ISSN 1514-3465

 

Bullying entre alunos do ensino superior: 

um estudo com graduandos do curso de Educação Física

Bullying among Higher Education Students: a 

Study with Undergraduates from the Physical Education

Bullying entre alumnos de educación superior: 

un estudio con estudiantes universitarios de Educación Física

 

Rafael Valladão*
rafaelvalladao1@gmail.com
Mauricio Fidelis**
mauriciofidelis@hotmail.com
Romulo Caccavo***
romulocaccavo@hotmail.com
Raphael Martins de Lima****

raphael.martins033@gmail.com

Thais Vianna Maia*****

thaisviannamaia@gmail.com
Sergio Ferreira Tavares******
sergiof.tavares@hotmail.com

 

*Doutorando e mestre em Educação

pelo Programa de Pós-graduação em Educação (ProPEd)

da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)

Agência de fomento: CAPES
**Especialista em Elaboração e Gestão de Projetos Socioesportivos

pela Universidade Castelo Branco (UCB)
***Mestrando em Bens Culturais e Projetos Sociais

pela Fundação Getúlio Vargas (FGV)

****Especialista em Psicomotricidade

pela Universidade Castelo Branco (UCB)

*****Doutoranda e mestra em Educação pelo ProPEd

da UERJ. Agência de fomento: CAPES

******Mestre em Ciência da Motricidade Humana pela UCB

(Brasil)

Recepção: 15/10/2019 - Aceitação: 06/05/2020

1ª Revisão: 30/04/2020 - 2ª Revisão: 04/05/2020

 

Este trabalho está sob uma licença Creative Commons

Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional (CC BY-NC-ND 4.0)

https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/deed.pt

Citação sugerida: Valladão, R., Fidelis, M. Caccavo, R., Maia, T.V., Lima, R.M. de y Tavares, S.F. (2020). Bullying entre alunos do Ensino Superior: um estudo com graduandos do curso de Educação Física. Lecturas: Educación Física y Deportes, 24(264), 47-61. Obtido de: https://www.efdeportes.com/efdeportes/index.php/EFDeportes/article/view/1710

 

Resumo

    O bullying é a interdição do corpo mediada por signos culturais que pautam atitudes agressivas, intencionais e repetidas. Nas aulas de Educação Física ainda ocorre exclusão daqueles que não se enquadram nos padrões corporais considerados ideais. Foi investigada a presença, ou não, do bullying entre estudantes do curso de Educação Física em relação aos seus colegas. A pesquisa foi qualitativa e de campo; foi aplicado aos alunos do primeiro e segundo período de Educação Física da Universidade Castelo Branco um questionário (pré-intervenção), realizada uma palestra com um aluno com deficiência que sofre bullying e, três meses após, aplicado novamente o mesmo questionário para verificar se houve mudanças de comportamentos e atitudes (pós-intervenção). Na pré-intervenção, responderam ao questionário 8 homens e 7 mulheres: 7 homens não sofreram bullying, 1 sofreu e as 7 mulheres não sofreram; 5 homens e 6 mulheres não praticaram bullying, 3 homens e 1 mulher praticaram; 4 homens e 6 mulheres já viram acontecer, enquanto 4 homens e 1 mulher afirmaram nunca ter visto. Na pós-intervenção, dos 8 homens e 7 mulheres que foram entrevistados: 4 homens e 5 mulheres não sofreram bullying, 4 homens e 2 mulheres já sofreram; 5 homens e 4 mulheres não praticaram bullying, 3 homens e 3 mulheres já praticaram; 6 homens e 6 mulheres já viram acontecer, enquanto 2 homens e 1 mulher nunca viram. Concluímos que a maioria dos alunos não tinham entendimento das consequências do bullying, mas, após a intervenção, puderam reconhecer as práticas que cometiam contra seus colegas.

    Unitermos: Formação de professores. Bullying. Educação Física. Universidade.

 

Abstract

    Bullying is the interdiction of the body mediated by cultural signs that guide aggressive, intentional and repeated attitudes. Physical Education classes still exclude those who do not fit the body standards considered ideal. It was investigate the presence, or not, of bullying among of students. The research was qualitative and field; it was applied a questionnaire to the students of Physical Education at the University, a lecture was held with a student who have a disability and experienced bullying episodes. Three months later, the same questionnaire was applied again to verify if there were changes. In the pre-intervention, 8 men and 7 women answered the questionnaire: 7 men did not suffer bullying, 1 suffered and 7 women did not suffer; 5 men and 6 women did not practice bullying, 3 men and 1 woman did; 4 men and 6 women have seen it happen, while 4 men and 1 woman said they never saw it. In the post-intervention, of the 8 men and 7 women who were interviewed: 4 men and 5 women did not suffer bullying, 4 men and 2 women have already suffered; 5 men and 4 women did not practice bullying, 3 men and 3 women have already practiced; 6 men and 6 women have seen it happen, while 2 men and 1 woman have never seen it. We concluded that most students had no understanding of the consequences of bullying, but, after the intervention, they were able to recognize the practices they committed against their colleagues.

    Keywords: Teacher training. Bullying. Physical Education. University.

 

Resumen

    El bullying es la interdicción del cuerpo mediada por signos culturales que guían las actitudes agresivas, intencionales y repetidas. Las clases de Educación Física aún excluyen a aquellos que no se ajustan a los estándares corporales considerados ideales. Se investigó la presencia o no de bullying entre estudiantes de Educación Física. La investigación fue cualitativa y de campo; se aplicó un cuestionario a los estudiantes en el primer y segundo período de Educación Física en la Universidad; se realizó una conferencia con un estudiante con una discapacidad que sufre acoso y, tres meses después, se volvió a aplicar el mismo cuestionario para verificar si hubo cambios en el comportamiento y las actitudes. En la pre-intervención, 8 hombres y 7 mujeres respondieron el cuestionario: 7 hombres no sufrieron bullying, 1 sufrió y 7 mujeres no sufrieron; 5 hombres y 6 mujeres no practicaron bullying, 3 hombres y 1 mujer sí; 4 hombres y 6 mujeres fueron testigos, y 4 hombres y 1 mujer nunca lo vieron. En la post-intervención, de 8 hombres y 7 mujeres entrevistados: 4 hombres y 5 mujeres no sufrieron bullying, 4 hombres y 2 mujeres sí; 5 hombres y 4 mujeres no practicaron bullying, 3 hombres y 3 mujeres sí; 6 hombres y 6 mujeres fueron testigos, mientras que 2 hombres y 1 mujer nunca vieron. Llegamos a la conclusión que la mayoría de los estudiantes no entendían las consecuencias del acoso escolar, pero, después de la intervención, pudieron reconocer las prácticas que cometieron contra sus colegas.

    Palabras clave: Formación docente. Bullying. Educación Física. Universidad.

 

Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 25, Núm. 264, May. (2020)


 

Introdução

 

    Vivenciamos a todo o momento casos de exclusão por conta das diferenças das características étnicas, culturais, religiosas, gêneros e até mesmo por conta do modo de pensar e dialogar. O próprio corpo passa a ser objeto de intolerância quando considerado não-aceitável por determinados grupos sociais. Ocorre a valorização contemporânea da imagem corporal, formatada por padrões de beleza que idealizam estereótipos corporais excessivamente magros ou musculosos, responsável pelo aumento da incidência de distúrbios relacionados à autoimagem. (Pelegrine, 2004)

 

    O antropólogo Stéphane Malysse (2007), pesquisou de forma etnográfica o culto ao corpo no Rio de Janeiro e constatou que há atualmente uma espécie de corpolatria carioca que se assemelha a uma religião, onde os membros que malham e praticam atividades físicas discriminam aqueles não-praticantes que não tem este mesmo ideal e não buscam o “corpo perfeito”. Essa busca tem por objetivo a obtenção de uma maior muscularidade (hipertrofia/aumento de massa magra) e magreza (baixo percentual de gordura), entre homens e mulheres, respectivamente, levando-os às academias de ginástica e ao consumo excessivo de anabolizantes e outros hormônios para adquirir a forma física ideal, consequentemente (na visão destes) a ascensão e a aceitação social. (Sabino, 2007)

 

    Desde os primórdios, a Educação Física é vista como um meio de manifestação de forças e habilidades. Ela sempre teve a característica de ser homogênea, ou seja, quem faz parte dessa prática tem que pertencer a um padrão onde a técnica, a força, a agilidade, as estéticas corporais passam a ser imposições do meio. O período da ditadura militar (1964-1985), por exemplo, é uma forma de ilustrar estas questões, onde para ingressar na graduação de Educação Física em nível superior, o acadêmico deveria passar por uma difícil seleção, composta por testes de resistência e habilidades físicas específicas. Em seu imaginário, as pessoas em geral, têm o professor de Educação Física como um possuidor de um corpo com “boa aparência física”, saudável, apto a praticar as diversas modalidades esportivas e a superar limites. Nessa perspectiva alimentam a ideia de que o trabalho desses deve pautar-se na valorização da aptidão física, do desempenho atlético, da performance, na superação máxima dos limites do corpo em busca de um resultado. (Ribeiro, 2011)

 

    Nesse cenário como pessoas com aspectos e habilidades físicas diferentes poderiam ser incluídas nessa área? Na atualidade essa “difícil” seleção para a entrada no curso foi excluída, mas ainda vemos estudantes com o mesmo padrão físico. Quando essa valorização física passa a desprezar outras pessoas que são consideradas diferentes, podemos identificar casos de exclusão social, em casos extremos podendo chegar ao bullying. A Educação Física, se não for bem orientada, promove essa excessiva valorização corporal, contribuindo para fenômenos como o bullying, levando a exclusão social de determinada pessoa ou grupo que não atende aos padrões físicos impostos pela mídia, sociedade ou até mesmo o professor.

 

    O fenômeno bullying pode ser visto como a materialização da interdição do corpo mediada por signos culturais que pautam o desrespeito e diferença. Bullying, para Montero-Carretero & Cervelló (2020) abrange todas as manifestações de atitudes agressivas, intencionais e repetidas, sendo caracterizada por uma maneira insistente e perturbadora de ação, que ocorrem de forma velada ou explícita, sem motivação aparente e evidente, sendo adotadas por um ou mais estudantes contra outro(s), dentro de uma relação desigual de poder (seja ele físico, econômico ou social). Não está associado ao conflito entre irmãos ou parceiros conjugais:

    Bullying é qualquer comportamento agressivo indesejado de outro jovem ou grupo de jovens, que não são irmãos ou parceiros de namoro atuais, que envolva um desequilíbrio de poder observado ou percebido e seja repetido várias vezes ou com grande probabilidade de ser repetido. Implica a intenção de causar danos físicos, psicológicos, sociais ou educacionais. (Montero-Carretero & Cervelló, 2020, p. 2, tradução nossa)

    Este tipo de violência se manifesta, sutilmente, sob a forma de brincadeiras destrutivas, apelidos, trotes, gozações e agressões físicas. (Botelho & Souza, 2007: Cidade, 2008; Matos et al., 2012)

 

    A palavra bullying, de origem inglesa, é derivada do termo bully, que significa um indivíduo valente/intimidador, e representa uso da superioridade física, intelectual ou financeira para humilhar, ridicularizar ou violentar com atitudes agressivas uma pessoa, causando uma sensação de tristeza, sofrimento e desprezo (Lima, 2004 apud Bonfim et al., 2012). Silva et al. (2019) afirma que a prática se caracteriza por um desejo consciente e deliberado de maltratar outra pessoa, colocando-a sob tensão. Nobre et al. (2019) também compreende o bullying como maltratos físicos e psicológicos intencionais, a outros indivíduos, e acrescentam que estes são caracterizados quando ocorrem por longos períodos de tempo. Os autores definem ainda bullying como atos de “tiranizar, oprimir, amedrontar, ameaçar, intimidar e maltratar”. (Nobre et al., 2019)

 

    No bullying, as agressões podem tomar a forma de abuso físico com a utilização de chutes, socos, pontapés, empurrões, roubo ou danos aos pertences. As agressões podem ser verbais, com a utilização de apelidos, insultos, comentários racistas, homofóbicos, de diferenças religiosas, físicas, econômico-sociais, culturais, morais e políticas (Rolim, 2008 apud Bandeira & Hutz, 2010). O bullying é classificado como direto quando as vítimas são atacadas diretamente. São considerados bullying direto os apelidos, agressões físicas, ameaças, roubos, ofensas verbais ou expressões e gestos que geram mal estar aos alvos. Bullying indireto são ações que levam exclusivamente ao isolamento social. Este envolve atitudes de indiferença, isolamento, difamação, exclusão (Lopes Neto, 2005 apud Freire & Aires, 2012). No Brasil foi aprovada a lei 13.185 de 6 de novembro de 2015 que institui o Programa de Combate à Intimidação Sistemática (Bullying) com objetivo de “fundamentar as ações do Ministério da Educação e das Secretarias Estaduais e Municipais de Educação, bem como de outros órgãos” (Brasil, 2015, s/p). Tanto a lei (Brasil, 2015) quanto Lopes Neto (2005) e Fante (2005), também mencionam o caráter repetitivo enfatizando, no entanto, a característica da ausência de uma motivação evidente para as agressões de bullying.

 

    Nas aulas de Educação Física Escolar, a interação entre os alunos é indispensável e ocorre de maneira singular, pois a disciplina exige que o aluno utilize sua capacidade motora e cognitiva para a realiza­ção das atividades propostas. Desta forma, de acordo com Bonfim (2012) os alunos com menos habilidade são facilmente identificados e tornam­-se mais vulneráveis a perseguições, agressões, intimidações, discriminações, exclusões das atividades e comentários maldosos (Bonfim, 2012). E a escola torna-se, de acordo com Fante (2005), um dos ambientes mais propícios a prática do bullying, uma vez que, para o autor, a personalidade de crianças e adolescentes ainda estão completamente formadas, não havendo ainda amadurecimento suficiente para lidar com tais questões.

 

    Na universidade, na aula de Educação Física, acontecem os mesmos conceitos de exclusão acometidos na escola, principalmente em aulas práticas onde o corpo e as habilidades cognitivas são facilmente expostas. Essas depreciações passam para o nível profissional. A todo momento profissionais da área da Educação Física estão sendo excluídos por não terem um corpo musculoso, ou por ter passado da idade impostas pelo mercado ou estarem acima do peso. Dificilmente vemos um professor de Educação Física portador de alguma deficiência física.

 

    O mercado de trabalho da área é cada vez mais discriminatório, tendo em seu imaginário que a contratação desses profissionais, com um modelo físico diferente do imposto pela mídia, não traria credibilidade dos seus serviços (Rosa & Assis, 2013). Esse preconceito pode começar nas próprias universidades, pelos próprios alunos (e professores) que muitas vezes não trazem consigo o pensamento pluralista e tolerante, segundo Rosa e Assis (2013).

 

    Embora a Educação Física deva trabalhar com todos os alunos de forma igualitária, ainda é comum perceber que aqueles que não se enquadram dentro de padrões corporais considerados ideais, sejam de forma direta ou indireta excluídos da oportunidade da prática de movimentos corporais (Kogut & Gaspar, 2008). Se na educação escolar há descriminação nas aulas de Educação Física, a exclusão pode ser tanto do aluno que não tem o padrão corporal “aceito” para ser um atleta ou do aluno que tenha uma deficiência física ou mental. E até mesmo de um aluno que não tenha habilidades para a prática de determinados esportes. Então nos perguntamos: essa exclusão passa para o nível superior de ensino? Os estudantes do curso de graduação em Educação Física aceitam os colegas que são diferentes deles?

    As diferenças entre indivíduos são justificadas através de uma condição natural da existência de corpos naturalmente melhores e outros naturalmente piores. Assim a Educação Física escolar se caracteriza pelo caráter de homogeneização. (Daolio, 2003 apud Teixeira, 2009, p. 336-337)

    Neste contexto, o objetivo de nossa pesquisa foi o de investigar a presença, ou não, do bullying entre estudantes do curso de Educação Física em relação aos seus colegas. Operamos inicialmente com a hipótese de que, apesar de estarem cursando uma faculdade de formação de professores, os graduandos poderiam estar praticando (ou já ter praticado) bullying contra seus colegas. Buscamos também realizar uma intervenção, em formato de palestra, ministrada por um aluno do curso, com deficiência física, a fim de tentar esclarecer os males que a discriminação pode causar e alterar as atitudes e comportamentos dos graduandos.

 

Metodologia

 

    A pesquisa foi desenvolvida com 15 alunos, sendo 8 homens e 7 mulheres do primeiro e segundo períodos da graduação de Educação Física, no campus Realengo, da Universidade Castelo Branco (UCB), localizada na cidade do Rio de Janeiro (RJ). Optamos por não revelar e preservar a identidade dos alunos, para evitar constrangimentos acerca das respostas que obtivemos. Na UCB o curso de Educação Física é composto por oito períodos no bacharelado e oito na licenciatura, ou seja, quatro anos para ambos. No entanto, optando por cursar os dois o término pode ocorrer em 5 anos por haver muitas disciplinas em comum. Os critérios para seleção dos participantes, dos primeiros períodos, se deram por entendermos que nessa fase o aluno ainda não tem plena consciência das possibilidades de atuação profissional, autores, literaturas e correntes de pensamento da área. Desta feita, a coordenação do curso de Educação Física também só nos permitiu a realização da pesquisa, aplicação dos questionários, intervenção/palestra com duas turmas (primeiro e segundo período). A alegação foi a de que uma mobilização maior de turmas poderia atrapalhar o andamento do calendário acadêmico do curso. Em conversas iniciais com as turmas, sobre os objetivos de nossa pesquisa, obtivemos a aquiescência para participação de um total de 15 alunos, como supracitado.

 

    Seu delineamento se deu através de pesquisa qualitativa utilizada para refletir sobre o fenômeno do bullying na graduação de Educação Física. Para Knechtel (2014) os pressupostos básicos desse tipo de pesquisa são: a preocupação primária com os processos, não se absorvendo diretamente com o resultado e o produto; o interesse pelo significado, como as pessoas relatam suas vivências, experiências, visão de mundo; a busca por informações diretamente no campo de pesquisa; a ênfase na descrição e explicação de fenômenos; a utilização de processos indutivos, a fim de construir conceitos, hipóteses e teorias (Knechtel, 2014). Nesse sentido a metodologia utilizada foi a pesquisa de campo, realizada na UCB, que, de acordo com Tozoni-Reis (2010), “se caracteriza pela ida do pesquisador a esses espaços educativos para coleta de dados com o objetivo de compreender os fenômenos que nele ocorrem e, pela análise e interpretação desses dados, contribuir, para produção de conhecimentos”. (Tozoni-Reis, 2010, p. 24)

 

    Utilizamos como instrumento para coleta de dados um questionário que expressou as opiniões e entendimentos dos entrevistados sobre a temática do bullying. Este foi adaptado e baseado no questionário que Santos (2010) utilizou em sua pesquisa “Fenômeno bullying na Educação Física Escolar: um estudo de caso no Distrito Federal”. A escolha do questionário se deu porque buscávamos coletar dados, para posteriormente realizar um evento de intervenção que alteraria (ou não) os conceitos e/ou pré-conceitos dos alunos do curso de graduação acerca do tema.

 

    As questões apresentadas no questionário buscaram retratar os seguintes personagens: a) o que sofre a opressão do bullying; b) o que apenas observa a opressão do bullying; c) o que oprime outros colegas com bullying. As questões tiveram o objetivo de identificar e analisar os números de ocorrências de bullying nas aulas de Educação Física que estes, atualmente estudantes da faculdade de Educação Física da UCB, sofreram, praticaram e/ou foram indiferentes desde quando eram estudantes na escola até seu atual período na faculdade. As perguntas buscavam também identificar o sexo dos entrevistados, as perspectivas que rodeiam os casos de bullying, como a frequência em que ocorriam, quanto tempo durou, como aconteceu, porque aconteceu e qual atitude foi tomada. As respostas obtidas estão expostas nas tabelas 1 e 2.

 

    A aplicação do mesmo questionário ocorreu duas vezes, em dois momentos diferentes. A primeira foi em sala de aula da UCB, no início do semestre, com aquiescência do professor que estava ministrando a disciplina naquele momento ao qual denominamos pré-intervenção. Os alunos demoraram cerca de 10 minutos para responder as perguntas. Após a aplicação dos questionários, marcamos uma data (2 semanas depois) com os alunos que se voluntariaram para nos conceder as respostas, para participar de uma palestra, na própria faculdade, com outro aluno da graduação de Educação Física da UCB que sempre sofreu bullying por causa de sua condição de pessoa com deficiência - não possui o antebraço esquerdo por conta de uma má formação, durante a gestação. Este era o único aluno com deficiência da graduação de Educação Física e já estava cursando o seu quinto período. Explicamos os objetivos do estudo, nossas motivações e o convidamos a palestrar sobre os desafios que sua deficiência o impõe. Assim como expor suas dores e preconceitos sofridos, proporcionados pelo bullying em seu cotidiano. Este prontamente aceitou nosso convite. Esta intervenção teve também o objetivo de promover um debate acerca do esporte adaptado e de algumas deficiências físicas e respeito à diferença. Ao final da palestra, abrimos para discussão e perguntas ao palestrante, havendo participação expressiva dos alunos. Deste modo, a pesquisa não teve caráter meramente descritivo e explicativo de determinados fenômenos, mas também buscou intervir concretamente na formação e visão de mundo (Tozoni-Reis, 2010) dos alunos dos primeiros períodos acerca do bullying.

 

    Três meses após a palestra, já no fim do semestre, voltamos a aplicar o mesmo questionário para o mesmo grupo de estudantes, na sala de aula, para identificarmos se nossa intervenção/palestra possibilitou mudanças de comportamento/atitudes em relação à prática de bullying contra os colegas, nas aulas de Educação Física da UCB. Momento em que classificamos como pós-intervenção.

 

Resultados e discussão

 

Pré-intervenção

 

    Ao analisarmos os resultados que obtivemos pelas respostas dos questionários anteriormente à intervenção, pudemos identificar que dos 8 homens entrevistados, 7 diziam que não sofreram bullying e apenas 1 apontou que sofreu bullying. Entre os graduandos de Educação Física pesquisados, 5 homens afirmaram que não praticaram e 3 afirmaram que praticaram o bullying. Em relação à questão que tratou do testemunho/observação de casos de bullying, 4 homens afirmaram que já viram acontecer a prática e outros 4 afirmaram nunca terem visto.

 

    Já entre as 7 mulheres entrevistadas, todas apontaram que não sofreram bullying; 6 afirmaram que não praticaram; apenas 1 afirmou que praticou contra uma outra colega; 6 afirmaram que já observaram a prática de bullying ocorrer e apenas 1 nunca viu. Abaixo a Tabela 1 dá um panorama geral a respeito.

 

Tabela 1. Frequência de bullying antes da intervenção/palestra

Mulheres

Homens

n*

Qtd

n*

Qtd

Percepção sobre vitimização

7

8

Sofreram bullying

0

1

Não sofreram bullying

7

7

Percepção sobre prática

7

8

Praticaram bullying

1

3

Não praticaram bullying

6

5

Percepção sobre testemunho

7

8

Observaram o bullying

6

4

Não observaram o bullying

1

4

*Número de entrevistados por sexo.

Fonte: elaboração própria.

 

Pós-intervenção

 

    Após a palestra, dos 8 homens entrevistados, 4 diziam que não sofreram bullying, 4 apontaram que sofreram; 5 apontaram que não praticaram bullying, 3 que praticaram e; 6 afirmaram já ter visto acontecer a prática de bullying enquanto apenas 2 afirmaram que nunca viram.

 

    Já entre as 7 mulheres entrevistadas, 5 disseram não ter sofrido bullying e 2 já sofreram; 4 não praticaram bullying e 3 afirmaram que já praticaram; 6 já viram acontecer a prática de bullying e apenas 1 relatou nunca ter visto. A Tabela 2 abaixo detalha esses resultados.

 

Tabela 2. Frequência de bullying após a intervenção/palestra

Mulheres

Homens

n*

Qtd

n*

Qtd

Percepção sobre vitimização

7

8

Sofreram bullying

2

4

Não sofreram bullying

5

4

Percepção sobre prática

7

8

Praticaram bullying

3

3

Não praticaram bullying

4

5

Percepção sobre testemunho

7

8

Observaram o bullying

6

6

Não observaram o bullying

1

2

*Número de entrevistados por sexo.

Fonte: elaboração própria.

 

    É possível supor, ao menos como hipótese, que as respostas dos alunos pesquisados apontam que antes da palestra/intervenção, alguns se omitiram em responder algumas questões, deixando-as em branco, por vergonha ou desconhecimento do tema. Nota-se que após a intervenção os números de entrevistados que sofreram, praticaram ou já presenciaram a prática de bullying aumentaram significativamente. Foi-nos relatado pela maioria dos estudantes que, antes da palestra, eles não tinham o entendimento do conceito de bullying, dos perigos e sofrimentos que a prática pode causar em quem é vítima. Que não tiveram essa discussão quando ainda estavam na escola, nem mesmo na faculdade de Educação Física até aquele momento e que não tinham consciência de que “uma simples brincadeira”, como chamar o(a) colega de “gordinha” ou de “frango” (por ser magro e não praticar musculação) pode caracterizar bullying. Este (não) entendimento acerca do conceito de bullying também pode ser observado na pesquisa de Nobre et al. (2019) que entrevistaram 53 alunos com idades entre 11 e 18. Os resultados demonstraram que 52 (98%) alunos afirmaram já ter ouvido a palavra bullying e conhecer seu significado, apesar de 42 (79%) alunos também afirmar já ter praticado bullying nas aulas de Educação Física. (Nobre et al., 2019)

 

    Tais respostas se coadunam com que Malysse (2007) e Sabino (2007) defendem sobre a corpolatria carioca, sobre um imaginário criado para discriminar o outro, onde o homem tem que ter músculos e as mulheres têm que ser magras. A pesquisa de Silva et al. (2019) também encontra resultados semelhantes a esta, no que se refere ao corpo, quando demonstraram que as motivações dos alunos pesquisados para a prática do bullying contra os colegas foi de 72,7% por ter um “corpo fora dos padrões estéticos” e “baixo desempenho motor nas atividades propostas na aula”.

 

    De acordo com Correa et al. (2018), na escola, são nos tempos livres e nas aulas de Educação Física que ocorrem a maioria das práticas de bullying associados à imagem corporal e à habilidade motora. Apesar de que somente 20,31% dos 243 alunos do ensino médio entrevistados, na pesquisa de Santos et al. (2017), afirmaram ter sofrido bullying nas aulas de Educação Física e 45,69% em demais localidades da escola que não foram nos espaços de atividade física. Em casos extremos o bullying pode levar a vítima também a cometer atos extremos. Santos et al. (2017) relata casos comprovados de suicídio em alunos que sofreram bullying na escola em outros países.

 

    No Brasil, o primeiro grande levantamento foi realizado pela Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e Juventude - ABRAPIA, entre 2002 e 2003. A pesquisa, que envolveu 5.875 estudantes de 5ª a 8ª séries de onze escolas cariocas, revelou que 40,5% desses alunos admitiram ter estado diretamente envolvidos em atos de bullying naquele período, sendo 16,9% vítimas (ou alvos), 10,9% alvos/autores (ou “bully/vítimas”) e 12,7% agressores (ou autores de bullying). (Albino & Terêncio, 2012)

 

    Ao sofrer a violência proporcionada pelo bullying, tanto as crianças como os adultos, sozinhos, não têm como se defender. Os colegas, que na maioria das vezes dizem repudiar esse tipo de violência psicológica e sentirem pena, costumam declarar que nada podem fazer para defendê-la, com medo de serem as próximas vítimas (Lima, 2004). É neste sentido que o professor de Educação tem papel fundamental no combate ao bullying em suas aulas, se auto conscientizando e conscientizando seus alunos para os riscos e sofrimentos que este pode causar. E a universidade a missão de propor um currículo universitário para a Educação Física que aborde e discuta essas temáticas.

 

Conclusão

 

    Concluímos que a maioria dos alunos pesquisados não tinham previamente, antes de nossa intervenção/palestra, o entendimento do conceito de bullying e suas consequências para os que o sofrem. Nem ao menos tinham a consciência de que também o praticavam, sofriam e/ou eram testemunhas dos atos. No entanto, após a palestra e as discussões, puderam responder ao questionário, inclusive, reconhecendo às práticas que eles(as) cometiam contra seus colegas no período escolar e atualmente na graduação de Educação Física. É possível, portanto, afirmar que havia a presença do bullying entre os estudantes do referido curso de Educação Física.

 

    Desse modo, pensamos que conseguimos contribuir para o combate à prática do bullying, concretamente/efetivamente, nas futuras aulas que estes graduandos ministrarão nas escolas, após formados, tornando estas mais agradáveis e inclusivas. O bullying é um fenômeno social grave e complexo, por isso empreendemos esforços para estimular os estudantes da graduação, do primeiro e segundo período do curso de Educação Física da UCB, a estudarem e observarem atentamente este fenômeno também em suas atitudes.

 

    Entretanto, na expectativa de um diagnóstico ainda mais conclusivo, obtivemos resultados que nos geraram mais dúvidas do que certezas. Com o término da pesquisa, observamos que os estudantes de Educação Física não estão totalmente preparados para esse importante e grave problema educacional. Não só na área da Educação Física, mas provavelmente em outras áreas das licenciaturas e da pedagogia também.

 

    Por fim, espera-se e recomenda-se que esse trabalho possa estimular outros graduandos, professores e pesquisadores da Educação Física a buscar e discutir, o problema do bullying da formação dos futuros profissionais na área da licenciatura. Reconhecemos as limitações desta pesquisa e estimamos que ela possa ser aprofundada por nós e/ou por outros pesquisadores em textos futuros.

 

Referências

 

Albino, P. L., & Terêncio, M. G. (2012). Considerações críticas sobre o fenômeno do bullying: do conceito ao combate e a prevenção. Revista Eletrônica do CEAF. Porto Alegre - RS. Ministério Público do Estado do RS, Vol. 1. n. 2. fev/maio.

 

Bandeira, C. de M., & Hutz, C. S. (2010). As implicações do bullying na auto-estima de adolescentes. Psicologia Escolar e Educacional, Volume 14, Número 1, p.131-138. Janeiro/Junho.

 

Bonfim, D. L. et al. (2012). Ocorrência de bullying nas aulas de educação física em uma escola do Distrito Federal. Pensar a Prática, v. 15, n. 2.

 

Botelho, R. G., & Souza, J. M. C. de. (2007). Bullying e educação física na escola características, casos, conseqüências e estratégias de intervenção. Revista de Educação Física. Niterói, v. 139, p. 58-70, dez.

 

Brasil (2015). Presidência da República. Secretaria Geral. Sub-chefia de Assuntos Jurídicos. Lei nº 13.185, de 06 de novembro de 2015. Institui o Programa de Combate à Intimidação Sistemática (Bullying). Brasília, DF.

 

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Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 25, Núm. 264, May. (2020)