ISSN 1514-3465

 

“Um time, uma nação”: o rúgbi como instrumento 

de união da África do Sul pós-apartheid

“One Team, one Nation”: the Rugby as a Tool 

for South African Union after Apartheid

"Un equipo, una nación": el rugby como instrumento 

de unión de la Sudáfrica post-apartheid

 

Ricardo Bruno Boff*

ricardo.boff@univali.br

Luiza Orzechowsky dos Santos**

luizaorzechowsky@gmail.com

 

*Bacharel em Direito - Universidade Regional de Blumenau

Mestre em Relações Internacionais - Universidade Federal de Santa Catarina

Doutorando em Estudos Estratégicos Internacionais

Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Professor do curso de Relações Internacionais

na Universidade do Vale do Itajaí - UNIVALI

**Bacharela em Relações Internacionais - Universidade do Vale do Itajaí

Mestra em História, Relações Internacionais e Cooperação

Especialização em Relações Internacionais - Universidade do Porto

Analista operacional de importações aéreas - Next Shipping

(Brasil)

 

Recepção: 13/12/2019 - Aceitação: 13/04/2020

1ª Revisão: 20/03/2020 - 2ª Revisão: 09/04/2020

 

Este trabalho está sob uma licença Creative Commons

Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional (CC BY-NC-ND 4.0)

https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/deed.pt

Citação sugerida: Boff, R.B. y Santos, L.O. dos (2020). “Um time, uma nação”: o rúgbi como instrumento de união da África do Sul pós-apartheid. Lecturas: Educación Física y Deportes, 24(264), 15-31. Obtido de: https://www.efdeportes.com/efdeportes/index.php/EFDeportes/article/view/2136

 

Resumo

    Mesmo após o fim do regime do apartheid, a África do Sul continuava sendo um país dividido internamente e com uma imagem negativa no exterior. Nelson Mandela, eleito presidente do país, tinha em suas mãos a missão de unir os sul-africanos, sem distinção de cor da pele, e reinserir o país internacionalmente. Foi quando, às vésperas da Copa do Mundo de rúgbi de 1995, a ser realizada na África do Sul, ele percebeu o potencial político desse esporte. Este artigo tem como objetivo geral analisar como o rúgbi foi utilizado, na política de Nelson Mandela, para construir uma nação unificada e recolocar o país no cenário mundial. Para isso, foram trabalhadas as definições de nacionalismo, política de prestígio e soft power, com foco no papel do esporte; em seguida, foi retratado o período político pós-apartheid e o papel do rúgbi no país. Concluiu-se que a estratégia de utilizar o rúgbi como instrumento político foi bem-sucedida, abrindo caminho tanto para a superação do apartheid quanto para a reinserção da África do Sul no cenário internacional.

    Unitermos: África do Sul. Rúgbi. Nelson Mandela. Apartheid.

 

Abstract

    Even after the end of the Apartheid regime, South Africa continued to be a country divided internally and with a negative image outside its borders. Nelson Mandela, elected president of the country, had in his hands the mission to unite South-Africans, without distinction of skin color, and reinsert the country internationally. That is when right before the rugby World Cup of 1995, to be hosted by South Africa, he realized the political potential of the sport. This article has as general objective analyze how rugby was used, in Nelson Mandela’s policy, to construct an unified nation and reinsert the country in the international scenery. For that, were worked the definitions of nationalism, prestige politics and soft power, focusing on the role of the sport; right after it was portrayed the political period after apartheid and the role of rugby in the country. It is concluded that the strategy to use rugby as a political instrument was successful, opening paths to overcome apartheid and reinsert South Africa in the International Scenery.

    Keywords: South Africa. Rugby. Nelson Mandela. Apartheid.

 

Resumen

    Aún después del final del régimen del apartheid, Sudáfrica siguió siendo un país dividido internamente y con una imagen negativa en el exterior. Nelson Mandela, elegido presidente del país, tenía en sus manos la misión de unir a sudafricanos, sin distinción del color de piel, y reinsertar el país internacionalmente. Fue cuando, en vísperas de la Copa Mundial de Rugby de 1995, que se celebraría en Sudáfrica, se dio cuenta del potencial político de este deporte. Este artículo tiene como objetivo analizar cómo se utilizó el rugby, en la política de Nelson Mandela, para construir una nación unificada y volver a colocar al país en el escenario mundial. Para eso, se trabajaron las definiciones de nacionalismo, política de prestigio y soft power, centrándose en el papel del deporte; luego, se describió el período político posterior al apartheid y el papel del rugby en el país. Se concluyó que la estrategia de usar el rugby como instrumento político fue exitosa, allanando el camino tanto para superar el apartheid como para la reintegración de Sudáfrica en el escenario internacional.

    Palabras clave: Sudáfrica. Rugby. Nelson Mandela. Segregación racial.

 

Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 25, Núm. 264, May. (2020)


 

Introdução

 

    O rúgbi, esporte favorito da população branca da África do Sul, era visto como símbolo do regime segregacionista do apartheid, que perdurou no país por um quarto de século. Com o fim do regime e a ascensão de Nelson Mandela à presidência, os principais desafios do primeiro presidente negro do país eram a unificação de uma sociedade dividida entre brancos e negros e a melhora da deteriorada imagem internacional sul-africana.

 

    Grande parte da população negra, no entanto, alimentava certo revanchismo contra os brancos, após tantas décadas de exclusão social e política. A equipe nacional de rúgbi, às vésperas da Copa do Mundo na África do Sul, não fugia à regra: no que dependesse da opinião pública da maior parte dos eleitores de Mandela, todos os símbolos do time deveriam ser modificados. Foi então que a visão diferenciada do líder se fez presente: para apaziguar o país, o novo presidente escolheu justamente a equipe nacional de rúgbi para promover um gesto de aproximação com os brancos.

 

    Este artigo inicia-se com uma análise da relação entre nacionalismo, política de prestígio e esporte. Busca-se retratar a importância do esporte de alto rendimento, especialmente através de grandes eventos, para a obtenção de ganhos políticos. Na sequência, é explorado o período da África do Sul pós-apartheid, com um levantamento histórico dos momentos que culminaram no fim do regime segregacionista, e a trajetória de Nelson Mandela, preso político que chegou à presidência do país. Finalmente, o objetivo é analisar como o rúgbi foi uma ferramenta de unificação e prestígio para a África do Sul, com foco especial na Copa do Mundo de 1995.

 

    Ao final, é possível perceber como o slogan, “um time, uma nação”, utilizado pela equipe sul-africana na competição, refletiu o propósito político com que o evento foi tratado.

 

Metodologia

 

    A pesquisa centrou-se em fontes bibliográficas, principalmente de livros e artigos científicos, além de algumas reportagens. Utilizou-se do método qualitativo, analisando-se o papel do rúgbi na África do Sul a partir dos conceitos teóricos que embasam a pesquisa; e dedutivo, pois partiu-se de uma análise conceitual ampla para culminar no referido estudo de caso.

 

    No campo teórico, o estudo centra-se em dois campos conceituais. Primeiro, no significado de nacionalismo, baseando-se em principalmente em Gellner e Hobsbawm, destacando-se sua dupla função: de unificar populações dentro de um país e de projetar a nação no mundo. Segundo, trabalharam-se os conceitos de política de prestígio e soft power como instrumentos diplomáticos de uma nação, os quais foram associados ao longo da pesquisa com o esporte,instrumento prático dotado de alto potencial de realizá-los.

 

    Os conceitos trabalhados – nacionalismo, política de prestígio e soft power– associados ao esporte, são então aplicados ao caso do rúgbi na África do Sul, explorando-se a peculiaridade da construção nacional deste país, que se deu sob apolítica do apartheid. Dado o complicado cenário sul-africano, destacou-se o papel crucial do chefe de Estado, Nelson Mandela, de operar essa junção de esporte e política a partir de suas próprias vivencias pessoais.

 

Nacionalismo e as origens do apartheid

 

    Em uma definição ampla, o nacionalismo pode ser considerado um princípio que liga a população com a unidade política de um país. A existência de um sentimento nacional unificado serve para evitar que diferenças étnicas, linguísticas, regionais ou até mesmo ideológicas, sejam um empecilho para a existência de uma unidade política nacional (Gellner, 2001).

 

    Na formação dos Estados modernos, diferentes grupos de poder disputam quais critérios devem prevalecer, e quais símbolos devem predominar, na formação do nacionalismo. Por exemplo, há diversos Estados, como Irã e Israel, nos quais a religião exerce papel central na unificação da nação, gerando descontentamento de grupos não pertencentes ao credo principal. Outros, como Espanha e Bélgica, possuem disputas regionais tão fortes que chega a ser difícil falar em uma nação unificada. Há nações etnicamente idênticas, mas que acabaram divididas por critérios ideológicos, como as Coreias; há aquelas, como a ex-Iugoslávia, que não resistiram à pluralidade étnica e se fragmentaram; ou Estados que, para resolver a questão da pluralidade étnica, tornaram-se “plurinacionais” – que admitem a existência de várias nações – com Bolívia e Equador. Como aponta Carvalho (2016), a construção de uma nação depende de escolhas, que envolvem disputas entre grupos dotados de símbolos próprios e, muitas vezes, conflitantes. Atualmente, esse processo segue bastante vivo e as lutas em nome da nação seguem acontecendo em diversas partes do mundo.

 

    Diante desse tipo de dificuldade, não faltam, ao longo da história, regimes que buscam a homogeneidade, utilizando de critérios étnico, linguístico, ideológico, entre outros. Em casos extremos, chega-se à expulsão, ou mesmo extermínio, do “outro” indesejado, que segundo a política oficial não deve ser assimilado entre os nacionais. (Carvalho, 2016)

 

    Os elementos que compõem o nacionalismo em cada país, portanto, são aqueles derivados das escolhas dos grupos mais poderosos, que prevalecem na correlação de forças políticas e sociais. Há casos em que diferentes nações disputam qual delas irá prevalecer, podendo até surgir modelos híbridos. Para Hobsbawm (1990, p. 47), quando uma nação maior absorve outra menor, aquela pode até incorporar suas línguas e seus folclores, fazendo-os compor “[...] o espectro de cores de sua palheta macro-nacional”.

 

    Na formação da África do Sul moderna, um fator decisivo foi a presença de colonizadores europeus, principalmente britânicos e holandeses. O primeiro grande grupo a chegar na região, no final do século XVII, foram os bôeres (também conhecidos como africâneres), composto por calvinistas de maioria holandesa. Os africâneres desenvolveram a crença, de fundo religioso, de que eram a única e autêntica nação, devendo segregar-se dos povos locais, conhecidos como botus. Aos poucos, aumentou a chegada de britânicos, na medida em que o império se expandia pelo mundo. A tentativa da Inglaterra de ocupar a Cidade do Cabo, em 1795, fez explodir a primeira guerra entre britânicos e holandeses, seguindo-se décadas de disputas. (Balogun, 2011)

 

    A segunda guerra anglo-bôer, ocorrida entre 1899 e 1902, foi decisiva para a construção da nação sul-africana. Nela, os britânicos venceram definitivamente os holandeses e estabeleceram domínio sobre o território. Em 1948, seus líderes, baseados na ideia de superioridade étnica dos brancos e na crença de serem a verdadeira nação, construíram o regime do apartheid. Com ele, instituía-se a separação espacial de brancos e negros, criava-se um serviço público separado (de qualidade inferior para os negros), além de diversas outras restrições ao exercício de direitos civis. Após a independência do país, em 1961, o regime foi mantido e, em alguns pontos, até ampliado. (Balogun, 2011)

 

    Em contrapartida, sempre houve forte resistência dos colonizados contra a presença europeia. Com a independência, surgiu na África do Sul, em 1912, um movimento que buscava incluir os negros na nação. Era o Congresso Nacional Africano (CNA), que lutou tanto pela independência, contra o colonizador britânico, quanto pelo fim do regime de segregação, em prol da inclusão dos negros, em pé de igualdade, com os brancos na sociedade sul-africana. (Gómez, 2018)

 

    Desde a Revolução Francesa, a palavra nacionalismo teve várias definições e conotações, variando segundo o tempo e o lugar. Anderson (2006) apresenta o conceito de nação como uma “comunidade imaginada”, pois seus membros, mesmo que jamais possam conhecer a maioria dos conterrâneos, unem-se através da imagem de uma comunhão projetada em símbolos e características comuns. Sendo a nação essencialmente, imaginada, ela pode ser reimaginada, transformada e reinventada ao longo do tempo. Foi exatamente isso que fez Mandela, utilizando-se do rúgbi, na África do Sul pós-apartheid.

 

Esporte, política de prestígio e soft power

 

    As atividades esportivas têm evoluído em termos de organização: o esporte de alto rendimento está cada vez mais próximo de uma indústria, ou um negócio, que envolve volumosas cifras de dinheiro e arrasta a paixão de multidões. Por isso, ele é tão utilizado para transmitir e reforçar ideologias, obter prestígio e status, colocando-se como uma ferramenta de poder a serviço das nações.

 

    O surgimento de diversas associações e clubes na Inglaterra, no início do século XVIII, permitiu que muitas pessoas se unissem em um cenário de interação competitiva, gerando regras comuns à prática desportiva. Se antes o esporte era visto apenas como uma forma de manter a saúde e como instrumento de treinamento militar, pouco a pouco as equipes passaram a compor o orgulho nacional, com atletas que alcançam níveis de fama semelhantes ao de artistas famosos e heróis de guerra. A partir da instauração dos Jogos Olímpicos da era moderna, o esporte multiplicou sua popularidade. (Szymanski, 2008; Méndez, 2018). Conforme Méndez (2018, p.348)

    […] no puede negarse que hay un claro componente de estatalidad anclado fundamentalmente en la representación del Estado ejercido por las distintas Federaciones Deportivas y Comités Olímpicos Nacionales en las justas deportivas, que constriñe los gobiernos a perseguir por todo lo ancho del mundo intereses político-económicos bajo la forma del patriotismo, la legitimidad gubernamental interna y/o externa, el prestigio internacional, la paradiplomacia, la influencia económica, entre otros, por medio de la preparación de las justas y/o la consecución de la victoria de los atletas y la obtención de medallas.

    O surgimento de novas organizações internacionais, como o Comitê Olímpico Internacional (COI) e a Federação Internacional de Futebol (FIFA), fez com que essas entidades, ao gerir eventos tão populares como Olimpíadas e Copas do Mundo, passassem a ter intensa relação com Estados nacionais e autoridades políticas. Formou-se assim, de acordo com Pizarro (2017), uma “governança desportiva internacional”, com regras e procedimentos que envolvem Estados, organizações internacionais, federações, clubes e atletas. O bom desempenho de um país nesses eventos passou a ser visto como uma vitrine para a sua imagem e um termômetro para seu poder. (Pizarro, 2017)

 

    Em uma perspectiva social-psicológica, o esporte faz com que histórias de superação e conquista habitem o imaginário popular. Assim, quando a equipe ou o atleta nacional obtém uma conquista, os indivíduos, imersos na coletividade, passam a ver-se como parte de uma nação vencedora e capaz de grandes conquistas. Por envolver disputa física e superação, o esporte também desperta sentimentos guerreiros e serve de instrumento de preparação para o combate (Seippel, 2017). Dadas essas características, é fácil compreender por que os líderes dos países tentam se apropriar do esporte na busca da obtenção de frutos políticos.

 

    A política de prestígio é conhecida no cenário internacional como um dos principais meios de atuação diplomática (Nye, 2009). Cada país busca, de todas as maneiras possíveis, tornar-se conhecido e respeitado na comunidade internacional por seus feitos e conquistas, o que inclui o âmbito esportivo. Assim, obter bom desempenho nas competições e sediar grandes eventos representam esforços constantes das nações para a promoção da sua imagem. A projeção de poder e a obtenção de prestígio por meio do esporte traz consigo o conceito de soft power, que existe quando “um país é capaz de alcançar seus resultados desejados no mundo da política porque outros países querem imitá-lo ou concordam com um sistema que produza tais efeitos”. (Nye, 2009, p. 76)

 

    A boa imagem esportiva contribui para a obtenção de bons resultados em diversos outros campos. Enquanto o bom desempenho no quadro de medalhas passa a imagem de nação vencedora, o sucesso de grandes eventos esportivos serve como amostra internacional das belezas, infraestrutura, cultura, culinária, hospitalidade e capacidade de organização de um país. Assim, quando o país é bem-sucedido esportivamente, seja competindo ou organizando eventos, aumenta a possibilidade de chegada de investimentos estrangeiros, a aceitação da sua cultura no exterior, incrementam-se o turismo e os negócios, além de aumentar a autoestima dos seus nacionais.

 

O regime do apartheid e os boicotes internacionais

 

    Após décadas de um dos regimes mais abomináveis da história das nações, o apartheid, a África do Sul era vista como um Estado pária nas relações internacionais. Melhorar seu soft power era vital para o futuro do país.

 

    A segregação racial entre negros, brancos e mestiços atingia diversos aspectos da vida dessas populações. Instaurada em 1948, estabelecia áreas geográficas específicas, um total de dez “repúblicas”, conhecidas como “bantustões”, onde cada um dos grupos étnico-raciais deveria viver. Prevalecia, nos colonizadores britânicos, a mentalidade de que cabia à população branca prover civilidade para os negros. (Lacerda; Gomes Carvalho e Corrêa Teixeira, 2015)

 

    Existiam diversas leis que estabeleciam diferenças e separavam negros e brancos. Uma das mais significativas foi a Lei do Registro da Separação, de 1950, que catalogava as raças de cada indivíduo para, a partir da classificação, designar seus direitos dentro do país. Em 1957, uma emenda na “Lei sobre a imoralidade”, de 1927, proibiu o casamento entre pessoas de diferentes raças. Na designação de terras onde a população de cada raça deveria estabelecer-se, coube aos negros, que correspondiam à aproximadamente 73% da população, uma área de cerca de 7% do território sul-africano. (Lacerda; Gomes Carvalho e Corrêa Teixeira, 2015)

 

    Como era de se esperar, surgiram e ganharam força movimentos opositores ao apartheid. Como aponta Balogun (2011), externamente destacou-se a South West People’s Organization (SWAPO), criada na Namíbia, que buscava incorporar todas as organizações internacionais africanas contra o regime. Para tanto, defendiam a não participação da União Sul-Africana, ainda sob colonização britânica, nos assuntos do sudoeste do continente. Na própria Comunidade das Nações das Nações, a Commonwealth, liderada pelo Reino Unido, eram crescentes as pressões de países contra o odioso regime. Internamente, a situação na África do Sul, logo após a independência, começou a deteriorar-se após levantes ocorridos na região de Soweto, em 1976, sempre reprimidos com força policial. Isso incentivou a criação de organizações apoiadoras da causa negra, como a Black People’s Convention e a South African Students Organization, ambas com origem em universidades.

A imagem ruim deixada pela violência ocasionou queda nos investimentos externos na África do Sul. Ademais, crises internacionais agravavam a crise econômica. A desvalorização do preço do ouro, em 1981, afetou a produtividade das minas e derrubou as exportações do país; consequentemente, ocorreu um rombo no orçamento, dificultando a manutenção das instituições do apartheid. Para piorar o quadro, o isolamento internacional, que incluía sanções comerciais, agravou a crise da dívida a partir de 1985. Abria-se, então, uma recessão que teria fim somente em 1993. (Gómez, 2018)

 

    Neste cenário de crise, sanções e boicotes, ficava cada vez mais alto o custo econômico do apartheid para a África do Sul. Isolada economicamente e excluída de eventos culturais e desportivos, via-se que a única saída possível era mudar de rumo. Para melhorar o quadro, o presidente Pieter Willem Botha encerrou a Lei da Imoralidade e a Lei de Casamentos em 1984 e, um ano depois, elaborou um documento único de identidade para toda a população. (Pereira, 2010)

 

    Embora o governo de Botha buscasse apoio ao regime junto às maiores potências capitalistas da época (Grã-Bretanha, Estados Unidos e Alemanha Ocidental), a situação econômica ruim e a fadiga política não permitiam mais manter o apartheid. O presidente Botha, com a saúde debilitada e desgastado pela insistência em não negociar com o CNA, deu lugar, em 1989, a Frederik Willem de Klerk, ambos ligados ao Partido Nacional. (Pereira, 2010; Gómez, 2018)

 

    Sem orçamento público suficiente para pagar suas dívidas, de Klerk declarou moratória da dívida externa. Isso agravou a crise fiscal e social do país e praticamente obrigou as autoridades a caminhar para o fim do apartheid, único meio de retirar o país do isolamento. O marco para o início do processo de abertura se deu em 1990. Pereira (2010) coloca dois pontos chave: a legalização de todos os partidos banidos, incluindo o CNA; e a libertação de Nelson Mandela da prisão.

 

    Por outro lado, crescia o medo, por parte dos brancos, de que os negros se levantassem em vingança, o que servia de freio à abertura do regime. Uma história conhecida por toda criança branca na África do Sul retrata esse temor. Contava-se que o general bôer Piet Retief, em sua passagem por uma região Zulu, fora convidado pelos locais para visitar a aldeia real, conhecer sua hospitalidade e estabelecer negociações comerciais. Retief aceitou o convite, mesmo sob advertências de seus homens. Dias depois, o rei Zulu convidou o general para uma festa, na qual seria celebrado o sucesso das negociações, com apresentações das tradições Zulus. Aproveitando-se do fato de que os armamentos de Retief, como condição de entrada, haviam ficado do lado de fora da aldeia, os guerreiros zulus atacaram os brancos. No clímax da festa, o rei proferiu a frase “Bambani aba Thakathi! ” - “Matem os magos! ”. Assim, guerreiros dominaram Retief e seu exército e os mataram. (Carlin, 2012)

 

    Em síntese, a África do Sul passava por um complexo e delicado momento. Nas palavras de Gómez (2018, p. 305) “[…] a menudo pasa desapercibido lo complicado que es aplacar y sustituir un sentimiento de venganza y rencor por otro de perdón y reconciliación; olvido que resulta paradójico dado que lo habitual a lo largo de la historia ha sido la primera de estas actitudes”. Mandela recebida uma África do Sul completamente dividida após décadas de segregação racial, com a complicada tarefa de colocar em marcha a reconciliação nacional.

 

O fim do apartheid e a era Mandela

 

    Nascido em 1918, Nelson Rolihlahla Mandela recebeu uma formação privilegiada em comparação com a grande maioria da parcela negra da África do Sul. De família nobre Xhosa (segundo maior grupo cultural sul-africano, o qual possui língua própria) obteve acesso à educação primária e secundária. Aos 23 anos, mudou-se para Johanesburgo, onde iniciou seu engajamento político. Em 1964, já líder do movimento de resistência contra o apartheid, Mandela foi condenado à prisão perpetua por traição, acusado de sabotagem e de conspirar para a invasão da África do Sul por outros países. Na cadeia, passou a estudar profundamente a cultura e a história dos colonizadores, de modo a tentar entender melhor o “inimigo”. Em sua biografia, Mandela chama Robben Island, sua prisão, de universidade. Além de ter acesso a livros, lá estavam encarcerados alguns dos maiores acadêmicos sul-africanos, o que possibilitava o debate sobre a situação do país. (Mandela, 2008)

 

    O próprio Mandela (2008) afirma que os guardas da prisão tiveram papel importantes na estruturação do seu pensamento, pois serviram de porta de entrada para entender as visões que prevaleciam entre os brancos. Mandela raciocinava que, se conseguisse a simpatia de alguns dos funcionários mais próximos do governo, que eram profundos defensores do regime, fazer o mesmo com o resto da população branca não seria tão difícil.

 

    A libertação de Mandela, em 1990, deu-se em clima de otimismo. No âmbito externo, o eminente fim da Guerra Fria gerava expectativa de resolução de conflitos oriundos das décadas anteriores. Nesse ambiente, de 1990 a 1992, Mandela visitou 49 países, 20 deles na África, nos quais afirmava que seu objetivo não era a insurreição, e sim a transição pacífica do país para a democracia e a unificação nacional. Em 1993, Mandela e De Klerk – o presidente que lhe mandou soltar - dividiram o Prêmio Nobel da Paz. Um ano depois, no dia 27 de abril, foi anunciado o fim do regime do apartheid. Poucos dias depois, no pleito de 09 de maio, Mandela foi eleito presidente. (Gómez, 2018; Rizzi e Shutz, 2014)

 

    Como aponta o próprio Mandela (1993), as expectativas em torno de si eram bastante altas e sua missão muito difícil. Além da luta contra a pobreza, esperava-se do novo presidente gestos vigorosos em prol da unificação, da integração africana e da superação da imagem da África do Sul como Estado-pária da comunidade internacional.

 

    A realidade sul-africana, porém, ainda gerava pessimismo e exigia cautela. Era grande a percepção, interna e externamente, de que a enorme divisão do país e a completa ausência de identificação nacional poderiam resultar em guerra civil. A parte mais radical da direita sul-africana não aceitara o fim do regime e não admitia ver um negro na presidência.

 

    Os primeiros movimentos de Mandela, que surpreenderam muita gente, iam na direção da união e do abandono de qualquer revanchismo. O presidente manteve assessores do antigo governo e assegurou que o fato de haver apoiado o antigo regime não seria empecilho para a permanência de ninguém. Anunciou, ainda, que a cor da pele e o idioma tampouco influenciariam na escolha de seus colaboradores. Essas medidas, naturalmente, desagradaram a muitos de seus seguidores negros. (Otávio, 2015; Gómez, 2018)

 

    Sua guarda pessoal refletia a composição multiétnica. Era composta tanto por seguranças negros, mais próximos a ele, como por agentes brancos treinados no regime anterior. Em um primeiro momento, essas medidas foram de pouco agrado dos servidores provindos do CNA. Isso demonstrava que o apartheid era uma via de mão dupla: não apenas os brancos temiam a vingança dos negros, como no conto de Retief, como os negros, agora no poder, não confiavam na reação dos brancos. (Martins, 2011)

 

    É nesse ambiente de desconfiança recíproca que se encaixou, segundo Pinto (2007), uma política de “justiça de transição” na África do Sul. Justiça de transição pode ser definida a junção de demandas por justiça, em contextos de transição democrática, em sociedades que exigem respostas a amplas violações aos direitos humanos. Assim, é necessário reconhecer o direito das vítimas, ao mesmo tempo em que se evitam perseguições e vinganças contra os algozes. A promoção da paz, portanto, passa pela reconciliação e pelo fortalecimento da democracia.

 

    A justiça de transição sul-africana baseou-se em três fundamentos: busca pela verdade, ao tentar elucidar e tornar públicas as violações aos direitos humanos que ocorreram; perdão e anistia, com ênfase no reconhecimento e na obtenção da verdade, não na punição dos violadores; e no reconhecimento e restauração, com foco na recuperação da dignidade humana e civil das vítimas e dos agressores. Desmond Tutu, arcebispo anglicano sul-africano, foi de suma importância na transição. Suas ideias, inspiradas em preceitos cristãos e da religiosidade africana, se firmavam nas comissões da verdade; para ele, a justiça deveria ser reparativa e não punitiva. (Pinto, 2007; Gómez, 2018)

Ao se deparar com esse enorme desafio, de unir grupos sociais tão machucados por décadas de injustiça, que resultaram em profundo ressentimento, Nelson Mandela percebeu o poder de integração do esporte.

 

Mandela e o rúgbi

 

    Mandela (2008) conta em suas memórias que, buscando aprender a lidar com um major de difícil trato, descobriu seu ponto fraco: o rúgbi. O prisioneiro, que antes não dispunha de nenhum interesse pelo esporte, passou a estudá-lo, para que pudesse servir de ponte entre ele e o diretor prisional. Este seria o primeiro contato profundo de Mandela com o rúgbi, que lhe trouxe a percepção da importância central que o esporte tinha na vida dos brancos.

 

    O presidente viu no rúgbi a mais potente arma para unificar a população e provocar o orgulho nacional. Via nesse esporte a melhor ferramenta para unir jovens, adultos, negros e brancos. Formulou, então, um plano ambicioso e arriscado: transformar o rúgbi, esporte que causava repúdio na população negra do país, em um símbolo de unificação. A rejeição do rúgbi pelos negros ocorria porque os Springboks, como era conhecida a seleção nacional, eram vistos como um símbolo do apartheid, visão que prevalecia também internacionalmente. (Carlin, 2012; Bosch, 2019)

 

    O rúgbi desembarcou na África do Sul em 1861. Difundido entre todo o país pelos bôeres, ele rapidamente se tornou o esporte favorito da parcela branca sul-africana. Assim, consolidou-se como parte da identidade de africâneres e ingleses que se encontravam no país. A imagem do esporte, visto como bruto e de caráter combativo, orgulhava esses grupos sociais, que gostavam de atribuir-se tais características. O nome Springboks, que tem relação com a mascote do time, a cabra-de-leque, surgiu em 1906, com o objetivo de unir atletas ingleses e holandeses na mesma equipe. (Portal do Rugby, 2014)

 

    O abalo na imagem internacional da África do Sul, devido à instauração do apartheid, atingia também os Springboks. Demorou algum tempo, porém, para que os próprios sul-africanos se dessem conta disso. O primeiro vislumbre da reputação comprometida ocorreu em uma turnê pela Inglaterra e Irlanda, em 1969, na qual a delegação foi seguida por onde fosse por um grupo que protestava contra o regime do apartheid. Tomada pela surpresa, a delegação passou a viagem inteira tentando se esconder da mídia e dos protestantes. Em contrapartida, no seu retorno para a África do Sul, a seleção foi recepcionada por uma multidão no aeroporto de Johanesburgo. Essa viagem despertou em muita gente a percepção de que mudanças seriam necessárias e estavam por vir no cenário do país. (Carlin, 2009)

 

    A população negra dentro da África do Sul, ao mesmo tempo, executava sua própria represália ao esporte. Um dos maiores exemplos a serem citados é o de Arnold Stofile, professor de teologia em uma universidade sul-africana. Embora apreciasse o rúgbi, foi um dos maiores mobilizadores de boicotes a jogos internacionais, chamando o esporte de “o ópio dos bôeres” e “apartheid de uniforme”. Em entrevista para Carlin (2012, p. 42), Stofile trata o rúgbi sul-africano como:

    [...] um elemento muito importante nas relações exteriores deste país. Os ídolos do esporte eram os embaixadores de fato da África do Sul, uma parte central do esforço para tornar o apartheid menos inaceitável. E, no que dizia respeito à política interna, era uma barreira que mantinha jovens brancos separados dos negros, de forma que recebia muito apoio do governo e as grandes empresas obtinham reduções de impostos por patrocinar o esporte. Então, era o ópio que mantinha os brancos na feliz ignorância; o ópio que entorpecia a África do Sul branca.

    Em 1994, logo após o fim do apartheid, os Springboks faziam seu primeiro jogo oficial em 11 anos. Mas o que marcou a partida foi a manutenção de símbolos do regime recém findado, como a antiga bandeira e o antigo hino nacional, motivos pelos quais o evento foi considerado um fiasco. Mesmo assim, logo em seguida a África do Sul recebeu o que Carlin (2012) considerou seu “melhor e menos merecido presente”: a chance de sediar a Copa do Mundo de Rúgbi, de 1995, o que permitia ao país participar pela primeira vez da competição.

Algumas semanas após a escolha da sede do evento, o presidente De Klerk anunciou a vitória de Nelson Mandela nas primeiras eleições multirraciais da história do país. A um ano da competição, Mandela tinha a missão de reverter a imagem ruim da seleção nacional, para poder utilizá-la em prol da construção da “nação arco-íris”, conforme defendera na campanha presidencial. O recém-eleito presidente, portanto, teria de correr contra o tempo para convencer sua gente a aderir aos Springboks.

 

“Um time, uma nação”

 

    O lema da Copa do Mundo de Rúgbi não deixava dúvida sobre as intenções do novo governo sul-africano. Por todo o país, espalhava-se o slogan “um time, uma nação”. O desafio era fazer a população sul-africana acreditar na mensagem. Assim, Nelson Mandela lançava mão de uma estratégia comum a muitos Estados: “O uso do esporte para transmitir uma mensagem diplomática ou para promover a identificação entre o cidadão e o Estado” (Suppo, 2012, p. 411). A inspiração de Mandela, segundo Bosch (2019), ocorreu em uma visita à Barcelona, sede dos Jogos Olímpicos de 1992, onde ele pode observar a força transformadora do esporte.

 

    Outrora um dos maiores defensores do boicote ao rúgbi sul-africano, o professor Arnold Stofile foi um dos primeiros a abraçar as ideias de Mandela, abandonar os boicotes, apoiar os Springboks e participar ativamente da sua promoção. Em entrevista, afirmou:

    Isso não é política. Não é ideologia. É algo muito mais poderoso, primitivo e pessoal! Propor retomar os jogos de rúgbi internacionais é uma maneira de dizer aos brancos: ‘se vocês se juntarem à nós, poderão ir para a Europa, os Estados Unidos e a Austrália para visitar seus amigos e não serão vistos no aeroporto como párias na hora da verificação do passaporte’. Eles também acharão isso bom para os negócios e, acima de tudo, significará ser apreciado de novo. Essa é a ideia. Isso terá grande importância para eles, que poderão exclamar: ‘Eles gostam de nós’! Em suma, camaradas, a África do Sul branca poderá se sentir como seres humanos de novo, como cidadãos do mundo. (Stofile apud Carlin, 2012, p. 67)

    A primeira medida de Nelson Mandela foi intervir no Ministério do Esporte para evitar a extinção dos Springboks, pois os novos funcionários tinham intenção de trocar o nome, o uniforme e as cores do time. O líder sabia que, caso isso fosse feito, um símbolo caro para a parcela branca da população sul-africana seria extinto, o que pareceria um chamado à guerra e à vingança. Por isso, o mandatário surpreendeu seus subordinados e discursou a favor da manutenção da estrutura do time, incluindo a identidade visual. Mas, como era de se esperar, a maior parte da população relutou em aceitar os Springboks como seu time. Ainda no espírito da reconciliação, Mandela conseguiu que o antigo hino Die Stem não fosse completamente extinto e que parte dele fosse incorporado ao Nkosi Sikelel’iafrika, hino de libertação da população negra. O cuidado com símbolos de ambos os lados estava, portanto, no cerne da estratégia nacionalista de Nelson Mandela. (Carlin, 2012)

 

    Com os Springboks, havia outro problema além do simbólico: o desempenho do time. Faltando apenas um ano para a Copa do Mundo, a seleção sul-africana tinha más atuações e sofria uma série de derrotas. Seu capitão, François Pienaar, era massacrado pela mídia e o time inspirava ainda mais ódio na população negra do país. Foi nessa fase que Mandela convidou Pienaar para uma conversa em seu gabinete (Carlin, 2012). Nessa ocasião, Mandela mencionou seu sentimento de pertencimento à África do Sul e a emoção que sentiu ao assistir os Jogos Olímpicos de 1992, em Barcelona. Bosch (2019) entende que esta fala conversa entre Mandela e Pienaar representou o espírito da reconciliação de uma sociedade dividida pelo apartheid. 

 

    Dentre as figuras que entenderam a mensagem e se destacaram no movimento para a popularização do time, está Morné Du Plessis, ex-capitão dos Springboks e uma lenda do rúgbi sul-africano. Por isso, foi nomeado como dirigente da equipe que disputaria a Copa do Mundo. Ele foi o responsável pela ideia de ensinar os jogadores brancos a cantar a metade Nkosi Sikelel’iafrikado hino nacional, estratégia fundamental para que os atletas servissem de exemplo para o lema “um time, uma nação”. Também promoveu exibições dos atletas em comunidades pobres, muitas delas compostas apenas por negros. (Carlin, 2012)

 

    Um dia antes do primeiro jogo da Copa, em que o time sul-africano enfrentaria a Austrália, Mandela de surpresa chegou ao campo de treinamento, pousando de helicóptero. Naquele dia, disse aos jogadores:

    Agora vocês têm a chance de servir à África do Sul e unir o nosso povo. Vocês não ficam a dever nada a ninguém no mundo. Mas estamos jogando em casa e vocês estão em vantagem. Lembrem-se apenas de que todos nós, negros e brancos, estamos torcendo por vocês. (Mandela apud Carlin, 2009, p. 108)

    A mensagem parece ter contaminado o desacreditado time: contra todas as expectativas, a seleção sul-africana ganhou o título de campeã mundial, com seis vitórias em seis jogos. A cada partida em que a nova bandeira era hasteada e o novo hino cantado, mais pessoas iam se rendendo ao esporte. Apesar de muitos não entenderem muito bem as regras, ou não se identificarem com os jogadores, o sentimento que pairava era o de torcer pela vitória de seu país. A imagem de Nelson Mandela no jogo final contra a temida Nova Zelândia, vestido com a camiseta e boné do time, refletiu no estádio o sentimento do país naquele mesmo dia. Mesmo que, nas arquibancadas, a maioria dos torcedores fossem brancos, o nome do presidente foi entoado em massa quando ele fez sua aparição.

 

    Logo após o término do jogo, Morné Du Plessis correu para abraçar Edward Griffiths, o criador do slogan “um time, uma nação”, dizendo que as coisas nunca mais seriam as mesmas. Ainda no campo, um repórter perguntou a François Pienaar qual era a sensação de ter 62 mil torcedores apoiando o time. Sua resposta: “Não tivermos 62 mil torcedores nos apoiando. Tivemos 43 milhões de sul-africanos”. (Carlin, 2009, 138)

 

Poster do filme Invictus, dirigido por Clint Eastwood (2009)

 

    O título memorável inspirou o lançamento do filme Invictus, lançado em 2009, dirigido por Clint Eastwood e assistido no mundo inteiro, que conta a saga dos Springboks. Também rendeu à África do Sul uma boa melhora na sua imagem internacional. Chester Williams, o único jogador negro do time, aparecia em todos os veículos de propaganda do evento, incluindo aviões da South African Airlines, enviando a mensagem de que o país não era mais o mesmo e que havia entrado na era da igualdade e da democracia.

 

Conclusões

 

    O caso sul-africano não deixa dúvidas: o esporte é uma poderosa ferramenta para fins políticos, especialmente quando seu uso se relaciona com sentimentos nacionalistas. Nelson Mandela percebeu esse potencial e, habilmente, utilizou o rúgbi como uma ferramenta nacionalista e unificadora. Para tanto, aproveitou-se do fato de ser palco da maior competição mundial desse esporte para unir seu povo e angariar prestígio para a África do Sul.

 

    Os Springboks, portanto, serviram de combustível para que a população aceitasse a complexa política da justiça de transição. O rúgbi despertou sentimentos de alegria e esperança, que facilitaram o diálogo entre negros e brancos. Tudo isso sob intermediação de Nelson Mandela, que mostrou maturidade e aguçada percepção política adquiridas, em grande medida, nos seus anos de cárcere. Em síntese, a superação do apartheid teve como elementos fundamentais a junção da força do esporte com a força de um líder capaz de utilizá-lo em prol de um novo país.

 

Referências

 

Anderson, B. (2006). Imagined communities. Londres: Verso.

 

Balogun, H. A. (2011). O apartheid na África do Sul. São Paulo: Edicom.

 

Bosch, A. (2019). Mandela, la voluntad del ser. El Periódico. 17 de Júlio de 2019. Recuperado em 12 de dezembro de 2019 de https://www.elperiodico.com/es/opinion/20190717/articulo-alfred-bosch-mandela-la-voluntad-de-ser-mandela-day-18-julio-7557659

 

Carvalho (2016). O recrudescimento do nacionalismo catalão: estudo de caso sobre o lugar da nação no século XXI. Brasília: FUNAG.

 

Carlin, J. (2012). Invictus: Conquistando o inimigo. Rio de Janeiro: Sextante.

 

Carlin, J. (2009). Conquistando o Inimigo: Nelson Mandela e o jogo que uniu a África do Sul. Rio de Janeiro: Sextante.

 

Gellner, E. (2001). Naciones y nacionalismo (3ª ed.). Madrid: Alianza Editorial.

 

Gómez, J.A.S. (2018). Nelson Mandela: un hombre y su legado en el panorama africano e internacional. Instituto Espanhol de Estudos Estratégicos. 85 (1), 301-315.

 

Hobsbawm, E. (1990). Nações e nacionalismo desde 1970. São Paulo: Paz e Terra.

 

Lacerda, T. S.; Gomes Carvalho, R. F.; Corrêa Teixeira, R. (2015). O apartheid na política internacional entre 1948 e 1994. Conjuntura Internacional, 12 (3), 178-184.

 

Mandela, N. R. (1993). South Africa's future foreign policy. Foreign Affairs.72 (1).

 

Mandela, N. R. (2008). Long walk to freedom. Nova York: Back Bay Books/Little, Brown and Company.

 

Martins, M. A. S. R. (2011). O mito Mandela e o sonho de uma nação arco-íris. Revlet - Revista Virtual de Letras, 3 (2), 86-99.

 

Méndez, C.P. (2018). La estatalidad del deporte internacional. Pasado, presente, ¿futuro? Foro internacional, 58 (2), 343-379.

 

Nye, J. S. (2009). Cooperação e conflito nas relações internacionais. Uma leitura essencial para entender as principais questões da política mundial. São Paulo: Editora Gente.

 

Otávio, A. (2015). Por uma nova inserção regional: o legado de Mandela na política externa da África do sul. Brazilian journal of International Relations, 4 (3), 645-669.

 

Pereira, A. D. (2010). A (longa) história da desigualdade na África do Sul. Philia &Philia. 2 (1), 118-148.

 

Pinto, S. M. R. (2007). Justiça transicional na África do Sul: restaurando o passado, construindo o futuro. Contexto internacional, 29 (2), 393-421. 

 

Pizarro, J.O. (2017). Governança desportiva: uma inflexão da governança global? Revista de Relaciones Internacionales, Estrategia y Seguridad. 13 (1), 195-219.

 

Portal do Rugby (2014). África do Sul, apartheid e Rugby, séculos de extremos. Recuperado em 12 de dezembro de 2019 de: http://www.portaldorugby.com.br/noticias/fora-decampo/apartheid-e-rugby-sul-africano-muitas-historias

 

Rizzi, K. R., Shutz, N. X. (2014). Política externa da nova África do Sul: reinserção e reafirmação regional. Austral: Revista Brasileira de Estratégia & Relações Internacionais, Porto Alegre, 3 (5), 181-201.

 

Seippel, Ø. (2017). Sports and Nationalism in a Globalized World. International Journal of Sociology, 47 (1), 43-61.

 

Suppo, H. (2012). Reflexões sobre o lugar do esporte nas relações internacionais. Contexto internacional, 34 (2), 397-433.

 

Szymanski, S. (2008). A theory of the evolution of modern sport. Journal of Sport History, 35 (1), 57-64.


Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 25, Núm. 264, May. (2020)