efdeportes.com

Obesidade: aspectos epidemiológicos, diagnósticos
e a relação com exercícios físicos aeróbios e resistidos

Obesidad: aspectos epidemiológicos, diagnósticos y la relación con los ejercicios aeróbicos y resistidos

 

*Licenciada em Educação Física. Universidade Estadual de Goiás

**Professora Mestre da Universidade Estadual de Goiás

(Brasil)

Patrícia Pereira Tinôco*

Thaís Inácio Rolim Póvoa**

thaisrolim.edfis@gmail.com

 

 

 

 

Resumo

          A prevalência de obesidade e do próprio excesso de peso tem aumentado no mundo devido ao fenômeno da transição nutricional. A obesidade pode ser diagnosticada por métodos simples e viáveis como o Índice de Massa corporal, bem como por métodos pormenorizados com a ressonância magnética. Em estudos populacionais, índices como o IMC, a CC e a RCQ tem sido considerados válidos e importantes para a identificação da obesidade. Exercícios aeróbios e resistidos oferecem efeitos importantes na redução do percentual de gordura.

          Unitermos: Obesidade. Diagnóstico. Exercício físico aeróbio. Exercício físico resistido.

 

 
EFDeportes.com, Revista Digital. Buenos Aires, Año 17, Nº 173, Octubre de 2012. http://www.efdeportes.com/

1 / 1

    A obesidade tem aumentado em todo o mundo e vem se tornando um dos maiores problemas de saúde na sociedade moderna na maioria dos países desenvolvidos e em desenvolvimento. Sujeitos com sobrepeso ou obesidade possuem maiores riscos de desenvolver doenças crônicas não transmissíveis (DCNT's) quando comparados a sujeitos de peso normal (MCARDLE, KATCH, KATCH, 2008; MEIRELLES, 1997).

    Segundo o levantamento feito pelo Vigitel, do Ministério da Saúde (2010), foi detectada uma prevalência de 48,1% de sobrepeso e de 15% de obesidade na população adulta brasileira. A mesma pesquisa apontou que em Goiânia, 44,6% das pessoas adultas apresentaram sobrepeso e 11,9%, obesidade, sendo 11,7% nos homens e 12,1 nas mulheres.

    O crescimento exacerbado da obesidade pode ser explicado pelo fenômeno da transição nutricional, ou seja, as pessoas têm aumentado a ingestão calórica e diminuído o gasto energético, compactuando com o balanço calórico positivo (LOTUFO, 1996).

    O termo “obesidade” é definido por Guedes et al (2003, p.196) como “o acúmulo e aumento da quantidade de gordura generalizada ou localizada relacionada ao peso corpóreo”. Pode ser classificada de diversas formas: há a obesidade hiperplásica (número anormal de células adiposas no organismo, e obesidade hipertrófica (aumento do tamanho das células adiposas existentes). Em relação à distribuição da gordura corporal, há a obesidade androide, mais comum entre os nos homens por efeito de corticóides e testosterona, em que a gordura se acumula na região superior do corpo, principalmente na região abdominal. Há também a obesidade ginóide, que ocorre principalmente em mulheres, é caracterizada pelo acúmulo de gordura na região coxofemoral, e está associada a alterações hormonais e circulatórias. Há também a obesidade progressiva (que ocorre pelo aumento da quantidade de gordura, desde a infância).

    Segundo Mendonça et al (2004) quando se trata da obesidade relacionada a aspectos nutricionais, deve-se atentar ao fato de que:

    O aumento da ingestão energética pode ser decorrente tanto da elevação quantitativa do consumo de alimentos como de mudanças na dieta que se caracterizem pela ingestão de alimentos com maior densidade energética, ou pela combinação dos dois (MENDONÇA et al 2004, p.700).

    O diagnóstico da obesidade é possível por meio de diversos métodos, sendo o Índice de massa corporal (IMC), obtido pela divisão do peso em quilogramas pela altura ao quadrado (em metros) um dos mais utilizados em investigações epidemiológicas. A Organização Mundial de Saúde (1995,1997) considera as seguintes categorizações: IMC: <18,2 kg/m2 (baixo peso); IMC entre 18,5 e 24,9 kg/m2 (normal); entre 25 e 29,9 kg/m2 (sobrepeso); entre 30 e 34,9 kg/m2 (obesidade grau I); entre 35 e 39 kg/m2 (obesidade grau II) e acima de 40 kg/m2 (obesidade grau III).

    Há outros métodos pormenorizados como a tomografia computadorizada, ressonância magnética nuclear, que mensuram a adiposidade visceral, porém de alto custo e baixa disponibilidade. Têm-se alguns mais acessíveis como a impedância bioelétrica ou a mensuração das dobras cutâneas, que verificam o percentual de gordura total e são amplamente utilizados. Mesmo assim, ambos não diferenciam o tecido adiposo subcutâneo do visceral, sendo, recomendada a utilização conjugada a outros métodos, dentre eles os que verificam índices baseados nas medições de circunferências corporais, como a relação entre cintura e quadril (RCQ) ou a própria circunferência da cintura (CC). A primeira verifica a distribuição regional de tecido adiposo e possibilita analisar se a obesidade é mais centralizada ou periférica. Para a RCQ maior que 0,90 nos homens e 0,85 nas mulheres, há risco de desenvolvimento de problemas metabólicos e cardiovasculares (COUTINHO, 1998; DÂMASO, 2003).

    Na circunferência da cintura (CC) é possível relacionar a obesidade abdominal e sua gravidade, na medida em que homens com CC > 94 cm e mulheres > 80 cm têm risco aumentado para problemas metabólicos e cardiovasculares. Porém, quando estes índices ultrapassam 102 cm para os homens e 88 cm para mulheres há risco mais grave e mais acentuado, mas é importante ressaltar que há discordâncias na literatura quanto a estes valores (COUTINHO, 1998, DÂMASO, 2003).

    Em estudo feito por Conway et al (1995) em mulheres negras americanas, a CC foi a medida antropométrica que mais se correlacionou com a distribuição de gordura visceral.

    O risco de DCNT's aumenta quando há associação destes índices elevados com o IMC acima dos valores normais, como mostra a tabela abaixo:

Risco para doenças crônico-degenerativas em relação ao Índice de massa corporal e circunferência da cintura

Obesidade abdominal e implicações cardiovasculares

    Autores como Marti et al. (1991) afirmam que o excesso de gordura na região abdominal pode significar maiores riscos cardiovasculares do que a massa corporal total para algumas doenças, como o infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral (AVC) e diabetes mellitus.

    Os mecanismos específicos que provocam essas alterações não são muito delineados, entretanto algumas hipóteses coexistem na literatura, dentre elas o fato de que a gordura abdominal ao produzir maiores quantidades de ácidos graxos livres (AGL) no plasma, além dos adipócitos nesta região serem maiores, a torna “mais metabolizável” e os tecidos hepáticos e extra-hepáticos mais susceptíveis à ação dos AGL, interferindo com prejuízo no metabolismo da glicose e na ação da insulina. Isso porque pode ocorrer diminuição dos receptores de insulina na membrana celular dos hepatócitos e também diminuição na degradação dos mesmos e no uso da insulina hepática, provocando a hiperinsulinemia, na tentativa de controlar os níveis glicêmicos (DÂMASO, 2003).

    O Consenso Latino Americano de Obesidade (1998) refere que o excesso de gordura abdominal tem influência de aspectos genéticos. Segundo os autores:

    Todos os fatores orgânicos que podem contribuir para uma ingestão alimentar excessiva ou uma tendência elevada de acúmulo de gordura. Há muitos genes envolvidos com estes mecanismos de controle e alterações nestes genes podem favorecer ou causar o desenvolvimento de obesidade. Entre eles se inclui o gene que codifica a leptina e seu receptor. Este hormônio é secretado pelo adipócito e aparentemente atua aumentando o gasto energético e inibindo as ações do neuropeptídeo Y (NPY), cuja ação aumenta o apetite e diminui a termogênese. (p.03).

    Uma das complicações cardiovasculares que possui relação com a obesidade visceral é a aterosclerose, já que:

    O Inibidor-1 da ativação do plasminogênio, importante adipocitocina, possui importante função regulatória nos processos fibrinolíticos e na formação de trombos, e seu aumento pode estar relacionado ao processo de aterosclerose. Recentes estudos revelaram que o nível plasmático de PAI-1 está fortemente correlacionado com a adiposidade visceral em humanos (DÂMASO, 2003, p. 45).

    Os autores Peña González et al (1997) estudaram os métodos diagnósticos da obesidade e concluíram que a RCQ é um índice complementar ao IMC, na avaliação da obesidade e suas alterações metabólicas e que a RCQ elevada está correlacionada com um perfil lipídico adverso em hipertensos. Pereira et al (1999) estudaram 3282 sujeitos, no Rio de Janeiro, e investigaram qual método diagnóstico da deposição de gordura abdominal teria maior capacidade preditiva da hipertensão arterial e foi constatada uma maior correlação com a RCQ e menor com o IMC, corroborando com os estudos que evidenciam a obesidade abdominal como fator de risco mais acentuado para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares.

    Além da aterosclerose e da hipertensão arterial, Pereira et al (1999) referem que a obesidade abdominal pode desencadear cardiopatia coronária, câncer, diabetes tipo II e cálculos biliares e dislipidemias.

Obesidade e exercício físico

    A literatura já apresenta pareceres institucionais direcionados ao treinamento aeróbio e de força nas populações com sobrepeso e obesidade. Para a prevenção e tratamento a freqüência sugerida pelo ACSM e pela AHA (2007) é de 45 a 60 minutos de exercício físico moderado por dia ou uma menor duração com intensidade mais vigorosa. Dâmaso (2003) sugere 60 a 90 minutos de atividade física moderada ou também uma menor duração quando houver intensidade mais vigorosa.

    Irwin et al (2003) avaliaram os efeitos de 12 meses de caminhada leve, a 40% da freqüência cardíaca (FC) máxima, sobre a composição corporal em 179 mulheres com excesso de peso pós menopausadas. Aquelas que realizaram no mínimo 150 minutos por semana obtiveram diminuição no percentual de gordura geral e no intra-abdominal. A literatura indica que protocolos com tempo de duração maior oferecem impacto mais satisfatório sobre a composição corporal em relação a estudos de menor duração. Donnelly et al (2003), também com um protocolo de duração maior (16 meses) de caminhada em esteira ergométrica, intensidade moderada (60-75 % da FC máxima), realizada cinco vezes por semana, identificaram reduções no peso corporal, IMC e no percentual de gordura nos homens. Já nas mulheres, observaram manutenção em tais variáveis no início e no fim do estudo.

    Outro estudo (SLENTS, 2004) verificou que o exercício aeróbio em intensidades mais elevadas ofereceu resultados mais significativos quanto à mudança positiva na composição corporal, no entanto, são menos viáveis quanto à adesão e podem oferecer mais riscos articulares, portanto, devido aos resultados satisfatórios obtidos com as intensidades leve e moderada, sugere-se que sejam indicadas a sujeitos com excesso de peso e à medida que houver evolução poderão alcançar intensidades mais altas.

    O treinamento de força ou de contrarresistência já foi considerado inapropriado ao objetivo de emagrecimento, porém hoje é difundido como estratégia auxiliar a esse objetivo, na medida em que promove ganhos significativos na massa muscular, o que pode aumentar a taxa metabólica basal (TMB) ou de repouso (TMR) e o gasto energético no repouso. Além disso, seus estímulos são muito favoráveis ao consumo de oxigênio pós-exercício (EPOC), assim após as sessões de exercícios é importante a restrição da ingestão calórica para que haja a metabolização do tecido adiposo e o subseqüente equilíbrio das fontes energéticas necessárias ao metabolismo (DÂMASO, 2003; MCARDLE, KATCH, KATCH, 2008).

    O exercício resistido é ainda importante para a melhora da aptidão física quanto à força, potência e hipertrofia muscular, o que faz com que a capacidade funcional melhore e as atividades de vida diárias (AVD's) sejam realizadas com gasto energético mais expressivo (ACSM,2002).

    Assim, ambos (aeróbio e resistido) podem favorecer a melhora ou manutenção da composição corporal, especialmente do percentual de gordura e o aumento ou manutenção da massa muscular. Goto et al. (2007) observaram incrementos na lipólise após uma sessão de exercícios após um treinamento conjunto composto por exercícios aeróbios e resistidos, em adultos jovens com excesso de peso.

    Com base nas evidências apresentadas, é recomendável a utilização conjunta de exercícios aeróbios e resistidos para a prevenção e/ou tratamento do sobrepeso e obesidade, que aliados à reeducação alimentar podem expressar benefícios numa magnitude ainda maior.

Referências

  • AMERICAN COLLEGE OF SPORTS MEDICINE. Progression model in resistance training for healthy adults. Medicine and science sports exercise, v. 34, n. 2, p.3640380, 2002.

  • AMERICAN COLLEGE OF SPORTS MEDICINE. AMERICAN HEART ASSOCIATION. American College of Sports Medicine and the American Heart Association. Physical Activity and Public Health: Updated Recommendation for Adults. Circulation, 116; 1081-1093; 2007.

  • CONWAY, J.M. et al. Visceral adipose tissue differences in black and white women. American Journal of Clinical Nutrition, v. 61, p. 765–71, 1995.

  • COUTINHO, W. (Org.) Consenso Latino-Americano de Obesidade. Rio de janeiro. 1998 (versão resumida).

  • DÂMASO, A. Obesidade. Ed. Medsi. 2003.

  • DONNELLY, J.E. et al. Effects of a 16-month randomized controlled exercise trial on body weight and composition in young, overweight men and women. Archives of Internal Medicine, v. 163, p.1343-1350, 2003.

  • GOTO, K. et al. Effect of resistance exercise on lipolysis during subsequent submaximal exercise. Medicine and Science Sports Exercise, v. 39, n. 2, p. 308-315, 2007.

  • GUEDES, D.P; GUEDES, J. E. R. P. Controle do peso corporal: Composição Corporal, Atividade Física e Nutrição. 2ª Ed. Rio de Janeiro: Shape, 2003.

  • IRWIN, M. et al. Effect of exercise on total and intra-abdominal body fat in postmenopausal women.- a randomized controlled trial. The Journal of American Medical Association, v. 289, p.323-330, 2003.

  • LOTUFO, P. A. Epidemiologia das doenças cardíacas no Brasil: histórico, situação atual e proposta de modelo teórico. Revista da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo, v.6, n.5, 1996.

  • MARTI, B. et al. Body fat distribution in the Finnish population: environmental determinants and predictive power for cardiovascular risk factor levels. Journal of Epidemiology and Community Health, v. 45, p.131-137, 1991.

  • MCARDLE, W.D.; KATCH, F.I.; KATCH, V.L. Fisiologia do exercício: Energia, nutrição e desempenho humano. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2008.

  • MENDONCA, C.P; ANJOS, L.A. Aspectos das práticas alimentares e da atividade física como determinantes do crescimento do sobrepeso/obesidade no Brasil. Cadernos de Saúde Pública, v.20, n.3,p. 698-709, 2004.

  • MEIRELLES, M. E. A Atividade física na terceira idade - uma abordagem sistêmica. Rio de Janeiro: Sprint, 1997.

  • PEÑA-GONZALEZ, P; GOMEZ-HENRY, J.C.; ALMENARA-BARRIOS, J. Distribución del tejido adiposo y perfil metabólico en adultos hipertensos y normotensos. Nutrición Hospitalaria, v.12, p.92-101, 1997.

  • PEREIRA, R.A; SICHIERI, R.; MARINS, V.M.R. Razão cintura/quadril como preditor de hipertensão arterial. Cadernos de Saúde Pública, v. 15, n.2, p.333-344, 1999.

  • SLENTZ, C, A. et al. Effects of the amount of exercise on body weight, body composition, and measures of central obesity- a randomized controlled study. Archives of Internal Medicine, v. 164, p.31-39, 2004.

  • MINISTÉRIO DA SAÚDE DO BRASIL. Vigitel 2010: Apenas 15% dos adultos se exercitam no tempo livre. 2011.

  • WORLD HEALTH ORGANIZATION. Physical status: the use and interpretation of anthropometry. Geneva: WHO, 1995. 452 p.

  • WORLD HEALTH ORGANIZATION. Obesity: Preventing and Managing the Global Epidemic. Report. Geneva; 1997. 276 p.

Outros artigos em Portugués

  www.efdeportes.com/
Búsqueda personalizada

EFDeportes.com, Revista Digital · Año 17 · N° 173 | Buenos Aires, Octubre de 2012
© 1997-2012 Derechos reservados