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Detecção de talentos no judô: a atuação dos 'senseis'

   
*Especialista em Ciências do Treinamento
Desportivo de Alto Nível, Professor da SEE-RJ.
**Mestrando, Pesquisador do NECO-UFRuralRJ.
***Especialista em Ciências do Treinamento
Desportivo de Alto Nível, Professor da UFRuralRJ.
(Brasil)
 
 
Eduardo Dias Bezerra*
edudibe@bol.com.br  
Israel Souza**
isra.sza@gmail.com  
Vladimir Schuindt da Silva***
vladimirschuindt@bol.com.br
 

 

 

 

 
Resumo
     Este trabalho tem como foco principal a detecção de talentos no judô no âmbito das academias de artes marciais. O objetivo principal é desvendar quais os métodos utilizados pelos professores de judô (Senseis) na detecção e descoberta de talentos esportivos na área, bem como verificar se existe diferença na forma como Senseis graduados e não-graduados em Educação física detectam talentos no judô. A metodologia utilizada neste trabalho foi a pesquisa bibliográfica e um estudo exploratório realizado com 20 professores de judô da região do Grande Rio que participaram espontaneamente de uma entrevista. Os resultados indicam que os métodos de detecção de talentos utilizados pelos Senseis se concentram na avaliação do desempenho dos atletas nos treinos e nas competições, e ainda em aspectos técnico-táticos.
    Unitermos: Detecção de Talentos, Judô, Treinamento Esportivo.
 
Abstract
     This paper has for objective the detection of talents in the judo in the ambit of the academies of martial arts. The objective is to unveil which the methods used by the judo teachers (Senseis) in the detection and discovery of sporting talents in the area, as well as to verify difference exists in the form like Senseis graduate and no-graduated in physical Education they detect talents in the judo. The methodology used in this work went to bibliographical research and an exploratory study accomplished with 20 teachers of judo of the area of Grande Rio that participated spontaneously of an interview. The results indicate that the methods of detection of talents used by Senseis focus in the athletes' observation in the trainings and in the competitions, and still in technician-tactical aspects.
    Keywords: Detection of Talents. Judo. Sporting training.

Excerto da monografia de Especialização em Ciências do Treinamento Desportivo de Alto Nível (UFRuralRJ).
 

 
http://www.efdeportes.com/ Revista Digital - Buenos Aires - Año 13 - N° 122 - Julio de 2008

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Introdução

    O Judô é um estilo de luta desenvolvido por Jigoro Kano no final do século dezenove baseado nos antigos estilos do Jiu-jitsu japonês. O seu sucesso foi tão grande que em pouco tempo acabou por suplantar o Jiu-jitsu tradicional como "esporte nacional".

    O Judô possui como característica básica uma variedade muito grande de técnicas que tem como objetivo principal desequilibrar o oponente mantendo o seu próprio equilíbrio (HONDA, 1991 citado por SACCO e colaboradores, 2005). No Brasil, o sucesso de atletas em competições internacionais e nas Olimpíadas tem incentivado a adesão a esta modalidade por parte de crianças e jovens como forma de iniciação esportiva (FRAGA, 2002).

    Assim o presente estudo busca compreender o Judô sob uma ótica da detecção de talentos esportivos da modalidade. Talento esportivo é um termo utilizado com o objetivo de "caracterizar indivíduos que demonstram elevadas capacidades biológicas e psicológicas, que dependendo do meio social no qual vivem, poderão apresentar alto desempenho esportivo" (LANARO FILHO & BÖHME, 2001, p. 155).

    Especificamente procura-se desvendar como os professores de judô (Senseis) detectam talentos esportivos em sua prática pedagógica. As questões suscitadas são: Quais os procedimentos mais utilizados para selecionar atletas Talentosos no Judô? Quais os indicadores de seleção mais valorizados pelos Senseis, na seleção de atletas no Judô?

    Esta busca justifica-se uma vez que a detecção de talentos esportivos tem sido uma constante nos trabalhos científicos bem como parte de iniciativa de países e organizações que muito tem se beneficiado do sucesso dos atletas de alto nível, seja como marketing comercial ou ideológico. Assim, no ano 2000, o Journal of Sports Sciences publicou um número especial sobre a Identificação e o desenvolvimento de Talentos no Futebol; ao mesmo tempo, na Alemanha, a Universidade de Potsdam apresentou o estado da arte, no que se refere a talento esportivo (KISS e colaboradores, 2004).

    Em geral, a detecção de talentos envida esforços para separar a Linha de Massificação esportiva da Linha de Competição esportiva, tendo como benefícios o aumento do número de praticantes no alto nível, evitar o desperdício de tempo do treinador, a criação de uma seleção qualificada, maior chance de retorno aos patrocinadores entre outros (JOÃO, FERNANDES FILHO & DANTAS, 1999).

    Desta forma o presente estudo pretende contribuir como referencial teórico ao expor alguns dados bibliográficos de relevância sobre a detecção de talentos no Judô, bem como identificar a prática de alguns Senseis na detecção desses talentos na sua prática pedagógica e treinamento esportivo.


Detecção de talentos

    As formas de detecção de talentos são inúmeras, embora tenham pontos em comum, elas variam de acordo com a modalidade esportiva em questão.

    Deste modo, neste capítulo será apresentado o(s) conceito(s) de talento esportivo, e as teorias e os métodos mais utilizados no mundo das ciências do esporte para a detecção de talentos esportivos.


    1. O que é um Talento Esportivo?

    Sobre o conceito de talento, Gaya e colaboradores (2005) citam o trabalho de Csikszentmihaly et al. (1972) que:

"afirma que a utilização da expressão talento no sentido de aptidão inata ou adquirida provavelmente tenha origem bíblica decorrente da parábola dos talentos (Mateus 25).
Decorrente de sua evolução semântica a expressão talento consagrou-se com o significado de algo raro e valioso no domínio intelectual ou artístico, ou, ainda, como aptidão natural ou habilidade adquirida
(Maia, 1996)."

    De acordo com Lanaro Filho & Böhme (2001, p. 155):

"o termo 'talento esportivo' é empregado para caracterizar indivíduos que demonstram elevadas capacidades biológicas e psicológicas, que dependendo do meio social no qual vivem, poderão apresentar alto desempenho esportivo, dependendo para isso de condições ambientais adequadas".

    Para Borms (1997 citado por GAYA e colaboradores, 2005), um talento no âmbito esportivo pode ser definido como um indivíduo que,

"num determinado estágio de desenvolvimento, dispõe de certas características somáticas, funcionais, psicológicas e de envolvimento social que o capacita, com grande probabilidade de acerto, para altas performances em determinadas disciplinas esportivas. Portanto, pode-se identificar um talento esportivo como um indivíduo: (a) capaz de apresentar desempenho superior num conjunto de habilidades e capacidades; (b) capaz de manter uma elevada estabilidade nestas habilidades e capacidades excepcionais".

    Já Fernandes Filho & Pinheiro (2005) utilizam o conceito de talento esportivo contido em Carl (1988), citado por Böhme (1994), para quem o talento esportivo

"é a denominação dada a uma pessoa, na qual aceita-se com base em seu comportamento/atitudes ou com fundamento em suas condições de comportamento herdadas e adquiridas, que possui uma aptidão especial ou uma grande aptidão para o desempenho esportivo. Onde este pode ser classificado de acordo com a categoria (geral - refere-se aos aspectos da aptidão física do indivíduo e uma boa capacidade de aprendizagem motora; específica - tem capacidade e dom especiais para determinada(s) situação(ões) de exigências esportivas ou tipo(s) de esporte.) e nível de desempenho esportivo considerados (que depende da população na qual o talento esportivo faz parte e em relação a situação de comprovação com a qual o seu desempenho é avaliado e comparado)".

    A detecção de talentos está estreitamente relacionada ao desporto de alto nível. Tal fato é corroborado por Moskotova (1998 citado por LANARO FILHO & BÖHME, 2001), que afirma que em uma determinada modalidade esportiva o alto desempenho atingido por um atleta torna-se dependente de uma variedade de características genéticas de ordem morfológica e metabólica, além de aspectos psicológicos, cognitivos e sociais. Ressalta também que o progresso dos recordes não se deve apenas a um genótipo fenomenal do atleta, mas também depende do aperfeiçoamento biomecânico dos movimentos, da metodologia de treinamento, bem como das altas capacidades de reserva do aparelho locomotor de cada indivíduo.

    Nesse ínterim, faz-se necessário a introdução de crianças à prática desportiva, com o objetivo de experimentar atividades motoras generalizadas das diversas modalidades esportivas. Conseqüentemente, a partir dessas experiências, das habilidades adquiridas e de metodologias científicas adequadas, pode-se se desenvolver um processo de detecção de talentos específicos para as modalidades e especialidades desportivas (LANARO FILHO & BÖHME, 2001).

    Segundo Campbell (1998) citado por Lanaro Filho & Böhme (2001), os grandes atletas fazem com que as tarefas complexas pareçam simples, parecem ter mais tempo para decidir, e, em algumas situações, parecem apenas expressar a sua habilidade natural. Essa naturalidade diante de tarefas complexas depende de uma inter-relação de aptidões somáticas e psíquicas.

    Como resultado da detecção de talentos torna-se necessário realizar uma separação da Linha de Massificação esportiva da Linha de Competição esportiva. A Linha de Massificação esportiva é onde encontramos pessoas cujo propósito é praticar esporte para usufruir os benefícios que este pode proporcionar à saúde, ou para melhoria das capacidades físicas, para socialização, por lazer, entre outros, fazendo do esporte uma ferramenta para alcançá-los. Já na Linha de Competição esportiva é preciso que o atleta, antes de tudo, reúna as características físicas e psicológicas específicas exigidas pela modalidade e seja considerado um "talento esportivo" (JOÃO, FERNANDES FILHO & DANTAS, 1999).

    A detecção de talentos esportivos traz inúmeros benefícios. Alguns dos benefícios mais diretos podem ser vistos no quadro abaixo:

    No mesmo sentido, Fernandes Filho & Pinheiro (2005, p. 2) ressaltam que

"A necessidade de não se perder dinheiro e tempo com "atletas", que não têm a mínima condição de entrar um dia para o seleto grupo, de alto nível, é muito grande. Tanto em relação às equipes, como em relação ao próprio atleta, pois este último terá uma perda em vários sentidos, como: financeiramente; tempo gasto (poderia estar se empenhando mais em outras atividades como o estudo, a vida profissional ou outro tipo de lazer); e o principal que é a parte psicológica, onde ele poderá ficar decepcionado, por não conseguir alcançar seu objetivo, podendo causar uma frustração tão grande, que nem sempre ele consegue recuperar".

    Por estes, entre outros, motivos que o estabelecimento de mecanismos objetivos e imparciais no processo de seleção de atletas, como também os fatores determinantes do sucesso esportivo em competições é uma constante preocupação, dado as implicações deste aspecto no rendimento esportivo futuro (BEDOYA, 1998 citado por RAMOS & TAVARES, 2000).

    Deste modo, Gaya (1996) citado por Ramos & Tavares (2000) afirma que investigadores no Brasil têm intensificado suas pesquisas, como o objetivo de estabelecer parâmetros cientificamente comprovados que permitam referenciar um processo de detecção e seleção de possíveis talentos esportivos.

    Segundo Fernandes Filho & Pinheiro (2005, p. 4), "o atleta talentoso não surge do nada". No entanto, também não pode ser detectado com base no desempenho demonstrado em um único teste ou mensuração, mas é parte de um processo, "que se torna aparente durante as etapas de treinamento, testagem e mensuração sistemáticas, concomitantemente com uma participação real em competições esportivas" (HEBBELINCK, 1989 citado por LANARO FILHO & BÖHME, 2001, p. 156-7).

    Diante do exposto vale ressaltar que um talento depende tanto das características genéticas (hereditariedade, genótipo), como de um treinamento adequado que propiciará o desenvolvimento de todas as potencialidades Desse talento.


    2. Teorias e métodos na detecção de talentos

    Não existe um modelo ou teoria perfeita, na qual se poderia apostar 100% na detecção de talentos esportivos. Hommel, Schwanbeck e Steinbach (citados por WEINECK, 1999), corroboram esta afirmação ao comentar que a ciência dos esportes não poderia apresentar nenhum critério que possibilitasse o estabelecimento de uma bateria de testes que permite a determinação exata do perfil para o desenvolvimento desportivo.

    No entanto, faz-se mister desenvolver técnicas que, embora não cheguem aos 100% de certeza, forneçam indícios da presença de um talento esportivo.

    Assim, foram desenvolvidos métodos e teorias que pudessem predizer se um indivíduo é ou não candidato a talento. Todas as teorias possuem um cunho estatístico fortíssimo (mostrando a importância dessa disciplina na área das ciências do esporte), uma vez que buscam encontrar parâmetros de comparação, identificar indivíduos acima da normalidade, ou características fisiológicas que diferenciem significativamente um indivíduo do outro.

    Três estratégias de detecção de talentos serão abordadas neste tópico:

  • O Processo Genotípico;

  • A Cineantropometria;

  • A Estratégia Z.


    2.1. O processo genotípico

    Para Fernandes Filho & Pinheiro (2005) o direcionamento de atletas ao esporte ideal, principalmente os talentos, deve ser realizado mediante a análise das características genética desse indivíduo, para que seja eliminado o maior número de variáveis possíveis, e, assim, os erros desse direcionamento sejam menores.

    Desse modo, a maior parte das características morfo-funcionais, neurodinâmicas, psicodinâmicas e metabólicas, poderiam servir como pontos de referência para seleção genética (MOSKATOVA, 1998, citado por FERNANDES FILHO & PINHEIRO, 2005).

    Ainda segundo Moskotova (1998), citado por Lanaro Filho & Böhme (2001, p. 155),

"acredita-se que haja muitas crianças e adolescentes desprovidos da herança genética que são submetidas a árduos treinamentos, esperando-se que atinjam um grande desempenho, e quando percebe-se que seu futuro esportivo não é tão promissor já se passaram alguns anos onde perdeu-se muito tempo e trabalho tentando realizar o impossível, além de possíveis prejuízos de ordem física e psicológica que o treinamento sistematizado e intensivo pode trazer àqueles que não possuem o menor potencial para se tornarem grandes atletas".

    No processo genotípico dois aspectos se destacam: a Hereditariedade e as Impressões Digitais (Dermatóglifos). As características de cada uma podem ser observadas no quadro abaixo:


    2.2. A cineantropometria

    Segundo Carnaval (1998) e Bouzas & Giannichi (1996) o objetivo das medidas e avaliações em cineantropometria são:

  • Diagnosticar;

  • Classificar os Indivíduos;

  • Selecionar os indivíduos;

  • Manter Padrões;

  • Motivar;

  • Determinar o progresso do indivíduo;

  • Desenvolver diretrizes para a Pesquisa.

    Massa e colaboradores (2003) citam diversos autores que encontraram na aplicação da cineantropometria um caminho para uma técnica fundamentada de acompanhamento das variáveis relevantes para a prática de determinada modalidade esportiva.

"Dessa maneira, por meio das técnicas cineantropométricas, é possível estabelecer critérios em relação a variáveis morfológicas e de desempenho motor nas diferentes fases do crescimento e desenvolvimento dos atletas (HEBBELINCK, 1989; MATSUDO, 1996), trazendo benefícios para os profissionais que atuam com o esporte de alto rendimento, que teriam dados concretos e fundamentados auxiliando os processos de promoção de talentos (MASSA e colaboradores, 2003, p. 102)".

    Cada esporte possui características cineantropométricas que lhe são peculiares. Assim, de acordo com as especificidades destacadas pela literatura em relação à modalidade esportiva em questão e por meio da divulgação de resultados contemporâneos o profissional de Educação Física e Esporte, em relação aos processos de detecção, seleção e promoção de talentos, pode dispor de um referencial teórico vastíssimo que o auxiliaram na sua prática.


    2.3. A estratégia Z

    A Estratégia foi desenvolvida por Matsudo (1996, citado por MASSA e colaboradores, 1999) no âmbito do CELAFISCS, como uma proposta para a identificação de talentos esportivos a partir dos resultados do padrão de referência de aptidão física populacional e de equipes de alto nível competitivo. Esse instrumento permite diagnosticar o perfil de aptidão física e determinar, em termos percentuais, o quanto um determinado indivíduo se aproxima ou se afasta da média populacional. A estratégia- Z pode ser considerada um instrumento de fácil aplicabilidade e baixo custo, podendo ser utilizada em larga escala.

    O Z é calculado com a utilização d fórmula a seguir (MATSUDO & MATSUDO, 1997 citado por FRANCHINI, 2001):

    Onde: x = resultado do indivíduo em uma variável; µ = média do grupo; sd = desvio padrão da média do grupo.

    Assim teríamos:

    Para Massa e colaboradores (1999, p. 132),

"a utilização de escores padronizados nos processos de promoção de talentos esportivos parece ser um passo importante frente a subjetividade ainda presente nesses processos, porém a busca de análises mais sofisticadas se faz desejável para que se possa caminhar em direção a uma técnica que permita abordar as relações entre as variáveis e a importância das mesmas nos diferentes períodos que envolvem o treinamento a longo prazo".


    3. Compreensão holística

    De acordo com Matsudo (1996) citado por por Lanaro Filho & Böhme (2001, p. 156)

"as dificuldades encontradas nas questões do talento esportivo, quase sempre estão relacionadas à falta de conhecimento e aceitação pelos técnicos esportivos, das pesquisas e metodologias desenvolvidas pelos teóricos, com o intuito de auxiliar no diagnóstico e predição do desempenho de atletas."

"De outro lado, muitos pesquisadores possuem um profundo conhecimento teórico das ciências do esporte, mas não possuem qualquer experiência no desenvolvimento e aplicação prática de programas de identificação e desenvolvimento de talentos. Torna-se importante a interação entre esses profissionais, para que o processo da teoria aplicada ao campo prático seja possível, mesmo porque os conhecimentos adquiridos tanto pelo técnico como pelo pesquisador são importantes e se complementam para que o objetivo seja alcançado"
.

    Neste ínterim, Massa e colaboradores (2003. p. 102) afirmam que

"Na prática, a seleção de talentos tem sido realizada com base nas experiências pessoais de cada treinador, em que, por vezes, apenas o "olhar" desse especialista acaba sendo a única estratégia utilizada para diagnosticar, em idade precoce, toda a complexidade de elementos determinantes do desempenho específico de uma modalidade que podem ser projetados na idade adulta e, em conseqüência, determinar o alto nível de um indivíduo."

"Nesse sentido, admitir que um único "olhar" pode ser considerado suficiente para a predição do desempenho e de variáveis relacionadas ao crescimento, desenvolvimento, maturação e possíveis influências do treinamento sobre esses elementos, parece ser uma manobra, no mínimo, muito arriscada para um processo que pode levar até oito, dez ou mais anos de treinamento antes do surgimento dos melhores resultados
(MASSA e BÖHME, 1997, 1998; MASSA, 1999)."

"Assim, embora experiência e intuição sejam valores imprescindíveis no contexto prático dos processos de detecção, seleção e promoção de talentos, não se pode deixar de agregar a esses valores a sustentação inerente aos resultados e interpretações das pesquisas que têm contribuído para a geração e difusão dos conhecimentos relacionados ao desenvolvimento do esporte de alto rendimento (MASSA, 1999)".

    Pesquisadores e treinadores devem ter em mente que o processo de detecção de talentos envolve diversas variáveis, e, como foi citado anteriormente, apenas um teste não seria capaz de dar conta dessa multiplicidade de fatores. No quadro abaixo são apresentados alguns desses fatores.

    A detecção de talentos deve ser uma preocupação de técnicos, pesquisadores, como também de instituições esportivas (Confederações, federações, clubes, entre outros) e do Governo Federal (na figura do Ministério dos Esportes). Devem ser planejados e elaborados meios para que talentos não sejam desperdiçados. Não basta apenas criar um grande centro de treinamento num dos estados da federação, sem que haja uma massificação do esporte nos outros estados, como também meios para detecção de talentos e centro de treinamento intermediário para a preparação destes atletas.

    Trata-se da compreensão de que a detecção e a seleção de talentos é um processo holístico, como Kiss e colaboradores (2004, p.92) representam muito bem na figura abaixo:

    O Brasil, segundo Silva (2005, p.58), "por ser um país continental, com uma variedade genética exuberante, merece estudos aprofundados". Ainda segundo o mesmo autor, o senso comum ainda tem muita força no desporto brasileiro, no entanto, o Ministério dos Esportes tem desenvolvido programas junto às universidades brasileiras, conhecidos como Rede CENESP: Brasília (UnB); Minas Gerais (UFMG); Paraná (UEL); Pernambuco (UPE); Rio Grande do Sul (UFRGS, UFSM); Santa Catarina (UDESP); e São Paulo (USP, UNIFESP).


A detecção de talentos no judô

    De acordo com Franchini (2001, p. 219), o Judô possui algumas características que devem ser observados no processo de detecção e promoção de talentos:

  1. A divisão das categorias por peso faz com as características dos atletas sejam diferentes em cada uma delas;

  2. Embora exista a necessidade de avaliar a condição física dos indivíduos, os aspectos técnico-táticos deverão fazer parte de uma avaliação após um período de aprendizagem da modalidade;

  3. Os aspectos psicológicos devem ser considerados, tanto em relação a aderência ao treinamento como para enfrentar a situação competitiva.

    Com respeito aos testes e as análise, Franchini (2001) recomenda que sejam feitos apenas em judocas com idade superior aos 15 anos e participante de competições oficiais, pois, de acordo com o mesmo autor, as variáveis anaeróbia e força começam a ter um grande desenvolvimento a partir dessa faixa etária, devido a maturação sexual.

    Franchini (2001) sugere uma série de testes, gerais e específicos, no processo de detecção e promoção de talentos no judô. Seguindo sempre os seguintes critérios (p. 183):

  1. Níveis aceitáveis de objetividade, fidedignidade e validade;

  2. Facilidade de aplicação e economia.

    Os testes utilizados por Franchini são apresentados no quadro abaixo:

    Como instrumento de análise Franchini (2001) sugere a estratégia Z do CELAFISCS, que já foi descrito anteriormente, sendo que nas variáveis dobras cutâneas, endomorfia e o índice proposto por Sterkowics (Special Judo Fitness Test) um Z negativo indicaria um alto potencial para a modalidade. Nas outras variáveis, quanto maior o Z maior o potencial.

    Com a utilização da estratégia Z duas ações deviriam ser tomadas (FRANCHINI, 2001, p. 220 e 221):

  1. Avaliar a seleção brasileira de judô e judocas adultos de níveis competitivos inferiores, verificar em quais variáveis os atletas da seleção são diferentes dos outros judocas e assumir que os judocas mais jovens que apresentem superioridade nessas variáveis, em relação ao grupo de sua idade, são possíveis talentos nessa modalidade;

  2. Assumir que os atletas com Z maior que 2 nas diferentes variáveis são talentos em potencial.


    1. Casos de iniciativas de detecção de talentos no judô

    Franchini (2001) cita dois programas formais envolvidos com a detecção e a promoção de talento no Judô:

  1. O Projeto Futuro, em São Paulo;

  2. O Projeto Mato Grosso do Sul Olímpico.

    Segundo o mesmo autor, trabalhos realizados em academias e clubes têm alcançado bons resultados:

  1. Associação de Judô Vila Sônia, de São Paulo;

  2. SOGIPA, de Porto Alegre.

    Como citado anteriormente, a massificação esportiva é essencial para o desenvolvimento do esporte, no entanto os programas de detecção e promoção de talentos são primordiais para o desenvolvimento do esporte em alto nível.

    Não bastam atitudes isoladas. Governo, Universidades, Federações, clubes e professores (Senseis) devem estar envolvidos mais dinamicamente na detecção e promoção de talentos.


Material e métodos

    Participaram do presente estudo 20 professores de Judô (Senseis), da região do Grande Rio, com média de 36,15 anos (variando de 25 a 50 anos). Destes, 12 eram professores de Judô sem formação em educação física, e 8 eram professores de Judô e formados em Educação Física. Todos os professores tinham ao menos um atleta competindo em torneios oficiais.

    Os professores participaram voluntariamente da pesquisa que consistia em responder um questionário (Anexo 1) contendo dados pessoais e uma única pergunta.

    "Levando-se em conta o desempenho dos atletas nos diversos aspectos que envolvem o treinamento de Judô (treinos, competições, testes e avaliações), quais fatores indicam que um determinado atleta é um Talento esportivo no judô?"

    O questionário foi construído como intuito de agrupar as respostas em 3 categorias :

  • Desempenho nos Treinos (Técnico/Tático, Físico, Psicológico);

  • Desempenho em Competições (Técnico/Tático, Físico, Psicológico);

  • Desempenho em Testes e Avaliações (Técnico/Tático, Físico geral, Físico específico).

    O questionário foi entregue no local das aulas ministradas pelos professores, sendo pedido o seu preenchimento imediato, no intervalo das mesmas.

    Os dados obtidos forma tratados de acordo com a técnica de Análise de Conteúdo, e posteriormente comparados com a utilização de técnicas estatísticas (análise descritiva e teste do qui-quadrado). Foi utilizado o Pacote estatístico SPSS 13.0.


Resultados e discussão

    A análise dos dados foi dividida em duas etapas: Na primeira buscou-se a compreensão das categorias levando-se em conta a amostra total, neste caso devemos levar em consideração que o número de itens citados podem superar o número de entrevistados, uma vez que o mesmo entrevistado pode citar, por exemplo, diversos métodos de identificação no quesito Físico. Num segundo momento procurou-se comparar a perspectiva dos professores de Judô graduados e não graduados em Educação Física.

    Nas análises realizadas foram consideradas as opiniões emitidas e não o número de indivíduos.


    1. Resultados considerando a amostra total

    Na análise da primeira categoria - Desempenho nos Treinos (Técnico/Tático, Físico, Psicológico) - considerando a amostra total, obteve-se os seguintes resultados:

    Os dados demonstram o predomínio do desempenho Tático-Técnico e Físico como fatores determinantes na detecção de talentos segundo a visão dos professores de judô.

    Na análise da segunda categoria - Desempenho em Competições (Técnico/Tático, Físico, Psicológico) - considerando a amostra total, obteve-se os seguintes resultados:

    Mais uma vez os dados demonstram o predomínio do desempenho Tático-Técnico e Físico como fatores determinantes na detecção de talentos segundo a visão dos professores de judô.

    Na análise da Terceira categoria - Desempenho em Testes e Avaliações (Técnico/Tático, Físico geral, Físico específico) - considerando a amostra total, obteve-se os seguintes resultados:

    Nesta categoria os dados revelam o predomínio dos testes Técnico-Táticos na indicação de um talento. Vale ressaltar a baixa freqüência da Avaliação Física específica e ausência da Avaliação física geral.


    2. Comparação dos Professores Graduados e não Graduados em Educação Física

    A comparação da perspectiva de detecção de talentos de professores de judô graduados e não graduados em Educação Física, na primeira categoria - Desempenho nos Treinos (Técnico/Tático, Físico, Psicológico) - obteve-se os seguintes resultados:

    Com a utilização do teste do qui-quadrado pode-se verificar que não existe diferença significativa (x2 = 1,115 ; p = 0,573) na forma com que professores de judô, graduados e não graduados em Educação Física, identificam talentos nessa categoria.

    A comparação da perspectiva de detecção de talentos de professores de judô graduados e não graduados em Educação Física, na segunda categoria - Desempenho em Competições (Técnico/Tático, Físico, Psicológico) - obteve-se os seguintes resultados:

    Recorrendo ao teste do qui-quadrado pode-se verificar, mais uma vez, que não existe diferença significativa (x2 = 0,048 ; p = 0,978) na forma com que professores de judô, graduados e não graduados em Educação Física, identificam talentos nessa categoria.

    Finalmente, a comparação da perspectiva de detecção de talentos de professores de judô graduados e não graduados em Educação Física, na terceira categoria - Desempenho em Testes e Avaliações (Técnico/Tático, Físico geral, Físico específico) - obteve-se os seguintes resultados:

    Mais uma vez. o teste do qui-quadrado pode-se verificar que não existe diferença significativa (x2 = 1,527 ; p = 0,217) na forma com que professores de judô, graduados e não graduados em Educação Física, identificam talentos nessa categoria.


Conclusão

    No decorrer deste trabalho ficou claro que o processo de detecção e promoção de talentos é de suma importância para o desenvolvimento do esporte de alto nível.

    A utilização de estratégias cientificas na detecção e promoção de talentos é uma característica das Ciências do Esporte que cada vez mais vem se aprofundando.

    No entanto existe uma lacuna entre o que é produzido pelos pesquisadores e o que é praticado por técnicos e professores dos mais variados esportes, inclusive aqueles com formação acadêmica em Educação Física.

    Tal fato aparece com clareza com relação aos professores de Judô (Senseis), sejam eles formados em Educação Física ou não. Parece que impera a velha máxima do Judô: "um campeão de judô de faz treinando judô".

    Assim, os métodos para detecção de talentos consistem na avaliação do desempenho dos atletas nos treinos e nas competições, enfatizando aspectos técnico-táticos e físicos (entendido como o "vigor físico demonstrando nos treinos e competições"). No entanto, e revisão da literatura apresentada neste trabalho demonstrou claramente que este não deve ser o único aspecto a ser observado. Inúmeros outros fatores poderiam ser elencados para a detecção e promoção de talentos no judô, entretanto, estes fatores parecem que não são utilizados, seja por falta de tempo e espaço nas academias e clubes ou por outros motivos, e por isso, os professores acabam por dar mais atenção aos aspectos técnicos e táticos.

    Recomenda-se, portanto, que as Federações e órgãos administrativos do Judô invistam em treinamento, cursos de reciclagem e na preparação dos professores para que os aspectos científicos do treinamento esportivo de alto nível possam ser incorporados à prática dos professores de Judô (Senseis), com o objetivo de detectar e promover talentos (separar a linha de massificação da linha de competição). Neste aspecto, as Universidades, através dos cursos de Educação Física, teriam uma grande influência e respaldo científico para promover tal integração (ciência e prática). E os Governos (Federal, Estadual e Municipal) juntamente com as Entidades esportivas (Federações e Confederações) e empresários seriam os responsáveis pela criação, planejamento e manutenção de centros de treinamentos espalhados pelo país.

    Finalmente, sugere-se que novos estudos sejam realizados, como o objetivo de verificar a perspectiva de detecção de talentos dos treinadores de grandes equipes e seleções, bem como estudos científicos que visem encontrar as características que possam identificar um talento em potencial para o judô precocemente.


Referencias

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  • BOUZAS, J.C.M.; GIANNICHI, R.S. Avaliação e Prescrição de Atividade Física. Rio de Janeiro, Editora Shape. 1996.

  • CARNAVAL, P.E. Medidas e Avaliação em Ciências do Esporte. 3 ed. Sprint, Rio de Janeiro, 1998.

  • FERNANDES FILHO, J. & PINHEIRO, B.F. Atletas Talentosos: Um Processo de Seleção e Desenvolvimento. Acessado de http://www.fitmail.com.br - em dezembro de 2005

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revista digital · Año 13 · N° 122 | Buenos Aires, Julio 2008  
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