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A incidência de lesões no joelho em atletas de judô

La incidencia de lesiones en la rodilla en judocas

 

*Mestrando em Educação Física

Grupo de Estudos em Fisiologia, Saúde e Treinamento Desportivo - GEFIST

Laboratório de Estudo em Educação Física e Saúde - LEEFS

**Aluna do curso de Educação Física

***Doutor em Biologia Molecular pela Universidade de Campinas (UNICAMP)

Professor do Programa de Pós Graduação Stricto Sensu em Educação Física e Saúde

Grupo de Estudos em Fisiologia, Saúde e Treinamento Desportivo - GEFIST

Laboratório de Estudo em Educação Física e Saúde - LEEFS

Universidade Católica de Brasília - UCB

Rafael André de Araújo*

Luna Roberta de Queiroz Andrade**

Francisco José Andriotti Prada***

rafaelandre1@hotmail.com

(Brasil)

 

 

 

Resumo

          O judô é uma prática esportiva sistematizada por Jigoro Kano, em 1882, a partir de antigas técnicas de lutas e seus benefícios estendem-se pelas áreas afetiva, social, cognitiva e motora; contudo, há que se considerar a finalidade da prática, pois os benefícios existem, mas a prática esportiva de alto nível está diretamente relacionada ao elevado índice de incidência de lesões. Desta forma, objetivo desse estudo foi verificar a incidência de lesão de joelho em atletas de judô e analisar fatores associados à ocorrência. Tal estudo foi realizado com uma amostra de n=15 atletas de judô de ambos os sexos, com idade superior a 15 anos e com experiência de pelo menos uma competição. A pesquisa foi através de questionários aplicados para atletas do centro de treinamento Can Judo do C.E.M. Paulo Freire, Brasília/DF e da Academia Tatami, Belo Horizonte/MG. Os resultados deste estudo apresentaram características que influenciam a incidência de lesões e caracterizam o grupo de maior risco. Recomenda-se um estudo utilizando uma amostra maior a fim de evidenciar situações de risco visando alterações no comportamento dos atletas e no processo metodológico de forma profilática.

          Unitermos: Judô. Lesões. Atletas

 
http://www.efdeportes.com/ Revista Digital - Buenos Aires - Año 14 - Nº 134 - Julio de 2009

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Introdução

    O judô, que pode ser traduzido como “Caminho Suave”, é uma prática esportiva de origem japonesa, sistematizada por Jigoro Kano, em 1882, a partir de antigas técnicas de lutas que ele havia estudado e praticado (TEGNER, 1969 apud CHEREGUINI & TONELLO, 2008). É um esporte mundialmente difundido e praticado por mais de três milhões de judocas só no Brasil com grande adesão de púberes e pré-púberes (BARSOTTINI, GUIMARÃES e MORAIS, 2006; SANTOS, 2006) devido ao seu caráter de esporte-formação, já que possui um sistema moral que pode ser aplicado a todas as situações da vida (SANTOS, 2006) além de ser um rico instrumento pedagógico.

    No que remete aos benefícios do judô, Ruffoni e Beltrão (2008) afirmam que estes estendem-se pelas áreas afetiva, social, cognitiva e motora. Promovem o aperfeiçoamento de habilidades motoras gerais, tais como lateralidade, equilíbrio e flexibilidade; e o desenvolvimento de uma boa forma física, como melhoria de condicionamento cardiorrespiratório e ganho de força; que equiparam-se aos benefícios psico-sociais, como aquisição de habilidades de liderança, auto-estima, disciplina, socialização, entre outros. Mas todos esses fatores não isentam o praticante de risco de lesões (DI FIORI ,1999 apud FARINA e MANSOLDO, 2006); muito pelo contrário, o judô é apontado com destacado risco se comparado a diversas modalidades (PARKKARY et al., 2004; CARRAZO, 2005 apud BARSOTTINI, GUIMARÃES & MORAIS, 2006).

    Desta forma, há que se considerar a finalidade da prática, pois os benefícios existem, mas a prática esportiva de alto nível está diretamente relacionada ao elevado índice de incidência de lesões devido aos esforços físicos e psíquicos muito próximos aos limites fisiológicos; o que os expõe, conseqüentemente, a uma faixa de atividade potencialmente patológica pela exigência durante os treinos e a performance e os resultados durante as competições (CARAZZATO, 1993 apud SILVA et al., 2008). Contusões, entorses, luxações, fraturas, tendinites, distensões, rupturas de ligamentos entre outras são parte inerente do envolvimento com atividades físico-esportivas; contudo, apesar desta afirmação, a existência de detalhamentos sobre a situação sob as quais ocorrem as lesões e as variáveis que as influenciam ainda incita questionamentos (SILVA et al., 2008). O objetivo desse estudo foi verificar a incidência de lesão de joelho em atletas de judô e analisar os fatores associados à ocorrência.

Material e métodos

    Participarão desse estudo n=15 atletas de judô de ambos os sexos, escolhidos de maneira não aleatória, pois deveriam ter no mínimo quinze anos de idade e já terem participado de pelo menos uma competição oficial. Os registros foram feitos através de um questionário composto por quatorze questões, objetivas e subjetivas, divididas em quatro categorias: caracterização do judoca, tempo de prática, classificação e ocorrência de lesão e recuperação. Os dados foram coletados no centro de treinamento Can Judô no C.E.M. Paulo Freire, na cidade de Brasília-DF, aplicados pelo professor antes ou depois do treino. E na Academia Tatami, na cidade de Belo Horizonte-MG; .

Resultados

    Foram entrevistados 15 atletas de judô, sendo 73,3%, n=11 do sexo masculino e 26,7% n=4 do sexo feminino, essa diferença entre a proporção de homens e mulheres é citada por CARAZZATO, CABRITA e CASTROPIL (1996); dos entrevistados apenas 20% (3) não apresentaram nenhum tipo de lesão no joelho, 13,3% (2) de homens e 6,7% (1) de mulheres. Os atletas apresentaram uma faixa etária de 17 a 52 anos, tendo como média de idade 29,27 anos.

    Entre os que assinalaram como positiva a alternativa para ocorrência de lesão totalizaram 80% (12) dos entrevistados, sendo 60% (9) do sexo masculino e 20% (3) do sexo feminino. Segundo ALVES et al., (1999), afirma que a taxa de lesões entre judocas do sexo feminino são mais altas que nas demais modalidades e SANTOS, DUARTE e GALLI (2001), afirmam que é grande a propensão a lesões entre as mulheres, principalmente, em esportes de contato; contudo 81,8% (9) dos entrevistados do sexo masculino apresentaram algum tipo de lesão no joelho, em contrapartida, o percentual feminino foi de 75% (3), o que contradiz as estas afirmações.

    Todos os atletas entrevistados competem na classe sênior ou adulto; contudo, no que remete às categorias, 6,7% (1) dos entrevistados é da ligeiro, 20% (3) da meio-leve, 6,7% da leve, 13,3% (2) da meio-médio, 33,3% (5) da médio, 13,3% (2) da meio-pesado, 6,7% (1) da pesado. É possível destacar a predominância da categoria de peso médio. Carazzato, Cabrita e Castopril (1996), afirmam a ocorrência de uma proporção direta entre o número de lesões/atleta e categoria/peso; contudo, difere dos dados por ele encontrados, onde a maior incidência de lesões ocorria entre os atletas da categoria meio-médio.

    Ao relacionar o tempo de prática, a experiência em competições e a ocorrência da primeira lesão, encontramos que 13,3% (2) dos entrevistados praticam judô há no máximo dois anos, 13,3% (2) de três a cinco anos, 20% (3) de seis a dez anos, 13,3% (3) de onze a quinze anos, 6,7% (1) de dezesseis a vinte anos e 33,3% (5) a mais de vinte anos. A partir destes dados o nível de experiência dos atletas torna-se evidente, elevado, já que a maioria pratica a modalidade há no mínimo onze anos. A experiência em competições apresenta os seguintes dados; 26,7% (4) até dois anos de experiência, 13,3% (2) de três a cinco anos, 20% (3) de seis a dez anos, 6,7% (1) de onze a cinco anos e 33,3% (5) com mais de vinte anos de experiência em competições. Este dado apresenta uma relação proporcional ao tempo de prática já que os maiores percentuais foram apresentados, tanto neste dado quanto no anterior, para um período superior a vinte anos. Já na ocorrência da primeira lesão encontramos que 33,3% (4) dos entrevistados sofreram a primeira lesão com até dois anos de prática, competitiva ou não, 41,6% (5) de três a cinco anos, 8,3% (1) de seis a dez anos, e 16,7% (2) acima de vinte anos. Aqui, percebe-se que a primeira lesão ocorre até os cinco primeiros anos de prática; isto pode ser explicado pela baixa faixa etária que os atletas ingressam no judô e o curto período de tempo que estes dispõem até que se iniciem nas competições.

    Neste último dado, é conveniente informar que a parcela dos entrevistados considerada na questão é de 80% (12) do total, já que apenas estes apresentaram alguma lesão. Desta forma, para as interpretações que se seguem, somente estes serão considerados.

    A situação em que as lesões ocorreram também é um dado relevante, já que 66,7% (8) sofreram lesões durante o treino, 8,3% (1) durante a competição, 16,7% (2) no treino e em outras situações (bicicleta e futebol), 8,3% (1) no treino e durante alguma competição; estes últimos dados para quem apresenta mais de uma lesão. Desta forma, percebe-se que a maior incidência de lesões ocorre durante os treinos; assim, permite-nos especular sobre alterações no processo metodológico para evitar que isso ocorra a fim de prolongar o período de atuação competitiva de um atleta ou mesmo aumentar seu rendimento eliminando os períodos de pausa para reabilitação.

    Neste sentido houve a consideração em analisar quais as lesões mais freqüentes, o procedimento mais utilizado e o período de recuperação exigido.

    Entre as lesões citadas às tendinites e torções apresentam 25% (3) de ocorrência para cada uma; dores articulares, comprometimento de ligamentos e luxações tiveram uma incidência de 16,7% (2) cada e 8,3% (1) de casos de condromalácia patelar.

    Entre os procedimentos de reabilitação adotados, em 91,7% (11) dos casos foi recomendado repouso com aplicação de compressas, 33,3% (4) imobilização com tala, 16,7 (2) imobilização com gesso, 83,3% (10) fisioterapia, e 16,6% (2) algum tipo de procedimento cirúrgico. Considerando a utilização de métodos concomitantes, os procedimentos mais empregados são a aplicação de compressas e repouso, seguido da fisioterapia; a partir desse ponto, a consideração sobre o tempo de afastamento do atleta apresenta-se como fator de extrema relevância a fim de relacionar a freqüência de interrupções por motivo de lesão e o período de afastamento. Neste sentido é possível afirmar que 41,7% (5) dos atletas sofreram afastamentos de até duas semanas para recuperação, 50% (6) de duas a oito semanas, 33,3% (4) por um período superior a dois meses.

    Ao interpretar estes dados percebemos que mesmo devido à “simplicidade” dos procedimentos de reabilitação adotados, o período de afastamento dos atletas ainda é longo; contudo, os procedimentos cirúrgicos, aceitos como os mais complexos, são exceções nos tratamentos de lesões em judocas (CARAZZATO, CABRITA e CASTROPIL, 1996).

    Por fim, o cumprimento das recomendações de reabilitação é outro fator que apresentam grande influência na reincidência de lesões, já que 75% (9) dos entrevistados afirmam nem sempre cumpri-las, enquanto 25% (3) cumprem toda a prescrição. Desta forma, a displicência apresentada pelos judocas com relação ao processo de reabilitação pode ser um dos fatores que influenciam a reincidência de lesões nos mesmos; este fato é parcialmente confirmado pelo elevado percentual de lesões e reincidências encontrado entre os atletas.

Conclusão

    Neste estudo podemos constatar a preponderância de lesões em atletas do sexo masculino, mesmo que isso ocorra devido à grande diferença numérica deste sexo; competidores da categoria de peso médio e com larga experiência na prática do judô e em competições desta modalidade. Dentre as lesões, a maior incidência ocorre durante os treinos e é de tendinites e torções adotando o repouso com aplicação de compressas e a fisioterapia com maior freqüência; já o período de recuperação dura em média de duas a oito semanas, que é um período longo para atletas competidores. Isto nos leva a outra constatação; o não cumprimento ou cumprimento parcial da prescrição de reabilitação para a maioria dos atletas, o que pode ser um fator determinante para a reincidência. Desta forma, foi possível apresentar características que influenciam a incidência de lesões e caracterizar o grupo de maior risco; assim pode-se sugerir que outros estudos sejam realizados utilizando uma amostra maior a fim de evidenciar situações de maior risco para promover alterações de caráter profilático no comportamento dos atletas perante as lesões e alterações no processo metodológico de ensino do judô.

Referências bibliográficas

  • ALVES, Álvaro Luiz Lage et AL. As ações de saúde no judô: Atuação do internato metropolitano da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais no projeto Judô Comunitário – Belo Horizonte, MG. Revista da Universidade de Alfenas, Alfenas, 1999, p. 47-50.

  • BARSOTTINI, Daniel; GUIMARÃES, Anderson Eduardo; MORAIS, Paulo Renato de. Relação entre técnicas e lesões em praticantes de judô. Revista Brasileira de Medicina do Esporte. Niterói, v. 12, Nº 1, jan/fev 2006.

  • CARAZZATO, João Gilberto; CABRITA, Henrique; CASTROPIL, Wagner. Repercussão no aparelho locomotor da prática do judô de alto nível. Revista Brasileira de Ortopedia. V.31, Nº 12, dez 1996.

  • CHEREGUINI, Paulo Augusto Costa. Análise cinesiológica do golpe seoi-nague no judô: risco de lesão para a articulação da coluna vertebral. EFDeportes.com, Revista Digital. Buenos Aires, Ano 12, No 118, mar 2008. http://www.efdeportes.com/efd118/judo-riscos-de-lesao.htm

  • FARINA, Elaine Cristina Rodrigues; MANSOLDO, Antônio Carlos. Incidência de lesões em atletas federadas nas categorias de base do voleibol no Estado de São Paulo. EFDeportes.com, Revista Digital. Buenos Aires, Ano 11, Nº 101, out 2006. http://www.efdeportes.com/efd101/volei.htm

  • RUFFONI, Ricardo; BELTRÃO, Fernanda. Análise metodológica na prática do judô. Disponível em: http://equiperuffoni.com.br/artigos/A050215.doc. Acesso em: 2 jun. 2008.

  • SANTOS, Saray Giovana dos. Judô: onde está o caminho suave? Revista Brasileira de Cineantropometria e Desempenho Humano, 2008, v. 8, Nº 1, p. 114-119.

  • SANTOS, Saray Giovana dos; DUARTE, Maria de Fátima da Silva; GALLI, Mauro Luciano. Estudo de algumas variáveis físicas como fatores de influência nas lesões em judocas. Revista Brasileira de Cineantropometria e Desempenho Humano, 2001, v. 3, Nº 1, p. 42-54.

  • SILVA, Diego Augusto Santos; SOUTO, Michell Dean; OLIVEIRA, Antônio César Cabral de. Lesões em atletas profissionais de futebol e fatores associados. EFDeportes.com, Revista Digital. Buenos Aires, Ano 13, Nº 121, jun 2008. http://www.efdeportes.com/efd121/lesoes-em-atletas-profissionais-de-futebol.htm

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