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Nível de coordenação motora de crianças de oito e 

nove anos participantes em projeto esportivo-educacional

Nivel de coordinación motora de niños de ocho y nueve año participantes de un proyecto deportivo-educacional

 

*Acadêmico(a) do curso de Educação Física da

Universidade Federal de Mato Grosso do Sul

**Professor do curso de Educação Física da

Universidade Federal de Mato Grosso do Sul

(Brasil)

Marcelo Henrique Cristaldo*

Melissa Helena Flôres Acosta Dalmolin*

Letícia Silveira Flores* | Santiago Garcia de Lima*

Katiuscia Barbosa Oshiro* | Taiane de Menezes Valério*

Diego Machado Lins* | Brunno Elias Ferreira**

bruelifer@hotmail.com

 

 

 

Resumo

          Os propósitos do presente estudo foram: avaliar o nível de coordenação motora de crianças de oito e nove anos do Projeto Córrego Bandeira e comparar se há diferenças entre os sexos e as idades. A amostra foi constituída por 20 crianças de ambos os sexos de 8 e 9 anos participantes do Projeto Córrego Bandeira situado no campus da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) em Campo Grande. A coordenação motora foi avaliada com a bateria de testes de coordenação corporal (Körperkoordinationstest für Kinder - KTK) que é composta por quatro testes: (1) equilíbrio em marcha à retaguarda (ER); (2) saltos laterais (SL); (3) saltos monopedais (SM); e (4) transposição lateral (TL). A partir do resultado de cada teste, submetido à análise junto as tabelas de valores normativos fornecidas pelo manual, obteve-se o quociente motor (QM). A partir do QM foi constatada a classificação da coordenação motora. Para a análise estatística foi utilizado o teste t de student. Os resultados médios do QM da bateria de teste KTK das crianças do estudo foram bons, variando de regular a alto. Nas meninas verificou-se que 45,4% são classificadas como alta. Já os meninos tiveram 55,6% classificados como bom. Em ambos os sexos os resultados obtidos estão em sua maioria entre as classificações boas e altas, o mesmo ocorreu em comparação com a idade. Conclui-se que as atividades realizadas no Projeto Córrego Bandeira podem estar relacionadas ao alto índice de coordenação motora encontrado.

          Unitermos: Desenvolvimento infantil. Equilíbrio. Salto

 
http://www.efdeportes.com/ Revista Digital - Buenos Aires - Año 14 - Nº 140 - Enero de 2010

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Introdução

    A coordenação é compreendida como resultado da relação entre o indivíduo que realiza o movimento, o ambiente e a tarefa realizada por este, a qual definirá o modo de execução, conforme afirma Newell (1986apud BORGES, 2009).

    A coordenação motora pode ser conceituada de diferentes formas por diferentes áreas de estudo: biomecânica, fisiológica e pedagógica.

    Béziers e Piret (1992) seguem a linha da biomecânica discorrendo que a coordenação motora é constituída pela organização dos músculos de uma extremidade a outra do corpo humano, no qual comanda o movimento corporal.

    A coordenação motora na visão fisiológica é regida pelas leis da contração muscular segundo Martinek et al. (1977apud LOPES et al. 2003).

    Para Borges et al. (2008), que defendem a visão pedagógica, a coordenação é:

    “... a direção significativa do movimento, a concretização de uma intenção ou o encadeamento significativo da conduta. No início, os movimentos da criança apresentam-se de forma global, sem harmonia, quase sempre assimétricos. Entretanto, por meio de atividades que ajudarão na descoberta do corpo e de suas diferentes partes, aos poucos começará a produzir movimentos que se caracterizam por uma maior fineza e eficiência.”

    Conforme Gobbi et al. (2005) a coordenação motora pode ser classificada de acordo com o seu nível de desenvolvimento: grossa, também chamada de elementar, e fina.

    Coordenação motora grossa consiste no mínimo de coordenação necessário para a realização de um movimento, o qual o indivíduo pode realizar tarefas diferenciadas com variados níveis. Já a coordenação motora fina define-se na realização de movimentos com alta precisão e economia.

    Em relação à predominância dos órgãos ou segmentos corporais esta dividi-se em: coordenação visomotora e coordenação bimanual.

    Visomotora é a capacidade de realizar movimentos orientados pela visão. A bimanual é a integração de mecanismo de controle durante tarefas nas quais as mãos trabalham juntas para completá-las.

    Quanto ao recrutamento muscular: coordenação intramuscular e intermuscular. A coordenação intramuscular é uma seqüência de contração determinada em cada um dos músculos isoladamente, a qual proporciona a contração pela ação coordenada das fibras. A intermuscular é ação sincronizada de diversos grupos musculares para que o movimento ocorra, ou seja, está relacionada ao trabalho em conjunto de diversos músculos em relação a uma sequência de movimentos.

    A coordenação motora se dá de forma progressiva, principalmente nas crianças que contribuíram para as tarefas diárias a serem realizadas pelo indivíduo, o que torna de suma importância sua aquisição para sobrevivência da espécie, como reações rápidas para a prevenção de acidentes e para as relações sociais (Gobbi et al,(2005).

    Greco e Benda (1998, apud Collet et al., 2008) ainda afirmam que a coordenação motora está presente na vida humana como um todo tornando importante o desenvolvimento das habilidades básicas na infância, necessitando dessas para a vida adulta. Diante disso, pode-se dizer que a coordenação está diretamente ligada a alguns componentes físicos, como o equilíbrio, a velocidade, a agilidade e o ritmo (GALLAHUE; OZMUN, 2001, apud GOBBI et al., 2005).

    Weineck (2000, apud GOBBI et al., 2005) diz que na segunda infância, compreendida entre 7 a 10 anos, é a idade ideal para o desenvolvimento das capacidades coordenativas e para se obter um repertório motor amplo.

    “Caso uma criança não seja exposta progressivamente a maiores exigências coordenativas, certamente ela encontrará dificuldades na realização de algumas tarefas, e essas “deficiências” ocorrem, provavelmente, por causa da pouca estimulação nos primeiros anos de vida. Infelizmente, atualmente o sedentarismo infantil parece querer predominar sobre o estilo de vida ativo de nossas crianças, e as conseqüências disso se refletirão em idades mais avançadas com a diminuição dos níveis de aptidão funcional e com o surgimento de várias doenças relacionadas ao sedentarismo, como obesidade, diabetes, doenças coronarianas, entre outras.” (GOBBI et al., 2005, pág. 213).

    O desenvolvimento motor da criança ocorre inicialmente no ambiente familiar, porém o ambiente mais especializado a se trabalhar essa questão é na escola, com as aulas de Educação Física. As atividades desenvolvidas no ambiente da Educação Física escolar visam promover aquisição e aperfeiçoamento do desenvolvimento motor da criança.

    O Projeto Córrego Bandeira (conduzido pelo Instituto Ayrton Senna) está localizado na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, no campus de Campo Grande. Atende crianças e adolescentes carentes de diferentes bairros da cidade e desenvolve atividades esportivas no período extra-escolar.

    Conforme Collet et al. (2008, pág. 373):

    “Esse processo que se inicia na infância, em particular na escola, pode ser complementado em instituições que possibilitam a realização de atividades organizadas e monitoradas, adequada ao nível de desenvolvimento geral em que a criança se encontra.”

    Os propósitos da presente investigação são: (1) avaliar o nível de coordenação motora de crianças de oito e nove anos do Projeto Córrego Bandeira; (2) verificar se há diferenças entre os sexos e as idades.

    O estudo seguirá a perspectiva pedagógica do desenvolvimento coordenativo e têm-se a idéia que as crianças na faixa etária de oito anos e nove anos não possuem diferenças coordenativas entre os sexos tampouco insuficiência de desenvolvimento de coordenação motora.

    De acordo com Collet et al. (2008), em relação à prática esportiva de crianças e adolescentes, espera-se que os mais ativos apresentem repertórios motores mais ricos e variados, além de melhores desempenhos em termos de coordenação e habilidades motoras.

Metodologia

    Trata-se de um estudo transversal cuja coleta dos dados aconteceu no 2º semestre de 2009 por acadêmicos do Curso de Educação Física da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) no Projeto Córrego Bandeira de acordo com a disponibilidade dos alunos.

    A amostra foi composta por 20 crianças de ambos os sexos de oito e nove anos, que participaram das coletas após esclarecimento da pesquisa para os pais/responsáveis e autorização para participação por meio da assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

    Para avaliar a coordenação motora foi utilizada a bateria KTK (Körperkoordinationstest für Kinder), constituída por quatro itens:

  1. equilíbrio em marcha à retaguarda (ER) cujo objetivo foi averiguar a coordenação da pressão da precisão e da complexidade;

  2. saltos laterais (SL) objetivaram analisar a coordenação da pressão do tempo;

  3. saltos monopedais (SM) tiveram por objetivo identificar a coordenação com pressão da complexidade;

  4. transposição lateral (SL) tiveram o objetivo de verificar a coordenação com pressão do tempo e da complexidade.

    O resultado de cada item foi comparado com os valores normativos fornecidos pelo manual, sendo atribuído a cada item um quociente. O somatório dos quatro quocientes representou o quociente motor (QM) que pode ser apresentado em valores percentuais ou absolutos, permitindo classificar as crianças segundo o seu nível de desenvolvimento coordenativo:

  1. perturbações da coordenação;

  2. insuficiência coordenativa;

  3. coordenação normal;

  4. coordenação boa;

  5. coordenação muito boa.

    A bateria KTK permite, portanto, dois tipos de análise dos resultados: (1) por prova ou (2) pelo valor global do QM, este último foi utilizado para a pesquisa.

    Para realizar o procedimento estatístico do teste t de student foi utilizado o programa BioEstat 5.0.

    Neste estudo, os resultados foram considerados estaticamente significativos quando o nível descritivo for menor que 5% (p<0,05).

Resultados e discussão

    A tabela 1 apresenta o número de sujeitos por faixa etária e por sexo.

Tabela 1. Estratificação da amostra (frequência absoluta em função da idade e gênero, n = 20)

Idade

Masculino

Feminino

Total

8 anos

4

5

9

9 anos

5

6

11

Total

9

11

20

    O estudo avaliou a coordenação motora de crianças de oito e nove anos com a bateria KTK. Os resultados obtidos compararam a coordenação motora entre os sexos e também houve a comparação entre as faixas etárias analisadas.

    A Tabela 2 apresenta a associação entre o nível de coordenação motora de crianças de oito e nove anos participantes do Projeto Córrego Bandeira da cidade de Campo Grande-MS, considerando o sexo e a idade.

Tabela 2. Nível de coordenação motora dos participantes, considerando o sexo e a idade (n = 20)

 

Baixo

n (%)

Regular

n (%)

Normal

n (%)

Bom

n (%)

Alto

n (%)

p-valor

Sexo

Feminino (n=11)

0

0

3 (27,3)

3 (27,3)

5 (45,4)

0,17

Masculino (n=9

0

1 (11,1)

1 (11,1)

5 (55,6)

2 (22,2)

 

Idade

8 anos (n=9)

0

1 (11,1)

1 (11,1)

2 (22,2)

5 (55,6)

0,12

9 anos (n=11)

0

0

3 (27,3)

6 (54,5)

2 (18,2)

 

    Os resultados obtidos revelaram que o nível de coordenação motora em relação ao sexo não apresentou significância (p=0,17) o mesmo ocorreu com a idade (p=0,12).

    Em relação aos resultados pode-se notar que os níveis de coordenação motora em crianças de oito e nove anos de ambos os sexos nesse estudo, apresentaram a classificação, em sua maioria, de normal a alto, dessa forma deduz-se que a prática de atividades físicas extra-escolares pode ser um fator para a melhoria da coordenação motora do indivíduo.

    O Projeto Córrego Bandeira visa resgatar crianças de baixa renda em risco social, proporcionando a prática de atividades físicas variadas no período não escolar.

    “Uma criança precisa contar com um ambiente que a prepare e a estimule para usar todas as suas capacidades e, quanto mais ricas forem as situações vividas, melhor será o desenvolvimento do esquema corporal.

    A criança sente necessidade de movimentar-se, sendo que, por meio do exercício, ocorre um aumento qualitativo na coordenação de movimento, pois uma criança que não se exercita não adquire a experiência de movimento” (LAGRANDGE, 1977, apud GORLA; ARAÚJO, 2007, pág. 54-55).

    O ambiente tem importância fundamental para o desenvolvimento da criança bem como o estimulo desta. Com isso há a possibilidade de proporcionar melhora na coordenação motora das crianças, influenciando positivamente ao longo de sua vida.

    Segundo Gorla e Araújo (2007) o bom desempenho motor trás melhora nos resultados escolares das crianças e proporcionam melhoria na aceitação social das mesmas. Com boa coordenação motora a criança tem um melhor desempenho das suas atividades diárias, tornando-a mais confiante e com a auto-estima mais elevada.

    Cabe à Educação Física Escolar fomentar hábitos e motivar à prática de atividade física para que a coordenação motora das crianças evolua significativamente.

Conclusão

    Os valores médios do quociente motor da bateria de teste KTK das crianças de oito e nove anos de ambos os sexos participantes do Projeto Córrego Bandeira foram bons, variando de regular a alto.

    A generalidade das crianças é identificada com níveis de desenvolvimento coordenativo muito bom. Nas meninas verificou-se que 45,4% são classificadas como alta. Nos meninos encontrou-se o percentual de 55,6 como sendo bom. Ou seja, em ambos os sexos os resultados obtidos estão em sua maioria entre as classificações boas e altas.

    O mesmo ocorre na idade, variável na qual 55,6% das crianças de oito anos possuem classificação alta e 54,5% das crianças de nove anos estão classificadas como bom.

    Conclui-se que as atividades realizadas no Projeto Córrego Bandeira podem estar relacionadas ao alto índice de coordenação motora encontrado.

Referências bibliográficas

  • BÉZIERS, M. M.; PIRET, S. A coordenação motora: aspecto mecânico da organização psicomotora do homem. São Paulo: Summus, 1992.

  • BORGES, C.K. Coordenação e controle motor. Um estudo sobre a posição de coordenação do método de Piret e Béziers. 2009. 81 f. Dissertação (Mestrado em Ciências do Movimento Humano) - Universidade Federal do Rio Grande do Sul Escola de Educação Física Pós-graduação em Ciências do Movimento Humano, Porto Alegre. 2009.

  • BORGES, T.S.; SOUZA, V.F.M.; PEREIRA, V.R. Educação Física Infantil e desenvolvimento do ritmo motor na infância. EFDeportes.com, Revista Digital. Buenos Aires, a.13, n.123, ago 2008. http://www.efdeportes.com/efd123/educacao-fisica-infantil-e-desenvolvimento-do-ritmo-motor-na-infancia.htm

  • COLLET, C.; FOLLE, A.; PELOZIN, F.; BOTTI, M.; NASCIMENTO, J.V. Nível de coordenação motora de escolares da rede estadual da cidade de Florianópolis. Revista Motriz. v.14 n.4, p.373-380. Rio Claro, out./dez. 2008

  • GOBBI, S.; VILLAR, R.; Zago, A.S. Bases Teórico-Práticas do Condicionamento Físico: Educação Física no Ensino Superior. Rio de Janeiro: Editora Guanabara Koogan, 2005. 265p.

  • GORLA,J.I., ARAÚJO, P.F.; Avaliação Motora em Educação Física Adaptada: Teste KTK para Deficientes Mentais. Editora Phorte, p. 54-56, 2007.

  • LOPES, V.P.; MAIA, J.A.R.; SILVA, R.G.; SEBRA, A.; MORAIS, F.P. Estudo do nível de desenvolvimento da coordenação motora da população escolar (6 a 10 anos de idade) da Região Autônoma. Revista Portuguesa de Ciências do Desporto. v.3, n.1, p. 47-60, 2003.

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