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Análise biomecânica na marcha de uma pessoa

com hemiplegia. Um estudo de caso

Análisis biomecánico de una persona con hemiplejia. Un estudio de caso

 

*Mestrando em Atividade Física Adaptada

Universidade do Porto (Portugal)

**Profª. Drª. Universidade Federal de Santa Maria

UFSM, Rio Grande do Sul

Vinícius Denardin Cardoso*

Luciana Erina Palma**

vinicardoso@yahoo.com.br

(Brasil)

 

 

 

Resumo

          Através das expectativas e dos resultados de estudos biomecânicos evidenciando que as atividades físicas beneficiam e reeducam atividades como a marcha humana, que surgiu o interesse em desenvolver esse trabalho, sendo assim o objetivo deste estudo foi verificar a força vertical máxima e o tempo de apoio na marcha de uma pessoa com hemiplegia decorrente de um Acidente Vascular Encefálico (AVE), através de isso compreender suas limitações para possíveis intervenções através da Educação Física Adaptada. Com a análise dos dados deste estudo, foi possível buscar identificar que o participante com hemiplegia apresentava uma assimetria em sua marcha, na qual, durante a mesma, a maior parte do peso corporal tendia a transferir-se para o lado do corpo não plégico. Apesar da hemiplegia envolver a lado direito do corpo, ocorre que o participante exerce uma maior força de reação vertical na marcha do lado oposto ao afetado na lesão (não plégico), além do tempo de apoio no pé esquerdo durante a marcha ser maior com e sem o uso do tênis. E os resultados obtidos neste estudo nos permitem concluir que através da Biomecânica é possível compreender e detalhar as disfunções que a marcha apresenta nas pessoas com deficiência, e através desta compreensão será possível detalhar cada segmento do corpo humano a fim de proporcionar melhoras significativas nas diversas atividades de seu cotidiano.

          Unitermos: Marcha humana. Deficiência física. Educação Física Adaptada

 
http://www.efdeportes.com/ Revista Digital - Buenos Aires - Año 15 - Nº 143 - Abril de 2010

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Introdução

    A Educação Física Adaptada vem se tornando de extrema importância para reeducação e readaptação de pessoas com necessidades especiais nas suas diversas atividades do cotidiano, esta população, antes vista com elevado preconceito, hoje se tornaram muito visadas por diferentes estudos, com intuito de identificar as causas e conseqüências da deficiência, como relata Pedrinelli (2002) “Poderíamos considerar que educação física adaptada é uma parte da educação física cujos objetivos são o estudo e a intervenção profissional no universo das pessoas que apresentam diferentes e peculiares condições para a prática de atividades físicas”.

    Compreendendo a importância da Educação Física Adaptada, a marcha humana que é considerada uma atividade simples e automática, demonstra muitas particularidades de indivíduo para indivíduo. Compreendemos que cada pessoa tem suas potencialidades e limitações e sua adaptação diante dos desafios de sua vida e única.

    Neste estudo a deficiência física é a Hemiplegia, que é decorrente de um Acidente Vascular Encefálico (AVE). Bittar (2001) sustenta que a Hemiplegia “é o comprometimento de ambos os membros de um lado do corpo”.

    Conforme as designações anteriores, temos convicção de que as dificuldades de locomoção em uma pessoa com hemiplegia são perceptíveis, mas é importante compreender através de análises biomecânicas as dificuldades de locomoção mais evidentes e o que isso pode gerar um conhecimento mais especifico sobre suas alterações e proporcionar melhor conhecimento para futuro tratamento de reabilitação e reeducação da marcha.

Marcha humana, Educação Física Adaptada e deficiência física

    E de extrema importância analisar e compreender a funcionalidade e eficiência da marcha humana nas suas diversas fases do movimento, segundo Frontera (2001, p. 52) “a marcha humana e uma das atividades mais fundamentais da vida. Compreender os princípios biomecânicos básicos da marcha permite que se avaliem melhor as complexidades desta”. Por esses motivos que a biomecânica e seus fundamentos tem sua relevância em qualquer trabalho que busque corrigir ou melhorar o desempenho dos seres humanos.

    Segundo Perry (1992 apud Frontera 2001, p. 52):

    “A unidade funcional da marcha e o ciclo de marcha ou passada, consistindo do período de apoio e do período de oscilação. Funcionalmente, o período de apoio pode ser dividido em tarefas de aceitação de peso e de apoio do membro; o avanço do membro ocorre durante o período de oscilação”.

    Para Gamble & Rose (1998) “a marcha humana e uma forma relativamente exclusiva de locomoção, pois ela apresenta eficiência e funcionalidade únicas”.

    Diante dessas questões, e possível considerar que a marcha é única de indivíduo para indivíduo como retrata os autores Duarte e Lima (2003) “Cada pessoa e uma pessoa, cada corpo, um corpo, e a maneira de cada um se adaptar e exclusiva”.

    Como falamos em adaptação, e neste caso de “modificar” ou ”ajustar” objetivos, atividades e métodos, para suprir as necessidades especiais, a Educação Física Adaptada surge para compreender e adaptar sua metodologia de ensino para proporcionar as pessoas com deficiências condições para a prática de alguma atividade física, e a Educação Física Adaptada segundo Winnick (2004) “designa um programa de aptidão física e motora, habilidades e padrões motores fundamentais e habilidades de esportes aquáticos e dança, alem de jogo e esportes individuais e coletivos”, ainda Duarte e Werner (1985) afirmam que "É uma área da Educação Física que tem como objeto de estudo a motricidade humana para as pessoas com necessidades educativas especiais, adequando metodologias de ensino para o atendimento às características de cada Portador de Deficiência, respeitando suas diferenças individuais".

    A história nos revela que as pessoas que apresentavam algum tipo de deficiência possuíam um tratamento regado pela indiferença pelos corpos ditos “normais”. Os corpos “deficientes” eram encarados como incapazes, incomunicáveis e inúteis, enfim, tudo que se relacionava a não capacidade de realizar e, portanto de inferioridade. Mas na atualidade muitas vitórias foram obtidas para a população com deficiência, de fato o preconceito ainda é o principal obstáculo para a integração dessas pessoas na sociedade, para Winnick (1995):

    As pessoas portadoras de deficiência física convivem com as diferenças impostas pela sociedade e buscam eliminar este estigma que as acompanha. A prática esportiva, como fator de inclusão social e um bom indício de que isso esta mudando, que a própria sociedade esta buscando quebrar as barreiras invisíveis que por ela foram construídas.

    Segundo Duarte & Werner apud Cidade & Freitas (2002) “a deficiência física é uma alteração no corpo que causa dificuldades na movimentação das pessoas e as impede de participarem da vida de forma independente”. A deficiência física (ou motora) refere-se aos problemas ósteo-musculares ou neurológicos que afetam a estrutura ou a função do corpo, interferindo na motricidade. Ela é caracterizada por um distúrbio da estrutura ou da função do corpo, que interfere na movimentação e/ou na locomoção do indivíduo. (Gorgatti & Costa, 2005)

    De acordo com Duarte e Araújo (2002) “Entende-se por deficiência fisico-motora uma variedade bastante ampla de condições orgânicas que, de alguma forma altera o funcionamento normal do aparelho locomotor, comprometendo assim a movimentação e deambulação do indivíduo”. E essas alterações, além de conseqüências físico-motoras aparentes, marcam a pessoa do ponto de vista social, afetivo e comunicativo, o que por vezes, são lesões bem maiores que as visivelmente notáveis.

    Uma das alterações físico-motoras é a hemiplegia, que pode ser causada por inúmeras patologias, tais como Acidente Vascular Encefálico (AVE), Esclerose Múltipla, Traumatismo crânioencefálico (TCE) e até lesões medular (Lundy-Ekman, 2001).

Metodologia

    Fez parte deste estudo uma pessoa do sexo masculino, 50 anos, 1,64m, 67 Kg, com hemiplegia no lado direito do corpo em decorrência de um Acidente Vascular Encefálico (AVE). Este participante praticava atividade física no meio liquido com freqüência de uma (1) vez na semana em um projeto de extensão de uma universidade do Rio Grande do Sul, Brasil.

    As variáveis selecionadas para o estudo foram: força vertical máxima (em Newtons) e o tempo de apoio (em segundos).

    No primeiro contato com o participante, foi explicado ao mesmo, todo o procedimento que seria realizado e também foi mensurado seu peso e medido sua estatura.

    Para a coleta dos dados foi utilizado a Plataforma de Força OR6-5 AMTI (Advanced Mechanical Technologies, Inc.), após esta coleta os dados foram analisados em computador pelo Sistema Peak Motus. Foi realizada uma coleta com o uso de um tênis adequado para caminhada e outra sem o uso do tênis.

    A coleta foi realizada da seguinte maneira: O participante deveria realizar três tentativas com o uso do tênis e três sem o uso deste na Plataforma de Força OR6-5 AMTI. A velocidade não foi controlada, o participante executou a marcha na velocidade normalmente utilizada por ele.

Apresentação dos resultados

    Antes de analisarmos os dados é importante destacar que não seria conveniente compararmos estes dados com uma pessoa sem a hemiplegia, pois certamente os resultados seriam muito diferentes.

    Os resultados obtidos no estudo serão apresentados da seguinte forma:

  • Força Vertical Máxima em Newtons (N) e as análises das 3(três) tentativas, com o uso do tênis e sem o uso deste.

  • Tempo de Apoio em segundos (s), e as análises das 3 (três) tentativas, com o uso do tênis e sem o uso deste.

Força Vertical Máxima (Newtons)

    Ao identificar os dados foi constatado que com o uso do tênis a media da variável força de reação vertical foram próximos nas três tentativas para o pé esquerdo (674,987 Newtons) e para o pé direito (676,883 Newtons), com uma pequena alteração, sendo que o desvio padrão ficou em 1,64 para o pé direito para o pé esquerdo ficou em 0 (zero). (Gráfico 01).

Gráfico 01. Força Vertical Máxima com o uso do tênis

    Já sem o uso do tênis essa variável para ambos os pés tiveram uma significativa alteração, para o pé direito foi verificado uma análise de 667,403 Newtons, com desvio padrão de 4, 34 Newtons, e o pé esquerdo teve 685,415 Newtons com desvio padrão de 0 (zero).

Gráfico 02. Força Vertical Máxima sem o uso do tênis

Tempo de apoio em segundos

    O tempo de apoio em segundos para o pé direito, com e sem o uso do tênis foram muito parecidos, com o uso do tênis o tempo de apoio foi constatado em 1,36s e sem o uso do tênis o tempo de apoio constatado foi de 1,31s.

    Já para o pé esquerdo com o uso do tênis o tempo elevou-se consideravelmente 1,59s, e sem o uso do tênis também ocorreu elevação do tempo de apoio 1,54s.

Discussão dos resultados

    A partir dos resultados apresentados é possível identificar que o participante com hemiplegia apresentava uma assimetria em sua marcha, na qual, durante a mesma, a maior parte do peso corporal tendia a transferir-se para o lado do corpo não plégico, neste caso o esquerdo. Na variável de Força Vertical Máxima o pé esquerdo empregava mais força que o lado plégico durante a marcha, isso fica evidenciado já que durante as 3 (três) tentativas com o uso do tênis e nas 3 (três) sem o uso do respectivo tênis o desvio padrão foi 0 (zero), confirmando uma proximidade de força empregada durante a marcha. Esta assimetria é evidenciada por Guedes (2000) e Chagas & Tavares (2001) em seus estudos com pacientes com hemiplegia. Assimetria justifica-se pela transferência de peso para o membro não afetado, realizando a fase de apoio no membro afetado de forma curta e rápida, decorrente da não progressão anterior do corpo, resultando na diferença de tamanho dos passos e das passadas. Costa et al (2006).

    Em estudo realizado por Shumway-Cook et al (1988) com pacientes com Hemiplegia decorrente de um Acidente Vascular Encefálico (AVE), foi demonstrado que todos os pacientes apoiavam cerca de 70% do peso total do corpo sobre o membro inferior não afetado.

    A fraqueza muscular, ou tônus muscular anormal no tronco, leva a padrões de alinhamento atípico no tronco, cinturas escapular e pélvica, criando uma posição inicial atípica para o movimento funcional. Costa et al (2006).

    O tempo de apoio em segundos para o lado direito (lado plégico) com e sem o uso do tênis foram consideravelmente superiores que o lado não afetado.

    Em estudos com crianças hemiplégicas Yokochi et al (1995), relataram a tendência da criança em utilizar com mais frequência o membro não plégico durante a fase de apoio da marcha.

    Yokochi et al (1995) e Chagas & Tavares (2001) justificam que a criança hemiplégica movimenta-se utilizando preferencialmente o hemicorpo normal e apresenta déficit no alinhamento corporal, dificultando a transferência de peso sobre o lado afetado.

Conclusão

    Com a descrição dos dados obtidos neste estudo e possível concluir que o fato da hemiplegia envolver a lado direito do corpo, ocorre que o participante exerce uma maior força de reação vertical na marcha do lado oposto ao afetado na lesão (não plégico), além do tempo de apoio no pé esquerdo durante a marcha ser maior com e sem o uso do tênis. Isto evidencia a importância de realizar uma avaliação biomecânica detalhada do padrão de marcha desta população, para compreender o espectro das anormalidades que ocorrem em cada segmento e no corpo como um todo. E através destes dados será possível realizar avaliações mais detalhadas para aprofundar nas possíveis disfunções da marcha de pessoas com hemiplegia e assim compreender as limitações que esta população será designada a superar.

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