jogos de mesa estão mais alinhados com uma das perspectivas analisadas por Kishimoto (2016): a que afirma que o jogo pode ser utilizado como uma forma de descanso. No entanto, é fundamental reconhecer que os temas relacionados à Educação Física não devem ser abordados apenas como forma de descontração ou como alternativa em dias de chuva, quando não há outras atividades a serem realizadas.
Elkonin (1998) aponta que o jogo deve contribuir para o desenvolvimento pessoal da criança. Além disso, o Coletivo de Autores (1992) ressalta que as aulas de Educação Física devem levar os alunos a uma reflexão crítica sobre a realidade, utilizando a cultura corporal, como jogos, esportes, danças, ginástica e lutas. Se os jogos de mesa forem utilizados apenas como lazer ou em dias de chuva, não estaremos promovendo um espaço de reflexão crítica. Nesse cenário, os alunos jogarão apenas por jogar, sem pensar sobre suas ações ou compreender a importância dessa prática.
Uma compreensão diferenciada das perspectivas citadas quanto à utilização dos jogos de mesa foi a manifestada pelo professor F quando, ao ser questionado, afirmou que "nas aulas de Educação Física, os jogos de mesa ajudam a tornar o aluno um sujeito ativo de sua aprendizagem, relacionando-o, por exemplo, a um contexto de jogo ou brincadeira.” Essa visão destaca o papel dos jogos de mesa como ferramentas importantes para promover a participação e a interação entre os alunos, enriquecendo a experiência de aprendizagem e tornando-a mais dinâmica e envolvente.
Estruturar um programa de Educação Física ou de outra disciplina e selecionar os seus conteúdos é um problema metodológico básico, uma vez que, quando se aponta o conhecimento e os métodos para sua assimilação, se evidencia a natureza do pensamento teórico que se pretende desenvolver nos alunos. Podemos dizer que o programa é o pilar da disciplina e que seus elementos principais são: 1) o conhecimento de que trata a disciplina, sistematizado e distribuído, que geralmente se denomina de conteúdos de ensino; 2) o tempo pedagogicamente necessário para o processo de apropriação do conhecimento; e 3) os procedimentos didático-metodológicos para ensiná-lo. (Coletivo de Autores, 1992, p. 41)
De acordo com o Coletivo de Autores (1992), o conhecimento que os professores têm sobre os temas que ensinam é crucial para a qualidade da educação que oferecem aos seus alunos. Quando os docentes possuem um entendimento aprofundado do conteúdo, conseguem desenvolver suas aulas de maneira mais eficaz e transmitir o conhecimento com maior clareza. Essa familiaridade permite que os professores explorem o tema de forma mais abrangente, proporcionando informações mais ricas e contextualizadas. Além disso, eles podem se adaptar às necessidades específicas de cada aluno, o que resulta em uma aprendizagem mais significativa. Por meio desse processo educativo, os estudantes são capazes de potencializar diversas habilidades, como concentração, memória, pensamento lógico e resolução de problemas.
Contribuições pedagógicas percebidas e desafio
Em outra questão, os professores foram interrogados sobre qual seria a contribuição dos jogos de mesa, em suas perspectivas, para o desenvolvimento dos alunos. A maioria dos docentes afirmou que esses jogos favorecem habilidades como raciocínio lógico, atenção, concentração, trabalho em equipe, estratégia, memória e coordenação motora.
De acordo com Vygotski (1979), o jogo é uma forma de interação social que facilita o aprendizado, pois permite que as crianças pratiquem habilidades de comunicação e cooperação. Essa afirmação ressalta a importância dos jogos de mesa na promoção do trabalho em equipe e das habilidades sociais.
Além de promover o desenvolvimento das habilidades cognitivas, que se desenvolvem de forma gradual ao longo da vida, sendo influenciadas por fatores genéticos, ambientais e experiências de aprendizado, a utilização de jogos no ambiente escolar também contribui para o aprimoramento das habilidades emocionais e sociais, uma vez que incentiva a interação social e a colaboração entre os participantes. O uso de jogos coloca os jogadores em situações de negociação, conflito e oposição, visto que essa atividade é regida por regras específicas, exigindo que os indivíduos aprendam a autorregular seu comportamento e a lidar com frustrações, como a de uma derrota, por exemplo. (Ramos, 2014)
No desenvolvimento, a imitação e o ensino desempenham um papel de primeira importância. Põem em evidência as qualidades especificamente humanas do cérebro e conduzem a criança a atingir novos níveis de desenvolvimento. A criança fará amanhã sozinha aquilo que hoje é capaz de fazer em cooperação. Por conseguinte, o único tipo correto de pedagogia é aquele que segue em avanço relativamente ao desenvolvimento e o guia; devem ter por objetivo não as funções maduras, mas as funções em vias de maturação. (Vygotski, 1979, p. 138)
Ao serem questionados sobre os principais desafios enfrentados para integrar os jogos de mesa em suas práticas pedagógicas, os professores destacaram uma série de obstáculos que comprometem o desenvolvimento do conteúdo. Entre os pontos mais citados, ressaltaram-se a escassez de materiais adequados para contemplar todos os alunos e a quantidade limitada de jogos de mesa disponíveis, o que dificulta a implementação das atividades. Além disso, foi relatada a dificuldade em lidar com a inquietação e a resistência dos estudantes em manter a atenção e o interesse durante as instruções e a execução dos jogos. Outro fator é a falta de um ambiente apropriado para a realização das aulas, uma vez que, em muitos casos, essas práticas são exercidas em espaços improvisados, como o refeitório escolar, o que impacta negativamente o engajamento e a qualidade das dinâmicas propostas.
Por se tratar de crianças, os professores precisam adotar abordagens específicas que levem em conta as características e necessidades dos alunos. É fundamental que os educadores conheçam bem seus estudantes e entendam como os jogos de mesa podem beneficiá-los, assim como consideram outras atividades que despertam seu interesse e motivação. (Trento, e Meneghel, 2023)
Cada estudante é único, com suas próprias preferências, habilidades e níveis de desenvolvimento. Segundo o Coletivo de Autores (1992), os professores devem ser flexíveis em suas abordagens, ajustando o ensino dos conteúdos de acordo com as características de seus alunos, bem como com suas capacidades sociocognoscitivas. Isso envolve escolher jogos de mesa apropriados para a faixa etária, incorporar estratégias pedagógicas que atendam às necessidades individuais e criar um ambiente de aprendizado estimulante para as crianças. Nesse sentido, o professor F comentou: “O principal desafio é permanecer na sala, ou seja, sem entrar em brincadeiras ou esportes de movimento”.
A resistência em aceitar os jogos de mesa como parte do conteúdo da Educação Física pode surgir da falta de compreensão sobre sua importância e relevância. Cabe ao professor esclarecer que esses jogos devem ser incluídos nas aulas, pois desenvolvem diversas habilidades essenciais para o crescimento dos alunos. Ao fazer isso, os estudantes poderão entender que os jogos de mesa são fundamentais para seu aprendizado. (Trento, e Meneghel, 2023)
Conclusões
Com base nas informações coletadas por meio do questionário e no que a literatura tem demonstrado, constatamos que os jogos de mesa não estão sendo integrados nos planejamentos dos professores de Educação Física do Ensino Fundamental para ampliar o conhecimento dos alunos. Zanelato, e Pereira (2024) destacam que muitos docentes os veem apenas como lazer para "acalmar" os alunos ou como alternativa em dias de chuva, tratando-os como solução para problemas de organização nas aulas.
Embora os jogos possam formar alunos capazes de entender a sociedade e desenvolver funções cognitivas superiores, há necessidade de maior conscientização e formação docente para seu uso pedagógico eficaz especialmente no que tange à interdisciplinaridade do conteúdo (Fazenda, 2008). Alguns professores reconhecem sua importância e os utilizam com objetivos claros, como estimular a aprendizagem colaborativa, trabalhar em equipe e refletir sobre regras, ainda que nem sempre alinhados às propostas teóricas.
Apesar dessas limitações locais, a literatura internacional recente mostra que, quando aplicados intencionalmente, os jogos de mesa melhoram o engajamento, o desempenho acadêmico e as competências socioemocionais (Mo et al., 2024; Sotoca-Orgaz et al., 2025; Vita-Barrull et al., 2024; Velázquez Callado, 2025). Estudos na Espanha, América Latina e Europa Central confirmam seu potencial pedagógico na Educação Física escolar.
Por fim, os estudos sobre a inserção desses jogos nos planejamentos de Educação Física no Ensino Fundamental ainda são escassos, evidenciando a necessidade de mais pesquisas para aprofundar o tema e analisar seu impacto no ensino-aprendizagem.
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Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 31, Núm. 335, Abr. (2026)