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Espaço publico, espaço privado e o patriarcalismo brasileiro

Espacio público, espacio privado y el patriarcado brasileño

 

*Mestrando em Política Social pela UFF/RJ, Bolsista CAPES

**Doutorando em Ciências Sociais CPDA/UFRRJ

***Mestre em Política Social pela UFF/RJ

(Brasil)

Vagner Caminhas Santana*

caminhasdokiau@hotmail.com

Daniel Coelho de Oliveira**

daniel.coelhoo@yahoo.com.br

Thiago Augusto Veloso Meira***

thiagomeira2@hotmail.com

 

 

 

 

Resumo

          O individualismo é geralmente tomado na sua significação mais corrente, não enquanto uma ideologia com um longo percurso na cultura do ocidente, mas simplesmente enquanto egoísmo. No Brasil a idéia do individualismo como egoísmo tem longa historia, é um legado dos povos colonizadores. O individualismo aqui estudado está ligado à idéia de personalismo. E tendo em vista os traços personalistas da nossa cultura, este trabalho pretende uma breve discussão acerca do publico e do privado em uma sociedade patriarcal. Para tal foi utilizado o livro Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda (1995) e o Texto CasaRoçado de Beatriz Heredia (1979). O capitulo o homem cordial do livro de Holanda (1995) é utilizado para analise da extensão do privado sobre o publico na sociedade brasileira e o texto Heredia (1995) serve com referencial na analise do patriarcalismo no campo, é como se da à separação do publico-privado. Embora os dois textos tratem do publico e do privado em esferas diferentes, pode se identificar entre eles pontos de convergência, principalmente quando se trata do patriarcalismo da nossa cultura.

          Unitermos: Público. Privado. Individualismo. Patriarcalismo.

 

Abstract

          Individualism is usually taken in its most common meaning, not as an ideology with a long journey into the culture of the West, but just as selfishness. In Brazil the idea of individualism and selfishness has a long history, is a legacy of the colonizers. Individualism studied here is linked to the idea of ​​personalism. And considering the personalistic traits of our culture, this work aims a brief discussion of public and private in a patriarchal society. For this we used the book Roots of Brazil, Sergio Buarque de Holanda (1995) and Text House - Scuffed Beatriz Heredia (1979). The man cordial chapter of the book of Holland (1995) is used to analyze the extent of the private over the public in Brazilian society and the text Heredia (1995) serves as reference in the analysis of patriarchy in the field, as is the separation of the public -private. Although the two texts deal with the public and private spheres in different can identify points of convergence between them, especially when it comes to our culture of patriarchy.

          Keywords: Public. Private. Individualism. Patriarchy.

 

 
EFDeportes.com, Revista Digital. Buenos Aires, Año 18, Nº 179, Abril de 2013. http://www.efdeportes.com/

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    Para entendermos um pouco este traço da cultura brasileira faz se necessário um resgate histórico do nosso processo de colonização e a importância do povo colonizador neste processo de constituição da identidade nacional. Ë fundamentar estar atento, neste sentido, ao uso da noção de “homem cordial” em Raízes do Brasil na medida em que o mesmo nos indica o caminho escolhido por Holanda (1995) para caracterizar uma identidade nacional. Apropriando então da noção de “homem cordial” de Ribeiro Couto como sendo a fusão de uma tradição ibérica imersa numa terra nova, Holanda (1995) traz tal expressão para o âmbito da cultura nacional. No primeiro capitulo de Raízes do Brasil atribui à originalidade da cultura brasileira à especificidade ibérica na Europa, sendo esta a chave de entendimento da cultura personalista aqui constituída. Afirma também que a originalidade dos portugueses e dos espanhóis deve muito à importância que os mesmos atribuem à autonomia do individuo, ao valor próprio de pessoa humana. Porem foi este individualismo ibérico quem suscitou a necessidade do constante reconhecimento do mérito e da responsabilidade individual.

    Toda a forma pelo qual os portugueses se organizaram no Brasil colonial já apontava para uma organização política frágil, já que todos naquela época achavam que possuem direitos iguais, e sem haver um conceito de hierarquia expressivo, dificilmente se poderia pensar numa esfera de poder representativo. O grande número de títulos concedidos pela coroa portuguesa aos homens bons pode exemplificar muito bem este fato e “em terra onde todos são barões não é possível acordo coletivo durável, a não ser por uma forca exterior respeitável e temida” (HOLANDA, 1995, p.4). A mentalidade portuguesa acaba impedindo o desenvolvimento do espírito de organização, e isto está refletido no Estado brasileiro até os dias atuais.

    Baseado neste legado português, Holanda (1995) prossegue no capitulo intitulado Homem Cordial, sua analise do cordialismo da nossa cultura, cordialidade aqui pode ser entendida como personalização (de trazer para o coração), ou seja, é deixar de lado o impessoal, e trazer tudo para próximo de se, é trazer para a intimidade varias esferas, seja quando se trata de religião ou quando se trata das relações sociais. Relações estas marcadas pelo seu personalismo.

    Quando passamos à discussão sobre o publico e o privado, surge neste momento um grande problema da nossa cordialidade, que está no fato de esta cordialidade se transplantar para esfera política, para o publico. Há na verdade uma extensão da família para a esfera publica, e como conseguinte o Estado se torna uma extensão do familiar. O espaço publico pressupõe, pelo contrário, a existência de indivíduos mais ou menos autónomos, capazes de formar a sua própria opinião, pressupõe um indivíduo livre do individualismo que carrega desde seu processo de formação familiar. O Estado, como espaço publico, deve ser o local da ação racional, não tendo lugar para o individual, para o cordial.. Há neste momento uma invasão do privado sobre o publico e é neste momento de invasão do nível pessoal, familiar (patriarcal) sobre o Estado (impessoal) que se constitui o grande entrave para formação de um Estado Brasileiro “Moderno”.

    Não é difícil, para nos brasileiro, perceber este fenômeno, basta ligarmos o aparelho de TV e assistir a um noticiário, ou mesmo abrir um jornal, para deparamos com inúmeras noticias de corrupção e nepotismo. Desde os tempos do império, até a constituição do país com republica se percebe a atribuição de muitos cargos públicos à “pessoas de confiança”, pessoas estas na maioria das vezes constituídas como membro da família do dirigente, do legislativo. Nesta nossa sociedade patriarcal, o próprio voto, passa a possuir o poder de barganha, com acentua Queiroz (1976), para qual o coronel constitui se com a materialização do Estado, como a aproximação entre o indivíduo e o Estado. Toda esta aproximação que se da através da figura do coronel, confirma esta “necessidade” da aproximação que marca a cultura brasileira.

    Hoje trava se inúmeras discussões sobre a relação de oposição entre publico e privado, neste contexto, o reconhecimento da origem da invasão do privado sobre o publico, torna se de fundamental importância. Inúmeras indagações podem nos surgir no momento da tentativa de separação destas duas esferas, mas tal dificuldade é explicada pelo pela nossa própria dificuldade histórica de separá-las, e “não é fácil aos detentores de responsabilidade, formados por tal ambiente, compreenderem a distinção fundamental entre os domínios do privado e do publico” (HOLANDA, 1995, p.145). Seria, portanto, talvez um erro incomensurável dizer que este traços patriarcalista- personalista da nossa cultura, presente nesta mistura do publico com o privado, não esteja presente na atualidade, claro que com nova roupagem, podemos perceber que tudo isto nunca deixou de existir na cultura brasileira. O “Homem Cordial” que nada mais é do que o fruto de nossa história, vindo da nossa colonização portuguesa, da estrutura política, econômica e social apresenta-se como comportamento instável da família patriarcalista e escravocrata. Este homem se mostra presente dia após dia no nosso cotidiano. .

    No capitulo Casa-Roça, que faz parte do livro que nasceu de sua dissertação de mestrado no Museu Nacional, Beatriz Heredia, faz uma interessantíssima descrição etnográfica, que muito contribui para identificação do campo no Brasil. O publico e o privado aqui é analisa pela separação do espaço masculino, espaço de produção, portanto espaço público e o espaço feminino, espaço do consumo, conseqüentemente espaço privado. Através de sua analise podemos ter uma noção de como se constitui esta separação, e como o patriarcalismo esta fortemente presente também nas relações familiares no campo. Ao passo que todas as relações de produção e comercialização, estão ligadas ao roçado espaço do patriarca, do provedor da família e consumo da casa ao espaço feminino funda se então tal contradição entre publico e privado, o roçado espaço publico e a casa espaço privado.

    Além da separação entre casa e roçado, há também a separação dentro da própria residência. De acordo com os relatos de Heredia (1976), na maioria das vezes, a construção da casa é pautada no respeito da separação espacial, exemplo disso está no fato de a sala, como lugar de recepção das pessoas que não são da família, ser percebida como um espaço masculino, espaço público e a cozinha como lugar de consumo, portanto espaço feminino. Toda esta lógica apresentada pela autora nos mostra a separação destas duas unidades, a unidade de consumo e a unidade de produção, através dela pode se perceber as divisões de papeis sociais, dentro dessa sociedade em que a lógica da produção é familiar. O homem é aquele que sustenta a casa através do roçado, ele subjuga a casa, somente o trabalho dele é reconhecido como trabalho sustentador da família, portanto subjuga a mulher. E ainda que haja um trabalho domestico este não é visto como trabalho, ou mesmo que haja ajuda da mulher ou das crianças no roçado, constitui se somente como ajuda, e até mesmo como obrigação. Toda esta contradição entre casa e roçada acaba por implicar o cotidiano das pessoas, e serve de referência para analise da natureza patriarcal da organização social.

    Dentro desta lógica de analise, feita nos anos 70 por Heredia (1976), quando vai a campo para verificar se as analises sobre campesinato de Karl Marx e de outros autores podem ser aplicadas no Brasil, acaba por percebendo como se da esta separação espacial, e como tal separação é determinante na separação da relação de trabalho. Onde o roçado e o trabalho do homem, portanto trabalho público, e as atividades da mulher trabalho privado, portanto corresponde a um “não trabalho”. O pontual na discussão deste trabalho e o fato de se verificar a questão patriarcal da cultura brasileira, a que o texto de Heredia (1976) nos serve com muita maestria.

    Tratar do publico - privado, seja quando estamos analisando “o homem cordial” de Holanda (1995), ou quando analisamos as relações patriarcais no campo, se torna uma tarefa interessante, porem difícil. Difícil na medida em que é algo tal inato da nossa cultura, que acabamos por ter os olhos vendados para tal aspecto. Perceber algo tão próximo de nos mesmo, não se constitui como tarefa fácil.

    Assim feita esta percepção podemos entender como a questão patriarcal sempre esteve presente em nossa cultura, não só quando ao período colonizador, que lhe deu origem, mas até os dias atuais. Contribuindo para a nossa organização familiar, para a estruturação da família brasileira.

    Os traços deste patriarcalismo constitui se como fator indispensável para analise do cenário da política nacional. Todo o caráter personalista e clientelista de um Estado que se constitui como uma extensão da família, onde os seus aparatos acabam por atender os interesses individuais, e o Publico perde sua concepção de publico, e muitas vezes se torna privado, tem suas atribuições a “esta característica nacional”. Desta forma quando tratamos de política, não há a mesma separação de publico e privado, como Heredia (1976) percebe na separação espacial entre casa e roçado. Como analisou Holanda (1995), ao dizer que a cordialidade seria a contribuição brasileira para o mundo, podemos ver que, de certa forma, ele realmente tinha razão, uma vez que os noticiários internacionais, não só tratam da nossa hospitalidade, mas também da corrupção a que esta cordialidade transpôs, do clientelismo característico de nossos políticos.

Referências bibliográficas

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