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ISSN 1514-3465

 

Modalidades de lutas na Educação Física brasileira: um estudo bibliométrico

Modalities of Fights in Brazilian Physical Education: A Bibliometric Study

Modalidades de deportes de combate en la Educación Física brasileña: un estudio bibliométrico

 

Francisco Filipe Damasceno Fernandes*

filipeljr@gmail.com

Antonio Jansen Fernandes da Silva**

jansentimao@hotmail.com

Maria Eleni Henrique da Silva***

melenih@hotmail.com

 

*Doutorando em Educação

pela Universidade Federal do Ceará (UFC)

Mestre em Educação pela UFC

Especialista em Educação Física Escolar

pela Universidade Estadual do Ceará (UECE)

Licenciatura e bacharelado em Educação Física pela UFC

Professor da Secretaria Municipal de Educação de Fortaleza

Membro do Grupo de Pesquisa em Educação Física Escolar - Saberes em Ação

vinculado ao Instituto de Educação Física e Esportes

da Universidade Federal do Ceará IEFES/UFC

**Doutor em Educação pela UFC

Mestre em Educação Física pelo Mestrado Profissional

em Educação Física em Rede Nacional (PROEF/UFRN)

Professor da Secretaria Municipal de Educação de Fortaleza

e da Secretaria Estadual de Educação do Ceará

Membro do Grupo de Pesquisa em Educação Física Escolar - Saberes em Ação

vinculado ao Instituto de Educação Física e Esportes

da Universidade Federal do Ceará IEFES/UFC

***Possui graduação em Educação Física pela UFC

Mestrado em Educação pela UFC

Doutorado em Educação pela Universidade Federal da Paraíba

Professora Adjunta e Diretora do Instituto de Educação Física e Esportes da UFC

Coordenadora do Grupo de pesquisa Saberes em Ação

Coordena Projeto de Extensão com ênfase na área de Formação Continuada

de professores de Educação Física e Esportes

Atualmente, é professora do Programa de Pós-Graduação

em Educação Brasileira, na Linha de Pesquisa

Movimentos Sociais, Educação Popular e Escola

(Brasil)

 

Recepción: 28/08/2024 - Aceptación: 13/06/2026

1ª Revisión: 18/05/2026 - 2ª Revisión: 21/05/2026

 

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https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/deed.pt

Cita sugerida: Fernandes, F.F.D., Silva, A.J.F. da, e Silva, M.E.H. da (2026). Modalidades de lutas na Educação Física brasileira: um estudo bibliométrico. Lecturas: Educación Física y Deportes, 31(338), 115-129. https://doi.org/10.46642/efd.v31i338.7867

 

Resumo

    O objetivo deste estudo foi analisar as produções acadêmico-científicas brasileiras a respeito das modalidades de lutas, artes marciais e esportes de combate, para averiguar quais estão mais presentes em estudos relacionados à área da Educação Física. Foi utilizado a pesquisa quantitativa, do método bibliométrico. As buscas foram por trabalhos publicados entre os anos de 2009 a 2018, disponíveis em português para download, em revistas nacionais de Qualis B2 (no mínimo) da área da Educação Física e nos repositórios dos programas de pós-graduação em Educação e em Educação Física. Os achados da pesquisa chegaram a 88 dissertações e teses e 119 artigos científicos, totalizando 207 trabalhos. Percebe-se que a Capoeira, o Judô e as Lutas em geral foram as maiores modalidades em termo de produções científicas, respectivamente. Nota-se também que a Revista Brasileira de Ciência e Movimento possui o maior número de publicações de artigos. É possível inferir a variedade de modalidades de lutas encontradas nesta pesquisa.

    Palabras clave: Lutas. Educação Física. Estudo bibliométrico.

 

Abstract

    The objective of this study was to analyze the Brazilian academic-scientific productions regarding the modalities of fighting, martial arts and combat sports to ascertain which are more present in studies related to the area of Physical Education. Quantitative research was used, using the bibliometric method. The searches were for works published between 2009 and 2018, available in Portuguese for download in national journals of Qualis B2 (at least) in the area of Physical Education and in the repositories of graduate programs in Education and Physical Education. The research findings yielded 88 dissertations and theses and 119 scientific articles, totaling 207 papers. It can be seen that Capoeira, Judo and Fights in general were the largest modalities in terms of scientific productions, respectively. It is also noted that the Brazilian Journal of Science and Movement has the largest number of article publications. It is possible to infer the variety of fighting modalities found in this research.

    Keywords: Fights. Physical Education. Bibliometric study.

 

Resumen

    El objetivo de este estudio fue analizar la producción académica y científica brasileña sobre modalidades de lucha, artes marciales y deportes de combate, para determinar cuáles tienen mayor presencia en los estudios relacionados con el área de Educación Física. Se empleó una investigación cuantitativa mediante el método bibliométrico. Las búsquedas se realizaron en publicaciones entre 2009 y 2018, disponibles en portugués para su descarga, en revistas nacionales con Qualis B2 (como mínimo) en el área de Educación Física y en los repositorios de programas de posgrado en Educación y Educación Física. Los resultados de la investigación incluyeron 88 disertaciones y tesis y 119 artículos científicos, sumando un total de 207 trabajos. Se observó que la Capoeira, el Judo y la Lucha en general fueron las modalidades con mayor producción científica. Asimismo, se constató que la Revista Brasileña de Ciencia y Movimiento cuenta con el mayor número de artículos publicados. Es posible inferir la variedad de modalidades de lucha encontradas en esta investigación.

    Palabras clave: Luchas. Educación Física. Estudio bibliométrico.

 

Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 31, Núm. 338, Jul. (2026)


 

Introdução 

 

    Atualmente, as lutas são um elemento da cultura corporal que está presente em diversos âmbitos da vida em sociedade (Ferreira et al., 2022; Soares et al., 2024), tanto como uma prática esportiva voltada para o lazer e/ou atividade física, quanto para eventos esportivos profissionais assistidos por milhares de pessoas, ou utilizada em coreografias de filmes de ação e jogos de vídeo games. Independentemente do local e da situação na qual estão presentes, as lutas são facilmente reconhecidas e identificadas devido suas características marcantes no que tange ao confronto, aos golpes e as emoções que despertam em quem as assiste.

 

    Luta é um termo usado para todo combate entre dois ou mais indivíduos, com ou sem algum tipo de treinamento (Ferreira, 2012) e, geralmente, implica diversos tipos de representações e significados, o que lhe confere uma dimensão polissêmica (Correia, e Franchini, 2010). Rufino (2012) acrescenta que a palavra se origina do latim luctari, e afirma que “a palavra ‘lutar’ pode conter em si uma série de significados que variam de acordo com o contexto”. Para o autor, o ato de lutar surgiu com a própria origem do homem, desde as épocas mais remotas de sua existência (Rufino, 2012; Santos et al., 2023). Indo além, este autor pondera que o surgimento das lutas não foi algo natural ou espontâneo, mas sim, um processo de muitas transformações vividas por diversas sociedades com inúmeras mudanças, rupturas e descontinuidades. (Rufino, 2012)

 

    Conforme as sociedades humanas foram evoluindo e complexificando-se, mais formas de lutar foram surgindo (Soares et al., 2024), o que propiciou o surgimento dos esportes ou modalidades esportivas de combate, que segundo Correia, e Franchini (Correia, e Franchini, 2010) implicam uma prática de luta sistematizada e decodificada por instituições esportivas. O que torna aspectos como a competição, a mensuração, a comparação de resultados, as regras e as normas codificadas e institucionalizadas, dentre outros axiomas da prática. Logo, é possível afirmar que, historicamente, as lutas acompanham a evolução dos seres humanos e de suas formas de organização social. (Soares et al., 2024)

 

    Presentes nas aulas de Educação Física escolar (Pereira et al., 2024a; Cunha et al., 2025), em filmes e séries, nos jogos de vídeo game e em competições internacionais, as lutas se configuram como um fenômeno humano amplamente conhecido, mesmo que em alguns contextos e momentos estigmatizados. Devido sua importância histórica para a evolução das civilizações humanas, bem como, sua atual relevância nos contextos esportivos e educacionais é que este trabalho se justifica e apresenta um breve panorama da produção acadêmica brasileira sobre as modalidades de lutas. Salientando que o presente artigo tem informações e dados provenientes da dissertação produzida por Fernandes (2021), assim como um artigo (Fernandes et al., 2024), mas com o enfoque na produção acadêmica sobre as modalidades de artes marciais e esportes de combate, o qual não foi dado nos trabalhos anteriores.

 

    Diante do exposto, o objetivo deste estudo foi analisar as produções acadêmico-científicas brasileiras a respeito das modalidades de lutas, artes marciais e esportes de combate para averiguar quais estão mais presentes em estudos relacionados à área da Educação Física.

 

Metodologia 

 

    Foi utilizada a pesquisa quantitativa, do método bibliométrico. A bibliometria, de acordo com Araújo (2006), é uma técnica quantitativa e estatística de medição dos índices de produção e disseminação do conhecimento científico que consiste na aplicação de técnicas estatísticas e matemáticas para descrever aspectos da literatura, da informação e da produção acadêmica, dentre outras áreas. Com sua gênese no início do século XX, no Brasil a década de 1970 impulsionou muitos estudos desta natureza, o que foi descontinuado na década seguinte, mas retomado com o advento das tecnologias digitais, a partir de meados dos anos 1990. (Araújo, 2006; Hayashi, 2007)

 

    Inicialmente voltada para saber a quantidade de edições e exemplares de livros, quantidade de palavras e estatísticas relativas à indústria do livro, aos poucos foi se tornando mais voltada para o estudo de produções acadêmicas, como de artigos de periódicos, dissertações e teses. Tal fenômeno fez com que a bibliometria deixasse de ser um campo de pesquisa para tornar-se uma técnica extremamente útil para colher dados, como indicadores da produção científica, produção de determinadas temáticas em áreas específicas do saber, produtividade de autores e programas de pós-graduação, bem como termos e palavras utilizadas nos mesmos. Portanto, esse trabalho analisa quantitativamente, de forma objetiva, a produção científica sobre modalidades de lutas na Educação Física brasileira.

 

    Do ponto de vista teórico, a abordagem bibliométrica, se caracteriza pelo fornecimento de estruturas e representações para a análise e representação do objeto investigado (Hayashi, 2007). De modo geral, como foi dito anteriormente, o princípio da bibliometria é analisar a atividade científica pelo estudo quantitativo das publicações, porém, seu uso não acontece sem problemas ou questionamentos, como o demasiado tempo e custo nas produções, por exemplo. Por isso se faz essencial o conhecimento da estrutura e da dinâmica da científica, dos processos de comunicação e informação que se desenvolvem no seio da comunidade acadêmica. Outro ponto que faz este tipo de estudo receber críticas é o fato de utilizar uma abordagem predominantemente quantitativa, o que à miude é associado com tendências de pesquisas consideradas legitimadoras de ideologias dominantes. (Alvarenga, 1998)

 

    A utilização de métodos bibliométricos é vantajosa nos seguintes aspectos: na contribuição às avaliações de pesquisa na universidade; na avaliação de grupos da mesma área; na avaliação da contribuição de pesquisadores para determinada área, na classificação entre instituições, na visualização integral da bibliografia de um determinado campo temático. (Hayashi, 2007)

 

    É fundamental ressaltar que as estatísticas são mobilizadas para analisar a dimensão coletiva da atividade de pesquisa e o processo de construção do conhecimento. Os trabalhos que utilizam esse método, geralmente, se alinham a outros referenciais e métodos para enriquecer suas propostas de análise, a qual está presente desde o momento da escolha dos campos de informação até o relacionamento entre os dados obtidos. Os resultados refletem o conhecimento do pesquisador sobre o assunto pesquisado.

 

    As buscas foram por trabalhos publicados a partir do ano de 2009 até 2018, disponíveis em português para download gratuito, em revistas nacionais de Qualis B2 (no mínimo) na área da Educação Física e em repositórios de universidades brasileiras de programas de pós-graduação stricto sensu em Educação e em Educação Física. A escolha de procurar em tais bancos de dados se deu pela curiosidade em saber e mensurar quais modalidades de lutas e artes marciais são mais abordadas academicamente no Brasil. Dissertações, as teses e os artigos foram acessados diretamente nos sites dos repositórios institucionais e dos periódicos.

 

    No primeiro momento foram selecionados trabalhos que continham no título o termo luta(s), com o sentido marcial e/ou esportivo, além de títulos com citação ou referência a quaisquer modalidades específicas, como capoeira, judô e boxe, por exemplo. Após completar as buscas nas bases de dados, a etapa seguinte consistiu em catalogar as modalidades de lutas encontradas e agrupar os trabalhos por modalidades para, enfim, apresentar o levantamento bibliométrico aqui proposto. Apresentado através de uma tabela que detalha os achados quantitativos do trabalho.

 

    As buscas por teses e dissertações relacionados à modalidades de lutas foram realizadas nos seguintes repositórios de universidades que têm cursos de graduação em Educação Física e pós-graduações em Educação e/ou Educação Física: Universidade de Brasília (UnB), Universidade Federal de Pernambuco (UFPe), Universidade Federal do Ceará (UFC), Universidade de São Paulo (USP), Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), Universidade de Campinas (UniCamp), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Universidade Estadual Paulista Júlio Mesquita (Unesp), Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), Universidade Federal do Paraná (UFPR), Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Universidade Metodista de Piracicaba (UMP), Universidade Federal de Alagoas (UFAl).

 

    Outros quatorze repositórios foram visitados, mas devido dificuldade de acesso, problemas técnicos nos sites ou a não existência de trabalhos sobre lutas não serão aqui mencionados. As buscas nos repositórios de Universidades brasileiras renderam 86 trabalhos de pós-graduação, 29 teses e 57 dissertações, tematizando lutas e/ou contento em seus títulos e resumos temas como artes marciais ou esportes de combate.

 

    Após as buscas por teses e dissertações, a pesquisa focou nas revistas científicas brasileiras de Qualis1 B2 ou superior. Foram selecionados os estudos que tratam das lutas, artes marciais e esportes de combate que estejam disponíveis para download completo, depois foram classificados para chegar apenas aos trabalhos relacionados com o ensino de lutas na escola. As buscas ocorreram em periódicos da área da Educação Física que publicam artigos de cunho socioeducacional: Revista Movimento, Revista Motriz, Revista Brasileira de Ciências do Esporte, Revista Brasileira de Educação Física e Esportes, Revista da Educação Física, Revista Motrivivência, Revista Pensar a Prática, Revista Brasileira de Ciência e Movimento.

 

Resultados 

 

    Diante dos achados da pesquisa, é possível notar que a Revista Brasileira de Ciência e Movimento, com 20 artigos a respeito das lutas, foi o periódico com mais trabalhos baixados. Seguido pelos periódicos Revista Pensar a Prática e Revista da Educação Física, ambas com 18 artigos cada uma. Na Revista Motrivivência foram feitos o download de 17 artigos acerca das lutas, mesmo número da Revista Movimento. Na Revista Brasileira de Educação Física e Esportes 16 artigos tematizando as lutas foram encontrados.

 

    No site da Revista Motriz, a pesquisa contou apenas com os exemplares dos anos de 2009 e 2010, porque não havia publicações disponíveis referentes aos anos seguintes. Mesmo assim, foram encontrados 9 artigos abordando o tema lutas. E, no site da Revista Brasileira de Ciências do Esporte, só estava disponível o acesso às revistas de 2014 em diante, todas as anteriores que estavam em um setor diferente do site da revista, nos quais não estavam acessíveis e apresentavam erro ao serem acessados. Mesmo assim, 4 artigos tematizando lutas foram encontrados. No total, as buscas nos sites de periódicos científicos renderam 119 artigos tematizando lutas.

 

Tabela 1. Quantidade de revistas encontradas que tratam sobre as lutas

Periódicos

Número de estudos sobre as lutas (%)

Revista Brasileira de Ciência e Movimento

20 (16,8 %)

Revista Pensar a Prática

18 (15,12 %)

Revista da Educação Física

18 (15,12 %)

Revista Motrivivência

17 (14,28 %)

Revista Movimento

17 (14,28 %)

Revista Brasileira de Educação Física e Esportes

16 (13,44 %)

Revista Motriz

9 (7,56 %)

Revista Brasileira de Ciências do Esporte

4 (3,36 %)

Fonte: Elaborada pelos autores

 

    É importante salientar que nas buscas foram encontrados trabalhos abordando a temática das lutas em diversos aspectos, desde trabalhos que abordavam as lutas numa perspectiva pedagógica e centrada nos processos de ensino, como histórico de introdução das modalidades em determinadas regiões do país, aspectos fisiológicos da prática em atletas, divulgação por parte da mídia, medição da força de praticantes, dentre outros.

 

    As tabelas, acima e abaixo, explanam as modalidades encontradas e a quantidade de publicações destas modalidades nos sites dos periódicos visitados e dos repositórios, respectivamente.

 

Tabela 2. Quantidade de trabalhos acadêmicos e artigos científicos encontrados

para cada modalidade e número de trabalhos que tematizam as lutas

Modalidades

Dissertações e Teses (DT)

Artigos Científicos (AC)

Capoeira

29

19

Judô

19

25

Lutas (de forma geral)

9

20

MMA

8

6

Karatê

2

12

Jiu-jitsu

2

11

Kung-fu

6

5

Taekwondô

4

6

Esgrima

5

0

Boxe

0

4

Luta olímpica

2

0

Aikidô

1

1

Sumô

0

1

Kendô

0

1

Muay Thai

1

0

Fonte: Elaborada pelos autores

 

    As buscas em repositórios renderam 88 dissertações e teses, 42,51 % do total. Já as buscas em periódicos renderam 119 artigos científicos, 57,49 % do total. Somando as dissertações, as teses e os artigos científicos foram 207 downloads de arquivos. A soma de todos os trabalhos acadêmicos acessados nos repositórios é de 16.995 teses e dissertações e a soma dos artigos acessados nos periódicos totaliza 3.622, totalizando 20.617 trabalhos científicos visitados durante as buscas.

 

    A capoeira foi a modalidade de luta com maior produção no universo observado, dentre os trabalhos acadêmicos foi a que mais apareceu, com 10 teses e 19 dissertações, os artigos científicos foram 19, o que totaliza 48 trabalhos. Neste sentido, os trabalhos sobre capoeira representam cerca de 24 % dos 207 trabalhos acessados.

 

    O judô foi a segunda modalidade mais encontrada, com uma produção de 9 teses, 10 dissertações e 25 artigos. Os 44 trabalhos relacionados a esta modalidade, cerca de 22 % dos 207, há trabalhos dos mais diversos, desde análises fisiológicas, trabalhos sobre força de preensão, rendimento em competições e ensino nas aulas de Educação Física escolar.

 

    Algo recorrente durante esta pesquisa foram trabalhos que tratavam as lutas de maneira geral, pois se referiam às artes marciais, por exemplo, e aspectos genéricos, sem focar em uma modalidade de luta específica. Estes 31 trabalhos foram agrupados em uma categoria denominada de lutas de forma geral, composta por 3 teses, 6 dissertações e 22 artigos, aproximadamente 15 % do total. Vale lembrar que a definição ampla dos trabalhos agrupados neste grupo pode ser apontada como um fator que contribuiu para esta alta porcentagem.

 

    A produção relativa ao Mixed Martial Arts (MMA) com 14 trabalhos, compostos por 2 teses, 6 dissertações e 6 artigos, cerca de 7 % dos 207. São recorrentes abordagens fisiológicas de respostas ao treinamento, à perca de peso, e, também, pesquisas sobre percepção de estresse e com aspectos sociológicos. Também com 14 trabalhos, cerca de 7 % dos 207, o karatê apareceu como uma das modalidades com mais publicações, sendo 2 dissertações e 12 artigos. Porém, nenhum trabalho tratava da modalidade na Educação Física escolar, pois abordavam de forma hegemônica aspectos fisiológicos, biomecânicos e historiográficos, além dos que tratavam das lutas de alto rendimento.

 

    O Jiu-jitsu apareceu em 2 dissertações e 11 artigos científicos, 6,2 % do total. A maioria dos trabalhos desta modalidade tratava de aspectos fisiológicos, do treinamento de atletas de alto rendimento, análise de valências físicas e outros elementos interessantes, mas que este trabalho não tem condições de incluir na análise vindoura.

 

    Foram 11 trabalhos sobre Kung-fu, mas vale salientar que incluí nesta categoria os trabalhos que traziam nomenclaturas como tai chi chuan e wushu. Composta por 2 teses, 4 dissertações e 5 artigos, cerca de 5,3 % do total.

 

    O Taekwondô conta com 10 trabalhos: 1 tese, 3 dissertações e 6 artigos. Aproximadamente 4,9 % dos 207 trabalhos acessados. As produções sobre esta modalidade são, em sua maioria, da área da biomecânica e da fisiologia, não sendo o foco deste estudo.

 

    A Esgrima foi encontrada em 5 trabalhos, sendo 2 teses e 3 dissertações. Cerca de 2,4 % do total. Um trabalho tratava de aspectos sociológicos e históricos da modalidade e os restantes tratavam da esgrima para cadeirantes, com 1 tese e 1 dissertação falando do ensino. Cabe salientar que não foi encontrado nenhum artigo tematizando a esgrima nos bancos de dados visitados.

 

    O boxe evidenciou em 4 artigos científicos. Aproximadamente 2 % dos trabalhos acessados. A modalidade foi abordada nestes artigos embasada nas ciências humanas com análises sociológicas, metade deles com discussões sobre a participação feminina, o que foi uma surpresa, pois esperava que, por ser uma modalidade de luta tão tradicional, houvesse mais estudos sobre sua prática em alto rendimento.

 

    A luta olímpica apareceu com 2 dissertações, sendo uma direcionada à discussão de temas relativos à fisiologia e nutrição de atletas, enquanto o outro abordava o conhecimento de professores para o ensino da modalidade. Esta modalidade representa cerca de 0,9 % do total.

 

    O Aikidô revelou em 1 dissertação e 1 artigo, sendo que o primeiro trabalho tratava de uma experiência de aprendizagem da modalidade por um grupo de atores, e o segundo apresentava análise de dados fisiológicos, como pressão arterial e composição corporal. Também cerca de 0,9 % do total.

 

    O Kendô, o Sumô e o Muay Thai apareceram em apenas 1 artigo científico cada, tematizando, respectivamente, ensino em ambiente não escolar, aspectos históricos do desenvolvimento da modalidade em uma cidade do Rio Grande do Sul, treinamento e seus efeitos na composição corporal. Cada qual representa, aproximadamente, 0,5 % dos 207 trabalhos acessados nas buscas.

 

Discussão 

 

    Após os resultados obtidos nesta pesquisa, é notável que a Revista Brasileira de Ciência e Movimento tem como objetivo disseminar a produção científica nas áreas da atividade física, do exercício e do esporte, através da publicação de resultados de pesquisas originais e de outras formas de documentos que contribuam para o conhecimento fundamental e aplicado no âmbito das Ciências da Saúde. Isso demonstra o elevado número de publicações sobre essa prática corporal, pois as lutas enquanto esporte de combate vem crescendo significativamente, em termos de pesquisas, nos últimos anos.

 

    Observando os achados da pesquisa é possível compreender que a capoeira foi a modalidade de luta mais recorrente nas buscas, o que ocorre devido seu valor educativo e sua representação como patrimônio cultural imaterial. Afinal, há muito para tratar sobre suas origens com os povos escravizados no Brasil, mudanças da prática nos períodos de escravidão e pós-abolição, proibição, popularização no século XX e reconhecimento como importante ferramenta educacional e cultural, assim como, peculiaridades e diferenças entre a capoeira angola e a regional, a importância da música e da ginga na roda, dentre outras. (Brito, 2014; Pereira et al., 2024b)

 

    Também é possível considerar que as leis nº 10639/03 (Brasil, 2003) e nº 11645/08 (Brasil, 2008) são de fundamental importância para a quantidade de trabalhos que tematizam a capoeira (Pereira et al., 2024b), afinal, estas tratam, respectivamente, do ensino da História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena em todas as escolas do Brasil, o que impulsiona as produções e ações de ensino da modalidade da luta. Outros fatores ainda podem ser adicionados aos anteriores como o fato de haver por todo o Brasil iniciativas de ensino da capoeira em projetos nas escolas que ocorrem no contraturno dos estudantes ou em organizações não governamentais (ONG’s), como é o analisado no trabalho de Pereira (Pereira, 2016), e, em vários dossiês publicados sobre a modalidade de luta.

 

    Sobre o judô, esporte olímpico com ampla tradição global (Lacerda-Swendsen, e Rocha, 2024), há uma alta produção acadêmica, principalmente, em artigos que tratam de aspectos fisiológicos e relacionados ao esporte de rendimento, formação de atletas e desempenho em competições. Tal constatação é evidente, afinal, esta é uma das modalidades de luta mais praticadas e populares do mundo. Trabalhos na área da Educação e que versam sobre atividade escolar também são significativas, como os de So (So, e Betti, 2018a; So et al., 2018b), por exemplo. Esta foi a modalidade de luta com produções mais heterogêneas. Uma vez que, é preciso considerar as especificidades e generalidades dos locais em que as buscas ocorreram, ou seja, em periódicos da área da Educação Física e teses de dissertações da área da Educação Física e da Educação.

 

    É importante ressaltar que ao analisar apenas os trabalhos oriundos de periódicos científicos, o judô supera a capoeira em quantidade de achados, o que demonstra uma grande representatividade, que associada à elevada quantidade de temas discutidos nos trabalhos sobre esta modalidade lhe conferem um caráter amplo e repleto de especificidades nas discussões acadêmicas promovidas.

 

    Na categoria das lutas no contexto geral, foram incluídos artigos científicos que tematizam jogos de lutas sem vincular tais práticas lúdicas a nenhuma modalidade específica, trabalhos que abordam aspectos genéricos e que citam mais de uma modalidade, por exemplo. Autores como Rufino, e Darido (2015), trouxeram grandes contribuições no entendimento desta categoria do estudo, a qual traz, em geral, relevantes reflexões sobre os conceitos de luta e, principalmente, sobre a intervenção na Educação Física escolar. Os referidos autores afirmam que as questões relacionadas ao processo de ensino e aprendizagem das lutas especificamente devem levar em consideração os materiais didáticos e a formação continuada.

 

    O MMA é uma modalidade de luta que vem tornando-se mais popular com o tempo devido aos altos investimentos de eventos esportivos nos mais diversos tipos de mídia (Furtado, 2023). Presente nas televisões, filmes e jogos de vídeo game, esta luta levou tempo para se tornar um fenômeno de massas, como reitera Millen Neto (Millen Neto et al., 2016). Essa modalidade, junto com o karatê, ocupa o quarto lugar em maior número de produções.

 

Conclusões 

 

    O objetivo desta investigação foi analisar as produções acadêmico-científicas brasileiras a respeito das modalidades de lutas. A maior produção das publicações cientificas versam sobre a Capoeira, o Judô e as lutas de forma geral. Foi possível observar também, que a maioria das publicações sobre capoeira estão em teses e dissertações de diferentes Programas de Pós-Graduação do Brasil. Por outro lado, percebe-se uma grande produção, em artigos científicos, do judô e das lutas de forma geral.

 

    Com relação as revistas da área da Educação Física no Brasil, o maior número de publicações de artigos científicos acerca das lutas é da Revista Brasileira de Ciência e Movimento no período pesquisado. Esse periódico vem contribuindo significativamente com a área e a temática em questão.

 

    É possível constatar a variedade de modalidades de lutas encontradas nesta pesquisa, 14 no total. Isso demonstra a diminuição da centralização dos estudos acerca das lutas em poucas modalidades. Sabe-se que ainda é preciso avançar nas produções acadêmico-cientificas sobre o tema, mas é possível notar sua evolução. Outra constatação a ser elencada é o aumento das publicações a respeito das lutas no que tange aos aspectos da Fisiologia, Biomecânica, Nutrição, Treinamento Esportivo, Composição Corporal, dentre outras.

 

    Se espera que outras pesquisas sejam desenvolvidas para ampliar o debate da área e, consequentemente, qualificar, ainda mais, as discussões que permeiam as lutas no cenário da Educação Física brasileira.

 

Nota 

  1. O Qualis é um sistema de avaliação de periódicos, mantido pela CAPES, que relaciona e classifica veículos utilizados para a divulgação da produção intelectual dos programas de pós-graduação do tipo "stricto sensu" (mestrado e doutorado), quanto ao âmbito da circulação (local, nacional ou internacional) e a qualidade (A, B, C), por área de avaliação.

Referências 

 

Alvarenga, L. (1998). Bibliometria e arqueologia do saber de Michel Foucault: traços de identidade teórico-metodológica. Ciência da Informação, Brasília, 27(3), 1-9. https://doi.org/10.1590/S0100-19651998000300002

 

Araújo, C.A. (2006). Bibliometria: evolução histórica e questões atuais. Em Questão, 12 (1), 11-32. https://seer.ufrgs.br/index.php/EmQuestao/article/view/16

 

Brasil (2003). Lei 10.639/2003, de 9 de janeiro de 2003. Altera a Lei nº 9. 394, de 20 de dezembro de 1996. Diário Oficial da União, Poder Executivo, Brasília. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/l10.639.htm

 

Brasil (2008). Lei nº 11.645. Altera a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, modificada pela Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena”. Diário Oficial da República Federativa do Brasil, Brasília. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2008/Lei/L11645.htm

 

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Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 31, Núm. 338, Jul. (2026)