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Refletindo sobre a consciência corporal e
a imagem corporal para superar ansiedades e tensões:
uma nova abordagem para a natação

   
*Especialista em Fisiologia do Exercício pelo IBPEX de Pato Branco
PR e Professor de Natação da Academia Aquatic Center de Chapecó -SC.
**Mestranda em Atividade Física e Saúde pela FACIPAL
PR e Professora de Dança do SESC de Chapecó - SC.
 
 
Marcos Cesar Kleinubing*
Neusa Dendena Kleinubing**

marneuk@redamp.com.br
(Brasil)
 

 

 

 


 
    Entendemos que todos os aspectos dos sujeitos devem ser respeitados e as suas sensações e emoções devem ser levadas em consideração pelo instrutor, para que a atividade da natação traga não só benefícios físicos, como principalmente emocionais aos praticantes.
    Diante disso, pretendemos nesse breve ensaio refletir sobre os novos caminhos para a prática da natação. Uma maneira, pela qual, o homem passa estar plenamente envolvido na atividade, onde o principal objetivo deve ser de o nadador sentir-se bem ao nadar; onde ele possa “ver” ou perceber a água como uma aliada, usufruindo e reconhecendo assim, as suas propriedades naturais e o prazer de se estar envolvido por ela.
 

 
http://www.efdeportes.com/ Revista Digital - Buenos Aires - Año 8 - N° 49 - Junio de 2002

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Introdução

    Atualmente novas idéias vêm ocupando espaços no “mundo” da natação, abordando as diferentes emoções e sensações expressas pelas diversas pessoas diante do mesmo fato - nadar.

    Ora, para muitos, a água se apresenta como um meio novo, algo desconhecido; para outros como algo ameaçador ou ainda como um mundo a ser conquistado. SHAW & D’ANGOUR (2001, p. xx), cita que “o que a água parece fazer conosco é um reflexo do que fazemos para nós mesmos. Ela nos apoia, se lhe permitimos isso; resiste a nós, se lutamos contra ela, e nos assusta, se a tememos. É inconquistável porque nada faz, nada busca e de nada precisa - simplesmente existe”.

    Diante disso, há neste contexto diferentes tipos de “consciências” e diferentes nadadores que podem ser vistos em todas as piscinas, todos os dias da semana. Há os que entram na água e ficam esperando a hora passar; os que acreditam que nadar é um bom exercício - desde que os cabelos não se molhem. Não podemos esquecer daqueles que “brigam” com a água a todo momento, batendo seus músculos tensos contra a água em movimentos desajeitados.

    Obviamente, há também os nadadores despreocupados e elegantes que atraem os nossos olhares, tanto pela graça de seus movimentos, como pela desenvoltura do seu corpo, mostrando a grande intimidade estabelecida com a água.

    SHAW & D’ANGOUR (2001, p. 03) cita que “se nossa mente não está engajada no que fazemos, os benefícios do exercício são limitados ou simplesmente não existem. Se nem mesmo sentimos prazer com o que fazemos, isto é um desperdício”.

    Acreditamos que insistir na relação atividade física/bem estar deve ser a primeira preocupação ao se ensinar os diferentes nados e um segundo fator importante é auxiliar ou trabalhar no sentido de proporcionar aos alunos, atividades que possam desenvolver a consciência corporal, onde irão unir as possibilidades de cada corpo usufruir da melhor forma possível dos benefícios que a água oferece.

    Dentro de tal perspectiva, há necessidade que prevaleça o “prazer de fazer”, o “prazer de sentir” e o “prazer de estar na água”, a qual interfere na superação de limites e de supostas barreiras com o meio.

    Segundo SHAW & D’ANGOUR (2001, p. 02), “a natação combina o prazer de um esporte com os benefícios de entrar em forma. Ainda assim, muitas pessoas não associam a natação com prazer, e mesmo aqueles que nadam por vontade própria parecem não encontrar diversão na atividade”.

    A medida que despertamos nossa consciência para o ato de nadar, começamos a perceber novas possibilidades para o desenvolvimento e exploração de novas relações que podemos estabelecer com a água. Assim, podemos sentir a água, explorando-a de formas diferentes e descobrindo uma relação viva, que vai além de idéias preestabelecidas, fixas e da instrução convencional.

    Nesse sentido, SHAW & D’ANGOUR (2001, p. xviii) é muito feliz em citar que “cabe a nós a decisão de tratar a água como um oponente hostil ou como um aliado generoso”, o que reforça ainda mais a idéia de que operar em sintonia com a água, explorar nossa relação com ela, compreender e valorizar suas qualidades, podem ser a base para uma abordagem mais produtiva para quem busca na natação um caminho para aliar uma atividade a um momento de prazer.

    À luz dessas idéias, nos propomos a intensificar as reflexões pedagógicas sobre as diferentes relações dos diferentes corpos com a água, e talvez proporcionar subsídios teóricos aos instrutores de natação e a qualquer pessoa que busca descobrir o que acreditamos ser o verdadeiro sentido de nadar - ou seja - ajudar os alunos a assumirem uma postura mais ativa e estabelecerem uma relação mais íntima com a água, proporcionando novas descobertas e novos caminhos para exploração de novas sensações, que possam ser mais prazerosas e que permitam (re)descobrir a verdadeira magia de nadar.


Um olhar sobre a consciência corporal

    Todo conhecimento - inclusive o de si mesmo - passa pelo corpo. É o corpo que está envolvido no processo de compreender, de recordar e de sociabilizar-se com outros corpos.

    Assim, um novo entendimento sobre o corpo do homem que vive, se tornou imprescindível para tentarmos compreender o ser humano e sua existência como sujeito individual e social. Todas as experiências vivenciadas estão marcadas no corpo/história do homem, e elas se mostram nas relações, ou melhor nas inter-relações estabelecidas com os outros e com o meio, revelando a totalidade do homem que integra os sentimentos, os pensamentos e as ações. Para GONÇALVES (2000, p. 99), “não existe assim, pensamento separado da ação e dos sentimentos, nem ação sem pensamento e sentimento”.

    Entretanto, tudo o que fazemos envolve uma interação complexa de ações conscientes e inconscientes. SHAW & D’ANGOUR (2001, p. 17), nos diz que “reconhecer a interconexão consistente entre hábitos mentais e físicos e tomar consciência dos padrões impensados são os primeiros passos para nadar sem ansiedade ou tensão”.

    Considerando que há partes do corpo que, quase nunca (ou nunca) recebem a atenção necessária, percebemos que a maioria dos nadadores está preso em padrões impensados de comportamentos na água, que vão desde nadar com a cabeça puxada para trás, até debater-se na água por longos períodos de forma automática.

    “Esses padrões que freqüentemente derivam de medos ou apreensões persistentes, bloqueiam a conquista da verdadeira liberdade na água. Abordar esses padrões em suas raízes libera o espírito de exploração que dá vida a todo o processo de nadar. Assim, cada braçada torna-se uma oportunidade para a descoberta e auto-exploração, expandindo nosso horizonte e abrindo novas possibilidades”; SHAW & D’ANGOUR (2001, p. 17).

    Pensando o corpo como resultado de todas as nossas experiências conscientes e até mesmo inconscientes, muitas vezes o vemos como algo misterioso. Em algumas situações não o percebemos completamente, e até negligenciamos partes dele. Essa atitude vem sendo abordada por alguns estudiosos como FISHER citado por (OLIVIER; 1998) “ (...) algumas pessoas têm uma elevada consciência do corpo e outras estão minimamente conscientes dele. Além disso, algumas áreas do corpo recebem consistentemente maior atenção do que outras e tal diferenciação parece ter um sentido psicológico” .

    Diante disso, acreditamos que tendo consciência dos obstáculos que muitas vezes criamos para nós mesmos, podemos trabalhar eficientemente para abandonar esses padrões de ação que muitas vezes realizamos sem pensar e que nos impedem de usufruir o máximo das experiências corporais na água.


Natação e imagem corporal: suas relações

    Conforme GONÇALVES (2000, p. 106) “a imagem corporal é ao mesmo tempo, constante e mutável. A imagem do corpo é, pois, uma reconstrução constante do que o indivíduo percebe de si e das determinações inconscientes que ele traz de seu diálogo com o mundo”.

    Muitos nadadores, por exemplo, não percebem que problemas específicos na natação relacionam-se com ansiedades não resolvidas. GANDHI in SHAW & D’ANGOUR (2001, p. 22) cita que “um homem nada mais é do que o produto de seus pensamentos, ele torna-se aquilo que pensa”.

    Contudo, não é preciso pensar muito para perceber que nadadores de todos os níveis podem ser afetados por seus sentimentos, que tendem não só a diminuir suas habilidades para nadar mas também dificultam o real potencial para ter prazer na água. A desconfiança relativa ao estar na água e da capacidade de lidar com ela, é um desafio que para muitas pessoas é extremamente conflitante.

    JUNG in SHAW & D’ANGOUR (2001, p. 63), nos coloca uma importante reflexão citando que “qualquer um que se mire no espelho da água verá, antes de mais nada seu próprio rosto. Todos os que buscam a si mesmos arriscam-se a uma confrontação consigo mesmos. O espelho não adula; ele mostra fielmente tudo sobre quem o está encarando... Esta confrontação é o primeiro teste de coragem em nosso interior, um teste suficiente para assustar e afastar a maioria das pessoas”.

    Por esse motivo, qualquer método de ensino de natação deve levar em conta como nos sentimos e pensamos, pois esses não são pensamentos “tolos” e muitas vezes representam um obstáculo para que as pessoas se sintam à vontade na água.

    GABEIRA in NORONHA (1985, p. 09) cita que “não há conselho possível para quem, como eu, suspeita de que a gente nada como vive e o jeito que a gente vive vai aparecer dentro da água com a mesma liquidez cristalina com que aparecem as pedras no fundo de um riacho”.


Medo

    Sem dúvida, a natação é um dos esportes a qual os nossos sentimentos e emoções mais profundas se afloram, como cita CATTEAU & GAROFF (1988, p. 100) “se existe uma área na qual a ênfase tenha sido sempre colocada sobre as emoções é certamente a da natação”.

    Vários sentimentos, em especial o medo, é muito comum em nadadores iniciantes ou em atletas de alto nível. Esses sentimentos, quando não controlados, resultam em ansiedades e tensões desnecessárias no meio aquático, a qual influencia muito o modo de agir do nadador.


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