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A problemática do corpo no processo histórico da Educação 

Física: da dicotomia de platão à nova dicotomia: corpolatria

La problemática del cuerpo en el proceso histórico de la Educación Física. De la dicotomía de Platón a la nueva dicotomía: corpolatría

 

* Mestrando em Educação Física

Docente da rede Estadual de Educação

** Graduando em Fisioterapia

Universidade do Estado de Santa Catarina

(Brasil)

Fabiano Augusto Teixeira*

fb_teixeira@hotmail.com

Bruno de Souza Silveira**

brunosouza@hotmail.fr

 

 

 

 

Resumo

          O homem em sua problemática história em relação ao corpo, sempre esteve enfatizando outras questões de seu interesse, esquecendo-se de si próprio, desde a Grécia antiga, considerada o berço da civilização, em que o homem se entende como pessoa racional que se difere dos animais por transformar o meio em que vive. Sendo assim, utilizou-se de artigos, excertos de dissertação e textos para apresentar e categorizar a problemática do corpo no processo histórico da Educação Física em diferentes épocas que contribuíram para a formação desta, e tendo outras referências bibliográficas para compreender a Educação Física atual, quando nota-se que tem-se ainda algumas limitações sobre o nosso corpo por causa das influências quanto à forma que o corpo foi menosprezado, de certa maneira deixado de lado. O corpo é compreendido sob um olhar dicotômico, ou por meio de uma educação que cuida do corpo ou da mente; um corpo divisível que se trabalha por partes. Com isso, a Educação Física que temos hoje sofre e se vê fragmentada, pois esteve atrelada a tendências das mais diversas possíveis: a higienista, a militarista, a pedagogicista, etc, não havendo uma causa única que justificasse sua existência.

          Unitermos: Educação Física. Corpolatria. Pensamentos filosóficos.

 

 
EFDeportes.com, Revista Digital. Buenos Aires, Año 16, Nº 164, Enero de 2012. http://www.efdeportes.com/

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Introdução

    Este trabalho teve com objetivo desvendar os primeiros indícios do surgimento da Educação Física, desde a época da Grécia Clássica, onde encontra-se o homem “dicotomizado” em corpo/alma e nos dará base para o entendimento desse corpo que ainda resiste aos padrões estereotipados pela sociedade em que vivemos, até a sua atualidade, por meio de uma Educação Física voltada para o culto ao corpo, discursando sobre as crises que existiam nesta relação e as crises existentes hoje na sociedade contemporânea, estas que apenas rumaram para um outro extremo, ou seja, do culto à mente para o culto ao corpo.

    Inicialmente traçou-se reflexões acerca do homem nos tempos da Grécia, especialmente na Grécia Clássica (onde o corpo nem sempre era visto como totalidade humana), até hoje nos tempos modernos da Corpolatria, levando em consideração os pensadores de diferentes épocas, desde Montaigne (séc. XVI), até Husserl (início do séc. XX).

    Em linhas gerais, espera-se trazer contribuições para pensar a Educação Física que aspiramos e que pede por mudanças, para que possamos pensar o homem em sua totalidade e não dicotomizado como veio sendo tratado até hoje.

A formação da sociedade civilizada: o homem, corpo e/ou alma

    A Grécia antiga compreende os séculos VI a.C a VI d.C, sendo que esta compreende as eras pré-socrática (VII a.C a V a.C), Socrática (V a. C a IV a. C), Sistemática (IV a.C a III a.C), e a helenística (III a.C a VI d.C) CHAUÍ (2000). Sendo que neste período da Grécia, entre os séculos V a III a.C, correspondem ao período da Grécia Clássica (FINOCCHIO, 1991). Neste período destacaram-se os filósofos Sócrates, Platão e Aristóteles. Este apesar de estudar na mesma academia de Platão, não assumiu todas as teorias de seu mestre.

    O homem grego, segundo filosofias de Platão, era um homem cujo corpo tinha como função apenas a representação da alma, ou seja, o corpo era o cárcere da alma. Platão pregava a todo momento a exaltação da alma logo então a sabedoria, dando ênfase ao mundo denominado por ele de “mundo das idéias”. Por outro lado, o corpo era descrito no “mundo sensível”, que se transforma e se decompõe (WERNECK, 1995a, p. 385). Considerado como um meio impuro, um meio de contaminação da alma. Segundo GONÇALVES (1994), o corpo contamina a pureza da alma através de suas inclinações, e representa um obstáculo à contemplação das idéias perfeitas e eternas. Ou seja, Platão fazia a cisão dos dois mundos: o mundo sensível, que era uma cópia imperfeita do mundo inteligível, o qual se caracterizava pelos objetos e pelos corpos, que se transformavam e se decompunham; e o mundo inteligível, o mundo das idéias concebidas como reais, eternas, invisíveis e incorpóreas.

    Por outro lado, criando um certo conflito com as idéias de Platão, encontra-se Aristóteles, defendendo um conceito mais biologicista, em que o corpo tinha importância “na construção dos princípios universais característicos do conhecimento científico” (WERNECK, 1995a, p. 385). Aristóteles não faz a ruptura entre o sensível e o inteligível, mas não coloca o mundo inteligível como mais importante, como propunha Platão (WERNECK, 1995a, p. 385). No entanto, os dois tinham em comum o pensamento inferior, principalmente pela ação física, que envolve o homem em sua corporalidade, por ser atividade ligada à matéria e pelo seu aspecto servil, constituindo-se em uma negação a própria natureza humana.

    Aristóteles foi um dos estudantes da academia de Platão, mas este fato não o induziu totalmente nas suas ideologias relacionadas ao homem, uma vez que, ao contrário de Platão, ele abraçava todo o conjunto do homem corpo e mente embora enfatizasse o seu contexto hierárquico, em que o mais poderoso controlava o menos, assim como a alma em relação ao corpo: a alma dirige o corpo, como o senhor ao escravo (WERNECK, 1995a, p. 386).

    Baseando na razão, Platão pretendia estruturar a cidade - a polis, a Grécia estava organizada em cidades-estados que agiam de forma independente, tendo suas próprias leis de forma a mantê-la estável e ordenada. Isso dependia, sobretudo, da divisão social do trabalho que Platão estabelece três atividades fundamentais: a produção (classe dos artesãos), a defesa (pelos guerreiros), e a administração interna (observada pelos guardiões). Cada uma dessas classes ocupava um status na sociedade. Adquiriam assim o status de ouro (os filósofos), status de prata, (os guardiões) e o status de bronze (os guerreiros e os artesãos). E para distinguir as classes ainda mais, a educação também era diferenciada, nas classes dos guerreiros a educação deveria ser subordinada à ginástica e a música, possibilitando seu fortalecimento, não em uma força corporal animalesca, mais em virtude de sabedoria, moderação e harmonia interior, pois no pensamento Platônico, tanto a ginástica quanto a música não poderiam perder de vista seu objetivo final: o aperfeiçoamento da alma, pois esta alcançava indiscutivelmente maior valor no corpo.

    Para Platão, o homem deveria se apegar à ginástica, não como um ato de promover saúde, mas de enobrecimento da alma. Para Aristóteles o homem deveria praticar a ginástica para um bem corpóreo, nada em excesso, apenas que alcançasse um meio termo suficiente à saúde e ao cumprimento dos afazeres habituais (WERNECK, 1995, p. 386).

    Na Grécia Clássica a formação do cidadão se dava pela educação que menosprezava o corpo em prol da libertação da alma, enquanto na Grécia Arcaica a formação do cidadão grego era voltada para expansão da necessidade de bens materiais, sendo uma sociedade que utilizava de trabalho escravo e estrangeiro para garantir o ócio da classe dos nobres, permitindo que, em sua juventude, pudessem se dedicar ao treinamento militar para a defesa da cidade. Em relação ao período Helenístico (séc. III a.C a VI d.C), houve o enfraquecimento do treinamento militar e a Grécia foi dominada pelos Romanos. A sociedade volta-se para a ciência, a ética e o prazer que levam o homem à busca do conhecimento (FINOCCHIO, 1991).

    Baseando-se em Platão, ou seja, no pensamento platônico que faz a cisão entre os mundos: sensível e inteligível, enfatizando o inteligível e visando o corpo como diabólico, está Santo Agostinho que pregava a do corpo e da alma, onde uma coisa é a alma e a outra o corpo (WERNECK, 1995b, p.154).

    Santo Agostinho também condenava a relação corpo-alma, pois o corpo passava impureza para a alma, tornando esta não santificada, incapaz de uma entrada para o mundo religioso. Para ele, a alma prevalece sobre o corpo, pois é a forma de chegar a Deus. Neste sentido, a alma é um eu que pensa, sente e age (o corpo penetrado pela alma torna-se sensível ao mundo exterior conforme a alma age sobre), com a idéia de interioridade, de autoconsciência, lança os germes do interesse filosófico moderno pela subjetividade (WERNECK, 1995b).

    Para Santo Tomás de Aquino (século XIII) seguidor e inspirado em Aristóteles supera a cisão Platônica entre o mundo sensível e o mundo inteligível, vendo a unidade entre o corpo e alma, mas a verdade e o conhecimento se dão pela razão - o corpo ocupa um papel importante no processo de construção do conhecimento, uma vez que este representa a única forma de passar de potência (corpo) a ato, na inteligência - posto que o corpo ainda seja submisso à alma, essa possibilita o entendimento e fornece a força vital, fisiológica ao corpo e a razão, o que difere a alma humana das outras, pelo fato de cada uma possuir diferentes potencias: algumas atuam unidas diretamente ao corpo (funções vegetativa e sensitiva); outras independem do corpo para atuar, como as funções intelectuais. Ou seja, também como Aristóteles, Santo Tomás de Aquino defende a idéia do sistema hierárquico, onde o corpo é submisso à alma, mas não menos importante. O princípio intelectivo é a única forma do corpo, pois a verdadeira essência do homem é sua alma. Ambos os filósofos vêm o trabalho de forma inferior, devido estar associado à matéria, apesar do Cristianismo ter trazido uma visão enobrecedora do trabalho humano (GONÇALVES, 1997).

A formação do corpo social por meio das ideologias: corpo: fruto de um novo homem

    Na passagem do período medieval para o moderno, séc. XVI e XVII (Chauí, 2001) e saindo do sistema feudal para uma sociedade burguesa, o homem conectado com o processo real de vida, na qual as idéias modernas sobre o corpo têm sua materialidade no trabalho como fonte de sobrevivência individual e de riqueza. Com o enfraquecimento da Igreja, o homem se torna o centro das ações (antropocentrismo), contudo com estudiosos e filósofos que influenciariam o o modo de pensar e agir dessa sociedade em transformação.

    Além da fundamentação nas ciências do corpo, Montaigne (séc. XVI), Locke (séc. XVII), Rosseau (séc. XVIII), Comte (séc. XIX), Marx (séc. XIX) e Husserl (final do século XIX e início do século XX) trabalharam no e para o entendimento da Educação Física no sentido de pensa-la como uma prática para investigação e reflexão crítica, e ainda, ajudaram-nos a responder algumas questões da crise da Educação Física. Ou seja, estes pensadores de épocas distintas ajudaram a dar os primeiros passos para a constituição da Educação Física que conhecemos atualmente.

    Sabe-se que a Educação Física não se consolidou na Grécia, mas foi lá que podemos começar a entender e ver os primeiros indícios da relação do tema corpo e da alma. Foi através de processo sócio-histórico de expropriação e espoliação (por exemplo, expulsão de pequenos produtores de suas terras ou proletarização de pequenos artesãos, ocorridos na Europa Ocidental por volta do século XVI em diante) que surgiu a forca de trabalho como mercadoria. Foi este processo histórico, denominado por Marx (1987) de “acumulação primitiva”, que deu origem ao sistema capitalista.

    Com isso, a primeira etapa da acumulação capitalista, como dito anteriormente, é comumente chamada por Marx de acumulação primitiva. Realizada inicialmente por meio da transformação das relações de produção, surgimento do trabalho assalariado e concentração dos meios de produção -nas mãos de poucos, seguidos da expansão capitalista- , a acumulação primitiva é apenas o processo histórico que dissocia o trabalhador dos meios de produção. É considerada primitiva porque constitui a pré-história do capital e do modo de produção capitalista.

    Marcam época, na história da acumulação primitiva, todas as transformações que servem de alavanca à classe capitalista em formação sobretudo aqueles deslocamentos de grandes massas humanas, súbita e violentamente privadas de seus meios de substâncias e lançada no mercado de trabalho como levas de proletariados destituídos de direitos. A expropriação do produtor rural, do camponês que fica assim privado de suas terras, constitui a base de todo processo” (MARX; 1987, p. 830).

    O contexto histórico da acumulação primitiva está na transição do feudalismo ao capitalismo, que se realizou em toda a Europa Ocidental, evoluindo com as carac. próprias de acordo com a cultura e a vida cotidiana das diferentes regiões.

    Demonstrando esta mudança histórica por meio de uma análise da vida social da população inglesa nos séculos XVI e XV, que nesta época vivia principalmente, aqueles que já não tinham nenhum laço de servidão com os senhores feudais e que já compunham a partir do século XV a grande maioria da população, foi expulsa de suas terras através dos cercamentos de terras para das lugar à criação de carneiros, de onde se obtinha a lã para as nascentes manufaturas. Assim, a nobreza inglesa, já com uma nova mentalidade sobre o poder do dinheiro, transforma todas as terras em cultivo para pastos de carneiros.

    A Reforma Protestante também impulsionou a expropriação violenta dos camponeses, pois as terras confiscadas à Igreja Católica, a maior proprietária das terras inglesas, eram doadas ou vendidas pelos nobres aos burgueses ou arrendatários especuladores que expulsavam os antigos colonos.

    A acumulação primitiva teve também como uma de suas causas o roubo do “tesouro público”. A partir da Revolução Gloriosa que levou ao poder Guilherme III, príncipe de Orange, Marx afirma que foi inaugurada uma “nova era com uma dilapidação verdadeiramente colossal do tesouro público”. Os domínios do Estado, roubados até essa data com moderação, dentro dos limites da decência, foram extorquidos à viva força do rei adventício como compensação devido aos seus antigos cúmplices, ou vendidos a preços irrisórios, ou enfim, sem formalidade alguma, anexadas a propriedades privadas. Tudo isso se fez a descoberto descaradamente, desprezando-se mesmo as aparências legais.

    Neste contexto de miséria e exploração do homem expropriado dos meios de produção e que o excedente da fabricação lanífera, em conjunto com as práticas comerciais mercantilistas dos burgueses, acumulou capital e transformou o capitalismo comercial em capitalismo industrial, revolucionando as técnicas de produção de mercadorias.

    Dessa forma, a sociedade do período moderno comumente chamada de sociedade de ordens (clero, nobreza e povo), apresentava-se, na prática, dividida em uma classe de proprietários de terra (clero e nobreza), uma classe de trabalhadores (camponeses livres, assalariados, enfim, a massa popular) e uma classe burguesa (mercantil e manufatureira). A Idade Moderna conheceu, então, a luta da burguesia pelo espaço social, político e ideológico.

    Alguns filósofos nos ajudaram a entender esta relação corpo-alma vêem que esta valorização do corpo teve como base a liberdade individual típica da sociedade burguesa.

    Nesse contexto que o filósofo Montaigne (séc. XVI), vivendo no período renascentistas e, deparando-se ainda, com características feudais, tenta mudar a concepção de corpo que antes era menosprezado, baseando-se em Platão e Sócrates (séc. V e IV a.C), mas com restrições, pois nem tudo era conveniente. Com exemplos advindos da antiguidade deixava claro que a formação da inteligência e da moralidade passava pelas atividades do corpo. O que Montaigne queria formar era o homem capaz de enfrentar todas as situações, conversar todos os assuntos e lidar com todos os tipos de pessoas e, em meio a essa difícil tarefa, encontrar a felicidade. É por conta disso que o autor francês expressa a dificuldade inerente ao processo formativo no meio social.

    E relação à educação, o homem moderno deve ser educado longe dos castigos físicos e morais. O castigo, costumeiramente usado nos colégios, deve ser abandonado porque contraria a formação natural e racional da criança. E meio a isso leva-la a tomar afeição pelo saber e fazer das lições momentos prazerosos. Montaigne deixa claro, em toda sua análise, a importância do homem moderno ter seu corpo desenvolvido nas ações, nas experiências, no trabalho e no sofrimento. Afinal, diz ele, “não é somente uma alma que se educa, nem um corpo, é um homem (JUNIOR, 1997, p. 84).

    Com isso, Montaigne (séc. XVI) entendia que o homem deveria ser educado com eercícios, preparando o jovem para a vida, valorizando assim o prazer individual. Dando seqüência, aos pensamentos de Montaigne, o filósofo John Locke (séc. XVII), vivendo em um contexto e que o capital começava a ser posto de forma mais clara, inicia-se seus “Pensamentos sobre a educação” (1692), com um capítulo sobre a saúde. Para o pensador inglês, ao formar o “homem de negócios”, nada mais urgente que começar pelos cuidados com o corpo. A busca da riqueza e todas as características comportamentais são necessárias para o sucesso, embasada no cultivo da “força”, da “graça e leveza dos movimentos” e do “equilíbrio”. O autor critica os privilégios de nascimento e o poder absoluto, dando origem ao pensamento liberal. Para ele, se a natureza estabelece que todos os homens são iguais não há nenhum fundamento plausível que justifique o exercício do poder de uns sobre os demais. Entende que cada homem tem uma propriedade em seu próprio corpo” e que “o trabalho de seu corpo é a obra de suas mãos (JUNIOR, 1997, p.35).

    Locke defendia que o homem deveria ser capacitado para o trabalho e para sobrevivência. No que diz respeito ao corpo, para ele, é necessário um bom corpo, um corpo com saúde e em sintonia com o espírito para ter uma boa educação, sendo que ambos deveriam ser educados juntos.

    Passando do século XVII e indo para o século XVIII temos o pensador suíço Rosseau, acredita em um homem coletivo voltado, para uma educação natural sem excessos. Nesse sentido, os homens, em estado de natureza, não se diferenciam muito dos animais pois, usam suas forças para permanecer vivos contra as intempéries da natureza. Para Rosseau, o homem nasce puro e é a sociedade que o corrompe.Ou seja o homem possui sentimentos benevolentes que o movem para a satisfação das suas necessidades na relação com o outro (JUNIOR, 1997).

    Com os pensamentos desses filósofos vimos na sociedade da época que o corpo foi sendo revalorizado ao longo da Idade Moderna. Esse corpo não era entendido de forma isolada, e sim, fruto de um novo homem e suas relações no modo de produção vigente. Primeiramente o homem começa a ser valorizado individualmente e passa, na seqüência a ser valorizado por sua racionalidade. Por último é transplantado do estado de natureza individual para o coletivo e político, como observado e Rosseau.

    Surge então, a partir do século XIX, as tendências idealizadoras que influenciaram, a sociedade em uma nova sistemática forma de governar. Tais tendências seriam: o positivismo (séc. XIX), o marxismo ou materialismo (séc. XIX) e a fenomenologia (final do século XIX e início do século XX), com seus respectivos idealizadores: Augusto Comte, Karl Marx e Edmund Husserl (TRIVIÑOS, 1987).

    O pensamento do século XIX não foi apenas influenciado por mudanças econômicas e sociais, devendo ser compreendido de acordo com o momento em que se encontravam a filosofia e a ciência. No século XVII, Kant havia desenvolvido importantes reflexões sobre as possibilidades e limites da razão. Neste mesmo século diferentes linhas filosóficas interpretam o pensamento Kantiano; entre elas encontra-se o Positivismo –tendência dentro do idealismo filosófico subjetivo, na qual baseia-se inteiramente na busca dos fatos, negando o fator metafísico, e valorizando o tecnicismo.

    Geralmente, o francês Augusto Comte (1798 – 1895) é o mais conhecido como iniciador da corrente positivista. Todavia, do ponto de vista histórico, vê-se que as idéias positivistas já se encontravam difundidas na sociedade antes mesmo do período em que viveu Comte. É importante ressaltar que Comte recebeu influência de Turgot, Condorcet e Saint-Simon. Antonie Nicolas de Condorcet (1666 – 1790) defendia a idéia de que toda e qualquer ciência da sociedade precisa de identificar com o que ele chamava de matemática social isto é, precisa realizar um estudo preciso, rigoroso, numérico dos fenômenos sociais. Segundo Condorcet, a ciência estava sendo controlada e submetida aos interesses de senhores feudais, à aristocracia e ai claro, carecendo de objetividade. Portanto, de acordo com Condorcet, era necessário tirar o controle das ciências destas classes para que uma ciência natural pudesse se impor (MESQUIDA, 2001).

    Foi Claude Henri de Santi-Simon (1760-1852) o primeiro a utilizar o termo positivo na ciência. Para ele, o raciocínio deveria se basear nos fatos observados e discutidos. Nesse sentido, percebe-se a tendência de negação da metafísica, uma vez que o conhecimento está voltado para as obrigações, desconsiderando as causas finais ou as não observáveis.

    No século XIX, Comte formaliza-se as idéias positivistas. Quando Comte falou da importância do conhecimento científico não estava apenas defendendo uma orientação epistemológica, mas estava apresentando uma maneira de pensar e de realizar as transformações sociais. “O pensamento positivista poderia garantir a organização racional da sociedade”, dizia ele.

    A organização científica da sociedade irá atender à necessidade de estabilidade. “O conhecimento das leis da sociedade permitirá aos cidadãos verem os limites das reformas possíveis, ao passo que os governos serão capazes de usar o conhecimento social científico como base para reformas paulatinas e efetivas que aumentarão mais ainda o consenso” (BOTTOMORE, 1998, p. 291).

    O positivismo admite apenas o que é real, verdadeiro, inquestionável, aquilo que se fundamenta na experiência. Deste modo, a escola deve privilegiar a busca de que é prático, útil, objetivo, direto e claro. Os positivistas se empenharam em combater a escola humanista, religiosa, para favorecer a ascensão das ciências exatas. As idéias positivistas influenciaram a prática pedagógica na área das ciências exatas e o ensino de ciências sustentadas pela aplicação do método científico: hierarquização, observação, controle, eficácia e previsão.

    No Brasil, a influência positivista no início da República com a Educação Física higienista se intensifica na década de 70, com o tecnicismo. O movimento republicano apoiou-se em idéias positivistas para formular sua ideologia da ordem e do progresso, graças particularmente à atuação de Benjamim Constant (1836 – 1891).

    O positivismo de Comte chegou ao Brasil em meados do século XIX. As idéias positivistas encontraram boa receptividade entre muitos oficiais do exército. Com um currículo voltado para as ciências exatas e para a engenharia, a educação se distancia da tradição humanista e acadêmica, havendo certa aceitação das formas de disciplina, típicas do positivismo. As palavras “ordem e progresso” que fazem parte da bandeira brasileira indicam claramente a influência positivista. Na década de 70 deste mesmo século, a escola tecnicista teve uma presença marcante. A valorização da ciência como forma de conhecimento objetivo, passível de verificação rigorosa por meio da observação e da experimentação, foi importante para a fundamentação da escola tecnicista no Brasil (ISKANDAR, 2002).

    Na escola tecnicista, professores e alunos ocupam papel secundário, dando lugar à organização racional dos meios, e que professores e alunos são relegados à condição de executadores de um processo cuja concepção, planejamento, coordenação e controle, ficam a cargo de especialista supostamente habilidade, neutros, objetivos, imparciais (SAVIANI, 1993). Portanto, pode-se perceber pelas palavras de Saviani que neutralidade e objetividade são típicas do positivismo.

    Outra doutrina que revolucionou o pensamento filosófico no século XIX por volta da década de 1840 foi a doutrina Marxista, especialmente pelas conotações políticas explícitas nas suas idéias, colocadas, em seguida, também, por Friedrich Engels (1820 – 1895).

    Surgindo na Europa Ocidental com a Revolução de 1848 na França e a Comuna de Paris (1870 – 1871), o Marxismo é um referencial global para o entendimento científico (segundo os modelos da ciência da natureza), do mundo e uma forma de comportamento sócio-político.

    O primeiro fruto da associação de Marx e Engels foi o texto “A sagrada família”, e logo depois a “Ideologia Alemã”, sendo neste segundo texto que aparece a primeira formulação geral das bases do materialismo histórico ou científico. O próprio Marx afirma que foi a análise da filosofia do Estado de Hegel que o levou a tirar a conclusão de que “as relações legais, tal com as formas de Estado, têm de ser estudadas não por si próprias, ou em função de uma suposta evolução geral do espírito humano, mas antes como radicando em determinadas condições materiais da vida” (WIKIPÉDIA, 2005). A concepção do Materialismo Histórico, exposta em a “Ideologia Alemã” difere-se do Materialismo de Feuerbach. Para Marx, a história é um processo de criação, satisfação e recriação contínua das necessidades humanas, é isso o que distingue o homem dos animais, cujas necessidades são fixa e imutáveis.

    A tipologia da sociedade estabelecida por Marx baseia-se no reconhecimento de uma diferenciação progressiva da divisão do trabalho. Em outras palavras, o que Marx explicitou foi que, embora possamos tentar compreender e definir o ser humano pela consciência, pela linguagem e pela religião, o que realmente o caracteriza é a forma pela qual reproduz suas condições de existências. Fundamental, portanto, é analise das condições materiais da existência numa dada sociedade (WIKIPÉDIA, 2005).

    Com isso, na tendência marxista o homem deve buscar a coletividade, enfatizando o materialismo de modo que não haja explorados/exploradores, dominados/dominantes.

    Logo adiante está a fenomenologia (séc. XIX para XX) de Edmund Husserl (1859 – 1938), esta que vem a ser uma tendência dentro do idealismo pelo físico/subjetivo, que busca a essência e ao contrário do positivismo, não desconsidera a metafísica. Esta tendência enfatiza a corporeidade, onde o homem é visto como um todo (físico, biológico e espiritual), sendo este explicado e compreendido pelas partes para chegar à conclusão de um todo. As relações históricas e sociais não são consideradas neste momento.

    Contrariamente a toas as tendências no mundo intelectual de sua época, Husserl quis que a filosofia tivesse as bases e condições de uma ciência rigorosa. Porém, como dar rigor ao raciocínio filosófico em relação a coisas tão cambiante e variável como as coisas do mundo real? O êxito do método científico, esta em que ele pode estabelecer uma “verdade provisória” útil, que será verdade até que um fato novo mostrando uma outra realidade.

    Para evitar que a verdade filosófica também fosse provisória, a solução, para Husserl, é que ela deveria referir-se as coisas como se apresentam na experiência de consciência, estudadas em suas essências, e seus verdadeiros significados, de um modo livre de teorias e pressuposições, despidas de seus acidentes próprios do mundo real, do mundo empírico objeto da ciência. Buscando restaurar a “lógica pura” e dar rigor a filosofia, argumentada a respeito do princípio da contradição lógica (HUSSERL, 1906).

    Embora na idade contemporânea, seja dada maior ênfase para corporeidade, muitos ainda supervalorizam o conhecimento racional. Com o nascimento da Fenomenologia uma outra visão de mundo e de homem é estabelecida por parte de alguns filósofos.

    Do ponto de vista da fisiologia ou da biomecânica, o entendimento do movimento é amplamente estudado pela Educação Física e, segundo CANFIELD (2000), solicita-se uma relação causal. Mas, se refletir “o porquê se fez aquilo”, busca-se uma razão ou um significado para a ação.

    Merleau-Ponty (1994) diz que o conhecimento do mundo se dá a partir da própria experiência do homem: homem e objeto se inter-relacionam. Razão e corpo são agora indivisíveis. A consciência busca um contato mais direto com o mundo. É pelo corpo, pelo movimento, que o homem dá sentido e se coloca no mundo, havendo uma intencionalidade.

    Para Laban (1978), “o movimento revela evidentemente muitas coisas diferentes. Suas formas e ritmos mostram a atitude da pessoa que se move numa determinada situação. Pode tanto caracterizar um estado de espírito e uma reação, com atribuições mais constantes da personalidade O movimento pode ser influenciado pelo meio ambiente do ser que se move”.

    Sendo assim, a Fenomenologia representa uma tendência filosófica que, entre outros méritos, parece ter questionado os conhecimentos do positivismo, elevando a importância do sujeito no processo da construção do conhecimento, e tendo como idéia fundamental a noção de intencionalidade da consciência que sempre está dirigida a um objeto isto tende a reconhecer o princípio de que não existe objeto sem sujeito (TRIVIÑOS, 1987). Portanto, cada tendência filosófica apresentada enfatizou um momento histórico do homem, consequentemente, os diferentes momentos já vividos por toda a trajetória da Educação Física desde a época em que o homem era definido, quase que somente, como um cárcere da alma, até o momento contemporâneo, em que o corpo atua como instrumento indispensável para trabalho.

O corpo na trajetória histórica da Educação Física brasileira: da alienação à exaltação do corpo

    Desde a antiguidade até o período da ilustração e o século XIX, a sociedade sempre foi influenciada por pensamentos filosóficos de diferentes épocas, sendo várias as concepções de corpo, que ora era valorizado ora, menosprezado.

    No século XX, o cuidado com o corpo passa ser de interesses de muitas pessoas, transformando-se assim em campo de conhecimento e área profissional – a Educação Física, contudo vários problemas decorrem de sua constituição histórica e do entendimento de homem na sociedade: a predominância de uma Educação Física que foca a “educação do físico”, a separação entre corpo e mente, valorização da corpolatria, sobre a pujança de uma consciência transitiva ingênua, o atrelamento as instituições militares e esportivas a falta de autonomia e legitimidade da área a predominância do pensamento que vê o esporte como sinônimo de Educação Física e como conteúdos das aulas, dentre outros que perpassam o século XXI.

    A Educação Física sofreu influência dos diferentes contextos, sendo vista como espécie de “amuleta” para outras disciplinas, tanto em sua dimensão educativa, quanto política.

    A Educação Física compreende um campo de atuação amplo, o qual será pensado em dois segmentos básicos para melhor compreensão: formal (trabalho em escolas) e não formal (academias, clubes hospitais, espaços de lazer etc.).

    No contexto escolar, são muitas formas como a Educação Física tratou e vem tratando o corpo. Estas variações encontram explicações, nem sempre conclusivas, nas diversas influências sofridas, assim como no diferente contexto histórico-político-social de cada época.

    É possível descrever a Educação Física com o auxílio de vários autores, dentre os quais destacamos (GUIRALDELLI JR, 1992; MEDINA, 1989; BRACHT, 1989; etc), baseando-se em, pelo menos, cinco períodos: a Educação Física higienista, militarista, pedagogicista, competitivista e popular. Cada tendência expressa um momento do contexto histórico humano, ou seja, a Educação Física adaptava-se ao momento que ocorria naquele instante.

    A influência médica - higienista ou biológica (MEDINA, 1989; GUIRALDELLI JR, 1992; CASTELLANI FILHO, 1988) enfatiza a busca do corpo saudável com bons hábitos higiênicos e livre de doenças. A tendência militarista (BRACHT, 1989; BRACHT e MELLO, 1992), contribuía para constituição do corpo disciplinado, submisso a ordens, apto, fisica e moralmente. A corrente bio-psicológica, reforçada principalmente pela incorporação dos discursos da psciomotricidade, destaca o aspecto psico-motor do desenvolvimento do corpo, em articulação com o cognitivo e o afetivo (SOARES, 1990). A influência desportiva (BRACHT, 1989; RESENDE, 1994) constitui-se em uma das mais significativas em virtude da projeção mundial alcançada pelo fenômeno esportivo. Nesta, privilegia-se o corpo forte, rápido, ágil, vencedor e, acima de tudo, competitivo. Finalmente, a influência das concepções críticas da educação (RESENDE, 1994; GUIRALDELLI JR, 1992; COLETIVOS DE AUTORES, 1992) que intentam a formação do corpo cidadão, crítico e autônomo e politizado.

    Em relação à Educação Física não escolar o corpo tem sido tratado na perspectiva técnica, de aprendizagem de habilidades específicas a um esporte, podendo apresentar um caráter lúdico, recreativo ou de rendimento, com fins competitivos. Outro aspecto refere-se a saúde e qualidade de vida, traduzidos na procura cada vez maior pelas atividades físicas, valorizando-se o corpo saudável. Aliado a saúde, mas nem sempre, há a questão estética, ou seja, a ênfase em um padrão corporal, geralmente associado à magreza e a musculatura definida.

    Segundo BRACHT (1992), a Educação Física não é autônoma porque em sua formação histórica, esteve sempre atrelada ao esporte, ao militarismo e a escola. Isso explica a perspectiva técnica de aprendizagem e não é legítima por não apresentar argumentos plausíveis para sua permanência ou inclusão no currículo escolar apelando exclusivamente para a força de argumentos e não para a força como no regime autoritário, que buscava a perfeição de um corpo atlético para a busca de records. Nesse regime o cidadão era visto como soldado obedecente e servil que está sempre pronto para o combate, fazendo com que se perdesse uma das características fundamentais, que compões a Educação Física – a espontaneidade, o lúdico que tornam prazerosa a forma de si exercitar (BRACHT, 1997).

    Se no sistema formal a Educação Física era vista com fins altamente competitivos, no meio informal procurava-se oferecer às pessoas formas de exercitação corporal a partir da modificação das práticas corporais tradicionais, em busca dessa forma de se fazer exercícios de forma prazerosa, aparece o E.P.T (Esporte para Todos), com origens Européias, vem para o Brasil no ano de 1973, com o intuito de valorizar o tempo livre de uma sociedade recém industrializada, embora Emir Sader (1998) deixa claro que tempo livre é coisa de rico ou de desempregado.

    CAVALCANTI (1984) faz a crítica ao E.P.T, afirmando que este era direcionado a funcionários e classe operária, que ao contrário do que se imaginava, constituía-se em um meio de camuflar os interesses políticos do Estado, pois é uma construção ideológica à medida que dissimula as desigualdades sociais. “O que torna o discurso sobre o E.P.T ideológico é a distorção intencional da realidade social, para camuflar os interesses da classe dominante” (CAVALCANTI, 1984, p. 34).

    O E.P.T atua como fator de dependência sócio-cultural às atividades físicas desenvolvidas no tempo livre, vinculando o uso do corpo a publicidade, tornando, portanto, o indivíduo e a comunidade dependentes, ou seja, instrumentos de reprodução cultural (CAVALCANTI, 1984). E assim, moldando a sociedade, o E.P.T tornava os indivíduos, na medida em que um gesto não passa apenas de um ato mecânico, animal sem significado humano. É preciso encontrar de novo a homonidade da ação, pois como sabemos, o homem se diferencia dos animais pela capacidade de produzir sua própria subsistência e por seu trabalho. Ele é o que representa fora de s: daí o trabalho torna-se fatal no processo de homonização, em que alienação capitalista ousou divorciar o produto do produtor, arrancando o homem de si mesmo (CODO; SENNE, 2004).

    Como dito anteriormente, Emir Sader (1998), ao discutir o trabalho e tempo livre, define o último como “coisa de rico ou desempregado, com destinos totalmente diferentes” (1998, p. 06). O lazer não é alcançado devido o excesso da carga horária de trabalho, esta, normalmente para cobrir as necessidades dos trabalhadores, fazendo do homem um ser alienado durante toda sua rotina. Eis a dicotomiza lazer X trabalho.

    Devido esta alienação existente, a Educação Física começou a voltar-se para a ocupação do tempo livre, quando o homem moderno, após a sua rotina de trabalho, busca momento de lazer como forma de acabar com o estresse, relaxar. De repente, o saudável hábito de cuidar do próprio corpo se tornou uma obsessão, pois o exercício que era apenas para manter a forma, relaxar, e recuperar a vitalidade e o bem estar físico perdido nas engrenagens do trabalho alienado, ou ainda, uma maneira de levantar o astral, acabou virando um vício, um culto ao corpo, denominado corpolatria, esta que não é vivenciada por todas as camadas sociais, já que nem todas podem ter acesso a um tempo liberado das obrigações cotidianas. Pouco a pouco, o remédio foi virando doença fixação, e o que era cuidado virou idolatria ao corpo isto é Corpolatria (CODO; SENNE, 2004). A preocupação com o corpo é, em última instância, uma luta contra o caráter alienante do trabalho, um passo a mais em direção a liberdade (CODO; SENNE, 2004, p. 80).

    Com base nestes autores podemos constatar que a Educação Física nunca teve uma verdadeira legitimidade. Sempre serviu como base, ou até mesmo, como passificadora de determinantes situações Saindo deste contexto conseguimos adquirir um certo espaço, mas ocorreu que como uma bomba saltamos de um parâmetro para um extremo totalmente oposto, ou seja, da falta de reconhecimento e ditadura do corpo para o excesso por meio da corpolatria.

    Codo e Senne (2004), após criticarem a intensidade e ênfase dada ao culto ao corpo, definem exatamente o que é necessário a ser feito a partir de agora: “é hora, se já é tarde, de perseguir de maneira conseqüente, consciente, um corpo saudável. É hora e já é tarde, de buscar o prazer, sem medo e a qualquer custo. É a hora e a vez da integração biológica e espiritual do homem” (CODO; SENNE, 2004, p.82). A luta contra a alienação se transformou numa outra alienação, nosso corpo continua em um “objeto semi identificado”, e a felicidade cada vez mais longe.

    Após passar por diferentes momentos, e ser utilizada para diversas funções, a Educação Física se fortifica e ganha espaço na sociedade contemporânea. Porém, esta se excede, ainda não atingindo sua verdadeira legitimidade. Baseando-se em Codo e Senne (2004) pode-se afirmar que a Educação Física nunca teve tamanha oportunidade e proximidade de sua autonomia, momento este que não pode ser desperdiçado no sentido de se pensar o homem em sua totalidade – corpo e alma.

Considerações finais

    Por meio deste trabalho, pode-se constatar a problemática do homem em relação à Educação Física, desde os tempo antigos, embasado na Grécia Clássica, através de filósofos como Platão e Aristóteles, até a contemporaneidade, vista, sobretudo, pelo viés da corpolatria.

    Esta reflexão sobre a Educação Física na história configurou-se como ponto de partida para um objeto mais amplo a saber, estabelecer as mediações entre a educação do corpo na sociedade capitalista e as transformações que acontecem no modo de produção. Para isso, o recurso à história foi fundamental.

    Acompanhar o pensamento educacional desde Sócrates (séc. V a.C), que fazia a cisão dos mundos sensível e inteligível, predominando o segundo e detrimento do primeiro, não significa dizer que a filosofia vem para romper radicalmente com o mito, mas sim atribuir um novo significado. Saindo da filosofia antiga e passando pela medieval, (séc. VII d.C a XIV d.C) e que tivemos representantes como Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino, observamos que ambos consideravam o belo, o bem e o bom como conduta divina, e o corpo, neste período, eram praticamente deixados de lado, o que impossibilitava o fato desde ser adorado por sua forma física (estética). Entretanto, do século XVI ao XIX, a concepção de corpo teve uma nova visão. Não era mais o teocentrismo que imperava, mas sim o antropocentrismo, sendo que o homem é percursor das experiências que pudessem ser comprovadas pelos métodos científicos (a produção do conhecimento se dava pelas pesquisas e experiências vividas).

    Chegando a contemporaneidade (séc. XX e XI em diante), temos autores como João Paulo S. Medina, Paulo Guiraldelli Junior, Valter Bracht, entre outros que nos trazem propostas para uma nova Educação Física, em que esta possa tratar o corpo de forma única, por meio de uma educação não só do físico ou da mente, mas do homem na sua totalidade.

    Portanto, após ocorrido a dicotomia corpo e alma ou valorização da alma em detrimento do corpo, acreditamos que já é hora de nos voltarmos para a dialogicidade corpo e mente, enfim de uma verdadeira e completa Educação Física. Com isso, sua instauração nesta sociedade, para que não tenha prioridade apenas no campo informal ou formal, mas que os dois lados que a área abrange possam caminhar juntos valorizando o homem em sua totalidade.

Referências

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EFDeportes.com, Revista Digital · Año 16 · N° 164 | Buenos Aires, Enero de 2012
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