Lecturas: Educación Física y Deportes
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Apresentação · Índice de assuntos · Referências bibliográficas por assunto
Referências bibliográficas por autor


ARQUIVOS DA ESCOLA NACIONAL
DE EDUCAÇÃO FÍSICA E DESPORTOS:
O PERFIL DE UMA REVISTA (1945-1972)

Silvana Vilodre Goellner, Victor Andrade de Melo (Brasil)


Os 'Arquivos da Escola Nacional de Educação Física e Desportos (ENEFD)', periódico oficial daquela importante instituição de ensino, foram pela primeira vez publicados em 1945, quando o capitão Antônio Pereira Lira era o diretor da Escola.

Sua existência já fora prevista no decreto-lei de fundação da ENEFD (decreto-lei 1212 de 17 de abril de 1939), quando o artigo 41, do capítulo VII, previa:

"Será publicada, pela Escola Nacional de Educação Física e Desportos, uma revista, que deverá sair pelo menos duas vezes por ano, destinada à divulgação dos resultados de suas realizações no terreno do ensino e da pesquisa"

Essa preocupação é compreensível quando pensamos que a Escola foi criada e vinculada a Universidade do Brasil (UB) com o intuito de ser a Escola-Padrão na formação profissional na Educação Física brasileira, sendo responsável por liderar o desenvolvimento da área de conhecimento no Brasil, através da difusão de conhecimentos e desenvolvimento de pesquisas em Educação Física/Ciências do Esporte.

Com certeza era audaciosa a pretensão de publicação de um periódico específico em uma instituição que começava a se organizar, ligada a uma área que ainda não tinha efetivamente uma tradição de pesquisa e que possuía um corpo docente com perfil bastante eclético, onde era possível encontrar médicos, militares e ex-atletas/praticantes de modalidades esportivas, na maior parte não trabalhando em conjunto. Além disso, eram insuficientes as próprias condições estruturais da Escola.

Se a Escola foi criada em 1939, é em 1945 que os 'Arquivos' são publicados traduzindo-se no reflexo de uma grande mudança no interior da ENEFD: depois de alguns anos sob a direção de militares, quando o padrão de formação profissional se confundia com a preparação de um cidadão segundo os padrões do Estado Novo, os médicos assumiram os direcionamentos da ENEFD e passaram a imprimir iniciativas cada vez mais substanciais de levar a Escola a ocupar seu papel de Escola-Padrão. Tais iniciativas podem ser sentidas na busca da reformulação curricular, na preocupação com a realização de pesquisas, de organização e oferecimento de cursos de aperfeiçoamento e congressos, de envio de professores da Escola para o exterior, no recebimento de professores renomados no exterior como conferencistas e na publicação de um periódico específico1 , cuja criação foi muito mais significativa do que uma medida de cumprimento legal:

"E o cumprimento da lei coincide aqui com o propósito unânime de todos nós, dirigentes, professores e auxiliares de ensino da Escola, que sempre desejamos contribuir com a publicação de nossos trabalhos, frutos de aturado estudo e de longa experiência, para a difusão da boa doutrina e da sã orientação científica em matéria de Educação Física, em todos os centros do país. Esse de resto, foi desde o início o pensamento que inspirou o governo ao criar a ENEFD..." (PEREGRINO JÚNIOR, 1945, p. 2)

Os 'Arquivos' não foram o primeiro periódico específico na Educação Física brasileira. No entanto, foram uma publicação importante no cenário nacional dado a seu 'perfil científico' adquirido mediante a divulgação de informações obtidas a partir de pesquisas que extrapolavam as revisões da literatura ou o relato de determinadas experiências práticas.

Embora não fosse exatamente um periódico informativo (com a divulgação de eventos, resultados de competições, notícias esportivas em geral), nos Arquivos foram também publicados mais do que relatórios de pesquisas. A partir de um determinado momento, suas páginas passam a registrar também os acontecimentos e as iniciativas desenvolvidas pela ENEFD, bem como discursos de paraninfos, de catedráticos, entre outros; registros esses capazes de auxiliar na compreensão dos avanços teóricos, dos pensamentos correntes e alternativos, das disputas de poder que algumas vezes estiveram presentes na estruturação 'científica'/acadêmica de nossa área de conhecimento.

O primeiro conselho de redação foi formado pelos professores João Peregrino Júnior, Cecília Stramandinoli e Alfredo Colombo. Pode ser que seja coincidência, mas cremos que tal conselho reflete as estruturas de poder da Escola e a busca por não ferir suscetibilidades entre os diversos grupos que existiam em seu interior naquele momento. Assim, o conselho, dirigido pelo diretor da ENEFD (um militar), era formado por um médico (advindo das cadeiras ditas 'teóricas'), por um professor de Educação Física (originário das cadeiras ditas 'práticas') e por uma professora que era ligada a uma cadeira intermediária ('teórica', mas não estritamente médica)2 .

Se observarmos a montagem do primeiro número, curiosamente veremos que tal equilíbrio permanece: 6 artigos são de médicos; 4 artigos são de professores de Educação Física e ao final são publicados 3 relatórios do diretor (militar). Tal equilíbrio pode ser percebido praticamente em todos os momentos de existência do periódico. É importante esclarecer que não estamos afirmando que isso era absolutamente intencional, mas fundamentalmente um reflexo das disputas no interior da ENEFD.

Nesse primeiro número ainda foram publicadas duas traduções de artigos originários de outros países, uma prática comum durante a existência da revista, que demonstra o seu intuito original de divulgar informações e buscar intercâmbios com outros países e realidades.

Embora o decreto-lei 1212 previsse a publicação de dois números anuais, até 1949 somente foi publicado uma edição por ano. Depois do quinto número, quando a ENEFD era dirigida pelo vice-diretor em exercício (Alberto Latorre de Faria), sua publicação foi interrompida por 5 anos. Os motivos dessa interrupção podem estar diretamente ligados a um menor interesse do diretor em tal publicação (na realidade o diretor da ENEFD sempre foi uma figura bastante importante na operacionalização da revista), a um boicote dos professores à direção polêmica daquele diretor ou mesmo ao conturbado momento vivido pela Escola.

Nesse período pode ser verificado o auge da insatisfação dos membros da Escola com as suas condições estruturais. Até então, a ENEFD não tinha uma sede própria, utilizando, desde a fundação, algumas salas emprestadas no Instituto de Surdos e Mudos (localizado no bairro de Laranjeiras) e instalações de clubes próximos (onde se destaca a utilização da belíssima estrutura do Fluminense Futebol Clube). Foi somente em 1951, ainda com Alberto Latorre de Faria como diretor, que a ENEFD finalmente conseguiu sua sede, situada no campus da Praia Vermelha da Universidade do Brasil (UB). Tal mudança foi muito importante, pois colocou a Escola mais próxima fisicamente do contexto universitário (na Praia Vermelha se localizavam grande parte das Escolas da UB), facilitando seu diálogo e sua inserção em tal estrutura.

Os 'Arquivos' somente voltaram a ser publicados em 1953, já com a Escola sob a direção do prof. João Peregrino Júnior, sendo mantido o mesmo conselho de redação original. A partir deste momento, o periódico começou a viver um período de crescimento de organização, qualidade e influência no cenário nacional. No momento de sua reedição, Peregrino Júnior reafirma os intuitos originais dos 'Arquivos':

"...recolher e divulgar os frutos de nossa experiência e do nosso trabalho, assim no plano teórico da doutrina, como no plano pragmático da aplicação e da prática (...) animado do mesmo ideal e do mesmo entusiasmo com o pensamento comum de servir à Educação Física no Brasil" (p. 6)

Nessa edição, os 'Arquivos' mudam significativamente de perfil, objetivando alcançar ainda mais seus anseios, inclusive no que diz respeito às características dos autores. A princípio era praticamente uma revista publicada por professores da Escola, embora sempre tivesse um caráter nacional, já que era distribuída em todo território nacional. Com o tempo começou a divulgar artigos de convidados de outras instituições brasileiras, ampliando seu leque de informações e conhecimentos, contemplando até mesmo a contribuição de autores que não transitavam especificamente na área de Educação Física/Ciências do esporte3 .

Os estudantes da Escola também passaram a ocupar espaço crescente nos 'Arquivos', sem dúvida reflexo de suas conquistas no âmbito da ENEFD. Ao longo da existência da revista, é possível encontrar sobre os estudantes na seção de noticiários, além da publicação dos discursos de posse dos presidentes do Diretório Acadêmico e, ainda, algumas contribuições que ganham o status de artigo científico, embora sempre publicados no final da revista, esclarecidos os motivos para tal4 .

Em 1954 pela primeira vez se ensaia a possibilidade de publicação de dois números por ano, embora o segundo número seja referente aos anos de 1954/1955. No primeiro número daquele ano (número 7), quando a Escola comemorava 15 anos de existência, Peregrino Júnior procura situar a importância dos 'Arquivos':

"Estes Arquivos (...) vieram atender um dos dispositivos mais sábios do decreto-lei 1212, procurando difundir (...) não só conhecimentos relativos a Educação Física e aos desportos, assim como o resultado das pesquisas, dos estudos, da experiência que pacientemente adquirimos no plano da ciência, da pedagogia, da aplicação prática dos conhecimentos (...) criando uma tradição de cultura que deve ser mantida..." (p. 5)

E continua, nos deixando ainda mais claro a importância que era concedida aos 'Arquivos' no âmbito da ENEFD:

"...estes Arquivos representam, também, o elo que correlaciona, de modo permanente e eficaz, a vida interna da Escola - seu trabalho e seu pensamento, sua doutrina e sua experiência - com o mundo exterior, isto é, com todos aqueles que lá fora, no país e no estrangeiro, se envolvem com o mesmo ideal que nos anima" (ibid.)

Podemos perceber que era valorizado por sua inserção, por ser motivo de espera e centro de atenção, por divulgar as ações da Escola, por ser forte elemento de difusão das idéias e ideais de seus professores. Naquele momento, a ENEFD realmente ocupava um espaço significativo não só na Educação Física brasileira, como também no interior da Universidade do Brasil ocupava espaços crescentes, a tal ponto que Peregrino Júnior foi o conferencista da Aula Magna da UB no ano de 1955. Na ocasião procurou destacar a importância da ENEFD no âmbito da Universidade, embora alguns ainda se recusassem a reconhecê-la5 . Obviamente não se resumiu a tal análise, procedendo uma brilhante locução do papel da universidade para a sociedade brasileira. Somente nos anos de 1956 e 1959 são publicados dois números dos 'Arquivos'. Mesmo com o desejo de continuar com tal procedimento, sentia-se a dificuldade de obter material a ser publicado. Isso pode inclusive parcialmente explicar a abertura de espaços para os artigos dos estudantes e o convite freqüente a autores de fora da Escola.

"Mantivemos neste n.17 dos nosso 'Arquivos' a mesma diretriz observada nas publicações anteriores, a de acolher trabalhos de professôres de outras Escolas de Educação Física, não só do País, como do estrangeiro" (ARENO, 1962, p.7)6

Isto é, tal abertura é resultado da tentativa de estabelecer novos intercâmbios, mas também reflete o envelhecimento do quadro docente, sua redução na produção de pesquisas/artigos e uma demora na renovação de tal quadro.

Podemos perceber isso ainda mais claro nos Arquivos de n.18. Há que se considerar, contudo, que se os Arquivos passam por problemas de publicação, continuam ocupando espaço significativo no Brasil.

"O n.18 dos nossos 'Arquivos' surge com um atrazo involuntário em virtude de inúmeras razões, que não cabe agora alinhar. Seriam justificativas aceitáveis ou não, mas muito dos nossos professôres as conhecem, e todos sabem das dificuldades em conseguir trabalhos e contribuições científicas para publicação, quando elas cada vez mais se fazem necessárias, em face da avidez de conhecimentos dos que se dedicam à especialidade, da pobreza de publicações em língua portuguêsa, e, também, face aos inúmeros temas e problemas que a educação física oferece..." (ARENO, 1963, p.7)

Parece que o problema não é exclusivo da Escola, mas se repete no âmbito nacional. A demora de renovação dos pesquisadores/professores e a ocupação cada vez maior de professores de Educação Física sem formação de pesquisa, em substituição aos médicos que tinham tal tradição, configurava uma queda nas iniciativas de pesquisa e produção. E isso foi muito sentido nos 'Arquivos', onde inclusive podemos perceber o aumento de publicação de relatórios de eventos, em detrimento a artigos de pesquisa.

Talvez essa carência nacional e o reconhecimento já obtido de sua importância expliquem porque o periódico da ENEFD continua a ocupar espaço de grande importância, mesmo com os problemas citados.

"A nossa revista tem penetrado amplamente em todo o país e no estrangeiro; é enviada para os antigos alunos, os especializados em educação física e para quantos por ela se interessam; para as instituições nacionais e estrangeiras de educação física e de desportos..." (ibid., p. 7)

Uma nova prova de seu reconhecimento pode ser identificada no Editorial nos Arquivos de n.20. Waldemar Areno mais uma vez explica que houve atraso, o que inclusive gerou consulta de outras instituições sobre os motivos, e informa:

"A edição de 1.500 exemplares do número 19 já está esgotada, o que nos sugeriu o aumento da tiragem deste número para 2.000 exemplares. É uma referência que demonstra o interesse pelos nosso "Arquivos', e compensa o esforço realizado pela Diretoria da Escola em manter a sua publicação oficial" (1965, p. 20)

Na verdade, os Arquivos sempre estiveram tão intrinsecamente ligados à estrutura da Escola que não era incomum que os problemas no seu interior acabassem por interferir na publicação. Foi assim quando foi interrompido pela primeira vez entre 1949 e 1953, por ocasião da greve dos estudantes de 1957, devido a demorada renovação dos professores e quando a Escola entra em declínio, os Arquivos também encerram sua trajetória em 1966. Curiosamente o Editorial dessa última edição parece uma premonição, pois lembra os editoriais das edições anteriores, desde 1957, recordando a sua importante trajetória.

Em 1972, sob a direção do prof. José Maurício Capinussú, ainda se tenta recuperar a publicação dos 'Arquivos da ENEFD'. Mas parece que os tempos eram outros, a Escola era outra e a Educação Física passava por uma difícil fase de transição. Os 'Arquivos' não voltariam a ser publicados, mas deixariam para todos nós uma fértil herança e contribuição.

Enfim, a publicação dos 'Arquivos da ENEFD' foi de grande importância no estímulo aos momentos iniciais de uma produção científica mais sistematizada na Educação Física brasileira. Com isso, não estamos a dizer que anteriormente não existissem iniciativas no sentido de desenvolver estudos e pesquisas em nossa área, mas a partir de então observa-se uma preocupação metodológica maior, uma estruturação e organização que embora ainda inicial, mais se aproxima do que hoje costumamos cobrar e esperar de uma pesquisa científica. Como afirma Paulo Emannuel da Hora Matta:

"Com o aparecimento e advento dos Arquivos...a linguagem foi melhorada. Se você for buscar as origens, você vai ver que os artigos foram ficando mais sofisticados a proporção que foram desenvolvendo" (comunicação pessoal, 1996).

Os Arquivos por terem se tornado uma das mais importantes fontes de consulta na área na época, pelo seu perfil científico diferenciado, pelo seu caráter de influência nacional, enfim, pelo importante espaço que ocupou, podem ser uma grande fonte de pesquisa para os pesquisadores brasileiros na área de Educação Física/Ciências do Esporte.


Referências Bibliográficas

Notas
1. Maiores informações sobre a ENEFD podem ser obtidas na dissertação de mestrado de Victor Andrade de Melo (1996).
2 . Maiores informações sobre as relações de poder e a divisão denotada entre 'práticos' e 'teóricos' podem ser encontradas no artigo de Melo (1995).
3 . O primeiro artigo de um professor de fora da ENEFD, excetuando as constantes traduções, foi do prof. Flexa Ribeiro, da Escola Nacional de Belas Artes, publicado no número 6 (1953).
4 . Tais artigos são publicados pela primeira vez no número 17. Foram os trabalhos apresentados no I Simpósio dos alunos, realizado em 1961. A partir de então, passou a ser uma prática comum publicar os trabalhos apresentados nos simpósios subseqüentes.
5 . Ver artigo de Peregrino Júnior (1954/1955).
6 . Neste número podemos encontrar artigos de professores das Escolas de São Paulo, Rio Grande do Sul, Espírito Santo e de um professor Belga.

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Año 3. Nº 12. Buenos Aires, Diciembre 1998.