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Atendimento anti-rábico humano: uma análise epidemiológica 

dos casos atendidos em 2010 na cidade de Montes Claros, MG

Atención antirrábica a personas: un análisis epidemiológico de los casos atendidos en 2010 en la ciudad de Montes Claros, MG

 

*Enfermeira pela Universidade Severino Sombra (RJ)

Especialista em Saúde Pública e Gestão da Clínica

Atua na Vigilância Epidemiológica da Secretaria Municipal

de Saúde de Montes Claros/MG

**Enfermeiro pelas Faculdades Integradas Pitágoras de Montes Claros (MG)

Pós-Graduando em Saúde da Família

Ludmila Pereira Macedo*

Patrick Leonardo Nogueira da Silva**

ludmilapmacedo@yahoo.com.br

(Brasil)

 

 

 

 

Resumo

          Objetivo: Este trabalho objetiva avaliar os aspectos epidemiológicos dos atendimentos anti-rábicos humanos no ano de 2010 na cidade de Montes Claros/MG. Metodologia: Trata-se de uma pesquisa documental, de caráter descritivo com abordagem quantitativa. Este estudo foi realizado na Secretaria Municipal de Saúde da cidade de Montes Claros no setor de Vigilância Epidemiológica através do SINAN (Sistema de Informação de Agravos de Notificação) – que fora acessado pela mesma Instituição e, conseguinte, tabulados na mesma. Foram analisadas 1925 fichas de atendimento anti-rábico, sendo essas ocorridas entre 01 de Janeiro de 2010 a 31 de Dezembro de 2010. Resultados: Dentre 1925 atendimentos anti-rábicos realizados em Montes Claros/MG no ano de 2010, a população mais acometida compreendeu uma faixa etária de 20 a 34 anos de idade, com 354 atendimentos (18,38%), seguidos das crianças de 05 e 09 anos, com 304 casos (15,79%). Em se tratando do sexo, a aplicação da vacina foi mais freqüente nos homens, totalizando 1069 atendimentos (55,53%). Considerando o período de notificação, a maior parte dos eventos rábicos foi notificada no mês de janeiro com 196 casos notificados (10,18%), seguido do mês de setembro, com 187 casos notificados (9,7%). Conclusão: Apesar da plausível manutenção do sistema de controle da raiva urbana e de um perfil epidemiológico favorável à ausência de casos de raiva no ciclo urbano, deve-se manter a vigilância ativa constante, para detecção de quaisquer alterações no perfil do agravo.

          Unitermos: Epidemiologia. Atendimento Anti-rábico. Vacina.

 

 
EFDeportes.com, Revista Digital. Buenos Aires, Año 15, Nº 166, Marzo de 2012. http://www.efdeportes.com/

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Introdução

    A raiva é uma doença infecciosa aguda, causada por vírus na qual compromete o Sistema Nervoso Central (SNC), caracterizado por um quadro de encefalite. Todos os mamíferos, incluindo o homem, são susceptíveis ao vírus da raiva podendo, portanto, serem infectados pelo mesmo e desenvolver a doença. O prognóstico é fatal em praticamente todos os casos (BRASIL, 2003). Em decorrência deste episódio, a raiva é considerada um problema de saúde pública, principalmente em países em desenvolvimento (BRASIL, 2005).

    O agente etiológico pertence à ordem Mononegavirales, família Rhabdoviridae e ao gênero Lyssavirus, apresentando uma morfologia característica em forma de bala de revólver (SILVA et al., 2008).

    A epidemiologia da raiva depende da transmissão do vírus de um indivíduo infectado a outro susceptível, principalmente através da saliva. O período de incubação, mais comum varia de 30 a 90 dias. No entanto, existem casos que o período de incubação é de poucos dias, e outros de até mais de um ano. O principal reservatório da raiva humana é o cão enquanto que para os herbívoros são os, morcegos, raposas e cães (SILVA et al., 2008).

    No Brasil, conforme a Organização Pan-Americana de Saúde (2001) foram registrados 61 casos de raiva em animais silvestres no ano de 2000, dos quais 22 ocorreram em raposas. Com relação à raposa do Nordeste (Dusicyon vetulus), existem registros da doença no Estado do Ceará (BARROS et al., 1989), Paraíba (GOMES, 2004), Pernambuco, Bahia e Minas Gerais (ARAÚJO, 2002).

    Sendo assim, ratifica-se que este estudo objetivou avaliar os aspectos epidemiológicos dos atendimentos de saúde da vacina anti-rábica durante o período de 2010 na cidade de Montes Claros/MG.

Metodologia

    Trata-se de uma pesquisa documental, de caráter descritivo com abordagem quantitativa. Este estudo foi realizado na Secretaria Municipal de Saúde da cidade de Montes Claros no setor de Vigilância Epidemiológica através do Banco de Dados público – SINAN (Sistema de Informação de Agravos e Notificação) – que fora acessado pela mesma Instituição e, conseguinte, tabulados na mesma.

    Os dados relacionados ao estudo foram obtidos mediante as informações fornecidas pela Secretaria de Saúde contida no Banco de Dados público do SINAN, nas quais constavam informações quantitativas sobre os atendimentos anti-rábicos durante o período de 2010 no município de Montes Claros/MG. As informações do Banco de Dados público do SINAN foram aquelas em que o registro dos atendimentos vacinais contra o vírus da raiva humana no município de Montes Claros/MG estava devidamente compreendido entre o período de janeiro a dezembro de 2010, sendo a coleta de dados realizada pelos funcionários da Vigilância Epidemiológica em Junho de 2011.

Resultados

    No período de 2010, houve a notificação de 1925 casos de atendimento anti-rábico em todo o território local do município de Montes Claros/MG na qual foram estabelecidas as devidas condutas e intervenções considerando a situação supracitada.

    Dentre o total de casos notificados, a maior parte das mesmas, totalizando-se 354 (18,38%), apresentava idade entre 20 e 34 anos, seguidos de 264 (13,71%) com idades entre 35 e 49 anos (GRÁF. 01). Ainda conforme a faixa etária notificou-se indivíduos tais como crianças que vão de menores de 01 ano a 13 anos; adolescentes de 14 a 19 anos e idosos de acima de 60 anos.

Gráfico 01. Notificações dos casos anti-rábicos no período de 2010 conforme faixa etária das pessoas atendidas

    Considerando o plano amostral, dos 1925 casos notificados dos indivíduos acometidas por algum tipo de acidente rábico, a prevalência maior foi em pessoas do sexo masculino, totalizando 1069 (55,53%). E nas mulheres a prevalência foi de 856 (44,47%). Nos homens atendidos, este valor ultrapassou mais da metade das notificações (GRÁF. 02).

Gráfico 02. Notificações dos casos anti-rábicos no período de 2010 conforme o sexo das pessoas atendidas

    Em um período de um ano, dentre os meses de janeiro a dezembro de 2010, houve maior registro dos atendimentos anti-rábicos durante o mês de janeiro/2010, com 196 (10,18%) casos atendidos, seguidos de 187 (9,71%) casos tidos em setembro/2010 e 181 (9,40%) casos nos meses de maio/2010 e agosto/2010.

Gráfico 03. Notificações dos casos anti-rábicos no período de 2010 conforme os meses de acometimento (Janeiro/Dezembro) das pessoas atendidas.

Discussão

    Os vírus são classificados como agentes infecciosos, causadores de doenças em humanos, animais e plantas. Nos seres humanos, são responsáveis por uma série de infecções benignas como a gripe e verrugas, no entanto, podem induzir outras condições indicativas de severidade tal como a AIDS, a poliomielite e a raiva (RACZ & MENCK, 2004).

    Segundo Kotait & Carrieri (2004) a raiva é uma antropozoonose transmitida ao homem pela inoculação do vírus da raiva, contido na saliva de animais infectados, principalmente por meio de mordeduras. O vírus ataca o sistema nervoso central, gerando distúrbio de comportamento, e causando dificuldade ao paciente em respirar e até mesmo engolir água. A raiva é mundialmente endêmica. Na América Latina, a existência de muitos animais errantes não-vacinados é um dos fatores responsáveis pela notificação de milhares de casos de raiva em cães nesses países (MURRAY et al., 2004).

    A raiva clínica é quase sempre letal, a menos que tratada. Após o aparecimento dos sintomas, o que se pode fazer é o tratamento sintomático. A prevenção deve ser ministrada a qualquer indivíduo exposto por mordida. Em primeiro lugar deve-se lavar o ferimento com água e sabão, detergente ou qualquer substância capaz de tornar inativo o vírus. Posteriormente, recomenda-se a imunização com vacina associada a uma dose do soro anti-rábico (MURRAY et. al., 2004).

    A prevenção da raiva humana depende de controle efetivo da raiva de animais domésticos ou silvestres (MURRAY et. al., 2004). Segundo informações do Ministério da Saúde (2004) o número de casos de raiva humana, vem diminuindo, uma vez que em 1990 foram registrados 73 casos e em 2003 registrou-se apenas 17 casos.

    Segundo Carrieri et al. (2006), em relação aos casos de raiva no Brasil, 74,9% ocorreram no sexo masculino. Nas Américas, o percentual de homens que desenvolveram a doença variou de 61,0% a 72,2%. Sendo assim, alguns autores classificam os casos de leve a marcante predomínio no sexo masculino, chegando a 69,4% das notificações.

    Entre o sexo masculino, as agressões ocorrem mais na infância e adolescência e, entre o sexo feminino, acima dos 20 anos. No município de Jacarezinho (PR), e na Grande São Paulo, conforme Garcia et al. (1999), foi constatada maior exposição de meninos entre 05 e 09 anos. Supõe-se que o sexo masculino tenha maior risco de agressões por cães e, conseqüentemente, de contrair a raiva, devido ao fato de terem maior contato com os animais, estarem mais tempo fora de casa, tendo atitudes e brincadeiras que podem estimular à agressão. As meninas, em contrapartida, costumam desenvolver brincadeiras dentro do domicílio, expondo-se menos às agressões.

    Com relação às agressões provocadas pelos vetores transmissores da raiva humana, as crianças e adolescentes foram menos agredidas. As mulheres são mais agredidas na fase adulta, principalmente por felinos, possivelmente devido a seu estreito cuidado com os animais domésticos, resultando agressões nas mãos.

    Em crianças e adolescentes o local mais atingido geralmente é no membro inferior. Esse local é mais acessível para os animais, sendo sede de um grande número de agressões (ALONSO, 2005). Del Ciampo et al. (2000) também encontraram, nesse mesmo grupo etário, os membros inferiores como sendo os locais mais atingidos. Diferente disso, Rolim, Lopes e Navarro (2006) constataram que mordeduras na cabeça/pescoço ocorrem mais em crianças de até nove anos. Entretanto, nesse mesmo estudo, para os adolescentes, o local de maior agressão foram os membros inferiores concordando com os achados de Alonso (2005). Este também refere que, em crianças de até quatro anos, predominam as agressões na cabeça/pescoço, porém, entre os 05 e 14 anos, os locais mais freqüentes são os membros inferiores e, após os 15 anos, as mãos e os pés.

    Esse estudo mostrou que, no momento da agressão, a maioria dos animais encontrava-se sadia, porém a informação sobre a condição final do animal observável era ignorada na quase totalidade dos casos, levando a supor deficiência na comunicação com o usuário, na busca ativa; ou mesmo no registro desnecessário, ainda que conhecida a condição final. Situação esta também evidenciada por outros estudos.

    A rapidez com que as pessoas agredidas procuram o serviço de profilaxia da raiva no dia da agressão e em até cinco dias, constitui um bom indicador de conscientização da comunidade local sob o risco de contrair a doença. Os resultados obtidos mostraram que, embora a grande maioria das pessoas agredidas procurem os serviços precocemente, ainda há uma alta proporção de pessoas em busca de atendimento tardio. Nesses casos dependendo da presença do vírus na saliva do animal agressor e do estado vacinal do hospedeiro exposto, pode-se constatar um grande risco de infecção pelo vírus rábico.

    De acordo com a Norma Técnica do Ministério da Saúde para a conduta profilática antirrábica humana, a forma como ocorreu a agressão (se o animal agrediu espontaneamente ou não) e, o local da agressão (na residência ou via pública) também são muito importantes na definição das condutas profiláticas antirrábica humana a ser prescrita. No entanto, apesar da importância referida, essas variáveis não constam na ficha de investigação do atendimento antirrábico humano do SINAN.

Conclusão

    Este estudo pretende colaborar para o programa de controle da raiva em Montes Claros-MG. Mais além, na medida em que apresenta as características dos casos, dos animais agressores e das condutas profiláticas adotadas, destaca a necessidade de progresso na atenção às pessoas agredidas, da implementação de ações de vigilância e de educação em saúde da população, para que a raiva humana seja definitivamente eliminada no Brasil, além de propor estudos avaliativos da conduta profilática adotada.

    Apesar da plausível manutenção do sistema de controle da raiva urbana e de um perfil epidemiológico favorável à ausência de casos de raiva no ciclo urbano, deve-se manter a vigilância ativa constante, para detecção de quaisquer alterações no perfil do agravo. É notório que a raiva silvestre se apresenta como um novo desafio para a vigilância desse agravo no Brasil, principalmente devido aos morcegos não hematófagos e seu adentramento nas residências em áreas urbanas.

Referências

  • ALONSO, B. P. M. Estudo dos casos de agressões por cães no município de Araraquara, estado de São Paulo, Brasil. [Monografia - Especialização em Saúde Pública]. Araraquara: Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, 2005, 51 fls.

  • ARAÚJO, F. A. A. Raiva humana no Brasil: 1992-2001. Tese (Mestrado em Medicina Veterinária) - Escola de Veterinária, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, Minas Gerais, 2002. 90 fls.

  • BARROS, J. S.; FREITAS, C. E. A. A.; SOUSA, F. S. Raiva em animais silvestres no Estado do Ceará particularmente na raposa (Dusicyon vetulus). Revista Internacional de Zoonoses, n. 1, v. 1, p. 9-13, 1989.

  • BRASIL. Ministério da Saúde. Instituto Pasteur. Raiva: controle e profilaxia humana. 28p. Janeiro/2003.

  • BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Guia de Vigilância Epidemiológica. 6ª Edição. Brasília: MS, 2005.

  • CARRIERI, M. L.; TAKAOKA, N. Y.; KOTAIT, I.; GERMANO, P. M. L. Diagnóstico clínico-epidemiológico da raiva humana: dados do Instituto Pasteur de São Paulo do período de 1970-2002. BEPA, p. 2-8, 2006.

  • GARCIA, R. C. M.; VASCONCELLOS, A. S.; SAKAMOTO, S. M.; LOPEZ, A. C. Análise de tratamento anti-rábico humano pós-exposição em região da Grande São Paulo, Brasil. Revista de Saúde Pública, n. 3, v. 33, p. 295-301, 1999.

  • DEL CIAMPO, L. A.; RICCO, R. G.; ALMEIDA, C. A.; BONILHA, L. R. C. M.; SANTOS, T. C. C. Acidentes de mordeduras de cães na infância. Revista de Saúde Pública, n. 4, v. 34, p. 411-412, 2000.

  • GOMES, A. A. B. Epidemiologia da raiva: caracterização de vírus isolados de animais domésticos e silvestres do semi-árido paraibano da região de Patos, Nordeste do Brasil. Tese de Doutorado. Universidade de São Paulo (USP). 107p. 2004.

  • KOTAIT, I.; CARRIERI, M. L. Raiva. In TRABULSI et. al. Microbiologia. São Paulo. 4ª Edição. Editora Atheneu. 2004.

  • KOTAIT et al. (Org.). Manejo de quirópteros em áreas urbanas. Manual técnico do Instituto Pasteur, n. 7, 2007.

  • MINISTÉRIO DA SAÚDE. Casos de raiva humana no Brasil 1990 – 2003. 2004. Disponível em: http://www.pasteur.saude.sp.gov.br/. Acessado em: 10/08/2011.

  • MURRAY, et. al. Microbiologia médica. Rio de Janeiro. 4ª Edição. Editora Guanabara Koogan. 2004.

  • ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE (OPAS). Boletim: Vigilância Epidemiológica da raiva nas Américas. Rio de Janeiro – RJ, v. 33, 40p. 2001.

  • RACZ, M. L.; MENCK, C. F. M. Propriedades gerais dos vírus. In TRABULSI et. al. Microbiologia. São Paulo. 4ª Edição. Editora Atheneu. 2004.

  • ROLIM, R. L. P.; LOPES, F. M. R.; NAVARRO, I. T. Aspectos da vigilância epidemiológica no município de Jacarezinho, Paraná, Brasil, 2003. Semana Ciências Agrárias; n. 2, v. 27, p. 271-280, 2006.

  • SILVA, M. L. C. R.; LIMA, F. S.; GUEDES, K. M. R.; GOMES, A. A. B. Raiva experimental em cães inoculados com uma amostra isolada de raposa (Pseudalopex vetulus). ACSA – Agropecuária Científica no Semi-Árido, UFCG, Patos – PB, v. 4, p. 32-36, 2008.

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