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A (des)seriação na Educação Física: uma proposta de aceitação aos alunos do Ensino Médio

The (dis)seriation in Physical Education: a proposal of acceptance of high school students

La (des)seriación en Educación Física: una propuesta de aceptación a estudiantes de Escuela Media

 

Rafaella Monique Ellwanger Einsfeldt*

rafaellamonique82@gmail.com

Carla da Conceição Lettnin**

carla.lettnin@ufrgs.br

 

*Concluiu o Ensino Médio no Colégio de Aplicação

da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (CAp-UFRGS)

Bolsista de Iniciação Científica do CNPq

Membro do Grupo de Pesquisa Educação e Saúde do CNPq

**Professora de Educação Física do Colégio de Aplicação da UFRGS

Dra. em Educação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul

Mestre em Teoria e Prática Pedagógica em Educação Física

pela Universidade Federal de Santa Catarina

Coordenadora do Grupo de Pesquisa Educação e Saúde do CNPq

(Brasil)

 

Recepção: 29/06/2018 - Aceitação: 12/10/2018

1ª Revisão: 05/10/2018 - 2ª Revisão: 08/10/2018

 

Resumo

    O afastamento de alunos do Ensino Médio (EM) das aulas de Educação Física (EF) tem despertado interesse. Um dos motivos desse afastamento pode estar relacionado à falta de habilidade com as modalidades físico-esportivas desenvolvidas na EF, gerando algum desconforto e constrangimento. Sabe-se que as experiências vivenciadas pelos alunos na EF podem determinar o gosto por esse componente curricular. Este estudo quantitativo pretendeu investigar se existe diferença entre os alunos que gostam da EF e da proposta (des)seriada e a percepção de competência nesse ambiente. O instrumento foi respondido por 183 alunos do EM, sendo 88 alunos do 1º ano, 63 alunos do 2º ano e 32 do 3º ano. Os dados foram analisados por estatística descritiva e pelo teste t de comparação entre grupos. Os resultados revelaram que a maioria das pessoas que apontaram gostar de EF e da proposta (des)seriada se perceberam mais competentes nas aulas desse componente curricular, atingindo média de 16,56 (dp= 2,717) e de 16,29 (dp=3,071), respectivamente, sendo as diferenças estatisticamente significativas (EF - t= 5,892; p=,000; [des]seriação - t= 2,660; p=,009) em relação ao grupo que apontou não gostar. Logo, a percepção positiva em relação à competência nas aulas pode estar relacionada à variável gosto. Assim, torna-se fundamental que o professor escolha as atividades e o nível de exigência adequado para as aulas de EF e que avalie a autopercepção de competência dos alunos nesse ambiente, pois ao se sentirem bem sucedidos aumentarão as chances de permanecerem nas aulas.

    Unitermos: Educação física escolar. Ensino médio. Competência. Teoria da autodeterminação. Afastamento.

 

Abstract

    High School students’ running away from Physical Education (PE) classes has awaken the interest. One of the reasons for this running may be due to the lack of ability with the physical-sports modalities developed in PE, causing some discomfort and embarrassment. It is known that the experiences lived by students in PE can determine the inclination for this curricular component. This quantitative study aimed to investigate whether there is a difference between students who enjoy PE and its (dis)seriated proposal and the perception of competence in this environment. The instrument was answered by 183 students from High School (HS), which 88 were students from the 1st year, 63 students from the 2nd year and 32 from the 3rd year. The data were analyzed by descriptive statistics and the t test of comparison among groups. The results showed that most of people who indicated to enjoy PE and the (dis)seriated proposal, felt more competent in classes of this curricular component, reaching the average of 16.56 (dp = 2.717) and 16.29 (dp = 3,071), respectively, differences were statistically significant (PE - t = 5.892, p =.000, [Dis] - t = 2,660, p =.009) comparing to the group that indicated not enjoying it. Therefore, the positive perception regarding the competence in classes may be related to the variable inclination. Thus, it has become fundamental that the teacher chooses the activities and the level of demand, appropriate for the PE classes and self-perception competence must be evaluated in this environment, because when students feel successful, chances are higher they will remain in class.

    Keywords: Scholar physical education. High school. Competence. Self-determination theory. Running away.

 

Resumen

    La inasistencia de los estudiantes de Enseñanza Media (EM) de las clases de Educación Física (EF) ha despertado interés. Uno de los motivos de esta inasistencia puede estar relacionado con la falta de habilidad con las modalidades físico-deportivas desarrolladas en la EF, generando alguna incomodidad y obligación. Se sabe que las experiencias vivenciadas por los alumnos en EF pueden determinar el gusto por este componente curricular. Este estudio cuantitativo pretendió investigar si existe diferencia entre los alumnos que les gusta la EF y la propuesta (des) seriada y la percepción de competencia en este ámbito. El instrumento fue respondido por 183 alumnos del EM, siendo 88 alumnos del 1º año, 63 alumnos del 2º año y 32 del 3º año. Los datos fueron analizados por estadística descriptiva y por la prueba t de comparación entre grupos. Los resultados revelaron que la mayoría de las personas que apuntaron a la EF y la propuesta (des)seriada se percibieron más competentes en las clases de este componente curricular, alcanzando media de 16,56 (dp = 2,717) y de 16,29 (dp = 3,071), respectivamente, siendo las diferencias estadísticamente significativas (EF - t = 5,892; p =, 000; [des]seriada - t = 2,660; p =, 009) en relación al grupo que apuntó que no le gusta. Por lo tanto, la percepción positiva en relación a la competencia en las aulas puede estar relacionada a la variable gusto. Así, es fundamental que el profesor seleccione las actividades y el nivel de exigencia adecuado para las clases de EF y que evalúe la autopercepción de competencia de los alumnos en este ámbito, pues al sentirse competentes aumentarán las posibilidades de asistir a las clases.

    Unitermos: Educación física escolar. Escuela media. Competencia. Teoría de la autodeterminación. Inasistencia.

 

Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 23, Núm. 245, Oct. (2018)


 

Introdução

 

    A Educação Física (EF) escolar, por meio de suas práticas físico-esportivas, exerce influência na formação de crianças e jovens. Por meio delas, eles aprendem a socializar, a ter responsabilidade, a cooperar, a respeitar, a desenvolver o senso de liderança, a construir suas personalidades, a ter persistência e a buscar uma vida mais saudável, imbuída de valores que servirão ao longo de suas trajetórias.

 

    Sabe-se que a iniciação da prática físico-esportiva de uma criança se dá, na maioria das vezes, na escola, sendo assim, a EF é um componente curricular fundamental para influenciar o desenvolvimento e a formação de hábitos saudáveis, modificando o comportamento, costumes e estilos de vida de crianças, adolescentes e jovens até a fase adulta.

 

    Na pesquisa de Lettnin (2013) constou-se, por meio da análise de conteúdo realizada sobre as falas de alguns estudantes, que alguns não poderiam fazer exercícios fora de casa por questões financeiras ou por falta de tempo, demonstrando que o único espaço para as atividades físicas e esportivas é nas aulas de Educação Física da escola.

 

    Entretanto, nos anos finais do Ensino Fundamental e no Ensino Médio (EM) há desinteresse dos alunos nas aulas de EF, segundo a pesquisa de Darido (2004). Esse resultado é corroborado na pesquisa sobre EF nas escolas públicas (Ibope, 2012) em que 41% dos professores afirmaram que os alunos faltavam bastante às aulas de EF. Esse excesso de faltas nos anos finais da escolarização, pode prejudicar o alcance de alguns objetivos traçados por esse componente curricular, dentre eles, a adoção de um estilo de vida mais ativo.

 

    Este fato, também, pode estar contribuindo para o quadro de obesidade e sedentarismo no país. Observou-se na pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2013) o aumento do número de brasileiros com doenças crônicas. Segundo a pesquisa essas doenças podem se desenvolver por via genética ou por falta de uma vida saudável que envolva a prática de atividades físico-esportivas e alimentação adequada.

 

    Diante dessa preocupação, surgiu o projeto de “(Des)seriação da Educação Física no Ensino Médio como proposta de contribuições à saúde: visão de alunos e professores” (Lettnin, 2013). O projeto teve como objetivo prioritário incentivar a participação dos jovens do EM, por meio das práticas físico-esportivas de interesses dos alunos. Dessa forma, aproximá-los das aulas de EF por meio daquilo que é significativo para eles seria uma tentativa de desenvolver os objetivos desse componente curricular no EM.

 

    A (des)seriação, segundo Lettnin (2013), é uma proposta de integração dos anos de ensino (1º, 2º e 3º anos). Em cada trimestre, todos os alunos do EM se reúnem junto com os professores de EF para a escolha das modalidades que serão oferecidas nas aulas de EF. Ressalta-se que esta estruturação permite que não só as práticas variem, mas também o nível da atividade (iniciante, intermediário, avançado) e o grupo social por sexo (feminino, masculino, misto). A intenção dos alunos escolherem sua atividade na EF era satisfazer seus interesses de aprendizagem e suas relações interpessoais, adequando o nível de exigência de acordo com o conhecimento do grupo, e assim, promover um ambiente mais saudável.

 

    Desde 2012, quando foi implementado o projeto das turmas (des)seriadas, as modalidades físico-esportivas variaram entre: Pilates, caminhada, jogos cooperativos, esportes de aventura, handebol, voleibol misto, futsal feminino, futebol masculino, voleibol avançado, rugby, basquete, jogos alternativos, entre outras modalidades, garantindo um currículo para Educação Física no Ensino Médio bastante diversificado.

 

    No entanto, para a implementação desse projeto na escola, segundo afirma a autora (Lettnin, 2013), há necessidade de cumprir fundamentalmente com todas as unidades temáticas dos Parâmetros Curriculares Nacionais (Brasil, 1998) durante os 9 anos que antecedem o EM (Educação infantil e Ensino fundamental). Esse pré-requisito permite que os alunos conheçam o universo da cultura corporal de movimento (Betti, 1992), por meio de jogos, lutas, danças, ginásticas e esportes. Conforme a autora, ao cumprir com essa exigência, o aluno do EM terá capacidade de escolher suas modalidades, diversificando ou aprofundando seus conhecimentos.

 

    Apesar de cumprir com o objetivo do projeto de (des)seriação de incentivar os alunos a participarem efetivamente das aulas, dando-lhes a opção de escolher o que pretendiam praticar, ainda existia uma parcela pequena de alunos que se ausenta dessas atividades, o que tem despertado interesse de investigação. Acredita-se que um dos motivos desse afastamento pode estar relacionado à falta de habilidade com as modalidades físico-esportivas oferecidas na EF, gerando algum desconforto e constrangimento.

 

    Percebe-se que embora os alunos se aproximem de seus interesses nas aulas de EF por afinidade prática e social, diante da realidade de estrutura física e de recursos humanos, ainda não se conseguiu oferecer níveis de práticas adequadas a cada grupo devido à heterogeneidade das turmas. Esta questão do saber fazer, ligada à competência, pode estar dificultando o processo de desenvolvimento dos alunos na EF. Geralmente, àqueles que mais necessitam de estímulos parecem se afastar desse componente curricular.

 

    Sabe-se que as experiências vivenciadas pelos alunos na EF podem determinar o gosto por esse componente curricular. Essa outra variável, de cunho pessoal, pode também estar relacionada às causas que determinam o afastamento dos alunos. Observa-se que, geralmente, os alunos que possuem uma condição físico-motora favorável gostam de fazer EF.

 

    Diante do exposto, pretendeu-se investigar se existe diferença entre alunos que gostam da EF e da proposta (des)seriada com relação a sua autopercepção de competência, no sentido de apontar alguns caminhos para melhoria da prática pedagógica na EF escolar.

 

Fundamentação teórica

 

    A Teoria da Autodeterminação tem oferecido diversas hipóteses importante para entender o comportamento e o funcionamento da pessoa em diversos contextos, incluindo a EF (Pires et al., 2010; Lim; Wang, 2009; Ntoumanis, 2005; Standage et al., 2003), área especifica dessa investigação.

 

    Segundo a Teoria da Autodeterminação a motivação das pessoas não esta ligada diretamente aos fatores sociais, mas sim a forma como o envolvimento promove a satisfação de três necessidades psicológicas básicas: autonomia (necessidade do sujeito de regular as suas próprias ações), competência (necessidade do sujeito de interagir com eficácia) e pertencimento (necessidade do sujeito de estabelecer e desenvolver ligações interpessoais). Logo, a motivação vai oscilar entre formas autônomas (mais autodeterminadas) ou controladas (menos autodeterminadas) de regulação do comportamento (Ryan; Deci, 2007).

 

    De acordo com Lettnin (2013) a proposta (des)seriada para a composição das turmas de EF no EM se apoia na satisfação das NPB da Teoria da Autodeterminação de Deci e Ryan (1985), pois a autonomia dos estudantes será preservada no momento em que eles farão a escolha de sua modalidade na EF, suas competências serão consideradas ao se aproximarem do nível de prática adequado a sua realidade e o senso de pertencimento será contemplado por fazerem parte de grupos com colegas afins. Isso fará com que os estudantes se aproximem entre si por alguma afinidade ou objetivo em comum, satisfazendo as suas NPB na EF e aumentando a motivação nesse ambiente.

 

    Para Ryan e Deci (2000, apud Lettnin, 2013, p.46) “a satisfação dessas três necessidades psicológicas básicas (NPB) está na base da regulação da motivação para formas mais autônomas, por meio das quais estarão internalizadas as escolhas, interesses e desejos pessoais, sendo de extrema importância para a sua manutenção”. Pessoas motivadas demonstram maior persistência, empenho, esforço e prazer nas atividades que realizam, conforme os autores supracitados.

 

    Nesse sentido, os gostos, os interesses e/ou os objetivos que são particulares e peculiares de cada pessoa devem ser reconhecidos e considerados nos processos educativos. Okuma (apud Darido, 2004) ressalta que os atributos pessoais são um dos fatores que podem afetar a aderência dos jovens à prática, que compreende as características dos sujeitos, suas razões (motivações e interesses) e suas condições de saúde.

 

    Por isso, para não ocorrer desmotivação e abandono, principalmente, de meninas e de alunos com menores competências físico-desportivas, Corbin (2002) e Kirk (2005) reforçam que há necessidade de ampliar a oferta de atividades no sentido de favorecer todos os alunos no âmbito da EF escolar.

 

    Conforme os resultados apresentados por Lettnin (2013), sobre a proposta de organização das turmas (des)seriadas, a oferta de modalidades físico-esportivas na EF aumentou e variou, possibilitando maior adequação de interesses dos alunos do EM. Esse fato refletiu no aumento da participação dos jovens do EM nas aulas de EF.

 

    O estudo da autora revelou que modalidades antes requeridas não aconteciam no formato anterior, por não ter número suficiente de alunos do mesmo ano, fazendo com que as modalidades tradicionais e de maior força midiática se repetissem nos diversos anos de ensino, deixando vários alunos insatisfeitos.

 

    Ambientes educacionais que priorizam a autonomia, o livre arbítrio e o interesse dos jovens para/na formação ajuda a elevar a autoestima e a autoconfiança preparando-os para intervir no mundo. Além disso, os estudantes contemplados quanto aos seus propósitos vinculam-se a instituição ou alguma causa maior, se responsabilizando por suas escolhas e suas consequências. (Lettnin et al., 2013).

 

    Segundo Standage et al. (2003), a teoria da autodeterminação pode obter importantes informações sobre como a motivação dos alunos influencia o seu comportamento e o seu compromisso com as atividades realizadas nas aulas de EF.

 

    Diante do exposto, Lettnin (2013) afirma que torna-se imprescindível reconhecer as diferenças/potencialidades de cada ser humano e oportunizar trajetórias distintas no ambiente educativo para alcançar a formação integral individualizada.

 

Metodologia

 

    Essa investigação se caracterizou por um estudo descritivo exploratório, de cunho quantitativo, que segundo Pais-Ribeiro (2009), se expressa por meio de números podendo ser traduzido pelo pesquisador em construtos, teorias ou resultados que possam ser generalizados.

 

    Para tanto, todos os alunos do EM, da escola da rede federal de ensino onde a proposta de (des)seriação foi implementada, foram convidados a participar da pesquisa, e, após entregarem o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) assinado pelos seus responsáveis, responderam o instrumento denominado por Lettnin (2013) Bem-Estar Discente na Educação Física (BEDEF), em que nessa investigação considerou-se apenas as questões relativas ao gosto da EF e da proposta de (des)seriação e o fator de competência da escala de Necessidades Psicológicas Básicas em Educação Física (NPBEF) proposta por Cid et. al. (2011) e adaptada por Lettnin et al. (2013).

 

    Essa escala compreende três dimensões da Teoria da Autodeterminação de Deci e Ryan (1985), são elas: Autonomia (3; 6; 9; 12); Competência (1; 4; 7; 10) e Pertencimento (2; 5; 8; 11), possuindo 12 itens que são avaliados em 5 pontos, sendo eles (1 - Discordo Totalmente; 2 - Discordo; 3 - Não concordo, nem discordo; 4 - Concordo; 5 - Concordo Totalmente). Nesse estudo, analisou-se apenas as quatro afirmativas que representam o fator de Competência descritas a seguir:

  • Sinto que faço grandes progressos nas minhas aprendizagens;

  • Sinto que realizo com sucesso as atividades em aula;

  • Sinto que faço muito bem as atividades;

  • Sou capaz de cumprir as exigências das atividades da aula;

    Após a coleta de dados, os resultados do questionário BEDEF foram inseridos no programa estatístico SPSS e utilizou-se estatística descritiva para identificar o quantitativo de alunos que gostavam da EF e da proposta (des)seriada e para apontar as médias da variável competência de cada grupo, para depois compará-las por meio do Teste t verificando se existiam diferenças estatisticamente significativas entre as variáveis investigadas.

 

Resultados e discussão

 

    Participaram desse estudo 183 alunos do Ensino Médio, sendo 88 alunos do 1º ano, 63 alunos do 2º ano e 32 do 3º ano. Desses alunos 108 são do sexo feminino e 75 do masculino. A média de idade do grupo foi de M= 15,89 anos de idade.

 

    Para cumprir com os objetivos do estudo no sentido de responder sobre o gosto dos alunos pela EF e pela proposta (des)seriada e a autopercepção de competência nesse componente curricular, realizou-se as análises anteriormente mencionadas, apresentando os resultados nas Tabelas 1 e 2 a seguir.

 

Tabela 1. Gosto pela EF e autopercepção de competência dos alunos do EM

Variáveis

Gosta da EF

No. de alunos

Media

Desvio padrão

t

p

Autopercepção competência

Sim

159

16,56

2,717

5,892

,000

Não

23

12,83

3,601

Fonte: elaborada pelos autores

 

Tabela 2. Gosto pela (des)seriação e autopercepção de competência dos alunos do EM

Variáveis

Gosta da (Des)seriação

No. de alunos

Media

Desvio Padrão

t

p

Autopercepção competência

Sim

154

16,29

3,071

2,660

,009

Não

27

14,56

3,377

Fonte: elaborada pelos autores

 

    Ao analisar os resultados da pesquisa quanto ao gosto pela EF pode-se constatar, conforme a Tabela 1, que 159 alunos apontaram gostar de EF e que apenas 23 alunos indicaram não gostar. Observa-se na figura 1 abaixo que esse resultado corresponde a 87% de alunos favoráveis a EF, ficando somente 13% contrários a esse componente curricular. Esse resultado corrobora com os achados de Darido (2004) que investigou sobre a EF escolar. Na pesquisa da autora os alunos do primeiro ano do Ensino Médio apontaram a EF como a disciplina preferida, demonstrando boa aceitação desse componente curricular.

 

Figura 1. Indicação do gosto dos alunos do EM sobre a EF.

 

    Já na Tabela 2, que tratou do gosto pela proposta (des)seriada, os resultados demonstram que 154 alunos, correspondendo a 85% (Figura 2), indicaram gostar da nova estruturação das turmas na EF, enquanto apenas 27 alunos, representando 15%, não gostaram da nova composição.

 

Figura 2. Indicação do gosto dos alunos do EM sobre a (Des)seriação.

 

    Para responder sobre a autopercepção de competência (saber-fazer) dos alunos do EM utilizou-se a escala de NPB_EF (adaptada de Cid et al. por Lettnin et al., 2013) que compreende quatro afirmativas relacionadas a essa variável.

 

    Os dados das Tabelas 1 e 2 demonstram que a maioria das pessoas que apontaram gostar de EF e da proposta (des)seriada se perceberam mais competentes nas aulas desse componente curricular, atingindo média de M= 16,56 (dp= 2,717) e M= 16,29 (dp=3,07151), respectivamente, sendo 20 o valor máximo a ser atingido por essa variável na escala de NPB_EF. Já aqueles alunos que não gostam de EF ou da proposta (des)seriada possuem médias mais baixas com relação a esse fator (competência).

 

    Para fazer uma análise mais detalhada, as afirmativas que correspondem a autopercepção de competência da escala de NPB_EF foram analisadas individualmente. Acompanhe os resultados percentuais dessa análise no Quadro 1 a seguir.

 

Quadro 1. Percentual sobre autopercepção de competência dos alunos do EM.

Afirmativas

Discordo Totalmente

Discordo

Não concordo, nem discordo

Concordo

Concordo Totalmente

Sinto que faço grandes progressos nas minhas aprendizagens

3%

3%

24%

38%

32%

Sinto que realizo com sucesso as atividades da aula

3%

4%

17%

40%

36%

Sinto que faço muito bem as atividades

2%

6%

22%

36%

34%

Sou capaz de cumprir as exigências das atividades em aula

2%

4%

13%

37%

44%

Fonte: elaborado pelos autores

 

    Observando os resultados do quadro sobre à autopercepção de competência dos alunos nas aulas de EF, pode-se constatar que a maioria dos participantes da pesquisa se perceberam competentes nas aulas desse componente curricular, indicando níveis elevados de concordância (concordo e concordo totalmente) para cada uma das afirmativas. Ressalta-se que na última afirmativa, que versava sobre: “sou capaz de cumprir as exigências das atividades em aula”, os resultados apontados quanto à concordância são ainda maiores.

 

    Esses resultados positivos chamam atenção e suscitam a reflexão sobre a capacidade de autopercepção dos alunos quanto a sua competência. De certa forma, os estudantes dessa escola mostraram muita confiança no seu processo de saber-fazer no ambiente da EF. O reflexo desse comportamento pode estar ligado às atividades ministradas em aula que, por um lado, pode sinalizar a adequação das atividades propostas para esse grupo de alunos, ou por outro lado, demonstrar que as exigências dessas atividades possuem nível de dificuldade abaixo da capacidade dos alunos, não permitindo uma avaliação adequada de suas competências.

 

    Para verificar as diferenças entre as médias dos grupos sobre as variáveis gosto e competência, utilizou-se a prova de teste t. Os resultados dessa análise (Tabelas 1 e 2) comprovaram que existem diferenças estatisticamente significativas entre os alunos que se perceberam competentes e indicaram gostar da EF (t= 5,892; p=,000) e da (des)seriação (t= 2,660; p=,009) e aqueles que assinalaram não gostar e tiveram uma percepção mais baixa com relação as suas competências nas aulas.

 

    No estudo de Kaap-Deeder et al. (2018) evidenciou-se que a variável competência, quando atinge níveis elevados de satisfação para o indivíduo, traz muitos benefícios, incluindo bem-estar, persistência e performance. Por outro lado, a frustração na percepção de competência pode acarretar em experiências negativas e, consequentemente, resultar em sintomas depressivos e sintomas de bulimia.

 

    Alguns autores (Deci & Ryan, 1985; Lettnin, 2013; Kaap-Deeder et al., 2018) acreditam que a competência satisfatória juntamente das outras necessidades psicológicas básicas pode interferir positivamente o comportamento do indivíduo em diversos contextos e não somente na EF.

 

    Os resultados dessas análises demonstram o quão importante é os alunos se sentirem competentes e serem bem sucedidos nesse ambiente para gostarem da EF, e assim, permanecerem nas aulas. Talvez, o fato dos alunos não gostarem desse componente curricular esteja atrelado à avaliação que eles fazem de sua competência frente aos desafios propostos nesse ambiente. Por isso, torna-se fundamental que o professor escolha as atividades e o nível de exigência adequado para as aulas de EF em seus planejamentos, além de avaliar permanentemente os seus alunos buscando a melhoria de sua prática pedagógica.

 

Conclusões

 

    As respostas positivas dos alunos tanto para EF (87%) quanto para (des)seriação (85%) demonstrou que a maioria dos estudantes do EM estão satisfeitos. Esse fato poderá contribuir com a aproximação dos alunos nas aulas de EF. Portanto, a proposta (des)seriada parece cumprir com o objetivo de aumentar o envolvimento/participação dos estudantes nas aulas de EF no EM, trazendo-lhes benefícios futuros.

 

    A pesquisa revelou também a importância dos alunos gostarem do que realizam, pois ao satisfazerem seus interesses percebem-se mais competentes, comprovado tanto com o grupo que assinalou gostar de EF (M=16,560; dp=2,71795) quanto da proposta (des)seriada (M=16,286; dp=3,07151). Esse resultado fica evidente na prova que trata das diferenças entre as médias, pois os alunos que não gostam da EF (13%) e da (des)seriação (15%) não possuem uma percepção positiva de sua competência nas aulas, sendo essas diferenças estatisticamente significativas em relação aos alunos que gostam.

 

    Nesse sentido, trabalhar com a autopercepção de competência (saber-fazer) dentro das aulas de EF pode ajudar o aluno refletir sobre suas qualidades e limitações, vitórias e derrotas, sucessos e fracassos, levando-o ao autoconhecimento e ao reconhecimento das diferenças.

 

    Também, trazer resultados que promovam a permanência dos alunos nas aulas podem ajudar na percepção sobre a importância desse componente curricular para a vida, pois muitos valores são desenvolvidos por meio de suas atividades.

 

    Sendo assim, outras pesquisas devem ser realizadas a fim de que outros resultados sejam revelados a respeito da EF escolar. Sugere-se investigar os demais fatores da Teoria da Autodeterminação (Pertencimento e Autonomia) para verificar se a proposta de (des)seriação também contribuiu com a autopercepção dos alunos sobre eles, já que essa teoria afirma que a satisfação desses três fatores podem incentivar o aluno a permanecer nas aulas de EF.

 

    Ademais, sugere-se investigar se a percepção positiva em relação à competência nas aulas pode estar relacionada uma variável de cunho pessoal (gosto) e o quanto ela poderá influenciar nessa autopercepção.

 

Referências

 

    Betti, M. (1992). Ensino de 1o e 2o graus: Educação Física para quê? Revista Brasileira de Ciências do Esporte, Campinas, v. 13, n. 2, p. 282-287.

 

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    Darido, S. C. (2004). A educação física na escola e o processo de formação dos não praticantes de atividade física. Revista Brasileira de Educação Física e Esporte, São Paulo, v. 18, n. 1, p. 61-80. Disponível em: http://www.revistasusp.sibi.usp.br/pdf/rbefe/v18n1/v18n1a06.pdf. Acesso em: 19 de Dezembro de 2014.

 

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    Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE. (2013). Percepção do Estado de Saúde. Disponível em: ftp://ftp.ibge.gov.br/PNS/2013/comentarios.pdf. Acesso em: 17/05/2015.

 

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Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 23, Núm. 245, Oct. (2018)

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