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Notas sobre ginástica, eugenia e esporte. A Educação Física e as responsabilidades do tempo presente

Notes on gymnastics, eugenia and sport. Physical Education and the responsibilities of the present time

Notas sobre gimnasia, eugenesia y deporte. La Educación Física y las responsabilidades del tiempo presente

 

André Luiz Santos Silva

andrels@feevale.br

 

Licenciado e Bacharel em Educação Física pela Universidade Federal de Viçosa (UFV)

Mestre e Doutor em Ciências do Movimento Humano pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) onde integra o Grupo de Estudos sobre Cultura e Corpo (GRECCO) e o Centro de Memória do Esporte (CEME). Pós-doutorando em Educação pela Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) onde integra o Grupo de Estudos de Educação e Relações de Gênero (GEERGE). É docente dos cursos de Licenciatura e Bacharelado em Educação Física e Pedagogia na Universidade Feevale. Coordena o Grupo de Estudos Sobre Relações de Gênero e Violência (GERGEVE), onde pesquisa temas afeitos à Violência de Gênero e Educação na Universidade Feevale

(Brasil)

 

Recepção: 20/0/2018 - Aceitação: 19/10/2018

1ª Revisão: 24/09/2018 - 2ª Revisão: 15/10/2018

 

Resumo

    Este ensaio objetiva discutir algumas práticas corporais evidenciando seus vínculos com os contextos específicos em que estiveram/estão vinculadas. Metodologicamente, o argumento é construído a partir da articulação entre discussões bibliográficas com dados empíricos, o que permitiu notas que versam sobre diferentes períodos históricos, evidenciando que desde a Eugenia até as atuais introjeções tecnológicas, desde a ginástica científica até o body system, a Educação Física tem contribuído em favor de movimentos contextuais, respondendo às demandas, algumas delas problemáticas do ponto de vista ético. Partindo disso, fica a necessidade de refletir sobre o momento atual e o modo como a Área tem se colocado frente ao que se tem sido solicitado.

    Unitermos: Educação física. História. Cultura.

 

Abstract

    This essay aims to discuss some bodily practices by showing their links to the specific contexts in which they were/are linked. In this sense, from the articulation between bibliographical discussion with some empirical data, it was possible to produce notes that deal with different historical periods, evidencing that from Eugenia to the present technological introjections, from the scientific gymnasium to the body system, Physical Education has contributed in favor of contextual movements, responding to the demands, some of them problematic from the ethical point of view. From this, there is a need to reflect on the current moment and how the Area has placed itself in front of what has been requested.

    Keywords: Physical education. History. Culture.

 

Resumen

    Este ensayo pretende discutir sobre algunas prácticas corporales poniendo de manifiesto sus vínculos con los contextos específicos en que estuvieron/están vinculadas. Metodológicamente, el argumento es construido a partir de la articulación entre discusiones bibliográficas con datos empíricos, lo que permitió notas que tratan sobre diferentes períodos históricos, evidenciando que desde la Eugenesia hasta las actuales introyecciones tecnológicas, desde la gimnasia científica hasta el body system, la Educación Física ha contribuido en favor de movimientos contextuales, respondiendo a las demandas, algunas de ellas problemáticas desde el punto de vista ético. A partir de eso, surge la necesidad de reflexionar sobre el momento actual y el modo en que el Área se ha posicionado frente a lo que se ha solicitado.

    Palabra clave: Educación física. Historia. Cultura.

 

Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 23, Núm. 245, Oct. (2018)


 

Introdução

 

    Atualmente vemos o avanço tecnológico abrir portas há inúmeras possibilidades de ampliar o corpo humano. Num mundo onde se valorizam o belo e o novo urgem práticas capazes de embelezar e tornar jovem os corpos. Rapidez, dinamismo, consumo, informação. Estes são alguns termos que podem bem definir o contexto em que vivemos, um contexto que marca os corpos e se revela também através seus movimentos. Mas, afinal, de que movimento estamos falando? Falo daqueles movimentos humanos que possuem significado, são marcados na cultura e construídos historicamente. Falo dos movimentos de um atleta, dos estudos sobre a ginástica científica, falo de um passe no futebol. Enfim, refiro-me ao movimento humano enquanto objeto de estudo da Educação Física.

 

    Falar que o objeto de estudo da Educação Física é construído histórico e culturalmente significa dizer que suas práticas, mesmo as mais corriqueiras, só foram possíveis através dos significados que lhes atribuíram. Pensando assim, os corpos ciborgs que habitam os Jogos Olímpicos com suas grandes proporções de massa muscular, flexibilidade, força e resistência só foram possíveis porque o contexto atual exige ampliar as possibilidades dos corpos (Goellner, & Silva, 2012).

 

    Há mais de cem anos, quando na Europa as pestes, as imundices, a falta de saneamento e as exigências de mão de obra para o capitalismo se configuraram, surgiram as Escolas de Ginástica. Baseadas nos estudos anatômicos e nas técnicas militares, a ginástica científica é incorporada ao movimento de higienista, cujo objetivo seria limpar e fortalecer os corpos sujos, fracos, doentes que habitavam a Europa dos idos 1800. Fortalecer e limpar os corpos dos homens para a indústria e para a guerra, fortalecer e limpar os corpos das mães dos filhos da pátria. Assim, neste percurso cujo único foco é o movimento vamos encontrando algumas pistas que nos auxiliam a tornar visíveis modos como a Educação Física respondeu a diferentes demandas contextuais. Neste sentido, este texto objetiva discutir algumas práticas corporais evidenciando seus vínculos com os contextos específicos em que estiveram/estão vinculadas (Soares, 2013). Para tanto, utiliza-se o recurso das “Notas”, afim de produzir uma reflexão sobre as práticas corporais e a Educação Física no tempo presente. Assim, cronologicamente, o texto apresenta discussões sobre a Ginástica Científica (nota 1), as relações entre Eugenia e a Educação Física (nota 2) e os Ciber-atletas como manifestações de um fenômeno esportivo contemporâneo (nota 3).

 

Metodologia

 

    Este texto caracteriza-se como um ensaio acadêmico que, segundo Larrosa (2003, p.101) trata-se de um “gênero híbrido ancorado num tempo e espaço”. Trata-se de um texto que ao colocar em articulação resultados de investigações de diferentes pesquisadores, suscita pensar e problematizar o campo da Educação Física. Assim, esta produção acadêmica apresenta características distintas dos ‘artigos científicos’ a começar pela metodologia que difere das clásicas descrições que indicam com certa clareza o objeto, a coleta do material empírico bem como, os mecanismos de análise. Com a intenção de suscitar a crítica este ensaio constrói seu argumento por meio de uma discussão bibliográfica que articula a Ginástica Científica, as relações entre Eugenia e Educação Física e os Ciber-atletas, fazendo uso dados empíricos provenientes das pesquisas produzidas pela autoria deste texto.

 

    Ao atravessar a distinção entre ciência, conhecimento, objetividade e racionalidade, o ensaio permite com sua fluidez reflexiva, colocar questões, muito mais que responde-las. Constitui-se como uma ferramenta interessante para produzir críticas, problematizações e colocar temas em debate. (Larrosa, 2003)

 

Resultados e discussões

 

Nota 1: A Ginástica Científica

 

    “A Ginástica apareceu, (...), como um elemento essencial para a educação do “homem total”, pois servia para enriquecer o espírito, enobrecer a alma e fortalecer o corpo. A ideia reinante postulava a formação do indivíduo sadio, de corpo e espírito, capaz de enfrentar os percalços de uma vida ativa.” (Goellner, 1992, p. 23)

 

    Nas imediações da modernidade, o corpo, passa a ser visto como objeto de pesquisa. Influenciados pela mecânica, o corpo é pensado como máquina, um sistema de alavancas e engrenagens e que a partir dos estudos biologia, este corpo, passa a ser concebido dentro de uma perspectiva moderna de mundo (Soares, 2013; Siebert 1995).

 

    Neste mesmo contexto, proliferam-se os ideais liberais defendidos pela revolução francesa, cuja máxima “liberdade, igualdade e fraternidade” inspiram a ideia de responsabilidade pelo próprio corpo. A partir disso, introjetam-se os sentimentos de culpa em meio aos doentes e aqueles que não possuem o corpo dentro das normas estipuladas pelas ciências médicas (Soares, 2012; Siebert, 1995).

 

    Na ânsia por atuar em meio aos corpos desviantes, houve a necessidade de normatizar condutas “anormais” a fim de endireitar estes corpos, seja moral ou fisicamente. Desta forma, “pretendiam (...) principalmente controlar sua saúde (dos trabalhadores) moral, domesticando as subjetividades, modificando seu modo de vida” (Siebert, 1995, p. 21).

 

    Com a queda do antigo regime, a Europa do século XIX é marcada pela entrada em cena do estado burguês. Neste processo, nascem classes sociais distintas como a burguesia e o proletariado, marcadas pela intensa contradição existente nesta sociedade (Soares, 2012).

 

    A fim de manter-se hegemônica no poder, a burguesia investe na construção de um “novo homem”, apto a esta ordem econômica e social. Nesta perspectiva, encontrou subsídios no seio das ciências positivistas. Investida de neutralidade e comprovação, fornecerá respostas às contradições desta sociedade. Explicará como sendo natural as desigualdades sociais (Silva, 2014; Soares, 2012)

 

    O grande acúmulo de riquezas sob o domínio burguês em contraste com a condição de pobreza do proletariado é um exemplo de desigualdades e contradições desta sociedade nascente no século XIX.

 

    Com a industrialização instauram-se a necessidade de mão de obra em diversos setores, no entanto, as condições de trabalho dos funcionários eram precárias. A pobreza somada ao rápido crescimento das cidades1 fez surgir epidemias de diversos tipos. Com o passar do tempo as pestes começaram a se aproximar daquele mais abastados que passaram a se ver ameaçados numa dupla perspectiva: as doenças e a resistência social (Soares, 2012). Frente a este contexto, urgia reavaliar os espaços urbanos, assim como, veicular um discurso normativo em prol da higiene moral e física, afinal, era responsabilidade individual os acometimentos epidêmicos. Os maus hábitos morais e os vícios seriam os grandes responsáveis pela má condição de vida (Soares, 2012).

 

    A Ginástica, que se sistematiza naquele momento, vai carregar consigo diversos elementos daquele contexto. Enquadrando-se numa certa cientificidade assumiu uma visão de corpo enquanto máquina no sentido mecânico (influenciada pela física newtoniana) e no sentido biológico que passa a imperar a partir do século XIX. Seu olhar para o corpo nestas perspectivas despiu o homem de sua historicidade, restando apenas o homem biológico como centro das investidas desta prática educativa.

 

    Legitimada pela ciência, seria então, uma possibilidade de intervenção nos corpos nos diversos espaços, seria usada como doutrinadora dos corpos rebeldes, higienizadora dos corpos sujos, moralizadora e fortalecedora dos corpos para a indústria e para a guerra.

 

    Capaz de corrigir vícios posturais oriundos de horas de trabalho fabril e de oferecer força aos trabalhadores, a ginástica se aproxima da medicina, o que lhe garante status. Desta forma, “(...) a ginástica foi considerada pelos médicos como parte constitutiva da condição higiênica, sendo prescrita pelos mesmos como receita para um hábito saudável de vida” (Siebert, 1995, p.23).

 

Nota 2: A Educação Física e a Eugenia

 

    A Eugenia surge como movimento político-científico que visava melhorar a condição genética, partindo do princípio de controle do cruzamento seletivo muito comum na agricultura, porém, aplicado à espécie humana. A Eugenia surge como um dos resultados de uma série de estudos que se caracterizaram como científicos a partir de meados do século XIX, consolidando-se como uma ciência que visava a melhoria da raça humana, fadada a desenvolver o melhoramento da espécie (Miranda, Vallejo, 2018; Bashford; Levine, 2010; Bizzo, 1995; Reis, 1994).

 

    A eugenia enquanto ciência pautou-se nas descobertas das leis de hereditariedade humana, fato que ocorreu por volta de fins do século XIX. Como movimento, envolveu propostas que assegurassem a constante melhoria hereditária, encorajando indivíduos e grupos “aptos” a se reproduzirem (Stepan, 1996).

 

    O termo eugenia é datado de 1883 e foi utilizado para denominar o uso social do conhecimento da hereditariedade, a fim de por em prática o objetivo da “boa” prole. Apesar o termo datar de 1883, as discussões sobre o melhoramento da espécie não eram novidades naquele momento (Magan, 1999).

 

    Assim, Eugenia surge em um terreno fértil, em que vários cientistas se enveredam nos caminhos da herança biológica. Entre eles, Thomas Mathus, que estudou as leis de invariabilidade biológica. Por volta de 1850, Prosper Lucas, cientista francês, em amplo estudo sobre a hereditariedade, focou atenção sobre a genealogia relacionando com caracteres mentais e morais de criminosos e delinquentes (Stepan, 1996).

 

    No Brasil2 a Eugenia se insere nas duas primeiras décadas do século XX. Naquele momento apresentava-se como um país que possuía uma população heterogênea onde as raças se confundiam. Tal como heterogênea eram as cores dos habitantes, eram também a distribuição de renda, as desigualdades sociais. As condições de saúde eram precárias e a expectativa de vida era baixa, assim como a taxa de natalidade que contrastava, em números, com o alto índice de mortalidade infantil. Os centros industriais3 eram alvo de toda gente à procura de emprego. Naquelas cidades proliferam os cortiços, agravando ainda mais as condições de vida da população. Era necessário administrar a população diversa, direcionando-a em favor do desenvolvimento nacional. Era necessário controlar, mas também justificar esse controle. Neste sentido, buscar mecanismos para tal se fazia imprescindível. Uma das propostas foi a Eugenia que tinha em seu favor a ordem e a disciplina com cunho científico.

 

    Na tentativa de solucionar o problema e afirmar o Brasil como nação civilizada, surgem intelectuais e cientistas que acreditavam na transformação dos ideais eugênicos em políticas públicas. Assim age Renato Kehl, incentivando o movimento eugenista no Brasil sendo fundador, junto com Arnaldo Vieira de Carvalho4, da Sociedade Eugênica de São Paulo.

 

    O ano de 1918 pode ser considerado como marco das investidas sistemáticas da eugenia no Brasil, com a criação da referida Sociedade Eugênica. Sua fundação, apenas dez anos após da sociedade britânica e oito após a francesa nos revela consonância entre os cientistas brasileiros e o desenvolvimento científico europeu.

 

    Com relação aos enlaces entre Eugenia e Educação Física, destaco Fernando de Azevedo, um importante entusiasta das atividades físicas como fator educativo e higiênico do povo brasileiro. Representou importante papel dentro da história da Eugenia brasileira, sendo membro da Sociedade Eugênica de São Paulo. Discursou, em 25 de janeiro de 1919, na referida Sociedade Eugênica, sobre relações entre Eugenia e Educação Física, trabalho intitulado O segredo da Maratona.

 

    Em 1916, publica Da Educação Física, obra reeditada em 1920 e 1960, composta por textos que tratam de diversos aspectos das atividades físicas. Dentre os vários capítulos que compõem essa obra, um deles é intitulado “Ainda a Educação Physica feminina: aspecto social do problema. Eugenia e plástica”, especialmente produzido para falar da Educação Física da mulher e sua relação com a ciência da melhoria da espécie (Azevedo, 1920a).

 

    Dentre os textos produzidos por Azevedo gostaria de ressaltar aquele que deu origem à conferencia pronunciada na Sociedade Eugênica de São Paulo. Posteriormente publicado no livro “Antinoüs: Estudos de Cultura Athletica”, o texto da conferência tornou-se um capítulo intitulado “O Segredo da Marathona: Apologia da Cultura Athletica” (Azevedo, 1920b).

 

    Nesta conferência, Azevedo relaciona os exercícios físicos com uma série de temas que frequentemente eram abordados pelos eugenistas. Assim, as preocupações com as questões psíquicas, morais, higiênicas e plásticas viam na cultura atlética mais uma possibilidade de intervenção. As noções de cientificidade, tão caras aos eugenistas, eram prontamente dialogadas com as práticas físicas sistemáticas. Seus argumentos enfatizavam a Educação Física como regeneradora da saúde de um povo, chamava atenção para o estabelecimento da robustez via cultura physica.

 

    Diferentemente de muitas práticas médicas que, naquele momento, interessava-se em curar a doença, a “cultura athletica” prestaria-se a restabelecer a saúde, o vigor, o bom animo físico e psíquico. A inércia física gerariam “parasitas”, “larvas” a destruírem a saúde de um povo, a emperrar o desenvolvimento nacional e a atrasar a melhoria da espécie. Para Azevedo, então, a eugenia:

    É a regeneração physica dos povos, por uma completa cultura esportiva, que os impulsione, a todo panno, dos lagos mortos onde jazem estacionários pela inércia, para o esplendido e vasto tumultuar da vida hygienica intensamente vivida em pleno ar, acrysolada no ouro do sol (Azevedo, 1920b, p. 21)

    Para Azevedo, o indivíduo eugenicamente perfeito é aquele que reúne harmonia física, moral e intelectual, resultado de um legado hereditário e de boas condições ambientais (Azevedo, 1920 e 1920b). Entretanto, Azevedo vai além, afirma que a cultura atlética seria capaz de despertar qualidades inatas antes adormecidas. A Educação Física, cientificamente prescrita durante várias gerações, seria capaz de legar às futuras proles os benefícios de suas práticas (Magan, 1999). Vejamos:

    Uma vez introduzida pela educação nos hábitos do paiz, a pratica d’esta cultura physica, sustentada durante uma larga serie de gerações, depuraria a nossa raça de diatheses mórbidas, locupletando-a, progressivamente pela creação incessante de indivíduos robustos (Azevedo, 1920, p. 229).

    A Educação Física é incorporada em um projeto de regeneração nacional e, com seus saberes próprios, vai fortalecer além do corpo do cidadão, o corpo de possibilidades de intervenção e propagação eugênicas. Representava mais um campo de conhecimento que poderia se prestar às investidas eugênicas. Assumindo o discurso da melhoria da espécie, as práticas físicas sistemáticas propagariam seus ideais. Embasada por teorias científicas, ajudaria a conferir densidade ao conhecimento eugênico e, com isso, serviria à eficácia política, uma vez que o discurso científico se configurava como discurso competente (Silva, 2008).

 

Nota 3: Cibercorpo, ciberatleta

 

    Sejam em jornais, revistas ou TV, as possibilidades de se criar seres mais bem adaptados é uma constante. O cinema, especialmente o hollywoodiano, lança a cada ano mais e mais filmes de ficção, cujas histórias giram em torno de homens adulterados.

 

    Seja por explosões radioativas, mutações genéticas, picadas de insetos, ou devido a acidentes em laboratórios... o ser pós-humano, melhorado, potencializado assume o papel central. A grande ocorrência desse tipo de filme, de publicações em jornais ou revistas e o desenvolvimento deste tipo de pesquisa nos faz pensar nas configurações que o corpo assume.

 

    As necessidades de produção e acúmulo que rondam o contexto atual nos empurram para a busca do desempenho, ao ponto máximo da performance. O corpo tornou-se “obsoleto”. As introjeções tecnológicas surgem a fim de “turbinar” a máquina humana, ampliando-a, melhorando-a, melhor adaptando-a às necessidades ambientais. É como se a seleção “natural” de Darwin ganhasse outros contornos e nós, a mercê das leis evolutivas, tivéssemos que nos readaptarmos.

 

    As relações deste corpo com o ambiente e com a morte tornam-se menos assustadoras no momento em que tais questões vão sendo desvendadas pelas descobertas científicas. Novas possibilidades de intervenção surgem para otimizar a performance do corpo frente a seu ‘habitat’, buscando afastar doenças e a própria morte.

 

    As possibilidades de intervenção no corpo doente vão se afirmando, retardando tanto o processo de envelhecimento quanto a morte. Em contrapartida, a descrença no transcendental (Silva, 1999) resultou numa “redução da expectativa de vida”. O que antes referia-se à eternidade hoje traduz-se em 70, 80, 90 anos. Percebe-se, então, uma busca por fórmulas capazes de prolongar a vida, a matéria.

 

    No trato com a máquina e com o homem, vemos máquinas que se incorporam, literalmente, ao ser, tornando-os “artificiais”, ou ainda é possível ver andróides que apresentam características humanas melhoradas. Vemos surgir a imagem do Cyborg, criatura pós-humana, que assim se torna quando o homem adota qualquer tipo de tecnologias (Silva, 2009; Kunzru, 2009). O Cyborg é possível pelo fato de se conceber o corpo como máquina em busca da per(forma)nce. O organismo cibernético, para assim se configurar, vem adotando diversas tecnologias. Neste processo de implante de próteses, de busca pelo desempenho, de perfectibilidade, o corpo humano acaba por se tornar um corpo Cyborg, ao mesmo tempo próximo pela aparência, mas distanciado pela performance:

    (...) a ideia de natureza como vida, operação natural da vida em oposição a qualquer movimento teológico: o corpo humano só é corpo na medida que traz em si mesmo o inacabado, isto é, promessa permanente de autocriação, e é isso que faz dele um enigma que a tecnociência pretende negar. (Novaes, 2003, p. 09)

    Desta forma, o cyber-body vai se tornando algo que até mesmo pode se assemelhar ao humano, mas que dadas as intervenções o faz afastar-se da característica de inacabado, de imperfeito.

 

    No campo esportivo, estas possibilidades ganham vulto, podendo coroar uma reviravolta, alterando as noções que atualmente se baseiam nas teorias sobre o treinamento. Os profundos conhecimentos sobre o genoma humano, biotecnologia, etc. vislumbram todas estas possibilidades, fazendo surgir diversas discussões acerca da liberação do doping no esporte e a criação de atletas geneticamente modificados (Goellner, & Silva, 2012).

 

    Esses questionamentos convergem com a “promiscuidade” contemporânea que pode ser entendida como a junção homem/máquina, traduzida pela fusão entre ciência e política, tecnologia e sociedade, natureza e cultura. Não existe pureza nestes elementos, há uma total mistura, não cabendo a algo ser unicamente social, natural ou exclusivamente humano. Difícil é dizer onde termina o natural e onde inicia o artifício. Os limites tornam-se tênues, caminhando para a fusão completa, como amálgama. Presenciamos a perda dos contornos humanos à medida que a biotecnologia avança (Sant’anna, 2001).

 

    Neste cenário que mais parece ter saído de um filme de ficção uma série de apontamentos se colocam: As necessidades de se ampliar o corpo alcançam a instância esportiva. Os vieses entre biotecnologia e esporte se fazem cada vez mais sólidas. O movimento humano neste nosso contexto trava grandes diálogos com este ciber-mundo.

 

Conclusões

 

    Num contexto de início do século XX, o Brasil queria se afirmar como nação forte e civilizada. Entretanto, um país se forma à imagem de seu povo. Naquele momento, um povo sujo, ignorante, com hábitos morais desviantes, um povo feio cujos corpos tortos habitavam as ruas. O povo contradizia as ânsias da elite em firmar uma nação bela, forte e próspera. Neste contexto, o diálogo com a Eugenia foi profícuo.

 

    Nesse passo, a Educação Física investe em seu elemento eugenizador, capaz de gerar nos filhos do amanhã melhoras em seus corpos, saúde e beleza. Neste sentido, posso dizer que a Educação Física em sua proposta eugenista é fruto do seu tempo, um tempo que urgia romper com corpos tortos e frágeis.

 

    Próxima a esta perspectiva vimos nascer no século XIX a Ginástica científica. Atrelada ao discurso médico e a norma militar a ginástica surge para ajudar a combater a sujeira, as pestes e formar uma população robusta para indústria e para a guerra. Guerra pode ser a palavra usada para descrever as atuais introjeções tecnológicas no corpo. Sim, parece que atualmente estamos travando uma verdadeira guerra para melhor equipar nossos corpos, uma guerra contra as imperfeições de nossos genes, de nossas carnes. Precisamos limpar os corpos e torná-los aptos, performáticos, perfeitos.

 

    Será que já não vimos isso antes? Esta história não se parece com a Eugenia? Talvez estejamos vivendo um “Novo Eugenismo” em pleno século XXI. Com roupagens novas, com necessidades novas, mas a mesma ânsia de produzir corpos fortes, belos e sãos.

 

    Da Eugenia às atuais introjeções tecnológicas, da ginástica científica ao body system, passando pelos Jogos Olímpicos, etc. fomos percebendo ao longo deste texto que o movimento humano esteve e continua ligado ao contexto em que está inserido, o que coloca em evidência as responsabilidades da atualidade.

 

    Os imperativos da beleza a qualquer custo tem gerado uma multidão de sujeitos infelizes com o próprio corpo. Neste sentido, a tirania da boa forma tem secundarizado os cuidados com a saúde e, em muitos casos, práticas danosas ao corpo tem sido incentivadas pela dinâmica proposta pelos próprios profissionais de Educação Física.

 

    Além disso, grupos conservadores têm tentado a todo custo retirar das escolas debates importantes como os de gênero e da diversidade sexual. O que a Educação Física tem feito à respeito? Atuado contra ou simplesmente respondendo às demandas do contexto atual?

 

    A Educação Física trava ao longo de sua história tem contribuído em favor de movimentos contextuais, respondendo às demandas, algumas delas problemáticas do ponto de vista ético. Partindo disso, fica a necessidade de refletir sobre o momento atual e o modo como a Área tem se colocado frente ao que se tem sido solicitado.

 

Notas

  1. Nestas cidades questões estruturais como limpeza das ruas e serviços sanitários não acompanharam seu crescimento. (Soares, 2012).

  2. Marisa Miranda (2018) e Gustavo Vallejo (2018) desenvolvem interessantes estudos sobre as especificidades da Eugenia na Argentina.

  3. Neste breve contexto nos referimos ao Rio de Janeiro e São Paulo.

  4. Diretor da Faculdade de Medicina de São Paulo.

Referências

 

    Azevedo, F. (1920a). Da Educação Física, o que é, o que tem sido e o que deveria ser. São Paulo: Edições Melhoramentos.

 

    Azevedo, F. (1920b). Antinoüs: Estudo de cultura Athletica. São Paulo/Rio de Janeiro: Weiszflog Irmãos.

 

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    Goellner, S. V. (1992). O Método Francês e a Educação Física No Brasil: Da Caserna a Escola. Dissertação de Mestrado, UFRGS.

 

    Goellner, S.V.; Silva, A.L.S. (2012). Biotecnologia e neo eugenia: olhares a partir do esporte e da cultura fitness. In: E.S. Couto, S.V. Goellner, O triunfo do corpo: polêmicas contemporâneas. Petrópolis: Vozes, p. 187-210.

 

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    Magan, A. (1999). Icon of monumental brutality: art and the Aryan man. The International Journal of the History of Sport, 16:2, 128-152.

 

    Miranda, M A.; Vallejo, G. (2018). Eugenics in Mediterranean Europe and Latin America. Hist. cienc. saúde - Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 25, supl. 1, p. 7-9.

 

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    Stepan, N. L. (1996). The hour of Eugenics: Race, Gender and Nation in Latin America. London: Cornell University Press.

 

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Lecturas: Educación Física y Deportes, Vol. 23, Núm. 245, Oct. (2018)

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