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Análise cinemática da corrida de 100 metros rasos em escolares

Análisis cinemático de la carrra de 100 metros llanos en escolares

 

*Pós graduado em Educação Física – UNISC / RS

**Professora Doutora do curso de Educação Física – UNISC / RS

***Professor Doutor do curso de Educação Física – UFRGS / RS

**** Acadêmico do curso de Educação Física – UNISINOS / RS

(Brasil)

Maurício Fink*

Miria Suzana Burgos**

Flávio de Souza Castro***

Matias Noll****

matiasnoll@yahoo.com.br

 

 

 

Resumo

          O objetivo deste estudo foi analisar a cinemática na corrida na prova de 100 m rasos em alunos/atletas da Equipe de Atletismo do Colégio Evangélico Alberto Torres, em dois momentos da temporada de treinamento: no início e após 11 semanas de treinamento. Participaram da investigação quinze alunos de ambos os sexos entre 13 e 17 anos de idade, os quais são praticantes de Aulas de Educação Física durante o turno da manhã, e no turno oposto a aula praticam Atletismo na própria Escola. Este trabalho caracterizou-se por ser de corte longitudinal, no modelo descritivo e comparativo, tendo como base a análise de dados coletados em atletas, corredores de velocidade, caracterizando-se como semi-experimental. Os procedimentos metodológicos desta pesquisa fora, divididos em 3 etapas. A primeira etapa relativa à avaliação da cinemática da prova de 100 m rasos, no início da temporada de treinamentos. A segunda etapa correspondeu à aplicação de treinamento no grupo de atletas avaliados. E a terceira etapa correspondeu à avaliação da cinemática da corrida da prova de 100 m rasos após a aplicação do treinamento. Os parâmetros cinemáticos analisados fora. a velocidade média da corrida (VM), o comprimento médio do passo (CP), a freqüência média do passo (FP), a aceleração (A) e o índice de corrida (IC), que foram obtidos a cada 20 m de uma prova de 100 m rasos, com a contagem do número de passos e a verificação do tempo para percorrer cada 20 m . A análise estatística contou com a aplicação de teste para verificar a normalidade dos dados (Kolmogorov-Smirnov), teste t de Student para dados pareados e teste U de Mann-Whitney a fim de comparar os dados da primeira com os da segunda avaliação. Os programas ExcelÒ e SPSSÒ versão 13.0 foram utilizados para todos os cálculos. O nível de significância adotado foi de a < 0,05. Dentre os resultados pode-se destacar o aumento da FP e da VM entre o pré e o pós teste, a manutenção dos valores de A e a diminuição dos valores de CP.

          Unitermos: 100 m rasos. Análise cinemática. Carrera

 
http://www.efdeportes.com/ Revista Digital - Buenos Aires - Año 14 - Nº 140 - Enero de 2010

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Introdução

    De acordo com Nigg & Herzog (1994), biomecânica é a ciência que examina as forças atuando sobre e dentro de uma estrutura biológica e os efeitos produzidos por essas forças. Dentre esses efeitos, os deslocamentos dos corpos é preocupação de uma sub-área da mecânica, a cinemática, que, segundo McGinnis (2002), é um aspecto da mecânica que lida com a descrição dos movimentos.

    Em uma prova de 100 m rasos, os corredores podem estar, ao longo da prova, desenvolvendo o máximo de potência e força para alcançar o êxito e, conseqüentemente, a vitória em competições. Neste tipo de evento, no qual detalhes são diferenciais para decidir a prova, por coerência, não poderíamos, apenas, utilizar o tempo final em fazer uma análise qualitativa da corrida a fim de propiciar informações que possam servir para a melhoria do treinamento e da performance como um todo. Aspectos quantitativos que possam descrever com maior precisão a corrida e os elementos que a compõem podem e devem ser verificados para que os movimentos cíclicos da corrida apresentem maior eficácia e ainda possam ser melhorados nas fases da corrida.

    Segundo Hall (1999), a análise quantitativa requer conhecimento da finalidade biomecânica específica do movimento e da capacidade de detectar as causas dos erros. Através deste comentário podemos verificar que apenas uma análise qualitativa não seria o suficiente, mas uma análise quantitativa do movimento pode ser mais eficaz para a melhora em cada fase da corrida de 100 metros.

    Assumindo-se que a performance em eventos de atletismo (ou qualquer modalidade cíclica) está diretamente relacionada ao tempo que o atleta leva para percorrer a distância dentro das regras (menor tempo equivalendo à melhor performance), MUJIKA et al. (2002) afirmam que o tempo depende da velocidade do atleta na distância prescrita, o que torna relevante entender como esta velocidade é obtida e mantida. Neste caso, então, a velocidade de deslocamento (V) pode ser obtida pelo produto entre a freqüência de passos (FP) pela distância percorrida em cada passo, ou comprimento do passo (CP), ou seja:

V = FP * CP

    Ao serem mensuradas as variáveis antes mencionadas podem ser obtidas importantes informações a respeito da velocidade da corrida, da freqüência e do comprimento de passos e da aceleração do corredor, parâmetros cinemáticos definidores da performance (tempo final).

    Os alunos/atletas, corredores de 100 m rasos da Equipe de Atletismo do Colégio Evangélico Alberto Torres, até o momento, não tiveram uma análise mais aprofundada do movimento da corrida como esse projeto propõe. Os dados obtidos poderão ser reutilizados em outras temporadas de treinamento a fim de comparações e ajustes, fornecendo, ao professor/treinador a certeza que o trabalho é eficaz, e se os educativos para um melhor desempenho em provas podem levar os alunos/atletas sentir que estão explorando o máximo do desempenho anatomofisiólogico de cada individuo. Sendo assim, o objetivo geral deste trabalho é investigar as características cinemáticas na corrida na prova de 100 m rasos em alunos/atletas da Equipe de Atletismo do Colégio Evangélico Alberto Torres em dois momentos da temporada de treinamento: no início e após 11 semanas de treinamento.

Revisao de literatura

Cinemática

    Cinemática linear é segundo Hall (2000), “o estudo do movimento dos corpos em relação ao tempo ou ao padrão e à velocidade do movimento, seqüenciado nos segmentos corporais, que freqüentemente traduzem o grau de coordenação de uma manifestação individual. A cinemática descreve o aspecto temporal do movimento”.

    De acordo com Hall (1993), a cinemática pode ser definida, também, como o estudo da geometria, padrão ou forma do movimento em relação ao tempo. A cinemática pode analisar formas de movimentos qualitativos e quantitativos. Por exemplo, na forma qualitativa, um chute de futebol, identificando a articulação envolvida na ação principal. Na forma quantitativa, para representar o movimento humano, por exemplo, em uma comparação entre um jogador de futebol profissional e um jogador de clube, envolvendo a quantificação de variáveis de tempo de extensão de joelho e velocidade final da bola. Para Hall (1993), estudiosos da biomecânica do esporte analisam diferentes modalidades para identificar as características cinemáticas que definem uma performance de elite, este tipo de análise resulta na construção de um modelo que detalha as características cinemáticas de performance.

    Segundo Hay (1981), cinemática é o ramo da biomecânica que, estudando a descrição do movimento dos corpos, lida com variáveis e parâmetros como a distância e a velocidade com que um corpo se move e como ele se move.

    A pesquisa em biomecânica do esporte, para Dillman (1973), preocupa-se em identificar padrões de movimentos para determinada atividade, que podem estar associados com melhores performances. Assim, a biomecânica utiliza-se dos métodos da mecânica para descrever e avaliar os padrões do movimento. Baseado nessas análises descritivas cinemáticas, julgamentos são feitos a respeito da maneira mais efetiva de se realizar algum movimento. A cinemática, então, pode auxiliar professores e técnicos do esporte, através das análises de movimentos nas quais poderá ser avaliado como um atleta está realizando a técnica de determinado movimento. As análises abrangem o padrão do movimento e a velocidade do movimento, para, posteriormente, corrigir e aperfeiçoar a técnica a fim de obter-se maior eficácia em sua execução, principalmente em relação ao esporte competitivo.

Corrida de velocidade

    Segundo Hay (1981), “o sucesso da corrida depende da habilidade do atleta em combinar os movimentos de suas pernas, braços e tronco formado um todo suavemente coordenado.”

    O movimento das pernas é cíclico, cada pé alternadamente toca o solo, passa por baixo e por trás do corpo e em seguida deixa o solo para mover para frente, pronto novamente para o toque seguinte no solo. Este ciclo, segundo Hay (1981), é dividido em três partes:

  • fase de apoio: começa com o pé tocando o solo e termina, quando o centro de gravidade do atleta o ultrapassa;

  • fase de propulsão: começa quando a fase de apoio termina e quando o pé deixa o solo;

  • fase de recuperação, durante a qual o pé está fora do solo e está sendo levado à frente preparando-se para tocar novamente o solo;

    Fernandes (1979) destaca, também, já que a corrida é uma atividade natural, que a técnica deverá ser um fator muito preocupante quando se trata de competições, ou seja, é preciso preocupar-se com vários aspectos que podem influenciar a técnica. O primeiro aspecto conforme Fernandes (1979) é:

  • Conhecimento da repartição do esforço. A corrida de 100 m é um problema de velocidade média e não de velocidade máxima, portanto nesta corrida deve-se ter resistência num certo ritmo determinado. A técnica busca a maior velocidade média.

  • Preocupação com a técnica das passadas. Na passada a maior preocupação é com a velocidade instantânea. Velocidade é igual a freqüência multiplicada pela amplitude, assim melhora-se a velocidade aumentando a freqüência e a amplitude da passada.

  • A passada. O tempo de apoio da passada é de 0,15 s e o tempo de suspensão é de 0,25 s a 0,75 s. Quando ocorre o amortecimento no solo a planta do pé tem um leve predomínio e o apoio ligeiramente adiante da vertical do joelho. No apoio, os ombros estão baixos, o tronco está na vertical, os braços em ângulo de 90º, a perna de apoio em leve flexão, o calcanhar da perna livre próximo ao glúteo. A impulsão para a próxima passada deve ser de máxima intensidade, o joelho da perna livre deverá estar elevado quase na horizontal (ver Figura).

Exemplo do apoio na passada de corrida de velocidade (FERNANDES, 1979)

  • Ação dos braços na corrida de velocidade. Braços flexionados a 90º, levando os cotovelos para trás na movimentação, em alguns momentos o atleta varia um pouco o ângulo. Esta variação é comum ocorrer, pois o principal fator dessa variação é o tamanho da passada, os movimentos efetuados pelos braços devem corresponder à seqüência de movimentos efetuados pelas pernas.

    Também Fernandes (1979) cita os principais aspectos a serem observados na técnica de corrida de velocidade:

Pontos positivos:

  • Elevação da coxa na horizontal, colocando-se paralelamente ao solo, na finalidade de aumentar a amplitude da passada.

  • Grande ação do tornozelo, tocando o pé suavemente no solo.

  • Inclinação do corpo no ângulo de 30º, para que os movimentos tendam para frente (ver Figura).

Figura 4. Visualização de pontos positivos da técnica (FERNANDES, 1979)

Pontos negativos:

  • Excessivo cruzamento dos braços na frente do tronco, o que provoca num desequilíbrio do corredor.

  • Falta de extensão das pernas, colocação dos pés planos na pista, ombros muito altos (ver Figura).

Visualização de pontos negativos da técnica (FERNANDES, 1979)

 

    Nas provas de velocidade, Fernandes (1979) afirma que a maior velocidade de um atleta de 100 m encontra-se entre os 40 e 70 m, dependendo do seu condicionamento físico, e que a velocidade da corrida é produto de dois fatores: a distância da passada pela freqüência ou velocidade. O primeiro fator, distância da passada, pode ser sensivelmente melhorado mediante o treinamento da técnica, como por exemplo, colocação do corpo, trabalho de impulsão, a colocação correta dos pés no solo, a elevação dos joelhos etc. O segundo fator, por a velocidade ser uma qualidade inata, parece pouco melhorável através do treinamento. Assim pode-se melhorar a velocidade de corrida, através do treinamento, a distância da passada com processos pedagógicos e condicionamento físico, para que esta não diminua no trecho acima citado, pois neste momento da prova, o atleta começa a desacelerar e, conseqüentemente, a diminuir o tamanho da passada. Segundo Fernandes (1979), a velocidade do gesto é pouco melhorável, e quando isto acontece, as proporções são bem modestas, porque depende do relaxamento muscular e do potencial nervoso do indivíduo. Toda vez que o corredor procura aumentar a velocidade, acelerando ao máximo a freqüência de movimento das pernas, aumenta a probabilidade de maior gasto energético. Assim parece que, em uma prova de 100m rasos: 

  1. velocidade máxima é obtida nos primeiros 40 m., sendo impossível aumenta-la, após esta distância; 

  2. após essa distância, a perda de freqüência não pode ser compensada com o aumento da amplitude da passada; 

  3. essa perda de freqüência, relaciona-se com a queda da velocidade, mesmo aumentando a amplitude da passada; 

  4. a diminuição da freqüência é tão precoce quanto o corredor alcançar o ponto mais elevado da sua velocidade. Segundo Carr (1998), pode-se destacar nas habilidades da corrida de velocidade: 

  5. o tempo que um atleta despende, correndo uma determinada distância, depende do comprimento e da freqüência de sua passada. O comprimento das pernas ao atleta e o impulso para frente, que ocorre em cada passada, determinam o comprimento da mesma. O impulso para frente é produzido pela força de reação do solo, respondendo ao impulso para trás do atleta contra a superfície da Terra. A freqüência da passada é a cadência utilizada pelo atleta; 

  6. a técnica de um corredor muda quanto mais rápido ele corre, velocistas gastam mais tempo no ar do que corredores de fundo, balançam e flexionam seus braços mais vigorosamente, elevam mais os joelhos, impulsionam mais a perna, e flexionam mais o joelho. A tensão é prejudicial ao atleta, que despende energia desnecessária; velocistas tentam correr explosivamente, porém relaxando seu rosto, pescoço, ombros e mãos (ver Figura).

Exemplo de técnica da corrida em velocidade (CARR, 1998)

Cinemática linear da corrida de 100 metros

    Conforme Hamill e Knutzen (1999), a análise cinemática descreve as posições, velocidade e acelerações dos corpos em movimento. Este tipo de análise é um dos tipos mais básicos, pois é usado somente para descrever o movimento sem referências às causas do movimento. Geralmente os movimentos são coletados em forma de dados digitais com câmeras de vídeo de alta velocidade.

    Segundo Dilmann (1975), a corrida é uma rápida forma de locomoção humana caracterizada por breves projeções do corpo sobre o solo devido aos movimentos cíclicos (alternados) dos membros inferiores. Um ciclo do movimento é caracterizado como o período de tempo de ocorrência de um evento até que o mesmo evento se repita, na corrida, o ciclo (passada) é iniciado quando um pé deixa o solo até que o mesmo toque o solo novamente, ou seja, uma passada é um conjunto de um passo com cada segmento inferior.

    Conforme Hamill e Knutzen (1999), o comprimento da passada e a freqüência da passada estão relacionados com a velocidade da corrida. A velocidade da corrida pode ser representada com a seguinte equação:

V = CP * FP

    onde V corresponde à velocidade média de corrida, CP corresponde ao comprimento médio do passo ou da passada e FP corresponde à freqüência média do passo ou da passada.

    Através da equação podemos concluir que a velocidade é proporcional ao comprimento do passo e à freqüência de passos. Assim, CP e FP podem ser utilizados para descrever o padrão de movimento que um corredor utiliza para atingir as velocidades desejadas, para correr determinada velocidade, um indivíduo realiza uma combinação específica entre CP e FP.

    Na figura pode-se visualizar a relação do comprimento do passo com a velocidade da corrida, na medida em que o passo aumenta, gradativamente aumenta na velocidade.

Relação entre comprimento do passo, em m (eixo vertical) e velocidade da corrida, em m.s-1 (eixo horizontal). 

Resultados dos estudos de Saito et al., Osterhoutd e Buchanan (citados por DILLMAN, 1975)

    Na figura seguinte pode-se verificar a relação da freqüência do passo com a velocidade da corrida, na medida em que a freqüência aumenta, gradativamente teremos um aumento conseqüente na velocidade.

Relação entre freqüência do passo, em passos/s (eixo vertical) e velocidade da corrida, em m.s-1 (eixo horizontal). 

Resultados dos estudos de Saito et al., Osterhoutd e Buchanan (citados por DILLMAN, 1975).

    Conforme Dilmann (1975), há uma relação linear entre V e CP, até, por volta da velocidade de 7 m/s, após este valor, o CP tende a se manter estável, ou, em alguns casos, decrescer. Por outro lado os corredores com maior habilidade tendem a ter uma maior CP na comparação com os menos habilidosos. Já entre V e FP, há uma relação curvilínea; entre os mais habilidosos e os menos habilidosos, os melhores apresentam os mais baixos valores de FP. Conclui-se que os mais habilidosos aumentam o CP para não precisar realizar tantas passadas. Sendo assim, um bom corredor deve aliar uma alta velocidade com um longo comprimento de passo, o que pode ser verificado em um índice que é obtido a partir do produto entre o CP e a V (índice de corrida). Juntamente com esta abordagem da cinemática da corrida pode-se afirmar que uma técnica de corrida considerada boa deve:

  • apresentar longo CP;

  • pouco tempo no solo;

  • pequeno deslocamento vertical;

  • vigorosa e completa extensão da perna ao final da fase de apoio;

  • grande ângulo de flexão do joelho durante a fase de recuperação;

Fonte de energia na corrida de 100 metros

    Conforme Wilmore e Costill (2001), é o sistema mais simples, ATP-CP, que fornece energia necessária para uma corrida de 100 m rasos. Além do ATP (trifosfato de adenosina), as células possuem uma molécula de fosfato que armazena energia. Está molécula é chamada de creatina fosfato (CP ou fosfocreatina). Ao haver a quebra da creatina fosfato, ela não é utilizada diretamente, e sim é usada para formar o ATP, suprindo-o constantemente para as fibras musculares em ação. Este sistema de energia, ATP-CP é considerado anaeróbio e predomina nos primeiros segundos de atividade muscular intensa. O ATP, na sua concentração é mantido relativamente constante, o que baixa é a concentração de creatina fosfato, pois é utilizada para repor o ATP quebrado. Na exaustão, as concentrações de ATP e CP, tornam-se baixas e são limitadas, podendo sustentar necessidades energéticas dos músculos por 3 a 15 segundos, a partir deste momento os músculos dependem de outros processos para a formação de ATP.

    Esforços máximos que duram mais do que, em média, 15 s, passam a requisitar outras fontes de energia, como o sistema anaeróbio lático, quando a energia necessária para a ressíntese do ATP passa a ser fornecida, predominantemente, pela quebra da glicose, dentro do citoplasma da fibra muscular (ROBERGS & ROBERTS, 2002). A capacidade de produzir energia em altas intensidades de exercício é conhecida como capacidade anaeróbia, e esta apresenta diferentes características entre adultos, crianças e adolescentes.

Capacidade anaeróbia na criança e no adolescente

    Segundo Sobral (1988) apud Tourinho & Tourinho Filho (2004), uma das possíveis causas para a “performance” inferior das crianças em provas de potência anaeróbia deve-se, presumivelmente, a estoques inferiores de fosfagênio (principalmente de CP, já que a concentração muscular de ATP é semelhante no adulto e na criança) e, também, ao menor valor da massa muscular já que, embora aumentando regularmente com a idade, os incrementos da potência anaeróbia dos garotos são mais acentuados a partir dos 14 e 15 anos, isto é, imediatamente após o pico de velocidade de crescimento da musculatura esquelética. Através dos estudos realizados sobre o comportamento do rendimento anaeróbio lático de crianças e adolescentes, fica evidente que, este tipo de exigência motora deve ser visto com extrema precaução ao se elaborar programas de treinamento, principalmente com relação aos pré-púberes que não se encontram ainda preparados para esta intensidade de atividade física como foi observado pelos autores acima citados.

    Conforme Eriksson apud Tourinho e Tourinho Filho (2004), ocorrem mudanças no metabolismo anaeróbio lático durante o crescimento. Através de testes motrou-se que o lactato sangüíneo e muscular, atividade enzimática glicolítica, débito e déficit de oxigênio, “performance” de potência máxima em exercícios de curta duração e velocidade máxima aumentam gradativamente da infância à fase adulta. Conforme Bar-Or apud Tourinho e Tourinho Filho (2004), nas crianças, a capacidade para realizar atividades do tipo anaeróbia é significativamente inferior à dos adolescentes e adultos.

Treinamento da criança e do adolescente

    Wilmore e Costill (2001), abrangendo as questões de treinamento de força, capacidade aeróbica e anaeróbica, afirmam que:

  • a força e as capacidades aeróbica e anaeróbica aumentam com o treinamento, sendo que os programas de treinamento devem ser elaborados respeitando a faixa etária;

  • risco de lesão pelo treinamento de força entre crianças e adolescentes é muito baixo;

  • os ganhos de força pelo treinamento de força em crianças são resultantes da melhora da coordenação motora, do aumento da ativação das unidades motoras e de adaptações neurológicas;

  • em crianças submetidas a treinamento de força, pouca alteração no tamanho dos músculos é verificada;

  • a capacidade anaeróbica de uma criança aumenta com o treinamento anaeróbico;

  • treinando regularmente, a criança e o adolescente diminuem a massa gorda total e aumentam a massa corporal total, o processo de crescimento e maturação são provavelmente modificados pelo treinamento;

Método de investigação

Caracterização dos sujeitos da pesquisa

    Esta pesquisa contou com a participação de quinze alunos de ambos os sexos (13 do sexo masculino e 2 do sexo feminino) entre 13 a 17 anos de idade (14,26 ± 1,4 anos), com massa média de 48 ± 10,6 kg e estatura média de 161,4 ± 13,6 cm, do Colégio Evangélico Alberto Torres. Todos são praticantes de Aulas de Educação Física durante o turno da manhã, e no turno oposto à aula praticam Atletismo na própria Escola.

Abordagem metodológica

    O presente trabalho caracteriza-se por ser de corte longitudinal, no modelo descritivo e comparativo, tendo como base a análise de dados coletados em atletas, corredores de velocidade, caracterizando-se como quase-experimental. A pesquisa forneceu parâmetros a respeito das condições em que os atletas apresentaram-se no início da temporada quanto aos parâmetros técnicos, táticos e físicos relacionados a uma corrida de 100 m rasos. A partir dos dados coletados foi aplicado o treinamento para buscar solucionar problemas encontrados na primeira avaliação, com uma segunda avaliação após o período de treinamentos.

Procedimentos metodológicos

    Os procedimentos metodológicos desta pesquisa foram divididos em 3 etapas. A primeira etapa esteve relacionada com a avaliação de parâmetros cinemáticos da prova de 100 m rasos, no início da temporada de treinamentos. A segunda etapa esteve relacionada à aplicação de treinamento no grupo de atletas avaliados. Foram 21 sessões entre a 1ª e a 2ª avaliação. A terceira etapa esteve relacionada com a avaliação dos mesmos parâmetros cinemáticos da prova de 100 m rasos após a aplicação do treinamento.

Especificação das etapas:

    Primeira etapa: o teste foi realizado em uma reta de 100 m da Pista Atlética da Escola, dividida em cinco partes iguais de 20 m cada. Após dada a largada para o atleta, este correu os 100 metros em sua máxima velocidade. Quando o atleta largou, foi acionado um cronômetro para os primeiros 20 m, outro cronômetro dos 20 m aos 40 m e assim por diante. Toda a distância da prova de 100 m foi gravada com uma câmera de vídeo, o que possibilitou a contagem dos passos a cada 20 m corridos pelo atleta. Foram marcados os tempos a cada 20 m e o tempo total dos 100 m. Os materiais necessários para a realização de coleta de dados foram: cinco cronômetros, seis cones, um apito e uma câmera.

    Após serem coletado estes dados, foram aplicadas as equações, conforme McGinnis (2002), listadas a seguir :

Lista de equações

Equação 1:

CP = D / P

Onde CP é o comprimento médio do passo, em m, obtido pelo quociente entre D, distância percorrida (20 m), e P, número de passos completados nos 20 m percorridos.

Equação 2:

FP = P / T

Onde FP é a freqüência média de passos, em Hz, obtida pelo quociente entre P e T, tempo, em s, para percorrer os 20 m.

Equação 3:

V = D / T

Onde V é a velocidade média da corrida, em m.s-1, obtida pelo quociente entre D e T.

Equação 4:

A = DV / DT

Onde A é a aceleração, em m.(s-1)2, obtida pelo quociente entre a variação da velocidade (DV) e a variação do tempo (DT) entre cada trecho da corrida.

Equação 5:

IC = CP * V

Onde IC é o índice de corrida, em m2.s-1, obtido pelo produto entre o CP e a V.

    Segunda etapa: durante esta etapa, foram realizadas sessões de treinamentos com os alunos. No quadro, pode-se verificar o tempo de treinamento semanal e o que será abordado.

Descrição geral do programa de treinamento

Meses / Treinamento

Horas/treinamento por semana

março

abril

maio

Exercícios aeróbicos

2,5 horas

X

X

 

Processos pedagógicos

2,5 horas

X

X

X

Circuit Training

2,5 horas

 

X

X

Interval Training

2,5 horas

 

 

X

    Terceira etapa: foi realizada a segunda coleta dos dados cinemáticos, utilizando-se o mesmo protocolo da primeira etapa.

Análise estatística

    Foram calculadas as médias e os desvios-padrão das variáveis obtidas das equações 1, 2, 3, 4 e 5 para cada trecho da corrida e gerais de toda a corrida, dos dois momentos de avaliação. Foi aplicado um teste para verificar a normalidade dos dados (Kolmogorov-Smirnov) e, a fim de comparar os dados da primeira com os da segunda avaliação, um teste t de Student para dados pareados ou um teste U de Mann-Whitnney. Os programas Excel e SPSS versão 13.0 foram utilizados para todos os cálculos. O nível de significância adotado foi de a < 0,05.

Apresentação, análise e discussão dos resultados

    Neste capítulo são apresentados, analisados e discutidos os resultados das avaliações realizadas pré e pós treinamento, utilizados os dados obtidos das equações 1, 2, 3, 4 e 5, bem como os dados de tempo final e velocidade média final.

Comprimento médio de passo

    A tabela 1 apresenta os resultados das médias e desvios-padrão do comprimento médio de passo (CP, pela equação CP = D / P) obtido a cada trecho de 20 m das avaliações pré e pós treinamento. Pode-se verificar a tendência de, em ambas as avaliações, o CP médio aumentar entre o início da prova e a distância de 40 m e, após, ou apresentar uma tendência de manutenção dos valores, ou apresentar uma queda de CP.

Médias e desvios-padrão do CP (em m) a cada 20 m da prova de 100 m, pré e pós-treinamento

 

20 m

40 m

60 m

80 m

100 m

Pré-treinamento

1,99 ± 0,24

2,34 ± 0,25

2,35 ± 0,26

2,26 ± 0,26

2,21 ± 0,21

Pós-treinamento

1,98 ± 0,18

2,32 ± 0,17

2,26 ± 0,22

2,23 ± 0,20

2,13 ± 0,13

    Schmolinsky (1982) afirma que, no início da prova, o CP é menor, pois o corpo está bastante inclinado à frente, o que impede a realização de passos maiores, o que explica os menores valores encontrados nos primeiros 20 m de ambas as avaliações (Tabela 1). Já Fernandes (1979) afirma que a maior velocidade de um atleta durante uma prova de 100 m rasos encontra-se entre os 40 e os 70 m. Como a velocidade da corrida é o produto entre o CP e a FP, esperava-se encontrar maiores valores de CP entre essas distâncias. Os resultados encontrados mostraram uma maior CP, em ambas as avaliações, entre os 40 e os 60 m, coincidindo com a literatura (FERNANDES, 1979). Nestas distâncias, o atleta apresenta seu corpo em um melhor ângulo de corrida, podendo, assim, usar, com maior eficiência, toda a amplitude de seu passo.

    A redução de CP que pode ser visualizada nos 80 m da prova, em ambas as situações, de acordo com Fernandes (1979) está relacionada à desaceleração acentuada que começa a ocorrer a partir da metade da prova, que provoca uma redução do CP. Segundo o mesmo autor, o CP pode ser sensivelmente melhorado mediante treinamento da técnica, para que não haja a importante diminuição verificada.

    O gráfico apresenta a comparação entre os valores de CP pré e pós-treinamento, ao longo de cada trecho de 20 m da prova de 100 m rasos. Os dados foram considerados paramétricos (p > 0,05) e a comparação estatística entre cada trecho de pré e pós-treinamento não demonstrou diferença significativa (p > 0,05 em todos os trechos), embora possa-se notar uma tendência de maiores valores de CP na avaliação pré-treinamento em comparação a avaliação pós-treinamento nos trechos de entre 40 e 60 m e entre 80 e 100m.

Comparação entre os valores de CP pré e pós-treinamento. A linha contínua indica o pré-treinamento, a linha pontilhada indica o pós-treinamento.

    Após a primeira avaliação constatou-se que os alunos apresentavam pequeno CP, e este deveria ser melhorado a fim de se obter melhores resultados. Aumentos no CP podem ser obtidos mediante treinamento da técnica, que visa, dentre outros aspectos, melhor colocação do corpo, melhor impulsão, correta colocação do pé no solo, maior elevação do joelho (FERNANDES, 1979). Provavelmente, os similares valores de CP encontrados entre pré e pós-treinamento, com tendência a menores valores no pós-treinamento podem estar refletindo o tempo de treinamento (11 semanas) que parece ter sido pouco para uma sensível melhoria da técnica.

Freqüência média de passos

    A tabela apresenta os resultados das médias e desvios-padrão da freqüência média de passo (FP, pela equação FP = P / T) obtido a cada trecho de 20 m das avaliações pré e pós treinamento. Pode-se verificar a tendência de, em ambas as avaliações, a FP média aumentar entre o início da prova e a distância de 60 m e, após, apresentar uma tendência de queda.

Médias e desvios-padrão da FP (em passos/s) a cada 20 m da prova de 100 m, pré e pós-treinamento

 

20 m

40 m

60 m

80 m

100 m

Pré-treinamento

2,88 ± 0,21

3,00 ± 0,24

3,03 ± 0,21

3,00 ± 0,30

2,95 ± 0,30

Pós-treinamento

2,92 ± 0,22

3,12 ± 0,20

3,24 ± 0,15

3,15 ± 0,28

3,03 ± 0,27

    Segundo Fernandes (1979) no que diz a respeito de FP, a velocidade do gesto é pouco melhorável, e, quando acontece, é de pouca proporção, pois este depende do relaxamento muscular e do potencial nervoso do indivíduo. O aumento da FP até os 60 metros está relacionado ao aumento da velocidade até este trecho. A velocidade máxima é obtida entre os 40 e 70 metros, com diminuição após e, conseqüentemente, com a queda da FP. Provavelmente, o aumento da FP, ocorreu devido as melhores condições fisiológicas no pós-treinamento.

    O gráfico seguinte apresenta a comparação entre os valores de FP pré e pós-treinamento, ao longo de cada trecho de 20 m da prova de 100 m rasos. Os dados foram considerados paramétricos (p > 0,05) e a comparação estatística entre cada trecho de pré e pós-treinamento demonstrou diferença significativa (p < 0,05) apenas entre os 40 e os 60 m da prova, embora possa-se notar uma tendência de maiores valores de FP na avaliação pós-treinamento em comparação a avaliação pré-treinamento em todos os trechos analisados.

Comparação entre os valores de FP pré e pós-treinamento. A linha contínua indica o pré-treinamento, a linha pontilhada indica o 

pós-treinamento. O asterisco (*) indica em qual trecho (dos 40 aos 60 m da prova) houve diferença estatística significativa (p=0,09).

    Após a primeira avaliação verificou-se que os alunos/atletas não apresentavam uma tendência visível de aumento da FP até a metade da prova, o treinamento, então, procurou aumentar, também a FP. No gráfico pode-se verificar o aumento significativo da FP do pós-treinamento em comparação ao pré-treinamento. Diferentemente do CP, provavelmente as 11 semanas de treinamento foram suficientes para o aumento da FP, principalmente no trecho em há uma tendência de diminuição da velocidade em decorrência de diminuição do CP e da FP.

Velocidade média de corrida

    A tabela apresenta os resultados das médias e desvios-padrão da velocidade média da corrida (VM, pela equação VM = D / T) obtido a cada trecho de 20 m das avaliações pré e pós-treinamento. Pode-se verificar a tendência de, em ambas as avaliações, a VM aumentar entre o início da prova e a distância de 60 m e, após, apresentar uma tendência de queda.

Médias e desvios-padrão da VM (em m.s-1) a cada 20 m da prova de 100 m, pré e pós-treinamento

 

20 m

40 m

60 m

80 m

100 m

Pré-treinamento

5,72 ± 0,42

7,01 ± 0,53

7,09 ± 0,64

6,75 ± 0,64

6,50 ± 0,73

Pós-treinamento

5,98 ± 0,39

7,23 ± 0,68

7,33 ± 0,67

7,04 ± 0,68

6,48 ± 0,72

    O gráfico apresenta a comparação entre os valores de VM pré e pós-treinamento, ao longo de cada trecho de 20 m da prova de 100 m rasos. Os dados foram considerados paramétricos (p > 0,05) e a comparação estatística entre cada trecho de pré e pós-treinamento demonstrou diferenças significativas (p < 0,05) em todos os trechos analisados, exceto entre os 80 e os 100 m da prova.

Comparação entre os valores de VM pré e pós-treinamento. A linha ontínua indica o pré-treinamento, a linha pontilhada indica o pós-treinamento. 

Os símbolos indicam as diferenças estatísticas significativas nos trechos pré e pós-treinamento. * p=0,02; # p=0,02; + p=0,003; W p=0,03.

    Os significativos maiores valores de VM, obtidos no pós-treinamento, parecem refletir o efeito da preparação física, mais eficiente na FP do que no CP, ou seja, as 11 semanas foram suficientes para melhor condição fisiológica, mas não para melhor condição técnica.

Aceleração média da corrida

    A tabela apresenta os resultados das médias e desvios-padrão aceleração média da corrida (A, pela equação A = DV / DT) obtido a cada trecho de 20 m das avaliações pré e pós treinamento. Pode-se verificar a tendência de, em ambas as avaliações, a aceleração diminuir entre o início da prova e o fim dos 100 m rasos, atingindo valores negativos a partir dos 60 m. Valores negativos de aceleração estão relacionados à diminuição da velocidade da corrida, ou seja, até os 60 m, os participantes conseguiram aumentar a VM, embora, a cada trecho, com menores incrementos, e após os 60 m, verificou-se uma tendência de diminuição da VM.

Médias e desvios-padrão da A (m.(s-1)2) a cada 20 m da prova de 100 m, pré e pós-treinamento

 

20 m

40 m

60 m

80 m

100 m

Pré-treinamento

1,62 ± 0,22

0,48 ± 0,17

0,03 ± 0,12

-0,11 ± 0,12

-0,09 ± 0,16

Pós-treinamento

1,76 ± 0,23

0,49 ± 0,23

0,043 ± 0,19

-0,10 ± 0,12

-0,17 ± 0,12

    O ideal, em termos de performace, seria uma maior manutenção de valores positivos maiores de A ao longo da prova, e uma entrada mais tardia de valores negativos de A. Como valores positivos representam aumentos de velocidade, podemos visualizar que a velocidade aumentou até os 60 m, diminuindo após, resultado que confirmam o comportamento da VM.

    O gráfico apresenta a comparação entre os valores de A pré e pós-treinamento, ao longo de cada trecho de 20 m da prova de 100 m rasos. Os dados não foram considerados paramétricos (p < 0,05), a comparação estatística, então, foi realizada com o teste U de Mann-Whitnney que indicou haver diferenças, apenas, na aceleração no primeiro trecho da prova de 100 m entre os valores de pré e pós-teste.

Comparação entre os valores de A pré e pós-treinamento. A linha contínua indica o pré-treinamento, a linha pontilhada indica 

o pós-treinamento. O asterisco (*) indica a diferença estatística significativa no trecho entre os 0 e os 20 pré e pós-treinamento, p=0,008.

    Quanto a haver diferença significativa apenas nos primeiros 20 m entre os valores de A de pré e pós-treinamento, considerou-se que os participantes, após o treinamento, conseguiram atingir uma maior potência (provavelmente relacionada a melhora da força muscular) nos 20 m iniciais da prova, mas não conseguiram diferenciar os valores de A nos outros trechos da prova, resultado que deve estar relacionado ao pouco tempo de treinamento.

Índice médio de corrida

    A tabela 5 apresenta os resultados das médias e desvios-padrão do índice médio de corrida (IC, pela equação IC = CP * V) obtido a cada trecho de 20 m das avaliações pré e pós treinamento. Pode-se verificar a tendência de, em ambas as avaliações, o IC apresentar um aumento no início da corrida e, depois, uma manutenção e uma queda. A medida que o IC indica a relação entre o CP e a VM, os valores encontrados refletem o comportamento dessas 2 variáveis ao longo da corrida de 100.

Médias e desvios-padrão da IC (em m2.s-1) a cada 20 m da prova de 100 m, pré e pós-treinamento

 

20 m

40 m

60 m

80 m

100 m

Pré-treinamento

11,49 ± 2,13

16,53 ± 2,85

16,79 ± 3,20

15,41± 2,86

14,45 ± 2,70

Pós-treinamento

11,75 ± 1,65

16,88 ± 2,66

16,77 ± 3,08

15,84 ± 2,58

13,90 ± 2,13

    Como o IC reflete a eficiência mecânica do gesto, por ser o produto entre o CP e a VM, pode-se verificar uma tendência de aumento da eficiência até os 60 m, com posterior redução. Este aumento está relacionado tanto ao aumento de CP, quanto ao aumento de VM nos trechos citados.

    O gráfico apresenta a comparação entre os valores de IC pré e pós-treinamento, ao longo de cada trecho de 20 m da prova de 100 m rasos. Os dados foram considerados paramétricos (p > 0,05) e a comparação estatística entre cada trecho de pré e pós-treinamento não demonstrou diferenças significativas (p > 0,05) em todos os trecos analisados.

Comparação entre os valores de IC pré e pós-treinamento. A linha contínua indica o pré-treinamento, a linha pontilhada indica o pós-treinamento.

    O IC pode refletir tanto melhoras da condição técnica (pelo CP) quanto da condição fisiológica (pela FP) ao longo do treinamento. Neste estudo, pode-se verificar uma pequena tendência, em alguns trechos da prova (aos 20, 40 e 80 m) de maiores valores de IC no pós-treinamento, refletindo uma melhor adequação mecânica e energética nessas fases da corrida. Provavelmente, treinamento mais focalizado na técnica, com mais tempo, poderia incrementar de maneira significativa tanto o CP, quanto a FP em mais trechos da distância.

Tempo e velocidade média final

    A comparação entre as médias dos tempos finais (dados considerados paramétricos, p > 0,05) obtidos na primeira e na segunda avaliação estão apresentados no gráfico, que mostra uma diminuição do tempo final de prova no pós-treinamento em comparação ao pré-treinamento. Esta diminuição não foi estatisticamente significativa (p > 0,05)

Médias e desvios-padrão do tempo final, em s, (TMF) da prova no pré e no pós-treinamento.

    A pequena diferença encontrada entre o tempo médio final (TMF) de prova do pré (15,31 ± 1,21 s) e do pós-treinamento (14,83 ± 1,21 s) refletiu a melhoria de performance obtida com o treinamento aplicado, embora não tendo sido significativa, provavelmente relacionada ao pouco tempo de treinamento e às pequenas melhoras que se obtém nesses tipo de prova.

    A comparação entre os valores de velocidade média final (VMF) entre o pré e o pós treinamento está apresentada no gráfico. Os valores médio também foram considerados paramétricos (p > 0,05), mas não apresentaram diferenças significativas entre pré e pós-treinamento (p > 0,05), embora possa-se visualizar aumento da velocidade média no pós em relação ao pré-treinamento.

Médias e desvios-padrão da velocidade média final, em m.s-1, (VMF) da prova no pré e no pós-treinamento

    Tanto a diminuição do tempo final, quanto o aumento da velocidade média final, neste estudo, não foram estatisticamente significativos. Mas, em uma prova de 100 m rasos, qualquer ganho de tempo, seja 1 centésimo, embora não perceptível em termos estatísticos, pode representar diferentes colocações em uma mesma prova. Ou seja, nesses casos, embora o tratamento estatístico seja importante, como é performance, a redução do tempo médio em 0,48s e o aumento da velocidade média em 0,21 m.s-1 é um resultado ainda mais importante.

Conclusão

    Os objetivos desta pesquisa eram analisar a cinemática da prova de 100 m rasos de alunos/atletas, com os parâmetros comprimento de passo (CP), freqüência de passo (FP), velocidade média de corrida (VM), aceleração (A) e índice de corrida (IC) em dois momentos do período de treinamento, a fim de propiciar um diagnóstico mais efetivo e um treinamento mais eficiente. Pelos resultados encontrados, de maneira geral, manutenção do CP, aumento da FP e da VM, aumento e manutenção da A e manutenção do IC, pode-se concluir que o treinamento aplicado, embora em curto período (11 semanas) atingiu parcialmente seus resultados, já que não houve melhoras significativas do CP, índice muito relacionado à técnica da corrida.

    Fatores que poderiam ter influenciado esses resultados podem estar relacionados, também à fase maturacional dos participantes. Aumentos de estatura e massa, durante o período de treinamento, poderiam comprometer os resultados, mas as medidas de massa e estatura foram realizadas, apenas, no início do processo. São sugeridos estudos com maior número de participantes, maior tempo de aplicação do treinamento e com controle de variáveis antropométricas ao longo do período.

    Pesquisas assim podem ajudar o professor/treinador a conhecer as condições de desempenho em provas atléticas, com base em parâmetros biomecânicos que podem, também, refletir, as condições fisiológicas e técnicas dos alunos/atletas.

Referências

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  • VIEL, Eric. A marcha humana, a corrida e o salto, Biomecânica, investigações, normas e disfunções. São Paulo. Manole. 2001.

  • WILMORE, Jack H., COSTILL, David L. Fisiologia do Esporte e do Exercício. São Paulo. Editora Manole. Segunda edição. 2001.

  • TOURINHO, L. S. P. R. & TOURINHO F., H. Crianças, adolescentes e atividade física: aspectos maturacionais e funcionais. EF Artigos.

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